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domingo, 25 de junho de 2017

Êxodo

Tudo escorre.

Sem sentido nem direção
tudo explode, hoje,
tudo explode.

Com a calma cirúrgica de um ancião
ela mira o seu liquefazer.
Há tanto nisso que te escorre
ela te diz.
Você?
Você segue escorrendo sem nada reter.

A sua inconsequência
a sua inconsciência
a sua destemperada descrença
de que as coisas são o que são
e não apenas aquilo que, num dia,
poderão ser.

Você nada. Como reter?
Tudo explode tudo escorre
você sem compreender
É a sua ignorância que também vai
ralo abaixo
profundo
pro mundo

Ela te observa
você sem palavra.

Tudo sai tudo quer de ti correr.

Num instante relâmpago
você se pergunta a única coisa
que precisa para sobreviver:

por que foi que eu me tornei essa terra arrasada
esse terreno vago essa coisa insensata?

Mas é tarde.

sábado, 24 de junho de 2017

Caixa

Sem proteção
Sem reserva
Uma calma, talvez
alguma coisa outra
Outra mesmo
enfim
Não saberíamos precisar
apesar da necessidade.

Sobre a mesa
esta caixa
Vocês conseguem ver?
Eles se entreolham
como se nessa caixa
pudesse algo haver.

Não há.
Nunca existiu.
A caixa é um convite
para o mundo que ruiu
se refazer
se desfazer
e guardar - nela, sim, nela -
aquilo que talvez importasse.

Hoje é domingo
sábado?
Domingo?
Como lidar com a falta de sorte?

Amanhã o dia será penoso.

De antemão, eles preparam
as ciladas para o asfalto negro.
É tarde, sentem fome
sentem medo.

A caixa, porém, sobre a mesa
nada sente.
Ela sabe
sentir é depender.

Por quê?
Eles se entreolham confusos.
Por que, humanidade?
Por quê?

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Reescritura

Cinza?

Oh, não.

Cinza não.
Tinha outra cor ali.
Alaranjado verde
Meio assim confuso
Feito os olhos de algum
Amor hoje passado.

Dizia muitas coisas
O muro dizia.
Sem início nem fim
Muro ao meio
No meio dos caminhos
Eu fagrei.

Nada liso. Nada dado.
Tudo sendo refeito
Nessa cidade
Tudo em continuação
Nada parado

Como o meu amor por você.
Assim como o meu amor
Por ti.

sábado, 10 de junho de 2017

Alguma revelação sobre o Isto

Amor.

A princípio, apesar da beleza
Apesar dos sorrisos
Sempre um risco
Sempre abismo.

Amor sem ponto final,
No entanto, desfaz precipícios.

Amor reticente
Condizente
Amor contextual
Embora presente.

Eu confio, amor,
Que o amor não seja você
Nem eu.
Amor para mim, amor,
É habilidade para ser.

Estou amor.

Contigo e com outros mais.

Não me represse, amor,
Quero surfar nos corpos
Nos abraços quero deitar
E acordar, amor, trocando os lençóis
Para te encontrar.

Posso? Ser amor sem firmar sentido?
Posso eu? Amar você como um instante
E depois não mais?

Amor, amado.
Hoje eu te amo
Amanhã amo o outro

E no meio disso
Não há descaso.

Continuo disponível.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Aquilo que você me oferece.

Penso sobre as flores.
Observo as que pendem
dos galhos que atravessam a janela
E floreiam o dentro cá de casa.

As flores, observo-as,
enquanto dentro de mim
um rio de palavras
corre e adultera

a margem do que eu já sabia.

Elas estão ali.
Preservam o já sabido
mas é em meio ao vento
que uma pétala toca a outra
e nisso abrem-se
sorrisos nunca antes vistos.

O seu amor, corazón
Faz em mim a mesma coisa.
Escreve outras formas de enlace
Me convida, sempre renovado,
ao encontro-embate
do abraço.

Penso nas flores.
Eu quase as chamo
para que invadam a minha sala
e me comprovem, de fato,
que há muitas formas
de ser quem se é
e de continuar amando.

Elas estão aqui.
Eu lá. Lá no longe
não porque fora daqui
mas é porque no longe
eu me vejo renovando
o que é para mim
aqui
agora
ser
e
estar.

Penso nelas. Penso em mim.
Penso em você.

Penso como quem dança.

Não há melancolia.

O amor - sem nome - que nos encontra
precisa sempre de novo nascer a cada dia.

É isso o que temos.

Que bello.

sábado, 3 de junho de 2017

Detalhe

Sigo um pouco vivo.

Eu fico

Parado.

Respiro, é certo,
mas permaneço quase imóvel.

Não me descabelo
Não perco o tino
É só que não vale à pena tudo isso apenas por você,
menino.

Nem é desprezo, ok?
Não é jogo nem tortura.

É só que quando a idade nos chega,
perde graça morrer um pouco a cada esquina.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Lacre

Preparado o silêncio
Quase ensaiada as reações
Só que
Os olhos dum cruzaram os doutro
E então tudo desmorona
A paixão, bicha louca da porra.

Secou os olhos
Era já outro dia
Secou e guardou dentro
A neblina líquida
Para quê?
Veio um abraço mais forte naquela manhã
E envolto no embaraço
Chorou feito bode.

Bode chora?

Chorou.

De amor
De paixão
Dessa doença
Como se chama?

O outro.
Você.
O outro
Vos mice.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Advertência.

Escrevo "amor" como quem respira.

Nem percebo.

