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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Meninos meus

É que hoje me bateu como estou distante de vocês. Vocês aqui, correndo, e eu parado, perdido mesmo no centro. Eu sou o eixo dessa rota centrípeta, meninos. Mas a graça não está em mim, eu sou poste, vocês são alegria. Eu inerte sinto segurar toda essa sua pretensa rebeldia. Caras, eu estou parado, inevitável, ou olhando para vocês ou somente com os olhos fechados. Ou vocês ou a escuridão. Meninos, para mim não restam opções. Ou os vejo, ou escureço. É confuso. Vocês ao mesmo tempo sempre vão girar, e eu me enjôo, eu preciso às vezes me afastar. Então escureço. E dentro de mim, eu no escuro, eu adoeço. Eu começo a não saber como me ser. Eu me confundo de tudo. Eu não me posso sozinho ser. Daí abro os olhos. E vocês estão ali, meio cansados de tanto girar. Eu percebo. Que o seu cansaço e a minha renovação não combinam. Penso que eu deveria ter espiado, aberto os olhos com calma e paixão, para ver como vocês se divertiam naquele verão. Eu me pergunto se vocês não me perceberiam. Mesmo sem nada falar, me pergunto se em vocês há algo meu que me faça em vocês brilhar. Sempre denunciando a nossa recíproca paixão, um no outro, nu para o outro. Sempre. Daí me perco mesmo quando escureço. Me perco mesmo. E volto, posto sejam vocês meu eixo. Meus filhos, meu fim, meus começos.
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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O Ponto!

Estou aqui. Diga. O que você quer me dizer?
Bom, primeiro, fico feliz que tenha aceitado o meu convite.
Certo. Só, por favor, não vá me dizer coisas sobre amor, sobre paixão... Entende?
Não. Quer dizer, não era bem isso que eu queria te dizer.
Ótimo. Então diga, porque se não é isso, deve ser algo bem diferente.
Não. Quer dizer, não necessariamente.
Você está enigmático demais. Isso me faz pensar coisas que eu não devo. Anda!
Certo. Bom. É que eu não acho mais.
O quê?
Eu não acho mais que pode existir algo entre eu e você.
Eu disse que não era para falar sobre amor essas coisas e tal.
Mas não é. Eu não te amo mais. Acabou o carnaval.

Uma serpentina desce rolando todo o interior da menina. Enjôo.

Não é amor?
Não é amor.
Eu pedi que não falasse sobre.
Eu não falei. Até porque, se para mim acabou, isso está mais para desamor, para desafeto...
Mas então acabou?
Acabou. Não é novo? É outra coisa que não o mesmo... Você não acha?
Eu não acredito.
Não acredita?
Não. Não consigo.
Faz um esforço. Tenta olhar lá na frente. Tente se imaginar sem mim.
Sem você?
É. Sei que é difícil, mas é mesmo como vai ser. E depois, ainda mais lá na frente...
Você vai sair daqui?
Eu vou. E mais lá na frente, nós dois sequer lembraremos que um dos dois esteve aqui, junto...
Você vai sair de mim.
Eu vou sair, vou sim...

No estômago o ácido clorídrico (HCl) rompe a constante serpentina. Ela agora é um embolo, um bolo alimentar, um corpo em serpetina. Oscila.

Eu não consigo escutar sua voz e depois sentir o ponto. Para mim você fala suas metáforas...
Não são metáforas...
E no final das contas, sou sempre eu quem sobra em abandono. Eu quero ouvir o ponto.
Ponto?...
Ponto. Final. Que seja de exclamação. Quero ser estanque. Fim que acaba mesmo. Com revolta. Com ódio dos sexos. Alimentado pela vontade de matar o outro a qualquer instante. Vai! Cria em mim essa necessidade de você. Mas pelo inverso. Pelo inverso, cria em mim um placar, um protesto contra o seu corpo. Me faz acreditar que se eu ficar ao seu lado é aí que eu morro. Vai!
Eu não sei...
O ponto.
Que bobeira...
Vai! O Ponto!
Que ponto?...
O ponto final!
Eu não tenho, não sou eu quem vai te dar isso... O ponto vem com o tempo.
Com o tempo vêm os segundos.
E com os segundos vem o fim.
O fim?
Sim.
Concreto assim?
Concreto, sim.
Eu posso ouvir...
O quê?
O ponto em cada uma de suas colocações...
Ouve?
Ouço, sim...
É até onde chegamos, juntos, sim.
Juntos?...
Agora não.
Agora não?...
Não. Agora, não mais.
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CORDAS

doce grave azul doentia
tudo o que você me diz vem em mim e se eterniza
feito são com as rimas
que colam no corpo e fazem o sorriso nascer feliz
o sorriso nascer sedento
sal doce amargo ao vento sabor
eu te toco e nunca sei de cor a cor
eu nunca sei o que virá a seguir
porque em você nada é possível
nada mesmo se prediz
fica ficando fatiga fazendo planos
que amanhã o piano a gente junto vai tocar
puxa remexe ousa usa assuma isso incapaz de controlar
deixe deixando deixar deixou a deixa
persiste menina menino barão ou condessa
que o sol vem mesmo para todos
o sol vem mesmo, para todos eu canto a canção
dos dedos do dedão do desatino da desconcentração
eu me perdi nos seus olhos eu me achei
eu me olhei na perdição e em você eu me fiquei
assim desse jeito nessa forma com este semblante meio ao meio
partido partindo permitindo partir o processo
você reverbera em mim faz um eco do tamanho desta noite
mais uma vez que rima é essa incapaz de fechar
rima incapaz de morrer sintoma sintonia sinestesia
aplausos.
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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

De falar a mesma coisa

Você quer falar do quê? Perguntou o professor.

