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domingo, 28 de fevereiro de 2010

PRóLOGO

            
Marcelo surge. Coloca entre as mãos, como fosse relíquia, a garrafa de vinho passada. Senta-se em sua poltrona. 

Marcelo – De antemão, a culpa é minha. Não é bem culpa. Mas a coisa em si, ela é minha. Toda minha. Eu desenterrei os cadáveres, eu fiz durar mais do que devia este gosto aqui na boca, esse... Essa... Isto. Isto que a cada segundo em mim pediu abrigo e eu sempre dei. Agora é tarde. Eu não fui forte o bastante para construir casa casamento nem cachorro. Comigo nada disso valeu. Disso nada valeu comigo porque eu fiquei parado no dia em que a gente rompeu. Parado no dia em que a gente aqui neste mesmo lugar se deu e doeu, para se dar outra vez, só que enfim, por vencidos.

Vitória sem vencedor. Sem abrigo, sem aperto, vitória sem abraço é triunfo sem sentido. E agora esse reencontro por mim proposto. Por mim de novo. Para encontrar outra vez essa lembrança tão presente tão quente, mas sem destino. Nem todo gozo vai esquecido porque nada se foi completamente. E é minha. É culpa. Eu cultivei todo o resto, guardei todo e cada abraço perdido. Como fosse trilha, vestígio. Lembrança regada a cada dia é memória recriada e repetida. É, pois hoje, minha memória a minha vida.

Um presente que me dei.

A necessidade da fome. A culpa. A fome, eu sei, ela é minha. Significado, motivo: não há. O que resta hoje são lembranças mexidas, já deturpadas... Lembranças com cheiro, com gosto, com asas. Lembrança é porto-seguro. É desde sempre chegada. Eu parei de buscar. Eu me permiti ceder. Ser sede, fome, sede, ser fome. Corpo-sede do que este encontro de novo outra vez poderá fazer nascer... Ou brotar... Ou surgir 

Marcelo se ergue da poltrona, deixando a garrafa sobre ela e avançando ao limite. Estático, mira o céu escurecido e contempla o movimento dos astros.

Trecho inicial da peça GUARANÁ CEREBRAL, de minha autoria, cuja estreia acontecerá em JULHO, no Rio de Janeiro.
         

Estrela Internacional

Eu vou sentir saudades dos abraços que não dei.
Do tempo perdido que com você poderia ter estado.
Eu vou sentir sua falta a falta do seu cheiro do seu sorriso
vou buscar em algum lugar seus rastros.
Eu vou tudo isso.
Eu vou passar uns bons dias amargos.
Hoje, por exemplo, eu em casa aportei
e meu amigo assim falou
Que é que você tem
(as lágrimas nos meus olhos brilhando por atenção)
Que é que eu tenho?
Eu não sei
é angústia
é porque ela vai embora
E que difícil é aceitar a partida previamente anunciada
Se fosse acidente
se de mim ela fosse capturada
tirada
movida
mas não,
foi coisa toda prévia
eu sabia
ela também
foi plano.

Eu vou ficar.
E você vai.

Você fica
e eu vou
em cada lembrança
cada fio
cada cheiro
cada sentido
cada bobeira
cada sorriso cada sorriso seu
nele eu fico
me planto
e com isso
multiplico em mim
sua imensão.

Você hoje vai
porque já soterrou meu peito
Vais hoje
porque não há outro jeito
Precisas voar
é seu rumo
sua rima
sua pele
melanina

Vai logo.
Que eu te amo
e aceno daqui emocionado
Não era previsto que eu fosse sentir tudo isso
mas é sincero
Como é que eu faço?
           

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

contemplative

hoje eu não tenho nada bonito para você
hoje eu estou ameno, tranquilo, pequeno
eu estou comigo mesmo
me dei a mão
estou paz.


tomei um banho gelado
comi salada comi melancia
hoje eu me olhei no espelho
hoje eu não tive azia


hoje a poesia veio para mim de bobeira
veio dizendo não ter nada a dizer
veio dizendo apenas viva
e me deixou quieto
tentando - sempre - compreender
que certas coisas
que certos dias
certos ventos
não são feitos para a compreensão
são feitos para o abraço


               coisas                        dias                                   ventos
                                                                                         feitos para a contemplação.
                

