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domingo, 31 de janeiro de 2016

Se eu pudesse

Trataria de arranjar outros começos
Cessaria de fazer poesia a qualquer instante
Não mais usaria rimas e no lugar dos hábitos
Eu seria todo desejante.

Talvez fizesse mais.
Talvez rasgasse dinheiro
E comesse não só as unhas das mãos.

Talvez eu começasse a aprender
Como se faz para sentir atração pelas árvores
Talvez domesticasse uma cobra vermelha escarlate
Talvez, se eu pudesse,
Essa música eu cantaria o dia inteiro
Talvez virasse cantor
Talvez me desse um emprego
Tal como os moços que trabalham em conduções.

Não que eu não pudesse
Não que eu não queira
Mas talvez
Por tanto postergar a mudança
Ela um dia me venha mais inteira

Abrupta e súbita
Me venha a mudança
Tremenda e sem passagem de retorno.

Fila

De tudo, menos de desejos
Em fila, tudo, menos o sorvete
Aqui na boca
Menos o seu beijo
Repetidas vezes degustado.

Tolero tudo. Tudo eu aguento
E faço longas listas
De coisas a resolver
De lamentos
Mas nem tudo cabe nisso tudo

Porque os sonhos só se amanhecerem
Velozes. As luzes só se piscarem
E queimarem. Destino atroz.
Nem bem é falta de sorte

É só que fazer lista
Fazer filas é coisa para os muito fracos
Ou muito fortes.
Eu pertenço aos comuns
Que se distraem num mastigar.

Não, não, não
Eu não deveria lhes contar
Mas hoje estou sem cueca
E as gotas de suor
Aleatórias
Por mim escorrem.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Espera

Sangue já tirado
Remédio na veia
Injeção de insulina rápida
Devo ter fumado uns três cigarros
Tudo para esperar a hora de saber
Se o mal que me causa dor
É culpa minha
Ou do destino.

Não que tivesse culpa
Mas cresci frente às novelas televisivas
A vida minha ficou toda vingativa
Até quando mais velho
Conheci a amiga filosofia.

Culpa morreu
Sobra o cigarro. E a responsabilidade
Minha sobre meus atos.
Sobre o imprevisível e o insondável
Sobre o mundo e sob ele eu aqui

Esperando.
Esperando.
O modo e o cronograma
Do meu fim.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O cuidado por vir

Não será suco de laranja
Não tem a ver com cafés e cigarros
Não tem medo do sexo
Nao terá receio de nada.

O cuidado ainda por chegar tem forma
De abraço. Envolve e apazigua o peito
Em guerra. Faz a agenda do amanhã
Ficar limpa e disponível

Aos desenhos que hoje
Ainda não vieram.

A Palavra Não Dita

Serei eu quem me direi. Terá som curto, será agente a mover destino. Será preta sobre fundo branco. Será certeira. A palavra que não veio me colocará sem dúvida alguma no eixo. Eixo ereto do meu desejo de sobreviver tempo o suficiente para morrer mais ciente do mundo que ainda não transformei. Isso que ainda não tive condições de me dizer, isso vai me envenenar ou me promover. Ao adiante, onde moro em sonhos, a palavra que inda não veio será meu pé sobre gramas, minhas mãos dentro da terra, será gesto fato. Gesto ao mundo destinado. E então a poesia terá enfim perdido sua necessidade.

A distância

Talvez seja a mesma distância.

Você que me olha
Não imagina que eu
Mexendo nesse celular
Tenha habilidade para
Me preocupar com o mundo.

Eu também, me vendo aqui
Digitando versos para chegar
Onde não chego, também me vejo
Na distância entre o verso e a vida
Também me rendo pela exigência

Mundo.

Súbito, um quilômetro entre nós nasceu
E se falo de mundo, é sempre para dizer o lá
Onde nunca cheguei.

Distante, as palavras que antes aproximavam
Enclausuram. E o vivido vira rima esvaziada
E repetitiva. E quando grito
Vida! Eu estou vivo! Vejam!

Tudo tende a soar mentira
Nessa distância inventada
Para se privar do mundo
E não gastar nossa própria vida.

Tudo tende a ser mentira.

Daqui onde agora estou

Vejo seu braço, desconhecido
Sinto um cheiro morno
Preciso
Seguir dentro deste carro
Faz frio
Mas a cidade lá fora
Pega fogo.

Sobre as confissões de um homem
Ou se sobre suas ânsias
Nada serve porque hoje
É inerte onde se sobrevive.

O sonho não desejado
Te brinda com a imagem de quem você
Hoje, como antes, nunca tinha acontecido.
Seu sorriso em imagens vai ser
Verso nunca escrito.

Porque tem uma coisa nisso de
Mirar de longe o mundo.
Tem algo de urgente na sua demanda,
Menino. Você virou homem na idade
Mas entre os ágeis dedos
É você todo inconstante.

Sua sorte sofre o rompante
Dos instantes. Seus amores
Não aprenderam como te amar.
Seus amigos estão ao redor
Menos para te dar segurança
E mais porque não sabem onde
Você está.

Daqui de dentro desse carro
Eu vejo o seu braço,
Vejo a dobra da nuca virando rosto
Sinto o peso da sua carne
Enquanto a vida se prepara para o carnaval.

Tumor

Não, por favor, não quero me adiantar.
Não quero imprimir em meu corpo
Doenças que eu não possa curar.
Não quero antecipar o que não veio
Não quero me escrever no livro dos recordes
O teto estala
A casa pode vir abaixo
Mas essa dor concentrada na garganta
Não precisa ser tumor.