A criança sentada não sabia o que responder. Tentava dentro dela mesma se dizer "não é preciso falar sobre nada, não é preciso ele não vai perceber". E do lado de fora o professor insistia, com uma veemência acadêmica "Do que você vai falar? E mais, vai falar por qual motivo?". E ela, a criança, sentada, sentia-se mesmo sentada sobre um abismo. Um poço da incompreensão. "Diga!" ele disse gritando gentilmente. "Diga, agora é a sua vez, todos nós já fomos bastante pacientes, não fomos?". E a criança olhou a turma que devolveu à ela o seu olhar de prostração. Como podia todo mundo estar parado esperando de mim alguma conclusão?

Olha, gente, eu não sei nada. Eu queria descobrir, mas quando você me disse que era para pensar de dentro para fora, foi nesse exato momento que eu me perdi. Eu me perdi porque tudo aqui dentro tem mais peso, mais sabor, dá mais volteios. Tudo aqui dentro de mim é maior e se é menor eu me perco mais rápido porque percebo logo que eu mesmo não me basto a mim. É confuso, eu sei. É confuso sim. E a turma estática. Ninguém dizia nada. O professor começou a andar de um lado para o outro da sala. "Não vai dizer nada?" falavam seus sapatos batendo no chão meio sujo de pó de giz. "Nada mesmo?" era a dúvida que não calava era a dúvida persistente, dúvida desesperada.

Nada, dentro da criança apenas nada conseguia se proliferar. Foi quando outra ergueu a mão e furou o momento. Outra criança do mesmo tamanho talvez com os mesmos tormentos ergueu a mão e cancelou o inevitável. Sim, disse o professor, alguém quer te perguntar alguma coisa e veja agora se é possível responder. Lembrando que não importa o certo ou o errado, importa antes o que você sente, o que sai de dentro de você. As crianças se olharam. A de pé, trêmula. A sentada, trêmula constante. No olhar algo se dizia a todo instante, elas dividiam a alma era explícita a comunhão dos seus semblantes.

A criança erguida falou "Eu também tive dificuldade quando o professor me perguntou. Mas agora vendo do lado de cá, eu me sinto melhor para falar sobre aquilo que no final das contas nem eu nem ninguém falou". Mas não está na sua vez, advertiu. Sim, professor. Não está, mas se ela se sentar aqui e eu lá, talvez daqui ela consiga nos falar. O professou fez uma cara que não sei descrever. As crianças gentilmente trocaram seus lugares e a turma respirou uma renovação incapaz de se prever. Sentaram-se, as duas, cada uma no lugar da outra. A criança erguida agora era alvo da turma, algumas outras pensaram "que criança louca!". A que estava sentada, sutilmente espremida pelo seu silêncio, agora movia-se mais facilmente sobre a carteira, em meio aos outros seres como ela.

Foi então que ela falou. Eu quero dizer, quer dizer, é que para mim isso que vem de dentro quase me atrapalhou. Não é porque não tem nada, tem. Mas é porque é difícil falar das coisas que a gente não sabe o nome. Como se faz, professor, quando a gente não sabe o nome do que tá sentindo? O professor respondeu gemendo seu costumaz sorriso. Ele também não sabia, pensou a criança recém-libertada. A outra sentada na mesa do professor era como se estivesse congelada. Incapaz de suar, incapaz de sair do foco, de sociabilizar. Então eu pensei que talvez fosse legal, fosse sincero, inventar um nome. Um nome a gente pode inventar, não pode? Para dizer sobre as coisas que não tem nome ainda? Não pode?

Foi quando o professor descobriu que faltara numa das aulas anteriores explicar o verbo amar. As crianças ali perdidas queriam um nome para aquilo que as tirava do lugar sem tirar. Para aquilo que as oprimiam sem sequer apertar. Foi ao quadro e pediu que a criança em sua cadeira estatizada voltasse ao seu lugar. Escreveu em letras garrafais A - M - A - R. Alguém sabe o que é isso?

As crianças sorriram. Ninguém outra vez se permitiu falar. No sorriso porém foi visível tudo aquilo que eles temiam confesar. Vocês foram pegos pela cilada do amor!, esbravejou o professor. Professor, o que é cilada? E de imediato, outra logo em cima perguntou, o que é amor, professor? Ele então disse vocês não se lembram daquela palavra que estudamos na aula anterior? Aquela que classifica as palavras que se parecem, mas que são diferentes?

Simônimo? Alguma criança gritou!

Sinônimo, corrigiu o professor. Sim, assim como é cilada, assim como é amor. São palavras que dizem o mesmo mas pintadas de outra cor. São diferentes maneiras de falar a mesma coisa. Escrevam em seus cadernos, por favor. Ele começou a transcrever no quadro o que era o sinônimo, usando cilada e amor como exemplo. As crianças de imediato abaixaram as cabeças, mas no meio delas uma cabeça de pé se destacou. Assustada, a criança que a aula em silêncio começou, agora em silêncio se aprisionava, tentando aceitar que a cilada dentro dela talvez não fosse só cilada, talvez pudesse ser amor.

