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sábado, 29 de novembro de 2008

A disposição dos móveis

Não me assusta a disposição dos móveis, nem sequer as luzes apagadas.


Assusta-me primeiro a pele seca e a persistência dessa vaga, em aberto, no meu corpo, no meu peito. Variados os modos tentados, variados os gracejos lançados. Mas para quem, eu me pergunto. E eu sempre me pergunto o que não posso responder. Sempre me lanço nos espaços que não posso compreender. Ou porque são fundos demais. Ou porque nunca há neles um você, que seja, qualquer você, um desses que me estenda as mãos e tende a me fazer compreender o porquê das luzes apagadas o porquê dos móveis tão colados sem espaço entre eles sequer para um transitar das pernas.


Mais uma vez eu chego em casa. Nem é noite nem já é dia. Eu chego em casa na hora da agonia, quando o corpo ainda não chegou ao limite, quando o corpo ainda persiste, louco, querendo amar. As luzes apagadas, os ruídos são de fora. São de fora de casa. O silêncio aqui dentro persiste e eu preciso perfurá-lo. Dizendo sem sentidos e ousando ferir o ar com um soluço ou um espirro. Mais uma vez eu chego aqui. E não sei como em seguida caminhar. Não sei o que fazer depois que entro no quarto e despejo sobre a cama o que sobrou além de mim. A mochila, a garrafa de água, a carteira, o celular. Tudo no silencioso. Tudo sem vida. Tudo assim em abandono.


O que me recebe enfim é essa tentativa de se dizer de se gritar de se contorcer entre palavras e nem sempre em versos. Nem sempre eu verso sobre o que em mim agoniza. Eu estou neste momento fugindo das rimas. Fugindo até nelas não me ver e não me vendo também por isso me esquecer e ir seguindo. Ir seguindo. Até que uma dor profunda me faça querer tombar. Até que uma dor profunda me consuma e me destrua, por fim. Se não houvesse o sono talvez eu morresse jovem demais, louco demais. No sono eu me refaço e sempre recomeço os dias do ponto em que quase parti. Recomeço os dias do ponto em que comecei a ruir. Mas muitos cacos por vezes juntam-se em mim, sem que eu veja nem autorize nem perceba, sobre a mesa, os cacos vão se juntando e eu me sirvo na louça rachada eu me sirvo na droga acumulada. E a cada dia, recomeço do ponto onde fora incapaz de quebrar.


Com os tempos é natural que fique um ranço, um acúmulo de dúvidas e de meandros que não dizem nada exceto o desespero. E amanheço em seguida e esse é um novo recomeço. Esse é um velho jeito de dizer que no amanhã tudo enfim será melhor. O que posso fazer. Espero uma dor incontrolável para nela ruir-me por completo morrendo do chão ao teto, do chão aos cabelos, ruir-me nessa dor e não mais ser paciente com o que me cansa, mais e mais, a cada dia, a cada rima.


Mais uma vez chego em casa. Um respiro de calor do couro colando os pêlos do corpo. Uma vontade desmedida de quebrar as promessas e fumar até o corpo por dentro ir queimando e por dentro jamais poder novamente se refazer. Se fosse assim, refazer o dia sem um corpo refeito. Talvez assim amanhecendo ligeiro fizesse o corpo pedir pela pausa que nunca se pode ter, nem estando ferido nem estando amando. Nunca se pode ter. E o corpo já ferido sinaliza o abandono que o iniciar de um novo dia teima em ofuscar.


Sol. Vem para queimar. Vem para secar e não mais deixar brotar que seja uma lágrima. Seque tudo e mate com calor. Mate sem amor e faça doer. Seja uma dor fudida e horrorosa. Dobre-me por sobre minha espinha e me faça pedir perdão por tudo o que não compreendo. Perdão por tudo e somente pelo que jamais entenderei os motivos. Queime sem piscar os cílios e reverbere-se em halos aumentando a dor da multidão. Transforme minhas janelas lacradas nos aquecedores da casa, torre tudo por dentro e me faça morrer no dia-a-dia da sala cozinha banheiro desespero.


