pesquise no blog

sábado, 31 de dezembro de 2011

Caneta Caderno Café e Chave

Para ir
Riscar
Dobrar e reter
Deitar e beber
Para fazer mistério
E ousadia
Para sentir o frio
Embrulhar o calor
E atravessar
Deixando a porta semi
arrasada.
Bom dia chuvoso
Amanhã será o começo de mais uma vez
De mais uma noitada
De one more jogo.

uma tristeza quase linda

Quem sabe não se movem os astros. Quem sabe caiba a eles mover seu íntimo improfícuo. Uma tristeza assola cada canto e tudo resta incapaz de ser pleno. Hoje. Ontem. Você se pergunta por que com o amanhã não seria também o mesmo? Essa tristeza te impede o discernimento. Tu não sabes ver outra coisa que não o próprio despedaçamento. Que chato tudo isso. A poesia esperando ao seu lado e você chorando o seu dia-a-dia. Queria que você pudesse mirar o céu e se satisfazer. Nem te peço alegria. Peço apenas gratidão.

Sei que os braços doem. Sei que teus olhos querem saltar rumo ao profundo abismo que tua alma inventou. Sua coluna se dobra feito choro enrustido. Sei que as palavras que saem de sua boca são todas duras e sem íntimo. Mais uma vez, tudo o que era seu encontra-se perdido. Pergunto então se o que lhe falta é o amor. É? Se o que falta a você é uma família estruturada. É isso? Será que hoje, mais que nunca, a sua mãe é a falta suprema?

Quer chorar, mas não tem o pranto. Na verdade, você se confunde porque está muito perto de compreender tudo ao seu redor, mas novamente – mais uma vez – se coloca em abandono. Há uma tristeza quase linda, quase poesia, que adormece seus sentidos. E você não faz nada para além disso: ser sono. Você se entristece pela felicidade dos outros. Você queria não ter esse juízo. Porque seus irmãos se divertem, as crianças consomem seus brinquedos e por qual motivo te faz tanto mal esse mesmo enredo?

Há uma simplicidade tão grande que beira a sorte. Uma clareza tão límpida que é capaz de cegar. Com você todas as coisas foram para esse canto, você sente que precisa – mais uma vez – se ausentar. Despertencer. Ninguém aqui lê seus olhos. E, no entanto, quando tu percebes outro olhar ao teu lado, você parece querer afundar: você se ausenta. Você se importa apenas consigo mesmo e com a grande poesia que é saber poetar. Você pensa que sabe. Você já não sente saber. Você é estúpido e apaixonado pela própria dor. O mundo não é isso que você forjou. Talvez alguém precise morrer.

A potencial falta. Morre a costura entre as partes desacordadas. Tem que morrer. A nossa ignorância se atualiza toda vez que há morte. E no seu íntimo – vazado – nessas horas você sabe quem a morte pertence. Mas você silencia. Porque sabe que dói perder alguém. Lhe dói nos cabelos e nos pelos, perder assim, alguém julgado teu. Você está estranho. Teme precisar de um acompanhamento. Não se quer louco. Nem estar doente da loucura. É só que seu amor pelas coisas consumiu um mundo inteiro. Você desmediu os tamanhos. A ponto de querer naufragar como fosse acidente. Morrer sem ter parecido culpa – ou escolha - sua.

Tudo é tão vasto, cara. Você se diz essa palavra e se ganha em ternura. Uma sensação única que te comporta você já sabe, mas sempre se esquece. E, no entanto, agora, ligeiramente apaziguado, você chora. Você chora não por ternura, mas por não querer fazer parte dessa composição. Você chora se perguntando se o mundo o deixaria ficar assim, livre entre letras e lágrimas. Se o mundo o deixaria, para o restante de todos os dias, sobrar. Escorre uma lágrima, enquanto você pensa em seus filhos que ainda não vieram. Que drama o seu, hein, comparsa? Puro e concentrado. Tu sabes querer o bem, mas não basta. Tudo é pouco quando o muito lhe parece quase sempre algo muito equivocado.

Não se deixe passar. Cole. Aglutine. Junte-se o mundo, amigo. Ele quer te arrasar. Mas junte nisso as pessoas, cada uma que por ti passar. Pegue os amigos e não lhes dê nada além do sorriso, do café e do abraço. Sabe-se que há um medo profundo de ser das coisas ausentado. Por isso você dói, em câmera lenta. Não há volta e, mesmo hoje, você ainda tenta. Foi você quem pediu pela aridez e agora chora, porque a doçura lhe escapou do horizonte.

Então fica. Sei que se achas feio. É mentira da mesma forma que se achas incorruptível. Você se pensa modelo e sem se divulgar, em si você se eterniza. Fica um pouco, eu te peço: o que quero de você é o seguinte: duvide-se. Duvide das suas escolhas não escolhidas. Duvide de sua intuição masculina. De sua intenção. Duvide de tudo o que lhe for natural. Até agora você só se bancou. Mas agora, eu peço, saiba pensar dois segundos antes de dar outro e mais um tiro fatal. Fique. Persista. E só parta quando for a hora das folhas já caídas.

Explico-me. Eu peço que se duvide porque até agora o que fizestes foi se acreditar. Foi gritar consigo próprio e a todo e qualquer um que quisesse te amedrontar. Agora eu lhe peço: duvide profundamente. Se encha de problematizações. Seu caminho natural te abriu o mundo e você precisa voltar. Você se perdeu no horror descoberto e agora sofre feito criança ciente do monstro mas incapaz de detê-lo. Eu lhe peço a parte seguinte: desenhe-se. Siga se especulando e se vasculhando para além do espelho. Para além quer dizer fora dentro através e logo ali no centro. Se refaça e refaça seu jogo – hoje tão traiçoeiro – pois a vida aguenta esse movimento insuportavelmente constante e quase nunca assim tão breve e certeiro.

Duvide-se. Desenhe-se. É tudo mais o que sei dizer. O “se” que anexo a cada ação é preciso porque, faz tempo, tu não sabe outra coisa que não se ser. E se durante todo esse tempo você hesitou e problematizou o outro, a partir de agora você o será em toda e qualquer esquina. Você se é sendo a diferença que te arruína. Ponto. Não sofra isso. Duvide e desenhe seu sofrimento. Ele te consome. Ele te manipula. Ele não é seu. Pertence ao mundo.

Você se permitiu ser entendido da forma errada. Ou nem viu. Mas é fato. Ainda que tenha explicado com estas e outras palavras: te entenderam errado. A galera pensa que você quer atenção, que deseja ser maior que os outros. Talvez seja verdade. Mas não é isso, eu sei. Você precisa se segurar caso queira ver no horizonte a transmutação desses fatos. Mude, indo mais fundo quando porventura estiver parado na superfície encantadora das palavras. Perceba que hoje elas estão mais duradouras. Tudo porque hoje elas são. Antes, nem sempre, mas durante um bom tempo, elas serviram a ti apenas artificialmente. Me desculpe,

mas a arte pela arte se foi faz tempo.

Por favor, eu havia pedido, se duvide um pouco. Não há mais graça nesse jogo. Não há nada para além dessa auto-indulgência sua destinada a si mesmo. Perdão. Nem pode haver algo mais. As palavras hoje estão aqui, mais duradouras que antes, porque falam de ti e não do seu verso. Aqui restam, intrépidas, sobre seu íntimo exposto e em processo. Elas hoje são mais do que nunca a sua guerra diária rumo ao pertencimento.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Plano

Se amanhã o cigarro tiver acabado
Se dentro de casa eu encontrar algum sorriso genuíno
Se o café queimar minha ponta-língua
e um beijo destruir meu equilíbrio.
Bom
Eu terei que enfim reconhecer
Há males que de fato calham feito o amor.

Ela é ele

Disse a criança assustada com a ousadia daquele cabelo tão vertiginoso.
Desceu do colo paterno e veio deitar o próprio olhar sobre o mar.
Era noite recém-chegada, tinha um frio morno solto pelo ar.
A embarcação aportou, não sem muito tremer, foi quando ela disse olhando a estrela minguante:
- Ela é ele, né pai?
Olhei o céu e a lua pontiaguda nunca antes tinha me parecido tão viril.
O que lhe dizer?
Disse-lhe é.
A lua é ele. A lua é ele.



Almost there

And so I look to you
and you give me back
one little smile
We're on the road
Since life was created
But we don't know
Nothing else
This.
I look towards
I think in God
I ask him
IN SILENCE
If we will be together till the road ends.
God says nothing
and so in silence
AGAIN
I think that maybe
We won't.
But's ok, I say to myself
because RIGHT NOW
you just put your hand over mine
And it feels safe
And that's it.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Pãe

Esse descontentamento
Essa felicidade saturada
Talvez seja apenas porque ela esteja viajando.
E tudo não passe de um teste
para averiguar minha grande incapacidade
De ser sem ela.

Meu pai

Se é que o conheço
Hoje é quase tudo aquilo
que eu não desejo ser
quando crescer.

E olha, não me falta orgulho
amor ou reconhecimento
Tudo é claro na minha cegueira

É só que nos perdemos.

Nos perdemos um do outro
ou sequer tenhamos nos tido
algum dia.

Registro isso aqui para marcar
nossa falência recíproca
Cigarro no carro sem vento
O som dividido e não misturado.

Pai,
escrevo porque talvez esteja fraco
ou vencido para nos refazer.
Escrevo para tentar não esquecer
que esse cara do outro mundo
Talvez ainda queira ser
E estar com você.

Road Move Me

A chuva há de chegar
Por sobre linha contínua
esvazia o olhar
Placas Prédios Posses
Tráfego certeiro ao me esvaziar o instante e exigir de mim
Resolução para o amanhã.

Calo um pouco.
Deixo a boca secar.
O asfalto também esfria
mas segue o carro em indiferença obstinação.

Já não sei mais onde estou.
Não faço ideia onde devo estar.
E no entanto
ISSO É BÁRBARO
estou aqui.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Far

Lá where I não sei
HOW TO GO.
THERE, LONGE DO MUNDO
de si próprio e
Deste instante.
Eu fico, tired but
HERE. IN THE MIDDLE
de lugar algum
I keep tentando escre-
ver that thing
I was esqueço
HOW TO SAY.
NÃO É JUST UM JOGO
it's more it's
também a tradução
Better
THE EXPRESSION
OF HOW I FEEL
as vezes.