Pergunto se eu apenas venha a me cuidar quando o ar me faltar completamente?
Há alguma doença que me impede o cuidado a mim destinado.

A cinza do enésimo cigarro cai
Sobre o peito e me queima rápido
Sobre a cama branca ela se desfaz
E eu continuo inerte
Morrendo em poesia.

Haveria algum destino outro
Para alguém que viciou na vida
Sem rima?

Tudo tenta me tornar distinto
Mas o hábito virou desejo
E o que desejo hoje é só isso

Dormir morrendo
Para acordar vivo
Cheio de morte
Eu sigo. Até tombar
Ali na frente.

Que horror tudo isso.

Ingenuidade

É achar que o corpo não precisa de cuidado.
É bradar que se está aqui apenas para se gastar, sem nenhuma reserva, sem nenhuma pendência.
Nesta vida, ingênuo é aquele que briga sem medo de morrer.
Mas, se assim me julgo ser, não seria também ingenuidade não me aceitar e deixar de me ser?

domingo, 24 de janeiro de 2016

Entrevista

Como você está?
Na cama, só de bermuda, cor azul, cerveja no copo, cigarro recém apagado, soltei um pum, estou bem.
Que sincero. Está lendo algo?
Sobre afeto. Filosofia. Voltei a ler Nietzsche.
Humm... E ouve alguma música?
Agora?
Sim. Mas durante o dia.
Ouço sim. Agora ouço uma moça cujo nome não vou revelar. Mas durante o dia ouço outras coisas. Não importa, pois música é uma coisa que não paro de ouvir. Voltei até a comprar CDS, acredita?
Acredito. Me fale: algum medo?
Medo?! Sabe, creio nunca ter estado tão destemido. Sei lá, talvez uma sensação boa de morte, um cansar da moral - ainda que só em tese - eu hoje estou mais afinado com o que sinto.
Não sei o que perguntar.
Era uma entrevista.
Posso apenas só te olhar?
Pode.
Obrigado.
Viu?
O quê?
Alguma coisa, você viu? Acontecer?
Passou o tempo.
Sempre.
Sempre.
Pois é...
Deveria ter dito outra coisa?
Vamos dormir.
Dormir?
Dormir.
Vamos dormir?
Sim. Cada um na sua cama.

Deve ser alguma paz

Perdi tudo.

Então recomecei.

Saber que se perde
É saber que te forma.
Ontem foi como hoje:
a brisa no rosto e o sorriso
ao mundo destinado.

Há dias em que o possível acontece.

Você acorda sem pressa
E seu café da manhã
É música alta
E cheiro de sabonete frutado.

Há dias em que a juventude dorme
E você se ergue sem aquela correria.

Como eu quis esse momento
Em que a pressa pudesse ser apenas
Minha maior inimiga.

Sorriso ao vento, hoje,
A lembrança do que foi
Sequer me toma tempo.

Paz. Deve ser isso: só alguma paz.

O que se esquece continua?

Fiquei pensando na habilidade de esquecer. Eis uma bela capacidade. Não por motivos mesquinhos, apenas porque sim, porque se esquece. Por vezes é bom, é preciso esquecer. Vai embora um detalhe, uma ruga, parte um punhado de assinaturas e a escrituras, sobre as quais surgem outras coisas novas. Que envelhecem. Tenho pensado muito sobre a memória que guarda e aquela que esquece. Pensando no esquecimento não como apagamento, mas como arquivo. Dentro de mim mora tudo já esquecido e, de súbito, num gesto, por conta de uma qualquer coisa, tudo se relembra.

Agora a pele perfumada. O corpo cansado. Tenho desejo de desaparecimento. Você roubou minha cidade de mim, mas num bom momento: agora, justo quando quero me firmar em mim, eu esqueço tudo o que foi e sobrevivo por preço baixo.

Que bom é rasgar papel em dias de temporal.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Cruzado

Ei, você
Eu estava aqui sentado
Você nem sabia
Apareceu de súbito
Mirando-me congelado.

Cruzei o olhar
Pela avenida você passava
Você me viu
E eu nem sei
Quem primeiro deu a cartada.

E passou tudo
Nesses segundo tudo
Passou. O tempo, outros carros
Menos eu e você.

Nós ficamos.
Entretidos na surpresa
Descoberta pelos olhos.

E então seu carro seguiu
E eu vim escrever sobre isso
Que não cessa de acontecer em mim

Encontro
Fortuito
Simples
Assim.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Days like this

When you get older
For sure will remember
That day across the city
With rain and strength.

Any poetry could write
What it was. But you'll
Remember.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Dias que passaram sem mesura minha

Ele deveria ter se ajoelhado
Ele deveria ter feito tudo de novo
Mas de outro jeito
Deixar o vinho secar, por exemplo
Não ter tocado na barriga alheia
Há um primor
No modo de fazer
E uma medida sucinta
Que finge não ligar para nada
Mas que é toda comiseração.
Há um senso
Um jogo
De grupo
Que desorienta a minha solidão.
Mas
Novo o tempo se anuncia. E tudo
Tudo mesmo
Tudo muda só porque
Nada é igual nem quando fica
As dores
Os machucados
Tudo distoa
E planta o sêmen no peito peludo
Da tarântula que sobre ti vagueia
Ansiando o bote
O beijo
O baque
A falta sua nossa de sorte.

Nunca havia assim desse jeito.
Respire.
É madrugada.
Durma o seu cansaço.
Não lhe há mais nada.

