pesquise no blog

sábado, 31 de dezembro de 2011

Caneta Caderno Café e Chave

Para ir
Riscar
Dobrar e reter
Deitar e beber
Para fazer mistério
E ousadia
Para sentir o frio
Embrulhar o calor
E atravessar
Deixando a porta semi
arrasada.
Bom dia chuvoso
Amanhã será o começo de mais uma vez
De mais uma noitada
De one more jogo.

uma tristeza quase linda

Quem sabe não se movem os astros. Quem sabe caiba a eles mover seu íntimo improfícuo. Uma tristeza assola cada canto e tudo resta incapaz de ser pleno. Hoje. Ontem. Você se pergunta por que com o amanhã não seria também o mesmo? Essa tristeza te impede o discernimento. Tu não sabes ver outra coisa que não o próprio despedaçamento. Que chato tudo isso. A poesia esperando ao seu lado e você chorando o seu dia-a-dia. Queria que você pudesse mirar o céu e se satisfazer. Nem te peço alegria. Peço apenas gratidão.

Sei que os braços doem. Sei que teus olhos querem saltar rumo ao profundo abismo que tua alma inventou. Sua coluna se dobra feito choro enrustido. Sei que as palavras que saem de sua boca são todas duras e sem íntimo. Mais uma vez, tudo o que era seu encontra-se perdido. Pergunto então se o que lhe falta é o amor. É? Se o que falta a você é uma família estruturada. É isso? Será que hoje, mais que nunca, a sua mãe é a falta suprema?

Quer chorar, mas não tem o pranto. Na verdade, você se confunde porque está muito perto de compreender tudo ao seu redor, mas novamente – mais uma vez – se coloca em abandono. Há uma tristeza quase linda, quase poesia, que adormece seus sentidos. E você não faz nada para além disso: ser sono. Você se entristece pela felicidade dos outros. Você queria não ter esse juízo. Porque seus irmãos se divertem, as crianças consomem seus brinquedos e por qual motivo te faz tanto mal esse mesmo enredo?

Há uma simplicidade tão grande que beira a sorte. Uma clareza tão límpida que é capaz de cegar. Com você todas as coisas foram para esse canto, você sente que precisa – mais uma vez – se ausentar. Despertencer. Ninguém aqui lê seus olhos. E, no entanto, quando tu percebes outro olhar ao teu lado, você parece querer afundar: você se ausenta. Você se importa apenas consigo mesmo e com a grande poesia que é saber poetar. Você pensa que sabe. Você já não sente saber. Você é estúpido e apaixonado pela própria dor. O mundo não é isso que você forjou. Talvez alguém precise morrer.

A potencial falta. Morre a costura entre as partes desacordadas. Tem que morrer. A nossa ignorância se atualiza toda vez que há morte. E no seu íntimo – vazado – nessas horas você sabe quem a morte pertence. Mas você silencia. Porque sabe que dói perder alguém. Lhe dói nos cabelos e nos pelos, perder assim, alguém julgado teu. Você está estranho. Teme precisar de um acompanhamento. Não se quer louco. Nem estar doente da loucura. É só que seu amor pelas coisas consumiu um mundo inteiro. Você desmediu os tamanhos. A ponto de querer naufragar como fosse acidente. Morrer sem ter parecido culpa – ou escolha - sua.

Tudo é tão vasto, cara. Você se diz essa palavra e se ganha em ternura. Uma sensação única que te comporta você já sabe, mas sempre se esquece. E, no entanto, agora, ligeiramente apaziguado, você chora. Você chora não por ternura, mas por não querer fazer parte dessa composição. Você chora se perguntando se o mundo o deixaria ficar assim, livre entre letras e lágrimas. Se o mundo o deixaria, para o restante de todos os dias, sobrar. Escorre uma lágrima, enquanto você pensa em seus filhos que ainda não vieram. Que drama o seu, hein, comparsa? Puro e concentrado. Tu sabes querer o bem, mas não basta. Tudo é pouco quando o muito lhe parece quase sempre algo muito equivocado.

Não se deixe passar. Cole. Aglutine. Junte-se o mundo, amigo. Ele quer te arrasar. Mas junte nisso as pessoas, cada uma que por ti passar. Pegue os amigos e não lhes dê nada além do sorriso, do café e do abraço. Sabe-se que há um medo profundo de ser das coisas ausentado. Por isso você dói, em câmera lenta. Não há volta e, mesmo hoje, você ainda tenta. Foi você quem pediu pela aridez e agora chora, porque a doçura lhe escapou do horizonte.

Então fica. Sei que se achas feio. É mentira da mesma forma que se achas incorruptível. Você se pensa modelo e sem se divulgar, em si você se eterniza. Fica um pouco, eu te peço: o que quero de você é o seguinte: duvide-se. Duvide das suas escolhas não escolhidas. Duvide de sua intuição masculina. De sua intenção. Duvide de tudo o que lhe for natural. Até agora você só se bancou. Mas agora, eu peço, saiba pensar dois segundos antes de dar outro e mais um tiro fatal. Fique. Persista. E só parta quando for a hora das folhas já caídas.