Tornar-se

Para isso
Abandono.
Preciso e voluntário
Deixai partir o natural
seu corpo desde sempre
É domesticado.

Duvide.
Sua naturalidade apreendida
não é genuína
Sua palavra natural
só aparece mesmo em teoria.

Desista
dessa bondade cheirando a novos tempos
Este agora agoniza
não sem motivo
Hoje agonizamos
por incapacidade plena de aceitar remendos.

Se se corta
Se se costura
Com língua linha
Sob lixa unha
Tudo
Não é mais desde que já tenha sido.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Realmente

O que seria?
Já se locomove
Já se alimenta
Já se perfuma e se diverte
E quando tu queres
Se dopa e se desorienta

Pois então
o que te falta
que esta manhã foi incapaz
de trazer
O que te falta
que não veio no sorriso
que não veio no vento
na mão ou toque
a te guiar.

Realmente
A sua fome
em breve
Vai te abocanhar.

E seus dígitos
Os Dígitos
sua família há de guiar
sua família há de mover
Seus filhos hão de roubar.

Não Será

Paisagem
Nem nebulosa.
Construção
Nem estrela.
Cruz
Nem vácuo.
Pássaro
Nem nuvem.

Serás ruído de água invisível
a procura de alguma sede.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Quieto

Foi risco em sentido
Mão turva afagando despedidas.
Prosa rápida incontida
quem sabe talvez uma ou
outra rima
Sim, o que fui desde então
Voa solto sobre precipício
cujo nome a noite
engoliu.
Espera,
ela me pede.
Eu aguardo...

Toda a minha vida foi ensaio para um dia estar aqui ao teu lado.

Chocolate

Escuro como uma noite avermelhada
Ele me olha atento
enquanto eu teclo no celular
estas palavras.

Nos conhecemos faz um dia
e poucas horas
Sempre que dele me aproximo
ele vem lento
e se arrastando
Parece querer me dizer
Nada além da minha pessoa
Importa.

Mas não
Ele não diz nada disso
Ele não diz nada
lento se aproxima e me cheira
e eu faço nele o mesmo
Eu cheiro seus olhos
Seu bigode
Cheiro suas orelhas longas
seu focinho e seu peito

Ele se estira sobre o chão frio para receber meu carinho

E de súbito começa a soluçar.

Como pode um cachorro com soluço?
Eu me pergunto,
enquanto ao meu lado
em meu colo
sob meu braço
Ele não pergunta nada
e apenas aguarda que meu carinho
engula seu sobressalto
e perdure por mais tempo.

Agora ele dorme,
respirando lento e ruidoso.
Eu devo entrar
Escovar os dentes e retirar da malha
das mãos e do rosto
Lasquinhas do Chocolate,
cão negro avermelhado
com cheiro de amizade.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Die Little Monster

Keep going, little fish
Your destiny is to die
There's nothing more
than this.

Go ahead
Die today and a little more
tomorrow
Die everyday
Every week
Every hour

That's your move
That's why you've been created.

Sorry
my words are not beauty
My words are only truth
and I'm just a sad guy
In a sad time
In a sad turn.


Aqui onde estou

As flores são todas de plástico.
No entanto, há crianças e um cachorro
grama sol café e céu

Talvez seja uma combinação propícia
para se redescobrir enquanto
Alguém de fato capaz de ser em si
não apenas o que se tem sido.

Complexo
Complexifico
Aqui onde estou
o mundo respira sem ruído
A poesia vem pela respiração
e os segundos me levam neles
Contido.

Tarde

Segue o corpo ameno
enquanto o peso de uma
qualquer nuvem
O abate,

é tarde
Já não há mais almoço
nem sesta, resta só
e improfícua
A Sonolência

por sobre todas as coisas
que ainda não souberam
se entardecer.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Ceia

Não teve você
nem fatia sua
que pudesse
desorientar o sabor,

Não teve piada
que virasse estrela
Nem sobremesa
que dominasse
Os vícios

Nesta ceia
Mastiguei com calma
sentindo o estômago-
abismo
Fazendo mesura ao meu desespero.

É que quando as coisas todas estão ajeitadas, o desespero ressurge pedindo carinho.

A vida não é possível sem inseguro sorriso.

Durmo ciente de que as coisas desta vida não se dão para o entendimento.

Durmo burro e
amanheço eu mesmo.

Carregando

Enfeite
sem adorno
Convencimento
sem retorno

Decido partir de mim
decido outro rumo
que não seja o mesmo
Eu posso comigo
Neles
sou eu quem mando
Por eles
sou eu quem vivo.

Morning

Amanheci desarmado
pensei em poesia
pensei sobre a inevitabilidade
deste ato
A saber
o de amanhecer nu e acariciado
pelo concreto inevitável:
a vida é poesia.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

FRICÇÃO

Ele bate à porta do sebo ininterruptamente.
Ela espia pela fresta da porta recém-fechada.

Ela – Acabamos de fechar.
Ele – Não, por favor.
Ela – Já passou das seis.
Ele – Mas eu preciso entrar.
Ela – Não estamos aceitando nenhum tipo de cartão.
Ele – Não importa.
Ela – Volte amanhã.
Ele – Por favor. Eu te imploro. Eu preciso de um livro.
Ela – Fala o nome que eu te adianto se tem ou não.
Ele – Me deixa ao menos entrar?

Ela, após certa dúvida, abre a porta.
Ele entra e imediatamente se senta.

Ele – Desculpe o meu jeito. É que eu preciso encontrar esse livro. E eu estava faz mais de uma hora dentro de um ônibus. Os ônibus chacoalham tanto hoje em dia, não?
Ela – Eu prefiro bicicleta.
Ele – Bicicleta?
Ela – Me agrada a possibilidade de ser responsável por alguém que esteja na minha garupa.

Ficam mudos.
Ouve-se a respiração dele.

Ele – Você não poderia me dar um copo de água?
Ela – Qual é o seu nome?
Ele – O meu nome?
Ela – Sim. Qual é?
Ele – Vladimir.
Ela – É nome de personagem?
Ele – Todo nome pode ser nome de personagem.
Ela – Não acho.
Ele – E o seu, qual é?
Ela – É de personagem.
Ele – Diz.
Ela – Ana Raquel.

Ele emudece. Profundo. Apavorado.

Ela – O que foi? É tão ruim assim?
Ele – É bonito. É forte. É bonito.
Ela – Não é bem o que dizem os seus olhos.
Ele – O meu é nome de personagem.
Ela – Não que eu me lembre.
Ele – Esperando Godot.
Ela – Aquela peça?
Ele – É. Tem um personagem que tem o meu nome.
Ela – Vladimir.
Ele – Ana Raquel.
Ela – Eu vou buscar sua água.

Ela sai.
Ele continua sentado ao banco, falando.

Ele – Eu vou te adiantar sobre o livro que eu quero. Bom, o nome tem alguma coisa com a palavra farpa, eu acho. Eu realmente não tenho muita informação. Eu não sei nem dizer o autor, editora, essas coisas. Mas é um livro sobre uma mulher. Sobre uma menina, na verdade, sobre uma jovem mulher.

Ela volta a passos lentos, com um copo transbordando de água.

Ela – Me desculpe, eu sempre encho o copo até quase cair água pra fora.
Ele – Obrigado.
Ela – Não conheço esse seu livro.
Ele – Não tem como consultar no sistema?
Ela – O único sistema disponível aqui é o da minha cabeça. E ele tá meio devagar hoje.
Ele – Então você não sabe?
Ela – Sobre o que é a história?
Ele – Eu não sei ao certo.
Ela – E você tá interessado num livro que não sabe o nome nem o autor e nem sequer sobre o que se trata? Não precisa ter vergonha. Fala.
Ele – Por que você disse isso?
Ela – Acontece de vir gente aqui com vergonha do livro que quer comprar. É que livro é uma coisa tão íntima que pode entregar um sujeito por inteiro. Outro dia, entrou uma mulher que devia ter uns 35 anos. Ela queria um livro do Kundera. Dizia que não sabia o nome. Daí eu mostrei os livros que tinham. E o olho dela brilhou quando eu disse tem A Insustentável Leveza do Ser. Sabe? Quando o íntimo escapole pra fora, sem a nossa autorização? Pois então, foi bem aqui em frente a essa prateleira. Ela pegou o livro na mão e foi como se a história toda nela tivesse se atualizado. Sabe quando isso acontece? Quando o livro está faz anos ali naquela mesma prateleira, sentindo por extensão os toques nos livros vizinhos? Sendo sempre desapertado e apertado novamente. Sabe como é? Nesse dia o livro respirou na mão dela. E olha que ela tremia levemente. Eu na mesma hora voltei pra trás do balcão e fiquei pensando: será que esse livro foi o único amor da vida dela?
Ele – Ela tem seu nome.
Ela – Eu não sei.
Ele – Não foi uma pergunta.
Ela – Se ela tem o meu nome?
Ele – A personagem desse livro que eu quero. Ela tem o seu nome.
Ela – Se houvesse algum livro aqui dentro com uma personagem chamada Ana Raquel, eu saberia.
Ele – Não fale o nome.
Ela – Mas é o meu nome.
Ele – É um livro recente.
Ela – Perdão. Não o temos.
Ele – É de um jovem autor. Talvez da nossa idade.
Ela – Vladimir.

Ele não responde.

Ela – Ei você.
Ele – O que foi?
Ela – Que Ana Raquel é essa que não sou eu nem uma personagem?

Ele emudece.

Ela – Que história é essa que você inventou pra amenizar a sua realidade? Que personagem é esse que você tá inventando e que te tira de mim quando na verdade, tudo isso era pretexto apenas para estamos juntos?

Ele mudo termina o copo de água em silêncio.