Mais uma vez eu venho dentro de um ônibus que sacode e me bate em seu interior. Mais uma vez dentro do ônibus eu venho sarando alguma dor, deixando o vento da janela escorrer pelo nariz sem sangue sem vida seco, pois também em agonia. Agonias do dia comedidas. Todas disfarçadas com breves alegrias que atrapalham o caminho. Que reerguem coisas mortas e que já não servem. Mas seu túmulo no amanhecer é motivo para recomeçar e o corpo assim jamais descansa mesmo assim quando pede pelo parar. Pede pelo parar. Pede pêlos tocar. Pede pêlos. Pelo ar.


Faço listas. Do que fazer, do que comprar, lista com motivos para não morrer. Não morrer de rir, porque se chego em casa sorrindo tudo se esvai e a dor dos dentes rangendo distancia ainda mais e mais a dor que me apraz, a dor verdadeira, dos nervos roçando madeiras e metais e a lixa nas unhas são para a carne fora lançar. As lixas na unha são para espalhar a sujeira do dia pelo ar. Faço listas. Preciso viajar. Ir a praia que fica ao meu lado onde sou incapaz de tocar porque o terreno é arenoso e nele eu posso ficar posso nele criar raízes e um dia, quando a maré subir, lentamente, avançando a passos curtos de um idoso doente, um dia enfim eu posso me afogar. Eu fico aqui, persisto, não posso finalizar este corpo que cria alternativas para ainda não se ir.


Tudo então passa por esse caminho. Do meu finalizar. Tento diversificar pensar em outra coisa nem tudo a sério levar. Mas já não falo de seriedade, não falo de nada exceto esse nada em que minha vida se transformou. Todo o nada disfarçado e o que fazer com os entulhos que me dou o que fazer com os entulhos que me enchem a casa e espremem os móveis uns contra os outros. Eu já não posso andar. Não posso livremente caminhar dentro de casa. Tudo é pesado e difícil de se abandonar. Porque não posso ser leve e simplesmente me lançar não ao fundo do mar não ao alto de um altar, mas simplesmente partir sem riso e primeiro por dentro vir a me enforcar.


Bebo mais um gole de água e os interiores silenciam para ouvir o som que o corpo pode tocar. Para ouvir tudo dentro de mim dizendo o que eu sequer posso ouvir pois estou surdo e cego e tudo enfim não se parece como é. Tudo enfim se parece diferente do que me diz a pele, quando a olho sempre inerte, morrendo tão aos poucos e fazendo-me acreditar que está viva.


Mais uma vez chego em casa e me afogo em conotações. Em sentidos que não sinto e que são pura contestação do corpo, autônomo, mas preso fielmente à carcaça por mim fundida. Contestação do corpo sob viés da escrita que só eu leio porque a pele ainda está seca e aos tempos seca-se em mim também o desejo. E tudo é possível contornar, tudo é possível contentar com um doce um cigarro um sem juízo. Tudo é possível disfarçar quando não se chega realmente ao precipício. Eu preciso de ajuda. Eu preciso. Eu não sei. Não sei o que pode ser ajuda para quem já experimentou o nome certezas. Não sei se acreditaria em bondade depois do que vejo restar sobre a mesa da casa. Que sequer existe. Que sequer insiste sente-se, por favor, pois também não há cadeiras. E só há o chão. E só o chão. E só no chão. E só. Um chão. Feito pele seca com pêlos como sujeiras sem toque sem reboco sem golpe da sorte. Tudo no mesmo abandono.

...

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

14:00

a tarde me consome
o calor não é calor
a chuva não chove realmente
e tudo fica assim
pela metade
como se o dia já não fosse
nem mesmo uma coisa
nem mesmo outra

a tarde me consome
nos minutos em que deslancha
eu fico perdido
não encontro a vassoura
as letras se perdem
na bagunça do quarto
e eu não quero
não posso
fumar
um
se quero

os versos são de tamanhos variados
as coisas que digo me ultrapassam
para melhor
e para melhor ainda
nada é exceto
somente essa agonia
desse meio da tarde
desse meio que meio mas que sequer é metade
porque o dia acabou de começar
mas já vem carregado
como se portasse a semana
inteira
enjoada
chata
encabulada

poeira
analgésicos
ah, quanta dor
dor que não dói
dor estúpida
feito dor-despertador
que existe apenas para doer e lembrar ao corpo
que nele deve haver algum rancor
alguma ferida
rasgo
ou bala
não
mais
perdida

as estrofes relincham de horror
como podem nessa disposição
são medonhas
pavorosas
são estrofes ou pilhas de jornal
são algo nobre ou o sempre
mesmo
habitual

perguntas fáceis
sem calafrios
sem interrogação
este é um meio
este não é um

um um quê

tudo que me sobra
viver
será essa a minha obra
eu pergunto sem perguntar
eu exclamo sem declamar
eu afirmo sem declarar
a obra
o artista
o autor

a bulimia
...

