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sexta-feira, 31 de julho de 2015

dia vinte e um

foi quinta. foi quinta.
acordei atrasado tomei café preto de minas. cheguei no teatro, ensaiamos, sorrimos, assim é a vida.
depois outro dia ensaio, novos encontros, que susto isso de projetar e erguer novos mundos, não?
uma ou duas cervejas e avião.
rio de janeiro por uma noite, após janta com helena e coração sorridente.
dormi dentro de um casaco sobre o colchão solteiro jogado no centro da sala.
tenho pensado nele, desde a última vez que nos vimos. preciso fazer algo?

quinta-feira, 30 de julho de 2015

dia vinte

talvez tudo se resuma à conversa, aos amigos, ao amigo, ao desconhecido que por horas seguiu comigo, entornando para dentro do corpo cerveja para, enfim, arrotar poesia.
falamos do amor, dos amores, dos fins, da vida. falamos da idade bizarra que é ter 27, 28, 29 anos... falamos de tudo e de tanto e no entanto ainda há mais a ser dito, não cessamos.
um sorriso, olhos marejados, um bife de fígado (eu odeio), uma asa de frango frito, uma insalubridade sob o céu rodeando uma profunda lua
ontem foi assim
nem sequer me lembro de como foi o dia
foi teatro, até lembro, foi almoço, sono, café
foi cigarro e novamente: teatro
caramba, um dia, quem sabe, eu contabilizarei o meu tempo dentro de um sala de espetáculo
contarei todos os tempos em salas de espetáculos
e descobrirei que eu desconheço o mundo
que eu poucas vezes viajei
que eu sempre estive dentro de uma sala preta
com luzes que forjam sóis
perceberei que os sons que ouvi foram todos inventados, artificiais
e enfim, entenderei, que a vida é uma mentira
e que tudo está certo.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

dia dezenove

dormi na sala sobre o mole colchão ao lado do celular carregando e de um imenso cinzeiro cheio de guimbas, que delícia, só que não, mas acendi um incenso da helena e a terça feira começou com banho e táxi para o aeroporto.
check in para a poltrona 30A. avião pequeno do rio para beagá. ouvi as músicas acertadas e desci aqui onde estou agora. um crachá, um carinho, a rita mexe comigo. um lindo trabalho do qual eu sou parte me possibilita compreender o porquê de tudo isso.
mas não quero dizer, quero dormir na casa de um novo amigo, ver um bebê me olhando firme e profundamente, quero tomar um banho e entrar de novo dentro de outro teatro.
o moço com mesmo nome que o meu já me conhecia. ele selecionou o meu trabalho para participar da nova edição de um novo festival, mostra, de solos.
mal sabe ele que de solo não há nada porque o narrador me povoa como pólvora em chamas.
estou com sono.

terça-feira, 28 de julho de 2015

dia dezoito

não, eu não quero conversar, seu taxista e, não, não estou mal apenas não desejo conversar. é muito importante olhar ao fundo dos olhos. ainda mais quando se falando de performance. uma sorte tremenda esta de o corpo poder se dizer. contaram me que aquela moça que eu havia conhecido faz algumas semanas, pois então, ela faleceu, ela dormiu e não acordou. como é isso, oh, vida? ontem eu acordei com o café e a torrada, feitos por ele, sobre a mesa. olhei pela janela e tive medo de encarar algum futuro. eu sei lá. amanhã eu amanhecerei munido a óculos escuro. e depois o papo, a casa, eu e helena. só não pode isso de almoçar pizza e muito menos às 20h.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

tatuagem

confesso: como pode uma tatuagem se passar tão bem por pele?
eu toco seu braço. passo os dedos e fecho os olhos. o que há é apenas pele: colorida
bordada em flores (são tantas flores, todas orientais, como pode?)

e então me sinto abraçado em um jardim imenso
com cheiro e relva, capaz de orvalho
e verde cor de pele

seus olhos, seu toque, seu abraço
será que você está se tatuando em mim?
por que tenho medo?
é medo ou receio?
não sei, mas você continua vindo sobre mim
e dizendo como é bom estar com você

você é lindo
você é lindo
o que eu posso te
dizer?

não duvido do encontro
estou nele detido
mas é só que...

é só que...
eu ainda não sei se estou pronto novamente para brincar de abismo.

dia dezessete

domingo. até que horas eu posso fazer o check out?
ok. uma hora para além do permitido.
perdi o café.
tudo certo.
a cama do hotel é meu abrigo.
banho, mala, quanta coisa apertada.
banho quente. o rosto confuso na neblina que toma o banheiro.
a camisa. a mesma camisa. na qual se expõe um beijo entre um casal de amantes idosos e apaixonados.
andei pela paulista. comprei um casaco novo. nem sei.
o som. a música nos ouvidos. os passos. a liberdade.
por que, às vezes me assusta tudo isso?
confundi os dias. no domingo não, no domingo eu saí do hotel e fui direto para o teatro porto seguro.
fui assistir uma peça infantil. linda. de chorar. olhos empoçados. aprendendo com histórias destinadas à criança.
chorei. como num ritual, me despedi daquilo que havia perdido. e elvis seguiu tocando seu rock, sambando em sapatos azuis.
conversa com pablo. conversa com alguém que mais e mais vai virando amigo íntimo. sobre todas as coisas, sobre a depressão.
essa voçoroca.
pinacoteca de são paulo. shop.
estação da luz.
paulista. metrô. andando e se localizando.
eu já estive aqui antes. google maps.
tenho que chegar no hotel.
frio e eu sem casaco. preguiça de abrir a mochila.
hotel. banheiro. dentes escovados. quero usar o fio dental.
aeroporto, táxi no domingo é mais cara, né, gente?
poltrona 1D.
escrevi mais umas cenas.
pensei em mim, nele, em você. pensei nela (que em breve veria).
vim para o rio de janeiro (em segredo). ninguém pode saber.
viajo de novo na terça. em segredo.
silêncio.
viver.