Ela – Hoje seus olhos estão tristes. Eles falam sem você querer. Eu tô acostumada com isso. Tem gente que quer ler no livro uma forma de dar fim ao que está vivendo.
Ele – Não tenha tanta certeza disso.
Ela – Quem você perdeu que agora precisa suprir nesse romance que sequer existe?
Ele – Não quer dizer dar fim, nem suprir. Eu só queria saber como lidar com isto, com esse buraco, com essa fenda, da mesma forma como fazem os personagens de um romance qualquer. Todos eles sabem. O Vladimir, você se lembra, ele fica dois atos esperando um tal de Godot que não vem. Ele fica encontrando pretexto para continuar vivo quando tudo ao seu redor o convida a morrer, a desistir. Como ele consegue? Ser tão maravilhoso? Como ele consegue durar tanto tempo?
Ela – Ele tem um amigo ao lado dele. É só isso. Da mesma forma que você tem a mim.
Ele – O meu amigo hoje escolheu o pior nome que poderia ter escolhido para a nossa brincadeira.
Ela – Esqueça. Foi um nome qualquer. Aleatório.
Ele – Não é um nome qualquer.
Ela – Era o que talvez estivesse escrito no seu olhar na hora que você entrou. Não sou eu. É só um jogo.
Ele – Uma ficção, você costuma dizer. Mas uma ficção que consome da mesma forma como a minha amiga que tem esse mesmo nome. E não é estranho que eu venha em busca de ti para tentar sarar este horror que ela criou dentro de mim faz poucas semanas?
Ela – Eu não te entendo. Você quer parar? O que foi com você hoje? A gente nunca gastou tanto tempo falando. Que negócio é esse de horror?

Ele emudece, sôfrego.
Ela o mira, persistente.

Ela – Você é tão engraçado. Alguns escritores, quando não sabem como fazer um personagem responder uma pergunta, escolhem mantê-lo mudo. Como se em silêncio ele fosse incapaz de ser interpretado. Como se em silêncio ele estivesse protegido. É o que muitos escritores fazem, mas, na maioria das vezes eles se esquecem de nos situar sobre os olhos. O problema não é a fala, você percebe? É pelos olhos que tudo escapole.
Ele – Eu lembrei um trecho do livro. A personagem que tem o seu nome fala assim num dado instante. Acho que pra um amigo que está distante: Que farpa foi essa que fincou no seu pé? Eu li de novo e de novo e chorei por dentro. Porque aquela personagem não está nada bem. Ao menos não naquele momento. Será que depois da "grande sacada" do final Ela melhorou? Ficou aliviada por ter desabafado e sacado da sacada suas piores armas, farpas e angústias? Me conta? Conta o final da história pra uma amiga espectadora fã e voyeur de almas? Conta pra mim como você tá e por que precisou escrever isso? Quero muito saber que café que andou sendo derramado, que morango lembra sangue, que sacada se faz tão alta e tentadora. Me conta? Que gravidade se faz tão grave?
Ela – Me conta? Qual é o final dessa história que você enviou a ela?
Ele – O final da minha história é que essa minha amiga pra quem eu enviei essa história morreu da mesma forma como esta personagem que um dia eu tive a brilhante idéia de inventar.
Ela – Não é culpa sua.
Ele – Ela leu o meu conto, Duda. Ela morreu da mesma forma, no mesmo dia, no horário exato ao da personagem. Numa manhã de um domingo qualquer, eu escrevi esse conto idiota no qual uma menina se matava, depois de inúmeras tentativas frustradas. E no domingo retrasado esse meu conto desnecessário ganhou vida, sabe?
Ela – É só uma triste coincidência, Vladimir. Eu não a conhecia. Mas é só uma triste coincidência.
Ele – E ainda que seja, como eu viro a página?
Ela – Ora, você veio até um sebo, eu quero dizer, o que não faltam aqui são páginas a serem viradas...
Ele – Mas, fora isso. Fora os livros. As mortes. Fora a velocidade do ônibus correndo solto no meio da cidade. Fora a massagem que tem sido brincar contigo nessas ficções no fim de cada tarde... Eu sinto tanto a sua falta. Concreta. Falta suprema que não se resolve. Que vem no meio da noite e que desorienta, sabe?
Ela – Eu sei. E sei também que todas as nossas ficções terminam numa trepa dentro de um sebo sujo no horário pós-comercial nesta mesma cidade movimentada.
Ele – Eu detesto a palavra trepa.
Ela – Não sou eu quem a fala. É minha personagem do dia.
Ele – Eu não gosto da sua personagem do dia.
Ela – Você quase ficou para fora hoje, não fosse a generosidade dela.
Ele – E você quase ficou para dentro hoje. Sozinha, não fosse eu.
Ela – Eu gosto de Vladimir.
Ele – Então seja essa minha amiga e faça algo agora comigo, capaz de me distrair do tempo de me aliviar as horas capaz de me preencher que seja só por um momento.
Ela – Eu li uma peça de teatro essa semana e me lembrei de nós dois... Eu queria testar. É sobre um casal que faz o ato em si só que por meio de palavras. Apenas.
Ele – Como se tivesse uma platéia ao nosso redor e não pudéssemos ficar nus.
Ela – Como se houvesse um rifle apontado para o seu peito e outro para o meu. Como se o nosso encontro fosse o dedo a escorregar sobre os gatilhos. O nosso amor como o estopim para o fim de todas as coisas.
Ele – Eu começo.
Ela – Direto.
Ele – Reto.
Ela – No leito.
Ele – Peito.
Ela – No colo.
Ele – Seguro.
Ela – Toca.
Ele – A mão.
Ela – Denta.
Ele – O músculo.
Ela – Nu.
Ele – Deixa.
Ela – Lá.
Ele – Deixa.
Ela – Aqui.
Ele – Beija.
Ela – Ponto.
Ele – Trepido.
Ela – Contínuo.
Ele – Intervém.
Ela – Errando.
Ele – Mãos.
Ela – Estouro.
Ele – Festa.
Ela – Assopra.
Ele – Beijo.
Ela – Bolha.
Ele – Beija.
Ela – Corta.
Ele – Volta.
Ela – Segura.
Ele – Traz.
Ela – Fica.
Ele – Estaca.
Ela – Estaca.
Ele – Estaca.
Ela – Me beija.
Ele – De novo.
Ela – Vaza.
Ele – Sempre.
Ela – Mais.
Ele – Goteja.
Ela – Sempre.
Ele – Culpa.
Ela – Amor.
Ele – Dormente.
Ela – Aperta.
Ele – O meu.
Ela – O seu.
Ele – Os dois.
Ela – Os dois.
Ele – Parede.
Ela – Dente.
Ele – Bolso.
Ela – Peito.
Ele – Latente.
Ela – Calor.
Ele – Não pode.
Ela – Derreto.
Ele – Quente.
Ela – Santo.
Ele – Poça.
Ela – Crente.
Ele – Aqui.
Ela – Na frente.
Ele – Embora.
Ela – Como.
Ele – Fala.
Ela – Eu falo.
Ela – Aéreo.
Ele – Palavras demais.
Ela – Falar.
Ele – Beijar.
Ela – Deixa.
Ele – Beija.
Ela – Enfrenta.
Ele – Seguro.
Ela – Mordo.
Ele – Controla.
Ela – Extra.
Ele – Meu.
Ela – Calor.
Ele – Toca.
Ela – Segura.
Ele – Coloca.
Ela – Peito.
Ele – Encosta.
Ela – Chora.
Ele – Vergonha.
Ela – Olha.
Ele – Foda-se.
Ela – Foda.
Ele – Fodam-se.
Ela – Agora.
Ele – Amanhã.
Ela – Celular.
Ele – Toma.
Ela – Devolve.
Ele – Deus.
Ela – Sorte.
Ele – Sei.
Ela – Toma.
Ele – Passa.
Ela – O mundo.
Ele – Vendo.
Ela – Vento.
Ele – Põe.
Ela – Deixa.
Ele – A mão.
Ela – O peito.
Ele – A pele.
Ela – O pêlo.
Ele – Não vejo.
Ela – Chapado.
Ele – Problema.
Ela – Outro beijo.
Ele – Doce.
Ela – Capaz.
Ele – Possível.
Ela – Tenaz.
Ele – Se dura.
Ela – Desfaz.
Ele – Acode.
Ela – Acende.
Ele – Fica.
Ela – Persiste.
Ele – Tatuagem.
Ela – Feito rima.
Ele – Conseguimos.
Ela – Conseguimos.
Ele – Há quem diga.
Ela – Há quem diga.

\\

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

dobradura

ereto
sustenta a doçura
de se manter pleno
em meio
aos vícios
em meio
a cura

persiste incompleto
escrevendo com gosto
para além do certo
para além
de toda e qualquer
metonímia

dura,
eu diria,
ele dura sobre a poltrona
fazendo em si mesmo
no correr do próprio tempo
azia

olha,
adiante, veja
o seu semblante
é antecipação do destino
nele, se concentram
as ondas as dobras
os volteios
que a sua mente
ansiosa pelo jogo
faz consigo própria

desencane
desentupa
desenrola

esta face

ela só quer dizer
bom dia.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

destroços

mas o íntimo
em desordem
agradece,

acariciado por ventanias
movido adiante
por tombos e tropeços
hoje ele

- o íntimo -

é pleno sossego
é rio que segue
e caudala
a cada esquina

querendo chamar atenção
ou nem isso
rio hoje caudalando
a potência do encontro
a persistência dessa união.

falho e concluo:
sem vocês eu não seria o que sou

e como já me disseram
eu amo ser quem eu sou.

agradeço de corpo aberto
de riso intrépido
com rimas fáceis e rodopios
isso não é pouco
e ter vocês é bom
é seguro
é lindo

o mundo já já verá.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

mau estar

entre os meus
como pode?

angústia sem fim
vontade de quedar
e sem volta
apenas dormir

horrível sensação
do despertencimento
vontade de ser longe
e apenas longe seguir indo
sem remendo

olhar que não vê
compreensão curta
e grossa
uma pena que me consome
eu não queria ter ido para além da linha
eu queria?
que desejo foi esse que me fez
longe

tão longe
que hoje já não vejo volta.

e se parto
me sinto bem
me sinto eu
e se fico
dói tudo
e prefiro então me esconder.

minhas palavras são duras
minhas verdades não conseguem tolerar
e as verdades
deles
a mim
são tão perdidas
são tão mentira
e o contrário
também assim não seria?

dentro de mim
gritam incontidas
as iras
mais genuínas

perdão,
eu não sei ver de outra forma.

minha família pesa
feito ônus da história.

minha família pena
e eu de longe
alimento a discórdia.

domingo, 11 de dezembro de 2011

sem título_07

my house wants to keep me out

i can't handle no more

it's so fuckin over

stay here inside
is (how can i say?)

depressive.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

grafite

todos eles te transpiram
todos dizem seus verbos
e agem, como você o faz
não adianta, sua ficção
morreu ante a sua
constante
autovasculhação

tu és inoperante hoje
por tanto ter se mexido
e repensado
sob formas outras
que não si mesmo

sua escrita é dura
como seu coração
seus olhos secos
como a pele
e tímidos
como seu futuro
distante passageiro

as coisas não deram errado com você
as coisas simplesmente
não deram
e isso é tudo o que hoje temos

trama irregular
de soluços e ameaças
contra as quais
você ensaia se jogar

mas você não joga
você morreu
na tentativa de se descobrir
você morreu
na tentativa de se nomear

você está morto
e sua ignorância te salva
da dignidade que é ter ciência
para nada mais falar

segues falando
segues tramando
de novo e mais uma vez
aquilo tudo para o qual
hoje
novamente não
consegues sequer acenar.

