pesquise no blog

terça-feira, 29 de março de 2016

Fuga

Faço um traço
E sumo do embaraço
Que é estar aqui
Sem existir.

O tempo presente
Me impacienta
Não quero não me importo
Até que a conta venha.

E então convocarei
Reuniões farei tudo
Para me livrar da possibilidade
De desilusões.

Confio, mas não me peça
Presença que atormenta
Não me interessa. Eu morri
Cheio de gostos.

Na boca um amargor profundo
Na língua um esquecimento traumático
Aquele som que não mais ouço
O choro que não me vem mais

Acabei cedo na tentativa de não me acabar.
Protegi-me demasiadamente
E amanheci dormindo
Preso em sono denso e construído

Eu já acabei
Eu já não sirvo
Eu estou aqui
E isso é possível.

Pain

Physical pain
Not in my heart
Not metaphoric pain
Real one
Crue one
Wide open over my time now
It's hurting me
Killing me
And that's what I am now
Pain
Man
Felling pain
In my mouth
Over and inside my skin
I'm feeling it
I am going through me

It hurts
It is more than I can handle

Pain
Simple pain
Nothing more. Nothing else it.

Quanto menos quero, mais intenciono

Digo não
Afirmo garrafal
NÃO
NÃO
NÃO
Afinal, não me parece haver
Sim possível.

E quanto mais nesse não tenaz
Eu insisto. Mais me quebro. Mais
Faço meu corpo querer sim
Rever
Reencontrar. Refazer.

Que jogo horrível.

Algo ainda não claro
Se perpetua sobre minhas certezas.
Resta tudo provisório. Eu no cume
De tudo isso.

Invertido.
Eu no fundo.
Eu sem sentido
Vivendo os dias soltos
Sem saber se devo me resolver
Se posso
Se conseguiria
Ou se é isso o que restou
Apenas desassossego morno
Chateação sem voz que a grite

Eu, manifesto sem gesto
Ou palavra derradeira.

Eu
Eu. Tão eu
Tão rude
Tão triste
Envelhecendo a galope
Morrendo jovem
Sem brilho. Sem cuspe no cabelo.
Eu

Ainda algo preso no ontem. Que não passa.
Que não passou.
Não ainda.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Diz

Agora
O que me dizer?

Salto linhas
Postergo
Afinal
Quereria você se ouvir?

Sim. Eu quero.

Então escuta.

A música grita.
A cerveja em ti age.
E os cigarros?
Nem te comento.

Você está vivo
Só porque não morreu.
Sem sacar, segue sobrevivendo
Sem sal
Sem nada. Exceto viver.

Preste atenção:

Contabilidade

Já nem pondero
Vou
Em cada um
Desço
Subo. Rock.

Agora
Sou mais que antes
Menos que depois
O que fazer?

Você me odeia
Me inveja
E é isso o que temos
Hoje
É isso.

Talvez eu não vá escovar os dentes.

Tudo bem.

A gengiva é minha.
A gengiva é minha.
Depois eu mando cortar
Faço um implante
Finjo vida
Como você finge estar
Disponível
A mim.

01 instante

Colado
Eu sou todo porra
Colado estou
Na miséria dessa ausência
De roupa.

Porra.

Só isso me resta.

Você me responde.

Quem és tu?
Amigo?

As noites vão buscar outros caminhos.

Sua lerdeza me assusta.

E lá fora?
Tudo bem?
Preciso de algo mais.

Para que tudo siga mais ou menos bem.

You give me something I never had

And what now?
Nanananananana
Stop begging
If I get another chance
I hope that you see this through
Porque eu trabalhei
Trabalhei
É nada mais há a dizer
Você precisa abaixar a bola
As bolas
Quanto mais passa
Mais eu entendo
Mas eu sei
Que se você vier
Nanananananana

quinta-feira, 24 de março de 2016

Work Work Work

Palavra sumo
Sumo infernal
Infernal jogo
Jogo essencial.

Penso se haveria existência minha
Para além disso?
Para fora, desprovida existência
da constância desse isto.

Desse isto.

Eu não sei.