O sino do intervalo tocou. Próxima aula, vamos estudar os antônimos, disse o professor. E saiu, deixando as crianças perdidas no silêncio que a sua descoberta provocou.
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domingo, 23 de agosto de 2009

segundo ATO

passou a chapada a face
o que vem a seguir é o pause
esse silêncio quieto assustador
onde avanço eu meio trêmulo
até ao encontro da sua dor.

passada as faces desenhadas
o lápis na minha mão é agulha
é navalha
nada poderá ser o mesmo
agora que o sangue escorre
descendo os andares.

estávamos no alto quando começou
estávamos no topo, disso eu sei
agora eu sou
algo preso no meio
algo contido
sendo no abrupto
singelo voador sem asa
mosca doente sem destino.

ficamos os dois ali parados
sem saber nenhum dos dois para onde ir
para onde vamos?
você no meu percalço
para onde ir?
você querendo saber porque eu canto quando estou assim
em desespero.

ficamos em mais um segundo
o silêncio endurecendo o caminho
ficamos seguros incapazes
um ao outro de sorrir
menino e menina
no tempo aprisionados
menino e menina
no espaço confinados

e se fosse possível voar?
estaríamos diante de uma janela
não dentro do elevador.

silêncio.
treme a luz.
ruído.
desce o elevador.
.

serra

mais alto mais frio
sinto na espinha
traduzir não é preciso
mais dentro mais quente
sinto aqui na mão
o teu corpo, saliente.

eu voltei.
eu cheguei de volta
de novo eu aportei

e o que pode haver de mais novo
o que pode haver de imprevisto?

eu te olho você me olha
eu em sonho te absurdizo
eu te absurdo em posições
impossíveis
mas sinceras
se tem uma coisa que nos marca
é a sinceridade exarcebada
você falou

acho que chega.
eu disse, acha?
você falou não, chega de verdade
eu disse ainda é inverno
você disse vai passar
eu quis saber passar o quê
isso entre eu e você, falou
eu fiquei pensando que era inverno eu pensando que o inverno passaria mas não
vai passar como se nada tivesse havido
vai passar como brinquedo do menino, substituido pelo novo
substituído de novo pelo novo de novo pela novidade que sempre, perdão, mas seduz o menino
sim, somos seduzíveis
sim, vocês são
pelas coisas mais mortais, falei
por elas vocês se abandonam, em vão, falou
eu vão fiquei

como podia ser assim tão pouco compartilhada?
como podia ser assim tão independente
tão sempre armada?

olhei de novo
olhei nos olhos
eram olhos meio cheios meio ocos
não saberia dizer, mas no olhar eu previ
eu previ o que iria acontecer

disse para mim mesmo
serás amante para toda a eternidade
serás amante para toda a eternidade

e me virei confuso
saí batendo os tamancos
ela ficou parada
provavelmente
logo depois se dispersando

afeto!
porque duras?
porque me aprisiona?
porque és meu e sequer me obedece?
quero logo que tu morras
para suprir teu desespero por outra agonia
outra que seja nova
outra qualquer na esquina

eu me seduzo fácil pela novidade
e hoje estamos tão inventivos
eu não devo ficar só até muito tarde
daqui a pouco algo vai surgir
eu sinto eu sei eu sinto

vai surgir
e quando o for
eu saberei
ela tinha razão
passou como tinha que ser

passou porque eu soube deixar passar
a dor não é só minha
ela é maior
ela é do mundo.
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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

a paz

pare de correr, eu não consigo ver seu rosto
pare assim de tanto revolver, que por entre essas coisas eu acabo encontrando um osso perdido
de um corpo movido à terra
e incapaz hoje de dançar seguro
olha, se não fosse você, eu não sei se daria certo
mas como é, eu peço que pare de se mexer tanto assim
pare, vai ser para o nosso bem
eu não consigo ver seu rosto
eu não consigo ser escroto
e te dizer aquilo
que aqui dentro ainda pulsa

porque é tão difícil falar nessas coisas
tão difícil sempre te tocar a coisa nua?

mas pare de correr, mesmo assim
eu preciso de um lampejo que seja um flash
eu preciso te precisar e você correndo me aborrece
portanto, fica!
que eu desenho seu semblante agilmente
eu te converto em arestas em linhas em curvas
feito você assim não tem como se aborrecer
porque serás de papel
serás enleio
serás meu recreio sim
é o que preciso
triunfo
agonizo por.

um vazio nestes dias
uma sensação de conforto
às vezes estamos tão cheios
que o silêncio mesmo é bom
o silêncio mesmo é duradouro
e nada se atreve a ser amanhã
porque nada se atreve a falar alto
mas diz
em outra confirmação
diz aquilo que já sabemos
mas que as pessoas aqui não sabem
não
precise o que achar necessário
delimite o espectro deste lastro
seu, humano, imundo, seguro
que eu preciso

a paz
a paz não é brincadeira de meninos
não não é
não é sequer recreio
a paz
é passado passado constantemente
passado eternamente para jamais vir a ser
pleno vestido
jamais ser noiva noivo
jamais ser destino.
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domingo, 16 de agosto de 2009

Sutilidade

Alguma delicadeza, foi o que ele pediu.
Ela, então, disse: as folhas também têm pele.
Alguma sinceridade, ele falou.
Ela disse eu não sei se as palavras têm acento ou se não tem.
Algum medo que seja ou pavor, ele disse.
Que os segundos se convertam em séculos, ela sentenciou.
Inevitável.
Olhar.
Impraticável.
Te amar.
Silêncio.
Esperar.
E a cura
É durar, persistir
nas poças
Sim, nelas se esbaldar.
Dança comigo?
Eu não sei dançar.
Eu também não, mas dança?
Acho que podemos tentar, mas
se eu não pisar nos seus pés em menos de cinco minutos
Bom, aí eu não danço mais.
Combinado.
Vem.
Mãos nas mãos.
Olhos nos olhos.
E o que eu faço com essa fábrica dentro de mim, movendo engrenagens?
Deixa tremer, deixa funcionar. Vai te ajudar a pisar nos meus pés, sem me machucar.
Pisar sem ferir
ferir para amar para expor para encontrar o íntimo e assim
Dançar, você disse
Dançemos, vou dizer
diga
diga você
dançemos
dançemos
.