E mesmo assim
Bate o meu coração
Só porque, sem ver,
Transpiro.

Bastante.

Amor como Filosofia Prática

Pomposo título para dizer nada.

Quase nada.

Muito simples.

Como nunca antes, te amar,
Coloca-me novos limites.

Os mesmos, é verdade,
Mas tudo novo.
Porque não há possibilidade
De não ver a cilada em que estamos.

Falamos através de conceitos
Mas e o corpo?
Como ele fica em meio a tudo isto?

Amor,
Existir com você
É picotar a filosofia dos livros
Para fazer vendaval de conceitos
Florescer nosso dia a dia.

Melancolia

O que diz aquilo que diz a palavra que você encontrou para se dizer?

Algo mais, não?
A chuva não quer dizer só da água
Ela diz do acúmulo insustentável
E do desejo de precipitação.

O que diz essa palavra?
O que ela pode te dizer?

Penso em ti. Transporto-me ao seu abraço.
No laço, desfaço os ombros sobre erguidos
Meu sorriso vira rio
E corre uma delícia imensa
Através de mim.

Sem isso, quando sem isso, sim,
Obviamente, sou todo melancolia.

Mas, inda assim, eu sou
Estou aqui, não bem rendido
Mas em conversa com você.

Chamam vínculo
Nem amor nem paixão
Chama-se vínculo isso que atam
Nossas mãos.

O que diz a palavra?
O que ela tenta nos dizer, sim,
Mas, sobretudo, o que ela diz a você?

Diria sobre o fato
Novo
De que estamos um
Pelo outro
Afetados?

Diria, essa palavra,
Que faz falta frequentar esse engasgo?

Não falaremos sobre falta.

Você amanhece comigo
Sobretudo quando estamos distantes.

Vamos com calma, oh, moço.

A pressa é inimiga do instante.
E o que temos hoje,
Além da palavra por ti encontrada,
É só esse suspiro constante.

sábado, 27 de maio de 2017

Abandono

Cuidado!

Nem sempre é possível
Passar a roupa do corpo.

Nem sempre
Três refeições.

Nem
Bom sono.

Atenção,
Não quer dizer que é o fim de uma vida.

Não, cuidado! Tenha atenção!

Esse abandono seu
De si mesmo
É um modo
Sim, um modo
De dar-se atenção.

Nem sempre acolchoado.
Nem sempre a calmaria
Nem sempre o vento morno
E a garganta limpa.

Hoje esse abandono.

Quem se importa?

Esse abandono que domina
Os segundos.
Nem sempre é sempre
Mas hoje, ele te convida
A experimentar essa possibilidade
Esse cansaço de encaixar-se ao sol
Hoje não, hoje não virá.

Não haverá força.
Você deixa a coisa te abater.
Você já sabe que esse desconforto
Te participa,

Você mira através da janela e pensa
Como é cuidadoso se permitir se cansar
Se perder
Perder

Hoje, você perde
Para continuar perdido.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

JANIS


La posibilidad

Chico, hay que comprender.

Lo que sientes
Es una posibilidad
Nada más.

Comprendo que sea intenso
y que no te puedes dar cuenta
Pero, mismo la realidad
sigue siendo juego de sentidos.

Una posibilidad.
Puede ser o no ser.
Puede hacer bien o algo así como
hacer nacer lo deseo de poner un fin
a todo lo que hay.

Una posibilidad tiene que ser
tanto posible como no.

No es un lugar donde se puede vivir.

Chico, atención: no hay fuerza y amor
en la misma frase.

Crise

Foi noticiada.

Não falaremos sobre.

De alguma forma sabíamos.

A crise é apenas o que existe.

domingo, 21 de maio de 2017

A calma do depois

Aqui estou novamente.

Dentro da minha casa.

Sozinho e tão povoado.

Uma revolução me impacienta
ela mora no meu centro esquerdo.

Calma, eu me digo.

Calma, nos diz a canção.

Como andar sem ser com os pés?
Por que andar e não ser avião?

Voar.

De aqui para alá

Daqui
para ti

Calma, Diogo
eu te peço

Algo se marca em seu corpo
sem que seja preciso definir
para sentir o que te afoga.

Morra um pouco

isso ainda é
vida.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Quisiera

Gostaria muito
De dizer da alegria
Imensa que impacienta
Meu peito nesses dias.

Gostaria - tremendamente -
De seguir este jogo lindo
Que tem sido imaginar a cor
Da sua cozinha.

Não sei de nada
Não posso saber de tudo
Mas conservo, bem calma,
A possibilidade bem próxima
Do nosso reencontro.

Gostaria de não antecipar as chegadas.
Gostaria de não achar que tudo isso
seja algo para além do que é.
Gostaria de não me casar com você.

E tenho conseguido, confesso.

Uma gripe amolece meu corpo
e me pede calma como se sentisse
Que me virá um afogamento.

Gostaria de ter uma boia,
Mas o que tenho é apenas
Este sorriso.

Vês?

sábado, 13 de maio de 2017

Cuidado


Ter cuidado
Ser cuidadoso
Agir com cuidado

é não antecipar os dentes.

Calma, rapaz.

Saboreie o instante.

Não há nada além dele.

sábado, 6 de maio de 2017

Sobretudo

Pense.

Às vezes, é o caso
de pensar.

Ação já tão condenada
pensar um pouco
Um pouco que seja
Parece revolução.

Cinza o céu tinge as cores todas.

Veloz o tempo fratura os abraços.

Abrupto o homem destrói seu outro.

Pense
Ao menos, hoje,
um pouco.