Passam os anos e me vejo aqui
Amando o ofício
Mudando as rotas do corpo
E vindo dar nisso

Nesse isso
Nisto
Isto.

Puro desejo
Realização do horror sublime
Eu não queria dizer
Mas alguns homens vêm ao mundo
Para isso
Apenas para isto.

Golpe

Vai
Posta em letras garrafais
Que o crime é do outro
E não seu.

Vai
Pública que a mentira sua
É verdade, plena, conte-nos
Que ela assim aconteceu.

Invista
Nessa correria sem freio
E me faça perder o jeito de mirar
O mundo com a calma necessária.

Calma para ver além do dito habitual.
Calma para ver se se mata alguém
quando é divulgado apenas
Que a morte foi coisa natural.

Vai assim forjando um mundo
Este, em que o poder sobre os outros
te faz poder ter mais poder.

Force a dor
Manipule a esperança
Desfigure o amor
E faça com que se dance
A sua pobre dança.

Dança macabra.

Jogo sem objetivo algum exceto
A destruição
A posse
A propriedade dada a poucos
E não a muitos
Compartilhada.

sábado, 19 de março de 2016

Helena

Ei, amiga
Nunca fez tanto sentido
A minha insistência
Em te chamar de Helena.

Volto aos gregos
pois em ti sobrevivem
Odisséias.

Tua fala, teu gesto
Seu silêncio em soluço
Tudo seu movimenta
Os tempos já vindos
E por vir,

Ter você perto
É voar sem consentir.

Se te quero escrever as palavras mais lindas,
Nem me importo
Porque sua presença me move
Ao que nunca jamais será definido.

Traços vagos e marcados
Esboços improváveis
Certezas moles e irrevogáveis
Tudo em ti se procria
E ser o mesmo
É ser nômade.

Tem uma beleza em você
Que hoje como ontem e sempre
Eu desconheço.
Mas ela pisca, me chama
Brinca de esconder e se mostrar
Tem uma beleza sua
Que não descansa
E não cessa de se renovar.

Se sei o que escrevo?
Nem imagino.
É que ao seu lado
Também eu me atualizo
Porque sei que é possível
Durar uma conversa
Aprendendo a te ouvir
Aprendendo a ir, viajar, ei,

Amiga

Eu não queria te contar, mas
Sou amigo

É que a sua luz é tão intensa
Seu brilho é tão tanto
Que só lhe resta a reserva
De se desmerecer um bocado.

Pois se você por si não se apaixona
Então fique bem
O mundo a ti se dobra
E por ti se desdobra.

Te amo renovado
Você é vento que não dorme
Você é papo sério justo porque
Não tanto elaborado.

Eu seria todo mundo se você
Me houvesse como em mim você há.

Eu sou. Logo,
Você me há.

Para Caroline Helena

sexta-feira, 18 de março de 2016

Dureza

De todo tão duro o corpo resta mole
Amolecido. Cansado a ponto
De perder a demanda por sentido.
Meu corpo espera por algo
Que o refaça.
Nem bem talvez seja férias.
Nem amor, nem nada.
Corpo meu anseia
Por outro tempo.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Passar por sem tomar

Ali eu estava
Peito aberto
Sincero sorriso. Escancarado
Passando por todos
Sem medo nem cuidado
Ali era eu
Fora, sem receio
De levar nada
Nem meu
Nem de alguém por quem
Eu passasse
E passei
Sem fome
Exceto a do vento
No resto
Eu nu
Já sem sonhar
Porque viver era
O mais colado nisso.
Passei
Sem tomar
Sem pegar o poder
Eu simplesmente fui
Eu estava
Eu era eu quando já não me sabia
E fui
E aqui estou
Sem nada de meu
Sem medo sem horror
Tudo certo.
Está tudo certo.

