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quarta-feira, 29 de junho de 2011

note

ei, cara

vai dormir, vai. amanhã é outro dia. você terá tempo entre uma coisa e outra pra resolver tudo isso que te aflige. ou pelo menos parte disso.

vai, eu te peço. enxague a boca. passe o fio dental. escove os dentes enquanto estiver se mirando no espelho (sem intenção de eternidade).

deixe sobre a mesa o computador desligado. a taça esvaziada. mas coloque sobre a mesa da cozinha o prato sujo de cebola alcaparras maionese pão e nozes.

deite-se. não vá me ler nada, por favor. apague as luzes quentes que ainda restarem acessas. pense nos seus amores próximos. tente não pensar nos que não vieram. quiçá nos que se perderam.

passe as mãos sobre o peito – nu – e não se permita se sentir tão desinteressante. a sua poesia tem que te provar o contrário, diga a si mesmo, mesmo que mintas um pouco.

enfim, dente escovado, silêncio no quarto, coloque o despertador para seis da manhã e durma tranquilo, no tempo exato de dizer – enquanto se move entre a colcha – ai como é bom dormir.

e sonhe com os amigos morridos.

você sente saudade deles.

um bjo,

do seu,

seu.

domingo, 26 de junho de 2011

Disfórica Utopia

Resta uma perna
em coágulo exposto.

Resta uma mão
despedaçada
mas firme sobre o solo
seco e solto.

Resta um sorriso
em dentes desmembrado.

Resta um suplício
sem áudio
sem agudo grave
ou medo expresso.

Transvestida
re-inaugurada
Ela desfila sobre as partes
segura de sua necessidade
de nossa necessidade
nela ali
concentrada.

Não corram,
olham os olhos lentos
rumo à nova morada:

és o princípio mais incerto hoje
és a segurança mais pouco
clara.

Eis-me aqui:

disposta ao que fizerem de mim.

E zomba destemida
ciente de que sua morte
é nossa azia.

\\

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Referencialidade

noite estrelada - van goghtextura 09textura 07psycho in party

Uh-uh-uh

Não auto comiseração
mas sim tentativa.

Não mais jogo e oposição
apenas ida desenfreada
e repentina.

Sem comedimentos
sem adiar nem pestanejar
seguir
eterno no segundo
rumo ao dentro.

Bate.
Estaca.
Ponto.
Eco.

Estrada:
para fora
para o dentro
para sair deste corpo
o corpo
e todo o seu
impedimento.

Eu e minha guitarra

Persisto
lento
como se acreditasse
apenas
no adiamento.

Persisto
sedento
querendo se possível
ser surpreendido
pelo cancelar
de todo esse
entorpecimento.

Darás conta
meu íntimo
me pergunta
a si mesmo.

Eu ponho um
ponto final
onde haveria
interrogação
desde o começo.

Darás conta
eu me repito
a mim mesmo
que posso fazer.

A mim
só resta
sobreviver
A mim
hoje
resta apenas
ser resto.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Embriaguez

Tornou-se fato
necessidade
Para sair de mim
e flertar
outras
possíveis
miragens.

Meu olhar esteve bruto
durante um tempo
ele esteve seco
talvez porque
desaprendi
a chorá-lo.

Então tornou-se fato
concreto e irremediável
essa dança rumo
ao não concreto
rumo às formas
soltas
e disformes
às formas
curtas

e breves.

Sonho sentado.

O vinho que me faz mal
me invade e cose a existência.

Que cruel ter que precisar do que é mal
para saltar de sua aparência,
não?

Resisto instável
sobre esta cadeira
de rodas enguiçadas.

terça-feira, 21 de junho de 2011

poema enquanto olho pra ti

duração
seria o nome da nossa canção
nem cordão
nem prisão
seria só sorriso
essa nossa composição

assim
com rimas se impondo
com necessidade
extrema
e eterna
do encontro

deus
que poderias ter feito de mais grave
do que isto
este amor

tão leve
e delicado?