Vinho Sobre a Branca Cama

Poderia sim, derramar
Poderia dormir sentado e esquecer
Poderia desaparecer, desamarrar
A janela fechada nem venta
Sobrevive um cheiro de sexo
Pelos presos entre os desesperados dentes
Poderia ser distinto
Ser muito, muito diferente
Afinal
O que você busca?
Que não o contágio?
Buscas o que, você?
O contrato?
Não.
Sobrevive inteiro na fumaça desfalecente
Nas pardas palavras que pinta
O inconsciente
Quando fala
Deseja
Amanhã como fosse agora
Não fuja
Só há uma hora
E ela ainda hoje se chama
Coração.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

sobre a moral que mina o furor da minha paixão

estou faz vários dias muito impaciente. olhei para fora, para as ruas do mundo, tentei encontrar o motivo de meu desassossego e nada se provou profundo, a ponto de me dizer algo sobre o que sinto.
mirei dentro de casa, vi as plantas morrendo, enfiei os dedos na terra, reguei, plantei, deixei morrer as plantas que estavam mortas. sacrifiquei uma, já muito doente, enfim, foi no jardim de casa que eu operei no mundo o gesto definitivo que sobre mim eu já não opero faz longo tempo.

eu me apaziguei. fiquei meio morno, meio concordatário. otário. aprendi a dizer sim mesmo quando o não, acrescido de meia dúzia de considerações, me era imperativo. aprendi a nublar minha opinião, cegar um pouco os olhos, dopar-me demais, aprendi tudo o que nunca poderia me fazer me ser porque eu não sou isso.
eu não sou assim. não posso ser.
e fui assim ficando calmo, inofensivo e amanheci, certa manhã, doente.


como faço para voltar a estar vivo? se sei como opera, se sei a flecha que trago comigo e o alvo as qual a destino, se sei disso - porque sinto - como então devo proceder? alguma coisa quer me segurar, algum controle quer me reger e, por isso, seguidas noites, permaneci insone, dormindo para a vida que em mim desfalecia e acordado apenas para a rotina escrota do dia a dia.
pergunto como faz e percebo não ser essa a pergunta. eu devo não mais fazer perguntas, devo fazer o seguinte: pegar o vaso de planta, arrancar pela raiz o vegetal, o manjericão, não importa; arrancar a raiz, pegar a interrogação e planta-la feito broto, feito muda, mudança ainda tímida, mas todo esperançosa.
pegue a interrogação, vire-a de ponta cabeça. perceba: o que era interrogação vira gancho que perfura a terra e se crava no fundo do vaso feito uma raiz portátil. o que sobra acima, no contato com o mundo, olhando o vento e bebendo a chuva, é um ponto suspenso. é um ponto-projeto de mundo, outro mundo.

amanhã vou regar minha dúvida engolida e germinar afirmação. germinar sim, sim, por que não? faz anos algo me segurou, me domou, aprendi sem querer aprender como se fazia para não dizer aquilo que sabia ser preciso gritar. calei meus arrepios e só fazendo arte foi sendo possível não morrer por inteiro (ainda que tenha continuado a caminhar, a respirar...).

a morte, faz muitas décadas, acontece com a vida em curso. você morre e segue os dias. morrer não é sinônimo de fim, porque o mundo sofisticou sua engenharia de morte e a morte já veio, você nem viu e segue vivendo a mentira que é estar vivo (porque já não tens habilidade para se engasgar no ar, como faziam os recém-nascidos).

uma vez escrevi numa peça de teatro que os bebês, quando nascem, choram porque descobrem - muito cedo - o quanto podem amar. e é desse soluço que aqui venho a mim - a ti - falar. algo domesticou minhas iras, minhas vinganças, minhas paixões, minha inconstância. me vi doente e demorei, mas agora é claro: ou eu enfio o pau no ó da moral, ou serei homem cujo peito só florescerá poeira.

como germinar? essa talvez seja a pergunta, hoje, a mim, menos passageira.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Que luz será aquela?

Uma coisa imensa me toma o peito
me embarga a vista
e faz mexer no estômago
coisas dantes nunca sentidas
Seriam borboletas?
Seria o desespero?

O que é isso que sinto
que me assalta
que me toma e tomba
que me faz mais que antes
todo passagem
todo passageiro?

O corpo já não fica de pé sem tremer
os gestos me soam repetitivos
Será preciso nascer de novo
moldado a risco
Será preciso desistir da vida
e aprender a amar a dor do amor!

Oh, Romeu
Oh, Julieta
que história incrível essa
a da sua dor.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

I'm a human, so, it's normal to be ignorant. And now that I knew him, he went home. Oh, Mars, today you'll cry of happiness.

Guia

Ei, você. Que lindo trabalho. Fico feliz em acompanhar, mesmo que na distância, o seu aprimoramento. A sua evolução. A sua vitória, enfim.
Muito cedo te vi buscando aquilo que você era, mas que ainda não sabia ser. E com muito ou pouco esforço, sobretudo, com boas doses de descaso, te vi alçar sobre si próprio, mover mundo e acontecer.
Que bonito. Singelo. Dá para ter orgulho.
Teve um dia, porém, que tudo se perdeu. Não sei precisar exatamente quando, mas foi no exato dia em que você saiu de si para contar a outro qualquer como se deveria caminhar.
Você se promoveu por conta própria e fez do mundo escola para a qual não deve haver professor algum, porque na vida tudo se aprende, enfim, sozinho. Ali você vacilou.
E te perguntaram uma coisa e você respondeu outras dez, mas, sobretudo, não respondeu a que te perguntaram. E perverso, talvez sem nem perceber, você ainda disse no final: acho que não respondi sua pergunta, né?
Cínico. Sabes bem que ultrapassou você todos os limites e que buscou sempre o fim, a chegada, o pódio, e não ser caminho.
Você venceu. O prazo. Azedou-se e não há mais volta. Por isso eu te pergunto: quando foi que você virou explicação do mundo?
Quem lhe deu esse direito? Como faz você para ser tão hábil nesse tremendo jogo de saber tudo e ir, pouco a pouco, não mais vivendo coisa alguma?
Você fala do mundo porque não tem mais capacidade de aprender as coisas. Não sabe apreender. Não sabe você.
E estas palavras são mera condenação de quem continua aqui no meio do caminho. Não queria te judiar, mas hoje me lembrei de ti e me lembrei de mim quando um dia, enfim, eu percebi que estava me tornando isso que você hoje é por inteiro.
Que dor. Que horror. Que desespero.
Você explica o mundo, antecipa a vida dos outros que sequer a viveram e estragando os outros estraga a si mesmo.
Era só isso. Só isso.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