Que gesto fazer?

Quanto durar um silêncio?

Como ser específico o seu atravessamento?

A noite lá fora
parece ter pressa
A escuridão do seu dentro
é o que te espera.

Fique em breu
Despertado.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Apenas para demorar no instante

É um desejo seu de não perder?

Perder eu vou. É outra coisa...

Desejo?

Sim, claro, não seria outra coisa.

De quê? Desejo de quê?

De durar mais um pouco. Aqui. Assim. Desse jeito.

Medo de perder.

Não é medo, por favor, me entenda. É só que há tanta beleza que eu queria me demorar mais nesse instante. Para ver melhor, sentir com outra calma.

Uma calma mais calma que a calmaria?

Eu gostaria. Sim. Que durasse mais, porém, não por medo do fim. Ele virá, eu sei, ele sempre veio. Queria que durasse mais para descobrir algo além disso que é tão lindo.

Vamos do início. O que é assim tão lindo?

Esta coisa, isto, isto que estou sentindo.

Amor?

Não, nada disso. É só como eu me sinto agora, apesar de tantos outros motivos para cair e nunca mais me mover, algo nisso tudo me faz estar assim. Você não vê?

Um pouco. Talvez, um pouco mais calmo. Não eu, eu digo, você, mais calmo do que sempre.

Também. Algo mais? Ou algo menos?

Seria preciso dizer outra palavra. Calma não diz isso que te escapa pelo olhar.

Viu? Tem algo mais.

Tem, sempre tem. Queria era conseguir dizer um nome.

Esquece o nome. Fica com isso.

Ele sorri leve e profundo ao amigo.

Isso diz mais que um tanto.

Alegria.

Palavra feia. Palavra boba.

Ah, alegria. Felicidade. Satisfação. Sei lá...

Então fique sem saber. Vai. Olha de novo.

Ele sorri novamente ao amigo.

Mora todo o céu no seu sorriso.

Eita... Essa foi a coisa mais linda que você disse desde quando nos tornamos amigos.

Culpa sua. Tenho até medo de te perder.

Como assim?! Não! Por quê?

Você esta irradiando algo que nem cabe aí, cara. É grande demais.

É porque não é só para mim.

Quer dividir?

Preciso.

Como faz?

Sorria comigo.

Eles se olham por uns segundos. Ele abre o sorriso antecipando o encontro que virá. Seu amigo, um pouco confuso, também um pouco envergonhado, aos poucos dá a ver a cor de seus dentes.

Faz uma tarde meio amarela meio escura. Eles riem em parceria. E é só isso.

Talvez, mais do alguma reviravolta, esse breve punhado de palavras esteja querendo te perguntar: e você, camarada, faz quanto tempo que não sorri para os amigos?

Simple

Você vê?

Estamos novamente
Um frente ao outro.

Teve antes? Teve,
Mas não importa.
Não hoje.

Agora, simplesmente,
O que temos é só mesmo isso.
E isso não é pouco.

Você aqui
Eu também
Nós dois amparados
Um no outro.

Simples, não?

Precisamos de algo mais?

Não, sinceramente,
Creio que não.
Estamos aqui.

E eu amo esse instante.
Simples.
Tão pleno.
Tão delirante.

domingo, 30 de abril de 2017

não há nada lá fora

Tanta tanta mazela
tanto risco em andar solto por aí
Tanto mundo se desmundando
Tanto verso que é tiro
verso adulterado
Tanto horror
hoje
como antes
Amanhã, o que lhe dizer?
Tanta criação horrível
tanto horror plasmado na superfície dos olhos

Difícil é isso de viver.

Difícil
se o mundo que se quer recriar
não nasce, antes, em cada um
No dentro
interior subjetivo
de cada um
Nascerá onde o mundo
que excluíram da vida
ao nomeá-lo sonho?

Ele nasce?

Tem raiz para ousar?

Ele frutifica? Como há?

Que mundo é esse que só existe feito queimação
impróprio mundo imaginado
mas todo desejo.
Mazela
Criação
eis um risco nisso
risco mesmo
de seguir como quem não se importa
de permitir
que te abatam
e você sem força para gritar

Parem! Homens, sufoquem-se!
Parem de exterminar a vida com seus cassetetes!

Estranho mundo esse que caminha entre abates.

Não teria solução.

Sebastian Wickeroth.

A vida, desde já faz tempo,

é indiscernível da complicação.
Seguimos, compartilhados
no espanto inexato
do presente doente e crente
de que um futuro lá fora
nos espera para a ceia.

Virá?

Risco é o futuro.
Horripilante constatação:
não há nada lá fora
é tudo coisa de seu dentro que dói
Não há nada exceto o agora
que morre
e só morre
e morre outra vez
e a outra vez mais
é sempre quase
é sempre o agora

fratura no tempo
espaço perdido
o agora
é só o que há
nem corpo
nem sentido

agora risco
traço agora
agora precipício
em si

dentro

profundo

pergunta uma emana

como recriar mundo
se tu não consegues nem
recriar a si mesmo?