sábado, 15 de agosto de 2009

mecanismo

como eu posso fazer
para te chamar a atenção
sem te deixar me ver
talvez eu deva me mover
tão rápido quanto a própria luz
talvez assim
você não me veja

eu sinceramente
especulo a nossa sorte
os acidentes, eu revolvo ao seu redor
na velocidade destas palavras
refletindo o seu reflexo
mas você não me vê
você não me vê
eu sei que não eu saberia
mas você não vê

essa luz, essa vista, essa visão
que permeia o nosso encontro
mas você sequer viu alguma coisa
nem poderá ver
nem esta bela vista
que se prolonga sem medo até não mais dizer
brilhando tão clara
capaz de cegar
brilhando de graça
capaz de aumentar
isso que eu sou para você
e inda mais o que é você
para mim

na velocidade da luz
refletindo em nossos olhos
você agora se move de maneira rápida
de maneira irresistível
sem me ver
nem me ver você avança
para os cantos desse redor
no qual agora
sou eu seu centro
eu não te vejo
e não compreendo
mas algo brilha nessa confusão
.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

7:17

algum tempo, não para muita coisa, tempo para nele se perder querendo se possível achar
o dentro que está perdido
o ânimo que falso esconde o que eu preciso neste instante
encontrar
eu me sento numa loja, dessas de comida expressa
eu me sento sempre me sinto a esperar
o que é que vem lá na frente que eu não consigo delimitar
eu me sento e espero
alguém pode ser que me venha ajudar
tempo
sinto o sangue correndo, meio faminto, meio correndo em desespero
tempo
continua a correr quando será que vai parar?
sua voz vai desenhando entre agudos e graves aquilo que não sei descrever
pois nasci ao meio sob o frio e o calor sob a alegria e o desespero
o que pode haver de distante
o que pode haver além disso
eu não sei
tempo
esperando quem sabe eu vá aprender
tempo
que passa, inevitavelmente
você me vê?
é que eu nasci par
eu nasci preso querendo soltar
eu nasci solto querendo pregar
como posso agora aceitar esse desejo louco (é louco?)
de estar meio uma coisa um pouco meio outra?
não posso
mas não poder não invalida
o poder
eu posso
eu sou aquilo que não posso ou quero
eu ser, eu sendo, eu sejo, eu mantendo em mim
essa configuração esquisita para um ser
a moça outra dia me parou no meio da avenida e perguntou
menino, porque você chora?
eu fui responder e meu ônibus passou.
então eu dei um tempo
e ela frisou
porque você chora?
eu disse eu choro porque meu ônibus passou
ela ficou confusa
sem entender se eu tinha respondido
ou não
o meu tempo acabara
eu desci à estação
sem sequer descer do ônibus
eu ali parado
parado
como quem espera a comida chegar
eu ali vazio me saciando do meu próprio ar
tá sujo aqui!
disse a senhora velha no meio da avenida
eu disse sem pestanejar
são seus olhos
ela me disse
eu já não posso enxergar
foi quando percebi que a sujeira sobrexistia
era impossível contornar.
tempo
espero na estação
espero o tempo chegar
descer a escada da condução
e trocar comigo de lugar.
vou ser ponteiro
vou ser algum destino
vou ser alguma agonia
vou ser pelo acúmulo
vou ser menino ou menina
vou ser bocejo
recalque
melodia
disparate
vou ser vou ser
vou ser vou
ser vou ser
.

movivento

será mesmo que eu me perdi, ou fui me perder para me encontrar? às vezes a gente se cria certas situações que é difícil sustentar. é difícil. mas o corpo persiste, não se permite falhar. e mais uma vez vou eu ser um outro ou será que vou mesmo é me reafirmar? no final das contas, eu sinto que talvez sendo outro eu seja ainda mais esse aqui que eu sou. é na sua dor, na sua virtude, que eu aumento meu corpo, que eu dilato a alma e vou dormir naquele dia mais potente. e se eu amanheço feito hoje, inoperante, eu penso um segundo nesse outro corpo que posso ser e começo a tremer. eu aqui tremendo indico a mim mesmo o caminho desta vida. ela me devolve a mim, ela em mim se recria. que confuso isso de representar. eu represento em mim eu tento ou eu mesmo apresento aquilo que sei atuar. meu corpo é caneta corrida, que precisa riscar. o corpo só precisa assinar da forma que for aquilo que ele teima em repetir, em repetir, em evidenciar. é capaz de amar. é capaz de ser ódio puro, genuíno, isso é preciso mostrar. é capaz de ser egoísta, de ser criança, de ser complexo, de ser ridículo, de ser protesto. é capaz, corpo meu de ser qualquer coisa nesses anos todos. e se hoje eu me olho, eu percebo nítido, fui muitos num tempo muito pouco. a adolescência marcada pelo afastamento de si, para um distanciamento que volta sempre a mim. que incrível isso. talvez seja um desejo-ofício que me faça ter orgulho. me faz ter orgulho. é difícil administrar. é difícil fingir ser outro quem é que pode nisso acreditar? mas somos poesia. eu antes havia negado, mas agora justifico. eu sou poesia porque não paro. o meu movimento antes concreto agora é puro movivento... e de tanto me mover, inevitável, vou vivendo...
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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