Explico-me. Eu peço que se duvide porque até agora o que fizestes foi se acreditar. Foi gritar consigo próprio e a todo e qualquer um que quisesse te amedrontar. Agora eu lhe peço: duvide profundamente. Se encha de problematizações. Seu caminho natural te abriu o mundo e você precisa voltar. Você se perdeu no horror descoberto e agora sofre feito criança ciente do monstro mas incapaz de detê-lo. Eu lhe peço a parte seguinte: desenhe-se. Siga se especulando e se vasculhando para além do espelho. Para além quer dizer fora dentro através e logo ali no centro. Se refaça e refaça seu jogo – hoje tão traiçoeiro – pois a vida aguenta esse movimento insuportavelmente constante e quase nunca assim tão breve e certeiro.

Duvide-se. Desenhe-se. É tudo mais o que sei dizer. O “se” que anexo a cada ação é preciso porque, faz tempo, tu não sabe outra coisa que não se ser. E se durante todo esse tempo você hesitou e problematizou o outro, a partir de agora você o será em toda e qualquer esquina. Você se é sendo a diferença que te arruína. Ponto. Não sofra isso. Duvide e desenhe seu sofrimento. Ele te consome. Ele te manipula. Ele não é seu. Pertence ao mundo.

Você se permitiu ser entendido da forma errada. Ou nem viu. Mas é fato. Ainda que tenha explicado com estas e outras palavras: te entenderam errado. A galera pensa que você quer atenção, que deseja ser maior que os outros. Talvez seja verdade. Mas não é isso, eu sei. Você precisa se segurar caso queira ver no horizonte a transmutação desses fatos. Mude, indo mais fundo quando porventura estiver parado na superfície encantadora das palavras. Perceba que hoje elas estão mais duradouras. Tudo porque hoje elas são. Antes, nem sempre, mas durante um bom tempo, elas serviram a ti apenas artificialmente. Me desculpe,

mas a arte pela arte se foi faz tempo.

Por favor, eu havia pedido, se duvide um pouco. Não há mais graça nesse jogo. Não há nada para além dessa auto-indulgência sua destinada a si mesmo. Perdão. Nem pode haver algo mais. As palavras hoje estão aqui, mais duradouras que antes, porque falam de ti e não do seu verso. Aqui restam, intrépidas, sobre seu íntimo exposto e em processo. Elas hoje são mais do que nunca a sua guerra diária rumo ao pertencimento.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Plano

Se amanhã o cigarro tiver acabado
Se dentro de casa eu encontrar algum sorriso genuíno
Se o café queimar minha ponta-língua
e um beijo destruir meu equilíbrio.
Bom
Eu terei que enfim reconhecer
Há males que de fato calham feito o amor.

Ela é ele

Disse a criança assustada com a ousadia daquele cabelo tão vertiginoso.
Desceu do colo paterno e veio deitar o próprio olhar sobre o mar.
Era noite recém-chegada, tinha um frio morno solto pelo ar.
A embarcação aportou, não sem muito tremer, foi quando ela disse olhando a estrela minguante:
- Ela é ele, né pai?
Olhei o céu e a lua pontiaguda nunca antes tinha me parecido tão viril.
O que lhe dizer?
Disse-lhe é.
A lua é ele. A lua é ele.



Almost there

And so I look to you
and you give me back
one little smile
We're on the road
Since life was created
But we don't know
Nothing else
This.
I look towards
I think in God
I ask him
IN SILENCE
If we will be together till the road ends.
God says nothing
and so in silence
AGAIN
I think that maybe
We won't.
But's ok, I say to myself
because RIGHT NOW
you just put your hand over mine
And it feels safe
And that's it.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Pãe

Esse descontentamento
Essa felicidade saturada
Talvez seja apenas porque ela esteja viajando.
E tudo não passe de um teste
para averiguar minha grande incapacidade
De ser sem ela.

Meu pai

Se é que o conheço
Hoje é quase tudo aquilo
que eu não desejo ser
quando crescer.

E olha, não me falta orgulho
amor ou reconhecimento
Tudo é claro na minha cegueira

É só que nos perdemos.

Nos perdemos um do outro
ou sequer tenhamos nos tido
algum dia.

Registro isso aqui para marcar
nossa falência recíproca
Cigarro no carro sem vento
O som dividido e não misturado.

Pai,
escrevo porque talvez esteja fraco
ou vencido para nos refazer.
Escrevo para tentar não esquecer
que esse cara do outro mundo
Talvez ainda queira ser
E estar com você.

Road Move Me

A chuva há de chegar
Por sobre linha contínua
esvazia o olhar
Placas Prédios Posses
Tráfego certeiro ao me esvaziar o instante e exigir de mim
Resolução para o amanhã.

Calo um pouco.
Deixo a boca secar.
O asfalto também esfria
mas segue o carro em indiferença obstinação.

Já não sei mais onde estou.
Não faço ideia onde devo estar.
E no entanto
ISSO É BÁRBARO
estou aqui.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Far

Lá where I não sei
HOW TO GO.
THERE, LONGE DO MUNDO
de si próprio e
Deste instante.
Eu fico, tired but
HERE. IN THE MIDDLE
de lugar algum
I keep tentando escre-
ver that thing
I was esqueço
HOW TO SAY.
NÃO É JUST UM JOGO
it's more it's
também a tradução
Better
THE EXPRESSION
OF HOW I FEEL
as vezes.

Tornar-se

Para isso
Abandono.
Preciso e voluntário
Deixai partir o natural
seu corpo desde sempre
É domesticado.