domingo, 26 de julho de 2015

dia dezesseis

ela gostou muito e quer almoçar com você.
o sábado foi bom, inteiro, intenso, sincero e com calor (apesar dessa chuva chata em são paulo).
o que eu quero neste momento é tão presente nele mesmo que não vale dizer o que penso se não desejo perder o instante.
é isso.
muitos pares de olhos. abraços amigos. a cerveja. pretendo não beber no domingo.
existe alguma coisa em curso que não consigo compreender, nem sei se quero compreender, mas há alguma coisa andando junto a mim, sempre na espreita.
amanhã será dia de dormir grudado.
o amanhã de ontem já é o hoje é também o ontem de amanhã. viste? quanta coisa cabe no tempo que temos, não?
esqueça um pouco o tom daquele email, mas confirme a demanda desta época, deste tempo.
não haveria momento melhor para viver.

sábado, 25 de julho de 2015

dia quinze

almocei com minha irmã mais velha. só isso.
mentira. não dormi. vim de natal para brasília
e de brasília para são paulo
que frio
check in não autorizado
andei a manhã, a tarde, quase o dia todo
por são paulo
o narrador cancelado
por quê?
acabou a luz do sesc
e mesmo assim
segui
com a bebida
com o sexo
a surra
aquela coisa que já sei
faz parte da vida
meus amantes são tantos e tão imensos
sem baixaria
não vem com essa história
não vem
foi dia do impulso
de encontrar adassa
e de se posicionar
chega de distância
quero ver
encontrar
para, enfim,
terminar.

dia quatorze

o terror
a desorientação
a instabilidade
o teatro
oh, teatro
por que você existe?
quem te inventou?
eu fico perplexo
com tanto horror
e tanta piedade
que catarse!
que quebra
lança
atravessando abismos
abrindo voçorocas
palavras inventadas
são palavras novas?
um mergulho
no horror
na desorientação
no pós-absurdo

ela mergulhou
ele mergulhou
eles mergulharam
elxs todxs

cansei de brincar de diário
meus dias não são computáveis
mas houve um negócio ali
indescritível
aquela potência toda

aquele excesso de intuição
daria nisso:

ESPANTO!

Sobre o intempestivo

De súbito
uma ligação
Palavras incertas
cheias de si
Sim e Não
em mútua relação
Talvez
depois de tudo
Um rock
uma guitarra
Sobre a cabeça
batida
Meu Deus
inesquecível
Rouquidão
Intempestivo-me
para aceitar
A real
Condição
de estar aqui
vivo
e todo equivocado,

sem gabarito a me reprovar.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Ao mesmo tempo

Em terra pisando. Ao mesmo tempo com mochila pesando as costas e entortando o tronco. Com tantos cigarros. Tantas mordidas a si mesmo ao interior da boca destinadas. Ao mesmo tempo como hoje é como outrora. Nova música persiste. E novas mensagens. Um Oi. Um só sorriso. Ao mesmo tempo eu junto com outro novo abrigo. Outro não. Apenas novo. É real. Eu posso sentir. Se isso não é amor, então não quero saber. Porque continuo seguindo os dias. Fazendo em mim faxina. Continue mentindo a mim, oh, tempo. Assim vai o corpo passando e a vida em mim se inscrevendo. Eu não quero saber de tudo, quero apenas ao mesmo tempo sentir o sem sentido que é te sentir sem de ti saber cousa alguma. Oh, vida, como você é linda mesmo quando tão obscura.

Em noite, escondido

Foi preciso esperar a noite escondida dentro da madrugadaPara alçar voo e me permitir chorar.Sem amigos, sem familiaresLonge de casaSuspenso em meio ao arEntre cidades que desconheçoSem raiz a me germinarEu, avulsoHoje, enfimMe permiti chorar.Foi preciso esperar a moça ao lado dormirEsperar os cintos se afivelaremPara, enfim, desistir.Uma gorda gota escorreu pela esquerda do meu rostoMeus olhos arderam de tanto cansaçoJá há tantos meses eu sendo forteHá tantos meses eu não me permitindo morrer a cada passoQue canseiE foi preciso voarSob pressão outraPara desafogar a vistaDesse peito que me bateE rebate.Quão grande é a dor de um amor que ao fim chegou?Não temo o que viráNão sei o que não veioMas hoje, choro, enfimCerto de que o meu cansaçoMerece respeito.Choro, poisExista em mim ainda um tanto não desbravadoEm mim ainda tantas mãos a serem dadasTantos passos em comunhão a seremCaminhadosMas não- e por isso choro –Não mais com meu amorQue não é mais meu.Foi preciso voarDe tudo se distanciarPara chorar-se livreDa imposta forçaDe ser homem feridoEm multidão foi precisoSubirSem querer voltarFeito balãoFoi precisoSubirPara brilhar em sol nascendoA certeza de que se não fosse o tempoNão teria havido amorNão haveria dor

Nem haveria algum remendo.

Voo entre Brasília e São Paulo
24 de julho de 2015, 06h25

dia treze

estou cansado
mais do que antes hoje
estou cansado
uma fome me consome
e para além das unhas carcomidas
resto eu cansado
estou exausto
um dia é pouco
ou muito para ficar
o dia todo dentro
de um teatro
mudei
sim, mudei tudo
minha intuição me guiou
desculpe se cafono mas foi ela
que me disse
tire essa cena daqui
fale isso
mude aquilo
ela minha intuição
me autorizou
e então se abriram sorrisos
e riscos como abismos
nos quais eu e todos eles
despencamos
vamos
existe uma dificuldade querendo
fazer a vida nascer.

o seu coração é vasto.
e sua vitalidade ainda sempre
e hoje foi o amor.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

estafa

o seu cansaço tem por nome a própria vida.

isso que te cansa
é o fato claríssimo
de que estás aqui
ainda aqui você está
vivendo intenso
em cada pedaço
em todo inteiro.

quando se cansa
saibas: é a vida
te acontecendo
é a vida te tomando de si
e te dizendo:

estás vivo.

por isso
continue
continue
o seu cansaço
tem por nome

sua existência.