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Un.titled

  • Eu me confronto com inevitável
  • Sempre me jogo na boca do leão
  • gosto de ser mastigado,
  • Me confronto com a dor
  • não posso outra coisa escolher
  • é sempre o rosto no concreto
  • o gesto menos discreto
  • aquele que faça o predador me perceber
  • Não existe em mim outra possibilidade
  • é sempre no pisar dos galhos
  • um alarde
  • Eu sinalizo meu próprio caminho
  • eu determino a ambulância que virá
  • antes mesmo de cair
  • antes mesmo de tombar
  • Talvez porque goste de me ver assim partido
  • entre tantas coisas que não controlo
  • entre o tanto que não domino
  • eu gosto de me ver assim
  • menino
  • tipo gente nova?
  • tipo face ingênua?
  • que se espreme e se encanta com a primeira espinha?
  • Eu gosto
  • eu sou assim
  • eu concordo com você antes mesmo de saber o fim
  • Eu vou por antecipação
  • não por maldade
  • eu sou bom,
  • acredite
  • É talvez coisa da idade
  • coisa do calor
  • do pretor dos olhos
  • da pretocidade,
  • Eu preciso mesmo me explicar?
  • Eu não poderia outra coisa escrever
  • outras coisas brotar?
  • Ai, fica mesmo complicado só assim ser
  • isso dessa poesia pesada que só faz aborrecer
  • Eu sou isso também
  • mas quero os ombros mais soltos
  • quero a coisa do menino me alçando ao vôo
  • me jogando
  • não para morrer
  • mas para morrir
  • não para sofrer
  • mas para sofrir
  • Assim
  • desse jeito
  • com essa agitação
  • com esse pretexto
  • com essa sensação
  • de que a vida não vale nada e tudo
  • at the same time,
  • humm?

Uma vez eu escrevi que eu percebia a vida, que eu a analisava, no exato instante em que ela para mim se derramava. Como dar nomes às gotas da chuva antes do seu virar rio. Eu vou tentar isso agora. Dar nome aos sentidos. Dizer deste dia, destas horas, das últimas agonias. Mais uma vez eu quero morrer por tudo o que escrevo. Sempre sinto que falta alguma coisa. Não é sempre. Nem sempre alguma coisa. Penso que falte propósito. Cheguei a me chamar de assassino de palavras. Mentira. Não fiz isso. Mas de certa forma sou mesmo assassino. Disponho-as de qualquer forma. Seria qualquer? Importa a forma? Isso é tão genuíno. Isso de se derramar não em sangue mas em livro.

Ah, esse momento. Essa vida esquisita toda acontecendo. Quanto a compreender, quanto a olhar e nisso ir se refazer. Eu quero tanta coisa nesse momento. Eu estou tão satisfeito tendo tomado uma caneca de leite com achocolatado em excesso. Eu vou escovar os dentes. Eu vou tomar insulina. Eu vou deitar na minha cama e passar a mão sobre a mim barriga. O que tenho criado dentro de mim? Estarei grávido? O que me faz ser mais do que eu? O que me dá preocupação? Que filhos dou ao mundo? Eu preciso fazer a barba. Eles podem se assustar.


Quando começo a falar de filhos as coisas todas revolucionam. Parece que é a metáfora. Parece que meus filhos escondem em si a minha vitalidade. Só se é pai tendo filhos. Não se é pai sem tê-los, a princípio. Paro neles e tudo ganha mais vigor. O que posso dizer que seja pesado demais quando estão todos correndo pela sala e pelo corredor e tombando pela escada! Não, por favor. Não se machuquem. Fiquem mais um pouco sem se cortar. Eu me acostumei com sangue mas não precisamos sempre sangue jorrar.


Muito feliz por esse novo começo.


