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terça-feira, 30 de junho de 2009

sim, meu retrato.

as paredes estão todas tingidas
de letras e símbolos que você cunhou
para se compreender

tingidas as paredes persistem
feito nela tatuagens não há como se abster
por isso, seja aquilo que te deu nome
seja aquilo que lhe dará fome
quando nada mais disso tudo
lhe fizer sentido

deite em sua cama
veja se está limpo o umbigo
porque faz-se um caminho
nesse processo todo
que muitas vezes é silencioso
não quer dizer não ser ruído
quer dizer que não se percebe
como criamos em nós
nós mesmos
nosso inimigo

porque assim haveria de ser?
eu me sabendo por inteiro me parto em dois
num canto sou eu resistindo, preciso
no outro algo meu, me colapsando - me coagindo

de um lado a existência que caminha
do outra, a que paira (em meio a desejos, ânsias
e coisas meio abstratas)

eu sou então assim feito
disso que sou eu eu sinto eu sejo
e disso que eu escondi de mim
disso que me enganei
mas que sempre num lapso encontra saída,

eu me peço
não se tapeie mal se começe o dia
mas se o faço, logo acontece
uma parte do corpo endurece
um sentido se agiganta
e o corpo confunde o dançarino com a dança
e lá vou eu outra vez - inconsciente -
sapatear sobre você minhas injustiças
meus amores doentes,

todos sem regra
todos confusos mal amados
posto queira eu uma coisa
e a que não quero, deixo sempre de lado
como o lado fosse alguma outra parte
que não esta que me completa o corpo.

deixe.
eu fico absorto
eu ando lânguido
eu posiciono as mãos
sobre o rosto, para, enfim
envergonhar-me por não ser tão completo

por não ser assim tão completo
que não possa sequer juntar num só pacto
esses pedaços distintos de mim,
mas que são no enfim,
o meu retrato
sim, meu retrato.


ones all not then the others
other of all of the onesone of all of the others

.

perde-se também um pouco ao vento

me diz algo impossível de se alcançar
me dê algo impreciso ao saborear
qualquer coisa qualquer valor
dê-me a sua mão
puxe com a outra o cobertor

cause assim em mim a confusão
entorte os sentidos
deixe louca essa cabeça que pensa
que vive em pensamento

que não se percebe assim dançarina quando o cérebro
em protesto
desatina a tontear

o que pode haver de pior do que essa sua inconsequência?
que poderia haver de pior do que essa insistência feito cruz
de estar preso ao tempo?

ao vento, eu devo tentar de novo dizer
ao vento é onde me perco e sendo eu lento
sou eu mesmo
do jeito que sei me ser
assim
um tanto próximo singelo violino distante de ti

uma qualquer poesia
um improvável sentir

gira vai
diga o que quiser
o que resta aqui sempre fede à necessidade
o que daqui salta é quase sempre a incontinência
de um crime descalculado
de um avanço nem todo ido
de um recalque não todo transtornado

fica, então
eu preciso
eu digo em exato a dor do tombo
sou mesmo eu quem cava o precipício

então, fica
que a gente resolve a cor desse novo dia
que a gente pinta o céu de uma outra agonia
do jeito que disser essa tinta
que agora escorre
a contar gotas
de mim a ti
de ti a mim
e no meio entre os dois
perde-se também um pouco ao vento
perde-se também ao vento,
um pouco desse amor.
.

sábado, 27 de junho de 2009

que saudades, meus amigos

ah, dei-me o tempo impreciso de algumas músicas alternando em alta velocidade dentro desse quarto. na cozinha, o cheiro do café queimando me lembra que ainda há tempo. uma saudade dói aqui dentro. eu cliquei no e-mail e voltei a anos atrás. há anos atrás. e li coisas que por mim haviam se passado mas que eu sequer lembrava mais. e prcebi, agora eu sinto, eu sei, que elas ainda estão aqui. alguns corpos morridos, outros corpos reprimidos. o que é o tempo senão o espaço no qual nos desfazemos? ah,
que saudades, meus amigos
. como tudo passou tão depressa como fosse o futuro um abismo sem fim, sem chão, um choque tão concreto quanto possa ser a escuridão. queria cada um de vocês aqui, agora, para revolver seus cabelos, revolver suas pernas e estremecer seus desejos, criando em nós novo arranjo impossível de se apreender porque sonhamos juntos e a juventude é mesmo um sonhar sem crescer. depois tudo perdeu a graça e se agora tudo assim me extravaza é porque eu me permiti olhar com calma com cuidado com amor para o que passou. o que passou não quer dizer nada a não ser a certeza de que persiste, de que algo fica, de que algo ainda agora insiste, no corpo, na pele, um grito louco enfurece o ar eu posso imaginar, eu posso imaginar hoje tanta coisa perdida mas tantas mais encontradas eu sinto uma saudade louca uma coisa desesperada que não precisa de nome porque existe em mim sem ter rótulo que a defina é uma coisa ou um sentimento ou não cabe dizer. eu penso na gente em cada um de nós e onde estamos agora que não nos podemos ter? haverá ainda mais lá na frente algum horizonte comum e possível? haverá algum dia terno no qual poderemos sentar e em comunhão ao céu onde ela estiver, poderemos todos novamente rir e todos novamente comer aipo com azeite e sal? haverá esse dia outra vez ou devo seguir certo de que não? devo seguir certo ou tão incerto como agora sigo. eu não quero mais especular, não quero medir riso ou choro, eu quero ser esse segundo esse lapso ser eu mesmo esse transtorno que hoje recebe meu nome como apoio que hoje recebe meu nome e se faz em meu corpo. uma saudade dói uma lágrima agora escorre a face e eu sinto que a vida está aqui, toda doída, toda perfurada, alternando-se em mim de formas variadas, querendo às vezes se perder, mas talvez mesmo para se encontrar irrevogavelmente em mim, outra vez. uma ânsia que corrói tudo o que eu faço, amigos? o que fazemos? o que podemos fazer? sinto, eu sei... eu sei que sinto e que isso é mais do que o meu tudo possível.
vocês estão aqui e eu aí contigo. ela persiste no ar porque foi nele onde ela foi se multiplicar e agora, sobrevive, na eternidade de nossas vidas
ainda
assim tão terrenas... ah, como se foi tão pequena, como se foi e hoje eu vejo estar lá na frente, com o rosto endurecendo, eu sinto no corpo uma camada de tempo me refazendo e me entristecendo e olho esse vento todo e sei que nele há uma juventude eterna, uma alegria imensa, capaz de matar e morrer e criar e de novo é capaz a mesma sensação de gerar o que aqui resta inexprimível, incapaz de se esboçar, incapaz de se espaçar, incapaz de se escapar...