nosso sossego em cama longa

sobre outras coisas
outros assuntos
custa
olhar a esquina
e sair do próprio
umbigo?

te contar um segredo
a verdade é essa
você me fisgou
e enquanto me perguntava
se deveria te mandar um oi
te dar um alô
você o fez

e tão lindamente.

passam os dias
as horas ventam
e a chuva é pontual
faz calor
sem sol
faz frio
mesmo sem saber o que é a neve

ontem você esteve
em silêncio em mim
retinto
hoje suas tatuagens
me acordaram
e eu dei um sorriso

pensei nelas
que ainda nem sei contabilizar
são tantas
ou não
é uma apenas
vasta

toda linda e desenhada
curvas linhas
símbolos?

vou olhar de perto
vou olhar mais de perto
se me deixares
sair do abraço
para contemplar
o teu sossego
junto ao meu
deitado no silêncio
de mais uma noite

para quem escrevo?

isso é meu
de mais ninguém.

dia doze

foi terça
terça-feira
eu já nem sei
acordei cedo
sonhei a noite inteira
sonhos estranhos
densos
pesados
por que escrevo em versos?
difícil está sendo compor em contínua linha. foi dia dentro de um teatro. foi isso. não, não reclamo. é só o que foi. é só constatação. tenho cansado de justificar o texto. imagina então justificar a vida.
comi uma fatia de bolo de chocolate no amanhecer.
tomei um suco estranho, nem sei de quê.
queria dizer que as cervejas esquentam muito rápido.
meu pulso dói por tanto escrever.
deveria silenciar-me?
nem sei o que foi ontem.
resoluções de trabalho.
uma janta a sós. deliciosa.
dormi.
foi ontem.
perdi a hora.
tenho sonhado muito.
muito.

terça-feira, 21 de julho de 2015

dia onze

você faz ideia da sua potência?
não, você não faz a mínima ideia.
eu não quero estragar seu dia.
ontem você dormiu sob lençol branco.
fez a barba?
parabéns. mas fez também um furo na barba da lateral direita do seu rosto.
você está bem?
sua voz está ótima.
aquilo que passou pela sua cabeça, enfim, aquilo, enfim, esqueça. está horrível, todos sabem, mas todos também precisam da sua precisão.
por isso perguntei: tens noção da sua força?
algumas pessoas, alguns amigos, estão contando com toda a sua ousadia.
terei que ousar?
você se pergunta.
desde quando não fostes só ousadia?
pois então chega de falso espanto. a sua potência é sua, não é presente dos deuses. ela é sua essa potência e é preciso força para fazer com que ela se multiplique.
você tem digitado rápido demais a ponto de perder os acentos.
senta um pouco.
quero ficar de pé.
sua cerveja está esquentando.
amo cerveja quente.
o que foi que aconteceu ontem?
ora, foi só o tempo que passou e junto a ele algumas coisas se resolveram.
amo essa possibilidade de ver as coisas se discernindo. você está mais leve do que o princípio.
quando?
nossa conversa está se alongando.
seja o que...
o quê?
seja o que a vida quiser que seja.
e deus ?
que deus ?
esquece...

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Lavar Roupa Suja


Pedi para lavar
4 T-Shirts
1 Cueca Vinho
1 Casaco Azul

e achei, sem querer
dentro da mala
Amassada
Esta camisa de gola arregaçada

Coloquei
e o sol saiu
estava ele, eu espero
Esperando minha indumentária
para fritar-me

!!!

Como eu amo esta cidade de Natal
Rio Grande do Norte

dia dez

uma praia que deságua sobre as rochas. seria fácil morrer ali.
ou entre as nuvens. estamos passando por uma área de turbulência, permaneçam sentados e com o cinto afivelado.
a moça do outro lado se abraçou ao namorado. coitada, mal sabia ela que não morreríamos ou que, se acontecesse, morreríamos todos. e então fechei os olhos para ouvir melhor minha música. as nuvens tranquilas do lado de fora e aquela movimentação incessante e brusca.
sei lá. dois voos em um dia é coisa demais para um ser humano.
comprei um óculos escuro novo.
comprei uma camisa.
depois comprei outra camisa.
comprei damasco, latas de cerveja e água.
comprei um sanduíche fast food.
não importa a compração, importa o silêncio retinto dos meus olhos de mãos dadas ao meu coração.
mandei aquela mensagem certeira, recebi outra, disse que faria algo que até agora não fiz.
atrasou 3 horas. eu fiquei 2 horas parado dentro da poltrona 28K.
que inferno. sorte ser tão bonito o céu.
e a dramaturgia de joana indo longe. e janis joplin no comando do meu susto.
eu fui recebido por um motorista de camisa azul com listras sinzas. ele escreveu assim. não quis duvidar da cor do seu cinza. era o cinza dele e muito bem definido. pois era um cinza quase transparente e junto ao seu azul somava mais do que se diferenciava.
hotel na beira da praia. tapioca. sexo hoje não, por favor.
até parece.
até parece o quê?
que sexo não.
não.
não mesmo.
nossa.
o que foi?
já é quase o dia onze.
sim, dorme aqui.
aqui?
sim.
vendo um filme?
pode ser.
você quer?
sim.
então se está tudo bem para você, para mim também está.
beijos.

