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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Um profundo

O café acabou
o calor segue junto
A sunga colada na pele
e o pensamento, tranquilo
dorme quente em seu abraço.

Não queria terminar o ano
me desfazendo em novo amor
Mas algo brilha em mim
alguma possibilidade
cujo nome é você.

Deixa janeiro chegar
deixa a viagem terminar
vou te buscar
e veremos filme
e dormiremos juntos
e amanheceremos destemidos
ao que nos apavora agora.

Seu sorriso torto
minha descrença no mundo
Mais uma vez, só que diferente
a nossa diferença é o que nos pulsa
e transforma.

Feliz fico sozinho
tramando o que não veio
Feliz eu sobrevivo
sem nada que antecipe o recreio
que virá
que já veio
que há muito segue vindo

Sem pressa
eu amo estar vivo
E será essa a cor do novo ano
O novo ano
será dessa cor:

puro amor.

Amigos!


Poderia até ser uma poesia
poderia eu reunir versos
e tramar universos

Mas não
Não! Hoje não, por favor!

Porque só o que há é o amor
os amigos
e a possibilidade do futuro tramado
no instante do encontro!

Só isso.
E isso, preciso dizer,
é tudo!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Old

The same music
Keeps telling me
What I already know
But always need to
Remember of.

It isn't over. OK. I know that.
But I'll keep listening
Because I remembered
That sometimes it hurts
But sometimes também.

Ontem, eu vivi o tempo da minha vida
Aquele instante em que a surpresa
Te toma e te oferece um único saber:

a vida é isso mesmo, comparsa
jogo eterno de ganhar e perder.

Now I am here
Waiting for nothing
Only waiting for my friends.

Are they nothing
Or everything at the same time?

In fact, this is a kind of classification
That even needs to exist
Because now I am here
And yesterday wasn't the same.

So
Here I am Só again
Isn't that special?
I believe it é.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Meu caro irmão

Neste natal você passou por mim quase que correndo. Quase derrubou a árvore de natal que nossa mamãe demorou tanto tempo montando. Quando eu entrei em casa, direto na cozinha, a primeira coisa que fiz foi abraçar fortemente o seu filho. Meu amado sobrinho que nem dez anos completou e já viveu, por sua conta, tantos horrores e, provavelmente, tantas maravilhas. E depois dele, o que fiz foi te abraçar. Eu te abracei, ainda que seu corpo não tenha respondido nada exceto tímida repulsa a mim.

E sabe o motivo, meu irmão? Você me repele porque sabe que eu nunca caí na sua ladainha. Você me afasta porque suas mentiras, em mim, tem perna muito, mas muito, muito mesmo, muito curta. Lembro de já ter lhe dito, certa vez, que eu sou diretor de teatro e, por conta disso, a mentira para mim começa a se anunciar muito antes de chegar. Eu farejo a mentira na distância. E você é todo perfumado nela e é por isso que existe a sua-nossa desconfiança. Não confio em ti, já faz muitos anos não confio em ti. E assim será, até o instante de sua morte (ou quando quiser vir até mim conversar).

Quanta merda já feita, hein, irmão? E em tão pouco tempo. Quanta merda. Quanto desassossego. Quanto roubo quanto crime quanta ambição. Você se resume em uma palavra: ambição. Sem freio você foi e assim você veio, destruindo tudo para ter aquilo que quis. Porém o que você tem de esperto você tem de ignorante. É na mesma medida. Você não percebeu que ter tudo é projeto que não cessa nunca. E assim, hoje, és tu escravo de seu desejo: serás para sempre incompleto, perdido, bancando aquilo que nunca foi nem nunca será, nem mesmo no seu silêncio.

Bandido. Você roubou não apenas os outros, mas a sua família. Roubou mais do que dinheiro, muito mais que propriedades privadas (o carro, a casa, o banco, a poupança), posto tenha você nos roubado a confiança. Só que - mais uma vez - a sua burrice não te deixou perceber que quem rouba também perde e, por isso, hoje, tendo perdido tudo, quem mais perdeu foi você. Porque o caminho da sua vida será para o sempre, em todo o adiante, refém da sua fome.

