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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

sobre o desejo

por agora?

quase nada.
desejo apenas durar
nu
neste calor
em meio à passagem
das horas.

adiante?

é difícil para mim
projetar o que ainda
não veio.
prefiro, quase sempre,
não projetar.

e o desejo?

ele está aqui
ele sempre comigo está

não te alucina?

o quê?

não ter o que desejar?

desejo
sempre desejo
desejo o gosto agora já na boca
desejo o som
essa música
desejo estar aqui
com essas pessoas.
é preciso desejar mais?

não

não mesmo

desejo não é acúmulo
é apenas sabor.

certa vez

acreditei que a poesia só existira se houvesse uma grande dor me comendo por inteiro. depois tive certeza disso. noutro depois, continuei acreditante. ainda que trouxesse comigo alguma dúvida - não me dou bem com fatos - eu continuei movido. adiante.

aqui estou agora. certo de que só a dor escreve através de mim. mas, se não estou doendo assim, como fazer poesia? precisa ser feita, a poesia? eu preciso escrever? é preciso, talvez, desvincular dor de criação.

por isso sento a bunda nesta cadeira. acendido o cigarro, já meio embrigado, eu escrevo não bem uma poesia, eu escrevo sobre o escrever. talvez, mais do que a dor - eu agora consigo supor - a fascinação me desse motivo para um bom verso.

me perco das finalidade. poesia não serve para nada.

viver serve?

01 flagra


sábado, 18 de fevereiro de 2017

Uma deixa

É certo.

Nada está estático.

No gesto
Fazemos um laço.
O que houve?
Fomos juntos
Sobrepostos
Simultâneos
Inesgotáveis.

Um silêncio antes desse voo.

Uma paz, apesar de muita coisa na mala.

Uma paz que não esboça pergunta
Que se esqueceu das respostas.

Num instante
Suspenso
Eu volto a ser mundo
E ser homem
Se torna o menor
Dos tormentos.

Fico com as nuvens.

Resto só no vento.

A vida
É certo
Não precisa de tempo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Porrada

Você ouviu o que lhe disseram?

Se sim, tenho certeza, você percebeu
aquilo tudo não era palavra.
Palavra palavra, palavra não era.
Nem vou dizer que era mais
Nem pedirei que comprovem aquela estranha consistência

mas,

uma pausa,

talvez fosse melhor recomeçar.

Você sentiu o que aquelas palavra lhe fizeram?

Se sim, seria uma pena imaginar onde você possa estar agora.
Sobre qual maca, desdentado em qual nível...
Seria uma pena
imaginar seu corpo antes tão exibido
assim agora tão ultrapassado
tão arrasado
tão falido.

Você sente o que houve?

Havia força.
Intensa.
Crua força intencional.
Havia um discurso.
Mas era tudo em ato.
Coisa que deveria ter sido um dia o nome que dizem ser poema.

Poema ali foi um soco.
Uma porrada.
O único e determinante
atual
Problema.

É essa a questão?

O que te houve quando o poema te há?
O que te ocorre quando o poema te soca?
O que te resta quando o poema te espanca?

Enxerto

Lembre-se, meu caro
A possibilidade precisa continuar sendo um possível.
Não tema de antemão
Porque agora no antes
O adiante é todo imprevisível.

Lembre-se, meu caro
Tanto antes quanto depois
só o que existiu foram
Possibilidades.

Quer tenham vindo aceleradas
quer você julgue tenham chegado muito muito tarde
Não importa, meu caro
Uma possibilidade é um fato sem relógio
opera fora do tempo
opera fora da lógica funcionalista
determinante!
dos negócios ociosos -

Lembre-se, meu caro
A possibilidade te espreita
ela te convida
ela te alude
ela te saúda.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Perfume

Neblino.
A natureza se age em mim.
Precipito, enraizado, floresço.
Tudo num ciclo sem fé nem fecho.
Apenas outono, primavero,
Eu, verão no inverno
Invernando as lamurias
Dando-me em frutos
Sem rastro da terra entre as unhas

Olham-me confusos.

Fumaço.
Às vezes, sou todo cigarro.

Esse é o meu perfume.