because you are always living like you were another one

não é nada, ok?
just a few words
eu estava tentando entender
and now I got it
difícil, mas foi, agora foi
I'm felling almost new
também, não é por menos
Wanna know why?
diga, só se você quiser
I want to
e o que é?
It's just the time
Sempre
Not always, but sometimes
eu sei, é bem específico
yes, the power of
O Tempo
guess what?
um ano
that's why you're feeling heavy?
Completamente
and now, it will be more soft?
eu espero
you hope
eu espero
me too
somos o mesmo, não?
no
não?
no, at all
por quê?
because you are always living like you were
alguém que eu não sou?
exactly
e você?
i am who you are without know
mesmo?
yes
e quem eu sou sem saber que sou fala inglês?
not only, this is just a game
entre eu e você?
between you and you
lindo
thanks
não é você
i know, it's you
ok, você sou eu
since when?
desde quando você
you
eu
yes
desde quando eu decidi ultrapassar
everything
lindo
yes, it is
e agora?
what now?
para onde vamos?
I really think you should go to the shopping
sério?
Really
por quê?
You know, just make a repair in your visual
tá me achando feio?
are you?
sim
so...
ok.
eat something. too.
ok.
ok?
ok
ok then.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Divã

Sabes que sim. Dificultaste o próprio martírio.
É verdade. Você sequer se permitiu o abraço materno
cuja validade - você quem determinou - venceu faz anos.
Você se mirou no espelho, repetidas vezes
sem ou com cabelo
chorando ou mesmo seco
E ainda assim, fostes ainda mais longe
Mais longe de qualquer ajuda.
Inventou para si uma dor maior que aquela
que já tinhas. Na sua solidão, certa vez,
você se flagrou confuso
Foi ali que tudo havia já se perdido
pois você não percebeu que a dor que te doía
Era invenção sua. Também.

***

Poderias ter buscado a ajuda divina.
Poderias ter ido mais com os amigos
do que com o cigarro ou com as bebidas.
Poderias ter ligado
- estava escrito o nome e o telefone -
e agendado uma primeira consulta.
Mas não. Achou você ser nobre
doer sem ninguém que o remendasse.

***

Hoje, nem sei dizer o porquê
Hoje você respira, entre tosse,
e parece se achar mais sadio
Você - mais saudável - só porque isso:
percebes agora que a maior parte desse horror
foi coisa sua, inventada, como se precisar de afago
de remédio
fosse história de crianças gordas mimadas.

***

O que fica ainda dói, mas é claro
Você se machucou tão profundo
que a todo instante seu corpo soluça
A cada passo, sua cabeça lhe dá uma volta
e de novo, e mais uma vez, você se perde
daqueles dias em que os seus pés
andavam pelas ruas escrevendo
versos quando não longas prosas.

***

Não penses que a doença por ti alimentada
e em doença transformada
Não penses que ela acabou.
Você abriu em si uma cronicidade
que não vai acabar por agora
nem sobre o leito ela acabará
já não mais divãs
nada, exceto a constância interna
em ti, do eterno mau estar.

***

Se me condeno? Não. Não é isso.
É só que preciso reconhecer
que a dor de um homem que ama
pode virar seu maior e mais difícil embargo.
Vivi a vida como se tivesse em dívida
Me fiz desconfiar de cada sorriso
de cada vento, eu duvidei
e agora assim, ao menos por mais um ano
eu sinto, eu sei
Assim eu viverei.

***

Pequeno blog do desassossego.
Lembre: foi no último ano que você aprendeu
a escrever esta palavra: desassossego
sem precisar do corretor automático.
Aprendestes sozinho a conjugar verbos em segunda pessoa
por insistência em se referenciar como se a sua dor
fosse a mais digna de cuidado.
Caíste na própria armadilha
e o sol passou e a praia foi engolida
pelo seu esquecimento.

***

O que te resta? Se eu te sugerir um divã
você por certo ainda vai rir
como de outros, antes de ti, você riu
Sempre riu. Mas é certo: habilidade você não tem mais
não teve, nem terá por agora
Sua dor virou seu amor
e seu amor está todo doendo
sem saber se há limite vindouro
a cessar tamanha auto-tortura.

***

Se eu pudesse te dar um conselho
um único, este seria: desentronizar.
Sabe? Tirar do trono. Se tirar do centro,
se deixar passar. Tire a sua dor do alto
e a permita se respirar. Assim, eu acredito
talvez, não tem como precisar, assim, talvez
Você verá passar um verão, um outono, inverno,
primaveras virão e então você verá
que toda dor é do mundo e nunca só sua.

***

Então um dia você deitará em qualquer canto
em qualquer abraço, num chão qualquer
dentro do táxi ou do ônibus
E então você sentirá:
só se apaixona pela dor quem não sabe onde depositar seu amor.
E então rapidamente você verá:
lá fora, no mundo que você tanto ignora,
tem gente aos punhados querendo desovar o tanto
que pulsa sob o nome do amor.
E você irá, Diogo?
Você não foi?
Ainda não?

