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domingo, 30 de janeiro de 2011

433

caminho tortuoso
que faz ver o íntimo
e cheirar o suor dos moços
ao redor eu deles
escondo a vista
doando-me pouco
ao fazer de mim
apenas ágeis batidas
destes dedos dinamites
querendo se possível
confessar esta alma a chacoalhar-se
nesta condução extra povoada

sábado, 29 de janeiro de 2011

tramando palavras enquanto o tempo te fazia obra

porque a poesia está agindo sobre as coisas nessa casa.
o calor não é só calor
o suor que de ti escorre
escreve pelo caminho
outras coisas que não simplesmente
quero água.

calma, cara
porque há um terreno propício ao desespero
mas sob esta ordem
sob o tapete
sim, há outro
de poemas em cruzamentos
ternos e passageiros.

porque a poesia sobrexiste
ela te olha neste instante de fora para dentro
e te vê, inteiro, assim despido
mesmo que esteja agora só
e lacrado contigo.

ela te enxerga no clamor mais cândido
que sai no abrir pequeno da sua boca
ela te saúda
e tu nem vês
porque estava tramando palavras
enquanto o tempo
fazia de ti obra
e a janela
te enquadrava
e o sol
ponto de luz
impressionava
sobre o seu corpo
a vã poesia inexata
do seu existir,
sem dó nem frialdade.


Se a frialdade te comove, tente então ser alvo de uma

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Evite o movimento que excede.

escorre
plena gota
através do peito
sem vegetação
ou dono,

confunde
feito fosse inseto a gota
e a faz secar num rápido
coçar da mão
delirante,

resvala
límpido o olhar
por através das poeiras
deixando-se ermo
neste calor
sem querer para si
nada além do
simples estar,

é tarde
mas cabeleira negra
morna continua a se
desnortear,

seria preciso ser aquático
para conseguir se durar.



Se está sentindo muito calor, experimente também
Uma música para Ana 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Perguntas Que Marcelo Faria - 01

Divulgação.

Marcelo - Diogo, noite de segunda-feira, dia 24 de janeiro de 2011. O primeiro mês do ano acabando e como anda a sua vida?
Diogo - Oi, Marcelo. Pois é, final do mês, parece mentira. Mas você sabe que eu acho que o mês passou tranquilo, sem correria. Acho que foi porque eu li jornal todos os dias, então deu para contar dia a dia e não deu aquela sensação de uma semana em um dia. Você perguntou como anda a minha vida? Bom, ela anda corrida. (Risos) Pra variar. Não tem jeito. Estou trabalhando muito cedo e dormindo tarde, pra variar. Mas está tudo bem. Ontem tive uma tristeza profunda. Se você entrar no meu blog vai ver quanta coisa terrível eu escrevi.

Marcelo - Quer dizer que aquilo que você produz vem de acordo com o que você está sentindo?
Diogo - Não, eu acho que não. Eu acho que eu estou produzindo sobre as mesmas coisas. Sobre os mesmos assuntos, desde quando comecei a produzir. Sinto que aquilo que muda é o tom, a forma pela qual você toca de novo no assunto.

Marcelo - E que assuntos são esses?
Diogo - Sei lá. É tudo. Eu sou meio heteróclito, sabe?

Marcelo - Não. Não entendo. Como é isso?
Diogo - Por exemplo, no meu trabalho como diretor de teatro eu levo para dentro da sala de ensaio muitos materiais que a princípio não servem. Eu quero dizer: não há tanta seleção assim. Tudo no mundo tem seu direito de ser experimentado. Não gosto de me privar de falar do pombo que encontrei morto no chão da rua, atropelado.

Marcelo - Nossa... Mas me conte. Você falou em teatro. O que vem por ai?
Diogo - Putz... Nesse ano vem coisa a beça. Junto a companhia da qual faço parte, o Teatro Inominável, estou dirigindo e escrevendo duas peças. Ambas devem estrear no segundo semestre, uma em setembro e outra em dezembro. É uma loucura. Dois processos ao mesmo tempo.

Marcelo - E como você lida com isso? Está conseguindo dar conta?
Diogo - Sabe? Eu nunca consigo dar conta. Eu me convenço muito rápido de que já perdi. Fico reclamando e dizendo o quanto estou fudido. (Risos) Isso depois de um tempo se converte em força para continuar, sacou? Você já se chafurdou tanto na lama que quando olha para fora, tá tudo andando, tudo tranquilo. Eu tenho essa tática. Eu sou muito auto-depreciativo.

Marcelo - Então você não está dando conta das duas peças, é isso?
Diogo - Estou nada! Tá foda. Começo a estudar uma e pulo para a outra. Os assuntos se misturam, dão nó. Tá foda. Penso numa fala de uma peça mas coloco na boca do personagem da outra. E são peças bem diferentes, então esse tipo de intersecção só sinaliza como a parada tá sinistra.

Marcelo - E fora o teatro, o que mais?
Diogo - Como assim?

Marcelo - Fora o seu trabalho com teatro, o que mais você tem feito?
Diogo - Eu trabalho com teatro.

Marcelo - Certo... E agora, eu quero dizer, segunda, final de noite, o que você vai fazer hoje?
Diogo - Eu preciso descobrir uma maneira infalível de abandonar o computador. Tenho ficado muito tempo na frente dessa parada e minha coluna tá doendo horrores. Mas ainda preciso terminar de escrever uma peça para crianças que comecei a escrever faz uns cinco dias e preciso entregar tudo ainda hoje. Mandar por e-mail. Depois queria lavar umas camisas, umas cuecas e dois shorts. Preciso também ler um pouco de Deleuze e Guatarri antes de dormir. E desligar a cafeteira.

Marcelo - Está bebendo café a essa hora, é isso mesmo?
Diogo - Mas eu bebo. Eu sempre bebo.

Marcelo - E não perde o sono?
Diogo - Nunca, eu sempre tenho sono. Sempre. Posso deitar agora e em 45 minutos tô dormindo. (Risos)

Marcelo - Que saúde...
Diogo - Putz... Tinha esquecido. Tenho que medir a glicemia também e ainda tomar umas duas insulinas antes de dormir.

Marcelo - (surpreso) Ah, você é diabético?
Diogo - Ah, sou, sou, eu sou... (Risos) Prometo que no ano que vem eu vou deixar de ser. (Risos) Eu falo isso todo ano... Vai que dá certo, né?

Marcelo - É... É sim... Então eu vou deixar você fazendo suas coisas e nos encontramos noutra noite dessas, certo?
Diogo - Sim, querido. Quando quiser, passa por aqui e a gente conversa. É sempre um prazer.

Marcelo - Correto. Só não vai esquecer de desligar a cafeteira...
Diogo - Vou fazer isso agora... Ainda tem um restinho...


Perguntas Que Marcelo Faria volta no próximo mês,
se você curtiu esta entrevista, experimente

Engano

Desculpe-me, mas talvez alguém tenha entendido errado.

Tudo isso aqui disposto é por mim, ok?
Não se sintam especiais sem serem de fato,
pois o que desmancho aqui é antes de tudo
meu próprio íntimo dilacerado.

Mas é por mim que eu o faço.
Primeiro para poder me ver quando faltar um olhar a mirar meus passos.

É por mim, me desculpem.
Não há motivo segundo ou terciário.

Foi tudo engano,
EU PEÇO DESCULPAS EM LETRAS GARRAFAIS
é que tudo aqui é antes para o meu próprio consumo diário
é para que me veja daqui a uns anos e me reencontre de fato.

Queridos, todo o Isto é para tomar ar,
feito forma de se cravar no tempo sem
que para isso seja preciso eu me suicidar.



Se você gostou desta postagem, experimente

Know How

Eu havia dito:
acordarei erguido pelo desejo daquilo.
E assim foi E assim fui E agora assim eu sou,
alguém de pé na ânsia pelo que ainda não descobri,
mas que em mim cria pernas e move esta manhã.