Killian Rüthemann.

te assusta?
perguntas para as quais
tu não tens saída?
te assusta
enfim
a vida?

eu te vejo
vejo o cigarro
vejo o escárnio
pelo qual
profanas todo e qualquer beijo
para o começo
um beijo
eu vejo

vejo a sua facilidade
em tirar o corpo
é assim, não é?
vocês dizem isso
de tirar o corpo
de sair
de não se comprometer
de fugir

sem perceber
que fugir é também
um modo de viver

como você vive?

você me olha
com cara de quem ainda
não aprendeu a confiar
num poema

como?
eu te pergunto
vendo o seu derretimento

como?
diz, rapaz
diga-me sobre as suas habilidades
para enfrentar essa tremenda época
diga-me sobre o seu pacto
com o medo

com o medo

o que você faz?
como?
de que modo?
te interessa falar sobre isso?

você me olha
o cigarro ainda apagado
você o acende
imagino
e pensa
penso eu
acendo o cigarro não para me tirar do embate

isso é bom
é um início
é já outra tarde

o que você faz?

saio da clausura de meu apartamento
mudo de país, por um instante
uns dias, uma semana, quase isso

e daí?

escuta
saio da segurança
do conforto e das certezas
vou só comigo
para ver no outro que me estranha
se existo apenas para meu vícios
ou se posso também existir para
compor junto outro caminho

compreende?
você me pergunta
sem nem perceber
eu fico mudo
eu não tenho que te dizer
eu fico quieto
não como quem foge
mas como algo que
te convida a ir
e não mais a dizer

não diga

afunde

precipite

o risco é apenas este:

morrer como quem vive

ir como quem não se importa mais em ser.

ir como quem não se importa mais com o se.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Sala de Casa

Não vai dormir?

Sono não me falta.

Falta?! Por que você ainda usa essa palavra?

É mais costume ao dizer do que propriamente trauma.

Espero mesmo que seja só o costume. Que já não é bom.

Demora um tempo até o sofrimento virar afirmação.

Explique-se.

Demora. Até você explicar ao seu corpo, fazê-lo entender que o sofrimento, apesar de genuíno, é despropositado.

E como você faz isso?

Gasta tempo. Tem que se deixar sobre o chão de casa por horas a fio. Mas sem relaxar. É preciso ficar atento. É preciso concatenar os fatos e fazer com que se perceba que apesar das belezas, apesar das revoluções, ainda assim, um corpo é sempre só. Só um corpo só. Ainda que acompanhado, um corpo é sempre só um corpo.

Teoria confusa essa.

Não precisa ser outra coisa.

Mas é clara? Eu pergunto: para o seu corpo? Ele, o seu corpo, ele entendeu?

Sim. Não tenho dúvidas.

Como você consegue?

Ele compreendeu e não precisou dizer nada. Balançou a própria cabeça, não em consternação, mas em compreensão.

Nem teve lágrimas dessa vez?

Nenhuma, acredita?

Acho precária essa sua situação.

E a sua não?

A minha?

É.

Ah, é outro tipo de precariedade.

Diga lá.

Não sei se posso.

Por quê?

Não compreendi de fato tudo o que estou sentindo.

Ah, então algo te falta?

Rancoroso você, hein?

Não, mas se escute: "tudo o que estou sentindo"! Tudo mesmo?

Não quis dizer isso. Foi costume. Como você disse anteriormente.

E o que mais?

Eu estou inflado. Estou completo. Essa é a minha condição mais precária porque me faz esquecer de quem eu sou, de como eu sou quando liberto de tudo isso, sem todo esse... Como se chama? Esse, não é amor, esse enamoramento todo, compreende?

Ele se deita sobre o chão da sala.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Praça Pública

Como você está?

Pareço angustiado?

Não diria, apesar dos ombros altos.

Meus ombros?

Estão altos novamente. Excitados.

Não estão excitados.

Estão tensos. Preocupados.

São muitas responsabilidades.

É o que mais?

Nada mais. Tem algo mais além disso?

Tem tudo aquilo que julgamos desnecessário.

Vai me dizer que isso importa. Eu sei.

Sabe que eu vou dizer ou que importa?

As duas coisas.

Que coisas?

Sobre o que poderíamos conversar?

Você está apaixonado.

Um pouco.

Consegue medir?

Estou tentando não exceder os limites.

Há limites?

Sim, eu inventei alguns.

Para quê?

Não sucumbir.

Oi?

Estou muito apaixonado.

E não está sendo correspondido?

Estou.

Então? Falta o quê?

Ele aqui.

Ah... Entendi tudo...

Por que a reticências?

Quais?

Essas, na sua fala anterior.

Eu não usei reticências.

Usou sim. Deu para ver.

Certo, eu usei. Duas.

E quer me dizer o que com elas?

Que de novo não, né?

Não é de novo. É o mesmo, mas diferente.

Por isso você fala de limites, de não sucumbir, porque você já sabe onde tudo vai dar.

Eu deveria não sentir o que estou sentindo?

Você não deveria estar aqui comigo. Não sou uma boa companhia para amantes do amor.

Ainda nessa? Você ainda está nessa?

Estou.

É direito seu. Como é meu estar apaixonado.

Cada um tem o que merece.

É. Ou aquilo que quer merecer.

Tanto faz. Eu vou embora.

Vá...

Você usou reticências?

Usei. Para deixar a conversa em aberto e você poder voltar.

Obrigado.

Nada...

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Disrruptivo

Cambiei o destino previamente traçado.

Tudo seguia, tudo seguiria
um pouco mais
Porém, de fato,
Hoje tudo transtornado.

Agi como se não pudesse
esperar
Sem esperança, agi direto
Desfazendo o que mais amava.

Certo ou errado não fazem sentido.

O que sinto é maior que o grande
ou o imenso, que um pequeno ou um frágil
O que sinto agora, após tamanho desvio
que fiz para outra direção que não
Seu peito
O que sinto sobrevive cá comigo.

Lo que siento sobrevive.