***

Desconforto

É não poder se mover.
É ver o céu caindo
e a sua paz durando mais
que a da sua época.

Na escuridão você planeja
rente ao desejo
tudo aquilo que em hora certeira
vai aportar.

Seria estranho, no entanto,
se na surdez da sua voz
você não pudesse mais ouvir
a dor que tanto queres tematizar.

As festas sempre virão
vieram antes e amanhã também
mas se pulsa o seu peito
à desarmonia destes dias

O que você fará?
Compras?
Irás viajar?
Que dor de mundo é essa

Na qual não você não se permite encontrar?

Está dito.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Resgatar alguma coisa [ou] esboços para outro Mundo

Primeiro é preciso reconhecer: esse jogo de se transpor em palavras e de publica-las é algo especial demais da conta. Pelo simples gesto de postar, eu me vejo transposto num fundo branco e tudo então é revelação. Revelação do que sou, do que não consegui ser, revelação - sobretudo - do que ainda posso, desde que me organize para fazer acontecer. Eis a poesia nesse instante. Uma autoajuda preciosa. Necessária.

Mas - e mais uma vez, há sempre um ou dois "mas" - não é só isso. Pelas palavras eu vejo e toco também o mundo. O fora de mim, o que estranho, ainda, eu reescrevo o mundo e o reinvento. Distancio-me demais. Viajo demais. Amenizo as quinas e invento coisas que nem existiam. Tudo certo. A poesia é também isso. Esforço rumo ao impossível. Não se trata de me culpar por nada, nem de desfazer a minha autoajuda aqui encontrada para então apenas falar das ruas.

É tudo junto ao mesmo tempo. Por exemplo: comecei a escrever estas palavras - mais uma vez - sem predizer o caminho, sem antecipar nada, sem esperar nada de mim mesmo. Eu queria apenas era me encontrar comigo mesmo. Por isso, os meus filhos. Que já faz tempo não chamo para conversar. Quando inventei isso de ler árvores e escrever filhos talvez eu quisesse dizer: ler o mundo e fazer nascer poesia. Ainda é assim, mas nunca é o mesmo.

Meus filhos se acumulam a cada ano. Uns, dentre os tantos, já devem ter morrido, mas todos ainda estão aqui e entre eles, naturalmente, os filhos que não vieram, mas que se esboçam tímidos entre uma publicação e outra. Noutro dia eu pensei (acho que foi ontem): não estaria eu gastando o mundo? Não estaria eu me gastando demais? Não estaria eu amarrado a esse blog e a esse negócio de escrever poesia? É isso mesmo o que escrevo? Se chama poesia?


Faz quatro parágrafos escrevo cada um deles usando a mesma quantidade de linhas. É tanta coisa gasta, tanto esforço que eu me pergunto: será tudo em vão? Importa que não seja? O que foi que aconteceu comigo que me põe tão certo frente a cada coisa? Onde foi que eu aprendi essa dureza? Foi no meu pai? Na minha mãe? Quem me deu essa certeza de morte sobre todas as coisas? As palavras, como se vê, desorientam o caminho nesse jogo de se buscar. E poesia vira tortura sem nem mesmo eu perceber.

Uso mais linhas para um parágrafo que parece dizer coisa alguma. Então eu pergunto: precisava dizer algo? Vejam: eu sempre pergunto aquilo que alimenta o fardo de ter que prestar. Eu me acostumei a poder tudo, a fazer o que eu quisesse. Eu desaprendi a força da intenção. O aleatório me assaltou e eu fui, confiante no acaso. Nada importa só o que já foi. Eu não tenho tempo para remendar, acho sempre mais prudente fazer novo movimento. Eu não cesso, até o dia em que finalmente eu me cessar.

Sabe? Já são 28 anos completos de vida. Já vivi um bocado de coisas e sei que muitas outras anseiam por me encontrar. Eu também as quero. Quero muito o que desconheço. Nunca quis tanto sair daqui e conhecer outro canto do mundo. Quero pensar com calma essa pequena viagem. Esse sumir daqui para ir me encontrar no outro que hoje ainda desconheço. Viajar é se conhecer. (A não ser que você viaje apenas para comprar). Tem que haver potência no contemplar apenas. Apenas isso.

Contemplo os anos que por mim passaram e que junto a eles me levaram. Era 2012 quando eu saí de mim. Viajei tanto com meu trabalho. Fui apresentando uma peça de teatro por vários estados do Brasil que nunca havia conhecido. E vi gente e gentes me viram. E beijei nas bocas e fiz amigos. E deitei em camas, tomei cafés distintos, eu nunca - desde sempre - amei o turismo. Mas há turismo que me interessa: o dos afetos.

Deu 2013 e minha sina recém descoberta continuou sem freio. E fui conhecer outros lugares e num deles eu me apaixonei. Era talvez o primeiro amor. Foi. E deu 2014 para 2015 ele se foi e então o amor passou. O amor virou outra coisa e esse negócio de definição do que é e do que não foi é um desperdício de energia. Hoje me vejo em mim reunido. Vejo-me nos meus amigos, meu porto mais firme. Eu me vejo hoje na família que por tantos e tantos anos eu me fiz esconder. Eu estou mudado.