Não, o banho dessa vez não virá:
quero o dia por olhos amenos
quero a pele sonolenta se permitindo
via atrito
neste mesmo mundo acreditar,
sentindo por partes, tudo devagar
quero ser estuprado com dignidade
nada em mim passará
sem que me doa
o que falo.

Vamos supor que seja assim esta manhã:
hei de acumular sentidos
eu hei de olhar para ontem
e não ver dia embaçado
e passado retinto;
Verei eu hoje
apenas distância
cortinada pelas horas
e desejada inda assim
pelo íntimo
tornado acúmulo
e não sonho de si próprio-
afastado.

Eu posso comigo;
Sei como poder.
 

domingo, 23 de janeiro de 2011

Gozo

Ira profunda
agoniza minha vista
e me entope.
Desespero inaugural
nunca havia sentido
isto
de novo sem nome
porra, esbravejo
sem saber nada
exceto isto
de novo,
Eu sei
que chorar resolveria
eu sei
mas controlo
seguro este tempo
para fazer nele
mesura ao desespero
de se ver ausente de si
ou em si muito imerso
Grito
cantarolo potente o refrão
o rock, a ruína
eu me beijo
e desentupo essa obstrução
máxima que me tornei.
Meu peito está duro
complicado
é terreno baldio mas minado
é terreno liso sem mordida
ou solidão que faça companhia.
Meu peito está explodido
mas mudo, sem som
nem tiro
Eu fico
e nisso
espero a noite
para escurecer
a vergonha de me reconhecer
assim
todo falido
todo sem força
para amar
para criar
para construir alguma coisa
qualquer coisa
que não seja
este isto
esta broca
este intenso
e imenso
desperdício.


[ frame per second ]

para que dure
o seu olhar
sobre as coisas
para que fique
inteiro
detido nisso
ou naquilo
não importa o que é
importa mais agora
que o seja
por inteiro
sem saídas
sem receios
venha até mim, eu te peço
como pode haver medo
se entra a gente
as mãos se encaixam
se entre os dois
os olhos se cravam
e desafiam o passar das horas,

eu não pergunto
eu aqui disponho
segundo a segundo
o íntimo
o isto
isto para o qual não tenho nome
isto para o qual excedo tentativas
excedo rimas
e idas, minhas, investidas
para tornar presente
o segundo
deste instante
o momento
deste suor
crasso
a desafiar o abismo
mas em slow-motion
tudo em slow-
motion

sábado, 22 de janeiro de 2011

Justificado.

Ela o olha durante alguns segundos. Você é incapaz de aguentar um minuto sem uma novidade, não é mesmo? Ele nada diz. Ela o olha, ainda agora por mais tempo. Aproxima-se dele. Pega uma de suas mãos, ele cede, ele é fácil de ser seduzido, ele gosta dessa comunhão arbitrária, capaz de machucar e doer. Hein? Nas mãos entre os dois corre solto algo que eu não consigo escrever agora, mas é certo ser algo dotado de calor, de ligeira força, sim, talvez força, sim. Eu queria que você soubesse que eu gosto disso em você. Eu gosto depois de um tempo continua a dizer eu gosto porque te faz ser você e mais ela nem pensa eu sei que é isso que te torna alguém sempre tão presente, tão capaz de estar vivo e merecedor deste momento. Eles se olham já esquecidos das mãos dadas, eles se olham por um tempo mais - hoje não parece haver pressa entre os dois - e então, então, ele se ergue e diz para ela: É por essas e outras que para mim é difícil te abandonar. Nem bem por você, eu digo por mim, é por isso meu que você está dizendo que eu não sou tão facilmente capaz de enganar e de fazer se perder no tempo. Eu não ligo para o passado, você me entende? E se olham, ainda mais demoradamente. Eu te entendo. E então, o que faremos agora? Ela diz precisa senta, eu começo de novo. E se afasta, e rompe o selo das mãos, ele senta, ela puxa as cortinas entra no banheiro, não sem antes apagar as luzes do quarto. Ele espera. Ela no banheiro eu não sei ao certo o que pode estar fazendo. Ele sou eu, entendem? Só posso dizer que ele espera. E que quando ela voltar, tudo poderá ser de novo outro motivo que me faça ficar. Independente se bom, se lindo, se terrível ou de mau gosto. Independente de tudo eu sei, está explícito nas mãos dele sobre as pernas, saberemos esperar qualquer surpresa nova capaz de firmar este tempo. Capaz de firmar a vida e a presença de todo e qualquer momento. Sim. Ela vem vindo.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

sinfonia cascata dentro

dar trabalho sem suor
ser preciso sem rancor
nada em mim
sairá do corte já feito
nada em mim
jorrará sangue
ou gritará excesso.
eu sou pleno assim
sem organização
eu respiro este caos
e sobre ele eu bailo
minhas partes
se miram
apaixonadas
mas ninguém de nós
sai casado ou preso
somos livres
soltos e grosseiros
nesse baile chamado
digestão
nesta ópera respiro
neste cômodo
coração, nada serve
para sair
nem para ficar
somos assim partes
perdidas para o amor
potentes para escorrer
e drenar
este sentido
que ainda hoje
te lobotomiza.
eu fico
eu duro
eu, pedra,
me ausculto
e ouço sinfonia ruído cascata torrente e é dentro
tudo aqui
dentro.

Corpo Pleno Sem Órgãos

Ou que fique plena
feito poesia duradoura
e certeira
ou que me abandone
e não mais me seduza
o olhar.

Ou que fique esquecida
nos livros que escrevi
sem lançar
ou que apenas pisque
e aceite em vida
não ser notada.

Eu não quero carregar comigo essa tristeza-metáfora.
Eu não quero cortar uma veia para fazer verso
Eu não quero pular da janela tentando ser literatura fantástica,
não.

Eu quero ser porto seguro:
poeta impreciso atravancado num corpo homem pleno e sem desastres de cinema.

Eu quero ser coisa inflamável
mas amena
coisa que no tempo se coordena
e sorri seus desvios
a tempo de neles não se perder
de novo.

No Isso

eu fico
sem reclamar
consciente eu duro
olhando a poeira sobre a casa
e sobre meus sentimentos
es-cu-sos.

desnivelado
meu peito ronca e adormece,
meu suor escorre e seca
pelo caminho dos braços
o calor desde e se esquece
e eu não sei o que sou neste instante
mas sinto a tristeza dançando
em cada segundo
que por aqui passa.

o que sou eu no mundo
se posso não ser falta?
o que sou eu nos peitos que já amei
nas mãos que já me amaram
o que sou eu se posso
neste instante
virar esquecimento?

aniquilamento é uma palavra triste
não se trata disso.
mas hoje,
eu poderia partir
sem dó
nem posteridade.

Quiçá Tentar Você

Pudesse eu ouvir sua voz logo ao acordar
Quiçá eu pudesse acariciar seus cabelos
sem pressa de ir embora, ao trabalho.
Pudesse eu ficar entretido nas tuas ideias
Quiçá eu pudesse o seu nome completo
os seus sonhos todos os seus medos.

Mas não importa. Não, por agora,
nada disso me fere ou lança ao diante.
Eu volto, me controlo e me seguro
pensando na paz do encontro ainda agora
vivo em sonho, apenas.