Por mim
Por ti
Por nós quando formos nós
Novamente
Noutro abraço

Noutro agora

Noutro aqui
y ahí.

domingo, 16 de abril de 2017

Uma tristeza

Acontece, não?

O que fazer?

Costumas dizer que é importante
lidar com a atualidade do que tens
que é sábio perder os ideais
Viver com os pés no chão.

Mas,
e quando dói encarar a realidade?

Dói, apenas.

Tem que doer.

Você viveu o momento?
Viveu as coisas todas sem antecipar
este, agora, presencial, tormento?

Sim, mas não.
Não, mas sim.
Talvez.

Mais uma vez.

Eu perdi.
Eu o perdi.
Ele, o outro.
Eu, ainda hoje,
estrangeiro de mim.

Para Lucho.

sábado, 15 de abril de 2017

Hermoso

Sus ojos.
Deja que te mire ellos.

No sé las palabras exactas
Para decir todo lo que siento
Después de estar con usted.

Usted eres solamente vos.

Solamente.

Sobrevivo en silencio
Miro a la belleza de su sonrisa
Y el me dice:
"Gracias por estar con ustedes".

¿Algo mas?

No podría decir.
No importa.

Podríamos hablar de aviones
Yo allí y aquí
Estamos en el camino
sin nombre

y entonces,

Un beso más.
Y otro.

Aquí.
En el ojo.
Ceja.
En el brazo, el pecho
espalda
En todas partes
Hoy somos un cuerpo que viaja
y luego otro mundo se vuelve.

Nuevo.

¿Como se llama?

Este?
¿Qué?

Como llamar a esto lo que sucede entre nosotros?

Para Lucho.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

introdução

ao menos
uma diferença
por um dia
que seja
ao menos uma
uma diferença.

deverás introduzir
a cada manhã
um gesto
que seja
apenas um
mas, diferente.

poderás saltar
dar um salto
dar um sorriso estridente
dobrar as pernas
como se quisesse
dar-se um nó.

de fato
não pode assim ser tão fácil
ver o costume te plastificar;
introduzir uma diferença
a cada dia:
eis o seu novo princípio.

para quê?
perguntam os céticos
em plantão online
sozinhos e ultra comovidos.

ora,
eu respondo sem metáforas:
é para duvidar
para duvidar de quem se é
para questionar não os motivos
mas os gestos.

questionar os gestos
os hábitos e suas morais
questionar não como quem espera resposta
mas como quem deita
ao longo da parede da cozinha
colado ao chão sujo de refeições passadas;

duvidar como quem inscreve neste mundo a dita febre
cousa louca e insensata.

ao menos por um dia
num instante
feito um raio
que foge do sol
e desnorteia a inteligência acostumada
eu te peço:

tome o café da próxima manhã
com a cadeira da cozinha
sobre você sentada.


anônimo

sábado, 8 de abril de 2017

Iago

Nem sei o que dizer.

Passei.

Vi por trás.

Cruzei a rua.

Deixei para trás.

Sentei na calçada.

Passou por mim.

Olhei.

Olhou.

Olhamos.

Seguiu mesmo assim.

Fiquei.

Olhou de volta.

Olhei.

Andou.

Olhou de volta.

Eu continuava a olhar.

Andou mais.

Fiquei olhando.

Olhou de novo.

Meio que sorri.

Parou.

Apaguei o cigarro.

Quantos metros?

Uns oitenta, cem, cento e poucos.

Ele veio.

Bebi outro gole.

Ele disse oi.

Eu também.

Iago.

Diogo.

Um beijo.

Outro.

Outro beijo.

Beijo do outro.

Disse adeus.

Disse tchau.

Passou assim.

Assim estou.

Beijado.

Estacione

Vem
Pare aqui
Ao meu lado.

A fumaça por vezes passa
Resta o silêncio
Entre nós
Querendo desatar.

Vento frio
Leve frio
Mas frio

Noite branda
Escura noite essa, não?
Por que não?

Confesso
Sua letra
Seu cabelo. Seu sorriso
Aquele abraço

A beijoca
Assim que se diz?
Aquele beijo estridente
Estupendo
Aquele
Aquilo
Isto
pois então

Fiquei demente.

Não pare
Não parte
Não vamos terminar

Continua
Mais
Mão no rosto
Abraço no laço

Não estacione
Vamos
Força

Até já, meu bem
Até já.

Subitamente

Tudo se choca
Mas nem tudo desmorona.
Algo fica, inerte e dolorido,
Acenando ao futuro
Outro possível que não o vivido.

Você estava lá
Lá você esteve
O baque o susto o tiro
Tudo é tão instante

Você está aqui
Aqui você estará
Uma noite ou duas
Quem poderá te dizer?

Inerte em poesia que machuca
Lentidão para quem não tem calma
Música longa para quem não tem
Escuta,
Pare
Um pouco, o corpo lhe pediu

Repasse para o fortuito tempo
A solução do seu desencadear.

Você ainda está vivo
Então viva o que a vida te dá.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Poxa

gostoso você

você é bem gostoso

gatinho você

você também

então como faz

como faz

para a gente se comer

não sei

como faz

sem ter que saber

como explode

um no outro

e faz acontecer

aquela coisa

aquele treco

aquele eco de pele suada

brotando o vir-a-ser

como faz, moço?

como faz para a gente um no outro se meter?

o que resta

continuação, apenas

isso que segue
aquilo que cola
o que fica
e desenrola

fica apenas o resto
que sobra

apenas a ida
já indo
o avante
ao vento destemido

ventania
um silêncio quase sacro
um futuro velho
onde estaremos cheios de histórias para contar

em roda
por favor, eu peço
em roda
por favor, eu imploro

um futuro
em roda

quarta-feira, 29 de março de 2017

Estalo

Seria preciso escrever o mundo
Tal como ele parece ser.

