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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Passagem

Chove
Um ônibus passa lento
Um carro apressado
Algumas vozes
Não sei o que dizem
A fome
O frio
Um tonel de duros fatos.

Bebo
Fumo
Como se não houvesse amanhã
E não há
Não agora.

O que resta
Sobrevive
Ainda é alguma capacidade
Humana para fazer o mesmo
De outra forma.

Duro impacientado
Por aqueles que fingem
Dialogar com minha dor.

Quisera eu pôr fim
Ao que não acaba hoje
Nem ontem acabou.

Oh, futuro
Quem te inventou se o que há
Ainda é apenas este continuum?

O corpo

Ele me chama
Para tentar de novo
De outra maneira.

Assim não vai dar
Ele me diz que assim
Não vai durar muito.

Penso se quero mesmo durar.

Mas percebo que mesmo
Em fim o corpo é sempre
Convite. Do nascer ao despedaçar.

Os hábitos. Os vícios. O ser humano.

É possível outra coisa?
Outra coisa esta pela qual
Eu tanto luto?

Redemoinho. Neblina. Está o corpo
Gripado. Está fraco o corpo. Ele hoje
É todo cansaço.

Posso dormir?

Ele me pede
Sempre com educação.

Posso?

Eu demoro. Eu dou voltas.
O que falta a mim
Para reconhecer
Minha condição?

Queria um dia morrer dormindo.

domingo, 29 de novembro de 2015

cavalier



eu queria mais uma vez deixar marcada
a lucidez que me deturpa, a coragem
que me mata eu queria deixar aqui
registrada. em alto volume eu canto
o meu cavalheirismo
de impávida lírica
tenaz morticidade
eu queria mais uma vez deixar marcado
o meu eterno desassossego por ser
sempre embaraço
sempre nobre
até e sobretudo
na falta de sorte


como se procurasse um rio que secou e você nem viu

lembre-se
ficar sob o sol
com roupa preta
consome toda a energia
que ainda há.

portanto,
fique sob o sol
sobre o asfalto
de calça escura
camiseta preta
meias pretas
sapatos retinto

e dance
porque nada pode haver
antes de partir
do que isso:

dançar no calor
do inferno que virou
esta vida.

lembre-se
que chorar sobre o rosto
quente alivia e melancoliza
tudo se encaixa
se liberta para, enfim,
voltar à merda
original.

portanto,
chore. chore e não ouse
limpar as lágrimas. elas ficam.
elas são o rastro da sua convicta
desistência. continue.

porque é quase a hora:

talvez você queira comer algo
fumar um último cigarro
não importa
pode, se quiser,
tirar os sapatos

mas não cesse de dançar
enverede por uma rua onde não te vejam entrar
vá conversar com a claustrofobia das matas
sempre dançando
como se procurasse um rio que secou e você nem viu
você seguirá dançando
e nunca mais encontrará coisa alguma
nem mesmo você.

dance
e desmaie.

dance e caia
sobre o chão quente covarde

tudo hoje te invade
porque você desistiu de dar certo
e quis apenas restar.

vês?

quando se quer menos
a vida se abre para te escutar.

tudo quente.
roupa tornada pele.
lágrima foi breve acalento.
pés machucados
sangue no asfalto

vê-se o seu dentro

daqui olhando

de longe

você secou

e este poema, enfim,
termina.

sábado, 28 de novembro de 2015

Sobre mudança


Você anseia o quê?

Você reclama da sua vida
das suas coisas você reclama
De tudo o que conquistou
e também do que lhe veio
De súbito.

Você se cobra ser outro projeto
outro rumo você cobra a si mesmo
Mas com qual intuito?
Com qual intuito?

Perdeste mais tempo de vida
desfazendo o já feito
Do que gozando o gosto
do que lhe veio.

Perdeste muito nessa ladainha
dos reclames sem fim.

Falsa modéstia!

Você é o que deseja
Você é feito do que lhe põe fim
então,
por que tanta gritaria?
por que tanto chorare?

Perceba: a vida está passando
e você a está perdendo
por tanto reclamar.

Perceba: você está aí
nu sobre a cadeira
fumando no quarto de hotel que lhe informaram não se poder fumar.

Você é isso
para o qual ainda não inventaram remédio
Portanto aceite
você é isso, cara
Você é o resto.