Pudesse eu dormir e acordar para dentro
Quiçá eu pudesse remendar a vida com seus beijos
sem medo de neles ficar obsessivo e preso.
Pudesse eu fruir seu corpo inteiro
Quiçá eu pudesse empacotar este meu desejo
e conservá-lo em banho-maria,

Mas não. Quando você voltar
- se você voltar
ou quando eu for
- se eu for
Tudo vai ter que ser de novo
como se fosse a segunda vez
quiçá terceira
(eu não me lembro)
mas de novo outra vez
quero te tentar.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

não consigo!

faz dias que não me empurro contra a parede
os dias nesta cidade do rio estão tão quentes
que tenho preferido me deixar solto e suado
perdido entre os afazeres mais bobos
como lembrar que se eu gosto de ti
eu preciso te deixar isso claro.

mas não consigo,
o calor que acabar comigo
e nisso, eu vou junto
seduzido pela possibilidade
de um fim qualquer
por derretimento
ou evaporação-precoce.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O nome que aprisiona

Está liberto. Nada nele pretende de novo ser capaz de limitar ou ferir. O nome que ontem aprisionava hoje quer sorrir, ir e vir nas bocas e fazer som estranho na boca de meninos. O nome que ontem dava luto hoje quer ser reto, distinto. Quer ser povo e constelação de estrelas. Quer o sonho, o nome hoje quer abrigo. Para guardá-lo é preciso ter peito. Afinal, não se sabe o motivo, mas os nomes pesam mais do que as letras em separado. Pesam ali no encontro entre uma e outra e logo assim, uma palavra é uma coisa excessivamente pesada e duradoura. Fica pedindo ao tempo seu reconhecimento. Fica pedindo ao homem algum preenchimento. Estavam todas vazias, no pátio, quando eu as avistei. Estavam lá, sem camisa, pegando frio. Umas trêmulas, outras em si mesmas confiantes. Então eu vim até uma delas e falei vem cá. Ela ficou estática, dava dó. Parecia estar cega. É certo que estava escuro, era já fim de noite. Hora propícia aos delírios dos versos que se matam e lançam ao mundo seu corpo esfacelado. Achei a palavra companhia meio perdida, desorientada e com bafo. A peguei no colo e seu peso me fez dobrar os joelhos. Como podia em poucas sílabas caber quase tudo que eu trago comigo aqui dentro do peito? Eu insisti. Permaneci trêmulo e calado, fazendo força e calor, sustentando a palavra ali naquele instante tão sem sentido, tão sem cuidado. E a trouxe para casa. E durante dois anos eu cuidei de cada parte sua. Contei-lhe histórias de dragão, contei-lhe a história da minha vida. Eu me abri em confissão e no silêncio em que me olhava, eu sentia que ela também se sentia confessada. Um dia, amanhecendo, olhei para o lado e ela não estava lá. Quis morrer, quis chorar, mas tão logo me veio a dor me veio a vontade de encontrá-la e de consertar o que pudesse tê-la feito de mim partir. Engraçado. Nunca vou esquecer. Ela estava apenas na cozinha, passando o café que fazia tempo ela sabia ser minha bebida predileta. Dividimos alguns segundos, eu ainda com os olhos marejados. Depois então ela foi ficando um ser social, tem amigos e ameaça ser hoje expressão. Anda apaixonada pela palavra irado. Formam os dois um casal estranho, mas sincero e feliz. Ele vem aqui em casa buscá-la e os dois saem a confabular para todos os lados. O nome que aprisiona, enfim, encontrou seu outro lado. Está potente e desperto no mundo sem a obrigação de detalhá-lo. É nome livre e desorientado. Capaz de causar o terror da ignorância e o prazer da dúvida. Depois eu conto a última que ele aprontou. Estou pensando seriamente em acabar com esse namorico irado.



O Teatro Inominável surgiu em dezembro de 2008. Atualmente, apresenta-se com os espetáculos Não Dois e Vazio é o que não falta, Miranda. Ambos dirigidos por mim e, respectivamente, com Dan Marins e Natássia Vello no elenco e Adassa Martins, Fabíola Sens, Flávia Naves e Helena Cantidio (no elenco e na criação dramatúrgica).

Fonte: Teatro Inominável

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Stupid Fool



RIGHT

Não.
Eu vou me erguer
cobrir a cama
tiras as coisas do chão
esquentar a água
fazer um café
e parar no meio do caminho
para me ver no espelho.

Sim.
Assim desse jeito.
Na ordem prevista
na rima já escrita
nada meu vai oscilar ou romper
sigo firme e concreto
rumo ao que quero que venha a ser.

Alguém precisa ter o controle sobre mim.
Se esse alguém não for eu mesmo
como faço se eu estou aqui sozinho?

domingo, 16 de janeiro de 2011

consequence of sounds

 
 
 

Oh, canção!

Não entenda errado,
eu não escrevi nada dizendo como entender, eu sei
mas não entenda errado.
Tudo aqui disposto quer o bem
o seu, o meu e sim, o nosso
então, por favor
não entenda nada errado
porque os versos querem todos cantar nossa harmonia.

Eu te peço,
não leia a poesia querendo achar confissão.
Tudo aqui está claro e preciso
e aberto e cortado
tudo dos versos despenca e vaza
é sumo desse encontro
meu e seu que ainda teima em postergar-se.

Mas não! Não ouse viajar demais.
Gaste seu tempo fazendo outra coisa
na novela ou no romance
na feira ou no abridor de latas
eu te peço, apenas, não perca tempo
com o que não se pode interpretar
mente minha mente quando distante de ti
portanto
há que se aguentar,
para não cair na asneira de achar no verso
o beijo ou a falta que acaba por nos limitar.

Eu te quero, olha.
E falta te dizer.
Então não vá lendo esse verso achando que eu quero me casar com você!
Não! É verso-imperfeição,
feito para suprir este soluço de coração
que irrompe no início da madrugada
pedindo reconciliação!
Mas não!
Poderiam ser tantos,
há tantos vocês que não só você,
então não viaja
fica na sua
e me deixa te sofrer
em metáforas distintas
em mortes ensaiadas
o nosso amor sempre existiu
independente da sua
ou da minha
autorização.

Não creia em nada, eu te peço.
É tudo golpe do meu peito para amenizar seu tormento.
É tudo golpe do silêncio querendo confessar sua confusão.

Não entenda errado.
Há só uma coisa a ser entendida
e eu hei de entregá-a a ti
quando colar minha boca a sua
e fizer junto a ti
canção,

Aguarde,
já já cantaremos juntos,
Oh, canção!
Oh, canção!

I Can Not Deny

com delicadeza
eu penso agora em seu rosto
em seu corpo
em você aqui inteiro
mas em mim reunido
e abraçado,

eu pensei
eu sei, eu penso
mas tudo ainda em segredo
sem ligar nem te deixar claro
como o que guardo sobre ti
aqui comigo
é leve lindo e promissor.

é um tempo meu, me desculpe
para testar nossas partes em conjunto
e imaginar a canção que faremos,
eu sei eu sinto eu anseio
isto que amanhã depois
talvez veremos se erguendo.

mas hoje,
agora neste instante
eu aqui neste quarto inoperante
sou café vento som e você ao meio
fatiado na ausência
inteiro no meu desejo
no carinho leve e lisonjeiro
pelo qual faço da sua pele recreio
e nela me deito
em dia de verão.

eu peço por tempo
eu imploro, talvez
e te chamo de novo
e você tempo me dará
mas acontece, carinha
que tempo não se dá
nem se tira
o que se dá, carinho
é o mesmo que se tira

e eu não posso negar:
em mim começo a querer
tudo aquilo que só sua presença
pode orquestrar.

e hei de negar, ok?
para que fique a mim claro
que sim eu hei de negar
que sim que fique claro
para saber que eu posso
apenas
me ser ao contrário
e te ter aqui
concretizado,

sábado, 15 de janeiro de 2011

i'm here dropping to inside myself

but not trying to find something
not in searching, not wanting neither in wait
i'm only here
in front of my own body
just feeling my smell
thinking that i could
yes, i could
i could cross my skin
and live happy underneath my touch
warm home solid and bright
i could live here
without anything
i could, yes, i could
but
and there's always more one "but"
after leave my mouth over my skin
over my frightened chest
over the legs and the arms
over my penis's head
i have to admit to myself
that i prefer
when i can't have me just for me
yes, i prefer
your legs in my mouth
your arms across my penis's head
your shaking inside my heart
bringing to life again
this body drunk
of himself
but
if you're not here
if the day will be hot like it is now
so
i'll have to admit
i can put my mouth around my skin
thin of you.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

eu estava olhando pela janela do ônibus quando ele me tragou.

