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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Insuspeito

O seu sorriso
O seu silêncio
O seu samba
A sua dança canção

O seu cessar
O seu ceder
O seu abraço
E as unhas cortadas
de suas mãos

Eu insuspeito você
Inteiro
Me faço não tão rápido
Ir morrendo em mim
Tudo aquilo que em ti
Me fizeste nascer

Insuspeito
Suspeito Pleno
O nosso encontro sem nós mesmos
Será novela sem enredo
Vagaremos perdidos a procura de algum drama
capaz de nos multiplicar.

Nem sei

braço nu braço
o toque
qualquer toque
a pré-possibilidade
do enlace

te olho
e tudo é tão veloz
temos medo
de dar sentido
ao tempo

como somos gigantes
pretensos-pequenos

te guardo hoje
todo embrulhado
dentro de mim
a vontade maior
de lhe dizer
ei, você
quero só te guardar
te prender
te amar

triste
é não saber
o que fazer
com tudo isso

triste
é essa vontade em mim
se repetindo
a do querer cuidar
a do querer abraçar
a do querer rimar
meu corpo
com o seu.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Encosto

Voce ficou
Em mim preso
A cada esbarro
Mais sua pele
E a minha
Trocaram comunhao

Ficou
Devo dizer mais
Que da outra ocasiao
Ficou pleno

E em mim
Seguro.

E isso basta para adormecer
Sem voce.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Poente

Simple sample
Dor nos dentes
O prédio caiu
mas sobrou
A gente.

Não há risco.
Há só seu rosto
e meu sorriso.

O sol lá longe se põe
E enfim descansa.

O mistério desse dia
não é nada exceto
O próprio mundo
Em seus olhos
Ganhando curva
E inconstância.

Pois se você pisca
Eu corro o risco
De ser para sempre
PÔR DO SOL enfim
LEMBRANÇA

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

ouro


se você me perguntar
eu diria algo tipo estilo
sim é verdade
não há mudança
há só um clique
e a necessidade
de se ver impresso
nisso.

não tem revolução
as vezes a foto
sustenta-se
por anos a fio.

veja o íntimo
nesse dia quis se dizer
quis fazer foto
quis se marcar
se registrar
quis não perder de vista
aquilo que em quadro
não se pode achar.

quem se foi que me fez ali ficar?

quem estava adiante que eu precisei filtrar meu ver?

é tão linda a possibilidade do encontro
que é melhor fazer arte
com tudo aquilo
que não podemos
hoje de novo
e mais uma vez
COMPREENDER.
 

novo drama

que difícil

eu diria que ousado

ou então que absurdo

ou mesmo quem sabe

estou perdido

como posso,

falar do que não sei

pintar o que não sinto

como posso brindar a ficção

e nesse brinde

sonoro

fazer nascer

um artifício?

 

para que serve

enfim

o artificial?

 

para que serve

enfim

a vida

em sua natureza

abismal?

 

um novo drama se anuncia

resta saber

se eu poderei

não sabê-lo

resta saber

se eu poderei

vivê-lo

apenas.

 

|

Não Quero

dormir
nem dar cama
ao corpo
quero durar
feito pedra
quero ser morto
e presente
feito concreto
duro
e bem acabado
não quero
tanto volteio
não quero
tanto jogo
eu quero uma pausa
um pedaço
de tempo
sem nele me ver tão sempre indo
sem nele
este tempo
me ver tão atarefado

aqui
reúno os desejos
e faço dos versos
setas idas
verso feito versos
fossem vetores
feito minhas escolhas
pudessem de fato
mover
o íntimo
da minha própria vida

o silêncio
sobre as coisas amadas
desestabiliza a duração
desta existência

penso se vale a pena
penso como foi que eu me deixei cair nesse jogo nessa cova nessa impaciência

e então
sonho com um café
e um abraço seu num tempo
em que só o instante
existe
num tempo em que eu não quero
jamais
voltar a me mover.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Suprema

Falta
De entre palavras
restar jogado.
Suprema falta
de no jogo me perder
de no jogo me encontrar.

Falta da dor de mentira
Da dor sensível com quinas
rodeadas a versos
Saudade imensa de ser apenas eu
O outro e entre nós
Só isso mesmo

Essa rima
Essa ida essa mesma investida
Oh, poeto!