Sempre te chamei de filho mimado, sempre te achei príncipe demais, sempre te achei preguiçoso e, ainda assim, vencedor de tudo e de todos. Você sempre foi descrente com a possibilidade de alguma ética. Tenho vontade de te perguntar sobre essas palavras: ética? Respeito? E humanidade? Sabe você do que se tratam tais verbos?

Não escrevo uma carta, nem sequer um lamento. Registro em meu blog apenas algum saldo de meu eterno descontentamento. Não te desejo nada exceto que não piore a vida sua nem as de seus familiares. Não quero nada seu, nem seu respeito, nem sua atenção, nem parceria. Você ultrapassou o limite do horrível. Você já não vale.

E continuarei escrevendo mais e mais coisas. Quem sabe num momento - seria divino - você se disponha a conversar sobre tudo aquilo que é mais fácil chamar de doença do que falta de vergonha?

Para J. L. Neto

Russo

Pai,

deve ser estranho, eu sei.
Eu consigo imaginar.
Deve ter sido muito estranha
essa distância
que tanto nos serviu
para nos diferenciar.

Mas, veja:
aqui estamos nós
de novo
frontes ao encontro

Ainda assim, eu sinto
pai, deve ser estranho

Você fuma?
Sim.
Foi só eu parar de fumar que vocês começam.
É.
Cada um sabe de si.
Não é mesmo?

Sem ironias, pai
eu nem estava fumando
Mas deixei sobre a mesa
o maço
retinto
brilhando

Para te perguntar:
é mesmo possível viver uma vida inteira
fingindo ser quem não se é?

Eu não sou desses, pai
e essa é a mudança
que venho a te oferecer:

que cada coisa seja aquilo que deseja ser
que cada ser seja aquilo que pulsa em si
não terás desculpa
não terás remendo

O seu pavor
o seu medo
é formidável
não queira fugir dele
continue,

assim,
amanhã serás mais velho
e inda mais forte do que sempre
fostes tu.

Eis um poema selador do encontro.

Hoje, pai, eu te amo
porque já nada mais
escondemos um do outro.

Do seu,
Diogo.

domingo, 27 de dezembro de 2015

A última revelação

Você entrará pela porta
e vai estranhar o fato
de um cigarro aceso
e em minha mão

Vai me dizer suas verdades
vai cantar suas glórias
e eu vou dizer, sem medo
que cada um faz o quer

da própria vida.

Você entrará aqui
e o seu orgulho velado
vai desabar
sem freio

Você vai me olhar feio
e mesmo assim continuarei
porque eu gosto
de ser quem eu me tornei

depois de ti.

Eu gosto.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Essa palavra

Ler
Dormir
Sonhar
pesadelo
Café
Rabanada
Sorrisos
inúmeros sorrisos
Nenhum passageiro
Dormir
Ler
Acordar
Escrever
rascunhar
especular
O calendário
perdeu o despertador
Eu acredito sim
que isso só possa se chamar
aquilo que sempre amei dizer

essa palavra
Moletom
esse estado
Amor.

Maitê

Gordinha
Puro amor
Sorri em silêncio
agarra a minha barba
como quem pede
Tio, por favor

Continua, essa ciranda
continue, tio, por favor
essa dança

E eu entendo
de súbito, rapidinho
eu entendo

Que Maitê é puro amor
puro puro
translúcido
De agarrar o braço do tio
e ir babando, sonolenta
como se fosse meu ombro
seu bico

Acorda cedo
mira com olhos profundos
o dia que ainda nem nasceu

O tio Di já te entendeu
e rapidinho ele se refez
para estar aqui
disposto
aos sonhos teus, meu amor
Meu novo amor
meu mais novo