 
 
 
 
 
 

Para a dor me ser.

Sinto-me grande
e capaz de doer.
De ser dor imensa que consome e me faz
cerrar os olhos para a dor
me ser,

Durmo nu
capaz de morrer.
De fazer o que quero mas silencioso
eu escuto o que não pode ser,

essa vontade de sair de si para se conhecer
vontade essa - essencial - de parar de ver o que não está adiante,
sou hoje capaz

e nisso conservo em mim,
olhos-mares desesperados
mãos-abraços potentes
beijos-bocas escarlates

respiro,
toques sem delicadeza
idas feito fossem tiros
saídas feito quebras

e me trago de volta à cama, mesa
e durmo, escondido da noção minha
de que o tempo ainda passa.

se passa que posso ser de mim?
Sou apenas espaço para a dor vir
e me vencer.

788

é porque talvez eles tenham vindo até agora divididos em mil pedaços.

eu olho essa quantidade toda e não consigo acreditar,
quando foi que os fiz? assim? nesse tamanho?

distraio-me um pouco, é muita pressão sobre os ombros.

mas volto a mirar - não todos - mas alguns.
volto a lembrar - não de todos - mas de uns.

como podem ser o que são e estarem tranquilos? 

devolvem-me ao mundo de uma forma tão cruel
sincera e mexida, forma estúpida e viciada
forma por vezes só feita de rima
e mais nada.

eu me vejo então neles e me suplico
como pude?
como posso?
como ainda faço
esse tipo de perversão?

e lembro-me então de um - ou outro
lembro-me de uma voz minha, mas dele(s)
dizendo-me ser quem eu sou
dizendo-me nunca ter se importado com isso
dizendo-me
meus deus, sorte nossa haver o tempo.

e me acalmo, de certo
pois posso apenas enrubescer, e seguir
pleno
eu sou assim
eles também o são
como podemos sofrer
se entre nós
o que existe é comunhão?

deixe que nos digam!
um deles abusa
deixe que invejem!
outro gesticula
no final das contas
eu vos digo
seremos apenas nós todos
sozinhos e abandonados

eles me olham
e eu repito
em outras palavras
filhos meus,
vosso pai nasceu
mas para ser sozinho.

olham, ainda, mas obtusos
e eu repito
com calma e precisão de um maduro
vosso pai, filhos queridos
nasceu para dentro
e eis que o 789
- que é número só porque ainda não tem nome -
ele ergue a mão disforme e anuncia
sem dizer nada
ele anuncia que quer tentar sentir
o que é isso de ter nascido para dentro
o que é isso de ter nascido sozinho.

e se levanta
e daqui se retira
para se postar
em breve
testando sempre pela primeira vez
a sua
a nossa
a minha rima. 

No coser das linhas...

03/01/2010

Mais uma vez, eu estou aqui diante de você. Que suspense esse a nos coser, não? Onde eu venho e você me recebe e nunca é possível nos satisfazer. Quando eu venho e você não me recebe, o que se traduz em seguida, aqui em mim, é de novo um tentar, nunca em mim o fim poderás dizer.

Romper das linhas talvez. Dos gestos. Do modo como eu em ti me opero. Paro um instante para nos escutar, mas você é tão pouco ruidoso. Penso se às vezes não seria bom ouvir você falar. E então te contemplo, sim, sobre você eu perco meu tempo. E então é no vazio que antes em você eu previra, é neste vazio que você me acena outra possível investida.

Então invisto eu de novo sobre seu corpo. Invisto aos gritos, por vezes vou pelo seco. Faço sangrar tua pele, mordo devagar, espeto a barba nesse pensar e dele vou tirando a sina que nos sustenta. Você é meu vício. E vício, por definição, não se abandona. Vício se enerva. Hoje um pouco, amanhã inda mais. Você é meu vício e que bem que isso me faz.

Eu pulo por sobre teu corpo. Que imensidão esta a que me apraz. A que me puxa. A que me faz. Dou-lhe nomes, invento rimas. Em você nenhum dizer meu se perde. Tudo meu em ti se eterniza. És meu tempo, és meu espaço. O meu amor pelo mundo em você eu testo e refaço.

Hoje mais, amanhã talvez mais um pouco. Quando eu me perco em você é porque talvez já esteja perdido em outro. É quando então você me judia, ao invés de me ajudar. Quando sequer me permitir aceitar que certas rimas são incapaz de rimar. Que certas palavras deveriam morrer e não se cultivar. Você me contraria, faz por ciúmes, por medo talvez de perder minha loucura. Deixá-la ser curada pelo amor.

Mais uma vez eu aqui tentado tentando a escuridão. Ilumina-me, que eu lhe dou vida.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

olho televisor

depois lá na frente
eu volto e olho para isso aqui
mas com cara de escárnio.
como posso ser tão intenso de mim
e ausente, num segundo passo?

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

April 2007

Pés
vidro
espelho
sorriso sem dentes
Reflexo passageiro
a tempo de gosto deixar
impreciso
preso nos segundos
já idos
Toca
o piano
eu diria
o piano
me toca
e me alimenta
preciso
indo
sem pensar
eu digito
na pele
a canção que não pode só
passar
e que precisa de ponte
obrigado
eu ouço
eu danço
eu parto
e você aqui
vê como estou perdido?
queres vir até mim?
pode vir,
eu estou todo solto
todo capaz de doer
não temo
não reluto
eu vou com você
você que foi antes do seu tempo
que me deixou só
para quem meus segundos contam mais
por quem minha existência se dói inteira
sem dor
sem pane
só amor
isso que faz
com que tenhas partido
e tenha ficado
- inteira
- intacta
incapaz de ser removida
mais forte que tatuagem
mais forte que o silêncio
você que foi e que ficou
virou de inédito o eterno
és doce e me dói não ter
você aqui para me abraçar num só tempo
você aqui para dividir comigo os meus tormentos
você aqui para me tirar para dançar
você aqui para me compreender
desculpe
não era para isso que eu havia começado a escrever
mas é que você me invade
a sua falta me perfura e faz doer
como posso então não seguir doendo
como posso bater a porta rumo a ti
e fingir aceitar
fingir não me rasgar
fingir não me ser?
eu sou o que seu não ficou
eu sou o que você deixou para trás
e não tento mais compreender
eu não tento
eu sofro apenas
como fosse isso algum ir
como fosse isso qualquer coisa
capaz de amenizar
a dureza de um encontro que eu sei jamais poderá de novo acontecer.

que brusco isso que fizeste
te tiraste de mim sem perguntar
arrancaste de mim o meu direito de ti
e foste embora
sem pestanejar
foste segura
achando que essa dor fosse capaz de se sustentar
poxa,
por vezes fico puto
quero te matar
mas já o fizeste, não?
foi assim que amenizou seu desespero.

eu queria ao menos que o tivesse dividido comigo.
eu dava um jeito sem dúvida de resolver o que fosse
para te ter ainda aqui comigo.

Iniciar-se

Pressupõe um respiro só
pelo qual vai o corpo andando valente.
Não olharás para trás
não sorrirá adiante
Serás preciso e direto
a tempo de se ter no semblante
fibra futura e dilacerante
capaz de cortar a dúvida e fazer dela
instante,
apenas
que dor me dilacera a cada segundo que me lembro do que deveria ter sido e ainda não encontrou seu segundo
seu tempo - operante
que dor me consome
a cada estalo que olho e vejo dever ter sido
a cada tempo que não se conclui num início que não foi
num beijo não sido
numa coisa não acontecida e que por isso
dói em mim
o seu não início,
como começar?
é só isso que me digo
é contra isso que me lanço
neste mar
de meias medidas meio tomadas mas dentro
só dentro
nada fora de mim alça sua seta e vai
tudo murmura em mim e faz do meu corpo
consternação
incapacidade plena e reluzente
deste tempo
que não quer ir
mas sim
morrer um bocado
antes de cada coisa
como fosse prece
ao que virá somente para
- como costumam dizer -
bater la ficha.
Eu usava maiúsculas.
Falta-me sinceridade e diversão.
Peço desculpas.
Peço perdão.
Peço licença.