olha eu preciso começar

não é ele. sou eu. a coisa é comigo, pode até ser com mais alguém. mas eu falo de mim. do específico quem sabe você lerá o mundo todo, mas agora, aqui nessa casa, convivendo com o transtorno, sou eu, só eu e meu corpo. olha, eu preciso começar. de alguma forma, errando no início no meio ou enfim, seguindo a qualquer custo. eu preciso acreditar logo que a perfeição ela não vem isso é injusto. me disseram, lá atrás, nem sei quem foi, mas eu acreditei, nisso das coisas belas e puras e incríveis. elas não existem, não nesse mundo. aqui é por suor sangue e lágrimas. aqui é por desejo é por vontade reincidente é por desastre da alma. não vou passar a vida correndo ao impossível. torno agora a impossibilidade em viés. vou deslizando pelo inacreditável e grito ainda no final eu fiquei incrível. com tamanha ousadia dos ossos, com tamanho orgulho dos cabelos oleosos. não dá para ser alguma coisa que não existe. não tem como eu ser o que em mim persiste feito imaginação, feito inativação, feito pausa, stop, vislumbre, tropeço, indefinição. a poesia comporta o mundo, mas eu, eu preciso começar, eu sou concreto, eu não sou feito de versos nem de rima nem de aliteração. de metáforas não se sustenta meu estômago, ora quiçá meu coração. olha, eu preciso começar. a construir pelo concreto alguma encenação. a desenhar a vida disposta sobre outra sempre outra condição. mas o inventado vem pelo esforço. nenhuma ficção é tão distante assim do real. ora eu preciso começar então que seja com as mãos. que seja com as mãos. o que virá a seguir, eu confesso, nem eu sei. nem sei. nem eu. nem ninguém. ainda não é permitido o saber. exceto aos poetas. pois que eles digam, então.
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terça-feira, 11 de agosto de 2009

Um adeus para Cecília

Não. Espere. O corpo me diz ainda algum silêncio. A porta se abriu. Tenho medo. Vá medir, com seu instrumento. Foi naquela noite. Ela me disse, o que é isso. Desde então eu não fiz outra coisa a não ser perguntar. O que foi? O que foi eu não sei, mas por quê? Eu também não saberia. No corpo uma persistência vaga. Como pode ser uma persistência tão vaga? No peito uma persistência persiste na boca um gosto de medicamento no centro um peito no peito um centro... Adeus, Cecília. Jamais outra vez vou saber dizer o seu nome. Jamais outra vez vou dizer. Certo. É certo, porém, dizer. Não jamais. Não vou ser. Nem estar, permanecer. Seu amor é fatídico. É fastio festim vestido num alvorecer. Ai, como dói crescer. Como dói dizer que acabou, mas assim, pode até ser... Acabou.
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Um sorriso para Lucilia

Apenas um sorriso. Não precisa explicar. O fim pode ser o começo. Era o que diziam. Era o que diziam. Não quero usar algumas palavras. Não quero usar. Quero você perto de mim, me ajude. Eu estou trêmulo como a noite. Eu vou dormir, mas não sei acordar. Não sei o que colocar sob os pés. Não sei sequer como andar. Vem me buscar, vem... Vamos começar tudo de novo. Sem medo, sem receios, sem receitas. Apenas um sorriso. Isso. Enfim. Sem medo. Você gosta de mim? Eu gosto. Pode ser. Posso. Pode.
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Uma receita para Estela

Empanado de Frango.
100g de farinha de trigo.
Misture tudo até o fim. Eu mordo um pedaço. Foi o que trouxeram até mim, um pedaço de empanado.
Gergelim por cim. Em agosto, a um ausente. O que fazer, que filme, o que dizer, como assim ser.
Uma aliteração rompe o destino. Não sei ser sem lhe dizer o preciso.
Diga.
Não.
Diga!
Não sei.
Diga mais.
Mais o quê?
Não sei.
Nem eu.
Nem você.
Diga.
O quê?
Nem sei.
Vá dizer.
O quê...
O qual...
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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Uma música para Ana

A minha voz fraqueja, mas eu preciso tentar. Eu preciso curar, isso que aqui ainda é espasmo, tentativa arrastada de se continuar. Estou de peito aberto, os tiros já não me podem furar. Tudo aberto, eu me pergunto agora o porquê de você não querer entrar.
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Deixo que toquem este violão. Que teclem este piano. Este corpo seu que hoje não está aqui, eu deixo ir. Eu deixo partir, eu tento pelos segundos escrever de novo a minha necessidade de ti. Eu tento ir nisso compreender o que está impossível, eu devo dizer, impossível.
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Venha agora. Pela noite, pelo vento, venha a qualquer custo em qualquer hora venha neste momento. Eu preciso. Eu resvalo este silêncio eu o pingo, feito o café neste exato instante, sendo feito, sendo filtrado, sendo criado. Uma obsessão a conta gotas. Onde cada pingo sinaliza o desespero, que se constrói mais e mais a cada dia sem você.
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Aberto, eu estou, joelhos, preciso de ti. Onde estou? Ana. Onde estou? Ana, me escutas? Estaria eu no ar, voando voando voando sem te encontrar? Sim. O amor é o fim. Foi onde chegamos. Onde eu estou. Onde estou e que talvez seja onde não quero estar.
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Uma música para ti, uma música que resvale e me faça acreditar, Ana. Acreditar no impossível. Acreditar, nas reticências. Deixe tocar, deixe repetir, deixe-a cicatrizar.
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sin.es.tesia

eu acordo. eu não sei ainda, mas estou no limiar. eu estou meio consciente e bem insconsciente. alguém me ajuda? não. estou só, por isso aguente esta eternidade. ando pela casa. lembro de ir até a janela. a cama me espera. eu volto. eu levanto. eu ligo esse som que parece me dizer aquilo que eu começo a ditar. pra você admitir... pra perceber... que você me adora... confuso. eu fico. é essa a minha existência nesse momento. aí embaixo eu escrevo pedaços de coisas que pela metade eu fui sentindo aqui dentro. como pode ser uma existência assim tão desfacelada? não sei. eu sou. eu sinto. eu sejo. eu vou e daqui a pouco o açúcar corre o corpo, eu deitado sempre deitado, mesmo de pé, eu vou normalizando, vou entendendo o que fiz, relembrando o que te escrevi. vergonha. digo coisas que eu não diria assim tão claramente se estivesse normal, pleno, existente. eu precisei transitar entre esse ser e esse estar, eu precisei cambalear para dizer que sim eu penso em você. ui. ai. oh. oh my. ah. não espere eu ir embora, porque eu não vou ver. fique comigo, meu eu. fique comigo e juntos vamos tender a compreender. que vontade é essa de desplugar. que desespero bonito é esse de se falecer dançando o próprio corpo. que eufemismo é esse que de tanto tombares faz no tombo a própria rima faz no corpo a própria enzima que te catalisa, que te cataclisma, que te calcifica e transtorna o sentido em sinestesia. em sinestesia...
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domingo, 9 de agosto de 2009

on my ........................................................