Duvide.
Sua naturalidade apreendida
não é genuína
Sua palavra natural
só aparece mesmo em teoria.

Desista
dessa bondade cheirando a novos tempos
Este agora agoniza
não sem motivo
Hoje agonizamos
por incapacidade plena de aceitar remendos.

Se se corta
Se se costura
Com língua linha
Sob lixa unha
Tudo
Não é mais desde que já tenha sido.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Realmente

O que seria?
Já se locomove
Já se alimenta
Já se perfuma e se diverte
E quando tu queres
Se dopa e se desorienta

Pois então
o que te falta
que esta manhã foi incapaz
de trazer
O que te falta
que não veio no sorriso
que não veio no vento
na mão ou toque
a te guiar.

Realmente
A sua fome
em breve
Vai te abocanhar.

E seus dígitos
Os Dígitos
sua família há de guiar
sua família há de mover
Seus filhos hão de roubar.

Não Será

Paisagem
Nem nebulosa.
Construção
Nem estrela.
Cruz
Nem vácuo.
Pássaro
Nem nuvem.

Serás ruído de água invisível
a procura de alguma sede.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Quieto

Foi risco em sentido
Mão turva afagando despedidas.
Prosa rápida incontida
quem sabe talvez uma ou
outra rima
Sim, o que fui desde então
Voa solto sobre precipício
cujo nome a noite
engoliu.
Espera,
ela me pede.
Eu aguardo...

Toda a minha vida foi ensaio para um dia estar aqui ao teu lado.

Chocolate

Escuro como uma noite avermelhada
Ele me olha atento
enquanto eu teclo no celular
estas palavras.

Nos conhecemos faz um dia
e poucas horas
Sempre que dele me aproximo
ele vem lento
e se arrastando
Parece querer me dizer
Nada além da minha pessoa
Importa.

Mas não
Ele não diz nada disso
Ele não diz nada
lento se aproxima e me cheira
e eu faço nele o mesmo
Eu cheiro seus olhos
Seu bigode
Cheiro suas orelhas longas
seu focinho e seu peito

Ele se estira sobre o chão frio para receber meu carinho

E de súbito começa a soluçar.

Como pode um cachorro com soluço?
Eu me pergunto,
enquanto ao meu lado
em meu colo
sob meu braço
Ele não pergunta nada
e apenas aguarda que meu carinho
engula seu sobressalto
e perdure por mais tempo.

Agora ele dorme,
respirando lento e ruidoso.
Eu devo entrar
Escovar os dentes e retirar da malha
das mãos e do rosto
Lasquinhas do Chocolate,
cão negro avermelhado
com cheiro de amizade.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Die Little Monster

Keep going, little fish
Your destiny is to die
There's nothing more
than this.

Go ahead
Die today and a little more
tomorrow
Die everyday
Every week
Every hour

That's your move
That's why you've been created.

Sorry
my words are not beauty
My words are only truth
and I'm just a sad guy
In a sad time
In a sad turn.


Aqui onde estou

As flores são todas de plástico.
No entanto, há crianças e um cachorro
grama sol café e céu

Talvez seja uma combinação propícia
para se redescobrir enquanto
Alguém de fato capaz de ser em si
não apenas o que se tem sido.

Complexo
Complexifico
Aqui onde estou
o mundo respira sem ruído
A poesia vem pela respiração
e os segundos me levam neles
Contido.

Tarde

Segue o corpo ameno
enquanto o peso de uma
qualquer nuvem
O abate,

é tarde
Já não há mais almoço
nem sesta, resta só
e improfícua
A Sonolência

por sobre todas as coisas
que ainda não souberam
se entardecer.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Ceia

Não teve você
nem fatia sua
que pudesse
desorientar o sabor,

Não teve piada
que virasse estrela
Nem sobremesa
que dominasse
Os vícios

Nesta ceia
Mastiguei com calma
sentindo o estômago-
abismo
Fazendo mesura ao meu desespero.

É que quando as coisas todas estão ajeitadas, o desespero ressurge pedindo carinho.

A vida não é possível sem inseguro sorriso.

Durmo ciente de que as coisas desta vida não se dão para o entendimento.

Durmo burro e
amanheço eu mesmo.

Carregando

Enfeite
sem adorno
Convencimento
sem retorno

Decido partir de mim
decido outro rumo
que não seja o mesmo
Eu posso comigo
Neles
sou eu quem mando
Por eles
sou eu quem vivo.

Morning

Amanheci desarmado
pensei em poesia
pensei sobre a inevitabilidade
deste ato
A saber
o de amanhecer nu e acariciado
pelo concreto inevitável:
a vida é poesia.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

FRICÇÃO

Ele bate à porta do sebo ininterruptamente.
Ela espia pela fresta da porta recém-fechada.

Ela – Acabamos de fechar.
Ele – Não, por favor.
Ela – Já passou das seis.
Ele – Mas eu preciso entrar.
Ela – Não estamos aceitando nenhum tipo de cartão.
Ele – Não importa.
Ela – Volte amanhã.
Ele – Por favor. Eu te imploro. Eu preciso de um livro.
Ela – Fala o nome que eu te adianto se tem ou não.
Ele – Me deixa ao menos entrar?

Ela, após certa dúvida, abre a porta.
Ele entra e imediatamente se senta.