Não consigo te odiar, tempo. É que quando eu caio e fico no chão ralado, você segue. Mas sou eu quem parei, não você quem corre. Como naquele dia em que eu corri feito louco e reclamei que estava demorando a anoitecer. A culpa não foi sua. Foi você quem fez o sol dormir. E eu ali, vendo aquilo, sem perceber, como você estava sendo gentil. Mentira, gente! Esse último trecho está escroto! Mentiroso! Sei lá! Não acreditem!

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Halo

Uma vez uma poesia declamei
dizia os versos de Maiakóvski
e neles em uma palavra eu fiquei
assim parado
assim impraticável
como se nela todo um mundo pudesse derivar
como se não compreendendo pudesse nela ir me achar
nela achar alguma imensidão para o peito adolescente.

Eu cresci
é sempre o que acha a gente
eu virei homem
é sempre a mesma de sempre
Mas naquela palavra uma infinitude me reduz
pois me faz grande e eterno

Como posso ter crescido se ainda diante dela
nada é como eu espero
se diante dela
nada é
e tudo deixa de ser o que seria
tudo deixa de ser verso e rima
e vira a agonia
da imensidão
do amor

?

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

what i am made of.

If what you see here
is almost and always
the same

Everything is pain
and everywhere you look
you'll find something
about dead
about sons
about sun burning people
about songs i can't sing
'cause i'm going
i'm always going away from here...

What could you say
when everything here is pain
what could you do
if hurt is my new name
if blood is what it says
all the time
all the meaning
all it hides.

What could you?
If it is always so hard to see
if what i'm saying nobody can just live?

What could i say for you, so?
I think i'm doing this all the time
i think there's nothing new
only again
and again
the pain

sometimes more than yesterday
sometimes more heavy than ever
sometimes
i run
sometimes
i hide
sometimes
i'm scary of you
but all i really want is to hold you now
and make you see (read) trought these words
what i am made of.

domingo, 23 de novembro de 2008

Pós.Enterro

A parada de ônibus
óculos escuro
para preservar do sol frio
as lágrimas que ainda agora
teimam em rolar

Na parada do ônibus
óculos escuro
para nublar as cores
e ressaltar a altura do prédio
Monstro
do qual você se foi
para não voltar

Parada
no ônibus
eu me culpei por não ter ido
te ver
ter ido
sentar ao seu mármore
e lhe dizer
as palavras que hoje ao vento
eu teimo em lançar

Parada entre os amigos
sentindo entre tantos sentidos
um buraco
uma escoriação
uma pele rasgada
e faltando dentre ela
uma costura
certa comoção

Parada do ônibus
eu volto para onde agora vivo
e tudo volta a parecer sem sentido
e tudo volta a se chamar vida
e já não é tão estranho essa azia
essa corrupção na própria lida do dia
nada é tão estranho

Parada
eu no óculos escuro
olho o céu em preto e branco
e nele te imagino
indo e voando
partindo e voando
sempre voando
nunca voltando

Não importa
parada do ônibus
eu desço apressado
o dia me reinvindica
e você no céu
eu sempre em seu percalço

Fique comigo
acompanhe meu destino
ponha sua mão
seus cabelos vermelhos
interfira o seu sorriso
e não me deixe temer nem amar
a altura dos prédios dessa cidade
não me deixe temer nem amar
meu próprio e negro umbigo

Não me deixe reconhecer minha face no fundo de um ou outro precipício
ainda não
não me deixe

Estou com você
na parada
de um ônibus

indo e sonhando
partindo e sonhando
sempre sonhando
sempre você
...

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Ao Vento - Primeiras Lufadas


É bem isso o que tenho para aqui dizer - uma ou outra palavra que eu ainda não saiba compreender. Sobretudo, uma inversão na direção. Um rosto caído de lado. Um contato mais íntimo com o chão.

Dentro o meu coração grita de felicidade. Uma microcoisa que de mim faz parte ou que dentro de mim me invade. Confuso assim. Parece metáfora que se confunde com o objeto. Parece alguma coisa tão genuína pois a simplicidade eu espero.

Os cinco (6) corpos ali jogando. A escada, as cadeiras, a mesa, o dedo diante do rosto silenciando. Quanta compreensão ali haveria? Quanto valor dado às pequenas coisas que noites afora eu escrevia? Estou realmente maravilhado. Isso não é nada. Não quer dizer resultados. O que importa o resultado.