dia nove

já estou no dia onze escrevendo sobre o nove. é um exercício interessante esse de se lembrar do passado. e nem é tão passado assim. está quase perto. quase próximo. se eu fizer força sinto um cheiro. se eu observar, estou usando a mesma cueca desde o dia nove. apesar de ser hoje o dia onze.
mentira. eu troquei a cueca ontem.
eu estou com roupas sujas precisando de lavagem.
no dia nove, no dia nove... era sábado.
era sábado. sim. dormi cedo, acordei cedo. estudei. li. o computador. o único cd com músicas que tenho. our love is killing me... quanta redundância. eu li o que você escreveu.
e então?
não gostei.
sorte a gente um dia ter se amado.
por quê?
porque quando não gostamos muito daquilo que o outro nos faz, a gente entende o desgostar mais como convite do que como fato.
você está confuso hoje.
é que te ver falar, assim, tão de perto, falando de coisas outras que não do íntimo, então, eu confesso: minha mente tira a sua roupa e sente o cheiro da sua pele, só de te ouvir falar.
fico pensando se isso acontece também contigo. já faz tanto tempo que hoje você se tornou meu amigo. já é amigo faz muito tempo, porque com a gente o rompimento não foi brusco nem infantil. foi só entendimento mútuo, compreensão. então... no dia nove eu te ouvia falar, tomávamos vinho, e eu via a sua boca nua me dizendo coisas profundas e nela eu ia.
depois ia ao teatro. depois aquela platéia. antes a reunião, os risos, o sol em são paulo. um metrô, um trem, uma longa caminhada. há alguma coisa ainda não todo decupada.
esse música tocando.
aqueles olhos atrás dos óculos. olhos da moça lacrimejante.
que lindo é a solidão de um quarto de hotel. televisão, dinossauros, janta na cama, cortinas abertas para a cidade que nunca descansa.
eu descanso. tenho avião amanhã cedo. amanhã dia dez.

domingo, 19 de julho de 2015

Tudo azul e verde

Ele faz carinho nos cabelos
Da mãe. A casquinha do sorvete
Vai sendo mordida. Ele tem o olhar
Tranquilo, apesar de ter machucado
A perna.

De repente tudo ficou azul
Bem azul de tão verde
Como amar alguém novo
Como essa coisa de mudar
Totalmente. Agora você já sabe
Que nos encontraremos de novo.

Como pode o tempo vir
E levar a dor embora?
Como pode? Eu estar aqui
Querendo ser memória
Ouvir seu rosto

Não há nada mais do que desejar este mesmo refrão:

Como não ficar azul
De tanto verde
Como não estar vivo
Quando já se sabe
Que por agora
Nos veremos
Noutro instante?

Bilhete ao pai de nós seus filhos

Pai
a gente tá te vendo. Seu
cabelo tá crescendo e você
Tá sumindo sob a barba.
Tá tudo certo, pai.
Isso tudo é o mesmo
que estar vivo. Você
está vivo, pai.
Como nunca antes você
hoje está vivo.
A gente tá de olho em você.
Fica tranquilo.
Viaje tranquilo.
A gente tá de olho em você
Nosso melhor amigo.

sábado, 18 de julho de 2015

dia oito

para quem se conta a verdade que não para si mesmo? você está por vezes bêbado demais. não há como fingir. o critério se perdeu. houve critério? vinho cerveja desejo extermínio de tantos cigarros.
você acreditou em quem não deveria. você confiou no despertador. você acordou na hora inexata. o táxi. as dramaturgias que você tão facilmente inventa. e outro avião.
a mãe e sua filha. a platéia vazia. que potência há no mínimo. sim. não preciso de muitos olhos para aprender o caminho de como se olhar.
jantamos. e como você está?
então eu disse. e já estávamos bêbados.
e o vinho e a massa e aquele local todo vermelho.
há sim alguma coisa ainda não desvendada nesse estar vivo.
hoje eu escrevi sobre ontem sem o signo deste instante.
talvez porque esteja mais tranquilo.
talvez por isso.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

creme hidratante

não comprarás novo maço de cigarros
ao invés de sexo, leitura continuada
ao invés de ranço, esperança renovada
creme hidratante para mãos
e todo o corpo

não morrerás agora
mas corres o risco de morrer
louco

por isso persista
aceite a poltrona no corredor
aceite o café mesmo quando
com leite

lave essas roupas
limpe essas unhas
você é seu
então vamos juntos

de mãos dadas, Diogo
eu e você e juntos
nós e este mundo.

dia sete

mais uma vez eu estranho estar vivo neste hoje mas escrevendo sobre o ontem que já passou. como não se afetar pelo presente instante? escrever será sempre sobre o hoje? será escrever sempre a partir deste inseguro e persistente instante?
por vezes o corpo dele nem me respondia, ele ficava inerte sobre a cama como se fosse ele a própria cama. alguém que o olhasse talvez pudesse dizer: a cama está vazia.
enquanto ele dormia mais de dez horas. depois banho e dois pastéis. de noitinha rolou um sanduíche e até suco de laranja. vinho cerveja cigarro e esse cheiro de roupa fedendo cinzas.
teve conversa e análise. análise do espetáculo no festival de teatro. houve premiacao e indicações. a gente ficou surpreso.
mas isso é nada perto do não saber como se adequar frente ao desejo.
que exigente é o corpo.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

épico íntimo

grifado está
o passo
depois de outro
e então
o caminho
é composto
aos pedaços.

não quer dizer frangalhos
não quer dizer fim
quer dizer apenas
a delicadeza
do passo
depois
do passo
depois
do passo
depois
do passo

mas,

se quiseres
podes retroceder o caminho
voltar o caminho
rebobinar
e verás:

passo
antes do passo
passo
antes do passo
passos antes
dos passos

e então verás
que é caminho
aquilo que achava
ser sentido.

este diário
é a certeza interna
subjetiva
idiossincrasia precisa
de um épico íntimo.

de um épico
vasto como nos romances
íntimo como nos abismos

tudo certo.
tudo certo.