Ele – Desculpe o meu jeito. É que eu preciso encontrar esse livro. E eu estava faz mais de uma hora dentro de um ônibus. Os ônibus chacoalham tanto hoje em dia, não?
Ela – Eu prefiro bicicleta.
Ele – Bicicleta?
Ela – Me agrada a possibilidade de ser responsável por alguém que esteja na minha garupa.

Ficam mudos.
Ouve-se a respiração dele.

Ele – Você não poderia me dar um copo de água?
Ela – Qual é o seu nome?
Ele – O meu nome?
Ela – Sim. Qual é?
Ele – Vladimir.
Ela – É nome de personagem?
Ele – Todo nome pode ser nome de personagem.
Ela – Não acho.
Ele – E o seu, qual é?
Ela – É de personagem.
Ele – Diz.
Ela – Ana Raquel.

Ele emudece. Profundo. Apavorado.

Ela – O que foi? É tão ruim assim?
Ele – É bonito. É forte. É bonito.
Ela – Não é bem o que dizem os seus olhos.
Ele – O meu é nome de personagem.
Ela – Não que eu me lembre.
Ele – Esperando Godot.
Ela – Aquela peça?
Ele – É. Tem um personagem que tem o meu nome.
Ela – Vladimir.
Ele – Ana Raquel.
Ela – Eu vou buscar sua água.

Ela sai.
Ele continua sentado ao banco, falando.

Ele – Eu vou te adiantar sobre o livro que eu quero. Bom, o nome tem alguma coisa com a palavra farpa, eu acho. Eu realmente não tenho muita informação. Eu não sei nem dizer o autor, editora, essas coisas. Mas é um livro sobre uma mulher. Sobre uma menina, na verdade, sobre uma jovem mulher.

Ela volta a passos lentos, com um copo transbordando de água.

Ela – Me desculpe, eu sempre encho o copo até quase cair água pra fora.
Ele – Obrigado.
Ela – Não conheço esse seu livro.
Ele – Não tem como consultar no sistema?
Ela – O único sistema disponível aqui é o da minha cabeça. E ele tá meio devagar hoje.
Ele – Então você não sabe?
Ela – Sobre o que é a história?
Ele – Eu não sei ao certo.
Ela – E você tá interessado num livro que não sabe o nome nem o autor e nem sequer sobre o que se trata? Não precisa ter vergonha. Fala.
Ele – Por que você disse isso?
Ela – Acontece de vir gente aqui com vergonha do livro que quer comprar. É que livro é uma coisa tão íntima que pode entregar um sujeito por inteiro. Outro dia, entrou uma mulher que devia ter uns 35 anos. Ela queria um livro do Kundera. Dizia que não sabia o nome. Daí eu mostrei os livros que tinham. E o olho dela brilhou quando eu disse tem A Insustentável Leveza do Ser. Sabe? Quando o íntimo escapole pra fora, sem a nossa autorização? Pois então, foi bem aqui em frente a essa prateleira. Ela pegou o livro na mão e foi como se a história toda nela tivesse se atualizado. Sabe quando isso acontece? Quando o livro está faz anos ali naquela mesma prateleira, sentindo por extensão os toques nos livros vizinhos? Sendo sempre desapertado e apertado novamente. Sabe como é? Nesse dia o livro respirou na mão dela. E olha que ela tremia levemente. Eu na mesma hora voltei pra trás do balcão e fiquei pensando: será que esse livro foi o único amor da vida dela?
Ele – Ela tem seu nome.
Ela – Eu não sei.
Ele – Não foi uma pergunta.
Ela – Se ela tem o meu nome?
Ele – A personagem desse livro que eu quero. Ela tem o seu nome.
Ela – Se houvesse algum livro aqui dentro com uma personagem chamada Ana Raquel, eu saberia.
Ele – Não fale o nome.
Ela – Mas é o meu nome.
Ele – É um livro recente.
Ela – Perdão. Não o temos.
Ele – É de um jovem autor. Talvez da nossa idade.
Ela – Vladimir.

Ele não responde.

Ela – Ei você.
Ele – O que foi?
Ela – Que Ana Raquel é essa que não sou eu nem uma personagem?

Ele emudece.

Ela – Que história é essa que você inventou pra amenizar a sua realidade? Que personagem é esse que você tá inventando e que te tira de mim quando na verdade, tudo isso era pretexto apenas para estamos juntos?

Ele mudo termina o copo de água em silêncio.

Ela – Hoje seus olhos estão tristes. Eles falam sem você querer. Eu tô acostumada com isso. Tem gente que quer ler no livro uma forma de dar fim ao que está vivendo.
Ele – Não tenha tanta certeza disso.
Ela – Quem você perdeu que agora precisa suprir nesse romance que sequer existe?
Ele – Não quer dizer dar fim, nem suprir. Eu só queria saber como lidar com isto, com esse buraco, com essa fenda, da mesma forma como fazem os personagens de um romance qualquer. Todos eles sabem. O Vladimir, você se lembra, ele fica dois atos esperando um tal de Godot que não vem. Ele fica encontrando pretexto para continuar vivo quando tudo ao seu redor o convida a morrer, a desistir. Como ele consegue? Ser tão maravilhoso? Como ele consegue durar tanto tempo?
Ela – Ele tem um amigo ao lado dele. É só isso. Da mesma forma que você tem a mim.
Ele – O meu amigo hoje escolheu o pior nome que poderia ter escolhido para a nossa brincadeira.
Ela – Esqueça. Foi um nome qualquer. Aleatório.
Ele – Não é um nome qualquer.
Ela – Era o que talvez estivesse escrito no seu olhar na hora que você entrou. Não sou eu. É só um jogo.
Ele – Uma ficção, você costuma dizer. Mas uma ficção que consome da mesma forma como a minha amiga que tem esse mesmo nome. E não é estranho que eu venha em busca de ti para tentar sarar este horror que ela criou dentro de mim faz poucas semanas?
Ela – Eu não te entendo. Você quer parar? O que foi com você hoje? A gente nunca gastou tanto tempo falando. Que negócio é esse de horror?

