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terça-feira, 30 de setembro de 2008

Pequenas veleidades numa tarde de sol

Estava suado, completamente, encharcado de seu próprio eu, cansado de sua própria carne e cheiro. Estava torto, seu andar não compreendia as linhas das calçadas. Apenas, entre elas, alternava. Ora muito próximo das entradas dos edifícios, ora muito colado aos carros que corriam velozes pelo asfalto silenciosamente preto e em negrito. Estava vencido, vencera a si mesmo. Conseguira, finalmente!, sobrepor-se a sua própria carcaça. A vitória custou-lhe a dignidade. Suado e sujo, mas feliz. Incompreensivelmente feliz.

Olhou-se no espelho, no tempo de esperar o calor tocar a fria água que pingava do chuveiro. Esperou, olhando os próprios olhos. Um pequeno jogo fora de hora. Gostava de se propor esses desafios, ridículos, mas sempre intrigantes. Como se olhar, rumo aos olhos do espelho. E assim, tentar descobrir, desbravar, aquilo que ele mesmo escondia de si. Mirou-se, já pensando ter visto algo que não gostava. Mas era ele e por isso, achou-se triste, por um instante. Infeliz. Não conseguiu sorrir, em seguida. Costumava sorrir para amenizar a vida. Mas que vida havia enfim para amenizar? A garganta apertou e percebeu-se ridículo demais. Talvez fosse essa a maior conclusão dos últimos tempos, da sua vida. Ser ridículo.

Para sentir-se leve e disposto, ousou partir de casa, no início de uma tarde, sem passar o cinto pela calça jeans carregada de suor antigo e perfurada pela preguiça de uma costura. Achou-se leve, visto que jeans e malha branca era o que havia de mais volátil e santo. Por isso andou também mais leve. Se alguém o olhasse com um mínimo de atenção, veria ser ele capaz de não tocar nenhum dos pés no chão quando trotava as pernas. Estava mutante, disposto ao novo. Combatente direto do próprio semblante, amarelo, verde, vulgarmente vivo. Forçosamente sério. Naquele início de tarde, não havia fezes de cachorro que pisoteada no chão da cidade desvirtuasse seu rumo. Estava decidido, apesar de ter a calça caindo-lhe periodicamente da cintura rumo ao desejo.

Sempre teve o dom de se ferir. Nunca precisou se expor para sangrar. A dor nunca lhe veio de surpresa ou por encomenda. Vinha-lhe em todo maldito despertar, como o café de um dia que amanhece sem sal. Por isso desviou-se de suas retinas. Comprimiu-as, encharcadas, e recostou o crânio recheado pelos cabelos oleosos na porta do box. O tempo esquentara a água, finalmente. Entretanto, teve nojo. Lavar-se seria doloroso demais. Teve medo, profundo. Temeu encontrar em si mesmo aquilo que não saberia devolver ao dono, resquícios daquele que não saberia quem era. Pedaços pós-desejo que já não significariam nada exceto a indefinição das próprias coisas. A cabeça se acariciava sozinha, empurrando-se contra o acrílico que separava a sujeira de sua fugida, do pranto de sua própria vida. Cruzou a porta e o filete de água quente pareceu cortar-lhe a perna direita.

Passou despercebido em meio à fumaça dos carros e cigarros. Sentiria muita dor de cabeça caso não estivesse focado no consumo dos desejos há tanto reprimidos. Faltava voar para desenhar no ar sua tamanha felicidade, ou talvez, menos utópico, faltaria voar para que atingisse a todos os lados e assim poder se gozar no comprimento de suas veleidades. O sol ainda persistia. E talvez por isso tenha o enfraquecido. Havia brilho demais naquele ar. Seria impossível voar em meio a tanta luz, pois ela o deformava, sobrepunha o falso brilho dos olhos e cegava o ser que andava crente no caminho desenhado pelo calor do corpo. O sol persistente ativou as sebáceas e as promoveu para um cargo mais producente. A pele avançou a película da forma maquiada, o sebo proliferou-se através dos poros e logo, o gesto, semblante, a cara, estava oleosa, deputada. Brilhava ainda mais tamanho o óleo que a sustentava. Sentiu-se perdido, numa calçada qualquer, e enveredou para outra estrada. A dos becos escuros, a dos locais onde não se vê muito as caras, nada que permita identificar o dono da genitália.


