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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Desolè

baconbaconbacon 
Desola-me
Desmonta essa minha face
Joga-me sob ti
E me perfura
Com o sapatear dos seus amassos

Pisa-me feito fosse eu
Tapete
Poeira
Página para seus desastres
Página em branco
Para o seu
Os meus
Nossos
Disparates

Consola-me
Em nossa íntima dor
Divide em mim
E comigo
Isso que teimamos
Dizer ser

Amor,

Perfura-me com suas unhas
Na busca
Na busca
Por aquilo que nos
Extra

233245233245233245 
Vaza,
Ou rala-me
Feito fosse minha pele
Estrada
Negra e crua
Quente e nua
Pela noite
Na velocidade
Dos corpos feito em nós
Se divertem

Ou esquece,
Isola-me
E me faça solidificar
Faça-me duro
Sujo Puro
Honesto
Ser resto

portrait_lucian_freud2portrait_lucian_freud2portrait_lucian_freud2 
Enfim,
Faça-me seu poema
Sua rima
Seu floema
E seu xilema

Desola-me
Por inteiro
Desova-me em seu leito
Do profundo e grato

desespero.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Indefinindo arte.

Tomei uma decisão.
Só falarei novamente sobre arte, sobre o que tanto estudo, se tiver diante de mim corpos saltantes experimentando tudo.
Corpos em atualização. Tudo lido agora é repassado ao corpo. Corpo agora será escravo desse perverso jogo dos conceitos e classificações.
Se não puder beber nem comer com meus atores. Se não puder eu ser o autor nem eu o ator ou diretor ou sequer estar com a lanterna na mão, enfim, prefiro então estar dormindo. Sonhando, pensando estar livre e isento.
schiele_self-portrait
E foda-se agora se não tiver ninguém ouvindo. Eu me faço escutar na próxima esquina. Eu me faço escutar nas paredes tingidas do meu quarto.
Decidido. Não vou revogar.
Arte agora só em comprimido. Arte agora só por injeção ou contaminação. Será dada ao corpo inteiro. Não mais às partes sequer a uma só mão.
Arte agora tragando tudo e não somente a tirar o sossego dos cabelos – eternamente revolvidos – quero ver arte agora tirando o sossego das pernas e criando no desajuste um novo ritmo preciso.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Ou não.

Tentativa iniciada

No entanto, porém

Alguns resquícios reivindicam a sua estadia

Sobras que gostaria que não estivessem

Lamentos que tornaram-se crônicos

Solicitam em mim morada eterna.


Eu quero partir

Ver rachar a própria base

Para em meio às sobras

Descobrir o meu resto

O que de mim restou

E sendo assim,

Ser quem eu quero

E não quem eu sou.


Mais uma vez as palavras voltam para esse lugar do eu

Mais uma vez eu estou no centro

Eu estou no que é meu

No que olho

No que me seduzo

Naquilo que me derroto.


Eu estou aqui.


E como haveria de ser?

Vem sempre uma pergunta retórica

Que eu faço questão de contradizer.


Eu faço questão hoje em ser

Esta absurda negação

Se nada assim tanto me seduz

Eu digo

simplesmente

Ou não.


Mas devo insistir, eu sei

Algumas forças

Como os resquícios

Requisitam em mim uma limpidez inatingível

Mas desejosa de ser percorrida


Na cozinha

A panela estala

E dentro dela a água acidifica

Tudo para fazer um café

Que me leve no decorrer desta noite

De chuva


E grilos


E saudades


Em meio aos filhos.

Aos novos.


*


Não adianta tanto assim esquentar

As coisas

Quando excede o calor

Começam a morrer

E perdem sua integridade.


A água

Quando demais aquecida

Vira ruído

Dissolve a verdade.


Não adianta

É preciso ter calma suficiente

Nem para se esquecer

Nem para anteceder o corte

Que vem sempre para dizer

Basta!


Chega de calor

Chega de esquecimento

O corte vem sempre para dizer

Que o amor está virando tormento.


**


Me falaram de forma

De dar forma ao meu íntimo

De modelar peito e corações

A alguma arte - sensível -,

Falaram de sinceridade

Ela aqui se reconhece

Mais é preciso

Muito mais esforço

Tentar contornar a essência

E ressaltar

A sua falta de escapatória.

Deixar sem ar.

Tornar o íntimo espremido.

Fazê-lo gemer

Grunhir

E gritar.

Grita íntimo

Faça algo em todos nós conflitar.