Alma perene no deserto de seres sem vocação.

Você é muito, moleque
então reconheça
Você é enzima
à putrefação.

Você catalisa a dor
sem trocadilho
Vais direto ao ponto
você é preciso.

E eu preciso de você
assim, desse jeito horrendo
que você acha ser.

Sobre mudança
sobre mudar
sobre ser outra coisa
perceba novamente:

há algum instante não distinto do anterior?
há alguma coisa no seu corpo
que permanece igual?
Não.
Então, por favor!

Ou se aceite
ou mude-se
fique mudo
Cale essa boca
e esqueça-se do mundo

Por favor.
Avante.
Adiante.
Sem fim previsto.
Morra no susto do desperceber.

Ande!
Vá!
Pelo amor!
Seja aquilo que se é.
Seja aquilo que você sempre foi

mas teima seu olhar em não ver.

O que mora dentro de cada um

Hoje eu vi escorrer o dentro de um punhado de seres humanos.
Também escorri o que havia (e ainda há) aqui comigo.
E por se abrir assim, vi no outro a minha abertura se discernindo.
Novos abismos.
Como é fundo um ser humano, não?
Como é fechado.
Como tem que ser profundo o gesto para abrir o ser ao meio
e permitir que ele seja rachado.
Ou não. Apenas poesia.
Delicadeza. Nem sempre com força tenaz e louca,
às vezes apenas com luva de pelica.
Dizem. Eu vi. Hoje eu vi homens e mulheres lacrimejando
frente à poesia. Ora, isso comprova o quanto estamos carentes
dessa possibilidade. De mudar de estação, mudar de cor
mudar de energia de sentimento de estado
Eu disse um punhado de palavras para um punhado de seres
e pronto: o negócio havia já se manifestado.
Encontro. O nome do negócio. Arte. O nome da energia.
Encontro meu com um punhado de gente como eu.
E foi lindo. Ver o pequeno punhado de gente se mexendo e se rachando.
A moça dos brincos caros, a moça perplexa desde o início, o cara do sorriso nos olhos
A outra que não sei descrever
o outro que parecia perdido
a que sofria
a que chorava
aquela que colocou um capuz
Meu Deus, como somos distintos, não?
Quando foi que alguém imaginou que devêssemos ser mais iguais?
A gente é tudo gente e a diferença é o que nos faz.
A única igualdade é essa, aquela, o dna, a condição humana, por favor...
Foi lindo performar hoje em Campinas a performance do Teatro Inominável
O NARRADOR.
tudo vivo no meu olhar, no meu peito
tudo ainda pulando

que importante é levar amor àquilo onde já não há.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Não, não, nada

Nem desse cigarro
Nem de roupa
Nem de sonho
Apenas estrada

Deixaria o sapato
Caso o usasse
Todo o dinheiro
Caso o tivesse
Mas essa música
Ainda que em boca miúda
Eu levaria comigo.

A certeza do que não sei me comove
Tanto.

Tenho pensado que eis o sentido da
Vida.

Não saber de nada
De nada ter controle
Sentido, palavra parva

Eu estou vivo
Eu estou morto
Eu, só

Caminho.

Claro Apocalipse

Um dia desistiremos de pregar algum sentido.

Um dia perderá a graça. Esse nosso jogo, de mutilar a vida a procura de algo que a valha.

Será tudo sem sentido. As pessoas não serão tão pessoas como hoje. As palavras terão sido esquecidas. Pelas ruas, cachorros gigantes ameaçaram mendigos com raiz no asfalto. Será um Apocalipse claro. Tudo consciente e sob o nosso olhar.

Poetas terão virado parede. E junto aos seus livros terão sido esquecidos pelo esquecimento. Poetas terão desaparecido. Crianças nasceram recentemente, mas tudo com cara velha. Mãos novas morrem assim que dão a luz porque de dentro delas saem filhos com luz de Led.

Seria uma loucura. Um dia desses chega esse futuro sem que a gente o considere novidade. Ele vem. Está a caminho. E vejam:

Não terá adiantado ter escrito tanta tese sobre tanta coisa. Não terá importado ter descoberto tanta pólvora. Tudo teria sido usado para o nosso próprio fim.