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out of me

please, can you help me?
in other language, another language, i'm so confused
can you help me?
i fell like i'm other one
i fell like i died, but i'm still here
so how can i be dead?
i think i'm not
i think only in life i can fell things like this
like this deep death felling
like always getting screaming
like now right now like now
i mean, maybe i'm getting crazy
i always knew that in this age
from 21 to 25
we usually gets crazy
somebody told me
somebody crazy told me
that is the momento for madness
that is the momento
the aresto momentum.
.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

maneta

e mais uma vez, uma angústia corrói o mundo. minha mão machucada não me permite escrever. dói a cada palavra lançada. até onde conseguirei chegar, sem enlouquecer? eu me abraço, me seguro no colo, tenho que me cuidar, pois se dentro uma ânsia devora o todo, como posso sobreviver sem nada em que segurar? eu sigo, porque o tempo ainda avança tenaz. eu sigo, às vezes, mesmo sem nada sinalizando um motivo sigo eu mesmo muitas vezes por um tanto-faz.

escrevo agora só com a mão esquerda, meus dedos de lá quase nunca são muito usados. dou a eles, porém, neste momento, a possibilidade de serem velozes de seres, dedos, amados por isso há tantas palavras seguidas num só espaço. eu controlo a nossa existência, mas a mão ferida dói me lembrando que se se vive, já se está morrendo.

que ânsia é essa que eu teimo em dizer que corrói o mundo? que corroer é esse que me escapa? como posso eu me ver assim indo se perder e não fazer nada, como posso? dói demais dói profundamente. vou dormir para adormecer no corpo aquilo tudo que em breve me tombará lá na frente.
.

Os mesmos olhos...

Olímpia tomada de novo ar, percorre o espaço e os convidados com os olhos vivos. De repente, estaca distante de Natanael, porém ele é capaz de ver seus olhos imensos, lacrimejantes,


Natanael – Olímpia, não chore, por favor! Não chore, você não pode chorar!

Olímpia – Quer dizer que assim você não me reconhece?

Natanael – Olímpia, meu amor, os seus olhos...

Olímpia – (interrompendo-o) Ainda são os mesmos! Os mesmos olhos, aqueles que a sua paixão fez maiores, e sempre mais infinitos. Agora me diz, não me reconhece?

Natanael – Não... Não precisa dizer nada eu posso muito bem entender...

Olímpia – (interrompendo-o) Mas se então eu falava, um mundo irreal surgia a sua frente! Eu sempre soube, desde o inicio, que bastava um olhar...

Natanael – Como assim desde o início?

Olímpia – Porque eu percebi que não te importava o que eu falava, mas sim o tom em que você formulava as suas perguntas, meu amor. Foi por mim que você se enxergou, e se declamou, e por mim quantas vezes você se beijou e agora que eu te vejo, você vem me dizer que não me conhece?

Natanael – Não me olhe desse jeito...


Olímpia vai ao chão e deitada começa a dar passos de ballet. Aos poucos, porém, seu movimento se transforma num contínuo debater do corpo.


...


Trecho da cena O Homem de Areia, interpretada por Diogo Liberano e Thaís Inácio, cena integrante do espetáculo AMORES RISÍVEIS, direção de Natássia Vello, dias 07 e 08 de julho, às 20h, na UFRJ/ECO - durante a MostraMais2009, do curso de Direção Teatral.

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domingo, 21 de junho de 2009

Rúcula

Marcel - O que você tem?
Marceau - Como assim o que eu tenho?
Marcel - Você está estranho hoje... O que você tem?
Marceau - O que eu tenho?! Eu só tenho você.
Marcel - E porque não me respondeu quando eu chamei por você?
Marceau - Marcel, quando foi que isso aconteceu?
Marcel - Ontem.
Marceau - Mas e hoje, você já me chamou?
Marcel - Não, eu disse que foi ontem.
Marceau - Mas hoje você sequer me chamou. Como pode ser?
Marcel - Como pode ser o quê?
Marceau - Num dia você me chamar e no outro desaparecer!
Marcel - Eu não desapareci... Eu fui procurar.
Marceau - Você sabe onde eu moro.
Marcel - Eu sei onde a gente mora.
Marceau - Então?
Marcel - Então o quê?
Marceau - O que a gente vai fazer?
Marcel - A gente vai fazer as pazes.
Marceau - Eu não vou fazer as pazes!
Marcel - Você se nega a nos desculpar?
Marceau - Não temos nada para ser desculpado.
Marcel - Não temos... E por que você não disse isso ontem?
Marceau - Ora, ontem... O que foi ontem já passou. Estamos aqui.
Marcel - E o que você me diz agora?
Marceau - Agora eu te digo que tudo está bem entre a gente.
Marcel - Como se nunca estivesse...
Marceau - Você está negando o nosso passado conflituoso?
Marcel - Não há passado que não possa ser passado a limpo...
Marceau - Porque você nunca me diz isso um dia antes?
Marcel - Porque eu te procuro e nunca te acho.
Marceau - Não me culpe.
Marcel - Mas eu te procurei.
Marceau - E eu estou aqui, ande, fale agora.
Marcel - Falar o quê? Eu cansei. (Abraça Marceau)
Marceau - Eu estou estranho hoje, você não acha?
Marcel - Todos nós temos um dia assim.
Marceau - É que já é o segundo dia...
Marcel - Talvez fosse melhor você ficar bem logo...
Marceau - Certo. Obrigado pelo abraço. (Abraça Marcel)
Marcel - Sabe que às vezes eu tenho essa sensação?
Marceau - Não sei não...
Marcel - Como não? Eu digo essa sensação de um peso aqui dentro...
Marceau - Você têm comido demais, é verdade.
Marcel - E onde você esteve ontem quando o chamei?
Marceau - Eu não sei. Não sabia que você estava me chamando.
Marcel - Era para a ceia. Preparei um grande frango assado. Recheado.
Marceau - Que recheio?
Marcel - Esse aqui dentro de mim.
Marceau - Oh, não fique assim. A qualquer instante ele deve sair.
Marcel - Você promete?
Marceau - Prometo.
(Cumprimentam-se as mãos) Agora, você promete?
Marcel - Prometo.
Marceau - Certo.