Erga-se, não mais em silêncio,

E venha rachando meu interior

Venha mostrando ao mundo

Que desse lugar de onde tu partes

Tudo enfim já está partido.

E juntos,

Daremos as mãos, eu aceito,

Façamos do enlace o estopim

Da nossa falta de ar.


***


Um dia eu o vi ali

Se esforçando para algo dizer

Não que não soubesse a língua

Não que não houvesse alguém ali

A lhe ouvir

Mas espremia-se de tal modo

Que tive eu mesmo que dizer,

Não pensa muito, menino

Porque pensar lhe roubará o dia


Ele me olhou fingindo surpresa

Mas não demorou muito a me insultar

Com outra rima,

Não pensa muito o dia será roubado

Não pensei muito e foi meu brinquedo

O quebrado.


Então era aquilo, eu percebi

O brinquedo meio rachado

E no olho uma lágrima a espera

Despenco ou não

Ameaço partir ou vou secar?


As dúvidas da lágrima foram se perdurar

Porque o menino ainda mais agora pensava

Matutava

Suava esforço sem parar e

Dizia entre os beiços algum outro insulto

Até que num clique

As peças se encaixaram

As rodinhas ao corpo voltaram

E do sorriso

As lágrimas escorreram

Se eu não pensar

Quem vai arrumar meu brinquedo?


Fiquei ali no chão da rua sentado

Meio sem nexo

Meio do meu posto arrancado

E a criança voltou a brincar


No ruído do seu carrinho na pedra a trepidar

Eu percebi o tamanho do esforço

O tamanho do pensar que eu fizera

Naquele momento

Para entender

Que uma coisa é brincar

Enquanto a outra

é o incompreender.

.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Ficções do entre-pudor

Nenhuma história está isenta da vida. A primeira vez que os vi, era mais ou menos aquilo que vivia no decorrer dos meus dias. Eles ali não sabiam, mas eram a figuração do meu instante. A representação da minha agonia. Isentos, sim, talvez. Mas eram como ainda são, tudo aquilo que em vida eu sustentei. E talvez, sim, por esta mesma capacidade de isenção, o que hoje eles se tornaram ultrapassa a minha condição e transformam em vida também a ação dos verbos. Eles juntos um ao outro transformaram em vida o que num papel se poderia dizer apenas palavras.


Por onde começo é por onde eu os tive, na primeira vez. E a primeira vez foi um escape, um escorregão. Eles passaram por mim e o que detive, apenas, foi a mistura dos perfumes. O dela amenizando a rudeza do outro. Um ao outro competindo, como se no ar da rua em movimento não houvesse espaço suficiente para os dois sediar. Dobraram a esquina mais próxima e entraram numa porta velha de madeira azulada. Dali em diante, esperei. Não posso dizer ter havido existência entre os dois. Não posso dizer nada pois não fora convidado nesta primeira vez. Ali fora, apenas esperei. Até que já era muito noite quando ela saiu, carregando o par de salto arrebentado nas mãos. Ele vindo atrás. Os perfumes não se gladiavam mais, pois eram um só.


Um cheiro ocre tomou conta da rua. O movimento cessara. Os carros todos morreram, ninguém passava. Eu apenas eu os vi cruzando a passos rápidos e distintos. Entraram no carro preto, de faróis apagados e seguiram indo. Sempre indo. Eu sempre atrás. A noite começava mas já era tarde demais. Eles seguindo para onde eu não poderia prever. Eles ainda não me possuiam. A sua virtude era essa independente condição. Para onde fossem eu deveria me lançar. Como se não permitisse a mim mesmo perder o segundo em que estagnado o carro, eles misturariam novamente os perfurmes. Assim, no meio de uma rua escura qualquer, com o farol apagado, os corpos dentro se batendo. O cheiro de um no outro se cancelado. E algo entre eles se eternizando.


.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Invasão

a tarde me invade
e eu já não sei o que fazer
podendo em mim ser tanta coisa
ser tanta coisa
inclusive
incompreender.

invade, tarde
e salte das possibilidades
recriando num canto
qualquer
da casa
uma outra coisa que não seja
esta outra
a coisa
calor nem umidade.

chega de suor
de suar
de ser eu meu próprio ar

ou então

não chega não
fique tudo assim como está

quente

úmido
ardente
vontade atolada
espera reticente

estou doente?

devo mesmo estar.

resta então, corpo
quieto

no seu canto
sem amor
nem amar
resta corpo quieto
para não correr o risco
seguro
de se acabar.
.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Fermentação

A sensação do vinagre correndo a pele é inevitável. E no caminho, envolvido pela poeira no ar, sinto o vinagre fermentando tudo aquilo que em mim faz repouso. Nenhum segundo é seguro em meu corpo. Sempre se dá nele uma transformação um desejo uma busca pelo todo. Busca irrompendo mal se dá - no corpo - um qualquer toque.