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

se não for capaz...

eu estava ouvindo uma música ótima no meu mp3 player
acompanhando a cidade passando pela janela do ônibus
um vento gostosinho acalmava o calor colado ao corpo
eis que a moça na frente
a moça no banco na frente
eu não a ouvia
no entanto ela ria
gritava
falava com a amiga vizinha
eis que a moça da frente
ela
esta
isto
me comete a sutil atrocidade
de jogar pela janela do ônibus
um copo plástico
sujo de açaí
com uma colher dentro
colher branca e de plástico lambida
aquilo meio que acabou com meu dia
minha noite
minha vida
eu me disse
se até a hora que você sair desse ônibus não for capaz de dizer nada para essa moça
sinceramente, estará tudo acabado entre eu e eu

abaixei o volume
continuei com o treco nas orelhas
pedi licença, dizendo moça
oi, moça
enfim
nem te conheço
mas queria te pedir uma coisa
quer dizer, na verdade
é só porque vi você jogando o copo pela janela
e enfim
eu achei ruim, é isso
daí da próxima vez, sei lá
se você não fizer mais isso
vai ser ótimo
era só isso
boa noite

saí.
de bem comigo
e com o mundo.
                           

sinceramente,

olá, professores de direção teatral, coordenação do curso e direção da escola de comunicação


sou aluno de direção teatral e venho por meio deste e-mail manifestar o meu extremo descontentamento com esta situação que estamos vivemos.

talvez alguns não saibam, mas desde o início do prazo de inscrição em disciplinas no SIGA o curso de direção teatral simplesmente não possui matérias nas quais nós alunos possamos nos inscrever (há uns dias atrás, para não generalizar, umas quatro disciplinas foram disponibilizadas) .

o prazo para o término do período de inscrições está chegando. este e-mail que envio não é o primeiro, quiçá será o último. portanto, antes que tenhamos que tomar outras atitudes para tentar resolver um problema sobretudo de ineficiência administrativa, peço que considerem esta mensagem por aquilo que ela é:


uma reinvindicação de um aluno por aquilo que é meu por direito.



não temos a grade horária. não temos como nos inscrever nas disciplinas.
e ainda nos pedem calma, fazendo-nos parecer descompensados e juvenis. como mesmo já manifestou outra aluna, os prazos para entrega de nossas responsabilidades (trabalhos, projetos, etc) são sempre obedecidos. qual é a diferença com vocês? (grade horária, notas lançadas...).


sinceramente,
diogo liberano
   

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Boca Suja de Quês


- Você está com a boca suja.
- Suja de quê?
- Não sei. Chega aqui. Acho que é pão.
- Prova.
- Tá louco?
- Prova a boca. Não o pão.
- Não.
- Não o quê?
- O pão. Não é pão. É alguma coisa tipo fruta.
- Tem muita fruta na estação.
- Sim.
- Sim o quê?
- Acho que é pêssego.
- De pêssego para pão não dá.
- Não dá o quê?
- Para mastigar.
- Estava duro.
- O quê?
- O pêssego?
- Ou sua boca?
- Escuta.
- Diz.
- Anda.
- Vai. [...] Volta!
- Fala.
- Escuta.
- Eu fiz.
- Fez o quê?
- O teste.
- A prova.
- O exame.
- De quê?
- O exame anti-
- Anti-mim?
- Anti-você?
- Anti-nosso-amor.
- Sim. Anti-HIV.
- E daí?
- Daí o quê?
- O que que deu?
- Deu tranquilo.
- Isso não é pão.
- Isso é farofa.
- Frango.
- Farofa.
- Frango
- Com farofa.
- Entendi.
- Foi para comemorar.
- Comemorar o quê?
- A ceia nossa de cada dia.
- Frango.
- Franga.
- Frito.
- Frita.
- Feminino.
- Femenino.
- Feminino.
- Limpa aqui.
- Limpa o quê?
- A minha boca, porra.
      