Motivo para seguir,

A Mudança dos Anos

Um termômetro é o Natal
Em família.
A ceia, as conversas
Os olhares, as coisas que persistem
Através dos anos.
É uma medida, isso, de se ver em família
E de se estranhar
E de se reconhecer
E de ver nos outros, seus familiares
A diferença que você tanto cavou
E que te fez
E que agora te faz ser.
É bonito e grave, ao mesmo tempo
Saber-se parte
De um projeto que te machuca
Mas que te compõe
Você não saberia ser outra coisa
Caso não fosse também
Isso que tanto já lhe deu desespero.
O irmão
A irmã
A irmã outra
A mãe
O pai
A família toda
Há que se aceitar
A possibilidade do perdão
E a duração necessária
Para que a família assimile
A sua própria modificação
Que não cessa
Não cessou
Nem cessará.
Penso que uma família vire família
Sempre que se permitirem
Ouvir
O que não quiseram nunca escutar.
Sempre que houver habilidade
Ainda que débil
Temerosa
De contar o que cada um é
De se revelar.

Neste fim de ano, mais que no anterior,
Estou aqui inteiro, transbordando meu amor
Estou inteiro posto esteja claro
A todas, a todos
Quem eu me tornei
E o que desejo a partir deste instante:
Amor,
Amor,
Família,
Primeira diferença
Que nos sucumbe

E funda.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Voar

Pouso fácil sobre o desassossego
Pouso tranquilo rente ao medo
Tudo certo, vai passar
Talvez agora ou depois
Não importa.
Lembro do frio
Da nação onde não nasci
Lembro das suas lamúrias
E do que escolhi
Fazer de mim.
Nenhum arrependimento.
Tudo certo.
Eu sou jovem
E ainda corro.
Ainda corro.
O moço joga pipoca para entreter
Os pombos. Venta tanto
E tanto faz calor ou não
Agora
O sorriso de um me abraça
O silêncio que nos persiste me alimenta a continuar.
Eu vivo tudo.
Tudo.

Repleto

A falta
O medo
O risco
Tudo serve
Desde sempre

Aquilo que não veio
O livro afogado
O laço desatado
Tudo tudo
Tudo serve

Agora venta
Música alta
Câncer no pulmão
Sonho na língua
Tudo certo

Não teria como ser
Mais lindo
Mais retinto
Esse sol me queimando
Anunciando outro início

Tudo começou
Faz tempo. Mas
Tudo começa sempre
Que nos dispomos
A isso

Ouve!
A vida é não correr
Do risco de estar aqui
Vivo, morrendo
E rodeado de amigos

Não! Não vou parar
Poderia ser música
Tanto faz
Eu espero gastar
Essa juventude toda

Nos beijos
Abraços e filosofias
Com amigos
Processadas
Repetidas vezes

Diferença.
Nunca acaba.
Parece isso mesmo
Não parar nunca
De cair.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Inevitável

Já deu tempo para ponderar
se o que há é dor do hábito perdido
ou se o que persiste
é a persistência do ainda amar.

A minha franqueza é tão límpida
que sequer me sobra medo
Para duvidar.

Certo
afirmo o que me consome
Completo
digo sobretudo o que pode vir a me fazer
tombar.

Se te amo?
Não cabe afirmar
porque te amo
na doença sua do nunca se bastar
Com você aprendi muito
mas, sobretudo
Aprendi a ensinar.

Te ensinei a ver os pés no chão
ensinei você a caminhar sem proteção
a flertar com o risco
que é estar vivo

De que adiantou?

Veio seu medo
e de mim você se tirou
E morri
e morro, amor

Mas já não me soa possível de amor te chamar.

Estranho foi você se tornando
e não há nada que possa fazer
inclusive porque
Não saberia mais te amar.

Por isso volto ao início:

que duro é se desabituar, não?

