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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Real

Minha tristeza funda um mundo
Em que o amor é fruta
Que germina só de haver vento.

Mundo ventania.

Centro

Na esquina

Longe daqui
Te miro na esquina
Parado
Contemplo seu movimento
Completo seu gesto
Em mim, acolhido

Danço os olhos
Parado, eu consterno
Haveria algo fora
Que coubesse aqui
Neste abraço
Ontem
Inda tão vivo?

Amo-te
Sem ainda te amar.
Sinto tua falta
Sem tanto te precisar.

No tempo lento
Divirto-me nesse encontro
Desencontrado.
Na cama em que dormimos juntos
Sua perna estica e me derruba
Ao lado.

Que lindo é não ter que fazer força
Para amar.

Meus olhos brilham te vendo
Sem nem te ver.

Obrigado.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

como abrir espaço para um novo amor

o único imprescindível é o tempo.

com algum tempo você vai perceber
que você continua vivo
e que amar é o destino
que você escolheu
sem nem escolher,

é preciso tempo
para muitas coisas supérfluas
tais como
só querer dormir
perder o gosto por sair
desistir dos encontros
abandonar a si mesmo.

tudo tão supérfluo
e tão essencial.

com o tempo você percebe
que isso de amar
é tipo aquilo
de respirar,

acontece com todo mundo
e você faz parte disso.

num dia você acorda
mais uma vez insatisfeito
se perguntando se poderia ter feito tudo
tudo
de outro jeito.

não,
você não poderia
você viveu as coisas tal como elas se apresentaram a você
isso é bom, cara
continue
não lhe resta outra coisa a não ser continuar
a sofrer
a viver
a viver
a sofrer
tudo se mistura.

agora, por exemplo,
você deseja um abraço que amanha dará.
o que te falta?
é só isso mesmo.

um amor, quando morre,
não vira parâmetro para outro que virá.
quando morre
vira amor experiência vivida.
coisa que se lembra
e se faz lembrar
coisa sobre a qual
se caminha e pisoteia
amor coisa que se ultrapassa
para que se possa
continuar
a amar.


não compare, eu te peço,
um amor com outro.
cada amor é um amor
e o jogo da comparação é jogo injusto
posto sobreviva sobre tudo o tempo.

o tempo passou
o clima virou
o amor daquele dia
hoje virou outro.
desista da comparação
ela não lhe dará jeito.

viva o amor quando ele brota
sem antecipar o que ele deve ser.
viva sem nada exceto ceder-se
doar-se
viva sem nada exceto esta certeza provisória
do vir a se perder (nu, no outro).

não tem jeito
não tem fuga
não tem remédio
amar é isso de perder
perdem-se os fios de cabelo
perde-se a pele, mordida
o íntimo mexido
tudo se move
tudo sem ti em ti se movimenta

eu acredito
que você possa acreditar
que isso entre nós dois possa
vingar.

vingar a quem?!

eu acredito que você acredite
que a gente possa tirar um cochilo juntos.

hoje
isso
para
mim
é
tudo.

algumas palavras sobre o nó que em mim desatou

achei que nunca acabaria.
depois percebi que eu mesmo impedia que o fim se desse.
é estranho, é confuso, é difícil
eu que tenho essa mania de fazer terapia só comigo
eu demorei a entender que, por vezes,
era eu mesmo o autor desse meu mau estar
e não você.

você veio
você em mim ficou
mas você foi
você partiu
logo
você por mim passou.

como um suco de laranja que acaba
como uma volta na montanha russa uma única vez brincada
você passou
e se tudo passa (e passa mesmo)
por que te reter em mim
se você faz parte do tudo?
por que te deter em mim
se eu mesmo estou passando
morrendo
vivendo?

sei que resta alguma coisa.
resta uma saudade
uma saudade do corpo nunca antes tão encaixado.
sim, sobra uma saudade
mas a saudade é também fato
e como fato faz parte do tudo
tudo passa novamente
e mesmo a saudade
que antes me matava
agora voa
longe
cada vez para o mais longe.

sobrevive algum orgulho
alguma ira
alguma coisa em mim que não me permite abrir os braços
e receber sua pomposa crina.
resta em mim algum desejo sádico de te fazer pagar
pela merda que você fez de nós dois.

mas aí passo o tempo
eu estou dizendo; tudo passa!
passa o tempo e veja
você perdeu a graça
você quer tomar uma cerveja
eu não tenho nada para te dizer
meu sorriso não mora ao seu lado
quem eu sou hoje já não inclui mais você.