Inevitável, eu devo dizer. Como se residisse em mim uma poeira capaz de germinar. E sendo ela assim lavada, lavrada, lançada pelo corpo adiante, tudo em mim fica maior do que é grande. Tudo em mim fermenta e o espaço do corpo se lança ao espaço porque o corpo em si não se sustenta. É dessa sensação que eu estou tentando. É essa privação - do corpo sobre ele mesmo - na qual estou lutando.

Não precisa dizer nada. Não precisa ler. Não precisa - tentar - entender. Tudo é assim desnecessário. Como se uma pulsão de morte rompesse de dentro, vinda de cada pedaço, aniquilando na sua passagem o esforço pelo todo, pelo contato. Pelo amor. Uma pulsão consome vindo de dentro e o que eu sou, o corpo que formei, tudo isso independe porque a força que cavalga interiores é maior, mais grosseira ainda do que se pode detectar nos verbos.

Toca a poeira em minha pele. Desce o suor ácido de cor vinagre. Fermenta em mim sua casa cria em mim sua nave e decole, faça o corpo decolar, buscando no espaço o que nele mesmo é impossível encontrar, porque desejo - desejo - não se fecha em si mesmo. Desejo, amor, essas coisas não se completam, pois aniquilam-se - sempre - para ter que fazer amor novamente, para ter que juntar pedaço e colar ingredientes. Sempre.

"Tudo explode.
A desesperança não é um diálogo triste, mas sim o estalo de
um silêncio ensurdecedor"
.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Questionar-te

A complexidade do assunto por vezes me distancia. Não para melhor analisar o processo, mas por medo, de ser tragado pela impossibilidade de compreensão. Tem a ver com isso lidar/falar/fazer a tal arte. O que ela é o que pode ser tudo parece pouco diante de sua inata complexidão.

Hoje eu pensei um pouco sobre o que quero fazer com ela em você. Sobre qual o sentido externado quando eu jogo diante de seus olhos uma série de movimentos e verbos. Nada me pareceu muito claro, porém, sustento ainda a percepção do sincero. O que desejo causar em ti não pode vir por outros meios que não sejam estes - modos - todos sinceros.
Todos modos cavalgados através da pele.


A forma, o sentido, o conteúdo, as camadas. Estou tentando o incapaz. Estou buscando o impossível. A arte tem, aos poucos, esse gosto do inexprimível. E por isso tudo é tão difícil pois o desejo nunca é completo. O desejo nunca é saciado ele sempre pressupõe na frente um resto. O resto, do contrário, faz parte dessa equação. Resto aqui não é lixo, lixo aqui é pura ostentação, do retirar da mesa as migalhas restantes e convertê-las em estrelas, mesmo num céu inoperante.

Confusão de valores, extravazamento. Essa palavra que não acaba, que em si mesma se abala, extravazamento. Uma profusão sem fim de estupros: arte deve assim ser. Não é seguro. Toca na anã imensidão dos meus desejos. Toca e subverte todo meu arsenal de gracejos e eu nunca sou amante o suficiente para através dela te falar de amor.

Corpo torce e retorce. Mas não vejo. Numa busca infelizmente já não encontrada, fazer arte é tombar o próprio lanche no meio do recreio. E ver nas outras crianças o lanche ser comido. Ver no vizinho a impossibilidade sua se concretizando, se discernindo. O complexo está em você.

Em você é sempre mais difícil. Em você é sempre do impossível ao infinito. Os termos nunca definem, em arte todos os termos extrapolam conceitos e transformam a vida em circo-insegurança em corda não mais que unicamente corda-bamba.
.

domingo, 18 de janeiro de 2009

16:45 deste domingo

Coca Zero no copo plástico
malas prontas do meu lado
no bolso, o ticket da partida
e colado ao corpo
o suor da camisa.