Crescer não é a mesma coisa que simplesmente viver. Crescer exige reflexão. Exige olhar para o antes e para os depois que ainda nem sequer chegaram. Exige parar um instante e postar num blog um esboço de um seu retrato para então perceber que a vida foi seguindo e que talvez você ainda esteja parado no ponto em que te fizeram um buraco no peito que você já não anda bem como não dá vírgula ou ponto final. Eu mudei tanto e ninguém saberia disso em primeiro lugar que não fosse este blog. Aprendi a me revelar aqui. Por vezes, desprovido de total sinceridade, apesar de tanta dor e beleza. Por vezes, neste blog, antes mesmo que eu compreendesse algo sobre mim, aqui já se escrevia minha vida. Que belo é o poeta quando refém de sua poesia.

Olhar para trás às vezes é o melhor caminho. É preciso porque só assim você redescobre que nunca foi feito de uma coisa só. Sempre tiveram tantas e tantas coisas, tantos acontecimentos, que estar preso a um trauma só é redundante e diminuidor do tormento. Há que se olhar o bastante de tudo já vivido para então perceber: que nada permaneceu na mesma constância que hoje a sua cabeça te faz viver. Tudo passou, passou o tempo, morreu aquela gente toda, nasceram outras crianças, outros parentes, dores imensas se fizeram plantar e germinaram, então não me venha com esse papo da não mudança, não me venha com essa história ruim da inércia, do tempo que não passa, porque tudo passou. E, às vezes, só mesmo a poesia para te dizer. Só mesmo a poesia para te tirar para dançar e então, enfim, fazer com que compreendas que a vida é isso mesmo, cara. A vida é isso mesmo: definição que nunca virá nem nunca vingará, mesmo que venha aos pedaços.


Hoje sinto que poderia escrever mais tantas e tantas linhas. Mas há um sorriso aqui dentro de mim que me permite ir dormir sem tanta energia a me saltar pele à fora. Poxa, quanta coisa, cara. Quanta - já - história. É bom isso do tempo, não? Percebo estar falando comigo mesmo. E não será sempre assim? Mesmo quando ela estiver me olhando, ela, uma amiga, mesmo quando estiver me olhando e estivermos papeando, mesmo assim, perceba: eu sempre estarei comigo tramando confidências de um mundo em pleno vapor.

Queria dizer sobre essa música que escuto no fone de ouvido. Às vezes meu corpo vira abrigo para o amor que ainda não veio. Às vezes todo o meu corpo quer morrer por tanto querer abraçar alguém que sequer talvez tenha nascido. Eu preciso disso. E não estou sofrendo alguma solidão, eu preciso como quem respira. Como quem estica a voz e o corpo para anunciar à humanidade que está aqui, precisando porque precisa. E essa música tem gosto doce, essa música sequer me enche os olhos de lágrimas, ela apenas me acaricia, como quem poderia morar comigo dentro de mim por semanas a fio, sem pretensão de existir no mundo.

Tem essa expressão: às vezes. Porque a vida é mesmo cheia de interrupções e inconstâncias. Será essa uma carta aos meus filhos? Será uma carta aos filhos que não me vieram e que, no entanto, aqui estão? Não foi essa a ideia lá no início, mas pode ser se eu estiver achando que é. Esse é o primeiro ano que começa que eu não tenho vontade de rebobinar e escrever algo sobre o já passado. Talvez porque tudo já esteja aqui escrito. O percurso, o amadurecer, o morrer e sempre renascer sempre esteve junto a mim, caminhando, lado a lado, ou mesmo adiante, lá onde eu ainda não consigo enxergar.

Se alguma dor pudesse dizer este presente instante, ela se chamaria Sinceridade. Não sei se gosto. Talvez Honestidade. Tem essa coisa da letra maiúscula, mas a verdade - aquela que escolhemos ser verdade - só mesmo quem diz é que sabe. Talvez este texto - é um poema? - me sirva por muitos e muitos meses. E lá na frente, eu perceberei o mundo aqui transcrito. Eu já havia reconhecido isso, mas é verdade; eu fiquei triste muito cedo e minha ação no mundo virou revelação das desgraças que me apavoram e moldam o corpo. Essa coisa de felicidade, essas exigências que pesam no início de cada novo ano, não, elas não me interessam.

Cá estou eu, fumando cigarros e bebendo cervejas,  os olhos pedindo cama e o corpo pedindo um beijo que me espera ali nos quilômetros à frente. O sentido vai sumindo e tudo se torna então sensação. Pura. A música me acompanha e eu sempre pensando em desenhar. Faz uns dias eu comecei a desenhar esboços para um novo mundo. Um desejo pomposo, talvez, mas honesto. Havia comprado um pequeno caderno preto e também umas canetas pretas. E parei nos últimos dias, em distintos momentos, para fazer os desenhos que acompanham esta postagem. Que novo mundo é esse, Diogo?

É engraçado. Para os outros eu me nomeio Liberano. Para mim mesmo, quando comigo converso, ou me chamo de Diogo ou me chamo de amigo, simplesmente. E quando assim converso muito comigo eu sempre me rendo e pergunto: e o mundo, Diogo? (Como se a dor de um homem só já não fosse de todo um mundo, eu sempre me pergunto aquilo que vai me doer nas próximas linhas).

O que temos para hoje não é ainda o que tivemos para ontem? O que acontece? Devo acender outro cigarro (não para amenizar a rima que não veio nem virá), devo acender outro cigarro (para intensificar aquilo cuja dor me ultrapassa)?