Negociação Invisível

Eu olho a rua
que trepida a nossa frente
Você também o faz
a gente observa o mundo
inseguros de nós mesmos
assim
lado a lado.

Eu te miro
e te esbarro
minha boca diz
chega esse momento do ano
e eu começo a listar
os caminhos
os projetos
os encontros
realizados.

Você me olha
e então eu sei
que você sabe
que estou falando
de nós dois.

Os carros passam velozes na avenida
E a gente sobre a corda bamba
do esbarrar e afastar
as peles
tão tímidas
(como podem? hoje então
mais que ontem elas estavam
com medo
de faiscar).

Os carros.

Vamos olhar os carros
enquanto não temos segurança
mínima
para nos sustentar.

Os carros.

Fiquemos neles
eles não cessam de se atualizar
e cada hora é um que fala
ora eu
ora você

ora, então
quando você fala
em direção aos carros que passam
eu te olho
(por que não?)
eu gosto de te ver

e quando eu falo
eu sei
os carros lá na frente acham que os quero
mas não
eu só quero mesmo é o cara
que do meu lado
observa
instigado
a poesia que ele faz em mim
nascer.

Então eu olho os carros
eu falo
eu falo
e você me vê
e depois, eu acabo
e viro a ti
que novamente aos carros
volta a declamar
aquilo que ainda hoje
não pudemos compreender.

Não se trata de compreensão
nem de cabeça quiçá de lógica

Eu falo de arrepio.

Eu falo de você
de mim
e do enroscar
de nossas aortas.

________________________

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Mentira

Eu não preciso de terapeuta
psicólogo ou escuta afim.
Eu preciso de um você
e você
precisa de um de mim.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

existir

para além das linhas hoje ela trama planos não tão futuros. sobrevive, sobre a cadeira crua sobre o chão limpo da cozinha sobre o andar inferior. há tanto ao redor e o íntimo, tímido, planeja a destruição do instante.

ela gostaria se possível ser longe. ir distante imprecisa num futuro qualquer mas possível. ela hoje lacrimeja inoperante contando os segundos para nos próximos se ver ir. assim, como quem vai e ponto: foi-se.

nada pessoal nenhum drama fora do comum. é sequer drama. ela se repele e problematiza: se você tivesse uma pia cheia de louça suja a sua loucura seria mais branda. mas hoje a casa dela resta limpa e precisa. cada coisa no seu pote. cada brilho na superfície imaculada. ela arrumou tudo,

mas sobrou sobre a cadeira no andar superior querendo quedar.

venta aqui fora. venta de leve, mas venta. e nisso, movem-se as copas – todas – das árvores todas – também das gigantes – se move o mundo e por conta de todo esse movimento o mundo também dança e as folhas recitam – silenciosas – o encontro: a possibilidade.

o forno estala. sem bolo nem torradas nem nada. ela ali sobre a cadeira no andar superior contempla o calor do forno vindo em sua direção. por que faço isso comigo? ela se pergunta sem dizer sim nem não. ergue-se,

não. ela se levanta. dobra o pano de prato e o coloca sobre a mesa de madeira também crua. que vida crua, pensa olhando através da janela. o vento lá fora zomba de tudo aquilo ali dentro aprisionado. o vento lá fora zomba de mim.

desliga o forno. improvável. não é isso. ela se diz não ser nada daquilo. mas, depois pensa, aquilo ali não é nada então de que adianta todo esse show. ela se senta novamente sobre a cadeira querendo, se possível – uma vez – que seja! – ser desligada. como a cafeteira. se olham.

negra. retinta. limpa e preparada. ela criou esse hábito de terminar de passar o café (na cafeteira) e tão logo colocá-lo todo numa só caneca. ela não usa xícaras (acha xícara uma coisa triste). ela lança o café para dentro da caneca e o tempo do esfriar é o mesmo de limpar a jarra de vidro, retirar o filtro com pó e repor novo filtro com novo pó. ela desliga o botão e sabe que da próxima vez que o apertar: será novo início de novo café.

é chegada a hora. o vento lá fora. eu aqui dentro estatizada. que foi que fiz de mim que às vezes eu não funciono nem quero nada. ela se vê no vento lá fora refletida. está tudo certo, se diz sem chamar a si mesma muita atenção. ela aperta o botão

e senta. e se levanta. e tenta não se dar importância. os eletrodomésticos todos limpos anseiam o seu amor, que não vem. a cafeteira, galante, vai dizendo em lingua ruidosa a odisséia de ser amada.

o café respinga retinto.

e lá fora o vento pára. ela percebe. ela abre a janela. e grita, descompensada: o café tá na mesa!

convite

novas praias
sem areia nem sal
novos céus
sem nenhum lençol
novas idas
sem tickett ou passagem
novos lares
sem portão nem prédio
novos sons
sem lamúria
novas lâmpadas
sem rosca
novos copos
sem estalos
novos rins
sem filtragem
novos sóis
sem calor
novos cancros
sem disparates
novos embalagens
para dias sem fim
novos sorrisos
como o seu
novos eus
como o amanhã
turvo impreciso
duro e necessário

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Leason Learned

cinzas envolvem por dentro
a taça de cristal
os pés restam cansados
os olhos pesados
tudo enfim normal

quantas vezes o mesmo
quantas repetições inda
mais

se não se percebe
que os cabelos ficaram brancos
se não se vê
nem isso
que as unhas foram comidas
durante a madrugada

poeira faz desenhos
sobre o chão imundo
reino da sala

sacolas plásticas imensam
guardam segredos partidos
e comprovantes dos jogos
consumidos e já rasgados

se não se vai para o outro extremo
se não se cozinha outra coisa
com os mesmos ingredientes
que fazer então

se toda noite agora sou eu
e meu colchão
esperando mais peso
para fazer poesia
e ação

que fazer?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

brusco

o estalo
o tempo
imediato
no qual
você decide
ser beleza

súbito
invade
o segundo
e tinge nele
desespero
tinge também
leveza

inconstante
capaz de ser
quente
o futuro
e voraz
este instante

móvel árido
escorregadio
tenaz você vai
meio cego de si
meio cego
e operante

desejas:
mudar
partir
virar
ceder

mas conserva
preso neste olhar
uma impaciência
que o consome
que o consome
que o consome

e aqui está você
outra vez
entre cafés
e cigarros
entre cafés
e cigarros

sem_título 06

ela é sem dúvida alguma
uma criança
ele – sem dúvida – é homem
desses que tem barba
ódio e vergonha

ela tem a face pouco mexida
os olhos inda pausados
sem fim
enquanto ele encerra num olhar
apenas
a noite
o cancro
a pedra nos
rins

tanta diferença
tanta demora
até que se encontram

que pode haver nisso
que não seja de fato
algo inédito
necessário

posto seja ruidoso
o movimento pelo qual
pele bruta toca
seio de anjo

eles ainda se olham
temem ter ficado
dependentes
eles se olham
e veja

não vêem nada
para além da neblinha
solta no olhar
presa nos dentes

que estranho é o desejo.

Erro

nada me encanta mais do que o erro

nada mais me fascina do que a possibilidade de ultrapassar
sem ter freios

de atropelar sem consciência plena
do estrago
sobre o corpo ali esmagado
ali feito

peço espaço a ti

para errar não-eternamente
mas sim quando em jogo
quando em jogo estiver
lindo

e pleno

o erro

o erro

ele faz parte
é certeiro
me denuncia
e ameniza
me constrange
e revela
por inteiro

eu lhe peço,
deixe-me ferir seu rosto
com este espasmo
com este enredo
de corte
e fúria
de corte
e espelho

veja:

tudo aqui está meio ao meio
e isso é seguro
mesmo que não passageiro
isso respira
e é vivo
é seguro
posto traiçoeiro

deixa
que eu grito a possibilidade de ser outra coisa por conta disso
por conta disso que hoje não conseguimos fazer direito

o amanhã
só saberemos
por conta desta fagulha
incendiária
de desassossego,

domingo, 4 de dezembro de 2011

Laranja

para entreter o estômago
para escorrer o pescoço
para ser saliência
concentrada
como o sol sobre a mesa da cozinha
ou jogada esquecida
sobre o chão da sala

bagaço

caroço

contorno

e sumo
expressivo
e capaz de cegar
os olhos imensos
de um monstro

corto
faço tampa
degolo
feito santo
suprindo o corpo
a desnutrição
avançando aos caroços
rumo
ao centro
da mão
contorcida
com o fruto
em si
apertado

escorre
escorro

está tudo certo
esta laranja
é o sumo
mor
do concreto
dia

Postergo

a decisão necessária
adianto o tempo
e o deixo em espera
concentrada

hoje não
amanhã com certeza
também não

as horas seguem
desistidas
o tempo avança
carente de solução

o cessar do roer
o fim enfim da consternação
postergo os limites
através dos quais
eu teria condição

mas não
hoje não
amanhã
não não não
por agora

resto
ciente do erro
graduado na ignorância
não sei se falta força
se falta jeito
ou se falta
apenas
o seu cheiro
a vigiar minha
inoperância

sábado, 3 de dezembro de 2011

Social

teme reluzente
puxa e desfaz
depressa a porta se abre
e então
e então
nada há mais

a ligação desatendida
a porta deixada imóvel
o ranger
da escuridão
nas esquinas

salto sobre poças
pizza sobre pedra
beijo sobre bocas

beijo sobre bocas

simbólico
escorregadio
e energizante
como pode ser o ser
este abandono
insuperável
esse eterno
e constante
desmanche

interrogação
mordaz
fria e incapaz
interrogação
ponto final
sábia
densa
e satisfatória

não há nada para além das linhas

não há nada hoje
que não passe
de no máximo
uma
ou
outra

história

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Ergo Sum

unhas limpas
aparadas e lixadas

a sujeira do mundo partiu

resta esvoaçante
pelos espaços da casa

o som canta e voa
em meio ao vento

a criança dura e persiste
remoendo o íntimo
franzindo a testa

e provocando os cimentos.

não dirás não
nem só sim, há outros verbos
nessa criação

tremula
impacienta
ouve o dia, amante
ele quer te abraçar

se deixe ser dependência
se deixe ser dependência

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

envelhecer

é aprender a domesticar
arrepios.