Estou aqui
e você em mim se persiste
mas não é que queira
compartilhar uma gota contigo
não é que eu precise
te ver, ouvir, contigo me compartilhar

Nada disso. Sua distância
é o meu maior presente.

Mas em mim, ainda assim,
você continua,

feito sombra
poema ruim que não cessa de me interceptar

O saber do fim eu já soube
já sabia
A dor que me dói
em doses pequenas
é do absurdo que o ser humano - você -
é ainda capaz de perpetuar.

sua fraqueza é fruto do mundo
e sua força é saldo desse abismo
que entre nós
você germinou,

Não te odeio
não te quero mal
mas por agora, sim
e pelo adiante sem fim

serás você para mim
o que meu corpo me diz
para que sejas:

ausência
distância
porcelana envolta em cristaleira

nossa amizade nunca vai nascer
porque feriste em mim
a confiança em ti

nosso futuro nunca será outra coisa
para além desse fim
que será
para sempre
e durante muito tempo
fim
silêncio
lamúria
tormento

a vida é feita disso, não?

Não mais confio em ti
nem em seu projeto de mundo
Danço só
amando os braços outros que me querem perto
apenas pela proximidade
Sem exigência de um futuro não vindo

Estou aqui
com os pés destemidos
estou eu, hoje, agora
repleto de suspiros

Porque foi você um sonho
um afã que me fez estar potente
mas que me matou
me matou

E é justo
justo é
que eu queria viver
sem te dar a oportunidade
de se aportar em mim.

Sem ti
sem ti
Sobrevivo eu
mais do que antes
Sobrevivo certo
de que o tempo
oh, tempo
o tempo, oh
há de me remediar
a ira
a sua burrice
a sua demanda
a sua esquisitice burguesa crônica filha da saciedade

Você tomba
porque se acha completo
Eu nunca despenco
porque nunca estive assim

nem sequer ao seu lado.

O ÚLTIMO AMAR

foi no meio de um mergulho

boca cheia de sal

tosse expurgando a morte que persiste

foi durante uma onda
um tombo
um se perder de si

que vi a lua que me olhava

foi ali, na praia

que me lembrei de meu último amor.

já fazia meses que ao mar eu não me jogava

a última vez, eu lembrei
a última vez foi quando mergulhei
após ter morrido
o fim do meu último amar

e fui profundo
no abismo da praia
em noite escura
e mornas ondas

ali me deitei
cheio de medo
e salguei a alma os olhos
e o sorriso torto

ontem

eu mergulhei no mar

eu vi a lua

e sem força

me flagrei a lembrar

que se o último mar
havia sido pelo fim
este então seria pelo recomeçar

alma lavada, como dizem
areia na cueca
tosse sem fim

eu estou morrendo
mas livre, enfim
daquele que me pôs fim

o ano acabou ontem
entre um ou outro engasgo
acabou ontem meu ano de separação

agora quero o juntar
quero o encontro

2016
o ano do aproximar.

sábado, 19 de dezembro de 2015

um sorriso ontem

esqueci o motivo
mas foi sorriso, eu sei
eu lembro, foi sorriso

não lembro nem quando
ali, talvez, na travessia
não lembro, mas sei
estava eu numa imensa
avenida

e sorri
assim
sem dar satisfação
sorri como sorrira antes
sorri como se não houvesse nada

exceto o instante.

e não havia
não houve
nem tem que haver
eu sorri
porque me percebi em mim
como faz anos
eu já não consegui mais
reconhecer.

e sorri, portanto
sorri pronto
ontem, eu sorri
e hoje eu canto
só isso
simples desse jeito
um sorriso ontem

e o mundo hoje
quente
aberto
me comovendo.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

sobre a duração de cada manhã

talvez tenha chegado a hora de especular sobre o ano que passou
mas que ainda não acaba.

sinto que aprendi uma única coisa
um saber de experiência que já nem me assalta
posto tenha virado meu próprio corpo
e não há nada exceto este corpo agora
este que aqui se fala.