Depois, com esforço,
Seria preciso desentender
Tudo
Desde o princípio.

Algum vínculo, um elo
Par de pernas
Algo reconhecível. Seria preciso
Não estranhar tudo, mas, antes
Reconhecer.

Jogo de espelhos.
Nada narcísico.
Há tanta coisa bela nesse mundo
Mas onde mora o precipício?

Seria preciso vagar até encontrar.

Nada para amanhã.
Hoje sobrevive inerte nosso mesmo
Nessa pança que pousa ao meu lado
Nessa música que nada me afaga
Nessa fumaça redundante e, sempre,
Tão distinta.

Seria. Preciso as palavras.
Não conseguiria dizer.
Por isso, ele continua.

Perguntas vãs

Disse que não
Que estava tudo bem
Que o sol acordava e dormia
Assim como eu também.

Quiseram mais
Quiseram tudo e ao fundo
Perguntaram sobre o remédio
Sobre o coração, sobre os medos
Todos os sustos.

Disse que não
Que não era nada disso
Que era só uma paz
Como nunca antes
Era paz o que acontecia comigo.

Não bastou
Disseram mais
Disseram sobre o cansaço
Sobre o câncer, o cigarro
Disseram sobre o mais que se esconde
No todo.

Disse, sem repetição, que não
Que não
Não se trata disso
De nada disso
Não, eu imploro, me escutem
Não é nada
E então

A noite veio
O dia tropeçou meu silêncio
Com sol e caminhão de lixo.

Não é nada
É só que a gente muda
Mesmo quando acha que será para sempre
AQUELE ISTO

NÃO
Não
Se acalmem, meus amigos
Eu só estou em paz
Antes comigo
Antes comigo.

segunda-feira, 6 de março de 2017

A possibilidade

Estava presente
Junto, ao lado
Sempre
Contemporaneamente.

Tentando não antecipar
O futuro
Ele segurava a poltrona
Como se nelas morasse
Sua vida.

Instabilidade.

A Palavra que agarra.

O avião rasgava as nuvens
Ele se perdia
Rumo ao dentro de si
Ele sabia
Que sim
Que poderia
Que Talvez viesse a ser rápido
Tudo muito rápido

Morrer

Muito rápido

Seria tudo como um susto
Seguido das ruínas
Para os que ficaram.

Depois que tudo se estabilizou
Ainda cruzando o ar
Pensou se era possível
Aprender alguma coisa
Com aquele breve e tremendo
Pavor.

Daí o avião pousou.

Depois

Você se encontra
Parado
Uma das mãos
Na testa
Apoiada

As unhas
Hoje limpas
Passeiam pelo rosto
Com a calma
De quem sobreviveu
Ao amor que morreu

As crianças ao redor
Te olham
Curiosas
Algo em você
As estremece
Seria a sua paz?

Seria o seu espanto
Em densidade
Concentrado?

Depois você perceberia
Que o amor acabar
É coisa própria
Da vida.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

sobre o desejo

por agora?

quase nada.
desejo apenas durar
nu
neste calor
em meio à passagem
das horas.

adiante?

é difícil para mim
projetar o que ainda
não veio.
prefiro, quase sempre,
não projetar.

e o desejo?

ele está aqui
ele sempre comigo está

não te alucina?

o quê?

não ter o que desejar?

desejo
sempre desejo
desejo o gosto agora já na boca
desejo o som
essa música
desejo estar aqui
com essas pessoas.
é preciso desejar mais?

não

não mesmo

desejo não é acúmulo
é apenas sabor.

certa vez

acreditei que a poesia só existira se houvesse uma grande dor me comendo por inteiro. depois tive certeza disso. noutro depois, continuei acreditante. ainda que trouxesse comigo alguma dúvida - não me dou bem com fatos - eu continuei movido. adiante.

aqui estou agora. certo de que só a dor escreve através de mim. mas, se não estou doendo assim, como fazer poesia? precisa ser feita, a poesia? eu preciso escrever? é preciso, talvez, desvincular dor de criação.

por isso sento a bunda nesta cadeira. acendido o cigarro, já meio embrigado, eu escrevo não bem uma poesia, eu escrevo sobre o escrever. talvez, mais do que a dor - eu agora consigo supor - a fascinação me desse motivo para um bom verso.

me perco das finalidade. poesia não serve para nada.

viver serve?

01 flagra


sábado, 18 de fevereiro de 2017

Uma deixa

É certo.

Nada está estático.

No gesto
Fazemos um laço.
O que houve?
Fomos juntos
Sobrepostos
Simultâneos
Inesgotáveis.

Um silêncio antes desse voo.

Uma paz, apesar de muita coisa na mala.

Uma paz que não esboça pergunta
Que se esqueceu das respostas.

Num instante
Suspenso
Eu volto a ser mundo
E ser homem
Se torna o menor
Dos tormentos.

Fico com as nuvens.

Resto só no vento.

A vida
É certo
Não precisa de tempo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Porrada

Você ouviu o que lhe disseram?

Se sim, tenho certeza, você percebeu
aquilo tudo não era palavra.
Palavra palavra, palavra não era.
Nem vou dizer que era mais
Nem pedirei que comprovem aquela estranha consistência

mas,

uma pausa,

talvez fosse melhor recomeçar.