Talvez no meio do meio dia, um homem pergunte a outro:

- Lembra que tinha palavra biscoito?

E o outro, com o rosto fechado, responderá:

- Moletom... Moletom...

Material Boy

Sofres
Porque pisa
Com sapatos
Feitos por
Escravos.

Sofres tu
Porque a camisa
Que manchou com
Ketchup importado
Era também feita
Na Índia.

Tu choras hoje
E o lenço que te seca
É todo importação.

Naquelas tardes enfadonhas
De profundo embaraço
Sei que vais ao shopping
Desapegar-se do dinheiro
Para acumular mais cascos.

Vais sumindo, menino
Sob tanta ternura a si próprio
Destinada.

Vais sumindo no gel
No gelo no perfume
No detalhe invisível
Do creme pomada tinta
Cabelos,

Vais sumindo assim
Tao disposto à acumulação
Vais sumindo sim
Por não haver em ti
Outra coisa que não apenas isso

Consumo
Consciente
Para te aliviar a dor
De ver o mundo em tão profundo
Abismo.

Você pegou a minha mão

E me tirou do eixo.

Por um instante
Pensei estar apaixonado
No outro, porém percebi
Ser um assalto.

Segui seus comandos
Fiz o que podia e agora
Estou aqui parado
Acorrentado e sem zelo
A me acalmar o peito.

Você me pegou pela mão
E me disse que alguns fins
A mim chegariam.

Pensei no pôr do sol
No fim das chacinas
Pensei em morrer
Minha mãe meu pai
Minha família

Mas foste ainda mais longe

Roubaste meu sossego
E atrapalhasse minha agenda

Sobrevivo porque o câncer está ocupado
Matando inúmeros amigos
Sobrevivo para escrever
Que você um dia
Me pegou pela mão
E aqui estou eu
Ainda vivo
Ainda que sem você.

Ainda.

Bem.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Bel

Ei, Bel
Descanse.

Você já já partirá
E para sempre em mim
A vontade de um último abraço
Que jamais virá.

Sabe?
Te sei tão pouco
E mesmo assim,
Você, luz linda, brilha
Presente mesmo
Sem ti,

Quero chorar o horror do mundo
A incongruência de estar vivo
Bel querida, indo você
Saiba
Sobra o seu sorriso.

Um dia você apareceu
No outro éramos já um pouco conhecidos
Depois um papo quente.
Um punhado de sorrisos
E sérias falas,

O que terá sido? Para ter que te
Arrancar assim tão abruptamente?

Bel,
Descanse.
Vai embora
Sorrir no longe
E irradiar
Em céu constante

Poesia.

Para Bel Garcia

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Esgoto

Acordo
É madrugada
Quase manhã
A água esquentou
Estou suando
E nem penso
Em sexo

Ergo-me
Ao banheiro
À água gelada
Chove?
Acho que chove
Lá fora
E meu corpo
Goteja
Sem reclamar
De nada

Conforto
Poder estar só comigo
Aconchego
Saber que o tempo
A partir de agora
Será meu amante
Mais amigo

Penso num cigarro
E o acendo
Sem medo
É que já estou tão tomado
Que só mais um
Só mais outro
Não me vencerá

Quanta mais eu vou
Mais fundo eu chego
Menos deslumbrado
Mais consciente
Mais fundo
Menos rouco

Eis o meu instante
Minha vida
Meu jogo
Eis meu verso que redunda
Que me desfaz
Para não cessar nunca
O início de outro
De outra
Abruptos destinos
Lá fora
Chove, eu acho

Aqui dentro
É certo
Eu vivo
Porque morro.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Prova

Roubaram as palavras
Esvaziaram seu íntimo
Fizeram daquilo que era
Apenas hoje o esquecido.

Tudo morre veloz na velocidade dum apodrecer.

Transformaram o comum
Em ultrapassado
Pegaram valores
E renderam todos eles
Pelo martelar incessante
Dos hábitos.

Brincam de vencer junto,
Mas eles vencem sozinhos.

O que me vale não serve
Ao mundo dado
Porque o dado do mundo
É de novo e a cada manhã
Relançado. Sequestraram!

A palavra revolução.
O amor. Onde está o amor?
Levaram a fisiologia dos corações
E tripa virou expressão 
E não mais corpo em acontecimento.