aprendi
que quero as manhãs
só para mim
que quero acordar
e dançar uma música
enquanto tomo um café
e sorrio ao futuro
que ainda não veio.

aprendi
que desejo
o tempo preciso
de mirar o céu
e dançar o vento
que desejo isto
e que sem isso
não estarei me sendo.

tem uma coisa sobre saber durar
sobre restar um pouco só consigo
eu aprendi isso
por tanto - neste ano -
ter me perdido
ao me procurar.

quero a duração de cada manhã
quero aprender a virar tempo
e no tempo, eu nu
aprender a me desintegrar
para enfim ser menos eu
e mais apenas
fortuito acontecimento.

quero acontecer de braços dados
ao vento
quero me ser nu rodeado
por flores ornadas a cada hora

eu quero
eu desejo
eu já tenho idade
para impor à vida
alguma coisa
que não apenas o fim dos tempos.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

essa morte que não passa

sobrevive
em tosse
encatarrada
como se de mim
quisesse sair um resto
que não me larga
que não me larga

cruzo os dias
com o peito doendo
não por medo de pôr fim
mas porque o que sobrou
ainda me faz ser
ainda me faz ser
mesmo que ainda
assim
tossindo
assim
engasgado
atravessado
por um catarro espesso

que embaraço!

a esperança de um novo ano me acalenta

quero dormir dentro da piscina

vendo no céu de estrelas

as feridas em suturação.

sobre essa morte que não passa
mal sabe ela
eu sei viver em putrefação

pois fique
que eu te rego
e rendo-te em rosas
fica, vai, morte
fica em mim

que eu te faço apaixonar
pela vida torta
pela vida torta

fica, vai
se você é forte
fica, morte
que verás o que minha preguiça
é capaz de lhe atravessar pela aorta,


quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

tenho uma proposta

fazer da vida um pouco mais de arte
para ver na ficção do jogo artístico
alguma coisa mudando de fato.

a sua ligação

me fez caminhar pela rua
na frente aqui de casa.

fiquei andando vendo os pés
dançarem a sua confissão.

fiquei surpreso, mas sem fazer
escândalo. fui só amigo.

e andamos juntos. eu no chão
e tu nos meus ouvidos.

eu queria saber a sua opinião.

eu queria saber a sua opinião
se em você bate assim ou assado.

e então eu lhe disse do amor
imenso do qual você é feita.

e alguns silêncios se fizeram
porque é mesmo difícil

ouvir do outro
a nossa beleza.

você é isso
confissão alada

que quer se esconda
sempre doce e honestamente

será pontual
e necessária.

para ef

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O que foi que eu fiz

Da poesia fiz eu
Pouco caso.

Ela me serviu
Como ajuste
Marcador de vastos
passos.

A cada soluço ela
Auxiliou meu caminho.

Mas nunca abriu mundo.
Quase nunca me devolveu
à chuva, perdido e sem abrigo.

Foi tudo dormência, reclame
Novela. Tudo foi mimimi
Sem rima a auxiliar
A lida com minha Época.

Tudo vago.
Eu perdi.
E mesmo assim
Perdido seguirei
Porque é isso o que hoje sou
É isso o que me tornei.

Vulto

Vieram me falar
Da sua presença
Não soube dizer
Falta confiança
Para delinear
Seu rosto.

Tudo foi embora.

Tudo enterrado.

As flores que vieram
São tristes e secas
Tudo já morto
Tudo descrente
Nada resta
além do nada.

Eu não vou me esforçar.

Lembro de meu primeiro amor,
E mesmo assim não houve nada
E tudo segue diferente no mesmo.

A vida não alça voos maiores
Que os de um avião internacional.

Vieram me contar
E essa foi minha reação:

você
apesar da impresença
me é hoje só prostração.

Ouço essa canção
Meu caminho segue limpo
Sua lembrança não faz desenho
Possível. Restou só restos
Que sequer movem outra
Construção.