é bonito isso, de envelhecer
não para privar
não para se ausentar
os arrepios seguem plenos
delirantes se movem
sobre pernas mãos e cabelos

mas, no entanto
o íntimo conserva
a duração do instante
em abraço fraterno

dura tempo
para um arrepio
se fazer pleno

sem pressa
sem pausa
sem ponte

por meio da qual seja possível dele se ausentar.

envelhecer é aprender,
sem dúvida
a domesticar os riscos
e fagulhas sobre a pele
lançados.

envelhecer é o máximo.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

sem título_05

dentro

ronco constante

desfazendo o medo

e aproximando

a morte

sim
começa dentro

e depois invade

arrasando sonhos

destinos e futuros mal laçados

vai fazendo dobra

e interminando os passos

sim
começa dentro

mas poderia ser o contrário

olhe, eu peço, dure o olhar

não há nada exceto o fora

nada exceto onde

você pode me encontrar

sim
começa dentro
mas sempre
quer dizer
jorrar.

sem título_04

êxtase

sem suor

testa plena e firme

capaz de ser mármore

que coisas estranhas pode a tarde fazer nascer

mas já é noite
paciente, aguardo

um anjo

um demônio

um santo

ou pássaro

que perfure meu estômago e me dê fome
descomunal

preciso

quero

anseio

por este encontro

entre corpo
arrasado
e seu lá-
bioabis-
mal
se faça
a manhã

ponto.

sem título_03

poem
poema
poemo
poemar
poemei
poemia
poemite
poemal
poe
map
peo
e
amapa
ae_o_
po e ma
po é ma
pó e ma
ma é ma
pó e má
mapoe
poe, por favor
mae po\
po mae
mae\
mae\
po-po-po!

(tiros)

ae
ae
ae

(dor)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

sem título_02

solicito mais espaço.

obrigado.

solicito abrir caminhos.

impossível.

como?

obrigado.

no seu olhar eu vou inteiro
sem medo sem consternação
eu nele me faço,
inteiro o invado
e remo
e nado
eu nada mais além disso
sigo ciente do nosso co-
lapso.

|

queria se possível quentura.

queria se possível doçura.

queria se possível sujeira e sebo
queria o tom da pele propenso ao desespero
mútuo

e empoeirado.

cansamos, nós dois, dessa poesia
dessa verborragia metida a besta
eu cansei

devo dizer

EU CANSEI
queria ser esperto para outra coisa que não essa redundância
auto-comiserativa.

as palavras seduzem
e convidam ao jogo

tão longe

ainda vivo

as luzes partem

a música morre

mas eu não vejo
que é só um pedido
esse meu
oh!

|

jump again
my coffee is getting cold
e eu continuo tentando o intentável
o impossível
o lago submerso sob versos
a luz difusa do abajur prateado
tudo cromado
o seu rosto
o seu peito
o seu sorriso
sobre mim
despedaçado

licença,
eu te peço

preciso me encontrar antes que me acabem os cigarros.

|

sem título_01

a única questão que atravessa as noites e os dias:

como faço para ser menos eu e mais o outro?

 

não ter respostas dinamita o amanhã

sigo trepidante na busca do inconsumível

traço planos medonhos, corto a pele
ausento-me da segurança do calor
e do abrigo

para quê?

permanece pequeno na imediatez de quem sonha

 

o que fazer?

as linhas me oferecem corda
eu sigo tramando planos
e engendrando auto-
vinganças

o que faço?

se você virou vocativo
se você não é nada
exceto corpo morto
ao qual me lanço
e destino

mas

tão só
tão solitário
vago e arredio
o que faço?

 

não tenho título
não temos sinopse, aqui, em jogo
nem narrativa que costure
os vazios.

 

não falamos nessa língua
não buscamos esse sentido
que fazer quando as interrogações
morrerem
e o silêncio consumir
as flores
os sóis e todos
os meninos

que fazer?

poesia?

fazer poesia?

que poesia fazer
quando se descobre não se tratar de nada disso?

 

.

pigarro

persiste
preso
paciente
poroso
pertinente

afinal
pigarro é isso
aquilo que calo
aquilo que como
aquilo ali presente
inconscientemente
presente

poça
polvo
patas
plástico
pênis
porco

por que não,
eu me pergunto
por que não dizer tudo aquilo
de novo
e mais uma vez
de novo?

parto
piro
ponto
pouco

sim
pouco
sim
pouca coisa faz tanto sentido
quanto este pigarro
desenfreado
e precisamente
morno.

sábado, 26 de novembro de 2011

buscar

sem nem perceber a gente vai
de repente estaca
vendo enfim que só há mesmo
a tentativa
e então você volta
e ele lá da ponta se anuncia
amanhece
anoitece
e é no meio
é só na tarde
que as coisas se enzimam
e o desejo se converte
em projeção.

a coluna se dobra e desdobra
as dores silenciam um instante
por favor, ela pede ao garçom
eu não posso arcar com o prato quebrado
ele diz ser regra da casa
ela informa, saliente
eu não moro aqui.

eles se olham

que confusa abstração,
essa pela qual a poesia
tenta servir de contraponto
tenta servir de tiro
estímulo
salto
a não-perdição.

ele queria tentar ser grande
não para a mãe
nem para o pai
hoje ele queria ser grande
para num abraço gigante
caber sempre mais um
poder caber sempre
mais.

e então busca
busca sem fim
nem começo
ele busca
ela busca
o outro ser
lá na ponte
na ponta
na estação
no meio busca
e isso diz respeito ao nosso tempo:

somos feitos de desencontro

ou

somos feitos de encontro

e no meio do caminho,
tentamos não ser pedra
tentamos – talvez –

ser vento.

já nem sei se sinto

eu aqui bebo
eu como
eu escrevo
e me divirto
lendo vendo um filme
eu me masturbo
e consumo voraz
o segundo já
morrido.

mas paro
um segundo
eu paro
e penso
eu penso
eu já nem sei se sinto

eu penso nos homens

penso nas mulheres

eu penso nos meninos com cabelos crescidos

penso nas meninas com coçeira

eu penso em tudo isso
penso em veias
penso nas ruas da cidade
abertas
e no entanto
tão longes de ser
abrigo.

meus olhos pesam
posso se quiser apagar as luzes
desligar o som
e dormir, pleno
ciente do café
ciente do pão
do queijo
e do jornal pela manhã
me invadindo.

eu posso tanto, meu deus
por que não posso resolver um pouco tudo isso?

por que ser cego?

por que fingir ser cego?

eu escreveria não aguentar mais isso
mas eu aguento

por que é que eu aguento
tudo isso?

queria ceder
ceder
até virar sede
fome
frio
e encontro.

paralelepípedos

dormem frios
contabilizam anos
sonham pancadas
comida e abrigo

e amanhecem
tocados, movidos
e o íntimo?

um outro acho bonito
embriaga-se para recriar
o mundo

um outro se acha possível
tramando cores novas
para o seu jogo
o seu auto-
abrigo

não adianta
eu hoje me digo
minha metáfora não serve
a rima não vai suprir
a fome
não vai coser
o abraço faz tempo
distante
e esquecido.

hoje durmo ciente que o mundo
é grande
mas que alguns homens
são ainda menores
que tudo isso.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

bit

in on second
all the things
are changed

i made it
i made all this noise

i’m sorry
alone in this room
living alone in this
house,
sometimes
my screams seems to much
uncapable

then i try again
smoke
fire
burning thinks

and then
one morning
i’m ready to show
how good i feel

for you.

prateleira [OU] ler

PRATELEIRA ou LER

PRATELEIRA [ou] LER
sobre tela virtual, 640x480pixels
25 de novembro de 2011
paint brush

fora

tudo fora
dentro
apenas o silêncio
os ruídos (espalhados)
nem roupa há mais.

tudo fora
de mim, para além
de paredes
portas
e caixinhas de cigarro.

hoje tudo fora
e no entanto
dentro (de mim)
esse soluço imenso
esse ato vago
de criar a cada esquina
alguma coisa
que intensifique o contato.

me encurralo.

não quero entreter,
eu me lanço contra a parede
e penso
sim, eu penso
como é que deve ser?

há uma forma?

alguma música inédita toca
eu não sei dizer
mas a vontade de recriar o mundo é tão grande
a vontade de diminuir a cegueira do sofrer
para somente deixar as dores
que precisam germinar
e crescer.

amanhã, quem sabe
hoje, mais tarde, talvez
eu não sei dizer.

sigo tentanto
como se tentando
eu pudesse também me ter
e me compreender,

no final das contas,
não é isso
não é nada disso
eu também me cego

no divertimento
que é tentar
te entreter.