Cumprimentam-se as mãos novamente.

Marcel - O que foi que prometemos?
Marceau - Que na próxima ceia vamos jantar bastante rúcula, que é leve.
Marcel - Eu não como rúcula.
Marceau - Como não come? Você acabou de prometer!
Marcel - Mas eu me enganei. Eu como brócolis. (Olham-se confusos) O que é mesmo rúcula?
Marceau - Um vegetal verde.
Marcel - Tem certeza?
Marceau - Que é verde ou que é vegetal?
Marcel - Que é de comer.
Marceau - Plantamos juntos, se lembra?
Marcel - Nosso passado nos coordena.
Marceau - Sim, junto com o pé das ervas.
Marcel - O pé das ervas! Precisamos podá-lo.
Marceau - Eu trouxe a tesoura. (Retira uma tesoura imensa de dentro da roupa)
Marcel - Oh, meu Deus, você se preparou para isso.
Marceau - E sabe que me sinto melhor?
Marcel - É verdade. Não tem mais o corpo estranho que havia identificado hoje cedo.
Marceau - Sim, sinto-me espaçoso dentro dessa roupa.
Marcel - Está rasgada, Marceau.
Marceau - Marcel! Não me olhe, sinto-me nu!
Marcel - Como pode alguém esconder uma tesoura dentro de si mesmo?
Marceau - Sinto-me retalhado! Pare de me olhar, eu preciso de costura!
Marcel - Vamos podar o pé das ervas, ande!
Marceau - Me ajude, antes, você precisa me ajudar.
Marcel - Tome um copo de leite, ajuda a calcificar.
Marceau - Certo. Onde tem?
Marcel - (servindo-lhe um copo duplo) O leite está caro, você viu?
Marceau - (bebendo) Fiquei sabendo.
Marcel - Está se sentindo melhor?
Marceau - Sim... Algo parece me fazer bem.
Marcel - Viu como eu sei cuidar bem de você?
Marceau - (com ânsia de vômito) Oh, Marcel, você me deu leite com nata!
Marcel - Perdão, Marceau... Mas acho que talvez você devesse engolir tudo sem pensar.
Marceau - Oh, Marcel, este leite está azedo, veja, está colando na minha mão, parece queijo.
Marcel - Perdão, Marceau... Mas leite nem calcifica tanto assim quanto cola.
Marceau - (com os lábios pegajosos) Cola, Marcel?!
Marcel - É bom, dá uniformidade.
Marceau - Para onde vão os vazios dentro de mim?
Marcel - Agora são passado.
Marceau - Estou colado!
Marcel - E pronto para podar a erva. Está pronto para podar a erva?
Marceau - Eu corto os galhos e você faz o orégano, certo?
Marcel - Não, é melhor você não brincar mais com tesoura.
Marceau - Como não?
Marcel - Não quero te ver outra vez despedaçado.
Marceau - Eu estou costurado, não se preocupe.
Marcel - Não se preocupe, eu também estou.
Marceau - Então a gente corta cada um um pouquinho...
Marcel - Cada um a gente corta um pouquinho então, certo?
Marceau - Certo.

Avançam até um pé gigante de erva.
.

E então foram os corpos.

No primeiro acorde o que saltou foi a pele. Os pêlos em protesto diziam eu te amo, mas temo, temo sim muito temo o que o nosso contato pode fazer nascer. Disso o que veio eu nem sei te dizer, mas foi tão preciso, tão concreto, que o choque indiscreto dos corpos no meio do quarto era o tudo e o nada se encontrando, era o profano e o sagrado se acariciando. Havia uma tristeza solene nas formas dançando e virando e hora sou eu aqui e você nesta parte de mim e hora sou eu aí onde o seu braço me envolve em ti.


Na segunda nota, o piano fez-se em corpo e fui eu perdido me encontrar absorto na pele lisa meio branqueada, como se fosse eu pincel numa estrada desesperada, plena de desejos, já exposta na sacada querendo se possível voar. Eu toquei o piano, eu toquei o piano e o que veio depois eu nem saberia dizer porque tudo já nasce morrendo e descrever-te é te perder, para o mundo.


No terceiro verso, um gemido profundo, cabendo dentro da música num silêncio genuíno. O silêncio que nós dois ali tentávamos à força emudecer. Fica quieto silêncio canta logo esse desespero e se faça pleno antes do amanhecer. Devia ser quase manhã quando os dois ali dançando invertiam a lógica e emergiam a alma assolando o corpo sob o pisotear de seus amassos.


Na quarta repetição, era como se o progresso das rimas e das sinas fosse crescendo também as mãos. E tudo era mais forte e tudo era mais norte mais empenho mais teto mais corrupto, tal desejo. E tudo era mesmo mais sorte, forte, sorte a minha compartilhar essa música com você. Sorte minha você perguntar e eu responder. E eu responder.


E agora tudo ainda pode ser mais. Neste quarto sozinho a música se desfaz em possibilidades. Eu imagino o seu corpo dançando virgem a canção que agora eu tiro da caixa. Você perguntou eu deveria ter dito sim, mas houve em mim um desleixo qualquer que perturbou o nosso fim. E por isso hoje eu aqui imagino escrevendo conciso certas verdades que são sinceras em mente.


Penso nos gestos prolongados por versos. Penso nos beijos que teriam se intensificado com um som mínimo de uma flauta doce ou não, o piano bastaria para condenar essa alma à perdição de seus desejos. Mas os dedos, não os posso pensar agora sem o cantarolar dos falsetes, imaginando que cada dedo tem força nova mal se ouça uma voz subindo e descendo em crescente, agonia.