and the............. and there evevere there an...........................


and everyrything i am therheyh.,,,,,



!!!!!!!!!!

sábado, 8 de agosto de 2009

estanque

tudo aqui escrito é incerteza.

as palavras servem para se perder,
nenhuma delas é certeira.
tudo aqui assim exposto cheira a medo
tudo aqui exposto é um começo
que não tem fim
tudo aqui que morre
é porque não nasceu, enfim.

eu parei um segundo nisso pensando
certas coisas aqui não se colocam
porque são concretas
e meu sono vai distante com o peso das certezas expressas:
eu durmo feito peso de papel
sob o corpo as linhas com vírgulas pontos parágrafos
são incapazes de alcançar voo.

eu parei um segundo mesmo, foi coisa rápida
fiquei pensando que aqui
neste espaço
há só o que me retalha
há só o que tira o sono
há só esboço esboço esboço
dessa estrada

que não vem
que nem termina
esboço dessa vida
que no próprio viver
se azucrina.

eu estou um chato
melancólico
mas ainda assim
chato, perdido,
enjoado.

dentro, incapaz de saltar
enjoado
incapaz de curar
com medo
incapaz de saltar
saudoso
incapaz de escapar.
incapaz de escapar.
incapaz de estancar.
de estancar.
.

verbo transitivo sem objeto.

quero cruzar esta noite sem chorar.

não tenho motivos para chorar, mas dentro um pranto me renova
quero ser uma outra coisa
quero ser outra agonia
certo de que o amor é sim
ainda o fim.

que tristeza é essa que vem feito onda?
que correnteza é essa que arrasta
e me cansa
e me sinaliza
olha você todo errado no meio dessa dança.

eu tive medo de morrer.

de ir sem certas peles.
de ir sem certas preçes
a se inventar
a se conquistar

uma tristeza sem nome
(tristeza é ameno
transtorno é pulsante)

um vazio
mais outra vez
os ombros negam os braços
o corpo reluta
é colapso

fica
ou vai
ou ausenta em mim
qualquer responsabilidade
que exija de mim
o ficar,
eu vou
ausente deste corpo
seus fios seus pêlos seus amores
seus nossos meus
batimentos

quero chorar
quero secar
quero dormir
quero acordar.

me dêem força,
acho que posso aguentar
é depressão momentânea
sobretudo, eu quero
quero aguentar

porque eu amo
alguma coisa algum alguém
algum passado algo que vem

eu amo
o desconhecido você que se anuncia

eu amo
por isso te escrevo
"perdão, nem me despedi direito de você"

eu amo
porque pode ser que nisso eu venha a salvar este ser
confuso agora
obtuso
moído

ser sem leitor
sem ser querido
ser sendo sejo
sem ter sequer ensejo
eu avanço
sobre nós me volteio

eu tô perdido, você não vê?

eu não quero outro compromisso
eu quero sobrar
eu quero sobrar
eu quero

verbo transitivo sem objeto.
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quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Aglomeração

Bartira e Viviane conversam no intervalo da aula de Física.

Viviane - E aí, como foi lá?
Bartira - Lá onde?
Viviane - Ih, adoro quem se faz de boba.
Bartira - Ah, tá, entendi. Ué, foi legal.
Viviane - Gente, você é única nessa minha vida.
Bartira - Olha o escândalo.
Viviane - Bartira, meu amor. Você é a única que eu conheço que vai num lugar desses e fala que foi legal.
Bartira - Mas foi legal, só isso... Eu fui pra olhar.
Viviane - Ah, meu deus. Você foi pra olhar? Isso foi o que você disse pro seu pai, eu imagino.
Bartira - Não. Eu fui pra olhar, mesmo. Primeira vez. Quis só olhar.
Viviane - E o que mais você viu?
Bartira - Olha, eu não vi muita coisa...
Viviane - Tá vendo? Eu não disse? Foi só pra olhar! Só pra olhar e não viu muita coisa. Você tá descompensada.
Bartira - Vivi, olha o escândalo no meio da muvuca.
Viviane - Tá. Escândalo. Certo. E por que você não viu muita coisa?
Bartira - Porque tava muito cheio.
Viviane - Ora, mas isso é óbvio. Quanto mais quente melhor. Conhece?
Bartira - Pois é...
Viviane - E exceto você, ninguém mais tinha ganhado um ingresso... Todo mundo era pagante!
Bartira - Eu sei, eu sei...
Viviane - Isso quer dizer o quê? Que calor custa dinheiro.
Bartira - Mas mesmo assim, tava muito cheio... Eu fiquei com medo...
Viviane - De ser estuprada?
Bartira - De ficar gripada.
Viviane - O quê, Bartira?
Bartira - Ficar gripada.
Viviane - Bartira, na boa, você tá descompensada. Eu tenho certeza.
Bartira - Imagina! Toda aquela aglomeração, a umidade...
Viviane - Meu deus, era uma casa de swing. Você queria o quê? Que as pessoas fossem obrigadas a ficar pelo menos um metro longe uma da outra? Ah, não fode!
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terça-feira, 4 de agosto de 2009