não houve fim
ainda não haverá
início

dia seis

dia de ofício. dia de ser página em branco? não. dia de firmar ainda mais os próprios princípios, mas sem medo de ser alterado por cada esquina cruzada ou por cada rua travessada.
dia da lívia, livinha, dia de almoçar junto e fumar junto, apesar de cada um no seu cigarro.
parlamient. ou sei lá.
dia de café. muito café. dia de montagem e de se ver mais velho em relação aos interlocutores. mais velho precisa ser com mais ranço? algumas coisas a experiência vivida não permite o jogo. você é assim, cara, então aceita. tem um tempo que só o passar do tempo nos dá.
sigo ouvindo as mesmas músicas. a mesma música. e de tanto o trauma, tão intenso se torna também o atravessamento dessa miséria toda.
minha barba está imensa. além do permitido. meu deus! eu estou aqui sendo o que fui, o que me tornei, mas para outros que ainda não conheci, outros que ainda não sei.
os olhos que me olham encontram em mim tímida operação. não quero sobreviver para além destes poucos segundos.
só jesus salva.
só a cerveja salva.
risos.
em breve sairão as cadeiras, a cama e a minha casa será inteira só minha.
não é posse. não é nada exceto bem contornar da solidão.
tive uma hipoglicemia e ficou ainda mais transparente a pele que cobre internamente meu coração.
eu estou chegando lá.
dentro dessa van.
eu saio em silêncio do meio da multidão. eu compreendo que têm dias que sou eu mas têm dias que não.
eu sei, já faz tempo, que o mundo não gira ao meu redor.
têm dias que a maior atenção que o mundo me dá é a do lençol cobrindo meu corpo sobre a cama de solteiro. e está lindo.
é preciso se saber passagem.
é preciso se reconhecer passageiro.
sorrio, com meus parcos brancos cabelos.
sorrio, mesmo sem dentes inteiros.
tudo certo, cara.
vamos adiante.

Desato

Foi desfeito.

Ontem ou hoje
Já faz dias um mês
Semanas talvez
Que desatou

Foi desatado

Cessou a continuidade
deste fim
Cessou este ato.

Talvez por tanto trabalho
Talvez por estar um tanto
Muito atarefado talvez
Por tudo isso
Mas já não pesa
Não tem peso

Já não me importa
Não não se enrijecem
Meus pelos.

Sei que sim
Que quando o encontro
Vier, sei que me perderei
Sim, eu sei
Mas hoje

Hoje
Não.

Cessou ato
Cessar passos
Cessar essa doentia investida
Por mim

inconscientemente

Destinada.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

dia cinco

ficar um dia inteiro dentro de um teatro. esqueço que minha vida por vezes é isso apenas. desejo.
melhor que isso é quando não se está dentro de um teatro propriamente, mas sim dentro de um salão de uma igreja. fazer teatro sem fins religiosos é profanar o espaço da igreja.
salão cristo rei era o nome. cidade de gaspar em santa catarina.
vocês podem ir embora, mas se quiserem, podemos bater um papo. podemos falar sobre as suas impressões sobre o trabalho.
e então quiseram e falaram e nos contaram coisas sobre o que fazemos e que nem fazemos ideia.
eu queria dizer tanta coisa mas tudo se resume a um refletor aceso.
eu nem sei dizer.
eu estou cansado e estou misturando os dias.
estou satisfeito.
o público vai entrar.
a qualquer momento.
há um silêncio estranho. alguém fez coisa errada.
eu já fui cortina, disse a menina. e eu sigo sem entender nada.
pesou o clima.
podia. sim, podia. podia ter anotado.
e eu escrevi o que ela disse.
e a gente sempre pode fazer coisas que nunca fazemos.
é grave isso.
o dia de ontem se apagou depois de hoje.
não, não está tudo bem.
eu não sei o que será semana que vem.
mas ontem, hoje, dia cinco, foi assim. uma sobreposição de versos. estou grato. eu existo.
quero deitar agora. queria deitar ontem.
algumas coisas seguem dias adentro, independente do dia.
sem barulho.

terça-feira, 14 de julho de 2015

dia quatro

quando a vida acontece em tantas frentes, ela passa mais rápido. e escrever sobre ela vira quase um tormento. é como se eu estivesse perdendo a vida no exato instante em que me gasto a escrevendo.
eu vi uma senhora ontem. ela tinha o topo da cabeça recheado de cabelos bem finos e clarinhos. ela estava sentada num banco, sozinha, mirando silenciosa o caudaloso rio que corta esta cidade. eu pensei em tanta coisa. tanto. senti tanto. tanta coisa.
depois imaginei o que poderia morar em mim que não apenas piedade? há de ser a piedade algo de todo ruim? eu sinto piedade pelas pequenas alegrias, pelos soluços que sobrevivem sozinhos ao meio dia... eu ontem passei o dia inteiro sorrindo e cantando. deixando meu corpo ser desejado pelo vento cortante. seguindo. sentindo.
um livro dela, você teria?
sim, tem uma autobiografia.
mentira?
não, é verdade.
MEU DEUS!
comprei uma tomada T, um benjamin, para conectar esse computador e continuar a escrever. mandei e-mails, tomei cafés, fumei cigarros e distribuí sorrisos.
vi a peça dos amigos. a linda peça dos amigos. existe algo que me persiste e que eu não sei escrever. não é uma cobrança, é uma demanda. mas demanda difícil de reconhecer. confusa demanda que me pede atenção e que quando eu me disponibilizo ela já não sabe mais o que dizer.
ouvi repetidas vezes e ainda agora escuto. afinal, eu disse que te amava mesmo sabendo ser uma mentira. mas essas coisas acontecem, mesmo, acontecem mesmo. não tem certo ou errado, mesmo, não tem. eu estou ficando muito muito muito íntimo. de você eu estou ficando muito íntimo.
me dê um fora. me dê uma pancada. sei lá. pode ser agora. pode ser.
tenho pensado tanto em você. me põe para correr.
por favor.
por favor.
tô ficando muito íntimo de você.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

dia três

haveria algo mais transformante do que mudar de lugar? falo de espaço físico mesmo, espaço geográfico. pegar um avião e mesmo com turbulência, cruzar nuvens densas e brancas para chegar noutro canto.
meus olhos adormeceram e acordaram. sem pretensão olharam o horizonte e a ele tiveram descaso. não quero esgotar o instante. não porque não queria. sim porque não importa esgotar.
agora é início de madrugada e estou de cueca e camisa deitado sobre essa cama de solteiro ouvindo o trovejar. aqui é outro lugar. ouço as gotas batendo nas telhas dessa cidade limpa e com lixeiras espalhadas por cada canto.
as gotas se adensam e o som se torna ainda mais imenso.
falei com eles que era importante aceitar o fato da distância. nem falava sobre minha separação nem pensei nisso. mas eles três vão viajar, cada um para um país, e é importante saber compreender o que a vida anuncia. eles estarão longe um do outro e essa é a beleza que há.
sinto-me repleto rodeado de meus alunos. aluno é um nome pequeno quando o que há é admiração e desejo de se mover junto ao adiante... estou com meus alunos e não abro mão da façanha de caminhar junto a eles.
meus dedos são maiores do que as letras desse teclado. não contei mas fui roubado. e comprei então outro celular. gostaria de precisar de menos para estar vivo.
escorre uma lágrima de meu nariz.
às vezes eu amo estar vivo.