É assim que eu me sinto
nada muito novo
nada se extravaza em vôo,

o peito aberto
é assim que eu me sinto.
.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Aleautoria

talvez faltasse ar
o que AS movem
que tesão é que cruza
dor essa que não fechar
agora não reverter
versos que eram um todo agora foram por mim separados

desejos que começam no parque
se tivesse um
do rosado ganham tinto inebriado
que nem sei se prezo mais
toda afirmação é dúvida
fechar nem sempre ajuda
eu que movo A de se dizer eternamente
se tivesse iria me portar
qual conceito explica esse requerimento
que faço em partes
a tudo o que ao meu redor transpira não mais interrogações
o branco do vazio
toda palavra se exclama-se sozinha
não precisamos de mais pontos porque um ponto nunca cessa
não nada
eu salto a linha
o sangue por completo
ou agora são pequenas agonias de um pai autoritário?
se eu quisesse.
pleno amante
não
o branco revela o galopar
não encontrar
revela se quiser posso eternamente
que foi que eu fiz comigo
exceto
a ordem dos fatores altera o resultado?
um amor
importar ia não estivesse em mim eu
se eu um amor
o corpo precisa o cansaço
talvez não me fosse suportar
tivesse
quem fosse reconhecer
amor
que não
se eu tivesse
se eu
talvez me trasmutar
quer mais dizer
talvez ser sempre sedento
para torná-lo sede
do meu próprio esquecimento
se eu
não quer dizer não tenho
anula em mim os princípios
deixaram de transpirar a agonia do poema originário?
começam a crescer
.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Cova

A distância é para ver melhor
não para se afastar

O tempo é para compreender com calma
não para destruir a mobília
nem envermecer
as carnes.

Caminho agora seguro
rumo ao encontro
pacífico
inversamente
ao que a pele sustenta
ao que a fumaça desenha

Caminho agora seguro
porque o corpo está ruindo
desde sempre

e é no ruir
que eu me encontro
no ruir eu me escuto e percebo
nunca estar pronto
pleno
perfeito

perfeição só vem com a terra

e com o misturar

do corpo

ao que o corrompe

ao que o deixa roxo todo
corpo torto.
.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Torrente

despenca do céu
volta correndo para casa
transforma a ladeira
em rampa escorregadia
torna esguia
a quina
de cada esquina
e me faça me bastar
me conter
não descer
nem boiar
na primeira poça
que me venha a oferecer
um agrado
um reflexo mexido
um cigarro,
que seja.

...

gilete
espuma para barbear
espelho
água corrente
barba
mãos
sabonete
olho fixo no cortar
aparando sem fim
recortando de mim
eu passo a gilete
e retiro
além de um pedaço da sobrancela
também a tampa de uma das orelhas.

silêncio para esperar a dor chegar.

demora.

é preciso lavar,
ardeu!

agora não vai parar:

escorre sangue descendo
entrando pelos ouvidos
me tingindo a vermelho
e tornando as suas palavras
mais agudas do que são.

...

tentativas
eu mudo o que você fala
eu mudo o que eu falaria
o que sou se posso ser qualquer coisa
e você
quem será
se você é antes
necessariamente
o meu par

eu sequer vou interrogar
porque tudo aqui transpira dúvida
tudo azucrina feito o besouro negro imenso
que vez ou outra
entra pela janela do meu quarto
e me repele ao canto sem mobília.

...

eu estava pensando
o que eu escrevo
não precisa ser necessariamente
o que eu leio
ao me deparar com o filho feito,

eu digo,

nem tudo aqui precisa sair da minha boca
pode sair de outro buraco
outro orifício
pode ser merda sé o que você está pensando
mas pode ser outro cheiro
o escoar de uma ferida
pode ser o que ouvi
ou o que vi
naquele dia
naquela mesma esquina
quando eu passava num óculos escuro
e precisei tirá-los
para ver a agressão das cores
que só em você parecem andar em compasso,

...

às vezes eu minto
e mentir, independente do que dizem
é também uma possiblidade.

...

eu molho o braço na chuva
e tudo o que eu sinto em seguida
são palavras germinando.

eu meto a testa no vento
e o que segue é cegueira plena
são os desenhos na mente indo
e voltando.

o altruísmo me encanta
mas a solidão é o próprio fascínio,

fadado em mim eu vejo

o que não necessariamente eu preciso compartilhar com tigos.
.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

enclave, fr.

o apartamento pintado a gelo
nele os dois são apenas dois
ali largados, na decisão prorrogada
também pelo peso
da estante rachada.
quem os ouviria, o que pensar?
não podem apenas os livros separar
como era no início quando achavam só livros ser
e agora quando já não sabem se comunicar
pois dizem o mesmo sem se perceber,
eis que um ao outro torna flama
onde tudo agora entorno é chama.