Hoje estive no apartamento 201 e adivinhe? Fiquei ligeiramente assustado. Não pela desordem ou pelo o que vi através da janela. Mas assustado por ver ali vivo - pulsante - um caminho e não antes a sua descoberta.

Assustado por ver ousadia onde haveria o sorriso da platéia. Não precisamos sorrir tanto assim. Sorrir também surge quando não podemos discernir. Sorrir é também um modo de se integrar. Eu não consegui sorri. Eu apenas consegui contemplar. Quão complexa movimentação podem os corpos fazer.

Voltando aos corpos que ali ventavam - não vejo a hora de acompanhar o seu salto a sua queda o seu silêncio e sua paquera. Quero muito compartilhar desses microsegundos. De toda essa simplicidade que de mim ganham agora um mundo, pois revolvem a vocês.

[enquanto isso, espera, ou, um trecho]


VOCÊ VEIO LÁ DE DENTRO? Infelizmente acabei de ser convidado a me retirar. E COMO ESTÃO AS COISAS POR LÁ? Como poderiam estar? Se estão lá dentro é porque não estão nada bem. EU AQUI FORA TAMBÉM NÃO ESTOU NADA BEM. É algum parente seu? NÃO. Um amigo? NÃO. Quem é? VOCÊ ESTAVA EM QUAL QUARTO? No do lado. E O DO OUTRO, SABE ME DIZER ALGUMA COISA? Sei que estamos nas mãos de uma mesma enfermeira. E ONDE ELA ESTÁ? Pediu que esperasse aqui fora. Em breve trará notícias.
...

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O que há de novo ao meu redor

A mesma sensação outra vez de mim se apodera. As partes do quarto estão confusas e eu me sinto ligado a todas elas. A cada poeira eu me sinto responsável. Aos livros jogados eu me responsabilizo. Eu sou a culpa deste estado, deste resultado.

O que há ao meu redor ainda é o mesmo. Meus olhos, diriam, outro lugar podem enxergar. Mas não acho que seja assim. Acho que talvez estejam ficando cegos ou pelo menos, meus olhos estão cansados de apurar. Cansados de olhar demasiadamente para o mesmo redor e disso dizer - tirar - alguma beleza. Há tanto esforço nessa tentativa do belo. Que confusão.

Nada decerto é tão novo assim. Eu não saberia perguntar o porquê. Acontece que entre os livros e poeiras alguma coisa remexe e me chama atenção. Ao mesmo tempo eu penso como tudo está tão imóvel. Como as coisas todas escolheram o silêncio para nele dormir e quem sabe morrer. Mas é tudo metáfora. A prateleira ainda está no chão, de pé. Os livros nela empilhados querem ser lidos, querem ser acariciados.

Eu é que estou perdido. Com tanto novo ao meu redor vejo meu olhar frisar o já percorrido. Eu vejo o que quero e não necessariamente o que preciso. Eu estou aqui trancado. Quanto de novo pode em mim haver? Não saberia dizer. Já não importa dizer. O medo de perder mais alguém talvez me faça chorar. O medo talvez me faça interpretar a sua respiração e ver nela o seu medo também.

É confuso. Não é para vender. Isso que há ao meu redor, hoje eu sei, nem sempre me fará viver.

***

Eu fico lendo e revendo. Indo e voltando aos meus filhos e outros textos. Quanta fixação na vida e na morte! Como posso tanto assim dispor em palavras? É tudo maior do que a existência. Falar de vida. E de morte. E de desistência. É tudo assim tão maior do que eu? Talvez para os que acharem maior. Talvez eu devo dizer não seja tão distante assim. Eu estou morrendo. Você sente? Em você, você sente a vida partindo. Não correndo nem fugindo, mas passando feito mão do destino por seus cabelos e segredos e desvelando seu íntimo? Eu assim sinto. E sinto muito. Com muita precisão. Se fecho os olhos sobre o chão da sala eu posso desenhar. A vida respirando junto ao corpo para depois num desvio do ins e do expirar, simplesmente assim me abandonar.

Simplesmente assim me abandonar.

domingo, 16 de novembro de 2008

Dor Nua

São 03h25min, eu acordei enquanto estava dormindo.