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

sem título_08

deu-me até um arrepio
um deslize
entre o peito e a boca

uma suspensão
um momento
um tremelique
a toa.

não posso me abster
é que as vezes
num segundo
o mundo vem
e me faz um filho

as vezes
num átomo
as coisas se encaixam
e cheiram
absurdo.

estou completamente desnorteado
sem norte apesar de a caminho
sem rumo apesar de tanto já planejado

como é possível

você se perder de si próprio?

tudo me cansa
e de uma hora para outra
eu corro o risco de ser puro risco
risco de ser pura segurança.

hoje

ainda

não ouvi música alguma

talvez devesse fazer o café

apenas o café

e fumar sem tabaco

este segundo

silencioso

e passageiro.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

As gonne

cause that is the way it is
I do not need to know
Eu não quero mais exceder
nossa distância
So Save Me
If You Want To Know
I will not cry
that is nothing
Close to the others next things
e resto
Ciente de nossas falências
De nossa poesia fingindo
Firmamento.

domingo, 15 de janeiro de 2012

eu turvo

por favor,
me deixe me dar licença
não quero mais ficar
eu preciso sair
eu preciso sair um pouco
dar uma volta
fazer como dizia a minha mãe
arejar a cabeça
eu preciso
não posso mais aguentar.

o que é isso?
como posso ser tão assim?
como posso ir entrando o mundo
cortando seus chãos
saturando seu ar
com meu suor
e consumo?
eu quero ausência
não de mim - impossível
mas desse jogo
não quero mais
estou bêbado
intragável
fiquei rouco
e inda assim
tudo parece
sempre pouco.

vejam os versos
aqui reunidos
vejam os versos!
como podem
confiar em mim?
esses filhos que escrevo
o que são, para além de filhos
seriam também escravos?
serei eu alguém assim tão impositor
serei fascista?
serei capa de revista?
o que serei eu
se não posso ser
o que desejo
e sempre me vejo
refletido
e no reflexo
me observo
e constato:
o que eu sou se perdeu faz tempo de mim.

meu pai do céu
meu pai da terra
intervenha!
me arranque a força
me torne cego e burro
para que eu não dialogue
mais
sobre possibilidades
sobre "n"
nem porquês
eu estou doente
eu mais uma vez
não me posso reconhecer
e quando isso chega
quando acontece
este segundo
tudo fica turvo
e eu me perco
na minha
insatisfação
generalizada

nada serve
nada servirá
ou eu me atropelo
ou eu me lanço pela sacada
mas eu sei
que isso
enfim
não resolveria nada.
     

sábado, 14 de janeiro de 2012

Voltar

Condução
Via única
Multidão
Camisa de gola
Enfim a vida
Aponta a mão
Faz repetição
Sirenes acenam
Você
Cabelos brancos
Oh, sim
Plástico
Busca e procura
Farol
Tambores
Amores
Torre
Túnel
Hoje

Curto e grosso

As palavras estão todas aqui
Não falta sequer a vontade
de lhe dizer
Hoje
mais perto que ontem
O que falta é apenas a gente
Um ao outro
Se ter.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

voo sem turno

sua voz
seu corpo
que difícil é
separar um
do outro

sua voz seu ser
rouco
sua curva
mordaz
e seu silêncio
absorto

comunhão
distinta
de astros
e movimentos
porto

sua pela
sua língua
seu transtorno
em mim
multiplicados
sua ânsia
seu enjoo
aqui em mim
apaziguados

que difícil é
separar o silêncio
da distância
que nos atrasa
e impacienta

que difícil é
te ouvir
e inda assim
ter classe
e paciência
                     

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

cumprimento um

pesa a cabeça
resta o corpo
querendo carícia alguma
que seja
a alma
com calma
pesa a cabeça
mas dançam
os dedos
os fios
todos
de cabelos
tudo pesa
mas resta
o olfato
em busca
de um cheiro
capaz de adormecer
o horror
deste instante
e convertê-lo
em construção
em carícia
carícia sim
carinho
mão sobre peito
mão sobre
mão
sobre o corpo
sobre o tempo
calma
a cabeça pesa
e essa é a condição
estar nesse ponto
para clamar aos céus
de casa
outra definição.
                           

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Wish

All these words
were possible.
Wish poetry as action
And metaphors
as eyes blinking

Wish I coukd see better
Wish I could can
Wish I could love you
loving me
But I do not know
if I can

It is hard
It is heavy
Thoughts are running inside my head
and for what?