sábado, 11 de julho de 2015

dia dois

há doenças outras para além da gripe ou da sinusite. para além da diabetes hoje você foi tomado por outra insuficiência do corpo: foste hoje tu todo desejo. que vício pode ser esse de um homem não? estou espantando comigo mesmo e isso não é reclame é antes revelação.
persiste o corpo sobre o tempo e trepidante em camas cadeiras e dentro do hotel lacrado.
hoje minha mãe virá.
e tomamos um vinho e eu estou sendo como nunca antes o meu melhor amigo. as palavras me ajudam a reter o que vivo. estou disposto a sair mais cuidado depois de tudo isso.
que falta de cuidado. antes uma reclamação profunda do que um reconhecimento de si. eu fechei os ouvidos a mim e abri a boca.
quer chutar quer morder chupar? quer? queria não fosse hoje sábado e amanhã já agosto.
eu caminhei por longas ruas eu vi amigos eu compartilhei a destruição do caminho cotidiano. disse palavras profundas e mesmo não cabisbaixo eu baixei a cabeça para concentrar minha incompreensão profunda que é: ser desprovido de si por inteiro.
seria pretensão demais querer unidade?
por que me tem sido tão difícil lidar com o meu retrato tal como ele me é?
estou sendo injusto comigo. minha filosofia resta imparcial e seduzida pela destruição de tudo (mas sem abrir caminho). eu estou me esgotando sem me ensinar a continuar.
eu não me dou um único conselho.
eu afirmo: deixa assim porque o assim é o que tens.
sobra ira e menos piedade.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

dia um

apesar do cansaço fui o último a sair do avião. minha mala apareceu na esteira e tive que correr atrás dela. não tive força para acender um cigarro sequer. solicitei três vezes por táxis e apenas na quarta vez um taxista me atendeu.
como você está? eu estou melhor a cada dia.
chegarei ao hotel. pedirei almoço no quarto. pago tudo no cartão tudo eu pago no ato. descansarei. escreverei. performance hoje à noite.
a primeira coisa que faço ao entrar num quarto de hotel é dispor minhas coisas sobre a mesa. eu costumo montar meu escritório.
trouxe cerca de quinze livros. preciso escrever uma peça de teatro e três trabalhos para a pós graduação. vai tudo acontecer.
é muito interessante a vida adulta. mas apenas de vez em quando. apenas quando ela pode ser leve e concentrada.
me conte mais de você e sobre como estão as coisas. soube que sua tia faleceu aos 51 anos de idade.
desengarragou...

que eu não sei se é possível

Parabéns pelo seu interesse
Pela primeira parcela do meu coração
Que eu não sei se é possível
Ler a notícia completa em contato
Abraço para todos os dias
Depois da morte de seu pedido
Londres em casa e a gente vai
Uma olhada no site da empresa
Às vezes é preciso coragem para
Nova Iorque e o que eu não sei como
Vai ficar muito feliz por estar em um dia
Lindo dia do evento é gratuito para você
Horizonte de uma forma que eu possa te ajudar

Em casa eu vejo a minha mãe que a vida do povo do seu lado no dia a gente vai fazer um curso superior completo e eu te ligo

Você pode me ajudar a fazer um comentário da primeira parcela do seguro do carro e o que eu não sei se é que eu não sei se é que eu não sei como fazer

Por aqui mesmo que seja um pouco da minha mãe me manda o seu e a minha mãe me manda um e outro no Brasil em novembro

...

Sobre os valores de uma pessoa que não é o melhor

Talvez você quisesse
Ter se preparado melhor
Ter passado um perfume
Ou dobrado uma camisa
da forma como dizem ser.

No ultrapassar de tantas
Barreiras. No flertar com
Curvas e ladeiras. No cume
Enfim, a vida

Talvez você quisesse
Não saber do mundo
Das revoluções e guerras
Quiçá saber (oh, não!)
Há poesia.

Mas olhando daqui
Pela distância que te cativa
Sabes bem que o trajeto
É sua principal movida.

Comovente o ânimo
Se afoga em futuros
Não vindos e agora
Tu resta no imprevisível

Na asa do existir.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

terça-feira, 7 de julho de 2015

Clareza e Saturação

Talvez nem
Talvez nada mais
Talvez mais rápido
Esmaeceu tudo
Porque o presente
Me reivindica total
Atenção.

Ou não.
Ou por agora
Ainda nunca.

Nada mais
Nem ontem
Passará
Sem essa tenaz procura
Que não cessa
Que não cede
Que no entanto
Não existe.

Tudo claro.
Busca sem desejo.
Sobra tudo
Menos o fato
Ultrapassado do
Aconchego.

Clareza.
Saturação.
Queria ser foto
Ou não. Talvez
Não. Talvez isso mesmo.

Obscura e turva ira
Para antiquado
Gracejo.

Intocável

Havia movimento.

De pernas sobre pés
De unhas sobre dedos
Movimento havia
até no tensional
Silêncio.

Quando houve pausa
também nela se fez
Dança.

Ignorando a respiração
mesmo estacionado
O corpo se emana

E multiplica
fagulhas de acontecimentos
Inomináveis.

Agora
que se apartaram os corpos
Mesmo agora
existe algo entre eles
Intocável.

Que nome dar à matéria do encontro?

Seria presença?
Anti-matéria?
Seria terremoto
Caos insano
Poema vindouro?

Sorte talvez seja seu apelido.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Preparo a casa

Porque você vai chegar.