Ele emudece, sôfrego.
Ela o mira, persistente.

Ela – Você é tão engraçado. Alguns escritores, quando não sabem como fazer um personagem responder uma pergunta, escolhem mantê-lo mudo. Como se em silêncio ele fosse incapaz de ser interpretado. Como se em silêncio ele estivesse protegido. É o que muitos escritores fazem, mas, na maioria das vezes eles se esquecem de nos situar sobre os olhos. O problema não é a fala, você percebe? É pelos olhos que tudo escapole.
Ele – Eu lembrei um trecho do livro. A personagem que tem o seu nome fala assim num dado instante. Acho que pra um amigo que está distante: Que farpa foi essa que fincou no seu pé? Eu li de novo e de novo e chorei por dentro. Porque aquela personagem não está nada bem. Ao menos não naquele momento. Será que depois da "grande sacada" do final Ela melhorou? Ficou aliviada por ter desabafado e sacado da sacada suas piores armas, farpas e angústias? Me conta? Conta o final da história pra uma amiga espectadora fã e voyeur de almas? Conta pra mim como você tá e por que precisou escrever isso? Quero muito saber que café que andou sendo derramado, que morango lembra sangue, que sacada se faz tão alta e tentadora. Me conta? Que gravidade se faz tão grave?
Ela – Me conta? Qual é o final dessa história que você enviou a ela?
Ele – O final da minha história é que essa minha amiga pra quem eu enviei essa história morreu da mesma forma como esta personagem que um dia eu tive a brilhante idéia de inventar.
Ela – Não é culpa sua.
Ele – Ela leu o meu conto, Duda. Ela morreu da mesma forma, no mesmo dia, no horário exato ao da personagem. Numa manhã de um domingo qualquer, eu escrevi esse conto idiota no qual uma menina se matava, depois de inúmeras tentativas frustradas. E no domingo retrasado esse meu conto desnecessário ganhou vida, sabe?
Ela – É só uma triste coincidência, Vladimir. Eu não a conhecia. Mas é só uma triste coincidência.
Ele – E ainda que seja, como eu viro a página?
Ela – Ora, você veio até um sebo, eu quero dizer, o que não faltam aqui são páginas a serem viradas...
Ele – Mas, fora isso. Fora os livros. As mortes. Fora a velocidade do ônibus correndo solto no meio da cidade. Fora a massagem que tem sido brincar contigo nessas ficções no fim de cada tarde... Eu sinto tanto a sua falta. Concreta. Falta suprema que não se resolve. Que vem no meio da noite e que desorienta, sabe?
Ela – Eu sei. E sei também que todas as nossas ficções terminam numa trepa dentro de um sebo sujo no horário pós-comercial nesta mesma cidade movimentada.
Ele – Eu detesto a palavra trepa.
Ela – Não sou eu quem a fala. É minha personagem do dia.
Ele – Eu não gosto da sua personagem do dia.
Ela – Você quase ficou para fora hoje, não fosse a generosidade dela.
Ele – E você quase ficou para dentro hoje. Sozinha, não fosse eu.
Ela – Eu gosto de Vladimir.
Ele – Então seja essa minha amiga e faça algo agora comigo, capaz de me distrair do tempo de me aliviar as horas capaz de me preencher que seja só por um momento.
Ela – Eu li uma peça de teatro essa semana e me lembrei de nós dois... Eu queria testar. É sobre um casal que faz o ato em si só que por meio de palavras. Apenas.
Ele – Como se tivesse uma platéia ao nosso redor e não pudéssemos ficar nus.
Ela – Como se houvesse um rifle apontado para o seu peito e outro para o meu. Como se o nosso encontro fosse o dedo a escorregar sobre os gatilhos. O nosso amor como o estopim para o fim de todas as coisas.
Ele – Eu começo.
Ela – Direto.
Ele – Reto.
Ela – No leito.
Ele – Peito.
Ela – No colo.
Ele – Seguro.
Ela – Toca.
Ele – A mão.
Ela – Denta.
Ele – O músculo.
Ela – Nu.
Ele – Deixa.
Ela – Lá.
Ele – Deixa.
Ela – Aqui.
Ele – Beija.
Ela – Ponto.
Ele – Trepido.
Ela – Contínuo.
Ele – Intervém.
Ela – Errando.
Ele – Mãos.
Ela – Estouro.
Ele – Festa.
Ela – Assopra.
Ele – Beijo.
Ela – Bolha.
Ele – Beija.
Ela – Corta.
Ele – Volta.
Ela – Segura.
Ele – Traz.
Ela – Fica.
Ele – Estaca.
Ela – Estaca.
Ele – Estaca.
Ela – Me beija.
Ele – De novo.
Ela – Vaza.
Ele – Sempre.
Ela – Mais.
Ele – Goteja.
Ela – Sempre.
Ele – Culpa.
Ela – Amor.
Ele – Dormente.
Ela – Aperta.
Ele – O meu.
Ela – O seu.
Ele – Os dois.
Ela – Os dois.
Ele – Parede.
Ela – Dente.
Ele – Bolso.
Ela – Peito.
Ele – Latente.
Ela – Calor.
Ele – Não pode.
Ela – Derreto.
Ele – Quente.
Ela – Santo.
Ele – Poça.
Ela – Crente.
Ele – Aqui.
Ela – Na frente.
Ele – Embora.
Ela – Como.
Ele – Fala.
Ela – Eu falo.
Ela – Aéreo.
Ele – Palavras demais.
Ela – Falar.
Ele – Beijar.
Ela – Deixa.
Ele – Beija.
Ela – Enfrenta.
Ele – Seguro.
Ela – Mordo.
Ele – Controla.
Ela – Extra.
Ele – Meu.
Ela – Calor.
Ele – Toca.
Ela – Segura.
Ele – Coloca.
Ela – Peito.
Ele – Encosta.
Ela – Chora.
Ele – Vergonha.
Ela – Olha.
Ele – Foda-se.
Ela – Foda.
Ele – Fodam-se.
Ela – Agora.
Ele – Amanhã.
Ela – Celular.
Ele – Toma.
Ela – Devolve.
Ele – Deus.
Ela – Sorte.
Ele – Sei.
Ela – Toma.
Ele – Passa.
Ela – O mundo.
Ele – Vendo.
Ela – Vento.
Ele – Põe.
Ela – Deixa.
Ele – A mão.
Ela – O peito.
Ele – A pele.
Ela – O pêlo.
Ele – Não vejo.
Ela – Chapado.
Ele – Problema.
Ela – Outro beijo.
Ele – Doce.
Ela – Capaz.
Ele – Possível.
Ela – Tenaz.
Ele – Se dura.
Ela – Desfaz.
Ele – Acode.
Ela – Acende.
Ele – Fica.
Ela – Persiste.
Ele – Tatuagem.
Ela – Feito rima.
Ele – Conseguimos.
Ela – Conseguimos.
Ele – Há quem diga.
Ela – Há quem diga.