domingo, 21 de fevereiro de 2010

quente|gelo


          
É que esse calor
esse ventilador quebrado
a forma de gelo vazia
a proibição médica
nem cerveja nem vinho nem cigarros
Bom, eu devo dizer
não me olhe por muito tempo
eu vou achar que você está se convidando a vir comer
Aqui
Na minha mesa
na minha sala no banheiro
sobre a escada exposta
Eu vou achar que eu pareço sorvete
quente gelo
eu vou achar, amado
ser eu sua sobremesa.

Vem, eu peço
me ventila.
    

Sem sim. Nem não.

- Amiga, por que você chora?
- Ele não me ligou até agora.
- Faz quanto tempo?
- Umas doze horas.
- Isso é meio dia.
- Uma eternidade.
- Não deve ter sido nada.
- Pode ter sido tanta coisa.
- Você está apaixonada!
- Eu estou apaixonada!

- E nunca pensei que fosse assumir isso com tanto pesar como agora.
- Relaxa.
- Não consigo.
- Chora.
- Eu sequei.
- Quer que vá até você?
- Você viria?
- Se eu não for agora quando ir?
- Quando eu já não estiver mais aqui.
- Vai para onde?
- Estou andando dentro do meu quarto. Não sei.
- Como?
- Não sei.
- Quer que eu vá?
- Eu não sei.
- A gente toma um sorvete.
- Não sei o que fazer.

- Você está apaixonada.
- Eu estou paranóica. Ele poderia ter avisado. Qualquer coisa serviria.
- Ele te deu o silêncio.
- Ele me deu indiferença.
- Aguente isso.
- Não sei como.
- Aprenda.
- Como se pode amar a dor?
- O que a dor senão o amor?
- Fico.
- Resvale.
- Persisto.
- Deixa que te invada.
- Sem fim.
- Sem sim. Nem não.
- Eu estou me descobrindo paranóica.
- Você está se descobrindo. Ponto.
                        

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A Possibilidade da Carne

a vontade que eu tenho agora é de somente te dizer carícias
de mexer no seu cabelo
fazendo nele novas rimas
de tocar sua pele
a tempo de ver nela a minha sombra sendo vida
tempo
eu te olho eu te coloco
sobre o meu colo, em ti alimento
o nosso doce desastre.

a vontade que agora me digere
é somente permeada por abraços
e são tantos
e tantos mais
que tudo é mais forte
que juntos seremos improváveis
nossa dor é demais
é por demais linda
e a nossa beleza
só se enerva
nosso sublime não se ameniza
ele vai
sempre mais
ele é vício
contamina.

a vontade agora
é de dormir recitando seus pêlos
retirando a gravidade dos acentos
e pelos caminhos da pele
ir criando outro relevo
outra configuração
erguer outro prédio
um só nosso
sobre o terreno baldio
que não mais será
o meu
o seu
nem os nossos
corações.

vontade de fazer neblina
e nela brincar a sua busca
brincar o seu rastro
rastrear no ar
pelo vento
sua saliva
sua gengiva
sua dente
e abocanha a possibilidade da carne
ela nos azucrina.
sim.

a vontade agora como eu quero
é de chorar miudo o nosso desastre
a nossa longevidade
a nossa longetude
a nossa distância
sim
digo, não
eu quero você aqui
você não?

melhor assim.
melhor não ter resposta.
ter certezas é pedir para engasgar
eu aqui me excedendo em doçuras
eu aqui diabético
dando a você
a doçura capaz de me aniquilar.