.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Diário

A imensidão de filhos que eu criei, meu Deus. Só mesmo agora o tom celeste pode de mim se aproximar. Meu desespero sobrehumano, meu desejo tenaz, olha onde me fizeram chegar. Não vou delatar sequer um deles. É doença incapaz de se curar. Não porque talvez não houvesse cura, é que o problema está no corpo. E este corpo já não se pode manipular. As costas se envergaram de tal maneira que fazem o corpo por ele mesmo se apaixonar. O corpo cheira a sexo. O desejo nele é complexo. Não quer sair de si. Quase não deixa outro alguém entrar. Por isso não vale dizer sobre os filhos. Porque são todos frutos do desalinho, filhos reconhecíveis, mas provavelmente um tanto perdidos nesse ninho. Se alguém pudesse me ajudar. Se alguém dissesse outra coisa que não o despeito o sem jeito a ignorância do não poder compartilhar comigo a fixação dos meus dias. Não quero mudar o mundo! Não quero fundar a revolução! Não detenho nenhuma verdade! Que ódio que me corrói quando dizem o que eu faço sem sequer olhar meus olhos. Não quero pretensões. É só que minha vista vê fantasmas. E você não. Não é diferencial nem sequer original. Se tento dizer que não é nada disso, no dizer faço outros contornos e quando eu vejo o meu medo virou outro e o objetivo partiu sem me avisar, tudo distancia, quanto mais longe mais longe eu vou me achar. É uma solidão delicada, diferente. Não tem a ver necessariamente com alguém que não esteja mais aqui. A casa ontem estava cheia mas estive só por toda a noite. Essas são minhas perguntas sem resposta. São minhas curas para doenças que sequer existem. Esse é o meu horizonte, cravado no meu umbigo. E entre nós, uma ponte de aço-eterno desenha em milhômetros de distância, o meu paraíso.
.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Desalinho

A uma hora dessas

Eu deixo o seu piano tocar

É doce

Rente à pele

Tudo o que eu preciso

Para dormir

E acordar

Feliz


Uma vez eu pedi

Toca um piano para mim?

Você sequer respondeu

Estava perdido

Como está essa gota

Que agora escorrega pelas minhas costas

Rumo à conclusão de seus dias


Evapora

Desejo evapora

Ultrapassa a sua fase agonia

E vira capa cândida

Vira pele flâmula

Sede

Nunca mais


O calor que agora volta

Foi o não todo consumido

Foi a pele pedindo mais atrito

E eu sem ouvir

Calei-a na solidão

Do não atingir

Na espera

Da putrefação


Você me dragou para dentro disso

Agora não sei voltar

Resta um gosto perverso de perda

Mas resta ainda a vontade

De triunfar

Sem você

No seu lugar


São partes soltas

Nada aqui tem o peso

Do que o conjunto das louças

Dos cacos

Dos meninos

- todos eles apaixonados

são capazes de amargar


Não é possível achar um centro

Um horizonte esburacado pelos tiros

Não é possível

Cada verso atira a um destino

Todos tentando a verdade acertar


Mas no íntimo

No meu dentro meu interior aqui

A verdade consome as paredes

E colore o segundo

Nada aqui dentro hoje pode ser mais taciturno


Venha,

Minhas mãos te chamam


Venha

Estique o seu corpo

E me acompanhe,


Nosso caminho não pode ser assim tão perigoso

Eu tenho você

você pode se proteger com meu corpo

Venha

Não demore mais

Eu estou sozinho

E esperar é cessar o ar

É pedir para morrer um corpo que no auge

Da própria vitalidade

Só pode partir mesmo por amor


Deixe-me só

Tudo assim transtorna o passageiro

Eu não tenho dimensão do seu caminho

Eu não sei, eu sou parvo amante grosseiro

Nada interessa afora o fato do conforto

Do meu bem-estar,


Eu não me importo

Não posso me importar

Se dentro de você as coisas se escondem

E me enganam

Eu não posso adivinhar

Se o seu silêncio desvirtua a alma

Se o seu olhar desnuda não somente a carne

Mas também minha calma,


Venha!

Eu não me importo

Eu te rodeio com meus braços

E abandono o peso sobre você


Isso é amor.