\\

sexta-feira, 17 de junho de 2011

alts

um segundo para um sonho
eu mexo nos meus cabelos
você lava todo o dia?
não lavei,
de ontem para hoje.
mas não está sujo,
não quis dizer isso.
quis dizer o quê?
que a sua sujeira
é leve
e tem bom cheiro.
deve ser porque não é sujeira.
deve ser porque eu tô contigo ao meio de mim,
contigo aqui em mim
me engasgando.
\\

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Angiologia

Se ele estaca
a dor chega.

Se anda, porém
a dor se entretem
numa esquina
ou noutra
Ela se dispersa

E ele senta
para vê-la indo
ele a olha
hoje
quase sorrindo

E de lá, porém,
ela agora o olha
E se frequentam
com calma

Ela avança até ele
lenta e precisa
Ele sabe
não vale correr
dor não é mesmo coisa passageira

Ela chega

Ela ali do chão olhando para ele
ali sentado sobre o banco
da calçada pública

Hoje está um dia de sol tão lindo.

A dor o olha
sempre a dor olhando
de baixo para cima
e ela diz

Estique as pernas
que eu me deito em você
e juntos, assim
Fundidos
a gente sente o sol
e então só haverá isso
Eu lhe prometo.

Ele olha ao redor
envergonhado
Ele estica as pernas lento
e ela chega calma
nele inteiro.

Ele olha o sol
O sol lhe lambe as pernas
com poucos pelos
E então ela diz
já lá dentro
ela diz isso que não sabemos
isso que teimamos em reduzir
isso aquilo
chamado

impaciência.

\\

terça-feira, 14 de junho de 2011

pelugem

arame
pelagem curta

derrame, marrom
cinza
pétala discrepante
e tão certeira
tão clara e precisa
tem no rosto
língua bifurcada
de escolha

indecisa.

dali me olha
paciente
e de si
ausente

sabe que estás todo em mim
aqui
a babar
este doce
em compota

domingo, 12 de junho de 2011

dentro

a coisa se move
como se fosse morrer
ou matar
de desejo
a coisa faz barulho
e quando silencia
em mim cria medo
por não poder prever
nem imaginar
como será
o acordar seguinte.

falo daquilo que falo
daquilo que falo
só há mesmo este
indício
incapaz, eu sei
de anunciar o que
virá depois.

durmo
quente e pronto
para acordar
fechado
dentro de uma caixa
que não mais essa
oh mundo.

sábado, 11 de junho de 2011

HOLIC

você acha ter ficado forte
e a fortaleza cresce
feito massa
no forno quente
tentada de segundo
a segundo
você olha pela janela
fica quieto só
consigo
você pensa deixa
e vai dormir
você se permite
por uma noite
não fazer
sucesso
ante as coisas da casa
ante aos sonhos
seus
e de seus queridos
você deita
você não dorme
mas o cobertor te abraça
e nisso
você acorda sonolento
mas movido
se ergue
abre o chuveiro
liga o som do rádio
você não faz café
você esquece a torneira
aberta
porque está na sala
nu
a olhar o problema
e então
percebem os dois
num mesmo segundo
amanheceu.

selam-se os olhos
os lábios umedecidos
o nosso acordo
você e o problema
hão de assumir
é coisa que se resolve
amando.

fecha a torneira
fecha a boca
encurta o andar
você hoje
e somente hoje
poderá me tocar.

já é noite
e eu aqui
indo dormir
para que o dia venha
e traga
no seu rastro
essa condição
de quem ama
e ama
e nisso
por vezes
sim
se atormenta.

que difícil têm sido não amar esta vida.

\\

quinta-feira, 9 de junho de 2011

MiGrAção

Não
depois eu pensei
Minha vida não será de privações
depois eu fiquei pensando
Eu posso
de repente
Migrar
e fazer do impedimento
CRIAÇÃO
fazer da privacidade
COMUNHÃO
do percurso poesia
e do calor, luz,,
Não
depois eu concluí
Lá na frente eu encontro outro nome
para dar continuidade
a minha própria
ida
ao
fo
s

s

 

o

|

QuesQue


O que é o narcisismo?
Sem dúvida, a resposta não está numa foto.
Desconfio.
 