A mentira do mundo já nem me machuca. Não quer dizer que tenha me tornado indiferente. Não mesmo. Mas nessa conversa esses nomes e categorias jamais serviriam. Num mundo amoral como o nosso é importante conversar como uma criança conversaria: mais interessada no acontecimento do que na sua serventia. Sei lá, sabia. Quase tudo muito horrendo. Enquanto a dor não me arrombar o peito e o estômago, talvez, tudo ainda pareça mais mentira do que acontecimento. Mas está horrível, não está? Este mundo está tremendo a mentira que fez brotar e que o engoliu. Sinto-me burro para falar sobre qualquer coisa e sinto - eu sei - que querer me calar é tudo o que o mundo hoje quer me ensinar. E eu não acredito. Não vou. Não cedo. Quer aquilo que diga corresponda aos ditames da contemporânea filosofia, ou não, não me importa. Tudo vai do que sinto. E se choro agora, ninguém saberá exceto eu. Mas amanhã, talvez, eu já terei me esquecido.

Eu gostaria de invadir alguns lugares. Gostaria de, dormente, dormir ao lado de quem me abate. Queria conhecer os ditadores todos. Tomar café com eles, sem ser visto. Queria ver os políticos todos, queria ser o papel higiênico que os limpa, queria ser o sorriso sincero que, porventura, neles nasceria. Queria ser a brisa e sair de mim. Para o fora eu queria ir. Lá onde tudo me desconhece e a minha ira do mundo virasse lenço umedecido. Por um dia que fosse eu não queria estar nascido, queria ser coisa outra, queria ser um segundo que durasse uma hora, um dia, um ano que fosse eu queria estar junto ao poder dos homens que dizem poder.

Ainda que em poesia - e nela eu acredito - eu queria acreditar que aqueles que hoje doem por razões de Estado, eu queria acreditar que estou ao seu lado. No chão das ruas, na escuridão das cidades, nas esquinas todas, eu hoje queria ser a intimidade. Mas, sobretudo, queria mais. Queria estar nos palácios, para fazer escorregar da mesa real um nobre talher. Queria ver o rei pedindo ao escravo - nem sequer pedindo - aquilo que ele inventou merecer: serventia. Desejo estranho, mas eu queria. Eu queria ver de perto o horror que meus olhos já estão cansados de acreditar. Eu aqui trancado em poesia imaginando se é possível que o homem teime em destruir outro homem apenas para se subir, se aumentar.


Apenas? Não é pouco. O homem matando o homem para não ter que lidar com a sua fome doentia. O homem, que projeto, não? Que projeto mal resolvido. Que loucura essa a humanidade. O que nos sobra? Sobra o Deus que há muito matamos e que virou a religião do dinheiro? Onde podemos aportar? Nas férias com os amigos no estado outro que não o meu? No sorriso, podemos, dormir no sorriso dos que já não tem sequer dente para sorrir? É preciso dente para sorrir? Como então começar outro novo ano que já começou sem nem te pedir licença?

Faltam esboços para outro novo mundo que ilustrem essa minha impaciência. Mas seguir é só o que restou e vou no prazer profundo certo de que escrever é forjar, ainda que em imagens - e elas existem - escrever é forjar mundo. É tudo mesmo muito confuso e cheirando a qualquer coisa. Mas existe. A dor existe, a guerra, a fome, tudo existe, quer tenha sido inventado ou não, as coisas ruins e pavorosas tomam a água que você bebe a cada manhã. Que eu bebo (e olha: eu tenho bebido mais cerveja industrializada do que água industrializada). Onde está a água?

A lama. Há lama. A poesia perde as pernas ante a perversão deste mundo. O que era uma conversa comigo mesmo virou um quiproquó sem rumo. Mas eu ainda estou aqui. Tramando bem pequeno outra coisa que não a mesma, eu vou seguir meu ano amenizando a guerra, destruindo o fascismo, eu vou seguir tentando porque a despeito de conseguir, é tentando que se abre outro mundo. Voltarei a mim mesmo, mais uma vez, para conseguir ir dormir.

Em poesia eu me afago e destruo. Mas sou eu quem faz isso, não o mundo. (Ainda que isso seja um pouco inverdade). Fico pensando no que está ao redor: no quarto ao lado (minha mãe e meu pai dormem). No quintal o cachorro também deve dormir. Tem a fruta que morre. O céu que acorda. Tem o tempo que ninguém pega e dentro de alguma casa vizinha outro alguém que não conheço deve agora, nesse exato instante, coçar a sua perna ou a sua barba. Vês? Que mundo é possível quando nem mesmo o ao lado é possível saber? Mundo é máquina que não cessa e saber é projeto moderno ultrapassado. É demanda por controle que escapole de imediato. O que quero dizer? Já perdi, mas segui dizendo. Essas palavras não acabam e o mundo segue em destruição, mas, vejam:

A quem possa interessar esta crise na qual nos enfiaram?
A quem pode servir a tristeza em nós plantada?
Quem vai se usar da dor em nós grafada?

Se sabemos a quem interessa toda essa miséria, então o sorriso nasce feito revolução. Há os que dizem não, há os que pregam o nunca, os infelizes que acreditam no sempre, há de tudo nesse mundo. Mas há também aquelas e aqueles que dizem sim. Simples assim, dizem sim. Tenaz confiança. Desmedida fé. Tudo está certo. Porque a força é afirmar sem medo de morrer. A força é saber que é cada um que faz o todo e não o cada um fazendo a si próprio. Se o meu medo germina em potência para o fora, então, eu percebo que o mundo é menos sobre o mim. O mundo eu faço parte, mas o mundo segue me reintegrando a tudo que vier, mesmo depois de mim.

No final do texto, reencontro o medo. O medo que é a certeza de que nada disso é sobre mim apenas. O medo que é a certeza de que eu estou aqui apenas para passar e nisso transformar paisagens. Paisagens que uns destroem e que outros, frente a elas, simplesmente reagem. Sim.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Rebobino-me e descubro que...