I am trying to find some reason
for answers and all these questions.

blue nevoeiro

ele olha adiante. engraçado como talvez nunca tenha olhado para trás. as mãos conservadas cada uma sobre uma bochecha. ele pensa que palavra estranha. ele pensa. ele nem sequer fala. olhando lá no adiante ele sente que ainda há chance. os cabelos emaranhados confessam explicitamente o nevoeiro do pensamento. queria ser grande. queria ser menos bronco ser ameno. os pequenos pelos dos dedos anunciam a maturidade semi-crescida.

adiante sempre adiante. ele olha enquanto pensa na família. a mão sobre a bochecha conforta o íntimo. poderia, se preciso, voar sentado, voar como voam os meninos nos livros de ficção. ele persiste ali sentado. no adiante se destaca uma sombra movediça. ele já nem vê. ele persiste. os olhos abertos mas fechados. uma dureza inconcreta. um silêncio concentrado. na frente um vulto feminino se move a gestos largos e ágeis. gestos feito traços.

sobre o papel espesso, a tinta azul vai criando novamente seu rosto sua preocupação seu descontentamento. ele ali sendo posto num pedaço de papel por ele que no adiante ele mantém entretida. ele poderia ficar ali. ela poderia também fazer o mesmo. e nisso ela faria também suas unhas bem desenhadas mas roídas. ela faria mais enovelamentos no cabelo. ela faria tudo incluindo a boca e as mordidas que a própria boca faz no seu beiço.

palavra feia. tudo bem. ela está ali para efetuar um ou outro remendo, sim, os cabelos mexidos as orelhas limpas. tudo conforme preza essa analogia (dele ali sentado e dele ali convertido em linha). ela o olha um segundo. ela cessa o movimento do risco e o olha. ele em silêncio - mais que antes - agoniza. o que foi? quer perguntar. o que foi?

ela olha como se houvesse encontrado o que nunca fora capaz de achar. como se tivesse descoberto algo que ninguém até então foi capaz de revelar. eles se miram. ela pensa em beijo. ela descobriu sua boca. ela voltou ao papel e a coloriu por inteiro. você tem lábios azuis. ela disse sem dizê-lo. eu não poderia dizer o porquê disso. ela o olhou mais uma vez e foi de novo se entreter sobre seu gesto ali não tão mais passageiro.
     

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

leite frio

ela olhou através da janela. não. ela olhou o céu. não havia nada entre ele e ela. ela olhou o céu. ficou ali estatizada. sabia que qualquer movimento seu poderia ruir definitivamente o jogo do encontro. por isso ficou. gostava de se provar errada vez ou outra. quer dizer: ela sabia como ficar. não era dessas ou desses que se move sem saber o porquê. ela também não sabia, mas estar ali repleta enquanto pausa a fez se sentir grande, imensa, capaz de nutrir o tempo para nele, voluntariosamente, ir se perder.

olhou mais fundo. pensou que se talvez olhasse sem piscar - por um tempo - seria possível ver o fundo, ver o dentro, ver além. não era. mas brincava de ser possível ser. qual era o problema? a tarde começando e seu dia já vencido, agonizando. havia algum problema mas nem todos os problemas são problemas, você precisa reconhecer. ela se dizia essas frases sem escapatória querendo se amolecer. de fato estava dura, estava intragável. parecia alguém triste com a vida e de fato estava. não triste, talvez apenas chateada.

a casa suja. as paredes empoeiradas. os amigos, onde se enfiaram? ela não sabia de nada. não sabia do risco da fome da doença das crianças que há dias haviam sido atropeladas. na frente de casa. na faixa de pedestres que não servia para nada. pensou em sua tristeza, em sua beleza, pensou que talvez devesse andar nua. ela pensou tanta coisa que quando percebeu estava dormente e no céu ao invés do sol já havia a lua.

levantou-se. a escuridão tomou-lhe os olhos e depois a base da língua. senti desejo de cigarro. senti desejo de sexo e amor voluntário. coisas improváveis para um início chuvoso de semana duvidosa. abriu a porta da geladeira e teve a perna e o restante do corpo iluminado. estava amassada. tudo bem. pegou o leite. encheu uma caneca de vidro meio suja meio mal lavada. bebeu o leite e se sentiu apaziguada. foi até o banheiro. se olhou no espelho. fechou os olhos e foi até o quarto, antecipando o sono.

deitou-se e dormiu. com a luz acesa.
   