é isso não? essa coisa de amar?
mèrde.
                                      

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Consciência

                                      Acordei sem drama. Fui até a cozinha, coloquei o café para fazer. Fui ao banheiro. Olhei-me no espelho e pensei em você. Você que hoje está tão longe, mais longe que distância é capaz de dizer. Mais longe do que quilômetros podem sugerir. Eu me olhei e vi você. O rosto recém-acordado, eu duvido, talvez estivesse mesmo sonhando, porque não paro um segundo de pensar em ti. Estou me comovendo com isso. Com essa desgraça que é ter você aqui comigo mas feito lembrança, feito carinho à pele e nada mais. Tudo assim passado, em mim resignado feito adeus espetacular.
Estou com saudades. Não adiantaria te falar. Às vezes é preciso partir, deixar correr, eu não poderia te segurar. Eu não posso eu não vou. Te privar do quê? Você tem o mundo. Eu também o tenho. Então que a gente se encontre nessa imensa vaguidão. [...] Sabe? Está chovendo nesta manhã. O meu café resta a minha frente e está quente, não quer esfriar. É bom. Sinto que o mundo escorre um afagar contínuo e despretenso. Tudo está ameno. Eu vou colocar meias limpas, lavar os cabelos com calma, deixar a espuma limpar meus olhos - ambos, agora - abertos.

Eu só queria dizer que me importo. Que me importa a sua falta. Que me importa que a sua referência para mim seja, neste momento, análoga ao faltar. Não. Não o deixe ser assim. Vamos presentificar. Eu vivo agora, como pode ser? Eu vivo este segundo e nele agora morto eu vivo de novo o outro que antes a gente pôde prever. Mas que agora, falece outra vez.

O tempo não existe. Existe o toque. E tão somente a falta. O resto são coisas inventadas. Palavras com rimas, sinônimos... Eu parei agora para olhar pela janela. E não vi você. Vi uma nuvem, várias delas, negras, escuras, acinzentadas. Hoje o dia vai ser tão quente quanto tem sido essa sua falta que me afaga. Cinza, mas querido. Num cheiro mesmo seu meu nosso adormecido, o dia hoje vai ser lindo. E olha que não estamos juntos ou sequer pertos. Mas é que a nossa beleza tem pretensão à eternidade, ela é capaz de costurar.

Vou sair. Com guarda-chuva, no caso de a felicidade apertar e se converter em choro torrencial de alegria. Não, amor. Isso não é ironia. É sério. É isso. Depois eu te conto do meu dia. Eu te chamei de amor. Você fez isso comigo outro dia. Se lembra? Eu quis tanto lembrar que acabei por esquecer. Quando voltares, poderemos de novo um ao outro dizer: como foi seu dia, amor? E então, mudaremos juntos as estações de lugar. Mudaremos juntos a noção de calor e frio e - juntos - mudaremos a vaga noção do que possa ser esperar...
                
   

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

eu estou buscando a tampa do meu buraco. o amor é nome dado às tampas.

         
Godot amava Godot que amava Godot
que amava Godot que amava Godot que amava Godot
que não amava ninguém.
Godot foi para os Estados Unidos, Godot para o convento,
Godot morreu de desastre, Godot ficou para tia,
Godot suicidou-se e Godot casou com Godot

que não tinha entrado na história.


A partir de Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade.
     

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

música e tinta.






quase um avatar. a necessidade de criação. a necessidade de se ser. de se deixar correr pelas avenidas munido apenas do que lhe dá chão. música. tinta. ar. alguma vegetação. estou no mundo. eu estou no mundo.

de você, cravada em mim.

            
temos falado tanto em você. sua presença falada nos afaga.
hoje a gente riu das linhas por ti assinadas, assim, antes de partir.
eu fiz uma piada tão grosseira.
mas achei que você fosse rir.
não riu, por certo.
estás morta.

mas viva, compreende?
aliás, quem tem algo a compreender
sou eu, somos nós, não você
e se eu te digo
e se te reproduzo em obras mil
não se assuste
é só porque você se cravou em mim
criou eternidade
criou perplexidão
ao inaugurar em mim
um lindo absurdo.

foi isso o que você fez:
tornou-me amigo do absurdo.

e devo dizer,
passados alguns anos
somos algo como
melhores amigos.

confidentes
flertamos consciente
ou inconscientemente
e isso é bom
é bonito
é porto de palavras doces
e amáveis.

a sua falta hoje se converte em posteridade.

falar de você me empurra veloz até onde sequer imaginava ser capaz de chegar.

quando se perde um amigo -
quando se morre um amigo -

a vida fica - sinceramente -

capaz.
  