\\

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

fiação básica

para reter colunas
e endireitar
nuas pernas

para atritar botões
e segurar
guardanapos

para montar sorrisos
e fazer nascer
sustos repentinos

fiação básica
a princípio

para coser com força
a luz a ideia
e o conceito
escondido

para abusar do corpo
e premer mãos
em seios e dedos
em íntimos

para cessar
dúvidas
partes
olhos
e

r
i
m
a
s

fiação para
basicamente
instaurar
climas

corda
fio
fino
linha
cabelo negro e retinto

para fazer sujeira
onde haveria apenas
o abismo
do corpo
sobre si
próprio

autosuficiente_E_seguro.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

poeirinha

sobre os dedos
por entre as fibras
do corpo
e da garganta.

hoje cedo
a neblina invadiu a casa
e os livros
os potes
as canetas
lâmpadas
e roupas (ao chão
deixadas)

ficaram assim:

apavoradas.

tudo bem,
o gerente diz
tudo bem
ele se diz

para disfarçar sua confusão.

por que é preciso disfarçar?

a sujeira voa
plena
não há possibilidade de maquiar
a sua imensidão.

ela é hoje ruína
e amanhã,
memória.

deixa.

deixa a poeira bailar tranquila
ela faz parte de ti
ela é seu corpo
sua mente suas horas.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

sem raíz

ficaria tranquilo
sem pote
terra ao redor
ou gota
de orvalho.

restaria eu inteiro
despido
desencapado
desde que

houvesse o vento
e as folhas, para o flerte.

ah, o flerte
esse sim é jogo
esse sim abre o apetite
e faz o amargo
tingir doce
e o doce ser terror,
docemente.

o flerte sim oh flerte
esse move as montanhas
esse tem as eleições
ganhas, esse sim
faz de um qualquer
gente.

sim,
eu sei
é só você dizer
sexy
que eu me digo
também
oh darling

here comes the sun
e toda aquela
onomatopéia.

domingo, 6 de novembro de 2011

e dai?

eu estou me perguntando, se essa energia toda não pode erguer prédios
fazer nascer sorrisos e respirações amenas.
se toda essa coisa não pode criar algo mais além de ficção
algo para além do aplauso
algo para além
com endereçamento preciso
e imediato:
ao centro do peito.

é gráfico confuso
jogo onde os desejos
se boicotam
e se des-
orientam.

é realmente bricolagem
é realmente poesia
e criação.

nasceu daqui de dentro
deste blog
deste eu
desta mistura
vida e criação.

filho quase nascendo
quase vindo
pronto de novo só por não estar pronto
confuso
de novo
só por estar vivo

e respirante.

ele nasceu verde.

ele é um alien.

e eu o amo,
como nunca hei de amar
os outros desta estação.

você, meu filho,
está me fazendo entrar em contato.

ponto.

ponto pra ti
para mim
ponto incrível
a todos os seus
irmãos.

00 copy

bem-vindo.

sábado, 5 de novembro de 2011

Publicação

em branco
a parede
espera.

quereria se possível
não ser tela nem possibilidade
mas paciente
aguarda
e espera

o toque
o risco
o tra-
ço sobre o corpo
a revelar
mentiras

eu de pé me ponho
embriagado
com pen em punho
risco
e risco
e abandono
(qualquer organicidade)

hoje a noite é criação
hoje a noite me invade
e eu não tenho
conceitos,
a priori.

risco
seta
veia
tiro
rito
trio

isso:

recomeço
os rabiscos
porque não tenho
nada
exceto
essa desesperança
exceto este corpo
impaciente
por toda
e qualquer
mudança.

troco

revolvo

doo

e recoloco a mão sobre o concreto:
o amanhã sou eu quem desenho.

o amanhã sou eu quem desenho.

DESCARTO

o verbo
as unhas
o tempo

gasto mesmo
nisto estou convicto
consumo
e não penso
em sustentabilidade.

as palavras
as vírgulas
a colagem

comigo
tudo excede
e nisso eu me reconheço
e nisso
o mundo
em mim
me invade.

como pode?

eu silencio e ausculto
como pode,

o mundo também ser assim tão abrupto?

sua falta é como soluço
susto semi-ininterrupto
que amanhece
cada segundo.

como faz?

Unha

lascada
sobre o vinho
espesso.

o dedo coça
o plástico dorme
e dentro
ele protesta
contra o tempo.

unha lascada
pele solta
abraço e

rangido.

ele pensa que pode
ele abre o envelope
ele está solto
leve
ele está
perdido,

é só isso
desdobra
é só isso
redobra
é isso,


ele lança por sobre a mesa
o envelope.

pensa
que cor de envelope é essa?!
ele inventa pretexto
para não sobrar,

ele sobra.

e mira
confuso
as horas
dispostas também sobre a mesa.

ele apaga a luz
a noite chega cedo
dentro de casa.

ele tira os sapatos
ele usa sapatos
é sábado
e ele usa sapatos

mas,

no escuro
pensa:

há cerveja há dois dias no congelador.

há cerveja faz dois dias no gelo concentrado.

ele abre a porta
o congelador diz olá
ele retira a garrafa de vidro
esverdeado

ele senta sobre o chão da sala

retira a roupa

e aguarda
pacientemente
o álcool descongelar.

se ela estivesse ali
sem dúvida ele pediria
pediria sem hesitar
toca um piano pra mim.

mas ela não está.

Fubá

entre os dentes
há saudade
entre as roupas
falta o ar
a ventilar
vaidades
como ir
como sair
como fazer
para me ausentar
de mim
e te vestir?
vinho semi-aberto
sono semi-desperto
peito semi-
sem teto
sem nada
exceto
rimas
e mais rimas
e azias a parte,
o dia hoje amanheceu
com preguiça.
o bolo assa no forno
dos sonhos.
as línguas estalam
no sonho-encontro.
uma coisa que faltou dizer:
olhe nos meus olhos

acho então que você iria perceber.
     

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Simples

De forma que tudo resta ali concentrado e latente
De forma que, como já dizia meu avô,
a manhã nasce possante
potente.

Simplifica a sua neblina
e brinde o gramado
com o orvalho

Simplifique o beijo
e brinde o amor
com segurança

Deixa,
amanhã as perguntas vão morrer
e tudo será dor de cabeça.

Então deixa,
hoje os olhos pesam sem fim
mas é só porque você
está longe.

Sim.
Simples desse jeito,
você ai distante
e eu aqui
distante de mim.
                   

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Cine

Coça a cabeça com a ponta dos dedos. A boca se abre e o sono escapole. Ele diz que sim com a cabeça. A garçonete se retira e ele avança junto a ela ao balcão. Depois há uma mureta na minha frente e eu não sei mais dizer para onde foi o homem que há alguns minutos me chamou a atenção.

Sorvete numa mão. Na outra um cartão. Ela se agacha e se ergue, ela gira e põe a mão. Eu me pergunto daqui onde estou para quem será o tal cartão. O sorvete. Derrete? Talvez sim. Ao seu lado o marido (marido?) saboreia a sua porção. Ela some. E eu nem vi. Olhei para esta tela e ela sumiu. Não sei se com ou sem cartão.

Nós dois estamos dividindo a mesma extensão. Ela não é minha. Ela não é dele. É da cafeteria. Nós dois dividimos a mesma extensão. E entre nós, porém, nada se cruza, nem energia, nem eletricidade, nem sequer atenção. Eu não acho que ele me olha. Eu não acho que quero sabê-lo. Algumas pessoas desde os inícios lhe causam apenas indiferença, apenas são pessoas e não há problema nisso, não é maldade. É só que meu corpo não se seduz a essa diversão.

Pulo a linha. Chega o garçom. Mas aqui, dentro, esta música (Joan as Police Woman) canta aquele mesmo refrão. Faz quanto tempo que eu ouço essa mesma cantora? Quanto tempo o mesmo cd? Eu nem sei. A conheci em 2007 e desde então estamos aqui. As coisas seguem e o meu café duplo há tempos partiu e nem sujeira deixou. O garçom transita. Deve ser difícil ser um garçom. Mais uma vez. Eu aqui pensando. O que posso fazer comigo mesmo que não acentue minha perdição?

Como não sublinhar o desespero?

As pessoas aqui em movimento e eu aqui com olhos movediços e dedos escrevendo pseudo-confissões. Que loucura a vida, não? De fato, quem disse ter que fazer sentido? A vida é mais divertida sendo livre, sendo livro, romance e ficção. Que tristeza essa a de não poder acordar feito obra. Que grandeza essa de ser matéria em meio ao tempo lançada.

Eu quero ir ao banheiro.

Revolução

O sono se perdeu. Acordei com o olhar desperto e a cabeça viajante. Entendo, depois de algum tempo, que estou hipoglicêmico e que é preciso me erguer para comer algo doce. Aos poucos, após consumir algum açúcar, a vida se equilibra de volta e a poesia morre, repetitiva e incapaz.

Mas é nesse limite entre estar hipoglicêmico e ter a glicemia controlada que a minha vida acontece. Por inteiro.

Penso sobre a minha inteligência. Penso sobre como a utilizo sempre para o menos. Penso sobre como me machuco e sobre como transformo em dor o meu amor sobre as coisas. Nasce abrupto um desejo de revolução. Paradoxo. Eu penso sobre a vida, sobre os amigos, sobre as perdas e sobre o que estou fazendo comigo. Sobre a saúde, eu penso sobre o câncer do mundo e me ponho em cheque: quero usar minha esperteza para amanhecer o mundo com calor ameno. Com cuidado atento e repetição florida.

Não quero mais ser incrível e não dar corpo as utopias. Elas estão carentes e eu, esperto, me perco em quê? Quem eu engano? Eu sei tudo. Eu argumento (para além do bem e do mal). Logo, como posso ainda assim me encruzilhar? Como posso acabar comigo e com o meu redor?

Hoje é dia de finados e é neste ponto – exato – onde começam meus outros passos. Serventia minha ao que vier adiante. Intenção genuína e com pretensão a contaminação mundial. Eu queria usar nossa inteligência para ser incrível. Não é ser gênio, é ser foda, ser incrível, ser capaz de coser partes soltas e quebrar pontes (sem que morram os cidadãos).

Minha cabeça dói. Mas dentro, no peito, no íntimo. Dentro – em rebuliço – eu tramo um amanhã envolto em peripécias. Não quero essa poesia se ela não vier e tombar a mesa. Qualquer mesa. Toda mesa. Não quero mais metáfora se elas não puderem tomar o café da manhã junto comigo (e junto ao mundo).

Quero tornar possível. O sangue, aos poucos em mim, se tranquiliza. A hipoglicemia morre, mas me resta ainda pela invenção apaixonado. Eu pego um rolo novo de fita crepe e transformo um maço novo de cigarros em peso de papel. Eu envolvo o maço em fita crepe e o transformo em câncer congelado. Eu me perguntando por que é que eu fumo se eu sei – desde sempre – como isso não quer me multiplicar.

