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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Helena me emprestou uma camiseta


Acabei de descobrir que minha mala foi mexida no aeroporto.
Eu juro que trouxe mais camisas, mas, agora, ao procurar, não encontrei.
Tudo bem.
Helena me emprestou esta camiseta.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Teorismo

E então Manoel soltou
Esta palavra.

Como dizem
Ela passou batida
Em nossa conversa
Mas, sinuosa,
Em mim criou
Morada.

Teoria
Teorias
Terror
Terrorismo

Teorismo.

Risco imprudente
Que cancela o jogo
Por conta da prosa pululante
E imponente.

Não,
Não me venha falar por conceitos
Sem antes me dar bom dia.

Não,
Não torne confissão aquilo pelo qual
Tua pele não grita.

Não,
Não tente me impressionar.

Não,
Não me venha feito Narcísio
Querendo sugerir mistério
Onde vitalidade nem há.

Cansei de sua ode repetitiva
Do seu saber faz separar
Cansei de ter que me cansar
Sempre que a mim vem sua fala
Versar sobre o amor que sentiria

Não fosse nosso diálogo tão
Já previsto nos manuais do século.

Sua moda não faz meu corpo desfilar.

Moda sua cansa
É cínica e não se pode mais
Tolerar.

Turismo

Ouvi dizer que foi na distância
Que ele se encontrou consigo mesmo.

Soube por outrem
Que isso de sair daqui
Abre mais coisas
Do que apenas o turismo.

Desconfiei, num instante imaturo.
Depois achei prudente me aproximar
Para, enfim, desconfiando
Distanciar.

E nem fui tão longe
Coube no bolso
Mas foi tanto
Que essa coisa de valor
Amanheceu meio pouca.

Não saberíamos dar a ver
Ao valor que não se mede.

Longe
O que envolve ele agora
Não havia sido prescrito.
Lá longe
A certeza de si é dissipada
Em fumaça e circunstâncias

Não dá para se apegar.

Estranho
Revolvo
Descubro
Descobro as exigências que sobre mim
Me fiz pousar.

Longe da mãe capital
O medo e o risco
Perfumam-se em liberdade.

Eu precisava.
Ele também.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Outro caderno

Que me fizesse sair de mim
Um pouco, ao menos,
Já teria sido poesia.

As coisas da cidade
Sua dor sem brilho inventado
A sina dos homens
Aquilo que tanto sabíamos
Neste caderno
Outro
Eu teria me destinado a.

Talvez porque me sobre
Vergonha
Por incapacidade
Tristezas
Por conta da jovem idade
Que desaprendeu a rima
E foi morar só neste verbo
Monotemático

Eu
Eu
Eu
E o resto?
O outro?

Repasse para outros
Cadernos outros
Vindouros.

domingo, 11 de setembro de 2016

A iminência da própria morte

Arranquei um dente.
Existe uma impaciência em mim que me impede de ter o devido cuidado comigo mesmo.
Arranquei-o, não me orgulho, sinto dores, mas sabia que isso seria o saldo de tal gesto.
Gesto sequer intempestivo. Gesto ciente. Eu sabia de tudo isso, porém, a dor é sempre um acontecimento.
Penso se não haveria uma iminência de morte em mim, sempre se anunciando, sempre fazendo composição com um ou outro gesto meu.
Penso que só poderia se tratar disso.
Tão simbólico, isso dos dentes. Meus dentes estão caindo, eu sinto, mas ainda que exista alguma abstração nisso tudo, eu estou os arrancando, de fato.
Dói ao mastigar, ao fumar, ao escovar, dói sem parar. E o que eu faço?
Eu tomo um anti-inflamatório para me esquecer da dor e aliviar.
Acordo mais morto a cada dia. Por que postergo tanto algum cuidado?
Se alguém me chama, clamando por cuidado, nem clamando, apenas se alguém me pede algo, eu já estou lá, todo me doando, todo servindo ao outro, mas, e quando é comigo?
O que eu faço?
O que faço comigo?
Durmo em dor. Acordo em dor. Vivo doendo.
Será que acho heróico tudo isso?
Queria ser menos idiota e dar um fim a isso?
Sabe o que faço?
Durmo então sem escovar os dentes.
Para desafiar, ou não, a dor que me mata, a morte que em mim permito que se escreva.

Dos livros

Comprei outros vários.

Continuo emburrecido.

Compro. Assino meu nome
É tudo posse
Tudo pose

Eu não leio

Eu não sei o que estou fazendo comigo.

Férias

Fiquei pensando
Se haveria a possibilidade
De eu tirar férias
De mim mesmo.

Dizer

Disse o que precisava ser dito
E aquilo que não precisava?
Faço o que com isso?

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Coisa e Tempo

Hoje
Olhando eu eu lá atrás
Até chego a rir, um pouco,
Por ter sido tão enérgico
Tão tenaz.
Que sufoco, eu velho penso,
Ter querido demais a vida
Sem ter tido algum cabimento.
Hoje eu chego a rir
Porque agora me faltam palavras.
No entanto, houve tanto,
Que sobrevivo
Se agora me fosse ordenado
Ser Só Memória.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Fraturo

Não quisesse eu saber
Mas soube.
Não quisesse que assim fosse
Mas foi.

Minha presença
Em terras familiares
Quebrou toda.
Resto eu e um desânimo
Em poesia
Tentando nos dar jeito.

A vida trama habilmente
A efetividade do seu ruir
Completo. Nada sobra, nada
Há de sobrar.
Tudo morre.

E eu, de longe, meio perto,
Desconfiando à distância,
Eu sem sorte
Vendo nas decisões tomadas
O desejo de ter sido todo
Interpelação.

O desejo de ter tirado o jogo
Do atual estágio, para convidar
Seus jogadores a outra evolução.

Doo sozinho.
Minhas revoluções morrem
Abruptas nisso de só comigo.

Queimo ao sol
Transformando manhã
Em campo de extermínio.

Queria viver
Mas o mundo está tão preocupado
Com o que dizem os vizinhos
Que já desaprenderam o básico
Talvez
Do que poderia ter sido
Estar vivo.

Oval

E então, quase em roda,
Disse a eles e a elas
Que seria necessário conversar
Isso mesmo, fazer roda, tocar
No problema e não mais fingir.

Silêncio.

Depois de um tempo,
Um deles me pergunta qual
É o problema? Outro afirma,
Certo de si, que estamos conversando
Até que a mãe, rainha do cinismo

Diz que talvez eu estivesse querendo a roda porque trabalho muito assim, muito em roda, trabalho muito sentando junto com os outros para vasculhar os problemas.

Seria um elogio, não estivesse a vida deles
E delas, tão distante de tudo.
Devo me sentir fora do padrão?
Devo me sentir injusto?
O que eu estou a eles e elas
O que estou exigindo?

Uma conversa
Nem bem precisa ser em roda
Um abrir do abismo
Dissecando sua engenharia
Silenciosa.

Não.

É melhor fingir que está tudo bem.
Não falaremos sobre os roubos
Cometidos pelo seu irmão.
Fingiremos que está tudo bem.
Tudo bem.
Ele vai dar a volta por cima.
Ele já fez isso noutra vez.
Ele roubou, deu a volta por cima,
De todos nós, e ainda conseguiu
Emprego, dinheiro, deu brinde para
Todos nós.
Ele vai conseguir.
Ele vai dar a volta por cima.

E que cima é esse?
Que não para de ser chamado?

Que cima é esse?
Insondável?

O ser humano é o pior da humanidade.