Você sentiu o que aquelas palavra lhe fizeram?

Se sim, seria uma pena imaginar onde você possa estar agora.
Sobre qual maca, desdentado em qual nível...
Seria uma pena
imaginar seu corpo antes tão exibido
assim agora tão ultrapassado
tão arrasado
tão falido.

Você sente o que houve?

Havia força.
Intensa.
Crua força intencional.
Havia um discurso.
Mas era tudo em ato.
Coisa que deveria ter sido um dia o nome que dizem ser poema.

Poema ali foi um soco.
Uma porrada.
O único e determinante
atual
Problema.

É essa a questão?

O que te houve quando o poema te há?
O que te ocorre quando o poema te soca?
O que te resta quando o poema te espanca?

Enxerto

Lembre-se, meu caro
A possibilidade precisa continuar sendo um possível.
Não tema de antemão
Porque agora no antes
O adiante é todo imprevisível.

Lembre-se, meu caro
Tanto antes quanto depois
só o que existiu foram
Possibilidades.

Quer tenham vindo aceleradas
quer você julgue tenham chegado muito muito tarde
Não importa, meu caro
Uma possibilidade é um fato sem relógio
opera fora do tempo
opera fora da lógica funcionalista
determinante!
dos negócios ociosos -

Lembre-se, meu caro
A possibilidade te espreita
ela te convida
ela te alude
ela te saúda.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Perfume

Neblino.
A natureza se age em mim.
Precipito, enraizado, floresço.
Tudo num ciclo sem fé nem fecho.
Apenas outono, primavero,
Eu, verão no inverno
Invernando as lamurias
Dando-me em frutos
Sem rastro da terra entre as unhas

Olham-me confusos.

Fumaço.
Às vezes, sou todo cigarro.

Esse é o meu perfume.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Não, isso não

Não se trata de uma rendição.

Talvez ainda algum aprisionamento
Talvez um rabo, preso
Talvez um raio
Que não cessa de me trovejar.

Mas não, não estou rendido.

Não pode ser.

Já faz tempo
E eu ainda
Rendido a um você?

Não. Eu desconfio.
Preciso duvidar.
Seria mesmo isto:
você que passa
ainda me carrega
e me faz correntes
carregar?

Não, não é para tanto.

Talvez seja falta do que fazer.
Mentira.

Você me vem, vez ou outra,
Mas não cessa de vir.
Vem como saudade boa
Vem como chateação tenaz
Você me chega e então
O que posso mais?

Sobrevivo porque o tempo não parou.

A vida me anda. Às vezes, junto a ela
Eu vou.
Vezes não dou conta
E fico assim
No ato não feito estrangulado.

Não, não posso aceitar.

Preso a isso, preso ao isto,
Não.

Definitivamente não.

É só que essa noite dormi abraçado
Ao cobertor
E quando acordei
Pensei ser você.

Não, não era.
Eu já entendi.
Daí vem a poesia me desentender.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Não, não direi palavra alguma

Não é por direito
nem bem por escolha
Minha palavra
que hoje não veio nem virá
não me é ação
é apenas o que é

um Susto
tremendo
um Salto
indevidamente
intenso

Nem falo de ser direito
ou não
Nem questiono o fato
de sequer saber
se poderia
se deveria
se você gostaria
apenas

Saltou
Essa palavra muda
transparente de perplexidade
Sem interrogação
mas toda questão
Salto
Pulou
Sobrou

Foi o que de mim sobrou
depois do noticiário daquele dia.

O que a notícia está fazendo com a humana vida?

Não,
não direi palavra alguma
Vejo os homens matando homens
com o poder de suas palavras arranjadas

E eu
eu, logo eu,
sendo tomado por otimista
sendo rotulado de revolucionário
eu, comunista
eu, querendo que as palavras
sejam menos ordem
e mais ritmo
mais dança
menos lobotomia...

Não,
não direi palavra alguma
Apesar de já as ter dito
não disse
Isso é tudo sua projeção
Eu
Aqui

Você vê?

Não...

Não direi nada.
Cousa alguma.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Nevasca

Ouço os pássaros
O barulho da obra
amanheceu antes do sol.
Que sol? Pergunta minha pele.
Hoje o dia deu um chuvoso, Drummond.

Tento reter algum sabor
Tento sobreviver nalgum gesto teu
Nada acontece.
Seria preciso, talvez, não estar
Aqui, nem ser
Desse jeito.

Deito à cama após o café.

Poderia ficar aqui até a fome me acordar.

Nao tenho fome agora.
Não tenho saudade.
Não tenho nada
E, lá fora,
Esse princípio de nevasca.

O frio
O frio
Me esquenta.

Por que vivo bem em condições
adversas?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Através

Dali
através de onde ele olhava o mundo
Talvez houvesse o suficiente de calma
para se processar a instância
Do acontecimento.

Vendo-o de fora
olhando através da janela
Perseguindo o mundo,
mas com calma
Talvez houvesse alguma paz.

O semblante filtrado pelo vidro da janela
não revelou cansaço
Como antes, só o que se via
era interesse
calmo
Mas, interesse
ainda assim
Vontade certeira
de se desnortear junto ao mundo
lá de fora.

A abertura da janela não era tão grande
por ela não passaria um corpo, talvez passasse
mas só corpo de criança.

Dali
através de onde ele olhava o mundo
Seus tormentos sobreviviam suspensos
nada tendia propriamente ao fim
Eu vi
Eu o vi
Numa manhã, era cedo,
bem cedo eu o vi,

Ele estava sorrindo.
Ele estava sorrindo.
Só isso o que vi.