Banhar-se sentado o fazia sentir-se velho. Não suportava o horizonte do próprio corpo. Preferia juntar toda a pele e sentado no piso frio-quente masturbar-se, silencioso. Questionava o porquê desse ato tão repetitivo que já o fizera se perder, na contagem de vezes, nos litros perdidos, nos filhos desperdiçados, nos desejos prorrogados, nos amigos prostituídos. Tinha consciência do seu fazer, mas sabia que ela esmaecia tão rapidamente quanto antes começasse a ir e volver, indo e voltando, subindo e descendo, puxando e socando. No ritmo das forças que lhe restara, filosofava sobre os pudores da vida cotidiana, enquanto se erguia nele o dedo corruptor dos sentidos.

No beco a atmosfera não é ar, mas sim libido. O reprimido encontra a chave, endurecem-se mamilos. O silêncio não é medo, o espreitar não é crime. Tudo antecede o momento de consumir-se junto ao inimigo. Junto aos corpos, aos colegas de limbo. Não se perdeu em seleções. Avançou primeiro nas bandas que acreditou tocarem para ele. E mesmo não tendo sido exatamente assim, as bandas têm sempre um repertório a mais do que aquele rotulado dentro de uma capa temática. E é justamente quando a capa jeans rompe-se às pressas, que os ritmos se misturam. E é no silêncio do beco escuro que os corpos se misturam. E perdeu-se assim tão rápido e de maneira tão animalesca, que não percebeu que a portinha de seu segredo, era gêmea de outras rachaduras que se mostravam ainda propensas. De mão em mão, adquiriu a grossura do tecido de seda que um dia separou dois amantes. Era todo brusco, esfoliado. O corpo não mais lhe soava contraditório. Ao voltar para o sol da lua, pois o tempo no beco se perdeu nu no desejo, não só o óleo do rosto reluziu sua condição. Era suor do corpo que marcava cada passo que dava rumo ao que viesse acontecer.

O que se conclui vai-se em segundos. Perde-se o tempo quem busca o registro. Fica o momento para quem sente o consumido. Para quem degusta aquilo que vem e parte, lavado num gemido. Perdido entre as bolhas do sabão, inodoro entre os resquícios dos produtos químicos, a pele continuou dura e manchada. Era agora corpo dos becos, da beira de estrada. Corpo que se se apertando com força, estoura-se feito gema de ovo. E não há sentido em se contar o sentido. Compartilha-se, reproduz-se, se testa novamente, todos os dias, para que se tenha, cada vez mais, mais controle. Para que se treine a mira, o engatilhar, o tiro, o despedaçar. Nessas pequenas vontades que surgem na ociosidade de um dia ensolarado, o beco é um lugar sagrado. O peito é outro. O beiço, o leito, o leite... São com as pequenas vontades de um fim de tarde que somos mais impuros e lúcidos. Mais transparentes.

...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Aqui está tudo assim explícito

Tenho os olhos fechados
Eu não tenho medo
tenho a sala vazia
a chuva lá fora
o barulho que me apavora
está aqui dentro.

Com calma eu avanço
etapa por etapa
andando no centro da sala
eu toco o ar
para encontrar uma parede
fria
mas sólida
durável no passar das horas.

Toca um piano para mim?

Dizendo assim que sim
eu entro nessa nova composição
e juntos
apenas juntos
somos mais música do que canção
somos mais alguma coisa que só contramão.