S T O P

Eu não estou conseguindo escrever.

Tento. Tento. E me dissipo, reconhecendo que talvez
eu precise tirar umas férias.
Férias de mim mesmo.


sábado, 13 de fevereiro de 2010

da ordem do dia

         
a sinceridade está inexprimível
compete à ordem do dia
não se poeta
não se metaforiza
mas inda assim
tentaremos.

ao olhar no segundo em que é praticada
vivida toda utilizada
ao tentar nestes segundos
olhar para o real
e poder dizer
ele é isso aí
eu sou isso aí
nós isso aí
assim
seremos.

é confuso.

sinceridade não é uma questão.

não me afeta.

é meu corpo
é religião
eu não saberia ser outra coisa.

e eis que alguém me pergunta,
e como é para ti a omissão?

você omite
dissimula
esconde
?

[...]
  

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

expressas

- Eu acho que foi mirim.
- Sério. É bonito. Para de se achar feio.
- Eu decidi. Nesse ano eu paro de me boicotar. Eu preciso aceitar que às vezes isso que eu faço é maravilhoso. Gente, sério, é muito bom.
- Não, Mari, não rola. Você está sendo extremamente equivocada e rude com ele.
- Quem sabe amanhã. Não, hoje não. Hoje eu preciso terminar de escrever uma peça.
- Eu gostei. Quer dizer. Não. Eu achei confuso. Eu não entendi. Talvez eu não esteja bem.
- Você está bêbado.
- Eu estou chapado.
- Mãe, eu estou apaixonado. Quer dizer, eu tô fudido.
- Você é tão diferente de mim. Como é que eu consigo te aceitar?
- Os pêlos estão gritando. Soube que tiraram os acentos dos pêlos. Deve ser por isso que eles gritam.
- Não. Fica quieta. Quer dizer, fala. Você é muda. Não é, mas se faz. Caramba, você tá comendo o mundo e não devolve nada! Nem um arroto! Fala alguma coisa. Grita, faz!
- Você sabe que eu te quero, você sabe que eu preciso de você. Você sabe tudo e agora como faz? Eu não sou mais surpresa.
- Eu adoro coisas óbvias.
- Eu não tenho medo de extraterrestres.
- Eu tenho medo é do ser humano.
- Eu quero o horror.
- Você não sabe o que é isso.


Amizade. Da ordem das coisas mais essenciais. E sinceras.
              

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Fidelidade

           
Vamos rever este conceito?

Quero ser fiel a ti quando em ti. Fora isso, estou desligado.
Quero ser fiel a ti quando em mim você estiver. Fora isso,
ser sequer vem ao caso.

Vendo o vento passar. Soltos os cabelos ao tempo.

Quero lhe ser fiel quando em mim, nós dois,
formos lua de mel.
Lhe ser fiel quando em ti, eu for locatário
e pagar aluguel
meio que por beijos
meio beijos porque
é essa nossa noção de dinheiro.

Junto a ti eu sendo verbo conjugado
Junto a ti eu sendo verbo preciso
VERBO DE COLAR.

Quando não
verei ônibus cruzando pistas
meninas verei ajustando justas saias
e sinos batendo a sina à missa.

Fora isso,
tenho em mim seu corpo
e por ele eu saberei
o dia a tarde a noite, sim
Vale o jogo.

Troquemos, pois, fidelidade pelo eterno
Amenizemos a duração
e façamos a eternidade
se e somente se
abraçarem-se nossas mãos.

O tempo só fazendo sentido
sendo seus dedos ponteiros
O tempo só fazendo sentido
sendo nossos corpos
única noção nossa
de espacialidade.
       