já és toda você senhora indiferença

ei, senhora. não me olhe com esse olhar cansado. não é porque já viu tanto e talvez até tudo que é possível o mundo explicar. nesse segundo em que eu te vi e que você me olhou, vi também tanta coisa horrível de ti se despregar que foi preciso sair. ver o mundo. e agora voltar.
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eu entendo seu olhar. não entendo, mas compreendo. nem compreendo mas faz sentido, na sua configuração, olhando pra você faz sentido, pelo menos parece fazer. eu olhei para fora no mesmo instante em que você. vimos nós dois transitando pela rua escura da noite duas pernas dois seios duas coxas pouco pano. e faz tanto frio nesta noite, como pode?
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não me olhe cobrando a normalidade das coisas. eu não faço as regras. eu costumo quebrá-las. não me olhe tentando pelo olhar me fazer concordar: eu sou facilmente seduzível pelas coisas que você julga abjetas. olha lá ela andando. quem sabe como deve ser isso quando ela está com pressa? quem sabe como deve ser esse corpo fugindo de tiro gozo e socos sucessivos nos lábios já revolvidos?
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não me olhe cobrando seus preconceitos. eles são maiores do que pode caber num peito. eu gosto dessas coisas, eu me sinto bem olhando as poças. ela era linda, perfeita, pois sua beleza já era destruída. nada nela era inteiro por isso mesmo me pareceu tão mulher e para sua tristeza também menina. não me olhe assim com o olhar cansado que eu num instante interpreto sua retina como um mundo ao contrário. eu te interpreto pelo seu horror e jamais pelo o que é - fora - capaz de amar.
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ela existe ela insiste ela faz parte deste tempo neste mesmo espaço em que nós dois cruzamos os olhares. mas não me cobre a existência de um ser. não me faça pelo olhar ter que dizer se ele pode ou não sobreviver. não sou eu quem diz quem merece ficar. ela é plena, caminha com o salto a se desequilibrar sobre um mar que só seus olhos lacrimejantes são capazes de ver. você não vê nada, senhora. seu olhar já é todo pena, já és toda você senhora indiferença.
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vinha ela cambaleante, seduzindo alguém que não pude ver. não sei se era alguém ou se era ela mesmo tentando se manter. se brincava de bailar com os ratos no esgoto exposto, se dialogava com as baratas atômicas resistentes, não sabemos. mas me contento apenas em olhar. olhar morto, convertido no espectro de uma visão duradoura. que persiste, feito o caminhar da moça que hoje agora eu diria triste.
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existe beleza em tudo. existe mazela também. seu olhar, senhora, me amedronta pois é incapaz de dizer o que quer. é olhar que aprisiona pois precisa de alguém para dividir com você todo esse horror que és incapaz - sozinha - de pronunciar. mas fique sozinha, eu não lhe posso ajudar. seus horrores desenham faz anos o mundo em que eu vivo, deles não posso me abster. é triste sim, senhora. mas o que fazer? negar a tristeza?
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olhando ali a moça pendendo sobre um abismo que nem eu nem você somos capazes de compreender. olhando ela ali se entreter, eu vi muito mais do que poderia supor. vi coisas que me alimentaram. vi coisas que aqui dentro, é sério, me fizeram mexer. o seu olhar, ao contrário, apavorou-me justamente por nele a vida tentar reter, como se aprisionando o que julgas ser temível fosse capaz de rotular e fazer a verdade - sua - vencer.
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agora, imagino, senhora, estará você num banco de jardim. a seda branca incapaz de encostar no chão. também varrido. imagino eu, senhora, que seu olhar repousa doente sobre o sol que hoje veio tímido. e com mais um dia, com mais um girar deste planeta, pode ser que o sol venha mais forte e de tanto olhar sua beleza, sinto dizer, mas é provável, é provável sim senhora, que você nunca mais nada verá. pois negou a escuridão. negou o complexo. negou a comunhão já selada entre noite e dia.
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o belo também cega tanto quanto cegamos pelo julgar. aceito o seu olhar pedinte de segurança. mas não movo o semblante, para mim você é lepra que perdura até amanhecer torrada, morta. eu olho para o abjeto e nisso dialogamos nosso interior. não fosse assim, eu não poderia ser isso quem eu sou. isso quem eu sinto ao dizer, mas sou.
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sábado, 1 de agosto de 2009