Reatalhos

comprar remédios
pagar contas atrasadas
resolver pendências antigas
refletir novos projetos
fazer a barba
varrer a casa
o perfume está acabando
e meu peito em si
só ama a poesia.

comprar legumes
fazer faxina
contabilizar gastos
rebobinar a fita
carregar o celular
passar fio dental
e amenizar as investidas
minha
rumo ao sexo casual.

como faço para ser um homem habitual?
como faço para ter o café
o almoço
a sesta
e a janta?

como faço para pedir uma mão em casamento
para usar terno e ter ações
para dirigir carro e não peça de teatro
como faço?

para ser outra coisa que não ficção
que não ficção de mim mesmo
que não eu
como faço?

Réquime

seria um bom sinal: se eu sofresse a nossa
desarticulação, seria bom
indício, de que algo em mim é capaz
de doer. mas não
permaneço indiferente
como os que se sentem eleitos
para produzir versos.

eu-motivo-querer

eu só queria ter motivos para não correr
ter motivos para ficar
e persistir nas horas
acompanhado talvez de um café.

queria motivo suficiente para dizer calma
sente aqui comigo e escuta isso que toca.

eu queria motivo para chorar sem pressa de secar a lágrima
motivo para fazer de novo sempre que me desse vontade.

eu queria motivo de sobra
para dormir no meio da tarde
motivo para sorrir sem receio
nem vergonha
de mim mesmo.

eu queria motivo para um começo
para um avanço e um ficar no meio
mas sem drama
sem medicação
motivo para seguir nos dias
sem nada
exceto
a comunhão minha com o tempo.

queria motivo dobrável
capaz de molhar sem perder cor
capaz de cair no chão e ser atropelado
sem perder a tenacidade das rimas
nem o provável embaraço.

eu queria ter motivo para isto que faço
mas não tenho
não encontro
nem busco
eu me lasco
toda vez que faço da minha poesia
alguma coisa além do próprio ato
de navegar preciso
nessa imensa solidão pulsante.

eu queria motivo
e o motivo nem esteve tão distante
foi erro de articulação
erro de fonema fonética - como se diz ?
o motivo é ele próprio
eu queria
eu queria
é o motivo
eu - motivo - o querer
todo dia,
basta pensar em rima
ou versar a vida,

tudo enfim consumado.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

sobre ela

tá ruim
tá viciada
não sabe a que veio
não sabe mais de nada
tá repetida
tá na mesmice
tá chutando tudo
amando a qualquer coisa
tá inflamada
mas é mentira
eu sei
é mentira
quer chamar atenção
quer se ter piedade
- sem dizer
quer ser comentada
- sem merecer
quer tudo o que não pode
mas no íntimo
espera
- ansiosa -
absolvição de si própria
espera o verso redentor
a sacada genial
espera quem sabe um outro autor
que lobotomize o original
e a faça
nascer
de novo
possante.
é tão ingênua
é tão dramática
e inoperante
que me faz escrever nela mesma
todos os seus sonhos
como se escrevendo
oh como estou sofrendo
fosse me dar medo
fosse me dar pena
fosse me dar câncer
mas não
não colou nem colará
ela tá boba
tá perdida
e eu não vou a procurar

um dia eu caí aqui
nela perdido
hoje eu já não quero desmentir
nem mentir
sim, dela eu preciso
mas para quê?
eu não ouso tentar
para quê? não importa
eu vou continuar
e ela
ela vem junto
sou eu quem mando nela
infelizmente
ela sugere a mim
querendo me fazer triste
e desolado

eu vou embora
depois eu volto
talvez no meio
eu pense
eu pense, de fato
ter ela razão
e eu nada
exceto sua vaga
companhia.
eu nada exceto sua vaga,
hoje vazia.

Somatizo

nada especial acontecendo
talvez nisso eu perceba
o normal agindo
o que não é especial, a princípio
mas há tanto
há tanto aqui comigo
os projetos
os filhos
as cobranças
as metas
destinos
eu querendo tanta coisa que não me consigo
ficar em pé
restar tranquilo
e vou dormir sonhando
e acordo perdido
porque a realidade é mais sonho
do que vazio,
como costumava ser
como costumava ser.
eu então sento aqui
venho até você(s)
e escrevo
e escrevo
hoje tive vontade plena de escrever um livro
se chamaria
LOGO EU QUE NÃO TENHO HISTÓRIA PARA CONTAR
não me lembro
acho que foi
o nome
acho que foi
EU QUE NÃO SEI CONTAR HISTÓRIAS
ou algo assim
parecido
eu ficaria tentando te contar esta história que não tenho
que talvez nunca venha a ter
e por quê?
eu queria saber apenas isso
apenas isso
o porquê de não ter histórias junto comigo
o porquê de não ter ficções me brotando o corpo
tudo em mim está tão impregnado de vida
que eu não sei
eu me sinto preso
e só mesmo dizendo isso
para sentir a coisa indo se soltar
vai
solta de mim
me desimpede
que eu invento de novo
outra forma de criar fixação
que não mais drama
que não mais você
eu sou alguém que ama
mas sem desespero
eu sou comum
eu sou
como tantos outros
alguém passageiro
que num já já
próximo ou não
há que se dissipar

me chama?
eu vou com você
ver o arco íris que hoje quase ninguém viu
eu vou com você rumo ao que já sabíamos não existir
nada prévio me conforma ou assusta
vamos tentar o que não se tenta
vamos fugir das linhas
por favor, eu te peço
vamos deixar de ser poesia.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Mote

O que te faz seguir sem parar?
Ele se pergunta ao espelho. Ele realmente talvez precise entender. Por que vai sem freio? Por que não cede a um segundo que seja de divertimento? Estás sisudo, duro, sem recreio, como pode? Pára um segundo e veja o seu redor: ele é todo ameno e complexo. Por que reina você sozinho dentro do silêncio que cava para si? O que te faz mais especial do que um simples ser que vai como os outros? Por que precisa ser tão diferente?
Temo a morte.
Ele se diz. Firme ao espelho. E isso não te faz menos passageiro...
Temo a morte, ele irrompe contra si mesmo.
Por isso então você corre? Que loucura! Você não pode se achar melhor por isso...
Deu defeito. No meu tempo. Na contagem das horas. Eu sou mais do que simplesmente... Passageiro.
Eu sou possível do sumiço. Sou provável ao esquecimento. Poderia desaparecer sem você me dizer nada. Eu posso não ser falta.
E então? O que você inaugurou? Tudo é assim, porque que com ti deveria ser diferente?
Porque eu sou pai.
Pois não?
Sou pai, eu repito, sou pai.
Pai de quem que eu não vejo.
Não importa dizer. Eu não ponho um filho vivo para que ele me lembre toda vez de quem é feito. Meus filhos nascem livres de mim e isso me torna ainda mais quem eu sou, é nosso segredo, eu sou a passagem mais demorada sobre o mundo, tamanha a aflição das crianças nesse imenso recreio que parece não querer cessar... Você não sabe,
mas elas conheceram outros amigos que foram capazes o suficiente de as levar
para onde? NÃO SEI.
por quê? NÃO IMPORTA,
importa que foram e me deixaram mexido
deixaram-se somado e subdividido
em cada esquina de seus sorrisos
deixaram-se-me repleto
em cada tentativa sua de manejo deste mundo
e de outro - que são -
como posso dizer?
acho que passageiro
mundo de verbos e pausas
de sentidos expressos
de furtos e cruzamentos
que mundo é esse deles, meus filhos
que não paro de entrar
sem nem ter para ele sido feito?
que mundo é esse
onde meus pés não funcionam
onde minha voz não serve?
eles seguem, você verá
cada filho nele segue livre
capazes que são de quebrar
e enfim,
comigo os levar.
Sorte que são muitos,
eu me digo ao espelho. Sorte que estou mais dividido do que só ao meio. Sorte a minha. Nunca mais ser capaz de colar. Ser pedaço. Ser estrela. Ser o todo incapaz de se completar e que por isso, está sempre a vagar... Sempre a vagar. Sempre com aquele espaço - não falta - aquele espaço onde você pode hoje - tendo lido isso aqui - se deitar e enfim, rest..
AR.