Eu cansei de enganações. Eu quero ser sincero e, assim sendo, eu preciso sair do lugar. Não posso. Quantas outras coisas eu não posso e mesmo assim me engano carregando-as através dos dias? Eu quero ser meus vinte e quatro anos. Eu quero ser jovem e adulto. Eu quero ser certeiro e não cair em algumas armadilhas já tão triviais.

Eu fico. A tremedeira passa e o mundo volta a ser insosso outra vez.

Paciência.

É trabalho de formiga.

Esse texto não cessará de acontecer.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

você

não é por ti
é por mim,
a princípio.

quando te escrevo
é voltado a mim
que eu recito.

não é você
nem poderia ser.

você não tá aqui
eu não tô em ti
não pode ser
com você.

aqui vou seguro
trepido e me lanço
me jogo e seguro
se fosse eu em você
tudo isso não seria jogo
seria suicídio.

não quero
hoje não
não vou dizer seu nome
você vai continuar sendo
constelação.

hoje eu não te reconheço
hoje eu não sei meu nome
nem minha vocação.

hoje sem você
eu nasci pronto
e forte
hoje sem ti
eu amanheci
repleto e capaz.

deixe para amanhã essa falta
essa moleza
incapaz
de erguer o segundo.

deixe para amanhã
esse desejo meu
convertido em auto-
sacrifício.

pesa
tanto
que poderia ser apenas
um câncer.

mas tem nome
e é você
a palavra
que o mundo não cessa
o buscar.

é você.
tem que ser:
você.

simples assim,
sem eu
sem mim
sem ti
nem ninguém.

LED

pequeno
verde
silêncio
intenso
dobra
esvaziada
sobre
pelo
salta
pilha
maço
caneta
isqueiro
risco
risco
sossego
found
hope
place
and
and
and
embrace
hold
hold
hold
bate
bote
boate
luz
pisca
luz
parte
sombra
rim
dor
arde

nós encontramos alguma coisa desse espaço nobre
não é nada demais, ainda bem, de excessos já basta
a sucessão de dias e noites.

constatação

as coisas mais lindas que escrevo
são saídas.

as mais lindas coisas
que eu escrevo
são desculpas
para amores
para a vida.

eu de tudo me retiro
e dai então nasce
a tal poesia.

se me colo
se desejo
se vou e
cravo
minha
atenção:

precipito-me
e pareço brincadeira
sem consideração.

mas,

se torno a vida difícil
e por isso um tanto mais
impossível
vêm os versos acenando a mim
e ao buraco-mor-coração

eles gostam dessa dor
as metáforas bailam esse estado
constante do ser-putrefação.

que triste. eu penso,
que triste essa condição.

em que rima eu fui amarrar meu mote?

constato,
hoje mais triste
que a poesia não nasce tanto assim da vida
a poesia,
hoje constato
nasce dessa negação
dessa incapacidade minha
para criar afeto
invés de canção.

acorde

o dia nasceu limpo
e você fazendo
memória
sobre a cama.

eu estou aqui
pensando se errei
eu errei
mas importa?

meu íntimo foi sincero
minha pele foi súbita
e retinta.

não posso voltar
não posso ceder
aquilo que em mim é jogo
te consome e faz doer,

devo então voltar?

devo ser o vilão
de novo e mais uma vez
a te despedaçar?

não quero
não posso
não vou mais brincar

se em mim seu beijo faz sentido
em ti meu beijo transforma
amor
em precipício.

me desculpe,
eu nem sei porque escrevo tudo isso.

é só que não era para ser assim,
mas está sendo,
assim,
sem fim
vírgula
nem desejo

sábado, 29 de outubro de 2011

pulmão

toco
encosto
aperto
devoro.

ainda dói,
bastante.

ponho
penso
sonho.

ainda dói.

desnudo-me
ponho-me
em abandono,

e já é noite.

respiro
suspiro
invento
eu canto,

mas dói ainda
e tanto
por isso
ponto.

costas
pelos
idas


s
o
n
h
o

amanheço forte
destemido
preciso sempre
desistir
de me fazer
santo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

lírio

tão próximo
que eu poderia desistir
de fazer parte
disso tudo.

tão junto
que eu poderia me entreter
sobre a pele
e enovelar-me
em emoção.

tão justo
que eu julgo não ter direito
quiçá razão
de plantar dúvida
criar descontentamento.

hoje eu amanheci
mirei você ali
dormido
e pensei
eu preciso parar de pensar nisso.

e o dia então
fez sol
chuva
e o lírio
floresce
no parapeito
da janela.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

teu sorriso

para daniel varotto

virou tela
virtualizou-se
você
e também
seu cheiro.

dou-me um tempo
para contemplar
nesse absurdo
algo ainda
potente
algo nem sempre
tão passageiro.

espera.
congela.
fica, eu te peço.

como pode a distância aumentar
o que deveria já ter morrido?

como pode a distância azucrinar
o espírito e fazer nascer
a cada pensamento
você inteiro
trepidante sobre árvores
alcoolizado
sobre conduções públicas?

amigo, quanta saudade
saudade de segundos
saudade plena
segura
e sem fundo.

como pode isso, não?

viver uma década se entrevendo
se entreouvindo
se entre-tendo.

se eu pudesse mudar tudo isso
não seríamos quem somos.

e eu te amo
assim
distante
do jeito que eu sou
eu te amo.

não como eu

tudo morto
petálas
roupas
a bebida
tudo acabado
eu também.

pela casa
poeira

e papéis
rabiscos
textos
ditados
e sufixos,
tudo morto
a princípio.

aqui dentro
incompreendo
quero estar lá
mas permaneço
estou só
tentando fazer remendo
eu espero
eu lutando
não contra
mas junto
ao tempo.

a música
o vento
o jornal
tudo em seu tempo.
a louça
a faca
a água
o perfume
o silêncio
tudo certo.

eu também
tento.

amanhece
anoitece
entar-
desce
o corpo ao chão frio
a garganta se fecha
resta a poesia:

enfim
resta o trotar
o pular
saltar
das linhas
resta este corpo
hoje
de novo
mais uma vez
tentando pelas beiradas
fazer
de novo
aquela linda rima.

\\

especifico

soltas
sobre este branco
como podem
ser isso
e mais um pouco
?

livres
nunca o bastante
como podem me tirar
para bailar
e me pôr
de novo
outra vez
em abandono
?

duvido
regurgito
hoje
ontem
amanhã
eu tenho certeza
eu preciso
.

destas
de outras
e outras mais
eu preciso disso
do isto
do mais
sempre do mais
eu preciso
do sim
do não
e do meio
branco
sobre o qual
palavras
nunca serão
essenciais
.

eu grito
esperneio
eu canto
tudo delas sai
tudo por conta
delas
em mim
hoje
se contrái
!

e se dói
e se acalma
e acalenta
tudo bem
eu virgulo o segundo
e nele faço oferenda
venha
!

eu te chamo
eu te proponho
façamos do poeta
azia
façamos do amor
bala-perdida
para alçar
prédios
e demolir
intensidades

o que eu queria dizer
se perdeu
e restou ao meio
este eu
que sobre a malha branca
agora
te invade

Meo

Pleno
redundo
operante.

Tenso
anseio
querendo:
vela
vinho
banho
morno
banho
manhã
e abraço
longo
livre
e louco.

Sim, obviamente
por que não?
Nasceu em mim
esse adiante
e é tudo culpa sua.

Que seja!
façamos assim:

eu faço a janta
nós dois fazemos de nós
a sobremesa.

No chão
resvalo hoje
importante.

Me orgulho
de tanta demora
ter enfim
me desembocado
em ti.

Como posso não sorrir?

Se o que eu quero
está ai, sobre as suas pernas
sob seus cabelos
centro-boca-peito
Se o que eu quero
é exatamente isto
assim
com seu nome
seu perfume secreto
seu mistério
meu
desejo.

Hoje eu durmo
intranquilo e passageiro
Em queda livre
eu quedo em ti
primeiro
e depois
a mim eu volto
renovado
ativado
intrépido
e traiçoeiro,

para inventar
novas façanhas
destinadas ao nosso
meio.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

não quis

dormir com o rosto fechado
quis abrir algum sorriso
momentâneo a mim,
que fosse
apenas para sentir
o contrário.

não quero
mover o ataque
ao próprio peito
quero dormir pleno
e impaciente
dormir seguro
sem volteios.

fico hoje
sobre o colchão
inoperante,
amanhã, quem sabe
possa eu acordar
e relembrar
o quanto um dia
já fui pusilânime.

não há mistério,
hoje sobrevive
apenas o tempo
as horas
minutos
e um ponteiro-
bengala

para entreter
este segundo
que não passa.

para que não digam que eu não sabia

eu sei. tudo está dado. tudo está claro. sim. a neblina sou eu. a poeira também me pertence. o café preto – escuro – sou eu quem faz. sou eu quem paga. sou eu, neste agora.

apaguei a luz. tudo o que escrevo agora no passado é passado por poucos segundos. é o atraso entre agir e escrever. eu acabei de apagar a luz. o café foi feito e resta a esquerda sobre a mesa de vidro, repleta de objetos. repleta de papéis, canetas, fios, moedas, isqueiros e fitas adesivas. o café resvala. quero bebê-lo, mas vou me segurar. isso que escrevo – às vezes – parece ser o antídoto para seguir (respirando) sem tombar.

certo. bebi um gole super tímido. não quero transformar estas palavras em carta suicídio. é sério. para que não digam que eu não sabia é que escrevo este testemunho. ele é sincero, ele é doído, mas operante. ele é o retrato sensível (ou não) de quem eu tô sendo (ou quem eu acho que estou sendo).

estou apaixonado. é duro dizer. não faz sentindo dentro do corpo. talvez seja desejo apenas. e o que há de errado nisso? há apenas a vontade súbita e a impossibilidade de vencê-la. estou desejando. estou me drogando. estou me matando (se não me cuido como me ensinaram que eu deveria fazer). em resumo: estou cansado. o tempo que tenho não me serve para nada exceto para restar. tenho a sensação de ter me esgotado mais rápido do que poderia alguém ter feito consigo próprio.

meus sonhos não me visitam mais. meus medos são pequenos, bobos, imperceptíveis. minha fome é pouca. meu peso é pouco. minha sanidade é perfeita. que coisa mais triste essa conjuntura, onde eu não encontro desculpa alguma para validar a minha falta de presença.

ouço repetidas vezes o mesmo som. uso repetidas vezes a mesma roupa. troco-as apenas quando sinto algum odor indesejado (aos outros, porque eu não temo meus cheiros. eu poderia gostar de todos eles, mas não me ensinaram nada disso e está cada vez mais difícil aprender algo). eu poderia dizer que está tudo bem, mas não está. algo em câmera lenta se move a fim de me abocanhar e vencer. sou eu quem destina a mim próprio essa chacina. sou eu que me rendo e eu mesmo que me perfuro a vista.

eu vou morrer.

ou ser invalidado. eu sinto a vida no meu corpo, pulando como se estivesse saltando num salão qualquer. não está. a vida em mim se confunde e faz recreio em todo e qualquer estação. eu só queria, diogo, que você pudesse se ler lá na frente. eu só queria que você um dia – lá na frente – soubesse que você já esteve mal desse jeito. e que ficar pior que isso vai ser realmente seu fim definitivo.

ou você se acorda, amigo. ou o seu fim já está aqui contigo.

não sei mais o que te dizer.

tenho raiva de você.
tenho medo da sua inconsequência.
tenho ira profunda.
e é tudo verdade.
mas nada se mostra
nada disso que tu mesmo escreve a si próprio
faz em ti alarde
nada em ti arde
nada reverbera
estás morto?