\\

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

dobradura

ereto
sustenta a doçura
de se manter pleno
em meio
aos vícios
em meio
a cura

persiste incompleto
escrevendo com gosto
para além do certo
para além
de toda e qualquer
metonímia

dura,
eu diria,
ele dura sobre a poltrona
fazendo em si mesmo
no correr do próprio tempo
azia

olha,
adiante, veja
o seu semblante
é antecipação do destino
nele, se concentram
as ondas as dobras
os volteios
que a sua mente
ansiosa pelo jogo
faz consigo própria

desencane
desentupa
desenrola

esta face

ela só quer dizer
bom dia.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

destroços

mas o íntimo
em desordem
agradece,

acariciado por ventanias
movido adiante
por tombos e tropeços
hoje ele

- o íntimo -

é pleno sossego
é rio que segue
e caudala
a cada esquina

querendo chamar atenção
ou nem isso
rio hoje caudalando
a potência do encontro
a persistência dessa união.

falho e concluo:
sem vocês eu não seria o que sou

e como já me disseram
eu amo ser quem eu sou.

agradeço de corpo aberto
de riso intrépido
com rimas fáceis e rodopios
isso não é pouco
e ter vocês é bom
é seguro
é lindo

o mundo já já verá.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

mau estar

entre os meus
como pode?

angústia sem fim
vontade de quedar
e sem volta
apenas dormir

horrível sensação
do despertencimento
vontade de ser longe
e apenas longe seguir indo
sem remendo

olhar que não vê
compreensão curta
e grossa
uma pena que me consome
eu não queria ter ido para além da linha
eu queria?
que desejo foi esse que me fez
longe

tão longe
que hoje já não vejo volta.

e se parto
me sinto bem
me sinto eu
e se fico
dói tudo
e prefiro então me esconder.

minhas palavras são duras
minhas verdades não conseguem tolerar
e as verdades
deles
a mim
são tão perdidas
são tão mentira
e o contrário
também assim não seria?

dentro de mim
gritam incontidas
as iras
mais genuínas

perdão,
eu não sei ver de outra forma.

minha família pesa
feito ônus da história.

minha família pena
e eu de longe
alimento a discórdia.

domingo, 11 de dezembro de 2011

sem título_07

my house wants to keep me out

i can't handle no more

it's so fuckin over

stay here inside
is (how can i say?)

depressive.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

grafite

todos eles te transpiram
todos dizem seus verbos
e agem, como você o faz
não adianta, sua ficção
morreu ante a sua
constante
autovasculhação

tu és inoperante hoje
por tanto ter se mexido
e repensado
sob formas outras
que não si mesmo

sua escrita é dura
como seu coração
seus olhos secos
como a pele
e tímidos
como seu futuro
distante passageiro

as coisas não deram errado com você
as coisas simplesmente
não deram
e isso é tudo o que hoje temos

trama irregular
de soluços e ameaças
contra as quais
você ensaia se jogar

mas você não joga
você morreu
na tentativa de se descobrir
você morreu
na tentativa de se nomear

você está morto
e sua ignorância te salva
da dignidade que é ter ciência
para nada mais falar

segues falando
segues tramando
de novo e mais uma vez
aquilo tudo para o qual
hoje
novamente não
consegues sequer acenar.