Tripé

Sobre o qual
dormem meus sonhos.
Nele, impeço
o tempo e brinco pleno
nu sob este vento
todo inventado,

Ergo-me,
onde está você?
Que mesmo longe
me faz tão calor?
Onde está você
que eu não encontro
exceto o cheiro
exceto um ou
outro jeito
lembradosquecido
em mim guardado,

Espera,
a manhã veio depressa
acordei sem contorno
difuso
o café já tomado
o calor já desperto
que música é essa
que não conheço
e que me leva a ti?

Eu tento alternar,
eu tento - como se diz? -
já não consigo
já não posso conseguir
o que faço então
se o que quero eu não lembro
se o que quero ou é tu
ou é ti?

É poesia, eu desconfio
e me empurro contra mim.
Pode ser. Sim, talvez seja.
Pode ser que seja mentira
pode ser que seja,
mas - e faz-se ouvir a multidão -
desde quando poetar me fez
ouvir menos
meu coração?

Perco
amanheço já todo ido
não importa se vou
me encontrar
me de vez te perder
não importa nada
exceto o fato
de que ao não te conseguir
- dois pontos -


eu sou ainda mais eu.

inseto

eu ia matar o inseto
por medo, eu o mataria
e alguém distante
ao me ver esmagando-o
contra a parede da sala
diria ter eu inveja
inveja
por não poder voar
e ser negro.

eu mataria sem receio
não tivesse ele se chocado
contra as paredes
como se ele mesmo
fosse dar fim a si próprio
tamanho seu desespero.

eu teria o matado
sem freios
não tivesse eu percebido
já no meio
que o que temo é passageiro
que o temor é só receio
de se reconhecer capaz de amar o que não é pleno
de amar o que não reluz nem brilha
de amar o que apenas é
sem mais nem menos
sem adorno e sem recreio

ele veio
invadiu minha casa
fez barulho sobre o rádio
e onde ele está
que não vejo?
onde ela está
que esta poesia
é incapaz de lhe deter?

voa dentro da noite.

e eu aqui,
tramando versos.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Mãe, me conta uma história?

Ela - O que foi filho?
Eu - Me conta uma história?
Ela - Mas está tarde.
Eu - Por isso mesmo, me conta, vai...
Ela - Mas uma história... Está na hora de dormir.
Eu - Eu quero dormir com uma história na cabeça.
Ela - Não, você tem que dormir com a cabeça descansada.
Eu - Por isso, história não cansa...
Ela - Mas deixa você agitado.
Eu - Pode ser uma história calma.
Ela - Eu só conheço história agitada.
Eu - Pode ser.
Ela - Depois você vai ter pesadelos!
Eu - Eu acordo, qualquer coisa.
Ela - É melhor não.
Eu - Mãe, é só uma história. Rapidinho, eu vou dormir, prometo.
Ela - Amanhã, talvez.
Eu - Agora!
Ela - Sem pirraça!
Eu - Não é pirraça, eu tô te pedindo uma história, você sabe um monte, custa?
Ela - Custa um sono tranquilo e importante para que você cresça como tem que ser.
Eu - Como tem que ser o quê?
Ela - Como tem que crescer, como deve ser...
Eu - Como deve ser?
Ela - Deve ser... É como dizem, tem que ser tranquilo...
Eu - E sem histórias?
Ela - O que foi?
Eu - Para crescer tranquilo a gente não pode ouvir histórias?
Ela - Talvez nem tanto quanto costumam fazer.
Eu - (angustiado) Mãe...
Ela - O que foi, meu pequeno?
Eu - Eu hoje cedo...
Ela - O que tem?
Eu - Eu peguei um livro me desculpe
Ela - O que foi?
Eu - Eu peguei um livro na sua prateleira e comecei a ler.
Ela - Você ainda não sabe ler, rapaz...
Eu - Mas a minha cabeça tá cheia de coisas que eu li...
Ela - Está vendo? Tem que ir com calma.
Eu - Conta uma história, por favor!
Ela - Por que tudo isso, filho?
Eu - Pra organizar. Conta uma história pra organizar essas coisas todas aqui dentro.
Ela - Filho...
Eu - Por favor, mãe. Por favor!
Ela - (angustiada) Eu...
Eu - Por favorzinho!
Ela - Eu não sei... Contar histórias.
Eu - Só umazinha, vai!
Ela - Eu não tenho nada para te contar. Me desculpe.

A mãe se levanta, apaga a luz e sai do quarto. Deixando ali o seu filho, sobre a cama, feito um autor precoce, tentando juntar em sua cabeça, os pedaços. Todos os pedaços que não cessam de quebrar. Nunca.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

blocos movediços de músculos embaraçados em poesias craqueladas de líquidos disfuncionais

Eu não tenho vontade de ir, me desculpe. Meu apaixonamento é com este tempo, com este segundo, no qual sento e escrevo essas coisas que são apenas palavras brincando com o que trago preso aqui dentro. Sim (eu teimo em dizer sim, não como se duvidasse de mim, mas como se você não pudesse crer no que vê diante de ti). Eu quero dizer, eu estou aqui e agora e no amanhã, eu sequer existo. Eu não sou feito de futuro, eu não sou feito de data de validade porque data há uma só e se chama agora, se chama instante em algumas culturas, noutras pode-se ouvir o famoso "Já". Entende assim como está tudo aqui dentro de mim? Eu não quero seguir, eu não quero planejar, eu quero ir levando o segundo e vê-lo morrer ao mesmo tempo em que nasce outro em seu lugar. Sim, de novo, eu preciso dizer, as coisas morrem e eu amo vê-las morrer. Amo ver a vida se organizando e produzindo-se de novo e sempre de novo e num dia sou eu quem morro e noutro será você e nem sequer saberemos quem veio depois de nós porque o depois é só uma forma de se abster de nosso tempo, olhando adiante como se lá na frente - que não existe - pudéssemos remendar nossa destruição feita agora, e agora de novo, e de novo outra vez e nisso, morreram todos, pensando lá na frente e não aqui, não em si, não em você, mas cismando em destinos.

Eu me deslumbro é com isso. Com esse calor sobre as coisas da casa, com esse poder de ser parede e ser nada. Com esse sono que me faz tombar, com as dores do corpo que me gritam de novo a mim e com todas as outras coisas para as quais nunca teremos palavras. Eu sei, pode ser chato, mas eu cansei de informar. De revelar algo para além do que realmente tenho aqui. Estou vazio de histórias e tão pouco sei de mim. Não vou então me desatar em nós improváveis tentando criar um clímax que amenize este tempo silencioso dentro do qual resto só dentro de casa, nu, cheirando a café, por entre livros ventos e canetas e papéis. Por entre sonhos que percorrem o chão da sala em meio ao jornal de hoje.

Eu talvez esteja doente. Talvez esteja doente do meu tempo e incapaz de sair dele, incapaz de lhe fazer frente, incapaz de ser capaz e, nisso, me reconheço. Talvez eu queira mesmo estar doente. É motivo ao corpo para continuar se testando, se dizendo vamos, acorde, vamos, se controle, vamos, vais cair, vamos, saia já dai. Eu não sei, eu não quero saber, nem mesmo tenho raiva de quem sabe. Mas, preciso dizer, acho que saber vai servir no final das contas para explodir tudo aquilo que se sabe.