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Mudo

Irrupção
Minimal
Cevada
Indecisão
Era curioso
aquele livro
Mas aqui entre
a gente
É mais divertido
o nosso destino.

mal e vício

malevich does exist

FANIQUITO

hoje é preciso parar um segundo
em um segundo
o mundo todo se equilibra
ou se esvai

é que a moda passa
o vento atravessa a sala
os papéis voam
e nisso
se tentares acompanhar
tudo que corre o risco
é de quedar

fica
um segundo
eu disse, é só um segundo
fica que nesse intermédio
o seu silêncio é profundo
e a sua ação
maior
será contemplar a destruição
do instante

poderia ser noutro
poderia ser amanhã
e até mesmo
poderia
ter sido
ontem, sim
ontem

ver você
ficando agora
neste instante
ressalta a importância do estar em paz
do manter semblante

fica
que eu me comovo
mirando seu rosto
e juntos, frente a frente
nós inventamos
um tempo
em que as coisas
tem seus tremores
naturalmente e sem
contra-indicação

por que haveríamos de acabar com os faniquitos
se dos faniquitos somos nós também
parentes?
   

domingo, 8 de janeiro de 2012

p i t a n g a

outro café
quem sabe outro café
não há cigarros
hoje
não há fumaça
exceto o pensamento
tenaz
e investido
na nossa
epopéia

talvez outro café
sim talvez
mais um
outro mais
e assim
quem sabe
o peito fique calmo
as mãos cessem a busca
e o íntimo, enfim
se canse
de tanto se agitar

a nossa história está acontecendo
e nossos corpos não a conseguem
acompanhar

ela é doce, talvez
fosse ser doce, caso tivéssemos
no tempo presente
a oportunidade
de nela aportar
e com calma
passar as mãos pelo caminho
e transpor trajeto ao corpo

sempre o corpo, não?

eu aqui hoje escrevo sobre aquilo
que hoje
e de novo
mais uma vez
não pudemos compreender.

(talvez estejamos fazendo da forma errada.
vamos tentar novamente?...

mudança

para desfazer as malas eu precisaria de mais força

tudo resta assim meio jogado ao chão
perdido por todos os lados

eu nem ligo
eu nem faço questão
eu fico mudo
feito criado

não adianta
a vida quer engatinhar
é preciso deixar
é preciso deixar
amanhã, talvez
a coisa toda aconteça
amanhã
quem saberia dizer
amanhã pode ser que eu tenha você
aqui
onde agora
só há nada.
             

Catavento

gira
entretido em sua prisão
ele aqui permanece
fingindo em movimento fixo
ser livre
e capaz de voar

olho o catavento
daqui onde estou
ele gira deitado
como se de fato
pudesse
realmente
voar

gira
fazendo circular
sua luz
e sua consistência
plástico-
quebradiça

olho o catavento
daqui onde estou eu miro
e me vejo luminosamente
nele
refletido, cheirando a cores
que eu ignoro a princípio

porque se misturam
não penso nele
apenas no que sinto
passando por mim
essas cores
feito um doce vento
tornam o dia
menos pesaroso

e de seu falso movimento
(seria mesmo falso?)
eu me alimento.
               

sábado, 7 de janeiro de 2012

Jardim

Galhos ressequidos
Pedras acolchoadas por veludo
Estilo lodo
Silêncio retinto
Quebrado por um
Ou outro
Pouso.

Enquanto eu ando
Eu penso sobre você
Mantida aqui em mim
Sobre você aquecida
E algemada na mesma vida
A qual você mesma pediu licença.

Penso em ti da mesma forma como me bate o coração
Não saberia não fazê-lo
E nisso
Reside a nossa vida e também morte.

Eu lhe peço:
se eu estiver te atrapalhando
Descobre um jeito claro de me dizer
Não faça assim não.

Até lá
Vou direto rumo a ordem dos dias
Pensar em ti
Lhe fazer estes versos
É a minha forma de continuar não entendendo o seu porquê.
    

Tarturaga

Pensar que era distância
um tímido desejo errante
De colar.

Ou que talvez fosse ciúmes
aquilo que depois viemos saber
Ser só se preocupar.

Eu não mudaria nada.

Agora posto em palavras
nosso crime perde em violência
E ganha outra tintura.

Nosso ódio vira ode.
Nossa xícara quebrada
vira arquitetura.

Tudo errado
por isso deixemos assim
Para não esquecermos que com essa coisa de amor faz todo o sentido perder a linha.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

signal

mudou tudo
tudo mudado
mudou a cor
mudou todo o passado
sim
eu ainda aqui
com as orelhas erguidas
tentando ver
onde aportar.

café
café sem açúcar
café sem você
eu me volto sobre mim mesmo
e encontro quem
eu encontro você.

encontro você
planejado em verso
vejo você aqui em mim
quase que dissimulado
quase inconsciente
chove lá fora
e aqui dentro
fazemos poesia
um
com a pele
do outro.

as palavras se dilatam
o silêncio se consome
por que não morder?

por que não assumir
novamente que
o que há
inda é
o
de
    se
         jo.
                