O mais longe que nos permitiram ir
Foi no susto pouco desdobrado
De um arrebatamento
Uma perplexidade
Uma apatia em rosto grafada

Tudo igual
Ninguém reage com grito sobreposto
À fala: falamos tudo sem dizer nada.

Roubaram-nos a ira desfamiliarizadora
Da palavra.

Eis-nos agora
Frente ao papel imundo
Desta realidade
Eis-nos agora
Sem permissão para fazer uso
Da palavra.

Daqui onde estou

A cidade tem mais serventia.

A fachada do hotel
Soa menos imponente
E quem dá vida ao dia
Dorme logo na calçada
Jogado ao chão
Ali em frente.

Daqui onde estou
O cheiro da cidade
Tem meu perfume
Com notas de café.

Daqui onde estou
O menino que passa
Entre os carros
Tem a face vermelha
E fortes braços.

Eu não me sinto longe
Mas me vejo distanciado.

Haverá um modo de mirar o mundo
Sem que seja lhe esfregando a mão?

Talvez não.
Por que não?

O corrimento da vagina rua
O falo edifício das instituições
Tudo lá fora hoje me soa mais
Como relevo, quase decoração

Não.

Daqui onde estou
É mais fácil o perverso
E barato jogo da definição.

Não.

Daqui onde estou
Em temperatura controlada
O mundo através da janela
Não me comove
Não me convoca.

Só mesmo o corpo em esfrega
Poderia mudar o meu tom ao mundo?

Por que anseio dizer distinto
Por que anseio corpo no concreto
Se já é hoje tudo tão duro
Tudo duro hoje já tão improfícuo?

Desejaria ser rua para abrir caminho
Ou para desfazer os sentidos que já me dei?

Perdi a poesia quando sai daqui
Onde estou. Perdi os versos e a precisão
Das rimas brandas. Perdi tudo quando
Assassinei a prudência da distância:

Escrever o mundo não cabe em outro lugar que não seja na ponta da caneta sobre a folha branca em prancha.

Nossa Azarada Sorte

Para Flávia Naves

Sabe? 


Inventamos um nome. E um nome é esconderijo para mundos outros. Inéditos. Não sei te chamar de amiga, nem de Flávia. Flavinha não serve e muito menos basta dizer só amor. Chamo-te do nome que um dia você em mim plantou: ameido. Eu, seu ameido, você, ameida minha.

Há pouco nos falamos por telefone e eis um momento na vida que perdura nela para todo o sempre: o momento da mútua confissão. Momento em que em diálogo confessamos, por acaso, a mesma condição. Momento no qual reconhecemos quase que ao mesmo tempo a nossa prostração. Somos um tanto fortes, um bocado sábios, dividimos juntos o desejo por um mundo outro, menos em guerra, mais germinável. E quando - um ao outro - reconhecemos um soluço imenso entre nossas ações e gestos, quando flagramos um cansaço tenaz em nossos discursos, então, é preciso saber: a doença do mundo em nós se plantou.

O que fazer então, ameida? Talvez um ano vendo o rosto no espelho. Um ano sem palavras. Um ano vestido apenas de azul. Um ano acordando sempre às seis e enfiando as mãos na terra do mundo. Um ano comendo uma minhoca por semana. Um ano deitando-se nu sob a noite. Um ano longe. Um ano sem tudo aquilo que nos acostumamos a ter. Um ano mudando o corte e a cor dos cabelos. Ou talvez outros programas porque um café feito no bule também tem que valer. Um café para dois. Uma tarde dançante, por que não? Uma coisa qualquer, cafona, um dançar, até a vergonha virar lágrima e desespero para enfim ser só sorriso. Outro programa, ameida. Eu o tenho cá comigo: se chama Pop Rock. É um presente que ganhei da Eleonora. E quero experimentar com você.

Vamos? Desautorizar a doença que o mundo quer em nós mover. Vamos desautorizar tudo isso aqui no pequeno, aqui na minha casa, na nossa sede, no nosso apartamento. Vamos? Talvez comece pequeno, mas veja: só vai ser gigante, só vai brilhar no céu se fortes estivermos para mover tanto assim. Não vai se não for por nós e hoje o nós nos sufoca e a gente só pensa em tentar conseguir dormir.