Não há mais para onde ir, exceto para o centro de si mesmo, exceto para baixo do pilar de sua própria torre e, nisso, ali, explodir-se. Como quem esteve esse tempo todo repleto de fantasias, de cores, formas, riscos, traços, blocos movediços de energias doloridas, músculos roxos, olhares embaraçados, poesias semi-vivas, versos autônomos, paredes craqueladas, níveis irregulares de líquidos disfuncionais, essas coisas todas, que perfuram o simples dia-a-dia e que fazem dele: acontecimento.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Assim Assado

Talvez já estejam furados
por isso não percebo nem vejo
apesar de jamais negar o tremor
este eu carrego inteiro.

Talvez desde pequeno
tenha ferido os dois, sem doer
como quem fere outro peito
sem nem tiro ou seta
sem nem sangue
ou despedida.

Talvez sim, desde então
eu tenha visto o que não veria
tenha eu visto o que veria
não em você
mas na ausência sua
poetizada em minha miragem
difusa e sempre contínua.

Talvez tenha ficado nublado
eu talvez tenha me apaixonado pela confusão
tomado pelo medo
de um dia te ver
não como tu és
mas como tu não poderias ser
dentro da minha sua construção.

Talvez não importe dizer
talvez eu devesse amar o silêncio
talvez eu devesse ir dormir
e não me preocupar tanto
com suas mágoas
com minhas pontas
que a ti
clamam remendo.

Talvez esta palavra talvez
seja o sinônimo maior para o amor.
Porque da mesma forma que vai
e que fica
da mesma forma volta
e se desmancha

Ora serve
ora não serve
ora dói
ora dói demais.

Assim,
feito poesia:
por vezes clara
por vezes estúpida
e incapaz.

Assim feito eu
para você
ou você hoje para mim:
estorvo delicado
guloseima empoeirada
resto precioso
constelação falha.

Assim, talvez
a gente pode se encontrar
noutro tempo.
Talvez, assim
a gente noutro tempo
se encontrar poderia.

Assim assim
talvez talvez
noutro outro
a gente se encontre.
Noutro outro
eu de ti me esconda
e você de mi se faça
ainda mais lindo
ainda mais grande
Errado
como tem que ser
para deixar esse gosto
de vontade apaixonada.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Sofrível Cifra

Perdão. Eu não consegui te desvendar a tempo. Eu nem sequer tenho consciência de ter tentado, porque estive ao seu lado admirando a cor do seu embrulho e não te decifrando, não para dentro de mim te trazendo. Eu peço desculpas, mesmo, seu conteúdo mofou e tudo parece ser culpa minha. Mas eu não entendi, eu não consegui entender. E nem posso dizer que não consegui porque eu nem sequer achei que houvesse algo ali em ti para ser conseguido. Eu compartilhei a sua cantada, estive presente no nosso primeiro encontro, eu fiz o favor da elegância ao pedir uma salada e não uma picanha completamente engordurada. Eu cumpri tudo direitinho, fui ao cinema, dei as mãos - a um desconhecido - e ainda troquei beijos. Mas me desculpa. Para mim, naquele momento, não havia nada além daquilo que trocávamos com desejo, sim! Eu não sabia que tinha brinde! Eu nunca fui criança gulosa! Para mim dava para ficar a vida inteira trocando olhares e esperando sim o bendito dia em que viria uma cavalaria me pedir em casamento. Eu não entendi o seu piscar que não veio. Eu não decupei seus gestos querendo entender nele algo além do simples tocar, algo além dos lábios que se encontram para beijar e não para matar a sede e não para trocarem o ar que estivesse acabando e não para dominar a instabilidade dos corpos. Comigo foi tudo literal e nisso, eu sei, hoje eu sei, eu te interpretei mal. Não vi a poesia que escorria dos seus olhos, e se hoje eu a vejo, talvez me parecem mais com lágrimas do que com um rio que quisesse me afogar. Não vi nada disso, nada de onda, nenhum pio de desespero. Eu vi desde sempre um passatempo. Um encontro que depois, caso quiséssemos, poderíamos transformar em outra coisa. Nem me lembro sequer de ter imaginado: será que algum dia será dita alguma coisa? Será que há uma preparação para o Isto? Será que é preciso cumprir um tempo específico para depois - oficialmente - deixar que ficassem atadas as mãos? Eu não soube, eu não saberia, até então. E nisso, machuquei seu rosto, seu peito, seus segredos que tão cifrados ante ao meu olhar sempre estiveram e talvez sempre assim ficarão. Eu não entendi seu gromelô apaixonado. Eu não entendi o ruído na sua respiração (achei ter sido um resfriado). Eu não fiquei atento se rolava uma ereção a qualquer ato meu. Meu deus, isso é sofrível. A volta imensa que nós damos quando na verdade um ao outro poderia ter dito: Quero ficar contigo. Para além desse beijo. E os olhos curtos e grossos teriam mirado estrelas. E as bocas teriam se aberto como canção. E as mãos teriam virado afago capaz de afogar, os dedos caules capaz de furar, e tudo então em ti teria sido rima.

Mas essa é só a minha verdade. E, talvez, por ser verdade, esteja fadada a morrer comigo sozinha. Quem se importa? Este Blog está cheio de cifras destinadas a você desde então aquele primeiro dia e não serei eu quem vai desvendar meu próprio mistério. 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Eu menti...

Porque achei que isso fosse resolver alguma coisa. Eu menti porque pensei que fosse doer menos em você. Eu menti porque acabou o meu chiclete. Eu menti porque estava sem dinheiro. Eu menti porque estava com medo. Eu menti porque meu computador estava com defeito. Eu menti para te tirar de perto de mim. Eu menti porque tenho muita vergonha de ser quem eu era. Eu menti porque ainda não sei falar. Eu menti porque nos seus olhos eu intuí que você não fosse gostar. Eu menti porque eu era discurso. Eu menti porque eu sou fantasia. Eu menti porque a percepção de quem eu sou - de fato - me azucrina. Menti porque nasci gritando. E sorri para amenizar o encontro. Menti porque as pessoas mentem. Menti porque queria testar. Menti porque gostei. Menti porque não queria mentir. Menti porque disse a verdade. Menti porque a tosse quase me matou. Menti porque o verbo me faltou. Menti naquele dia. Menti no momento final. Menti por medo de você se achar menos especial. Menti o tamanho do pênis. Menti o tamanho da calça. Menti o tamanho do meu desejo. Eu menti o início querendo acreditar já lá no meio. Eu menti aos pedaços. Menti sedução e menti sobre ter marca-passos. Eu menti doenças. Eu menti saúde para poder te acompanhar. Eu menti meus medos eu menti meus sonhos eu menti tudo para ficar mais tempo perto de quem eu queria. Eu menti meu choro achando que você sentiria falta de mais algumas lágrimas minhas. Eu menti porque estava gritando. Eu menti porque mentira pega. Eu menti porque exercitava. Eu menti porque sou ator. Eu menti porque sou autor. Eu menti porque sou desculpa. Menti porque sou seguro. Menti porque sou incapaz de tolerar o peso da sua ausência. Menti a manhã. Menti a tarde. Menti a madrugada. Menti você inteiro. Menti minha mãe inteira. Menti meus receios e amanheci nu e cortado. Menti minha fala e amanheci calado. Menti meu corpo e sobrevivi machucado. Menti aquela música e nunca mais a esqueci. Menti sua distância e hoje sonho em te ter sempre mais perto de mim. Menti que falaria de volta se me desse vontade e fui pego pela vontade sucessivas vezes depois. E eu mentindo, achando que mentir fosse dar jogo. Menti porque não sei. Menti porque eu continuo sem saber. Menti porque não há mentira maior que a sinceridade. Menti porque poderia ter sido com outro. Menti porque não aceitei ter te perdido. Menti porque, ora, eu sou teu amigo. Menti para imaginar você aqui. Menti para não ir por completo. Menti para chorar contigo o seu desespero. Eu menti durante esse texto. Menti durante quase todas as frases. Menti brincando de redigir algo vazio de mim. Menti achando que fosse suprir a falta de alguma poesia. Eu menti acreditando ser mentira - esse desejo imenso meu de ver o mundo e chorar da sua alegria. Eu menti quando escrevi você sem ninguém em mente. Eu menti quando disse ser solitário. Na verdade, tenho achado que eu sou doente. Mas costumo mentir. Então, francamente... Que segurança temos sobre as coisas que sentimos?