Pena para mim
E para ti
Para nós
Que não soubemos
Equalizar nossa
Destruição.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Das notícias do dia

Acordei banhado pela luz
De um dia que ainda desconheço.
Luz branda e opaca,
Clara mas repleta de escuridão.

Mirei à janela
E vi que chovia.
Estiquei-me na cama
E fui enfrentar as notícias

Deste dia que não acaba já faz séculos.

Tudo igual, porém diferente.
Os mesmos buracos
Os mesmos humanos
Dementes. Só se agrava.

Fiz um café, não foi preciso
Regar as plantas. A chuva da madrugada
Lhes deu esperança.
Café na xícara
Jornal celular nas mãos.

Amanheci com essa imagem
Roubando-me de mim
Sequestrando minha atenção:

Uma linha de lama
Grafando caminho
Na geografia do meu país
Até chegar ao mar.

Espírito Santo!

As notícias são as mesmas
E o homem de novo não cessa
De se despedaçar.

Penso nas esperanças, penso firme
Eu penso, nas possibilidades já tornadas
Mudança.

Mas é só que não há nota sobre isso
Nos jornais do hoje em dia.
Só o que há são as mesmas
E mais profundas corrupções.

Como amanhecer assim?
Como se erguer pensando em vida
Se só o que há é essa persistente
Azia?

Dormir, talvez? Talvez devesse eu
Voltar a dormir?

A luz branda me anuncia a jornada
Para tempos como este: há que se cultivar
A consciência com tons de opacidade.
Há que se ver o mundo profundo, mas
Sobretudo
Há que se olhar para o mundo
Com o descaso de quem já partiu
De quem parte,

Não, não serei rima
Da fome que a todos engole
E extermina. Permanecerei sinuoso
Despresente numa ou noutra rua
Só para que mais tarde
Na solidão de casa
Possa eu refazer o mundo
Que seja hoje
Em poesia.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Programa

Começará com a palavra não.
Não muitas coisas, muitas,
Muitas ações. Não isso e não
Aquilo. Não com esse e não com
Aquela. Não em todos os instantes
Incluindo nãos inúmeros na primavera.

Dizer não a si mesmo talvez seja jeito
de recomeçar a si próprio.
Eu me digo não para me negar
O que já aprendi a ter e ser.

Queria começar o próximo ano
Assassinando os hábitos.
Queria me ver curioso
Pelo o que ainda não sei de mim
De fato.

Haverá um detalhe na natureza
Nas ruas, no meu corpo, haverá
Alguma coisa que eu ainda não
Conheça?

Quero descobrir, mas, sobretudo
Eu comigo mesmo.
Quero o silêncio, a nudez minha
Envolta na duração das longas horas

Não mais cigarro para me apoiar
Não mais cansaço para me ser rima
Quero rimar com o branco
O preto
O vazio
O profundo medo de existir
Sem nada a me justificar.

As músicas

Todas, quase todas
Me dizem o mesmo
Assim, confesso, fica
Difícil fazer diferente.

Todas elas, quase todas
Teimam nesse assunto
Amor para lá, amor que
Acaba que não cessa de
Chegar,

Fica difícil, oh, músicas
Alterar o rumo dos passos
Se a cada verso seu
É só o amor
É só esse fardo

Tento não ouvir tanta ladainha sonora
Mas é que quando miro o mundo cru
E despido, então, talvez a coisa piore.

Falta alguma música
Alguma coisa, me disse minha aorta
O que falta? Eu procuro e já sei.

Falta dormir sem trilha sonora.

Dormir não como quem descansa,
Mas como quem desiste de jogar
O jogo da vida.

Dormir para não trabalhar
Dormir para os sonhos
Dormir para não mais
O amor tematizar.

sábado, 5 de dezembro de 2015

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Da dor dos meninos

Machuquei muitos meninos.

Neste ano, sobretudo,
os feri sem reserva
Posto eu também
tenha sido muito
ferido.