Eu deveria ter dito sim. Quando você perguntou com música ou sem música pode escolher eu deveria ter dito, com música sim eu prefiro com música assim é melhor. E então foram os corpos.

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sábado, 20 de junho de 2009

Manifesto sobre a Violência

Eu me violento

Tu me violentas

Sobre a violência o que fica é essa pendência

Do saber que a dor minha é sempre maior em você

Do saber que sou eu quem te fere além do que tu possas prever

Está comigo está guardado

A violência é um presente que te corrige de fato

Toda vez que tu desvias as ruas para não me cumprimentar

Eu começo a usar a violência para sustentar este corpo

Eu começo a usar o corpo para sustentar esta violência

Que diz respeito somente a minha incapacidade de amar


Violência e amor num mesmo gesto

Um é a impossibilidade do outro de ser algum assim tão

Direto

Algo assim tão explicado

Algo assim tão concreto


Violência e amor num só feto

Resta administrar pela pele

A avalanche de sentidos.


Sem o encontro, não pode haver confronto.

Primeiro união, depois desenlace.

Primeiro há construção, depois sua quebra.


Quanto mais se ama mais se mata.

Primeiro nos amamos, depois, nos morremos.

.

.

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sexta-feira, 19 de junho de 2009

eu te faço canção

levanta esse corpo
ponha-o exposto em sua janela
o dia amanheceu, meu bem
o céu está claro
e sequer estamos na primavera

por isso, erga-se
vem cambaleante, é preciso
com o tempo os passos se costuram
e seu andar ganha outro ritmo
ganha um sentido

eu aqui sentado já te adianto a condição
amanhece sujo e cansado que ao meu lado
eu te faço canção


eu te faço canção, meu amor inventado
sempre que num lapso do tempo
eu me imagino ao seu lado
sempre ali sempre deitado
sempre sentindo algo tão arbitrário
mas que, dizem, é mesmo o gosto do amor

não tem problema,
o que trago dentro espera e me quebra
por dentro e saindo de mim
eu gero a minha solução gero eu meu fim


por isso, erga-se
passe as mãos no rosto agonia
componha nele nova roupagem outra mania
e persista no pisar dos passos
persista porque é esse o caminho anunciado
esse o caminho a mim é destino
choque atrito da pedra inevitável,

persista nas poças em que encontrar seu olhar
porque é de espelhar o mundo
que você há de se criar,
e que você há de ser
e que você há de ar.
.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

num instante sem conexão

Num instante
Eu perco o destino da vista minha.

Sobro um segundo
Apenas
Agonizando no canto da esquina.

Alguém me vê?
Fiquei louco, foi?

A moça ri em minha direção,
Teria ela noção do transtorno que aqui dentro
Opera-se?

Ela continua sorrindo
E eu dentro tentando equilibrar o olhar
Tentando nem tanto tropeçar a vista
Mas sinto
Eu sei é comigo
Que as coisas oscilam e eu preciso agüentar

Eu atravesso a rua
Um calor um frio destemido
Não sei exato o que fazer

Por favor, um sorvete desses assim
Meio doce

Meio amargo

Eu caminho sozinho
Eu comigo saindo de mim
Eu sem mim pensando no abrigo
Que não vem.

Como demora esse automóvel!

Quero pegá-lo
Por ele ser pego
Quero ser arrasado e colado no asfalto desta noite que deita diante da confusão da minha vista

Fica um segundo
Não me anule, fique!
Persista em mim
Reinvista nesse território que é todo seu
Só não vá
Só não se vá por que...

Dentro uma ânsia corrói o mundo. Mais uma vez.
...........

terça-feira, 16 de junho de 2009

na coisa torta

Queima aqui dentro

E lá fora há o vento

a congelar com agilidade

tudo que na tentativa ainda parte.


A porta que se tenta fechar

O abraço que se tenta segurar

Tudo se esvai pela metade.

Lá fora o vento investe de agonia,

E nada assim pode ser plenamente

Por isso aqui dentro inda é quente

Assim tento eu dissipar

– o calor por sobre as coisas mortas –

Frente ao fogo

Eu, absorto

Sou apenas uma coisa que se importa.

Nem que seja ao vento,

Eu penso.

A minha presença importa,

Nem que seja ao tempo

Que me amortece e transforma

Nem que seja eu mesmo

Crente em mim

Crente na coisa torta

Que se torna

– eventualmente –

Este corpo indo.

.

Da noção de encontro

Para que o espectador seja estimulado a uma auto-análise, quando confrontado com o ator, deve existir algo em comum a ligá-los, algo que possa ser desmanchado com um gesto, ou mantido com adoração. Portanto, o teatro deve atacar o que se chama de complexos coletivos da sociedade, o núcleo do subconsciente coletivo (...), aqueles mitos (...) que são (...) herdados (...) (1).

A citação acima chama atenção para a noção de encontro, em primeira instância. Por encontro, entendo esse link que se estabelece entre ator e espectador e que se chama, no final das contas, teatro. É a partir desse encontro, dessas mãos que se entrelaçam que se obtém o que posso entender hoje por teatro. Não é um encontro isento de qualidades. É um encontro possível. O que virá a seguir varia, é constante, é transtorno, é pulsante. Pode ser muito e pode ser pouco. Pode não ser, pode ser eternamente. Pode sair do lugar ou não ou estar num entre incapaz de se classificar. Isso tudo, enfim, é o teatro que pode ser mesmo um infinito. Mas que, para isso, precisa primeiro encontrar.

Ou seja, não tem como eu ser outra coisa se eu já excluo desde o início a possibilidade sua de relação comigo. Mais: não tem como eu ser alguma coisa se eu excluo o seu olhar, o contato contigo, pois é justamente neste lugar que se opera a minha existência. Eu dependo de você para existir. Não quer dizer que serei vassalo de ti, não quer dizer isso, eu posso te bater, te odiar, te fazer mudar, romper com você, te dominar, mas parto sempre de um princípio, o de que nos amamos – a noção de que nos encontramos lá no início.