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

estertor suavíssimo

e então eu sei
que sem seu som
eu nada sou
eu nada saberei
sentir ou sofrer
sangrar
ou sorver

nem café quente
nem chás gelados
eu não saberei continuar o dia
sem você aqui
e ali acá
e acolá

sacolé?
não saberei chupar

sucesso?
não saberei vestir

sobrarei feito legume no recipiente esquecido
que com o tempo
nu no tempo
vai se perdendo
até murchar
não saberei sequer
sorrir

vês?
sem seu som
sem seu suave som
cor de sono
meus dias nascem luminosos
e morrem saturados

os sóis hão de rimar apenas com solidão
e as unhas
no suicídio haverão de encontrar
seu destino
                                 

Cybershot

yes, i could stay
on the top of that tower
only playing of
create images.


             

Conforto

As pétalas têm pelos que antecipam a chuva.

Sobre as tartarugas há uma mochila dura
a guardar todo o seu mistério
e íntimo.

Em curvas espelhadas,
o café se move lento e contido
Ele pega fogo,
mas é tranquilo.

Porque dentro
Dentro de mim
eu sem você corro o risco de me entornar sem retorno ou recipiente
que faça reparação
Eu perco a métrica
fico mesmo doente,
Eu fico

Parado

Sob o seu afago
Parado eu fico
Sob a neblina
desta e daquela noite
Sob a neblina do seu cigarro
de menino.

Ouve
Longe, na cozinha, a alguns passos
o café tomba avassalador
sobre o receptáculo de vidro
fino.

E Na janela
Uma gota do cano d'água faz respingo
sobre os pelos
das pétalas
do cacto-híbrido.

E é só isso
é bem isso
Eu Levantarei
pegarei nosso café
e está tudo bem
é seguro
é tranquilo
Conforto é algo bonito,
                                   bem como você.
 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Beijo Borda

resiste feito sujeira
contrariando o gosto
e provando presença.

respira e se reposiciona
a alça ansiosa anseia o toque
a fumaça desliza lenta
rumo a perdição
do tempo.

resta parado
na borda um beijo perdido
seria um beijo?
seria alguma coisa?
seria na borda da xícara
um projeto ainda
não todo
consumido?

resvala
disseca as horas em movimento
e brandura quente.

e se se vai
é só porque o divertimento
nasce da partida.

segue ao ar, fumaça convicta
segue aos céus e também as esquinas
é lá
no distante
que seu corpo
se dissipa.
     

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Edição

Quis grifar
marcar de forma a não dissipar sentido.
Dei-lhe forma
No caso parágrafo-corpo
Enfim, abrigo.
Fiz como deveria ser
Parti primeiro de mim
e depois me abandonei
Enovelando-me
naquilo que nunca havia sido.
Foi-me puro delírio
Tenaz Ressignificação
E se hoje fica
ainda é por precisar desta atenção
Deste calor cheirando
Ópio.
Se hoje persisto
é só porque o amanhã chega mais rápido
Quando o tempo é ditado por rimas
e não por segundos.

Keyframes



domingo, 1 de janeiro de 2012

Perguntas Que Marcelo Faria - 03


Divulgação.

Marcelo – Querido Diogo, o ano passou e a gente pouco se encontrou novamente. Mas, a seu convite, já abrimos este novo ano – o 2012 – com uma entrevista, ou se preferir, com uma conversa entre amigos. 
Diogo – Prefiro conversa entre amigos, Marcelo.

Marcelo – Eu imaginei. Pois então vamos começar. Como foi de virada? 
Diogo – Levei um tombo ontem, Marcelo. Machuquei os dois dedões. Perdi a pele das duas solas. Tô meio que de cama. Passei a virada do ano dentro de casa, me embebedando e comendo damascos.

Marcelo – Esteve acompanhado? 
Diogo – Claro. Estive com a família. Nessa época do ano, eu me junto a família. É a única fase do ano que eu consigo estar com eles.

Marcelo – O resto do ano você está trabalhando?
Diogo – Também.

Marcelo – Você quer me dizer que passou o fim do ano trabalhando? 
Diogo – Eu diria que não paro de trabalhar nunca.

Marcelo – Você está querendo bancar um cara especial que é super responsável e super trabalha?
Diogo – Não, isso é você quem está dizendo.