Toca um piano para mim?
Eu pergunto e você diz que não.

Meu corpo não é de brinquedo.
Não se conserta qualquer estrago.
Meu corpo não é qualquer desejo
não é escopo
imaginário.

Está chovendo lá fora
O piano aqui dentro
são teclas caindo
gotas tocando

O que é isso que sai dos olhos
que não é só pranto?

Uma parada, por favor
Um momento de respiro
de não-pressa
de não-cotidiano

de mimo
memória

Toca um piano para mim?

Você agora diz que sim
as teclas perpassam
furam tudo o que há
estão elas dentro de mim?

Toca, sim
Venha pelos dedos
venha pela combinação
de lá para cá
imprima na pele o seu toque
o seu musicar

Arranhe um pouco o olhar
para fechar a vista
e escurecer

No escuro eu quase sempre reconheço você.

Continue a tocar
Ninguém aqui nos vê
O excesso dessas palavras afasta a todos
ninguém quer ler
ninguém quer saber
nada
que não sirva apenas para si

Mas aqui falamos só de nós dois
de nós que nos prendem
de intrigas que nos esquentam
e fazem a música seguir
sem sentido
mas num só tino

Você toca um piano para mim?

Pode ser que sim
pode ser que não
Pode ser o que quiser
Pode ser com a outra mão
Leve
ou impreciso
Falseando um
ou outro
sorriso

Não importa mais
Aqui está tudo assim explícito

Tudo do jeito que eu sempre quis
Não há segredos
porque a verdade é duradoura
e a beleza nela insiste
não é possível fazer outra escolha
que não essa

Não é possível
que esse piano
não nos obedeça.

Toque para mim, por favor

E juntos, eu e este som
seremos mais que um
mais que uma simples canção.
...

sábado, 27 de setembro de 2008

Tesão

Fiz o coração tremer
enganei todos os sentidos
e me fiz compreender.

Não é verdade que é mentira isso de somente amar?

Desejo vontade louca te quero agora na boca
Isso também move um coração.

Fiz ele bater contido nesse sentido
Fiz girar e tremer
engasgar e sem tino
percorrer toda a noite adentro.

E era tesão, coração
Não era amor, não era cinema
Era algema
Xilema e floema

Era suco gástrico
esperma e antiácido

Entende o agora?

Eu explico:

Você é burro, átrio esquerdo
Você, direito, é sem noção
Agora você, ventrículo direito
quer sempre mais tempo do que tenho em mãos
Você, esquerdo do peito
Quer sempre que na vida esteja tocando uma canção.

Ah, quanta burrice
Amargura...

Tesão descontrutivista,
sem nenhuma princípio
exceto o da loucura
existe sim
existe em mim
e basta.
.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Incomprietude

Esticou os pés sob o edredon e eles viram a luz. Atravessaram o véu da noite fingida em plena tarde do dia. Queria dormir. Seus pés, queriam andar. Esticaram-se prolongando um suspiro que o edredon fez favor de esconder. Era suspiro fingido a choro. Era um gemido pedindo um consolo. Que não viria. A tarde fria assim respondeu. Nada dela poderia surgir. Era preciso, ele acertou, dormir.

Dormiu e nisso o mundo sonhou. Viu a mãe escorrendo no chão do banheiro molhado por óleo pingado da panela quente com fritura. Ela deslizou. Ele ali segurando não a conseguiu manter. Caíra a mãe no chão e viu o osso de sua perna extravazar-se, romper. Sonhora outras coisas, nenhuma delas segura. Na calçada, por exemplo, o desespero era para limpar o pé. A amiga ao seu lado apenas dizia, está sujo. E o pior, sujo desse esgoto. Ele com folhas na mão, limpava os pés meio com nojo. Mas no fundo, agora eu sei, se identificava. No sonho, não comprendemos o tempo nem o espaço, mas nada é simplesmente por nada.

Paga-se até mesmo um preço pelo perder.