Em outras linhas, preciso primeiro te receber. De peito aberto, de espaço aberto. Receber. Depois, sádico como acredito o ser, vou moendo o tapete e te fazendo escorregar por dentro de certas engrenagens que você talvez não queira percorrer, mas que já tendo se encontrado comigo lá nos princípios, bom – eu entendo – fica difícil você se abster.

O que eu fiz? Furei sei olho? Não, eu puxei seu tapete. Assumidamente. Deixei-te em suspensão. Partimos, então, de um tapete uno. De um mesmo chão. Mas eu tinjo ele de outra cor e você acha mesmo que o que mudou foi o chão. Eu lido com cores com formas e semblantes, com superfícies que se confundem e te tornam inoperante, ou – desejo eu – tornam-te ser capaz de operar em si a gerência dos horrores e afetos que fazem de nós – seres – sermos humanos.

Sem o encontro, não pode haver confronto. Primeiro a gente se ama, depois se mata. Primeiro união, depois desenlace. Primeiro há construção, depois sua quebra. É o processo natural, leia-se, irreversível?

Não. Talvez em se falando do teatro as coisas percam autonomia, percam poder, percam posse, ganhem autofagia. As coisas se digerem elas por elas mesmas e o dia nasce potente de outra coisa a qual sequer foi dado um nome. O nome importa? O nome entorta e nos torna vassalos de uma perfeição que só se encontra mesmo nos dicionários.


(1) GROTOWSKI, Jerzy. Em busca de um teatro pobre. P.36.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Pelo Concreto

Quebra

Em mim

Esse ódio que te afoga.


Mata em mim

Essa dificuldade que tinge as suas horas.


Sou campo desmatado

Seu prado aqui deitado

À espera de um sol constante,


Por isso, ande!


Traga a mim o seu jejum

Vamos cear o próprio corpo

e pedir aos céus algo que nos controle.


Perder de vista, amor...

Perder na vista o seu tamanho

Potencializar esta desmedida

Que nos faz ser deuses.


Eu quero,

Eu preciso a dose

Em teu corpo eu opero

Essa complicada intriga do prazer,


Em teu corpo eu administro

A sede a fome o que pode haver

Desse ranger de nossos dentes.


Mas quebra em mim

Essa ode do triunfo

Quebra em mim essa metáfora

E vamos ser pelo concreto

Carne e osso,

Carne em gozo, amor,


Eu te espero.

.

.

abandono

Eu sou alguém fácil de deixar. Você não precisa sofrer tanto assim. Sofra lá na frente, por outro motivo, por mim já não vale a pena. Eu morro tão fácil e por coisas tão pequenas, que talvez o mel que acabou me faça chorar tanto quanto o fim do nosso encontro. Eu compro outro mel eu me dissipo noutro corpo. Mas você, você tem que se cuidar. Eu sou alguém fácil, de verdade, de se deixar. Não quero culpas, quero algo concreto feito o último café da manhã que tomamos sob um mesmo teto. Agora acabou. E esse tipo de coisa acaba mesmo. Como a fruta que se come olhando o sol numa sacada e acaba, por tanto desejo, escorrendo e sendo suicidada. Do alto do prédio cai o desejo num só instante e não resta mais nada, exceto um desejo indo se perder aqui dentro. Guarde esse gosto, guarde-o, aí dentro. Um dia você come algo por cima e faz o gosto se perder. Talvez por entre os dentes algum pêlo meu você vai encontrar e quem sabe assim, de mim possa se lembrar seu sofrer. Como eu fosse uma manga já toda comida. Como eu fosse algo com casca, íntimo e semente ressequida. Você me comeu, deixou-me só aos caroços. Eu sou alguém fácil de deixar, pois tão rápido me recrio de novo. Vá. Eu morrendo nasço outra vez. Não! Não tente me levantar. Estar no chão é o primeiro estágio para de novo vir a ser. Eu sou alguém fácil de deixar, agora vá, deixe que noutra hora você venha a ver um gosto sinônimo ao meu te cruzando na esquina. E, quem sabe, possa até você mesmo perceber. Que o novo gosto que você gosta, fui eu quem fez para você. Fui eu quem fez.
.

domingo, 14 de junho de 2009

o calor por sobre as coisas

Abominável, disse Helena diante do bolo meio caído sobre a bandeja de prata.

Abominável... Seguiu olhando com a devida paciência o que lhe causara tão triste impressão. Não era possível detectar. Ao seu lado, de prontidão, Ruth contorcia as mãos. Sempre tão dedicada, como ela pensa que é ser empregado... Ah, se as reticências falassem, Ruth veria certamente o meu desgosto. Será que ela sabe o que aconteceu em agosto? Não estaria escrito na minha cara o nome Desejo? Oswaldo, Oswaldo das tortas, Oswaldo dos doces. Combinava, será que combinaria? A torta, a senhora, não gosta? Não, Ruth. Não posso gostar, era o que queria te dizer, mas dentro algo dificulta ainda mais o meu explicar. A senhora quer que eu lhe traga a outra? Não. Então gostou desta? Não, também. O que faço, dona Helena? Retire-se, por favor. Eu preciso pensar.

Helena sentou-se em seu sofá marrom cor de um bombom. Passou as mãos aneladas com calma e precisão. Dentro o cérebro fritando a existência. Pensou em rugas, em ser veemente. Pensou no marido, ausente. Pensou, pensou e foi traída, pelo nariz que correu meia sala e detectou por sobre a mesa o bolo de nozes com damasco. Helena, Oswaldo não é coisa que se cheire. Não é coisa que se cheire, dona Helena? E essa perdição que te faz tremer as pernas. A mão acariciou o rosto, como se estivesse ali o corpo diante de sua última grande façanha em vida. Chamou Ruth e lhe disse, mande-o entrar.

Veio o moço meio novo meio velho numa bata branca sagrada roupa de quem lida tão bem com a carne e seus recheios. Olhou-a sem sair do lugar, mas por inteiro. Dentro a sensação era o perder da virgindade, de um damasco ou uma amora no meio de um dia quente do centro de uma qualquer cidade. Ela se levantou, dirigindo-se até a mesa na qual o bolo e seu fiel espermeiro esperavam. Ruth, por favor, nos deixe a sós. Certo, dona Helena.