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Carta ao amor encontrado

Bom,

eu sei que você vai se assustar com isso aqui. Mais uma vez não te escrevo num nome. Seria pouco, seria explicitar algo que está bem só aqui comigo. Eu não sei bem o que aqui dizer. Mas queria ser sincero contigo. Dizer o que sinto dizer o que sinto é dizer o preciso.
Em primeiro, acho que nos encontramos, não? E isto é tão bonito. Você diria que é fofo, ou algum outro adjetivo mais fofo que o fofo. Sabe? Aos amigos que conto a nossa confusão, bem, eles ficam todos chocados, dizem que é coisa de cinema, coisa impossível de ter sido vivida porque é tão forte é tão terrivelmente tensa e bonita. Sim, tudo isso são adjetivos para descrever aquilo para o qual eu aqui excedo palavras.

Estou aqui ouvindo Caetano. Tenho medo, sabe? Mais uma vez medo de ser óbvio. E de escrever aqui a palavra amor e ter medo - sim - de você com ela se assustar. É que eu não sei explicar o que é o amor. Amor parece um desejo reforçado, com cuidado, com apuro, com a simples e imediata preocupação de  que fures o pé pisando sobre os cacos da taça quebrada. Desculpa. Eu aqui sou só especulação. Não se sinta comprometido. Se sinta querido, viste?

Então Caetano me pergunta e se não tivesse o amor? essa dor? o sofrer? o chorar? E se não tivesse tudo isso eu não me teria. Eu sequer me seria. Desculpe-me. Da próxima vez vou cantar afinado. Desculpe-me eu não vou mais pedir desculpas. Nos entendemos muito bem sendo assim quem somos. Não mais pedir desculpas pelo mútuo acidente por nós em nós causado.

Nos conquistamos por tudo aquilo que em nós julgávamos errado. Eu estou aqui em casa, bêbado, mas sincero. Embrigando-me para não pensar só em você. A vida segue o curso e eu preciso nele me mover. Você, coisa fofa. Eu não vou aqui te dizer. Guardo-te como oração. Eu sei que você não lerá nada disso, mas eu escrevo por mim, antes de tudo. Escrevo para aparar as pontas, para regar minhas poças e persistir no caminho...

E para que você não duvide de que é você e não outro alguém, saiba que vou dormir abraçado ao meu próprio corpo. Mausoléu repleto de mordidas, apertos e suor seu seco, mausoléu repleto de roxidão e pescoço todo vermelho, todo todo vermelho...

Também te adoro.

Diogo.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

P L A Y

Estive junto no dentre em pouco prenunciado
no poema anterior.

Foi foda, foi bom, foi sim, gostoso, confortante, foste revelador.
Revelou onde em mim as mudanças querem saltar
onde em mim aqueles mesmo vícios querem ficar
assim sem fim
Revelou-me, você, sem dúvida alguma, o corpo inteiro.

Cada parte
Cada à parte
Cada silêncio
Cada sem jeito
tudo tudo tudo
modificado
tudo foi ontem
acariciado
e amanheci dormido
amanheci calmo
os olhos juntos comigo
sem pressa
fuga
ou consternação.

Amanheci ao seu lado
E disse a poesia da cantora
cantei para ti aquela canção
Não me culpe
Eu não tenho controle sobre o meu coração
Ele é todo aberto
todo tridimensional
tudo ao redor nele desperta
à agilidade da relação.

Eu agradeço.
Eu devo ser sincero, ainda mais
Foi Foda sim
mas na próxima
vai ter que foda ter.
        

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Recreio

Em tom de barraqueira.
       
Eu preciso reconhecer
Quer dizer, vir até aqui e expor e dizer
Quando o coração bate com sentido
os dias seguem transparentes
e a respiração é confiável...

Agora eu estou tranquilo
pois eu sei, vamos estar dentre em pouco
assim:
colados.

Mas e depois?
E no depois?
Haja poesia para me aguentar ao meu lado!

E haja constelação de palavras
Haja sonata de louças quebrando
Haja sacrifício de formigas e insetos que voam
Haja o que houver
O que houver!
Se não for você
Mas se não for você
Olha, se não for você
eu não vou
- repito -
eu não vou
- repito -
Eu Não Vou
me contentar
ou conformar
nem confinar
ou quiçá me confundir

- repito -

EU NÃO VOU
faltar com a verdade.