Uma dor me corrói por dentro, me destrói, me desconcentra. Uma dor me gera toda essa impaciência e me lança direto ao abismo de meus atos pensamentos sonhos e contatos. Essa dor me faz ver tudo através de uma crua nitidez. A dor me faz ver o que fiz naquilo que toquei. Eu preciso escrever para dissipar. Eu preciso escrever para fazê-la partir. Mas sempre há de voltar. Mas por enquanto passe dor. Passe para a manhã que se aproxima. Me deixe dormir solto e apenas como estou. Não me faça doer até o amanhecer. Meus olhos pedem silêncio e eu já não posso nada exceto doer.

Ah, como dói tanto esse dente ferido. Esquecido maltratado. Dente esburacado. O que foi que eu fiz? Deixei o tempo roer minhas esperanças. Deixei que tudo se concertasse no passar das horas mas sequer percebi que as coisas também por este passar passavam, morriam, desboroavam sobre e dentro de mim. Ai, dói demais. Eu não saberia dizer. Que estranha sedução essa de escrever a minha imprecisão. Que estranho vício que me faz agora sentir a dor e te descrever. Que estranha essa criatura que de mim se apoderou. Era para eu chorar, querer minha mãe de volta. Mas não! Eu não choro! Eu deixo a dor doer e nisso me endireito.

Eu tenho o direito à dor! Eu posso doer. Isso não me prova somente vivo, mas, sobretudo me prova capaz de morrer! Morrer de desespero. Apanhando o alicate e arrancando os dentes. Lavando a colcha a sangue fresco e pulando a janela sem dentes para sorrir. Sem poder simular a felicidade morta de quem diz morrer feliz. Meu pai do céu está doendo mais!

Parece que por aqui ter disposto essa dor, ela só faz aumentar em mim. Eu cansei. Não posso continuar. Esta dor que está doendo - eu vi em meus sonhos - ela pode me matar. Eu preciso me cuidar. Preciso me entregar aos médicos e pedir pela cura. Fazer a cura em mim durar. Eu preciso que você me ouça e acredite que estou lúcido. Ou não. Enfim, não tire de mim a minha liberdade. Se temo tanto assim os médicos é porque não sabem olhar os olhos a não ser através de espelhos e vidros e lentes e assim distante eles me vêem. Assim, distantes, eles me matam.

Dói! Dói mais e mais! Eu vou agüentar a madrugada tilintando dentro de meus dentes! Eu vou agüentar essa dor que anulou o cansaço da semana recém-morta! Eu já fiz de tudo! Eu já lavei. Já esquentei a face. Já tomei remédios e tentei rezar. Tudo em vão. Nem o sangue é capaz de sair para dizer que algo mudou. Tudo ainda é o mesmo - apenas a dor é mutante. Aumenta e aumentando me consome.

Minha cabeça pensa horrores. Como poderei agüentar? Domingo. Domingo. Preciso de um dentista. Preciso de um dentista. Que me tire o sorriso e me deixe sem essa possibilidade - inviável - a felicidade.

Eu vou fazer um café! Eu devo fazer um café. É o que possuo dentro dessa casa além de meu próprio corpo. E passado os espasmos do corpo manipulado, a dor ainda persiste e talvez um café seja apropriado. Não para adiar meu sono, mas para brindar minha dor com a dignidade mortal que ela impregna em meu rosto.

.

sábado, 15 de novembro de 2008

Meu vício agora

Não vou mais falar de sol
de filhos de coração de solidão
do mar da rua ou da minha mão

Meu vício agora é alguma coisa
que desenho acordado
contra o fundo cru
dessa imensidão

MEU VÍCIO AGORA
É O PASSAR DO TEMPO
MEU VÍCIO AGORA
MOVIMENTO
É O VENTO
É VOAR
É VOAR

Tinha suspirado
não mais por conta de uma carta
não mais por nada exceto o cansaço que a desestruturava

Tinha suspirado decidida que dali para frente
nada seria como antes
tudo seria então diferente

Importava agora escolher
importava somente agora ser
e sendo a si mesma ela poderia dizer
eu escolhi
eu quis sorrir e ou sofrer
escolhi cada que conquistei
cada em que tropeçei
eu escolhi
porque a escolha foi você quem me fez