Marcelo – Eu quis dizer: você não está de férias?
Diogo – Estou. Claro que estou. Uns quinze dias fora do Rio de Janeiro, onde moro, é o mesmo que férias. A questão é sair do Rio, para se livrar um pouco daquela correria que virou a minha vida.

Marcelo – E agora com uma relativa calma, você segue trabalhando? 
Diogo – Sim. Escrevendo, pensando, planejando os próximos passos, revendo as coisas que aconteceram e foram conquistadas no ano passado. 

Marcelo – Esse é um bom assunto. Como foi seu ano e como você espera que seja este novo que se inicia?
Diogo – Eu tive um ano muito especial. Foi de fato muito bom. Sobretudo em termos profissionais. Estive envolvido em muitos projetos e todos se transformaram em coisas que eu adoro. Também tive uma sensação muito boa quanto aos amigos, uma certeza muito límpida – é isso, límpida – do valor que a amizade tem e propaga. Enfim, foi também o ano da minha formatura na graduação de Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Marcelo – Você se formou, Diogo? Agora você é um diretor teatral? 
Diogo – (risos) Eu acho que eu já era. Mas agora eu sou um diretor teatral com diploma. 

Marcelo – Como é uma formatura em Direção Teatral? Como foi sua conclusão?
Diogo – É uma graduação, no mínimo quatro anos de dedicação. Eu estendi um pouco e fiz em seis anos. Eu pensei ter te convidado para o meu espetáculo de formatura. A nossa formação prevê que o aluno faça três exercícios de direção. Eu te convidei, não?

Marcelo – Não que eu me lembre... 
Diogo – Devo ter mandando e-mail. Foi tudo tão corrido.

Marcelo – Sempre é...
Diogo – Pois é...

Marcelo – E o que mais?
Diogo – Mais o quê?

Marcelo – Conta alguma coisa especial.
Diogo – Marcelo, eu fico me sentindo um mico de circo quando você me entrevista.

Marcelo – É bom conversar com você. 
Diogo – Por quê?

Marcelo – Você está me fazendo uma pergunta?
Diogo – Sim. Não posso? Mudar os papéis. Vamos?

Marcelo – Sim. Sim. Podemos mudar. 
Diogo – Então se apresente. Quantos anos?

Marcelo – Eu sou um pouco tímido. Eu acho.
Diogo – Eu perguntei quantos anos você tem.

Marcelo – Tenho 26. Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná. Moro no Rio de Janeiro faz quase dois anos.
Diogo – Você veio morar aqui para trabalho?

Marcelo – Sim, você sabe. Vim para trabalho e por conta de uma bolsa que consegui no mestrado que termino em breve.
Diogo – Então você está terminando o seu mestrado?

Marcelo – Sim. Pensei que você soubesse.
Diogo – Sei que as nossas conversas servem para a sua tese, mas não sei mais que isso. Conte-nos.

Marcelo – Pois é. Defendo a tese em breve. Ela se propõe a identificar e refletir vias comunicacionais distintas que têm surgido nas últimas décadas, sobretudo as décadas de 1990 e 2000.
Diogo – E no que eu te sirvo nisso? 

Marcelo – Bom. Quando nos conhecemos, eu senti que havia um esforço seu de repensar, eu acho que posso dizer um esforço para reformular uma lógica comunicacional via seu trabalho. 
Diogo – Você foi assistir NÃO DOIS, em junho de 2010, não foi?

Marcelo – Exato. Fui por acidente. Tinha chegado ao Rio não fazia nem mesmo um mês. Estava procurando algo para fazer e calhei de assistir a sua peça. Ali nos apresentamos e tempos depois nós viemos a ter uma primeira reunião ou encontro, como você preferir.
Diogo – Eu prefiro encontro. Mas repito a pergunta: no que esses encontros ou entrevistas servem para a sua tese?

Marcelo – Justamente. Nossas conversas evidenciam, sobretudo pela sua fala, uma maneira outra de lidar com a comunicação. Você parece partir sempre de uma comunicação zerada. Esse é um conceito que estou desenvolvendo na tese.
Diogo – Meu deus, as pessoas inventam coisas umas em cima das outras.

Marcelo – Você é uma dessas pessoas.
Diogo – Eu sei. Assim como você. 

Marcelo – Pois então. Eu digo comunicação zerada para desenhar uma lógica interessante que tenho observado no trabalho de alguns artistas de teatro, sobretudo. Quero dizer: a comunicação que se pretende criar no encontro da obra, do espetáculo com a audiência, o seu público, ela não está dada desde o início. Ela começa zerada e vai se construindo. Mais que contar uma história, que encenar um acontecimento, tenho observado como algumas obras são, em si mesmo, certo processo de construção da comunicação. Poderíamos dizer de reconstrução da lógica comunicativa.
Diogo – Meu deus, isso parece interessante. Você pode citar exemplos dessas peças?