Negociação Invisível

Eu olho a rua
que trepida a nossa frente
Você também o faz
a gente observa o mundo
inseguros de nós mesmos
assim
lado a lado.

Eu te miro
e te esbarro
minha boca diz
chega esse momento do ano
e eu começo a listar
os caminhos
os projetos
os encontros
realizados.

Você me olha
e então eu sei
que você sabe
que estou falando
de nós dois.

Os carros passam velozes na avenida
E a gente sobre a corda bamba
do esbarrar e afastar
as peles
tão tímidas
(como podem? hoje então
mais que ontem elas estavam
com medo
de faiscar).

Os carros.

Vamos olhar os carros
enquanto não temos segurança
mínima
para nos sustentar.

Os carros.

Fiquemos neles
eles não cessam de se atualizar
e cada hora é um que fala
ora eu
ora você

ora, então
quando você fala
em direção aos carros que passam
eu te olho
(por que não?)
eu gosto de te ver

e quando eu falo
eu sei
os carros lá na frente acham que os quero
mas não
eu só quero mesmo é o cara
que do meu lado
observa
instigado
a poesia que ele faz em mim
nascer.

Então eu olho os carros
eu falo
eu falo
e você me vê
e depois, eu acabo
e viro a ti
que novamente aos carros
volta a declamar
aquilo que ainda hoje
não pudemos compreender.

Não se trata de compreensão
nem de cabeça quiçá de lógica

Eu falo de arrepio.

Eu falo de você
de mim
e do enroscar
de nossas aortas.

________________________

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Mentira

Eu não preciso de terapeuta
psicólogo ou escuta afim.
Eu preciso de um você
e você
precisa de um de mim.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

existir

para além das linhas hoje ela trama planos não tão futuros. sobrevive, sobre a cadeira crua sobre o chão limpo da cozinha sobre o andar inferior. há tanto ao redor e o íntimo, tímido, planeja a destruição do instante.

ela gostaria se possível ser longe. ir distante imprecisa num futuro qualquer mas possível. ela hoje lacrimeja inoperante contando os segundos para nos próximos se ver ir. assim, como quem vai e ponto: foi-se.

nada pessoal nenhum drama fora do comum. é sequer drama. ela se repele e problematiza: se você tivesse uma pia cheia de louça suja a sua loucura seria mais branda. mas hoje a casa dela resta limpa e precisa. cada coisa no seu pote. cada brilho na superfície imaculada. ela arrumou tudo,

mas sobrou sobre a cadeira no andar superior querendo quedar.

venta aqui fora. venta de leve, mas venta. e nisso, movem-se as copas – todas – das árvores todas – também das gigantes – se move o mundo e por conta de todo esse movimento o mundo também dança e as folhas recitam – silenciosas – o encontro: a possibilidade.

o forno estala. sem bolo nem torradas nem nada. ela ali sobre a cadeira no andar superior contempla o calor do forno vindo em sua direção. por que faço isso comigo? ela se pergunta sem dizer sim nem não. ergue-se,

não. ela se levanta. dobra o pano de prato e o coloca sobre a mesa de madeira também crua. que vida crua, pensa olhando através da janela. o vento lá fora zomba de tudo aquilo ali dentro aprisionado. o vento lá fora zomba de mim.

desliga o forno. improvável. não é isso. ela se diz não ser nada daquilo. mas, depois pensa, aquilo ali não é nada então de que adianta todo esse show. ela se senta novamente sobre a cadeira querendo, se possível – uma vez – que seja! – ser desligada. como a cafeteira. se olham.

negra. retinta. limpa e preparada. ela criou esse hábito de terminar de passar o café (na cafeteira) e tão logo colocá-lo todo numa só caneca. ela não usa xícaras (acha xícara uma coisa triste). ela lança o café para dentro da caneca e o tempo do esfriar é o mesmo de limpar a jarra de vidro, retirar o filtro com pó e repor novo filtro com novo pó. ela desliga o botão e sabe que da próxima vez que o apertar: será novo início de novo café.

é chegada a hora. o vento lá fora. eu aqui dentro estatizada. que foi que fiz de mim que às vezes eu não funciono nem quero nada. ela se vê no vento lá fora refletida. está tudo certo, se diz sem chamar a si mesma muita atenção. ela aperta o botão

e senta. e se levanta. e tenta não se dar importância. os eletrodomésticos todos limpos anseiam o seu amor, que não vem. a cafeteira, galante, vai dizendo em lingua ruidosa a odisséia de ser amada.

o café respinga retinto.

e lá fora o vento pára. ela percebe. ela abre a janela. e grita, descompensada: o café tá na mesa!

convite

novas praias
sem areia nem sal
novos céus
sem nenhum lençol
novas idas
sem tickett ou passagem
novos lares
sem portão nem prédio
novos sons
sem lamúria
novas lâmpadas
sem rosca
novos copos
sem estalos
novos rins
sem filtragem
novos sóis
sem calor
novos cancros
sem disparates
novos embalagens
para dias sem fim
novos sorrisos
como o seu
novos eus
como o amanhã
turvo impreciso
duro e necessário