Revide?
Vingança?
Descompromisso?
Não, não mesmo
nada disso.

Machuquei os meninos todos
na tentativa tenaz de me refazer
cá comigo.

Machuquei-os com delicadeza
com sutileza
e sem perversa engenharia.

Machuquei-os nos ois
e, mais que tudo,
em tantos e tantos
adeus.

Machuquei-os por não saber
o que me fazer de mim.

Doeram os meninos,
apaixonaram-se
Mas sei
(porque também assim foi e continua sendo comigo)
Eles sobrevivem
porque os moços não cessam
de se refazer.

Machuquei seus sorrisos
desmanchei tantos sonhos
Dei gozo, gozos
abraços, tantos foram
Mas sobrevivi
inerte
aos seus corações.

Matei um bocado de esperanças
flagelei inúmeras confianças
E mesmo assim, sobrevivo
Impune.

É só que da dor dos meninos
não se faz tesouro
não se ilude,

doem
doem muito
mas sobrevivem
muito ainda.

Machuquei os meninos
e me machuquei em cada
um
de seus abraços.

Seus beijos, me perderam
seus laços, me cegaram
mas
e sempre mais um
mas

aqui estamos nós.

Eu aqui
Ele lá
O outro acolá
E sempre a rimar
a dor dos meninos
não cessa
Posto desejam tanto
aquilo
que a vida não lhes reserva:

amor.
amor.
só isso,
amor.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Comércio

Pensa você se esquerda
Ou direita?
Pensa se é certo
Ou errado?
O que você pensa
Sobre a vida, de fato?

Perdeste um brilho no olhar
Sempre que tentou antecipar
O que sequer ainda tinha
Se anunciado.

Matou tudo nesse seu jogo
Enfadonho de definir o que sobrevive
Sem esquerdo ou direito.

Amanhã, quando puder olhar na distância,
Verás você que a vida só avança
Para aqueles que a miram feito
Jogo de danças. Corpos em experiência

Sem prescrição
Sem médico nem medicamento
A vida só avança se for metida
Em si e em todo o resto.

cada um no seu poema

depois fiquei pensado
que cada um acha
o seu poema
e com ele
se contenta
ou não

e o poema, coitado
perde a sua liberdade
e vai virar coisa
de alguém
que só o quer
por auto-admiração

tipo
tipo
eu sou o cara deste verso
isso que foi escrito
é por minha causa
foi por mim

e então morre o poema
sempre que um bamba
vem bancar o dono do mundo
e exige que o verso
que a rima
lhe façam devoção.

não!
por favor, gente, não!
assim não!

deixe o poema ser de todo mundo
deixa ele servir ao seu egocentrismo
e também à delicadeza de outro ser
deixe-o servir àquilo que não sabemos
ser possível
nem sequer sabermos entender.

tem sempre um poema para cada um
no mesmo instante em que para outro
ele também se dará.

poema é feito puto
prostituto
ele vai com quem lhe mirar
o par de olhos
ele vai com quem
lhe desejar,

portanto

sem exclusividade
porque você
quando aqui reconhecido
não é nada mais do que você
entendeu?

você
verso limpo
camaleão
você que é você
você que não sou eu
você aos montes
eu então...

Bastardo

Por ninguém
Exceto por mim.

Cada verso cada rima
Tudo por mim. Por mais
Ninguém.

As dores do mundo
Não me comovem
São tudo humana
Invenção.

Que horror,
Escrever sem destino outro
Que não a si próprio.

Eis nossa condição
Dizer como quem precisa
Mas ouvir sem devotada
Atenção.

Não saber o que será
Porque apenas por mim.

Ouve?

O que penso e o que está acontecendo
Tudo corre veloz na velocidade de um dia desses
Tudo corre para o meu quarto
E eu sempre adormeço antes
De ouvir o mundo.

Poesia boba
Paradoxo frouxo, murcho
Que pena.
Que miséria.

Cessou?