Marcelo – Prefiro te convidar para a apresentação da minha tese. Espero conseguir transformá-la em livro. Acho que seria uma reflexão interessante de se trazer a discussão e a prática.
Diogo – Sobretudo quando as pessoas não têm consciência dos desdobramentos de suas apostas estéticas.

Marcelo – Mas você tem essa consciência, não tem?
Diogo – Mesmo que eu diga sim. Ou que eu diga não. Isso não te impediu de acreditar que eu tivesse.

Marcelo – Eis o dilema. A consciência. 
Diogo – E a falta dela.

Marcelo – Creio que tenhamos nos alongado demais. Vamos para as últimas palavras? (Diogo faz que sim com a cabeça) Quais os projetos para este ano, Diogo?
Diogo – Sim. Os projetos. Há pelo menos duas peças sendo gestadas e que devem estrear ainda esse ano. Fora as novas, há duas peças do Inominável\

Marcelo – Teatro Inominável é a sua companhia?
Diogo – Digamos que sim. Não é minha. É a companhia da qual faço parte. Enfim. Estamos juntos faz um tempo e temos em nosso arsenal quatro espetáculo. Neste ano, queremos dar um gás em pelo menos dois: COMO CAVALGAR UM DRAGÃO, que você assistiu e SINFONIA SONHO, que você ainda não viu.

Marcelo – Ouvi várias coisas sobre essa peça.
Diogo – Eu também ouvi.

Marcelo – (risos) Você não existe.
Diogo – (risos) Nem você.

Marcelo – Prometo voltar o quanto antes, mesmo que você se esqueça de mim.
Diogo – Prometo recebê-lo a hora que for. Gosto muito de nossas conversas.

Marcelo – Então uma última pergunta: por que você gosta de nossas conversas?
Diogo – Porque pelas nossas conversas desbravamos a possibilidade que é o encontro. Multiplicamos a potência do entre-dois e a propagamos. Não que isso seja incrível. Mas é também por isso que talvez possa ser único, incrível, especial. Eu gosto de nossas conversas porque dentro delas há uma força dizendo por que isso não poderia vir a ser? Compreende? (Marcelo faz que sim com a cabeça) Não tente compreender. Está para além disso. Ficou pesado? (Marcelo dá um pequeno sorriso) Eu fico te aguardando, meu amigo. Bom início.



Perguntas Que Marcelo Faria volta no decorrer do ano, 
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Seu mínimo movimento

Você me ouve?

Eu acabei de colocar a minha mão direita sobre a sua esquerda. Você me sente?

Eu estou virando para a frente. Eu virei. Eu vou fechar os olhos. Você me promete piscar os seus? Logo depois que eu fechar os meus, você me promete piscar os seus?

Estão fechados. Por favor. Pisque. Eu não vou abrir. Eu posso ouvir daqui o terremoto que é seu mínimo movimento.

A estrada hoje está ótima. Não há carros adiante, nem buracos. A velocidade contínua é algo que me apetece. Eu me sinto fazendo tudo conforme deve ser feito. Onde estávamos quando eu tive esta ideia?

Eu realmente penso que deveríamos ter saído mais cedo. Agora com a noite deitando sobre o capô do carro. Não é engraçado? Essa palavra.

Capô. Me soa sexual. Não que devêssemos nos enrubecer. Outra palavra que me remete ao isto.

Você me abandona e por vezes só me resta isso. Falar como se a qualquer instante pudesse dormir sobre o volante e nos capotar.

Não ia ser de todo ruim. Ver-te sendo movido. Para lá e depois para cá. E talvez nisso os nossos crânios pudessem vir a se chocar.

Você me assusta com essa insistência. Soube que na Coréia eles ficaram treze dias de luto. Você é muito enigmático. Mas soa bobo. Ao mesmo tempo. Bobo e enigmático. Por vezes a bobice se supera. Noutras, você me soa tão para frente.

Talvez devessem instalar uns quebra-molas por aqui. Não tinha um pedágio? As coisas se mudam assim ó. Sinto às vezes que só nós dois não sabemos que mudaram. Sempre sabemos por último.

Isso daria uma música. Como tantas outras, eu devo dizer, você se supera. Por que eu disso isso?