E mesmo assim
fica interessante não ser o avesso do que eu era antes
de agora em diante
FICAREI ASSIM DESEDIFICANTE

aos pedaços que não constroem prédios
aos cimentos que são maleáveis em meio ao vento
ao concreto que é macio
que é ruído e teto
ao mesmo tempo

agora

eu assim me faço completo
desestabilizando a mim mesmo
e sendo em mim o que eu quero
sendo em mim

apenas
aquilo
que eu
quero.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Intensidade do Compartilhado

às vezes eu me pego pensando
se eu não tivesse sido tanto assim quanto fui
talvez esse sangue já tivesse secado
talvez já tivesse parado de escorrer

se eu não tivesse dito tantas vezes o mesmo
talvez o corte tivesse sido corte apenas
e nada de cicatriz nem tatuagem
tudo seria esquecido e ultrapassado
tudo seria feito fase

se eu não tivesse respondido a tudo
e tivesse apenas me ausentado
como quem olha para frente
quando falam com você pelo lado

às vezes

- e hoje foi uma vez dessas -

vindo dentro do ônibus
olhando a madrugada esticar suas pernas
eu pensei como a minha dor dói mais pelo fato do compartilhado
pelo fato

duro e simples

do tamanho do nosso amor


hoje olhando pela janela do ônibus em que eu ia
contei os andares dos prédios que cruzavam o céu
contei até a sua idade
e percebi que o número dela era o do andar
o número de anos vividos
foi o mesmo dos andares a despencar


o peso que hoje me forja
é talvez o dessas toneladas
é talvez o peso indescritível
de descobrir que quanto mais se ama
mais dor se acumula

como se amor fosse dor
e dor fosse a cura
para os que amam sozinho

na mesma manhã de domingo
em que eu inventava ficções
você furava o céu
escrevendo a sua realidade
para além do que os meus versos
hoje
são capazes de apreender
...

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Nublado

O dia nasceu hoje por obrigação

Foram empurrando o sistema
girando os planetas
e na pressa se esqueceram de abrir os olhos do sol

Tudo assim está dormido
mas dormido não feito noite
mas feito pão
murcho
frio
dormido.

Então acordei
e não soube como proceder
havia um frio em tudo aquilo que eu pudesse
ou quisesse
fazer

uma onda invisível assolando os cantos da casa
a cama coberta sinaliza a minha vontade adiada
voltar ao recanto
à ficção do abraço da mãe

às asas que trazem de casa
apenas um edredon
sujo
de memória.

Quando eu era criança
eu não lembro de muitas coisas
isso dá a angustiante sensação de não ter sido criança
de ter pulado a etapa num dia de sol
e de ter caído neste aqui
neste agora
já com o corpo embrutecido
com o sorriso ferido
e sem entender o caminho

Houve um caminho?
Foi escolhido?

Lembro do cheiro
do susto
da passagem de sensações
mas nada é tão concreto como esse nublado que me fez a tanto voltar

Voltamos para quê?

é para começar
de novo
ou para de novo
desesperar?

...

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Captura

Alguém sempre diz que as coisas estão correndo, que o tempo está passando depressa e que vivemos numa época multifacetada. Que argumento é esse, porém? Para que serve dizer tudo isso se não há o esforço para capturar um segundo no vento, uma foto que não se faça perder aquilo que é rápido sim pois consome por dentro?

Eu não tenho conseguido dizer muito o que gostaria. As coisas aqui estão faz bom tempo muito imprecisas. Mas é essa a natureza do meu olhar neste instante. Capturando fragmentos do que gostaria de provar. Provando segmentos que eu possa depois não aprovar. Eu estou nessa faceta do rápido e perverso momento. Eu sou isso, eu também estou no tempo.

O que você captura? Em que você, essencialmente, precisa se manter para segurar?

Eu digo que a minha última concretude está no vento. No seu silêncio cruzando meus cabelos e passos. Deixo que avancem além dos olhos para que com o vento façam os dois meu olhar multivariado. Meu olhar não fica assim em si vidrado. Tudo está passando, meus fios são cortinas que descortinam o imediato. E me lançam no desfoque do real. E me lançam sem que eu possa capturar com nitidez o estupro na esquina.