Devagar, ele do outro lado da mesa, ela rodeando o retangular vidro maciço sobre o qual a prata bandeja sustentava o delicado poder do menino. Aproximou-se demais, pensou. O que é demais para quem desmancha o bolo em sua própria calda, perguntou, o que pode ser demais para quem desmancha o corpo do bolo em sua própria calda? Foi um acidente, respondeu meio tímido o ainda respeitável moço que diferentemente dos outros – e do marido – usava um brinco. Acidente? Ela contornou como se não houvesse acreditado. Não acidente que tenha morrido o bolo no rio de seu recheio, mas acidente que tenha caído só de um lado porque naturalmente prefiro derruba-lo por inteiro. Certo... Afastou-se um pouco e sentou de novo ao sofá, visto que corada pela resposta, achou prudente não desfilar diante das paredes muito brancas da sala de jantar. Sentada, reiterou, o que pode ser demais? Além de ter sido deixada em agosto, o que demais?

Ele pegou a bandeja de prata e sem pestanejar com ela em mãos do sofá se aproximou. Quer que me sente? Ela respondeu com um confuso movimento ondular o qual ele traduziu num concreto se aproximar e sentou. Suspirou, o que esse rapaz esconde além da noz? Além dessa bochecha em forma de damasco? Entre os dois agora ele colocava a bandeja prata e fria. Aproximando-se dela ele inseriu um dedo médio no meio do bolo que se cobriu – lentamente – de recheio. Ergueu diante dela o corruptor dos dedos, sempre aquele com fina casca de chocolate meio morno meio endurecido. Avançou preciso sem tremer e desnudou-se já dentro da boca de dona Helena. Em gozo, só conseguiu nisso pensar, dentro de mim deu-me em gozo, eu já não posso agüentar.

Cuspiu-lhe o dedo fora. No olhar do jovem cuca uma leve tonteira e escusa formalização do perdão. Não, disse ela, não... Não seria Oswaldo, o seu nome? Oswaldo, sim, é meu nome. Contratado, Oswaldo. Todos os dias, de sábado a sábado, servido prato completo em meu quarto. A Ruth poderá te localizar os ingredientes, gosto de alcaparras e algo que esteja sempre no entre... Ingredientes desconhecidos também são de interessar. Resta você descobrir o que pode haver de novo para mim no mercado. Levantou deixando-o extasiado. No canto da boca, limpou o dedo anelado, um resquício de preto chocolate endurecido. Agora, enternecido sob a unha.
...

sábado, 13 de junho de 2009

a cor rouca.

alguma necessidade
busca em mim
sua veemência

algo em mim percorre a pele
e submerge pêlos
e dentro sobra um rangido
que eu sei não é do estômago
porque quanto mais digestão
há nisso mais perdição

o conhecimento tangível
transmuta-se em desespero
nunca é o suficiente para tornar-me completo
todo inteiro

eu gozo o desejo.

eu o gozo.

gozo-o eu.

de variadas formas
hoje já não me escapas
és em mim a possibilidade
toda e qualquer desrregrada
em mim serve como for
o que vier

eu sou campo para o centeio
que a doença humana puder inventar

sinto-me transgênico
transgênero
transgredido

o impossível é pouco no escalar deste umbigo
que ainda assim
ainda assim
se perde
na simplicidade de suas coisas mais sutis
breves
e ameaçadoras.

está tudo assim indetectável?

toque-me então a pele
e veja eregir nela a cor rouca.

a cor rouca.
,

busca

atormenta
a blusa agarrada no ir e vir
se desfaz
e sobra linha plena
para enforcar o corpo.

busca sem fim
chuva pinga no rim
e a dor descomunal
desmonta a face
e faz do gesto
semblante inabitual
semblante perverso
posto nele se confunda
a perenidade do corpo
co'a da mente.

minto.

talvez nem tão assim
tão perene
talvez no corpo uma força persista
e a mente dorme sempre mais fácil
e a respiração do corpo respira de outro modo
dá nele tempo de perceber o absurdo ato
de morte.

eu só falo nisso, não?

como orides,
falo talvez sobre o que me tira o sono.

falo sobre isso e isso é desejo
porque se falo
eu me abandono.

porque se eu falo,
eu falo
eu me abandono.
.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

tomada de consciência

eu quero te dar um choque
não chute nem sangue
a coisa reside na mudança de sorte
na memória efetiva do que passou
no desenho preciso do que o transtorno
naturalmente
transtornou,

agora, pára. olha aqui no meu olho porque eu não vou ser pouco eu não vou piscar se você gemer fingindo que é dor isso que é persistência nas poças da ingratidão. não. o vínculo família se diz em outro afeto, não o quero sendo assim tão abjeto portanto pára e olha aqui, se conseguir. e caso não consiga eu devo dizer (com as mãos) há de conseguir, eu te ajudo.

eu te abrupto
e dou-lhe tomada
na consciência
quebro em você essa enzima
que retarda a percepção obtusa do dia
e tudo soa agudo, mas incapaz de extrapolar
tudo já soa grave
mas a realidade ultrapassou a medida
ela inopera a vida ao redor
e todos só sabem se compadecer
da SUA dor

mas e a dor do mundo
e a dor do íntimo profundo
que é a do abismo

para onde desviam-se os gritos
abismo para onde se vão perder as crianças sem pai
os amores sem amante
o abismo que inopera ele mesmo o instante
e situa a perdição como saída plena
posto solitária.

pára, olha no meu olho
eu juntei força eu lustrei esse rosto
para fazer nele brilhar
o horror que você tenta conter aí dentro
desse peito que agora há de abrir
nem que seja a choque
nem que seja,
há força.
.