Sentou-se na cama. Na sala a luz acessa. Sentiu no ar um cheiro perdido. O café vagava sem ele, foi preciso. Encher duas vezes a caneca e nela se entornar. Sentou-se diante dessa cadeira sem encosto. Pensou em coisas soltas, a contragosto. O corpo coçou. O que haveria aqui dentro? Perguntei e percebi, que seria impossível conhecer o mundo se não primeiro me revolvesse.

Choro agora por dentro, primeiro. Para lavar. Não para morrer. Para espremer por sob a pele aquilo que ela não pode compreender. Para tocar no corpo com mãos contaminadas de tudo aquilo que é estranho, pois ainda não provamos. Talvez nem eu. Talvez nem você. Talvez meu corpo tenha querido. Talvez o seu tenha lido um compreender. Mas não sabemos. Algo se move dentro sem parar.

Não seria sangue, apenas?

Temo que sim,
feito garçonete de estréia
temo que assim
possa vir a minha primeira
escorregadela
minha primeira
incompreensão
minha estreiante
inquietude
ganhando o risco
de se tornar
realidade
em meio à praça
em cidade aberta.


.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Xavier

É raro
eu sei
mas às vezes
tudo o que posso fazer
é olhar para o chão
e nele me reconhecer

Feito espelho
de um narciso partido
olho fixo nele impreciso
e vejo que a incongruência
está no rosto
e não no asfalto.

Vejo o esgoto



Agita-me no interior
a profunda confusão

afastei-me dele
foi por medo

ou pela tentação?
.

domingo, 21 de setembro de 2008

Eu tentei desenhar o seu rosto

Mas não me estranha o fato de não saber desenhar

Estranho primeiro

O fato

De seu rosto

Eu não todo lembrar.

Como se através do tempo

Suas linhas tendessem ao pulo

Tentadas a seguir num rio qualquer

Feito o seu sangue fez ao escorrer o céu

E escrever no voar

Que você, enfim

se foi para não voltar.

Não sei se é tristeza

Mas tive que parar um segundo

A minha voz esmaeceu

Os amigos ao redor não entenderam

Porque tanto eu rabiscava um papel

Meio amassado

Meio jogado sobre minha cama

Meio tendo perdido

Num segundo

Toda a esperança.

Eu estou aberto agora

Faça o favor de entrar.

Estou esperando você um dia voltar

Apesar de saber

Eu sei

Que morreu

Morreu o corpo primeiro

E o que havia dentro

Eu aqui escrevo

Feito mistério

Que não se dissolve por inteiro

Eu aqui escrevo feito

Eu sem você

Feito o medo de não morrer

E ter que ainda nessa vida ver muita dor rompendo

E o meu peito chorando cego

Gritando intenso

Os meus amigos se lançando

Sem tempo para um adeus,

Você está tão presente

Que estranho o valor do tempo.

Nada parece ser tão distante

Quando o que há ainda é intenso.

Não

Eu realmente nunca me senti assim antes

Estou ao seu centro

Você é meu redor

Eu não quero me esconder

Pode então você se aproximar.

Tento me lembrar porque tive tanto medo de ser o que sou.

Mas você me ajudou nisso aqui

Ajuda sobre a pele

Que se constrói riscando até o osso

Rompendo o pêlo e a carne

E tudo me parece tão certo agora.

Não parece?

Perece.

Um errado muito certo.

Um rompante desconexo

Mas vital.

É um ciclo assim mesmo. Ciclo para mudar o nome. Para subir no trono e tombar adiante. Sinto saudades. É um pouco disso também. Estar nu ao seu centro. Eu não quero esconder. Veja através de mim.

Kelga.

sábado, 20 de setembro de 2008

Nossa Anomalia

Elas se aproximam pelo contato
Mas o que dizem
o que fazem
é tudo feito pelo soco
pelo chute
pelo escarro.