Através da janela
feito um gesto de escárnio rumo à insensatez deste mundo-instante
Ele sorria.
Ele sorriu.
Ele segue sorrindo.

sábado, 7 de janeiro de 2017

O Medo

Não estava frente a um espelho.
Estava sozinho mesmo, apesar de acompanhado de si.
Então se perguntou:
Você tem medo do quê?
Pergunta inteira.
Hein?
Não respondeu.
Caminhou pela casa.
Viu a poeira acumulada.
Pensou que no dia anterior havia limpado tudo.

Num súbito, se encostou à porta do quintal.
Mirou o céu nascente, o sol que acordara cedo.
Pensou sobre o medo e também sobre as coisas
as coisas que ali se mostravam tão claras
tão plenas.

Medo de não corresponder?
Responda.
É isso?
Você tem medo de não corresponder?
Corresponder a quem, ao quê?

Voltou ao dentro da casa.
O calor começara.
Caminhou pelos cômodos
a poeira solta no ar
e voando mais e mais a cada passo.
Pegou um comprimido.
Dor de cabeça
pensou sua cabeça.

Ali, engolindo o comprimido
esteve certo que o seu medo era esse mesmo
O medo de não dar conta de ter que ser aquilo que o mundo havia lhe dito.

Medo de não corresponder.

Queria ser sem correspondente.
Ser como quem apenas está.
Ser poeira
subir, voltar, cair, voar
Sedimentar.
Restar.

Você se permite?
Não se respondeu.
Eu te fiz uma pergunta. Você se permite?
Não corresponder?
Não ter que?

Em silêncio, querendo parecer distraído
naquela manhã amarela ele encontrou o princípio
que, apesar de início, não precisava de coisa alguma fora de si

Era isso
Não corresponder ao mundo
é existir.

Eu estou aqui.
Sem correspondência.
Eu estou aqui.
Falando sem pressa por ser ouvido.

Lá fora o dia impaciente
não porque faltasse algo
Mas porque sim tudo ele já ouvia
O dia
Ele me ouve
Ele me vê
Ele me fita.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Por você,

Você viu o tempo passar por nós?

Eu não
Nao vi quase nada
Fiquei detido e contido
Na imensidão do nosso
Encontro.

Os seus cabelos voltaram
Ao tamanho longo.
O nosso desejo de se pertencer
Ficou ainda maior
Também cresceu.

Que paz sentar ao seu lado
A sua frente
Caminhar sob o sol
Prosear o agora e o amanhã.
Que paz é você.

Para B. P.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Raio-X

Encosta o queixo.

Respira. Segura.

Encosta o peito.

Não mexe.

- Desculpe, mexi sem querer.

Não mexe.

- Posso fechar os olhos?

Não faz diferença.

- Para mim faz.

Segura.

- Estou segurando.

Solta.

Pode relaxar.

- Obrigado.

30 minutos.

- Isso tudo?

Eu estou aqui nessa sala fazendo isso o dia inteiro. Só você, foram sete raios-X. Percebeu o ar-condicionado? Sempre assim, no inverno. Viu a cor da minha pele? Não sei o que é sol. Nem ela. Tem certeza que vai reclamar por ter que esperar 30 minutos para os seus exames ficarem prontos?

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Medo

Por que demoras tanto?
Tanto tempo em tanta dor
Deve mesmo haver algo em ti
Que te faça gostar de se perder
Gostar de se gastar
Deve haver.

Costumas caminhar lento
Entre os pesares
Caminhada longa a sua
Sobre os cacos
Nem os da caminho
Você pisa sobre si mesmo.

É medo?
O que você sente
Este isto
É medo?

Por que não ceder?
Por que não cuidar?
Por que não ser frágil
Ao invés de deixar de ser?

Quando foi que você perdeu o carinho?
Aquele primeiro
Quando foi que o mundo deixou de lhe ser mãe
E virou só perigo?
É isto, não é?

Sua falta de cuidado
Consigo próprio
É manifesto
Da sua crença em você mesmo
Apenas.

Ceda.
Um pouco.
Um só pouco
Hoje
Vá. Desista de se dar conta
Você não está conseguindo
Ceda

A noite tem vento fresco.

resi (li) [st] ência

você está desistindo?

não. de forma alguma.

é o que então?

o quê?

esse seu comportamento, essa sua cara
é de quem está desistindo?

não. não mesmo. de forma alguma.

e eu?

o que tem você?

pareço estar desistindo?

não. você parece bem. bem aderido à coisa toda.

aderido?

à coisa toda.

que coisa?

a coisa. essa coisa. a vida. esse tipo de vida.

existe outro?

outro tipo de vida?

sim. existe?

muitos. muitos outros. você não faz ideia.

e então? estou aderido?

sim, sinto dizer, mas sim. você é aderência total.
tudo que te toca você já se transforma.

não entendo.

não tem nada para entender.

como você pode afirmar coisas sobre mim?

porque somente eu posso te ver.

entendi...

entendeu?

e eu a mesma coisa em relação a você, certo?

sim.

entendi.

você vê o quê?

você faz força. tanta força que parece não ter força alguma.

eu faço força?!

faz. às vezes só com os olhos, mas faz.

nunca havia reparado.

é pior. porque parece que você mesmo se dá um freio
para que a sua força pareça ainda mais forte.

não faz sentido.

não é para fazer.

é verdade.

ou não. não importa. importa apenas o que se é
como cada um de nós está se permitindo ser.

e estar.

isso. e estar.

entendi...

eu também...