Ouviste?

Eu venho aqui
E Olha Que Eu Venho Mesmo!
E boto a boca
Eu boto a boca
n a            s u a           a s s i m
- virtualizada -
mas inda sim
toda amada
boca animada
toda presente
vulgo boca sua hoje, mon amour
minha'morada.

Quero dormir aí.
Acordar mastigado
molhado
suado
Eu quero
- repito -
Eu Quero E É Nisso
nisso de ser sincero
Que eu descubro que a sincerade para os que amam
Confunde-se com o ato
- genuíno -
de se ser sim autoritário.

Ouviste?

Um copo de Mate Diet sem Limão, por favor.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Judieira

Ele estava cansado. Sentou-se à cama
já meio caindo de lado
e se disse
Cara, você precisa dormir.
E deitou-se
e permaneceu horas acordado
cheio de si
porque tinha assumido
o quanto estava exausto.

A clareza dói
Ela rói
mas gera um sono gostoso
um sono expresso um jogo rápido
no qual
ele acreditou
foi possível restar
só consigo mesmo

Sem diálogo
que não fosse
aquele ali com o corpo
e seus silêncios.

Uma sinfonia apaixonada
Uma sinfonia pela exigência
sua
dele
de se manter firme na
estrada

Toda por ele desejada.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Carta ao amor perdido


(Não vou usar uma letra para simbolizar seu nome. Você sabe que é para você, então continue),

Isso não é uma carta de despedida. Não houve encontro, logo, não temos como fazer uma despedida. Melhor assim, para você, pior para mim, como sempre. Eu prometo que serei sucinto. Mas também se for preciso ficar horas a te escrever, é porque assim tem que ser. É uma carta. Eu não quero saber se você conseguiu ler ou não. Se fosse um telefonema, um encontro, um café, eu seria obrigado a olhar para você outra vez. E sem dúvida como em tantas outras vezes eu em você me perderia. Estou sendo frio, envio essa carta nem sequer escrita à tinta. Ela é toda virtual. Tão virtual quanto fomos um para o outro.

Nos desenhamos muito em nossos sonhos. Mas na cama, na lida de cada dia, eu nem sequer sei sua pele de cor. Eu nem sequer sei das suas teimosias. Somos virgens um ao outro. E eu queria ter mais motivos para te ter aqui, sendo mastigado e digerido. Isso é o que é o amor. A gente se perdeu muito rápido. 

Ofende-se? Não o faça. Somos isso que não somos. Somos o que perdemos a oportunidade de ser. Eu e você agindo juntos acordando os corpos antes do amanhecer. Éramos o que poderíamos ter sido. Mas tudo em vão. Essa carta - e-mail - reforça a nossa condição. Já somos seres completamente perdidos. O que nos une de certa forma é apenas um ou outro gemido.

Sim. É verdade. O que eu me pergunto é se tudo deveria assim ter sido. Desculpe-me, mas preciso te perguntar: quem criou em você esta idéia de que é preciso elogiar, de que é preciso prometer, de que é preciso dar uma troca como pretexto para o amor? Não deveria. O amor é sim feito de trocas. Mas trocamos aquilo que temos em mão e não o que gostaríamos de ter. Você me trocou por utopias, trocou-me você por qualquer coisa tipo carnaval, coisa com brilhantina. Não deverias, de fato. Isso dói tanto mais, isso coloca o outro - eu! - coloca o outro num embaraço terrível que soa a desespero eternizado. Eu já não te quero, e como se isso fosse pouco, nem mesmo quero a mim.

Sim, está ruim desse jeito. O que fazer? Vai desenhando seu destino que eu vou aqui descolorindo o meu. Eu rindo de mim mesmo e achando uma ousadia ter sentado num blog para escrever essas realidades. Eu não quero comentários. Se alguém aqui quiser nos comentar, que seja apenas para dizer como essa pessoa foi escrota como ela o fez sofrer. De quem estamos falando? Inevitavelmente sobre mim sobre você. Até porque, não há mais nada além de nós.