Que não vai dar, que já não deu, que não dará, nós dois já sabemos. A miséria do mundo que disseram não ser nossa, tarde descobrimos ser nossa sim. Então perdemos. Estamos perdidos. Então vamos, vagando feito mortos, vamos mexer com tudo isso. Doses de prudência? Duvido, sabia? Prudência é também medo de acabar. E se está tudo assim tão moído, quem sou eu para achar não estar. Eu estou. Eu, diabético, chorando o Rio Doce recém-falecido.




Vamos, ameida? Vamos escrever um livro. Vamos distribuir pipoca na rua. Vamos fazer essas coisas todas que chamam de loucura, que chamam de loucura, essas coisas que chamam de loucura. Vamos fazer tudo isso. Vamos pintar o rosto de roxo. Vestir a roupa ao contrário. Vamos devolver ao mundo o seu reverso e depois rir, chorar, silenciar, vamos juntos mexer e nos olhar de volta: o mundo que nos cala também nos faz gritar. É essa a nossa condição, minha amiga. É essa a nossa condição: não gostar, não aprovar e, mesmo assim tão duros, tão certos, tão convictos, cá estamos nós sem saber como lidar.

Que pergunta fazer? Talvez: toma um café comigo? Que pergunta fazer? Talvez qualquer outra: pergunta-umbigo: vamos ao cinema? Vamos gastar dinheiro? Eu tenho um pouco aqui, vamos ao shopping? Vamos lamber o mundo que nos envenena e perverter nossa azarada sorte.

Estou cheio de músicas novas para te mostrar. Elas me mexem tanto. Danço em silêncio, danço privado de grandes movimentos, mas esta é minha época. Estas são as minhas dores, o meu pavor, nu, concentrado, a minha aporia, a minha afasia. Este sou eu: perdido no mundo e encontrado no seu riso. Como pode, não?

O mundo nos convidando a desistir e a gente lúcido a ponto de se chatear e doer. A gente disposto a se importar.

Como pode, não? A vida lá fora - tão aqui dentro de casa - pedindo ajuda e a gente sem saber com qual língua se conversa com o mundo. E Deus, ameida? Ele não fala nada? Vamos tentar falar com ele? Outro programa para as férias: vamos performar juntos? Vamos cuidar do nosso peito para que a batida adulterada que nos abate se estenda ao lá fora.

Eu não sei, tá? Porque não é sobre saber. Se estamos morrendo, se o destino é morrer, então qual medo restou? Moças e moços, crianças e velhos, todos os homens e mulheres do mundo atravessam oceanos nadando por sobre tubarões. E a gente? Quão mais longe podemos ir? Quão mais perto podemos entrar?

Vem tomar um café comigo. Ou eu vou de lancha te visitar. Vamos fazer pequeno. Mas vamos fazer juntos. Despachar o mundo. Despachar este mundo para outro que vem vindo.

Eu te amo. E a sua dor em mim vira música.

Dança Ela comigo?

Do seu ameido,

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Finalmente

Vi os meninos todos
Correndo em regata branca.
Eu vi o céu e agradeci
Por nunca me ter faltado
Óculos escuro.

Mirei com veemência
Os homens e seus punhos.
Brinquei com a alegria
De minhas repentinas
Ereções.

Fiz o que a mim parecia
Possível fazer.

E mais
Dormi pouco, mal
E por vezes demais.
Dormi sozinho e por
Tantos tis abraçado.

Veio a cerveja
A remela, a meleca
O cheiro do sexo e do sono
Tudo em mim misturado
O perfume hoje caro
Ontem tinha cheiro
De matinal abraço
Ir para a escola.

Li muito
Tudo aos pedaços
Fiz livre associação
Entre os abismos entre
As afirmações. Perguntei
Sobretudo perguntei
Como quem sobrevive.

Amanhã quando eu estiver morto
Nada talvez possa me doer
Talvez meu fim venha a se dar
Mais cedo. Porque amo gastar
Minha dita existência desse jeito

Cegando os olhos
Por tanto uso
Estrepando a boca
Por tanto desejo
Indo ao fim de tudo
Porque escrevo.

Só por isso.
Só por isso mesmo.