Tente agora compreender

Eu não amo

Eu não quero amar

Mas eu sou livre o suficiente

Para sobre você restar

Com a dignidade dos amantes,


Com as escoriações deste semblante seu

Todo machucado

Todo revolto assassinado

Semblante autoritário,

Eu não me importo


Eu cresço com o que é difícil

Em busca eternamente o precipício

Pois é esse o mistério do meu viver

O dia

Independem as horas

Mas o momento

O tempo

O espaço

Do meu morrer,

Do seu

absoluto deixar de ser

.

sábado, 10 de janeiro de 2009

20 de agosto de 2006

uma data ultrapassada um tempo vivido uma vida despreparada mas indo tentando cavando a própria fundação
hoje tempo sem futuro sem passado sem dimensão
eu revolvo ao que fui e me encontro hoje na mesma posição
é poesia então assassinato do tempo?
é dela ele alheio, como se nada dito tivesse peso exceto no agora eterno de sua descoberta?
pois hoje assim como em 2006 uma curta composição do que ontem fui eu hoje eu sou.

o dia anoitece

a noite já está se acabando e eu,

no entanto, teimo em escrever.

eu lutando contra o sono

contra as minhas palavras

eu contra o meu estado de

abandono.


a noite se consome e eu aqui,

apenas observo a harmonia

através da qual, espero,

passará a noite e chegará o dia.


troca-se o escuro pela luz.

substitui-se ânimos cansados

por outros mais jovens e eu,

no entanto, escrevo como se

soubesse o intento desse

meu estranho hábito.


preciso de um motivo que assegure

essa vontade passageira?

preciso de algo mais, além das teclas,

da tela clara e da caneca cheia?


preciso. e eu sei disso, mas

a dura constatação do saber

não me oferece outro sentimento

senão o vil engenho de me auto-moer.

preciso, estipulo todas as medidas.


todas as doses para que no final da mistura

só me reste a vida. independentemente

se quando isso ocorrer, for noite ou dia.


.

eu volto a questionar tudo isso aqui já não é novo é um sem fim sem terminar
desde então eu escrevo buscando o inatingível nada é novo realmente
tudo sempre passa pelo princípio e ele é minha certeza
a certeza de que sempre haverá a possibilidade de reescrever o que eu sempre
nunca
serei capaz de compreender.

lembrança

todo poeta tem um poema chamado infância, mas isso afasta tanta coisa.


porque sobre as linhas não cabe toda a cor, sequer todo o suor, risada e dor.

não cabe as peças dos brinquedos mais animados

brinquedos especiais sempre amados

as rodas das várias bicicleta, os cortes nos dedos

e o sangue! tanto sangue pintaria o prédio dos bombeiros.


não cabe não por falta de espaço

pois escreve-se o que deseja, sem esperar aprovação ou o efeito do agrado.

mas porque a infância não usa

moldes, potes, redutos nem arestas.


ela é eterna.

em suas faltas.

em suas presenças.


infância lembrança eterna

que no decorrer da vida

sempre, sempre nos altera.


sobre um poema não há muito espaço.

talvez, sob ele, o mundo seja até escasso.

mas, enfim, o que está por baixo talvez

não exista para ser encontrado.


ou quem sabe, até mesmo

exista para ser revelado

mas aos poucos, com cuidado

como a infância se refaz

em nosso corpo, mente,

olfato.


aos poucos,

com cuidado, eu digo!

sinto de novo um cheiro

a textura fictícia entre meus dedos

bem devagar relembro um jogo

que um dia não parava de fazê-lo.


valor incerto tão quanto incalculável.

amor confesso “o dia está claro!

ainda está claro!”


lembranças perdidas

mas que sozinhas

preenchem um

todo um vagão.


histórias implícitas

em toda pele, em cada estigma

em todo canto, em cada esquina

emaranhadas naquilo que sou

no que seria quando crescesse.


memórias, enfim

que ressurgem no meio da noite

num sonho como um super-herói

numa música imagem colante

lembranças para a vida toda

em doses homeopáticas

pois todos querem que sejamos

homens

antes mesmo que a infância

parta, para seguir aos pedaços

a sua longa e eterna jornada.


.

outra composição que foi mas ainda hoje persiste
como se dela eu retirasse palavras e de cada uma delas
fizesse outras linhas
e cada uma multiplica ao infinito
e nunca haverá fim
a poesia é sempre o início de uma história sem fim
sem mim independe o autor ela segue é tenaz ela tenta desvendar o amor


a blanchot, que me ajuda a desvendar o eterno em que me lançei.