Somos o tronco, a corda, o laço, os nós. Somos palco aberto ao fim. Queres ir primeiro? Queres rasgar sem mim? Ou posso ir na frente? Posso ir na frente? Ou tu queres partir junto?

Até não mais ver,

Diogo.
 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Quero, quero, quero, claro que quero, eu quero.

- É difícil dizer o que eu quero te dizer.
- Eu entendo. Aliás, comigo é também assim.
- Você me entende?
- Completamente.
- Você não me acha alguém triste, acha?
- Na dose correta, sem desmedida.
- Tristeza é necessária, né?
- Eu sempre achei isso.
- E por que nunca me disse?
- Pensei que estivesse claro aqui comigo.
- Você é tão lindo.
- Não fala isso.
- É verdade.
- Eu me duvido.
- Não deveria.
- Eu vou me acostumar.
- Não se acostume. Então duvide. Um dia eu te provo.
- Prova?
- Provo sim.
- Sabe?... Eu não precisaria te dizer, se já não tivesse me tomado...
- Pois diga.
- Você acabou de me dizer isso. Vai parecer que eu disse só para retribuir.
- E qual é o problema com a retribuição?
- Se eu te chamo de linda, você vai achar que foi porque você me chamou antes e então...
- Não complica.
- Você é mesmo linda.
- Esse "mesmo" fez toda diferença.
- E você ainda continuou linda, do jeito que já era.
- Está agradável esta tarde. É difícil dizer, mas eu sinto felicidade.
- Eu tenho tanto medo da felicidade.
- Mentira?
- Verdade.
- Sério?!
- Por que não seria?
- Ela existe. Ela por vezes está numa esquina qualquer. Sem pane, sob o sol a pino... Sabe?
- O quê?
- Eu estou feliz. E isso não quer dizer nada que ultrapasse este segundo.
- Neste momento, em que eu te aperto as mãos e faço assim em seu cabelo.
- Estou suada.
- Estou sedento.
- Quer o quê?
- Água com gás. E tu?
- Um mate.
- Dizem que mate brocha.
- Dizem que a água vai acabar.
- É certo. As coisas acabam.
- Então vamos...
- Para onde?
- Vamos nos usar.
- Nos gastar, você diz?
- Sim. Você não quer?
- Quero, quero, quero, claro que quero, eu quero.
- Sei...
- O que foi?
- Eu duvidei de você.
- Tudo bem... Olha, eu não sou todo verdade.
- Eu tenho medo quando a conversa envereda por aí.
- Por aí onde?
- Por este lugar das confidências entre recém-conhecidos. Você não me deve nada.
- Não posso me abrir contigo?
- Mas devagar. Como fossem petálas de uma flor.
- Isso é de alguma poeta, não?
- Espanca.
- É bonito.
- Mas tem que ser lido sem presa, sem peso, sem pausa.
- Não quer escurecer...
- Eu acho ótimo. A gente pode esperar?
- Pelo o quê?
- Não sei. Pela noite. Esperar e ver.
- E o mate?
- A água?
- Enfim, e a sede?
- Mata ela em mim.
- Cantada cafonaaa!
- Sejamos, então, aquilo que somos.
- Posso te falar uma coisa?
- Faça.

(Beijam-se. Um algo simples e bobo, simples e bobo).

Eu não deveria mas.

Eu não deveria dizer
mas esse suor colado
essa cerveja gelada
essas pernas se esbarrando
enfim
Eu não deveria dizer
mas isso é talvez até um pouco mais
do que desejei para mim.
Sim, eu nem deveria estar falando

Não mesmo.
Mas eu devo dizer,
tudo vale à pena
se a cama não é pequena
se a fome só se aumenta
vale tudo à pena
se o que eu tenho a te dizer
está aqui em mim estampado.
Feito silk.
Print-screen.
Feito tatuagem, enfim
estou falando da mordida que você deixou
ni mim.