Aproximam-se, eu diria
Querendo um abraço
Mas não sabem esticar os braços
e depois dobrá-los
Antes disso porém se esmagam
e o receber torna-se faminto
torna o outro peito adversário.

Por não saber amar
talvez por não ter assim sido contemplado
Elas se aproximam e querem todo o romance
mas sequer leram os livros indicados
não viveram na lida
sequer um toque
que não fosse corte ralo
que não fosse
na pele o toque
incendiário.

Por isso se debatem
e o se aproximar gera esse estrago.

Suas roupas rasgadas
seus sorrisos deformados
seus seres dentro de si mesmas
são feito monstros,
pois machucados.

Se pudessem dizer eu te amo
Talvez não se fosse entender
talvez a palavra amor
seja estranha
e faça mesmo doer.

Mas elas insistem. Uma rumo a outra.
Não há outro caminho.

e cada mentira as coloca mais perto
cada imagem que elas podem criar
são todas para alimentar
esse ser que não sou eu
esse que não é você
mas que é como eu penso
que deve você querer me ver

Mas não!
Não.

Eu quero te ver apenas despido
não em despedida.
Quero ver você despida
seja isso com ou sem sua melancolia
Seja isso em cortes ou aos pedaços
eu não me importo com sangue
eu te costuro se necessário,

Mas, por favor, não!
Não venha desenhado!
Não venha vestida de anjo
porque o céu é outro espaço
E eu não sei voar
e eu não vou compreender
se você disser que é verdade
o que usa para se esconder

Não diga!
Não escreva!
Deixe tudo como está sobre a mesa
E vamos nos tocar
Vamos nos cortar

Vamos tentar
sem um ao outro morrer
tentar fazer compreender
o que nos depende
o que nos costura
e nos faz assim um ao outro tão presente
tão próximo distante
belo singelo violino
cruel arbitrário menino
ou menina
não importa o que sua maquiagem possa esconder

Pois o que jaz escondido, independendo se menino ou não se
bonita ou não é
o segredo
o mistério é
o prêmio
o calor todo certo pára
o meu peito

Venha.
Venha ao meio.
Somos partidos assim mesmo.

Venha, por favor.

Minha cara é feia
para assustar o medo.

Venha, inteiro nesse seu jeito
Que a gente inventa um dicionário
que a gente inventa um novo bom-dia

a gente redecora o seu quarto
a gente limpa a cozinha

juntos penduraremos quadros
e pintaremos no fundo da tela do amanhã
a nossa anomalia.
... Me Morreria Se Você Fosse...

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Captura

Foi quando estive ali deitado, no centro da sala e ao seu lado.

Disse antes de ir dormir:

Vou colocar o colchão aqui perto de você.

Você consentiu

Não que fosse alguma coisa

porque em seguida a gente dormiu

mas era bom estar com você
era preciso.

Então a madrugada chegou
estava tão frio naquele julho

e o que aconteceu eu sempre trago de volta ao corpo

Você me acordou com um carinho
com um beijo ou algo assim
meus olhos colando nem tiveram tempo para retribuir
aquilo que era maior que amor
aquilo que era infinito
posto aquilo era preciso.


E deitados ficamos e trocamos o peso dos corpos
eu sobre
sobre você
você sobre
e nisso foi se refazer
todo o pranto coagulado
todo o tempo esperado

Ai, como foi vida aquele dia
aquela semana
a nossa despedida.

Te amo, amigo
Estou com muitas saudades
E isso é a verdade mais aguda
a que me faz viver.
.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Perdizes

Tudo o que eu quis dizer
morreu feito escarro ralo abaixo
morreu feito desejo maltratado
posto de castigo num canto entupido do peito amargurado.

Tudo aquilo que quis te fazer
fiz sem volteios em imagem sem som
fiz sem rodeios em minha imaginação
e talvez por isso aguente seguir
mais um pouco sem te tocar.