Débito

Away
Miles away
I am still working
If you want to find me
You should be able to make
A few changes

We can't fight another fight
You're my oasis
Come here and let me
Sit down with you
On you

I have to do it again
For you to know that
Hoje é o melhor dia
Parabéns pelo seu interesse
Oi
Hoje em dia
A gente não tem problema nenhum
Parabéns pelo seu contato. Obrigado pela atenção
Hoje a maior prova de que o curso
Não é possível
É um dos melhores produtos e serviços
Na sua vida pessoal e profissional...

Tu és tu és o que eu tinha para mudar.

domingo, 15 de novembro de 2015

desumano semblante


veja esta imagem.

ela escreve mais que uma epopeia.

ela manifesta, inteiramente,
a humana miséria.

neste olho esquerdo
neste focinho a lama
banhado, vejo o meu tempo
tempo de homens
desumanizados.

ainda que o gesto
seja o de apoiar
o cão rosto
sobre a humana mão
ainda assim
o homem perdeu
o homem morreu
e já morto
segue aos mortos
assassinando.

me faltam palavras
a poesia ficou bruscamente frágil
a dor é tanta
que a perplexidade assume
o rosto e o gesto de cada
ação,

não sei como me posicionar

não sei como chorar
como lavar, como ajudar
como fazer, meu deus?
como lidar?

vejo este olho desse cão
e ele me condena
com paz e leveza
ele me devolve
à triste e humana
inconsistência.

poderíamos ter sido melhores
poderíamos ter sido outra coisa
hoje, no entanto,
só o que me sobra
é essa dor constante
tenaz
dor justa
apesar de tão seca
e rouca.

A SANTA JOANA DOS MATADOUROS estreia no Rio de Janeiro



REAL estreia em São Paulo



JANIS estreia em Brasília


sábado, 14 de novembro de 2015

Humanidade

Foi-se o tempo
Em que ponderar o destino
Era gesto audível.

O homem ensurdeceu de vez
Retido na batida esfomeada
Do poderio sem reis.

Foi-se faz tempo
A possibilidade do carinho
É tudo hoje resta em lama

Rodeado.

As metáforas mais duras
Os fins do mundo mais amplamente
Repetidos e divulgados,
A realidade os superou.

Vivemos num tempo
Em que ser incrédulo
Tornou-se incômodo ligeiro,

Tempo em que o afeto
Ficou diminuto e a confiança
Fez viagem sem dizer retorno.

Vivemos num tempo
Em que a única tarefa
De fato política é conseguir fazer durar.

Dura mais o tempo
Dura mais um parco afeto
Duro o espaço apesar de morrendo
Dura o sonho que seja na ponta
De um lápis.

Tempo de dinheiro cessando a própria respiração.
Tempo de fins sem começo e
De fim de mundo sem responsáveis.

Não.

Chegou um tempo
Em que o menor
Vai ditar os rumos.
Tempo em que a arte
Há de prescrever
O futuro.

Chegou um tempo, este do futuro,
Que não vai se não for pela gente
Com a gente
Tempo nosso
Dos intempestivos
Dos sem voz
De todas e todos
Ditos
Incoerentes.

Tempo em que coerência
Tornou-se destruição.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Palito de dente

Eu não quero mais nenhuma chance
Todas já vierem e a mim se deram
A troco do mesmo e insuportável
Meu semblante.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

o que estou sentindo

é possível sentir certeza?

sentir raiva, ira, ódio, rancor
coisas assim
eu sinto, eu sei sentir
estou sentindo, eu sei

mas certeza? como sentir?
como sentir que é certo
ao menos para mim
como saber se o que sinto
é certeza?

algumas coisas dentre as sentidas
não são certezas para o sempre
são instantes
calores
são um súbito
e depois tudo retorna
tudo retorna

mas certeza
fato, duro, feito pedra
dureza, certeza, pedreira
não sei
não sei discernir

me assusta o que sinto
o que sinto
é certeza?

certeza de fim?

mas e o corpo?
o que ele faz se é certeza
o que acho ser o que acabo
de sentir?

o que fazer se para sempre estou certo do repúdio
da repulsa
desvaloro-te
como queimando uma flor linda e bela
eu sou descrente de ti
por completo
e para todo o sempre