A felicidade para mim sempre pareceu jogo deslocado. Exigência dominical para apaziguar incompreensões de um fim de semana e para trazer paz capaz de acelerar a esteira produtiva de um mundo mentira.

Constância

Houve um dia em que veio o sol
e o asfalta queimou
e as formigas transeuntes
entenderam a necessidade
de colocar chinelos
para atravessar o forno
a céu aberto.

Tudo assim, muito claro
dia claro, não houve dúvida
apesar de uma ou outra
outras mil
terem morrido
até entenderem
que só com chinelo nas patas
se podia atravessar o negro deserto.

Então veio a lua
e esfriou a pedra
e outras mais morreram, as formigas
porque com chinelo nos pés
não havia como correr depressa
e era noite ainda
e os carros com faróis apagados
as pisoteavam
as pisoteavam.

Foi tudo assim
elas entenderam
que de manhã era cruzar pista calçadas
e à noite
depressa e caladas
pés no gelo preto e frio
do asfalto já quase amanhecendo.

O corpo se acostuma
a cada coisa.
E morre, o corpo morre
toda vez
que é preciso se desacostumar
com o que quer que seja.

Formigas morridas
sol e lua, noite e dia
Eu ainda me sinto meio com os pés no chão
meio descalço
Cruzando pistas quentes e medos vagos
desaprendendo a andar
desaprendendo o amor
para novamente
num súbito
Ter que aprender tudo de novo
porém noutro lugar.

Faz bem mirar as formigas
quando a vista desaprende
a olhar.

Restou tudo acostumado?
Mire as formigas.
Elas prescreverão
os próximos passos.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A vida é mesmo isso

Num dia você acorda
E, sem perceber, a primeira coisa que você faz
É reclamar de alguma coisa.
Ao invés de dar um bom dia
Ao invés de sorrir e se espreguiçar
Ao invés de se erguer para mais um dia de batalha
Aquilo que você faz ainda é só reclamar.
Você caminha em direção à rotina
Achando ser culpa do mundo toda essa insatisfação que você sente.

Mas eis que um dia você acorda
E percebe também que o tempo está passando
E que a vida – talvez – seja isso mesmo:

Jogo nunca ganho.

Você percebe que reclamar das coisas todas
Te tira a força e o brilho necessários
Para modificar tudo o que você quer mudar nesse mundo.

Você percebe que quanto mais tempo brigando com o mundo
Menos tempo você terá para escutar o que ele quer lhe dizer
Menos tempo você terá para cuidar e conversar
Para ousar, descobrir, conhecer.

Eis que um dia você acorda
E alguém, ao seu lado, te acena um sorriso.
Na sala ao lado, outro alguém te estende a mão
Na sua frente, ao seu redor
Você começa a perceber a quantidade imensa
De pessoas capazes de te ouvir e multiplicar.

Então será nesse dia que você também perceberá
Que a vida é mesmo isso:

Puro jogo que desconhece chegada
Porque o mais lindo da vida é o caminho
O mais lindo são as tentativas, as quedas, os saltos
O mais lindo da vida é que um dia você descobre
Não estar sozinho
E que, por isso, agora você é capaz

De ir além do que disseram ser impossível.

O que se passa é aqui dentro, por isso está nublado, por isso ninguém está vendo

Quis cortar a pele e verter minha energia vital. Quis me abrir em meio às pedras. Quis pular na agenda o carnaval e ficar todo recluso. Quis tanto que por isso mesmo eu continuo. Por um poema que fosse quis não pular linhas. Quis fumar um cigarro entre os velhos já morrendo. Quis dançar sozinho. Quis atravessar o medo e dar as mãos ao risco. E fui. E fiz. Algo precisava ser agido. Eu agi. Eu fui. Eu estou aqui com cinzas nas mãos. E sem medo. E sorrindo.

Nada a ser justificado. Os gestos se inscrevem por mim como respiro, algo que não se nota mas que anuncia o futuro que já chega. A morte dorme colada, mais uma vez, mas faz do peito armadura dura. Dura indumentária de um super herói embriagado. Fui tudo isso. Senti tudo. Falta, horror, dor eu senti, eu senti dor, eu verguei ao chão e tudo então continuou. Apaguei as luzes, dormir com vela acesa me deixa nervoso.

Mas o que se passa aqui dentro é coisa que precisa de tempo. Não adianta a fome, nem sequer explicação. Tudo me compõe e o que me machuca eu deixo desligar. Eu perco o seu contato, eu não vou responder o que agora eu não quiser falar. Se se trata de ignorar o mundo? Não. De forma alguma. Ignoro os afetos que desmancham a minha aura e me tombam a confiança noutra coisa que não apenas o isto.

O que se passa é aqui dentro, por isso está nublado, por isso ninguém está vendo, mas uma coisa eu sei, uma coisa eu sinto: tudo se passa, inclusive e - sobretudo - cá comigo.

iNSÔNIA

Quis escrever porque me houve lucidez.

Quis me erguer para não ouvir nada mais
exceto o que dizia meu corpo.

Quis abrir a janela e fumar um cigarro.

Quis estar nu ao seu lado, como há um mês.

Quis tudo, tanto, em quase desespero.

Trepidei sozinho sobre o piso do quarto passageiro.

Sonhei acordado, revi anotações, refiz planos
e voltei à cama completo e molhado.

Pelo menos eu tentei
e então meus olhos se fecharam
e então eu adormeci outra vez.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Dormir sobre o braço direito

Impede o movimento consciente
e me abre inteiro ao tremor concentrado
Gosto muito disso
de dormir sobre o direito braço
Suor que não cessa
desejo que não para
Dormir sobre o braço
me alimenta
e me acalma.