Tudo o que queria ou quis
e quero
é tudo verdade
desejo é sincero
mas demora
enrola
embrulha pra viagem
por favor, passe outrora

Para ver se ainda te quero
para ver se o fogo não nego
para ver e ser estar permanecer
isso tudo aqui dentro que

é mentira,
ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh perdoe-me você que aqui lê



PORQUE A MINHA POESIA ESTÁ DROGADA
VICIOU-SE NUMA ESTRADA MEDONHA
INTITULADA AMOR

E EU SEQUER ESTOU AMANDO!
POR QUE HAVERIA ELA DE SEGUIR?
EU SOU CHEIO DE ÓDIO
POR QUE DEVO SEMPRE SORRIR?
EU JÁ NÃO QUERO TANTO IR
E POR QUE ENTÃO A RIMA INSISTE?

QUE HORROR!
MERDA DO CAMINHO!
EU NÃO AGUENTO MAIS ESSE CINISMO
ALGUÉM ME AJUDE!

DÊ-ME UM SOCO DE PRESENTE
FAÇA-ME SER MAIS IMPACIENTE
E NÃO ME DEIXE ASSIM
PERMITIR
QUE CERTAS COISAS PASSEM TRANQUILAS
QUANDO NA VERDADE
ALMEJO O SEU FIM!!!!!

NÃO ME DEIXE MAIS RESPIRAR
SE O AR QUE EU DISSER ESTIVER SORRINDO
SE O TEMPO NESSE ESQUEMA FOR MALEÁVEL
EU NÃO PERMITO!,
QUE MINHAS RIMAS SEJAM VIRGENS DO ABRUPTO
QUE MEU PASSADO NÃO SEJA ESTUPRADO
SOBRE UM MURO
E QUE EM MINHA PELE
NÃO SURJA O CÂNCER DE TODA A POESIA
QUE NÃO FUI SINCERO
O SUFICIENTE
PARA FAZER VIVER

É POR ESSE MOTIVO
QUE UM POETA DEVE MORRER

sábado, 13 de setembro de 2008

II FECAT





Então, quer mais?

II Festival Carioca de Cinema de Curta-Metragem dos Amigos Teatrais

Acho que o nome é esse mesmo!

Enfim,

vai ser amanhã, segunda (115.09), às 20h, no Planetário da Gávea.

Entrada por apenas 2,00 reais!

Não perca!
...

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Que as coisas partam,

Isso eu sei,
Assim deve ser.

Que os amores se quebrem,
Isso eu aprendi
E não consegui reverter.

Que as ondas avancem
E levem todos
Isso eu posso conceber.

Mas com as minhas esperas
O que fazer?

Não tenho a força para terminá-las
Não tenho o punho para cessar
As nossas lágrimas.

Minhas esperas perduram
E não vêem outra estrada

Seguem apenas o longo caminho
Chamado horizonte.

Lá, onde os meus sonhos são gente grande
Onde meus amores me correspondem
E onde as coisas que partiram
Apenas acenam de volta
No paraíso de seu descanso eterno.

domingo, 7 de setembro de 2008

Dessa geração

Eu sou dessa geração
Da geração solidão
De quem não troca ou troca
Um café sozinho
Por uma outra mão

Eu sou dessa solidão
Geração de jovens perdidos
Que se encontram deprimidos
E ainda nisso
Vêem algo bonito
Algo menos terrível
Algo solene
Poético
Preciso.

Sou da geração do hip-hop
Ainda que não saiba o que possa ser
Sou dessa geração que vê tudo muito rápido
acontecer
Tudo surgindo crescendo e morrendo
Tudo que já nasce com data programada
Para amar
E morrer.

Sou da geração do DVD
Amontoados no quarto
Tentando arquivar um mundo
Que se multiplica num só lapso
E que sim, eu resistente
Tento colocar num só HD,

Num pen-drive eu tento colocar você
Caso coubesse
Você
E todas as minhas músicas prediletas.