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Leason Learned

cinzas envolvem por dentro
a taça de cristal
os pés restam cansados
os olhos pesados
tudo enfim normal

quantas vezes o mesmo
quantas repetições inda
mais

se não se percebe
que os cabelos ficaram brancos
se não se vê
nem isso
que as unhas foram comidas
durante a madrugada

poeira faz desenhos
sobre o chão imundo
reino da sala

sacolas plásticas imensam
guardam segredos partidos
e comprovantes dos jogos
consumidos e já rasgados

se não se vai para o outro extremo
se não se cozinha outra coisa
com os mesmos ingredientes
que fazer então

se toda noite agora sou eu
e meu colchão
esperando mais peso
para fazer poesia
e ação

que fazer?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

brusco

o estalo
o tempo
imediato
no qual
você decide
ser beleza

súbito
invade
o segundo
e tinge nele
desespero
tinge também
leveza

inconstante
capaz de ser
quente
o futuro
e voraz
este instante

móvel árido
escorregadio
tenaz você vai
meio cego de si
meio cego
e operante

desejas:
mudar
partir
virar
ceder

mas conserva
preso neste olhar
uma impaciência
que o consome
que o consome
que o consome

e aqui está você
outra vez
entre cafés
e cigarros
entre cafés
e cigarros

sem_título 06

ela é sem dúvida alguma
uma criança
ele – sem dúvida – é homem
desses que tem barba
ódio e vergonha

ela tem a face pouco mexida
os olhos inda pausados
sem fim
enquanto ele encerra num olhar
apenas
a noite
o cancro
a pedra nos
rins

tanta diferença
tanta demora
até que se encontram

que pode haver nisso
que não seja de fato
algo inédito
necessário

posto seja ruidoso
o movimento pelo qual
pele bruta toca
seio de anjo

eles ainda se olham
temem ter ficado
dependentes
eles se olham
e veja

não vêem nada
para além da neblinha
solta no olhar
presa nos dentes

que estranho é o desejo.

Erro

nada me encanta mais do que o erro

nada mais me fascina do que a possibilidade de ultrapassar
sem ter freios

de atropelar sem consciência plena
do estrago
sobre o corpo ali esmagado
ali feito

peço espaço a ti

para errar não-eternamente
mas sim quando em jogo
quando em jogo estiver
lindo

e pleno

o erro

o erro

ele faz parte
é certeiro
me denuncia
e ameniza
me constrange
e revela
por inteiro

eu lhe peço,
deixe-me ferir seu rosto
com este espasmo
com este enredo
de corte
e fúria
de corte
e espelho

veja:

tudo aqui está meio ao meio
e isso é seguro
mesmo que não passageiro
isso respira
e é vivo
é seguro
posto traiçoeiro

deixa
que eu grito a possibilidade de ser outra coisa por conta disso
por conta disso que hoje não conseguimos fazer direito

o amanhã
só saberemos
por conta desta fagulha
incendiária
de desassossego,

domingo, 4 de dezembro de 2011

Laranja

para entreter o estômago
para escorrer o pescoço
para ser saliência
concentrada
como o sol sobre a mesa da cozinha
ou jogada esquecida
sobre o chão da sala

bagaço

caroço

contorno

e sumo
expressivo
e capaz de cegar
os olhos imensos
de um monstro

corto
faço tampa
degolo
feito santo
suprindo o corpo
a desnutrição
avançando aos caroços
rumo
ao centro
da mão
contorcida
com o fruto
em si
apertado

escorre
escorro

está tudo certo
esta laranja
é o sumo
mor
do concreto
dia

Postergo

a decisão necessária
adianto o tempo
e o deixo em espera
concentrada

hoje não
amanhã com certeza
também não

as horas seguem
desistidas
o tempo avança
carente de solução

o cessar do roer
o fim enfim da consternação
postergo os limites
através dos quais
eu teria condição

mas não
hoje não
amanhã
não não não
por agora

resto
ciente do erro
graduado na ignorância
não sei se falta força
se falta jeito
ou se falta
apenas
o seu cheiro
a vigiar minha
inoperância

sábado, 3 de dezembro de 2011

Social

teme reluzente
puxa e desfaz
depressa a porta se abre
e então
e então
nada há mais

a ligação desatendida
a porta deixada imóvel
o ranger
da escuridão
nas esquinas

salto sobre poças
pizza sobre pedra
beijo sobre bocas

beijo sobre bocas

simbólico
escorregadio
e energizante
como pode ser o ser
este abandono
insuperável
esse eterno
e constante
desmanche

interrogação
mordaz
fria e incapaz
interrogação
ponto final
sábia
densa
e satisfatória

não há nada para além das linhas

não há nada hoje
que não passe
de no máximo
uma
ou
outra

história

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Ergo Sum

unhas limpas
aparadas e lixadas

a sujeira do mundo partiu

resta esvoaçante
pelos espaços da casa

o som canta e voa
em meio ao vento

a criança dura e persiste
remoendo o íntimo
franzindo a testa

e provocando os cimentos.

não dirás não
nem só sim, há outros verbos
nessa criação

tremula
impacienta
ouve o dia, amante
ele quer te abraçar

se deixe ser dependência
se deixe ser dependência