Nem sequer limpo as coisas
porque tudo está limpo
Desde a última vez
em que aqui você esteve
Eu fiz questão de congelar
cada traço
cada cílio
Tudo está em ordem
Te espero apenas
para este quadro
Desarranjar.

Eu preparo a casa
porque você chegará.

Em 20
30
Quantos minutos?

Não estou ansioso.
Estou preciso.

Falta ainda o meu banho
Meu corpo
móvel sobre o qual tu deitarás
Preparo o meu corpo
para tamanho empenho
que trazes tu desde o sorriso
até o recheio.

Sorrio também,
não se preocupe.

E vamos jantar
e deitar
e bailar

Tudo conforme o figurino
nu
Que fiz questão de lavar.

Chega logo.

Já faz uma semana.

Chega logo.

domingo, 5 de julho de 2015

Talvez Parte Vinte

Perdi a conta
De quantos versos
Tentaram me pintar melhor
Menos triste.

Não sei exato
Para quem escrevo
Se para mim apenas
Ou só por conta
Do seu nosso
Desassossego.

Tudo vale
Tudo serve
Mas deixo pistas
Como quem dá passos
Sobre a neve.

Tento processar
Mas tudo inda é caminho
Tento, eu juro
Mas sei que ainda opero
Em desalinho.

O corpo já sabe
Já entendeu
E disso fez dobra
Mas a cabeça
Maldita
Ainda paga com juros
O que você me fez.

Desconverso
Crio metonímias
Creio que talvez
Venha me salvar
Ah, poesia!

Mas não.
Não.
Eu disse não
E a manhã já se fez

Branda
Breve
Com bolo de café
E tempo quente

Sabe?

Um dia que ainda não sabemos
Virá como brinde a tanto sofrimento.

Mas não vale esperar
Vale apenas seguir reto
Porque seguir reto
Hoje é só o que há.

Com a pressão nos ouvidos

Atenção!

Estamos passando por uma área
De instabilidade.
Eu pensei: estariam todos
Neste avião
Amando?

Treme aeronave
Senta aeromoça
Reza senhora
Chora criança

É medo de morrer?
Tudo é medo de morrer?

Fechei os olhos e acordei
Aqui, sob os lençóis
Pois se há algum mal
Este é só o não resolvido

Disso tudo a todos
Disse o fim e os princípios
Sem escovar dentes
Parti

E agora estou aqui
Abraçado em nova ternura
Que me olha
Que me mira
Me escuta

Ainda bem
Que pousei hoje
Pelo amanhã

Seu sorriso
Compensa a vida.

E então disse ao moço da recepção: já estou descendo.

Sonhei com você. Já fazia tanto tempo que isso não acontecia (nem sequer me lembro se, depois de tudo terminado, cheguei alguma vez a sonhar com você). Mas sonhei. Nesta última noite, sonhei que estávamos os dois numa mesa em alguma cafeteria. Como sempre, sob a mesa, minhas pernas estavam cruzadas e, diferente de hoje, minhas pernas esbarravam nas suas. Meus nos seus pelos. Conversamos um bocado, entre torradas e café.

Eu lhe disse com bastante clareza (estranha clareza para sonho tão obscuro): desde que você partiu, eu continuei a te amar. Desde a sua partida, eu não parei de te procurar. E então você sorriu. (Acho que você sorriu. Eu também sorriria). Você sorriu e eu lhe disse ainda mais: disse que não me fez falta o sexo com você. Disse que a falta suprema era a do abraço, a falta do ficar junto, de passar as horas ao seu lado.

Sonho tem dessas coisas. Saltos temporais e espaciais. Quando vi já estávamos dentro do meu apartamento e ele estava ainda mais diferente do que hoje. A primeira coisa que você disse foi: teremos que ver algumas coisas, o que é preciso comprar, ver a coisa do telefone e seguiu falando das burocracias todas na vida de um casal. Eu estava inseguro porque já faz meses estou sozinho e, de fato, voltar a você não seria uma escolha sensata. E você falando - mais uma vez - de comprar, de arrumar, de fazer por meio das coisas materiais o que deveria ser ação nossa.

Depois, no meu sonho, acho que você mudou de rosto. Não me lembro para qual rosto, mas você mudou e deixou de ser você. E eu me vi, novamente, negociando com um antigo amor que queria voltar a estar comigo. E tudo foi tão estranho porque só mesmo em sonho para existir isso. Eu estava onisciente, ciente da minha situação dentro e fora do sonho. Eu segui conversando, avaliando as possibilidades, mas mesmo assim a possibilidade real do reencontro sobreviveu apenas no sonho.

E acordei. E era cerca de cinco horas da manhã. Fui ao banheiro, fiz xixi, bebi água e escovei os dentes. Voltei à cama e falei a mim mesmo, com evidente cara de espanto: você sonhou com ele! Deu-me um remorso. Não que houvesse problema, mas o que me interessava era averiguar o porquê de em sonho te encontrar. Deitei sobre a cama e na tentativa de compreender alguma coisa acabei por dormir ainda mais profundamente.

Meus desejos, tal como minhas pernas, se espreguiçam - hoje - livres, potentes e capazes do se multiplicar. Tudo em mim conversa e nada mais sobra em conserva. As coisas que tenho a dizer foram ditas e meus desejos já desejados hoje são apenas belas imagens de mim distintas, posto queiram sempre armar barraca onde eu almejo apenas ser ainda tempestade.

Sonhei com você e acordei sem ter soluço ou remorso ao descobrir ter sido somente sonho. No banheiro, após tomar o matinal banho, frente ao espelho, secando a barba com o secador de cabelos, eu me vi repleto por ter sonhado e ter acordado ainda mais esperto, mais sensível e ligeiro. Não vou parar porque o sonho é só diversão para tempos passageiros. E peguei o telefone e perguntei: o café da manhã é servido até que horas?