Mas não
É coisa demais
É muito amor não correspondido
É muita dor de cabeça
E sempre aquela sensação
De que o inacreditável – realmente - acontece.
Pelo menos uma vez por semana
Deverás ser demitido
Desmentido
Uma vez por dia
Ao mínimo
Serás todo despido,

Por isso a geração se tranca
Ou deseja apenas se indispor
Se expor a todo o custo
Faça frio
Ou calor

Ou o meio-termo que é bem nossa cara!
Que é bem nossa cara estar partido
Ao meio inteiro
Ao meio branco e preto
Ao meio amargo mas doce
Leve duro peso passageiro

A geração essa do expor
Acontecendo em qualquer estação
Fabricando suas próprias bolsas
E moldando nelas
O tamanho de nossos filhos
E de suas asas, sim, de suas asas!

Da geração que inventa
A própria roupa
E caminha toda iconoclasta sobre a moda passada
Vendo novo onde tudo velho ainda agoniza enxergamos respiração

E as vitrolas todas giram e seu ruído de dor é technô.

Na faculdade há muita filosofia ainda mais no corredor.

Porque o presente só acontece agora
E disso nós sabemos bem

Por isso tantos cigarros
Tantos comprimidos
Tantas balas e doces
E tentativas de extrapolar o sentido
De fazer a pele ser mais que esconderijo
E virar mansão

Mansão onde possa eu te receber
Independa o sexo
Ou o que isso vier a ser,

O SEXO

Disso nós sabemos bem.

.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Putrefação

É quase um lamento

Chamar pelo seu nome

Que eu não sei.

Quase um momento

Em que eu estou tão perdido

Posto sem você

Jogado no meio desse caminho

Que poetas chamam o viver.

Estafa.

Dá vontade de não continuar.

Não é sofrer de ator, nem de autor

Quiçá de amante

É sofrer inoperante.

Que sofre independente das cores do dia

Que dói sem doer

E não é feito Camões

Porque não queima

Mas sim e somente

Se atormenta.

Um verbo em outra posição

Um pronome diante de um nome que não tem construção

Posto que é sonho.

Deposto do encanto

Eu sou apenas eu

E este é mesmo meu seguir

No caminho muitos jarros se entornam

E quem sabe você não volte a mim.

Mas não há ninguém

Eu escrevo sobre o quê

A gente se pega dizendo sobre um amor

Ou amante

Que sequer precisa existir.

Como se ser poeta fosse algo

Ou, pelo menos, fosse o nome aos sofredores do amor

Eu não sofro

Por amo.

Eu não morro

Se você se for.

Mas no ir e vir desses tormentos

Eu me reescrevo e reinvento

Um novo jeito de ser

Um novo silêncio

Que em meio ao som

Se possa fazer

Pleno.

Putrefato.

Aborígine.

E feito fermento,

Tipo pronto para germinar

Em idéias

Projetos

E amebas.

Treme música, treme, por favor

E me faça feliz por mais esse instante.

Venta vento, constante

E não deixe minhas costas perceberem sua ausência

Faça-as vagar sempre adiante

Sem ter tempo nem pausa para virar

Sem poder sequer imaginar

Que aquilo que resta

É sempre um corpo

Em putrefação.

Somos vermes, então?

Material

No entanto, você não percebeu, que o sentido está nas coisas?

Não, eu realmente não havia percebido.

Tudo gira em torna de coisas, você não percebeu?

Não. Eu não percebi, quer dizer, eu não olhei. Quer dizer, eu olhei, mas não querendo ver isso, entende?

São coisas para tudo o que há, para todo o seu silêncio sempre uma coisa haverá.

Eu tenho dor na cabeça.

Assim como os remédios. Exato. Para cada coisa inventa-se um novo deles.

Um novo o quê?