és indiferente a sua própria sinceridade.

dominaste a linguagem
hoje agoniza
querendo
conjugar
verbos.

não poderás
estás seco
pré-morto
as pessoas querendo te amar
e você dando desculpa
de rouco
de incapaz
de cansado
de ocupado
de não-gosto
de não-faço
de niilista
escroto
bandido

ATAREFADO!

foda-se, você.

foda-se, diogo
você por inteiro.

quis se encurralar com essa poesia medíocre
e recebeste de si próprio amontoado qualquer de palavras sem destino
quis se escrever para se relatar seu desastre
e o que você escreve não é nem próximo disto
aqui
sentado
ante a essa computador
nessa casa desarrumada
longe dos amigos
dos pais
e de todos os amores
que em ti
foram por ti
arrancados.

você merece tudo isso?
ou você vai sair desse sofá?

------------------------------------

Pistas

procure-as
elas podem te ajudar
a me conter.

procure todas elas
especule
invente
des-
oriente-

se.

talvez elas te ajudem
a seguir sem mim,
porque eu parei
eu perdi
eu não vou saber
dar rumo a tudo isso que sai de ti,

eu não vou poder
a doutora me disse
ela me disse
você tem que desistir de ser você.

mas está difícil
eu não consigo
eu preciso poder
mas comigo
só mesmo
o tempo.

ela me disse
foi categórica
ou vais por bem
ou vais por mal.

só que o bem não me é bem-vindo
eu nele não caibo
eu nele não acredito

eu tô mal
comigo
mal comigo
mas estou aqui
ainda no tempo
presente
seguindo tentando
vivendo
demente
me deixa?

te abandonar?

me deixa,
sumir sem ter que te pensar?

sem ter que me culpar
por não ter sido
exatamente tudo aquilo
que em mim

você descobriu.

BRONCO

vem aqui
eu levo sua mão
ao redor
tudo quase escuro
é melhor fechar os olhos
e as mãos finalmente
se largam
aqui
sobre este sofá
rodeado de ar solto
as palavras se calam
comprimidas entre os lábios
eu tento me mover
mas é impossível
e eu continuo
como
se eu estivesse correndo
descendo e indo
como se pudesse
morrer.

levanto.

com calma.

de pé estamos.

escuro ainda,

toco o peito
os braços se abraçam
e dentro
as coisas se quebram todas
mas,
eu toco o cabelo
o rosto
eu beijo
e é como se fosse assim
a vida

ele diz
desculpa, eu nunca
e eu não o ouço dizer
é como se eu estivesse
a me perder
sentindo-me indo
correndo
sem parar
nem guardar
nem reter

uh-uh-uh-uh-uh

uh-uh-uh-uh-uh-uh-uh

ele diz
algo que eu não sei
ele diz
coisas que me iludem
e eu tento não ceder

e eu me sinto como o quê?

eu me sinto como?

eu me perdi
com ele
em minha
frente.

\\

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

meu

vai

desce

a história

pregos

adiante

sente isso sim

deixa

pode vir

porque nós pertencemos
ao destino
esse mistério
flagra
invade e desarruma
porque eu estou aqui
e poderia ser com você
ou contigo
mas com você

não só comigo.

eu pulo a linha
eu salto abismos
eu não pertenço aos jogos que não souberem jogar comigo.

encosto
as costas
eu sento
e sei
que tudo vem por aqui
por como você se sente
eu me sinto
e então
amanhece.

eu sei também
que tudo lá
está no ponto
mas isso é pouco
se o amanhã
nem sempre
amanhece pronto.

então deixa
que eu provo a você que
nem tudo é bem assim
nem tudo dói por ti
porque eu
estou
aqui
e onde estar?

se o seu armário me disse
que o seu sono
está completamente confuso
e infeliz?

\\

INVERSO

so nice
that i know you
i’m ready
to show you
how good
i am

but
for a second
i stop and think
yes, i think
how can you
have in yourself
anothers
all the others
how can i do not desperate
you?

are you burning inside?

now that i know you
i’m ready to show you
how good i can be

cause
you can see trought me.

___________________

domingo, 23 de outubro de 2011

MAIS

muitos num só
perdido entre barbas
muitos são
num só corpo
muitas idas
muita coisa
leve

sutil

e imediata.

vem aqui
pisca
o olho
pisca
o outro
pisca
e retoma a vista
veja,
estamos frente a frente

isso que estamos criando
é nosso.

você é lindo
mas é bobo
é jovem
mas futuro
sutura
aos tempos
que seguem
seguindo.

ok.

entendo.

eu espero
não há susto
eu sou sincero contigo
eu não quero me arrepender
por conta disso.

pernas
pelos
laço
eu quero
que ontem
e hoje
sejam sinônimo
de acontecimento
pleno
e encantado.

obrigado.

muito obrigado.

eu não sabia te merecer.

\\

HERE

SO SIMPLE
HAVE YOU HERE
IS SO SIMPLE
SO FUCKING
PERFECT.

SIMPLE IT IS
I MEAN
ESSENCIAL
IT’S NICE
WARM
AND COLD
WHEN OUR FEET
TALK TOGETHER
ACROSS
THE NIGHTS.

HERE
UNDER MY SKIRT
YOUR HAND
SLOWLY
MOVES
IT FINDS MY HEART
IT TOUCHS MY SKIN
IT MOVES ME
FORWARD

IT MOVES
THE DAY
IT MOVES
MY HUNGRY
AND
MY PANICS.

\

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

centro

toda noite
a mochila lá
os pés aqui
o colchão
sempre sob
sempre sob os rins
os pelos
e penas.

sonho.

toda noite
silencio o tormento
do corpo
toda vez
refaço o lamento
e tento
remendo
redundo
des

oriento-me.

sonho de novo.

sem medo
de hesitar
medo improvável
esse do se assustar
eu sigo

sob o colchão
a poeira
delineia a confusão
enquanto o espírito
livre
posto perdido
desorienta-se
divertido

flertando abismos e precipícios
poéticos, sempre poéticos

tudo é grandioso sob o edredon
tudo é disperso

sonho.

eu sonho.

no centro
da casa
eu sonho
profético

há beleza
na disposição da mobília
no guache sobre a mesa
nas unhas comidas

dicionário.

sobre a mesa
analogias mil
que pode haver de mais grave
do que este silêncio

pelo qual

as rosas caem sobre o chão da sala?

curve move

outra tentativa
angulação de incompreensões
para fazer movimento
novo
redundante
e livre…

curve move

cores sobre tela virtual, 640x480pixels
21 de outubro de 2011
paint brush

\\

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

repetição

é quando você sabe
mas não conta
é quando você beija
e se adianta
pensando como será então depois disso
como será quando for preciso
mais uma vez
se ausentar.

repetição é quando dói
e você de tanto doer
não pode mais
notar.

é a forma pela qual as abelhas fazem o mel

mas também a forma pela qual
se magoam
as peles no fim de cada entardecer.

repetição é tudo o que não fazem os cegos
deixando invadir mãos
pelo mundo afora escrevendo
mas somente lendo
apenas lendo
lentos, eles avançam
pode haver coisa mais bela
do que reconhecer o mundo
sempre
e de novo
mais uma vez?

você me olha
me cumprimenta
dentro de mim
sua vista dá voltas
e me desorienta.

fecho a porta.

pela vidraça
outro seu passa
e este, por sua vez
me acaricia
ele me arrasa

como pode?

esse movimento do querer ser tão assim redundante?

danço, hoje, apenas, confiante.

por hoje eu danço apenas,
confiante.

que pode haver de mal nisso?

não é a primeira vez,
eu garanto.

mas dói. mesmo assim.

domingo, 16 de outubro de 2011

just a felling

Para Dominique Arantes

o que eu vou escrever
vem junto a mim
feito fosse música
como fossem meus dedos
mãos inteiras
revirando seu cansaço
e te tingindo a possibilidade.

não relute,
se deixe um pouco
se abandone e deixa
que eu faça
tudo aquilo contra o qual
você já excedeu forças

deixe, eu faço por ti
eu luto eu quebro
eu defendo
eu sou doce
amargo
o que for preciso ser
deixa que eu reviro o mar
para encontrar
o seu sorriso
hoje tão confuso, não?

tudo bem.

o sorriso é plena confusão.

não tem problema.
perder o controle
perder-se em meio ao dia
meia-ao-meio
nesta noite
você se anuncia
mas é mais
isso que te carrega é maior e mais lindo que o impossível,

portanto não tema, avance junto nisso

é assim que eu sinto,
me desculpe
se a poesia te comprou a dor
e o sorriso
se a metáfora faliu seus planos
e tingiu a aquarela todos os seus medos
mais profícuos,
reze então versos alexandrinos.

eu estou aqui para te dizer: que eu estou aqui por você.

assim,
simples desse jeito
me dê sua mão
que eu levo você
para bailar
quando a trilha sonora
destes dias
nos esquecer.