mas eu vou
porque não sou besta
vou porque mesmo não te amando mais
você em mim ainda faz presença.
difusa, talvez
presença ruim, provável
mesmo assim, eu me digo
deixe! deixa que ele chegue
deixe que ele te invada
mas com limite
com prudência
hoje com você sobrevivo na aparência
de uma paz que não quero mais trocar
de um cuidado que é só jeito
de um acordo que é só solução.

desse jeito assim eu te deixo
para embarcar noutras embarcações
tanto amor lindo e retinto
me chamando ao jogo
e eu ainda aqui?! refém do seu abandono?
não, cara
não mesmo

deixo-te próximo a mim
como quem nada quer
exceto resgatar a si mesmo
deixo-te como me deixaste
sem culpa
sem ira
sem orgulho

é só que depois de tanto desamar
o que me fica é só você, despido
e assim, desse jeito, já morto o meu desejo por ti
o que vejo é tão pouco
o que em ti existe para mim é tão pouquíssimo

então
assim vai ser
vamos beber, vamos rir, vamos fingir
sem mentiras
mas com fingimento
fingindo que a vida nos deu outra chance de sermos nós mesmos
mas eu pergunto:
alguém está se sendo?
você está?
estou eu?

não sei.
acho tudo bobeira.
tenho mais o que fazer.
a sua existência - e isso não é amor -
me desinteressa.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Resto eu

Num táxi
Vendo o mundo a fresco
Resto com pernas cruzadas
Mas atento à correria
Assim me vou
Assim eu fui
Atirando palavras
Sonhando ações
Cansado do título
Eu hoje sou eu sem maiores complicações
O cansaço mora dentro
O sorriso salta fácil
O sono, quando contemplado,
Me faz ser pedra sem embaraço.
O amor vem e vai sem que eu sinta falta
Tudo opera
E estar vivo é mesmo muito menos
Do que se espera da vida.
Vida sem graça constante
Via estradas com quebra molas
Meus dentes
Aquele enjoo
O súbito suicídio de mais uma
Ou um
Aquela pedra no asfalto
O mar que me amedronta
O céu quando eu o olho
E a certeza de que meu verbo existe
Para te dar esperança.

Hoje talvez eu pudesse existir só
E assim.
Mas não é verdade que eu reste
Enquanto houver qualquer outro um
Próximo a mim.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Dúvida

Não sei se não te amo porque meu parâmetro do que é o amor seja outro.
Ou porque talvez eu não te ame mesmo.

Como saber?

Julieta

Ei,
Olho fundo no abismo dos teus olhos.
O amor que sinto por ti
É o mesmo que o que sentes por mim.

Riuva
Fina
Leve e forte.

Sua cor foge ao nome.
Sua fome nos excede.
Seu cuidado
Essa palavra, o cuidado
Te contorna

Em traços que me perdem da dor
De ser quem fizeram de mim.

Morro por amor
De amor, amando, me afago
Me afogo.

A sorte que há na vida
Mora no piscar do seu sorriso.

Minha luz
Meu fim
Meu princípio.

terça-feira, 5 de julho de 2016

el gay guia

sabe essa modinha escrota de a cada dia recebermos a notícia de um gay assassinado? queria dizer uma coisa: a cada morte nasce mais um punhado de vida gay. a liberdade é coisa que se conquista e que custa muito caro. custa ser honesto, primeiro consigo mesmo. e ser honesto é façanha tremenda para uma época em que impera o cinismo e a corrupção. basta ser honesto consigo mesmo para que venha esse mundinho cafona te exigir alguma explicação. não entendeu, mundinho? então desliga essa televisão. vai perguntar ao vizinho. pergunte ao seu filho. pergunte olhe e escute com bastante atenção. porque não acabou. esse jogo não tem volta. é guerra? desde quando não foi?! afirmar a si mesmo é a primeira condição para ser humano. e esse bicho aí que mata porque teve a asa podada e inveja quem sabe voar; esse bicho que mata sem ouvir nem perguntar; esse bicho que mata já não é gente faz tempo. de pragas ameaçando a humanidade a história foi se vivendo. não vamos podar asas, não vamos calar desejos, não vamos vetar nem censurar nosso corpo, não vamos porque já assim fomos por muito tempo. é como diz caetano: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. pobres dos diabos que buscam na dor dos outros a ilusão da delícia de ser alguma coisa. assassinos é o que vocês são. só isso: assassinos.