domingo, 2 de janeiro de 2011

Meio

Um dia, caminhando rumo a sabe-se lá onde na rua São Clemente em Botafogo, eu cheguei a uma conclusão que como tal mais tarde eu viria a descobrir ser precipitada. Eu estava me sentindo sozinho nesta cidade do Rio de Janeiro, de não sei quantos milhões de habitantes. Havia perdido uma amiga faziam alguns dias e estava completamente recluso, negando a tudo, à diversão, aos estudos, aos compromissos. Nada parecia dotar a minha vida de sentido. Eu não entendia, mas estava experimentando a morte.

Foi nessa caminhada pela rua São Clemente (confesso não saber qual era o destino), que eu concluí que quanto mais amasse, mais dor eu sentiria. Era óbvio, que brilhante!, eu havia descoberto alguma coisa realmente séria e importante sobre a vida: quanto mais se ama mais se pena. Sim, eu realmente acreditei nisso durante muito tempo e tenho certeza que até hoje não me curei por completo. Eu conservo ainda em mim alguma resistência que me faz ser meio... Como dizer? Meio assim incapaz de estar lá ou cá. Um bicho meio assim assumidamente rachado.

Eu entendi errado a oração quanto mais se ama mais se pena. E danei a escrever sobre tudo o que mais me atormentava. Caramba, eu caí na cilada das palavras e acreditei não na dor - que sentia - e sim em sua metáfora esvaziada. E fiz pior, tão logo descobri meu erro: decidi também penar como aquele que sofre de verdade. E sofri a vida, sofri a esquina, o pão, o leite e o ar de cada dia. Eu estive embriagado durante muito tempo sofrendo o real e sofrendo a poesia. Eu gabaritei em Sofrimento I, II e III; eu cheirei a morte e fiquei alucinado. Assim, eu acabei dando em mim.

Foi um erro sim, mas que assim me fez. Alguém que desconfia um pouquinho de cada coisa. Não que não seja capaz de simplesmente ir - eu vou! pode me chamar! -, mas, é preciso dizer, o pé atrás me faz lidar com certas coisas que a vida faz brotar na sua frente e que, sem jogo de cintura (como diz a minha mãe), não se conseguiria seguir adiante. Naquele dia (eu me lembro), eu quase aceitei ser triste para o resto da vida.

É só que estando assim tão perto dos familiares, eu fico vendo neles as minhas impossibilidades antigas ainda persistindo e sendo recusadas, como se o choro fosse sempre reação errada. A gente que lê e se diz poeta teima em ver profundeza até em carta de baralho. Ai eu não aguento e tento amenizar a dor mostrando que ela ainda é pior. Não, eu não aprendi a viver e eles não, é só que o medo vem quando as coisas começam a mostrar mais pernas e braços do que a fantasia que pusemos nelas foi capaz de esconder. E sim, cara, você vai ter que lidar com isso. Nada vai ser completo. Nada vai ser completamente vazio. Tudo, no final das contas, vai ser o tal meio do caminho.

O meio é também uma forma de seguir.

Algumas felicidades nesta vida nos chegam como fagulhas, como traços, riscos, ou seja, tudo de certa forma é passageiro. Estar completo, estar cindido. Tudo vem e vai e esse parece ser mesmo o ciclo. É mais justo encarar a vida de frente, sem subterfúgios. Nesse dia, eu fui posto contra a parede e obrigado a escolher: ou eu seria triste, ou eu escolheria viver.

Bom, eu escolhi ser triste. Devo admitir. E hoje vivo pleno na confusão do que sinto do que vejo do que crio. Mas eu vivo, sabe? Por vezes recolhido demais, na tal solidão essencial que o artista parece querer. Eu sou meio... Sozinho. É assim que se fala? Eu sou sozinho, mas não incapaz de te receber. Meu tipo é desses que enche a caneca de café e fica a se rever e se revistar. Eu me coloco no colo e me faço autópsia, para sempre abrir e fechar, para sempre descer as fantasias e ver a minha pele naquilo que ela tem de pele (e não de esconderijo).

Sem essa brincadeira de ver pena onde nem sempre tem, eu não saberia viver. Foi no dia em que eu aprendi a me fazer chorar, que eu descobri que era capaz de sarar.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Meu nome é Diogo Liberano Ribeiro

Oi gente,

Eu não saberia começar de outra forma. Na verdade, como dar um alô para as pessoas que entram aqui nesse Blog? Bom, eu confesso que às vezes acho que sou apenas eu quem entra aqui. Mas sei que não é verdade e que achar isso é uma injustiça. Vez ou outra eu recebo um comentário (e isso me faz continuar, sim, é verdade). Vez ou outra o contador de acessos me indica que há mais movimento do que somente o meu e de meus filhos. Pois bem, isso tudo é porque eu queria tentar algo novo para este ano.

É que eu tenho percebido, sabem? Eu inaugurei esse Blog em janeiro de 2008. De lá para cá, já foram três anos de postagens, todas sob o mote Lendo Árvores e Escrevendo Filhos. Sim, este aqui desde sempre foi um espaço de criação, de investigação poética, de investigação dramática e - apesar de tal criação estar vinculada a mim e a minha vida - eu quase nunca fui além disso. Eu quase nunca escrevi coisas além de poesias. Meus filhos são todos melancólicos e profundos. Ou pelo menos é assim que o pai aqui os enxerga.

Portanto, eu quero dizer com isso tudo que sinto estar faltando personalidade aqui neste espaço. Afinal, quem é o maldito pai dessas crianças? O que ele faz, o que ele está fazendo, o que ele vai fazer? Diz respeito a tentar me abrir aqui para além de poesias. A tentar produzir outra coisa que não produtos. (Perdoem-me, meus filhos!) É só que o mundo está girando desde então e eu só o olho pelo viés de minhas crianças. E, sinceramente, elas eram mesmo muito pequenas. Mas agora, filhos meus, vocês já andam por si só e não usam fraldas, ou seja, o papai já pode respirar novos ares e receber visitas na nossa sala de estar (ainda que restos de brinquedos estejam soltos por toda a casa).

Calma. Não significa que agora eu vou falar de mim (os meus filhos já fazem isso e que difícil é fazer com que falem de outro assunto). Significa apenas que eu quero explorar outro tipo de narrativa, outro tipo de ficção, outro tipo de realidade. Quer dizer, portanto, outra produção, outras tentativas e outro grau de abertura e experimentação. Aceito sugestões. Mesmo, eu aceito sugestões. Mas sinto - e nisso, eu sei - falta aqui neste Blog personalidade. E como pode se eu sou uma persona? Como pode faltar aquilo que até agora foi justamente o que sustentou cada um desses filhos?

Pois como começar? Bom, meu nome é Diogo Liberano Ribeiro, eu tenho 23 anos neste início de 2011 e meu signo é Libra. Não uso o meu sobrenome Ribeiro. Mas não é por causa de questões familiares. É só porque não uso mesmo. E eu sou diabético desde os seis anos de idade e eu gosto de café. E este último parágrafo é uma tentativa de começo. Tenho a vida inteira para desbravá-la, mas para isso, é preciso mexer em si mesmo.

Bjos,
Diogo Liberano