Às vezes eu penso que eu deveria ter feito um sanduíche. Eu sempre espero fazer uma paragem. Comer algo na estrada. Mas não é verdade. A estrada não tem nada para comer. Sinto, às vezes, apenas às vezes, que somos nós aquilo que há numa estrada para ser comido. Você me acompanha?

Você fica quieto?

Você não se mete comigo?

Eu já tentei ser polida, tentei te provocar... Às vezes eu acho que se eu abrir o seu zíper você não vai se importar. Talvez você sinta vontade de urinar e nem assim queira me dar o prazer do seu movimento.

Da sua lágrima.

Da sua doença.

Da sua Aulularia.

Engraçado. Às vezes umas palavras estranhas me roubam a atenção e eu as falo. Me sinto esperta. Mas é tudo bobeira. Não quero soar alguém que não sou. Não sei onde aprendi. Nem sei o que possa significar. Melhor assim: nem tudo se explica, certo? Você sabe que sim.

Você sabe que sim. Isso não é pecado. Pecado é a sua vida estar em minhas mãos e mesmo assim você não se importar. Se eu te tirar do carro. E eu não posso te tirar do carro. Antes que você diga alguma coisa – e é claro que você não vai dizer – antes de você dizer alguma coisa, eu gostaria de deixar bem claro que eu não sinto pena de você.

Uniforme.

Quer dizer: normal. Numa escala homogênea. Eu digo: tudo em ordem. Quer dizer: eu sou preconceituosa. Eu tô querendo dizer que sinto pena sim. Acho que dá pena. Essa sua condição. Essa sua inércia. Mas é uma pena normal, entendeu? Não fui eu quem criou. É coisa do sistema. E o sistema está ai, meu amor.

Sorte a sua que nos temos. Sorte a minha ter você para não enfrentar fila nos bancos. Piada grosseira. Faz meses que não entro num banco. Acho ótimo que o nosso saque mensal venha de dos jovens que sobem até o nosso andar e nos enchem de dinheiro. Acho justo. Acho que é o preço. Eles sobem as escadas e nos pagam o que é nosso por direito.

Você tem ficado muito tempo de frente para a sacada. Às vezes, é bobeira, mas às vezes, eu penso que você de súbito poderia ter força para se lançar da nossa cobertura e enfim acabar com toda essa coisa.

Mas falta-lhe coragem. Eu me reprovo por pensar tais coisas. Mas é verdade. Se pensei é porque pensei. E isso, ainda que não se explique, acontece. É assim. Por isso eu te entendo. Sei que algo dentro de ti está a espera do estalo para explodir. Só pode estar.

Um dia você parou e sem morrer, você congelou, bem assim como estás. Não há novidade na sua respiração e mesmo assim ela não cessa. Como pode?

Os novos moradores – são todos estudantes de economia – eles me perguntaram qual é a sua. Eles falam assim com essas gírias. Qual é a dele, dona? Dele e Dona. É assim que eles nos chamam. Eu imponho algum respeito, mas você: nada.

Eles perguntaram e eu disse: ele foi um grande dançarino oriental. Sabem o que é isso? E eles – os jovens economistas – fazem uma cara repleta de ignorância.

Eu explico: dança energia. Já ouvir falar? A cara amarelece. Eles não sabem o que você fez da vida. Eu também não faço questão de explicar. Gosto de você assim como se fosse um presente embrulhado. Fico excitada com a possibilidade desse embrulho romper ou rasgar. Eu sou tão erótica.

Não me masturbo desde o início da semana. Quebrei o último vibrador que você me deu na páscoa passada. Naquela época. Bom. Não quero trazer novamente estes dramas a discussão. Mas naquela época, se é que você se lembra, você me aceitava do jeito que eu era. E eu não percebia como alguém podia ser assim. Não você. Eu. Eu não me entendia. Como pode uma mulher se dar ao luxo de ser tão perdida?

Eu me olhava no espelho após um banho muito quente. E tentava me enxergar nos pedaços de espelho sob a fumaça embasando o vidro da pia. Eu não via nada. Mas sempre conseguia localizar meu sorriso. Ele estava a frente de tudo.
Quem mandou você mandar me darem um vibrador de presente? Sabia, eu sei que você sabe, mas sabia que desde então eu estive contigo sem pestanejar?

É uma história de desejo a nossa. De desejo e amor, por favor. Não vem com essa de só porque há o sexo, o amor é posto de lado. A gente se ama antes de tudo. Antes ou depois.

Tenho sede.

Me passa a água que está do seu lado.

Humm... Você o fez. Obrigada.

Espero não estar envenenada.