Isso explica o meu vagar. Isso explica porque por tantas vezes pelo mesmo lugar eu preciso passar. É na repetição do corte do rumo e da sorte que eu absorvo o sumo deste sentido incompreensível. É na repetição das agonias que eu acordo mais forte a cada dia. E mesmo que o sono exista, mesmo que eu queira por dias vagar parado, não há cortinas de dentro para fora do meu quarto. Aqui tudo é exposto. A vergonha fica jogada no piso imediato depois à escada. Aberta a porta, o que há dentro de mim é apenas minha sala. Minha casa.

Eu pergunto outro vez, o que você captura? E você que lê se permite ser o você que eu escrevo. É isso mesmo. Num só nome todo o público de todo o jeito. Pode ser você ou você, entende? Pode não ser. Não leia aquilo que deseja ler. Leia aquilo que talvez possa te contrariar ou fazer doer. Há impessoalidade em cada palavra. Exceto nas que eu não consigo dizer, posto estão cravadas feito mosaico de espelhos sobre meus pêlos.

O que você captura?

O que você, pequeno, pega para si?

O que você cativa?

Feliz por este excerto. Feliz por ver na correria um túnel silencioso e obsoleto mas íntegro reflexivo verdadeiro. Os erros aqui, são como escamas. Trocam-se e nunca cessarão esse trajeto. Bem-vindo(a) ao meu reino...
.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Comentários

é tão difícil tecer algo sobre

tão doloroso está sendo esse pensar

eu posso esperar, apenas?

posso perdurar a minha ausência
e deixar pesando o corpo
esvair-se em dor
para após o fim
ir encontrar

o meu gesto
o que em mim
essencialmente
precisa (r)estar??

...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Morte à metáfora

Cansei de falar de filhos

Que não tenho.

Sou sozinho não tenho asas

Mas continuo morrendo.

Essa talvez seja a única firmeza

A única dureza na qual me debato

Porque há vida no desfazer

E refazer da mobília do quarto.

Cansei de falar de estrelas

Que nunca disse

De me expor em cores

Que extrapolam a minha

Falta de tons,

Meu sangue está velado em veias que não consigo cortar

Talvez pela falta de gilete

Talvez porque não tenha tempo para sequer me barbear.

O que eu quero dizer está sempre indo distante

E é distante porque não concretizo o instante

E durmo pensando em acordar

E beijo pensando no terminar

E vôo pensando em te encontrar.

São nessas azias

Que o meu dia arruína

Nessas melancolias

Que eu me perco

E me perder nem sempre me fascina,

Porque o encontro é preciso

Porque o encontro eu preciso

Nem que seja para o despedaçar

Nem que seja para alguma coisa que eu não possa aqui delimitar

Estou sobre cacos que não consigo juntar

Se paro eu vejo que não são cacos

Mas pedras pequenas que acompanham o meu caminhar

Que corre

E desce e sobe e vira e torce

Até eu precisar recomeçar

Com os pés ralados

Os olhos vencidos

E o sorriso amarelado.

Nada disso é metáfora

Tudo está assim consumado

O cabelo que temia sobre os olhos

Agora os olhos ultrapassam

As unhas pintadas pelo mundo

Pelos dentes são refeitas num segundo

E tudo está preso aqui dentro

Na confusão de um organismo ser.

Nada disso é o que não é

Tudo assim fica muito preciso

Como foi com seu beijo

Como foi com seu partir

Como foi quando eu chorei

E chorei sem ninguém poder me ouvir

Tudo assim dessa maneira

Hoje o domingo

Amanhã

Todos sabemos o que será

Já não posso continuar?

Sim, eu posso continuar.

Extrapolando os limites do possível

Refazendo as apostas num futuro imprevisível

Sim eu posso continuar

Basta acreditar

No instante deste segundo

Faze-lo durar o suficiente para ser duro

E não ar

E não vento

E não sempre tudo ser bem-estar.

O que se aprende com o amor

É que nem tudo se pode explicar.

Eu não me explico

Isso eu já sei

Eu não quero sentidos

Eu quero a confusão reinando em reis

Eu quero a lobotomia desta manhã

Eu quero a fome a fome a fome

Deixe assim estar

Deixe o tempo nublar

Saturar

Sucumbir

Eternizar

O movimento retrógrado dos homens que andam de costas

E que correm

E que borram

O chão

Espelhado

Dessa movimentação.

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