é tarde?
é cedo demais?
com 28 anos
não querer te ver
jamais?

não sei
não sei se me assusto
com a força dessa certeza
ou se assumo
ser outra coisa
não tão breve
não tão assim passageira

mas veja:
me faz bem estar certo
me acomoda em mim mesmo

fiquei mais bonito desde o dia derradeiro
já faz meses pouco sobre isso escrevo
é que não me importa
não mais tanto
como antes
importava

mas hoje
me assusta
estar certo
de que apesar
de ser você só um ser humano
ainda assim
não exista em mim perdão

longe se foram os carinhos do amor
os rompantes da paixão
hoje
fortalece-me sua completa ausência

e brilha duro
o repúdio, o ódio, o intolerável
que é ver sua política transformada
em facebook público

que horror
que vergonha
que pode o amor, não?
como ele cega
como ele invade o individual
e se procria feito verme
feito ameba

burrice
franco sou: burrice
baixeza
muita geleia
e pouca veemência

que pena
que horror
que descaso

eu não morreria por você
mas sem dúvida alguma
não quereria te ver morrer

no entanto
(há certeza)
e te ver morrendo
ao menos daqui
de longe
me parece bom
bom demais

é certeza?
ou será o que mais?

devo me culpar?
devo querer me convencer
de que amo
de que ainda amo
ou não
é só isso mesmo

espanto

burguesia

roupa de marca

e política perdida em fofoca e opinião

não!

não!!!

não!!

eu estou melhor desde então
mais franco comigo e com o mundo
eu estou melhor
melhor que antes
eu estou vivo
e retinto

o mundo nunca como antes tanto me moveu junto.

estou certo
certo de que era preciso
estou certo
de que há ruas para ocupar
no caso de a mesma rua
cruzarmos


e isso eu sei
já soube
estou sabendo
há outros corpos
nos quais
me verei deitar
me vejo
estou vendo

mas
por que esse ódio?
esse desprezo?

me dói ver-me movido a tão tremenda ação

eu não gosto
não admiro
eu não nada
eu estou cagando e correndo
para me ver ainda mais e mais de ti longe

ao menos isso
ao menos algo
meu pensamento
já não te repuxa a qualquer passo

você some lento mas vai sendo consumido
você foi apenas um pequeno erro gordo
um pequeno erro franzino
o tempo passa
e nele eu vou junto
cheio de carinho
mas ainda mais
abarrotado de pavor

você me espantou
me provou sabores terríveis
que horror, parceiro
que horror!

você ainda hoje
me é só desprezo

e estou certo
(e isso me espanta)
que assim como para mim
em breve
não tão breve assim
seremos um ao outro
mero e antigo
juvenil e bobo
pesadelo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Um saber

Sabes que não haverá fim
Não é mesmo?
Mesmo no fundo, tu sabes
Eu sei, não tem como acabar.

Simplesmente assim, de um
A outro instante, tu bem sabes
Que não se acabam as coisas.

Elas duram, permanecem
As coisas que não tem em seu fim
Nem o abandono.

Veja: forças extremistas irrompem
A paz das utopias tornadas possíveis.
De uma a outra época
Mudamos vozes e timbres
Os sonhos, reféns da moeda,

Recrudescem, não por medo
Mas por não mais haver espaço.

Mesmo assim mesmo fim mesmo mesmo
O futuro hoje passa o café quente
E negro.

folhearse

as dobras do corpo
escondem versos
de outras épocas

o sorriso só é mais cor do sol
porque sempre é mais quente
por conta de outras noites
que não apenas esta

tudo sobrevive concentrado
impresso nos lastros
nada é tão fácil assim de esconder
quando se fala deste corpo

sempre alvo não apenas de mim
mas de um punhado de vocês.

passo as mãos pelos acentuados relevos
que ontem eram pele lisa
deito a mão sobre mim mesmo
e descubro mais do que somente
esta noturna azia

o que fazer?
não se limpa assim tão rapidamente
um corpo disposto ao encontro

tudo dorme junto
por isso, meus ombros
tão propensos à altura

tão dedicados a sair de mim
para me provar que sim
sim, ser um é só possível
por em mim
tantos outros
terem sido.

que lindo
folhear-se
como um romance
sempre em vias
de ser reescrito.

sábado, 7 de novembro de 2015

Mentirasi

Acredito
Que esteja tudo bem
Entre nós dois.