Dor de cabeça, você disse. Poderia lhe citar inúmeras coisas que o curassem. Mas a questão é: de onde surgiu essa dor? Aliás, a questão talvez seja: não pode deixá-la passar no decorrer das horas?

Não, por favor, está doendo. Quero matá-la ainda agora.

É justo. Justíssimo. Porém, não vê aí o seu desejo da coisa acontecendo?

Que coisa é essa que você tá falando? Eu só pedi um remédio.

E nem pediu. Fui eu a dizer que poderia te dar...

Coisas. São só coisas. Seu dia não é melhor porque você comprou um lápis novo.

Você rouba? Você tem cara que rouba.

Não!

Mas já roubou, não?

Não! Como assim?! Caramba, que papo chato.

Não, não, não, não, não. Não fuja agora! Não fuja de mim. A noite já chegou e já tá passando e tudo o que eu quero é um copo de coca-cola. É poder falar coisas banais com você.

Não se perguntou que talvez eu não estivesse disposto?

Não me perguntei. Se perguntar demais é exagero. Eu vou logo é fazendo. E o que vier, virá vivendo.

Ai, começou.

Pára você de usar verbos com "ar" no final.

Primeira respiração.

Conjugação!

Eu dou o nome que quiser. A coisa é minha, você que vá embora.

E a casa é minha. E já passou da hora.

De quê? Pára com isso, vai sujar o carpete.

É um tapete. E novo. Na verdade é usado. Mas é novo aqui. Não tinha antes.

Tudo bem, novo ou velho tanto faz. Vai sujar o carpete...

TAPETE!

Ok. Você sempre vence, não? Chato!

Espera aqui. Vou buscar coca. Quando voltar, provocarei um desvio no seu septo nasal.

Que coisa louca, gente!

Isso, isso que você disse foi bem natural. Nem parece que você tá incomodado, viu?

Irônico.

Sonolento.

Bruxo.

Rabugento.

Rimas fáceis.

Faz um filho comigo?

O quê?

Então fura o dedo!

Pára com isso!

Um pacto?

Ai, você - definitivamente - é u ó.


Foi buscar a coca. Quando voltou até a sala, se assutou ao ver o outro e deixou o copo no chão cair. No chão sobre o qual o tapete-carpete adormecia. Agora, mijado.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Por favor, não faça assim

Eu posso não aguentar
se ouvir você chorando
e sobretudo saber
que é por mim que assim você está.

Por favor, não se desespere
porque é no seu descabelar
que eu devo ir perceber
que essa dor que você sente
é por mim
não por você.

Por favor, não deixe
não me deixe perceber
que esse rio que de você corre
é de tamanho que sequer
um amor
pode compreender.

Não quero ter a medida do seu amor por mim
Não quero saber de que variadas formas gostaria de se morrer
acaso eu me fosse de ti.

Não é sempre que eu vá.
Mas nem sempre posso estar.
Como você pode compreender que quando não estou
ainda permaneço vivo?
Como pode saber que não estando agora
noutro momentoe starei para você?

Não me conte
Não me mostre
Eu prefiro morrer quieto e sozinho
Do que ter que junto a mim enterrar outros peitos de mim partidos

Não, não faça desse jeito
porque fica preso aqui na minha cabeça
feito grito assassinado!
assim feito trovejo
fica isso aqui bem costurado
que é o seu desesperar
que sua voz em meio ao pranto
tentando se fazer legível
tenta deter

Não faz isso comigo, meu filho!
Não faz isso comigo,
por favor!
mãe, um dia que um de nós morrer nem sei como vai ser...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Virgindade

E mesmo que seja o fim
Tenho nele todo um pretexto
Para regar-me inteiro
Até secar o pranto.

Mesmo assim,
Trago em mim tal desejo
De ver rachar-se a base
primeiro
Para sobre ela
depois
Ir me perder
Até confundir
O que era na noite
O meu
eterno
Amanhecer.
.