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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Meu caro irmão

Neste natal você passou por mim quase que correndo. Quase derrubou a árvore de natal que nossa mamãe demorou tanto tempo montando. Quando eu entrei em casa, direto na cozinha, a primeira coisa que fiz foi abraçar fortemente o seu filho. Meu amado sobrinho que nem dez anos completou e já viveu, por sua conta, tantos horrores e, provavelmente, tantas maravilhas. E depois dele, o que fiz foi te abraçar. Eu te abracei, ainda que seu corpo não tenha respondido nada exceto tímida repulsa a mim.

E sabe o motivo, meu irmão? Você me repele porque sabe que eu nunca caí na sua ladainha. Você me afasta porque suas mentiras, em mim, tem perna muito, mas muito, muito mesmo, muito curta. Lembro de já ter lhe dito, certa vez, que eu sou diretor de teatro e, por conta disso, a mentira para mim começa a se anunciar muito antes de chegar. Eu farejo a mentira na distância. E você é todo perfumado nela e é por isso que existe a sua-nossa desconfiança. Não confio em ti, já faz muitos anos não confio em ti. E assim será, até o instante de sua morte (ou quando quiser vir até mim conversar).

Quanta merda já feita, hein, irmão? E em tão pouco tempo. Quanta merda. Quanto desassossego. Quanto roubo quanto crime quanta ambição. Você se resume em uma palavra: ambição. Sem freio você foi e assim você veio, destruindo tudo para ter aquilo que quis. Porém o que você tem de esperto você tem de ignorante. É na mesma medida. Você não percebeu que ter tudo é projeto que não cessa nunca. E assim, hoje, és tu escravo de seu desejo: serás para sempre incompleto, perdido, bancando aquilo que nunca foi nem nunca será, nem mesmo no seu silêncio.

Bandido. Você roubou não apenas os outros, mas a sua família. Roubou mais do que dinheiro, muito mais que propriedades privadas (o carro, a casa, o banco, a poupança), posto tenha você nos roubado a confiança. Só que - mais uma vez - a sua burrice não te deixou perceber que quem rouba também perde e, por isso, hoje, tendo perdido tudo, quem mais perdeu foi você. Porque o caminho da sua vida será para o sempre, em todo o adiante, refém da sua fome.

Sempre te chamei de filho mimado, sempre te achei príncipe demais, sempre te achei preguiçoso e, ainda assim, vencedor de tudo e de todos. Você sempre foi descrente com a possibilidade de alguma ética. Tenho vontade de te perguntar sobre essas palavras: ética? Respeito? E humanidade? Sabe você do que se tratam tais verbos?

Não escrevo uma carta, nem sequer um lamento. Registro em meu blog apenas algum saldo de meu eterno descontentamento. Não te desejo nada exceto que não piore a vida sua nem as de seus familiares. Não quero nada seu, nem seu respeito, nem sua atenção, nem parceria. Você ultrapassou o limite do horrível. Você já não vale.

E continuarei escrevendo mais e mais coisas. Quem sabe num momento - seria divino - você se disponha a conversar sobre tudo aquilo que é mais fácil chamar de doença do que falta de vergonha?

Para J. L. Neto

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