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sexta-feira, 21 de abril de 2017

Sala de Casa

Não vai dormir?

Sono não me falta.

Falta?! Por que você ainda usa essa palavra?

É mais costume ao dizer do que propriamente trauma.

Espero mesmo que seja só o costume. Que já não é bom.

Demora um tempo até o sofrimento virar afirmação.

Explique-se.

Demora. Até você explicar ao seu corpo, fazê-lo entender que o sofrimento, apesar de genuíno, é despropositado.

E como você faz isso?

Gasta tempo. Tem que se deixar sobre o chão de casa por horas a fio. Mas sem relaxar. É preciso ficar atento. É preciso concatenar os fatos e fazer com que se perceba que apesar das belezas, apesar das revoluções, ainda assim, um corpo é sempre só. Só um corpo só. Ainda que acompanhado, um corpo é sempre só um corpo.

Teoria confusa essa.

Não precisa ser outra coisa.

Mas é clara? Eu pergunto: para o seu corpo? Ele, o seu corpo, ele entendeu?

Sim. Não tenho dúvidas.

Como você consegue?

Ele compreendeu e não precisou dizer nada. Balançou a própria cabeça, não em consternação, mas em compreensão.

Nem teve lágrimas dessa vez?

Nenhuma, acredita?

Acho precária essa sua situação.

E a sua não?

A minha?

É.

Ah, é outro tipo de precariedade.

Diga lá.

Não sei se posso.

Por quê?

Não compreendi de fato tudo o que estou sentindo.

Ah, então algo te falta?

Rancoroso você, hein?

Não, mas se escute: "tudo o que estou sentindo"! Tudo mesmo?

Não quis dizer isso. Foi costume. Como você disse anteriormente.

E o que mais?

Eu estou inflado. Estou completo. Essa é a minha condição mais precária porque me faz esquecer de quem eu sou, de como eu sou quando liberto de tudo isso, sem todo esse... Como se chama? Esse, não é amor, esse enamoramento todo, compreende?

Ele se deita sobre o chão da sala.

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