segunda-feira, 14 de março de 2016

13 de março de 2016 e o ódio do burro branco


isso aconteceu em copacabana. vejam a facilidade com que a burrice branca resolve os problemas do país que ela mesma ajuda a multiplicar. eis uma boa definição para burrice: ódio cego. ao fim do vídeo, uma menina de biquíni diz que tem que metralhar. uma velha afirma que o menino já nasceu bandido. não é sobre defender a criança por ela ter roubado, é sobre olhar o que se mostra a partir do roubo que já havia sido punido pela polícia. é sobre o ódio como afirmação primeira e última. essa gente não vê nada além do visível. é gente cega e surda, gente morta que vai morrer dizendo o mesmo porque já se esqueceu faz tempo que o mundo não é só o seu umbigo, é muito mais fundo. acho o cúmulo ver um homem socando a cabeça da criança. em hipótese alguma esse é um gesto possível. e isso é mais outro exemplo sobre como a democracia está em ferida aberta e sobre como as pessoas - muitas pessoas - não se interessam pela sua cicatrização. lançar esse ódio ao outro é simples, é gesto sem fundamento, é cuspir no mundo a sua incoerência e a sua falta extrema de cuidado com o outro. é gente que vai morrer preocupada em deixar seu ódio como herança aos filhos, netos e bisnetos. é gente que vai estragar não apenas esse menino, mas também seus príncipes e princesas, impondo-lhes um sentido fechado do mundo, fechando seu corpo para tudo aquilo que o mundo quiser um dia lhes apresentar. é gente morta porque sua certeza sobre tudo é o que anula a vida.
ontem eu não estava em copacabana. eu estava no centro, numa roda com 30 pessoas, estudando sobre como o poder entrou de tal forma em nossa vida, em nossos desejos e ações, a ponto de não nos deixar sequer perceber como nós também o propagamos. eu estava em roda, com 30 pessoas, pensando e tramando estratégias para ler, reconhecer e reescrever esse mundo. testando o soco primeiro no meu peito, no nosso, avaliando a nossa responsabilidade em relação ao outro, cientes de que o mundo não é só isso que dizem ser visível. que horror tudo isso. que vergonha. o ódio que eu sinto por gente como essa do vídeo é num mesmo gesto puro amor profundo. é um desejo meu de que eles se mirem no espelho e que o espelho possa lhes revelar - numa rachadura - aquilo do qual eles são feitos. ódio. amigo da ignorância. primo do orgulho. de gente que se acha tão diferentona que já foi embora deste mundo. gente que não serve mais para ser gente. gente que nem metralhadora daria conta, porque é gente já morta, é gente-metralhadora, que quando fala em tiros cala as outras bocas todas. gente que não vive, que só mata e em morte acha estar vivendo. redundantes ignorantes. vê-se que a falta de investimento na educação machuca também quem tem dinheiro. o famoso tiro que sai pela culatra.

sábado, 12 de março de 2016

Love yourself

Não, não se trata de se auto ajudar
Mas é nítido que não é isso
Trata-se antes de se perceber
É, por conta disso, poder vir a
Se amar.

Um pouco, ok?
Não caia de amores
Pelo auto amor.
Mas se deixe um pouco
Levar por isso

Como se chama?

Condicionador. Hoje eu passei
Condicionador nos cabelos.
Leves e lisos
Soltos e destemidos
Às vezes se amanhece
E o hidratante sobre o corpo
É o gesto mais lindo. E sincero.

Se amar um pouco, pode ser?

Logo agora?
E por que não?

Agora
Em que você caminha rente às horas
Sem chegar antes nem bem depois
Você no ato
Os cabelos soltos
O íntimo em pleno diálogo
Com os fantasmas os sonhos
A família toda

Você
Como nunca antes
Outra hora
Love-se.

terça-feira, 8 de março de 2016

Nego

Nego, pay attention to this phrase:
Your are looking for a problem
Because you never knew how to live
Without it.

Sleep yourself now.
That's an order.

Agulha

Fino
Chega um verso
Sinuoso
Não se apresenta
Mudo
Assim eu fico
Ereto
O verso me agulha
É impacienta.

O que ele procura assim
Tão dentro de mim?

Vasculha
Corpo e medos anteriores
Dilacera
A paz que a pele amortecia
Destrói
Minha moradia
É isso o que me resta?

Vem sempre uma palavra nua
Me desnortear a uma hora dessas.

Inferno
Invento
Inverno
Intenso
Intento
Isto

Aquilo

Perdi.