terça-feira, 9 de junho de 2009

vinha

escorrendo a pele desconhecida
precisa
beber esse copo até o fim
esta taça na mão sua agoniza
pedindo-o a mim

dá-me para mim
ponha nesta boca
e entorne o desejo
sob forma de encanto
eu te quero
disseco
em cada quina
faça veludo cada
canto,
incapaz

de ser pleno
junto ao now
amanhecer

vinha escorrendo a pele
inconter
debato nisso eu mesmo
eu n'ocê
pedindo mais
torcendo para que no adiante você seja capaz
de se aprazer
de me abrasar
de juntos podermos tecer
essa linha tenaz que corta os sentidos
e brota no íntimo
a perdição

agora

estende em mim sua mão
quebra em mim essa seta
esse som todo oco do acaso
faz em mim de mim seu
lapso
o lastro da sua correria
incontida

quero ser relva
quero ser rima
transtorno

o que fica de mim em ti?

somente a gota
do feltro
somente a lã ressequida
de um desejo
somente o eco
e de um corpo
somente o imã.
.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

des_encapar

rala-me o corpo
retira-me o veludo
que diz ser você
a pele
do meu rosto.

rala-me tudo
deixa-me nu
sem saída

quero restar pele e osso
e carne e agonia
no meio de uma
esquina qualquer


no cruzamento

deixe-me parado
ao relento
só pele carne
osso e agonia

deixe-me primeiro
que outra pele em mim
germina

feita das impurezas desse ar
dessa gripe que inconsciente-
mente, conseguimos escapar

pele essa feita de espirros
de galantes sonoros pedidos
do moço pelo seio da moça
que despenca do ônibus

pele feita sem receita
tentada inconsistência no tentar

deixe-me ser
deixe-me estar
é essa a eternidade da qual
não quero
escapar


desencapar

tira esse luto de mentira
pois o luto é dentro
não é capa
é morfina

tira esse luto extra
deixe esse agudo silêncio
fazer sobre mim
sua última reza

não quer dizer nada
quer dizer apenas
és capaz de reinventar

pede pela pele poder partir
pela pele pede para ti poder
enfim
ser estar
permanecer.
.

domingo, 7 de junho de 2009

quando o sonho acorda

é porque algúem morreu.

sempre acorda em sobressalto,
como se o baque do corpo n'água
fosse o mesmo que o frio balde
na face adormecida.

o sonho acorda quando alguém nele morre.

por isso há sempre um gemido sobre a cama
porque perder alguém nem sempre é pouco
nem sempre é calmo pleno acaso
apenas coisa de sorte.


acorda o sonho quando morre nele,
um ente querido.

e você resta sobre a cama
meio de pé
meio impreciso
tentando avaliar
o porquê do sonhei aquilo
o porquê de certas coisas invadirem a mente
sem a necessidade de se explicarem.

você resta sobre a cama
pensa em Freud e na família
você resta impaciente
e agradece que o sono já saciado tenha rompido aquela ida
tão vertiginosa
tão precisa
rumo ao chocar do automóvel
no mar sem fim.

você relembra a fala de um ente
lembra de ter sido o único a dizer
eu amo vocês

você lembra esse tipo de coisa
e não sabe porque
não sabe o porquê.

amanhece
venta bastante
e o sonho conserva em ti uma presença
disforme
inconstante,
mas conserva

feito seu corpo a própria morada daquilo que agora no sonho
já era.

...
acordo
preciso. não vou ligar para ninguém
não vou indicar modos de se operar a vida
acredito que em sonho digerimos o horror de estar vivo
para acordamos sempre saciados
de nossa perenidade.

acredito em sonho
porque ele desenha o impossível mais pleno
ele desenha o medo com contorno vivo
tudo é plano
mas capaz de ver
eu vi os seus olhos
eu toquei em você

e se acordo no vazio
é porque no sonho algo além é possível
e se acordo no vazio
é porque na vida certas coisas estão para não serem vistas
porque quando o olhar cessa
enxergamos mais e melhor
mais e sem fim
sem o olhar somos capazes de tocar

e tudo é plano
e capaz de cortar
tudo é pleno
e capaz de morrer
amar voar.
...
.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

tua dor

está aqui, você vê?
não, né? imaginei que fosse responder assim.
mas está aqui. bem aqui. pode vir.

(distância)

não quer se aproximar? vem. eu não mordo.

(distância tensionada)

e se eu disser que eu mordo, você viria?
também não, né?

o que eu queria te dizer era para ser ao pé do ouvido,
mas eu passo por isso eu sempre passo por algo e te entrego
em suas mãos
a complexidade da vida digerida
a complexidade da esquina desenhada topografada organizada
em rimas

então, vem
que eu não mordo ou mordo
mas se você quiser
se, e somente se, você quiser
pergunto

você quer?

é que eu estou numa fase de muita clareza
estou tão desimpedido que as coisas ficam nubladas
por conta da sua utopia atingida

compreende?

eu quero dizer que agora é certo em mim o que em mim pode haver de você.

e você se pergunta
que você é esse de quem ele tanto fala?
gente, você é você
pode ser pode não ser
importa?

deixa eu interlocutar com quem me dá prazer
e neste momento, o prazer é direto reto abjeto no primeiro você
que sinalizar
sim, sou você.

entende?

(o espelho começa a suar)

uma perversão refletida
um amor narcisista que vai morrendo meio ao meio
meio falido pela autofagia
pela autocomiseração de cada dia...

tua dor, você não tem
tua dor, é minha
disso você sabe bem
deixa então que eu manuseio
tudo isso como se fosse
brinquedo

tua dor, você não tem
tua dor sou eu,
quem vem
e vai quem
antes e ademais

tua dor, sou eu, meu amor.

.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

insônia

o chá acabou
eu desci do ônibus depressa
subi a ladeira sem pensar em sexo
eu abri a porta fui direto
tirei a calça
as meias
tudo jogado ao chão do quarto
tirei a mochila
no chão o casaco
tudo assim jogado
e abri a torneira
os dentes,
meu deus, os dentes
quanto tempo hão de aguentar?

(pausa)

escovei os dentes
espremi pela segunda vez
o tubo novo da pasta de dentes
olhei meu rosto
pensei alguma coisa que agora não me lembro
invadi a cama, tendo as luzes apagado
e faz já três horas que estou acordado
sendo que uma delas
a primeira
estive na cama
girando
girando
acordado
meio ao meio

(pausa)

o que me faz estar acordado?

a vontade de escrever o mundo?

a vontade de estar vivo e vivendo ser consumido,
pleno?