Acredito
Que você se ama
E se amando
Ama a mim também.

Acredito
Que amanhã terás mais tempo
Que tomarás o café com calma
Que dormirás aconchegado
E tenro.

Acredito
Que cumprirá os prazos
Com elegante antecedência
E que serás justo à imagem inabalável
Que seus amigos o imprimem
Com veemência.

Acredito
Que entre nós dois
Um pacto esteja se fazendo.

Eu deixo de ser quem eu sou, Diogo
E você deixa de se exigir ser outra coisa
Tão distinta daquilo que hoje temos

Eu e você
Como um nós apenas
Nós dois como um
Partido e destemido
Cansado e sem destino

Eu acredito
Em poesia.

Desesperança

Falas do fim dos tempos
Clamas por solução divina
Perpetua provérbios passados
Insiste as horas nas mesmas
E redundantes paradoxias,

Você se alcooliza
Você se despe e goza
Abundante, você come
Pouco dorme e com ou sem
Azia, você perpetua

Sua existência.

É desesperança aquilo que se escolhe?
Ou se desespera você por não mais
Conseguir escolher?

Por que tanto reclama você?
Por qual motivo?

Penso que se apaixonou você pela precisão dos versos sombrios
Pelos verbos que dilaceram
Hoje você se faz poema fim
Da linha.

Que desesperança é a sua
Que nunca acaba e que hoje
Novamente, segue firme
E dura?

em momentos distintos

palavra

ombros

move laranja

o cansaço

garganta inflamada
de tanto já manifesto

bola

pisco lento
pisca olho
dentro

profundo

isto é pouco para hoje
espere
o tempo não cessará jamais

pese
deixe pesar
pese tudo
quer dizer

números
canção
dor leve na altura dos rins

eu queria te dizer tanta coisa
também dentre elas
eu acharia um pedido de desculpas
porque era lindo
estava lindo
mas a sua fome
secou a possibilidade
da minha calma ganhando rubor

a sua fome
estrepou a minha rima

e pronto
assim foi

tudo sozinho
outra vez.

convicção

os dias seguiram
pouca música tocou naqueles ouvidos
os olhos, apesar de pesados, seguiram
e o íntimo de tão confuso
virou confusão plena
bela de se ver

a persistência no erro
seria erro?
a persistência crua
persistência
sem adjetivo
ela sobreviveu
ela própria
e o corpo por ela
vampirizado

é tarde ontem
hoje ainda nem veio
fumaça
fumaça
amigo abrigo

aquela voltagem
que refaz o instante
arrepia minha espinha
enrijece meus pelos

meu pau
meu pênis
meu cu
eu inteiro
tudo
tudo está tomado
tudo
tudo
é isso apenas

pesar sem onda
cerveja gelada
e a certeza de uma viagem com destino ao mais longe que meus dinheiros puderem pagar

sumir de mim
dormir noutro habitat
nem abraço
nem fingimento de que sou alguém

apenas a beleza
no lugar da certeza
a beleza que é ser
sem precisar ser
para continuar
a estar

resto.
convicto.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Manhã

O corpo levanta sozinho

Dessa vez, o despertador é quem se atrasa

A luz lá fora
Os olhos dando bom dia ao tempo
Eis a vida que um dia
já faz anos
Eu imaginava

Queria não ter pressa
queria não ter fome assim tão cedo
Queria não ter segredos
E que o amor fosse tangível
à pele recém-acordada

Mas perdi tudo
E tudo é muito
quando o mundo
é ciranda-oferenda
que não cessa
nunca acaba

As iras, inda carrego-as comigo
como também carrego
as unhas sujas de terra
Por ter regado o meu pequeno jardim
hoje cedo
Todinho

Vês? Às vezes o amanhecer vem
depois da noite
às vezes no meio da tarde
como ontem, às vezes
só amanhece quando fechamos os olhos
deitamos cansados sobre o travesseiro
e então
tudo o que vier
será iluminação

Talvez eu quisesse
não importaria
Mas talvez eu quisesse
fazer da minha vida
menos espetáculo
E mais manhãs
como esta, presente mas livre daquela tenaz agonia.