Pouca Coisa

Não basta, nem vale dizer mais.
O que fui, o que fiz, do que fui
Ou não capaz.
Tentaria versos novos
Outros usos dessa mesma ladainha
Perceberei, no entanto, que se trata
Sempre de uma continuação
De alguma coisa que nunca cessa.
Acordo tarde durmo cedo
A poesia sobrevive ao tempo
Eu não
Eu não
Então por que calar?
Deixa ela dizer o que veio, o que não vejo.
Dei à poesia o direito de fazer de mim
Aquilo que nem sei
Aquilo que jamais saberei
Mistério.

Pele

Cansada
Suja
Mas lavada
Ontem
Foi cedo. Hoje
Nem se fala.
Quis tanto
Que esqueci. Como faz?
Tudo ralado.
Peito
Pulso
Pula o papo
Amanhã talvez
Hoje não mesmo
Tem aquilo
Tem o improviso
Tem o motivo
Por quê?
Sem nada
Sem tino
Receber sua mensagem
Hoje
Me movimentou profundo.
Loucura.
Pula fora. Desse camarote.
Silêncio.
Silêncio.
É pura sorte.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Março de 2006

Um maço de cigarros
Um ensaio, outro ensaio
Alguns refletores
Tantos sorrisos, meus alunos
Minha mãe, meu sobrinho
Meu trabalho, ele, meu ofício
Cruzei avenidas em construção 
Disse paradas duras a mim mesmo
E passei por aquilo que nunca
Nunca antes, havia passado
É preciso estudar, é impreciso
É instável a língua, o nosso falar
Como posso te dizer algo que nem a mim
Eu consigo contar?
Esse taxista não sabe de nada. 
Ele vai me atrasar?
Se a saúde vai bem?
Dizem meus amigos que a minha saúde
Não vai bem não.
E o que mais?
Vários outros amigos nem dizem nada porque a gente não se vê já faz tanto tempo.
Chegou março.
Faz dez anos eu cheguei nessa cidade.
Era março de 2006.
Eu chegando ao Rio de Janeiro.
Eu, pequeno, sonhando lindo
Hoje eu aqui, vivendo tudo isso
Nem sei
Faz dez anos eu escolhi ser
Quem eu sou hoje
Sem saber nada
Nada de mim.
Fui todo caminho.
Fui todo encontro, todo pavor
Fui jogo. Olhos, sustos, arroubos
Fui palavra lida escrita e gritada
Fui em cantinas, ruas e ruelas
Fui pouco, mas fui à praia
Bem pouco, fui amando
Quem hoje eu me permiti ser.
Se hoje se completam dez anos dessa cidade em mim
Não sei. Talvez sim.
Não fosse isso, eu não estaria escrevendo
Isso tudo
Que agora se escreve por mim.

Mr.

Don't tell me your real name
I like to imagine it
Don't tell me, please, don't do it
I really like to create these things
I'll never know.

If I should be in love?
Oh, no.
My life only knows one kind of love
That is: the love from me to me.

Sorry. It doesn't mean that I was not there
I was, I'm still there, but more than ever
Today I'm here with me
Today I'm with me
And for the first or second time
That's the way I could give me.

So, don't get worry if this is simple for me
It isn't but what should I do?
Sometimes we get so stuck in such
Stupids things
That we must go over
Everything.

Including you
Including them
Including me.

Bloqueio

Quem o colocou aqui
Logo aqui
Entre o mundo
E eu?

Pergunto
E ninguém se anuncia
Seria porque o bloqueio
É coisa apenas minha?

Aqui entre meu peito
E o lado de fora
Sobrevive uma fina camada
Que não se vê
Que não se toca
Fina camada espessa
Que não morre
Não sofre
Não chora

Bloqueio compulsório.

Inaptidão para sentir
A vida seguindo
Ainda que sem ti
E então tudo
Você bloqueia
Na tentativa de se sentir
Vivo e operante.

Menino, fostes tu mais esperto quando antes.
Hoje não. Hoje não mesmo.
Sua cabeça mói seu corpo
Nesses jogos que fingindo
Querer o fim
Só o postergar para longe
Para longe
Para longe, enfim.