Álvaro

Foi no meio desta noite que passou. Foi no momento exato em que ele acordou, o corpo involuntariamente sentado sobre a cama solicitava atenção. Olhou pela janela aberta e viu a escuridão do céu. A escuridão plena daquele céu sem estrelas. Como podia assim ser: apenas escuridão. Fechou os olhos para esboçar estrelas e vieram palavras. Palavras num véu cobrindo seu olhar. Era escuridão, pleno, mas palavras ainda podia enxergar.
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Ergueu-se da cama, os pés no chão. Ainda era todo escuro, caminhava seguro pois caminhar nunca lhe fora problema. Não, pensava dentro. É algum sentimento, algo sentido, nada pode ser assim tão obscuramente pleno. A plenitude o assustava. O que restava ainda de tão pleno no mundo ali fora. As cortinas encostadas eram mesmo o céu aquela negra escuridão opaca. Aproximou-se, o sexo contra a parede. Não havia desejo, mas ainda assim avistou, no canto da rua, um poste elétrico como fosse aquela luz uma lua ou estrela precisa.
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O que sou eu nesse mundo. Por que sou eu. E não outra coisa. O que me faz se agora sou eu quem acorda no meio da noite e quer entender o porquê de alguma escuridão reinante. O que me faz agora estar aqui e não em outro lugar. O que me faz diferente de outras vezes não ter vontade alguma de pular. A plenitude o assustava. E morrer era o que poderia haver de mais pleno visto ali de onde olhava.
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O ranger do portão. Os pés ainda descalços, ainda eram chão. Na rua o ar era outro, parecia mais denso. Mas não era isso, o que fora ali reconhecer não era o ar não era nada que eu pudesse agora te descrever. Mas tento, mesmo assim.
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E me perco. Eu tentei, você não viu, mas é no saltar de uma linha que meio mundo eu corro veloz. No saltar de uma linha ou mais que eu caminho vagando a buscar isso que agora eu tento lhe entregar, moído, mordido, pedaço de mundo dilacerado posto impreciso. Tentação é perder. Movemos-nos pela perda. Comigo é sempre quando a palavra que quero é incapaz de se mostrar de se eleger. Eu tento, ainda assim, pois de tanto perderes acredito és mais forte.
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Ele ali diante da rua os pés no chão. Eu aqui diante da tela as mãos num solo precário, onde jaz tudo solto mas tudo ao mesmo tempo pleno de ser costurado. As coisas se revelam feito poeira, nada é tão pleno, tudo é plenitude falsa, imperfeita. Eu construo com as mesmas partes do ódio esse tal amor, que o fez acordar no meio da noite e descer as escadas eu poderia ter lhes dito elevador. Mas não. Tenho nas mãos os pontos que me fazem ver o mundo com calma. Com dosagem. Precisão. Utilidade. Eu pulo uma linha
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e o tempo segue mais tarde. O véu que antes ele pareceu enxergar, enquanto lá ainda é a noite plena e escura, aqui para mim é já sensação. Eu deito sobre essa pele o mundo tal qual o vejo aos pedaços. E os pedaços assim dispostos me fazem crer: é possível costurar o mundo é possível ele deter. Por isso deixo que vague a essa hora - inventada - em meio a escuridão da rua para encontrar numa esquina não muito longe de casa, aquilo justo que buscava.
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Ele recolhe com calma, entre o deter do objeto e o do tremer das mãos. Ele volta caminhando seguro para casa. Os pés quase que silenciados, quase sem mover o som ao tocar o chão do asfalto negro e sujo. O ranger do portão já não me chama atenção. Dentro uma fábrica veloz desmonta-se em construção. Ele está vivo, outra vez. Acordou perdido, mas agora sobre uma cadeira, diante da janela, prende o objeto que lhe traz consolo, ação.
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Estrela fica por aí até o amanhecer. Me faz dormir seguro que eu não vou ligar se de mim você se perder. Mas me faz dormir. Entretem meus sonhos meus sem sentido. Fica comigo até julgar que de ti eu não mais preciso, mas saiba: eu sempre te preciso mais do que sou capaz de revelar. Portanto, quando souber que é hora de partir, espere mais alguns minutos, que é o tempo inexato de eu ir eternamente a...
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Ele disse isso. Eu já não sei. O véu da noite ilumina em mim também alguma transcendência possível. Não me responsabilizo por tudo o que aqui eu lhes digo. Mas sim, talvez ele tenha dito. Ao menos eu o disse, caso duvides do outro. Em mim deita com a noite a certeza do véu eterno que costura o mundo aos meus dedos. Somos cada vez mais um só corpo um só... Não saberia dizer. Nem mesmo importaria. A plenitude não é o alvo desse ser.
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in.falível

distancia sim, que vendo de longe o que passou, você acaba percebendo, que faz sim parte do tempo
distancia um pouco mais que pesa no peito, pesa aqui dentro, o valor de suas escolhas
vai indo e vai rindo sempre no corpo mais um remendo vai assim seguindo que você verá
há sim otimismo capaz de se procriar

ponha as coisas no colo, no devido tempo
cultive a mesmice não com o mesmo
mas com outro afeto, afeto é mesmo algo que dá o sustento preciso

hoje eu longe vejo que o mundo é maior do que algum meu colapso
eu hoje vendo na rua certas coisas que dentro eu não faço
e isso me ameniza, cria em mim alguma ordem capaz de seguir
isso eu hoje olho e a sujeira vai mais além daquela que pensei deter

parece que os amores estão morrendo
mas agora vejo que dentro de mim eles habitam
eles resistem sobrevivem eles são a própria virtude
ser amante é ser destino
é ser cravado no tempo é ser necessidade eu preciso

hoje vendo aqui de longe
eu percebo como o mundo desespera mais alto
como diante das minhas coisas com meu olhar
tudo vai se entortando e por isso está sendo incrível hoje eu me afastar
eu longe das minhas doenças, longe do quarto da sala da casa
eu longe do mesmo café de cada dia
eu descobrindo pelo mundo outras possíveis azias
outras possíveis magias que meu olhar
eu sinto agora eu vejo
era incapaz de deter

fica, eu peço outra vez
o nosso problema é com a partida
por isso eu peço, outra vez
fica mais um segundo
que a gente faz de novo
errando sim de novo também
mas indo num só impulso e acertando o que vem a seguir

eu nem sei o que vem
eu nem sei, importa não saber
importa seguir feito cego seguir não fingindo
mas sentindo que venha a ser o não compreender
(bocejo: é pura existência)

se eu te peço hoje fica
é porque alguma ânsia corrói as certezas
e me faz ser diferente (da mesma forma)
importa ficar
persistir nas poças
durar
ser mais osso e menos carne
ir devorando pelos instintos e acordando
sempre mais
e mais tarde

acordando sempre na hora de uma próxima refeição
outro dia eu acordei na sesta
e vi meus pais tirando um cochilo
outro dia eu acordei na sesta
e todos dormiam
eternamente dormindo
num silêncio de há séculos
fica
que eu divido essa poça com você
fica que juntos a gente inventa esse novo alvorecer

se hoje eu te peço algo assim tão concreto
- o seu ficar -
é porque há clareza no verbo
há clareza no peito a transbordar
e eu mais outra vez me permiti ser
justo o que sou
a complexidão infinita
íntima
imprecisa
in.falível.
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