(silêncio)

vou tentar dormir novamente
dessa vez
sem escovar os dentes
deixa que esse chá afague
o meu descontentamento.
.

terça-feira, 2 de junho de 2009

porque é no gesto da voz que eu abro os poros e nunca cicatrizo o suficiente para resignar-me pleno.

violenta - entre 5 paredes
treinamento do dia - 02 de junho

o que ficou disso tudo? talvez mesmo fique a lembrança dos movimentos. eu posso andar em linha reta ereto eterno em sua direção (você é a porta branca amarelada) e seguir dizendo violenta violenta violenta violenta violenta então violenta violenta eu quero ver violente vem violenta furando a homogeneidade com um verbo outro que não seja o violentar, por isso mesmo, com um verbo outro que possa acariciar.

a violência estética. a violência é ética. a violência concreta do corpo que se auto abdomeniza e dói profunda e sua do verbo suar sua constantemente sem parar a dor lá dentro vindo para ser convertida recebida sob forma do grito descontido.

eu acho que as pessoas se violentam porque um homem com uma dor é muito mais elegante. eu preciso poder dizer que está foda tô trabalhando demais sabia que semana passada acordei no hospital. isso é desculpa subterfúgio - pode nem ser - mas eu dissimulo e sofro muito diante de você. as pessoas se vitimizam. essa é a maior conclusão (conclusões são sempre precipitadas).

eu sigo. o cinzeiro parado no centro da sala me olha por inteiro. estou exposto, eu sei, cada vez mais, não ligo, nesse estado de quem apanha não há nada secreto exceto o íntimo. por isso eu me digo e posso querer por uns segundos quem sabe calar. quem é você para me desvendar? para não detonar o jogo eu te olho - olho-o todo - e sigo dizendo pelas pupilas o que minha boca (ensanguentada) é incapaz de dizer. porque talvez dar forma seja o mesmo que matar fazer morrer.

eu persisto no caminho traçado. tenho um objetivo, uma raia, uma rede - possível de se arrebentar. eu arrebento eu irrompo eu giro eu não sou apenas eu eu tenho em mim outros, outras mulheres que não eu somente outros homens que não sou esse, indigente. eu tento eu percebo que se ela cai eu devo te olhar mas te olho porque?

porque no meio do caminho tinha uma gentileza. tinha uma pedra no meio do meu choro porque eu choro eu choro porque eu choro? perguntas são palíndromos? certas perguntas são elas mesmas respostas. certos enigmas persistem e viram enigmas-obras.

não posso te desvelar por inteiro. não consigo. isso seria o mesmo que te violentar. e quem dera o sangue fosse o nosso problema o nosso indício de que - sim - passamos do limite.

falar do que me violenta, percebo agora, é uma maneira genuína de hidratar a pele ao horror do dia-a-dia. é o mesmo que acostumar os pêlos ao seu sobreerguer, ser em sobresaltos. comprende, amado? falar sobre o que me violenta me ajuda a ser mais forte, a criar antídotos, mas não me ajuda a resignar. porque é no gesto da voz que eu abro os poros e nunca cicatrizo o suficiente para resignar-me pleno. nunca o suficiente para sentir-me completo,

já que tudo que se completa, deseja morrer.
...
.

o espaço e a loucura interior

entre aqui e veja o chão perdido em meio às roupas, pisoteadas.

esse espaço reflete bem o meu dentro, aqui, no íntimo, o meu tormento.

entre aqui e vislumbre, por sorte tua, talvez, um pedaço concreto de chão
nisso imagine, é a minha lucidez que vem em partes, despedaçada, é ela que vejo assim
desnorteada, aparecendo em películas, mesmo sendo tão assim desejada.

é que quero te limpar, lavar o corpo toda a extensão
mas uma mão muito enorme afaga a calma dos dias
e os dias agora são mais calmos
em sua disfarçada agonia.

eu entro, o silêncio predomina
mas se persisto, posso ouvir um gemido incontido
um filho verme de autonomia
anti-monotonia
antes eu até sabia
agora porém tudo jaz mesmo confuso
tudo neste espaço arreganha-se
tudo que antes era agudo
resta agora obtuso
avassalado.

assalariado.
é essa a verdade.
eu comprei esse estado
eu o alimento
entre cama verbo e protesto (dentro)
o corpo há de explodir primeiro
a tinta está correndo (dentro)
e será no extra-corpo-rolar
que tingirá a impaciência
dos dias.

deixe estar
eu me digo à hora passada
que a canoa há de voar

e o atlântico
enfim, nos abraçará.
Para Helena.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

através

diz sobre um voto
em silêncio
que eu dou a mim mesmo
permitindo à pele
o seu próprio desbravar,

à pele
eu mesmo consinto o desejo íntimo
do se despedaçar

olho a janela
olho mesmo, neste instante

vejo o que é disforme
na nuvem passante
o tempo sinaliza um frio que inopera
o instante,

por isso tudo é mais agudo
tudo se torna enfim mais gritante
na raiz dos cabelos
no descer da nuca
a espinha traz tontura ao corpo

não há mais nada
neste momento que faça valer

exceto o vento correndo esperto
pela planície do corpo excitado
excitado pelos segundos
corrompido pelas horas
através do relógio
há que me dizer
o que fazer neste agora

há que me dizer
e agora? o que pode haver
e agora, o que pode?
.

expositor

repare na parede pichada de sem sentidos. nos coágulos azuis os quais despencam até saciar o percurso. reparem no tumulto de livros atrás de folhas de pertences que já não dizem nada. a mesma calça. o mesmo tom - preto - sobre tom - preto -. o posicionamento em "L" dos braços indica algo mais agudo, não há 90º possível para essa existência. a pele da face escoriada lembra você não é foto nem sequer pode ser aparência por isso esquente. e ele esquenta. a mochila junto não é adereço é antes impaciência. vai correr o mundo vai? ou esse dedo sobre os dentes é dúvida? ou é fome? ou é pose? é posse? viaja, menino, viaja.
.