Dez horas. E então disse ao moço da recepção: já estou descendo.

sábado, 4 de julho de 2015

Considerações sob a chuva

Não quero tecer tramas intransponíveis
Não quero dizer o que soube
Posto agora nada valha
Nada. O que foi teria sido
Outra coisa. Mas já se enterra
Sob a chuva a certeza última
Que em vida tivestes.

Mudou tudo. A coisa toda
Tudo mudou. Mudaram a posição
Dos moveis e em silêncio quieto
E profundo as coisas outras
Se fizeram. Estátuas no lugar
De gestos. Saltos que antes mortais
Viraram apenas ornamentos.

A sua poesia desiste
No instante em que pensas
Sobre ela e a partir
Dela a chuva continua
Porque tudo o que há é hoje
Jorro. E encharcado você
Caminha por caminhos não antes
Previstos.

Se está confuso se tem tu o frio
Ainda assim continuam as coisas
Todas. A verdade é esta
Quanto mais escreves menos
Sabe coisa alguma. Silêncio.
Deixa que a convulsão das palavras
Possa lhe resolver.

Por vezes cai uma gota certeira.

Por vezes há muito barulho.

Por vezes como hoje por vezes
Só isso. Só isso. Manual
E à luz vermelha.

1534


Sair para ficar

De todas as coisas
que poderias escrever
Nada chega perto
da importância imensa
Que é ficar
Sobrar
Se entreter a si mesmo
sem escape
ou decoração
Capaz de amenizar
este instante.

De todas as poesias
somente aquela
que nunca foi escrita ainda
Somente ela poderia
dar conta
do seu tormento incessante
Somente aquilo que ainda não veio
Pode hoje te segurar, menino.

Escrevo como se pudesse
dentro de ti armar abrigo.

Escrevo porque te conheço
e porque sei que certa vez
Você se embriagou pelo vento
e então tudo em sua vida
passou corrido
Sem cuidado capaz de plantar
sem gesto que detém
sem nada exceto
Ventar.

Mas veja: seus cabelos foram cortados.
Sua pele está seca.
Você está, mais do que antes,
cansado de achar graça
num mundo tão movido
a martírios.

O amor que um dia lhe fora lindo
também secou.
Revelou o amor sua principal vocação
ser recipiente para o medo.
Você esperava sim
que não houvesse mais necessidade de ter medo
mas seu amor foi medroso e te afundou
neste escuro que te mastiga as mãos.

Você já com alguma idade
olhando para o mundo
Com uma desconfiança imensa.

Tudo certo, você diria,
mas não. Não está tudo certo:
agora, o certo, é só essa paz que te comove
os gestos. Esta delicadeza com a qual você mesmo
se faz protesto.

Nada.
Neste momento.
Nem ninguém.
Daria conta
de te resolver.

Você saiu de si
para ficar mais inteiro
Naquilo que és.

Só isso.
Só isso.

Clausura

Não podia fazer o mesmo gesto
(aquela de já tanto tempo)
Seu corpo doía constantemente
e não haveria possibilidade
de descanso.

Estava longe
Fora
Noutro canto
Estava ausente
do hábito
Cotidiano.

E então se viu assim:

lá longe
Como que fechado
em clausura
que mais do que o oprimir
O protegia
de tudo já conhecido.

O nariz escorrendo lágrimas.

Os olhos vermelhos e pequeninos.

Esta clausura
este silêncio
Este íntimo forçado
este limbo
Eis aqui
onde ficarei

Ele se disse
como se pudesse abrir a janela
E partir voando.

Durou um tempo
até que ele percebesse
que seria esta
Sua nova condição.

De ser ser postiço ao mundo
de andar rente
mas não dentro
De olhar mais do que fazer no mundo
abrigo

Passar
Ser passagem
Sem ranço de emoção
sem métrica possível
de tocar

Seria conversa confusa
porque ele sairia
mais do que simplesmente
haveria de ficar
Tudo assim

lonGe
do Permitido
pelo Hábito Tanto Já COnsTruído

---

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Relatividade

Você consome drogas
você bebe álcool
Você pega táxi
mas também ônibus
Você pedala a bicicleta
come banana
e bebe Coca Cola
Você dorme na sua
e em outras camas
Você joga o lixo no lixo
e a guimba do cigarro
no chão
Você tem respeito
e educação
mas ontem você perdeu tudo
e se permitiu ser grosseiro
Você foi lindo
e breve, foi passageiro
Ouviu as músicas clássicas
e as nem sequer músicas consideradas
Você ficou no tempo
e extrapolou as medidas
Você gozou dentro
e fora das camisinhas
Você sente dor
e toma a medicina
Você sente dor
e deixa a dor doer
Sua voz é baixa
mas apenas quando convém
a você
Quer dizer
o que está acontecendo?
Você é mais maleável
do que o vento.

Alguma instabilidade te participa
e não venha com explicações insensatas
ou sabidas demais.

Não se explique hoje, ao menos hoje,
não. Sem explicações.

Durma paradoxo
Duro e ciente
de que a vida
é mesmo
trama de enzimas
e ribominas
nibocinas
e traquininas.

Entendeu?

Viste?

Eu também não.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Primeira tarde

Deitou sobre o gramado
O sol ainda não tinha partido
Deitou-se
e por breves minutos
Sobreviveu saciado.

Uma paz assolava sua confusão
e nem que fosse por uma tarde
Ele percebeu
Hoje seria distinto de antes
Porque sim,
apenas por isto
Porque sim.

Havia saído de casa cedo
sem óculos escuro
Estava disposto ao dia
Disposto a fazer de outro jeito

E se agora o miramos
Lá está ele
ainda sobre o gramado verde
Olhando para o céu
como quem olha para o altar.

Deus,

ele chama

Deus, você um dia voltará?

Silêncio no parque.

A noite querendo sobre ele despencar.

Tirou o fone dos ouvidos
para escutar melhor
E repetiu:

Deus.

Deus?

Deus não estava.
Deus não esteve,
ele se diz
Deus não estará.

E então passou uma nuvem
sobre ele e sombra se fez.

Sentou-se, mirando o gramado
agora em verde escuro
e tudo entendeu:

(...)