HoRRoR

seems like a castle
seems like dream
seems like darkness
but it’s all
livin deep with me.

empty things
empty drinks
empty thoughts
but all of them
are like meat
inside of me.

so, one day
i will have to know
that this rock
this horror
this show

is life
as a way pure play
to cross tragedies.

\\

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Jejum para Furar os Olhos

ai quanto mais você se vai mais em mim você se firma
que despedida é essa a nossa que não acaba nem se eterniza
eu aqui
em jejum
deveria pedir desculpas
por tudo já dito e feito a ti
eu reli tudo aquilo
eu reli o que disse
reli cada poema
a ti
atirado
eu quero morrer
não sozinho
ao seu lado
eu quero partir daqui
teletransportar
acordar sob o seu cobertor
e ficar
beijando calmo
o seu íntimo
adormecido
eu tenho o seu amor
ele ficou comigo
em tempos alternados
as coisas aconteceram
entre
nós
dois
pois se antes foi você
a me amar
a chorar
a alugar ouvidos alheios
pedindo alguma redenção
hoje sou eu
lacrado neste quarto
tomando antibióticos
fazendo um jejum
para amanhã
tirar litros de sangue
que cantarão
seu nome
ao de mim se despedirem
eu te quero
eu te quero desde o dia preciso em que percebi não mais poder de reter
eu te quero quando não encontrei naquilo tudo que me escreveste
nem sequer um indício
de que o mundo pudesse de novo
e outro vez
nos colocar lado a lado
cama única
seu peso
seu ruído leve ao roncar silencioso
eu te quero
e isso
está me consumindo
será que estou pagando
aquilo tudo que um dia tu já pagaste?
que drama
que melodrama
a virtude há de vencer
seja ela a ira
do nosso amor
ou o nosso amor
completamente irado.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Pranto

|||||||||

a roupa no varal
improvavelmente limpa
pediu aos céus o seu pranto
para limpar de vez
sua abusiva
tentação de beijar
os chãos
do mundo

|||||||||

Escama


O que se vê dentro de casa nem sempre é privado.
 

segunda-feira, 6 de junho de 2011

DO ENTRE

EU VOLTEI.
EU SEI, TÔ TE VENDO.
SE IMPORTA?
NÃO. DIZ AI. O QUE FOI AGORA?
NADA NOVO.
E ENTÃO?
E ENTÃO QUE EU TÔ PERDIDO.
NADA NOVO.
É SIM. EU ASSUMI ISSO ONTEM. POXA, BAITA EVOLUÇÃO.
QUE PALAVRAS FEIAS ESSAS QUE VOCÊ TÁ USANDO HOJE.
NÃO TÃO NA MODA?
NÃO COMBINAM COM A SUA COR.
É A MESMA DESDE SEMPRE.
NÃO. ESTÁ MAIS AMARELA. A SUA PELE.
É QUE EU TÔ DOENTE.
NÃO SE DESCULPE.
MAS É REAL.
AINDA QUE NÃO FOSSE. DEIXE ESTAR.
POR QUE DO NADA VOCÊ DEIXA A SUA FALA ASSIM, TÃO INACESSÍVEL?
MAIS INACESSÍVEL DO QUE ESSA PALAVRA INACESSÍVEL EU NÃO CONHEÇO.
NÃO TEM GRAÇA.
QUER COMEÇAR DE NOVO?
NÃO TERÍAMOS JEITO, AINDA ASSIM.
OLHA PRA MIM.
ESTOU TE VENDO. E TU?
EU VOU BEM. E VOCÊ?
TAMBÉM. POR QUE A GENTE AINDA SE FREQUENTA?
EU NÃO SOU BAR.
MAS BEM QUE PODIA SER.
VOCÊ É MEIO BOTECO MESMO.
DIRIA O MESMO, NÃO FOSSE.
COMPLETA.
NÃO É PRA COMPLETAR.
ERA PRA EU TER TE CORTADO?
ERA PRA EU DESISTIR DE RIMAR CERTAS COISAS
QUE NÃO EXISTEM PRA RIMAR?…
EXATO.
SABE QUE A GENTE JÁ TEVE UM NOME?
COMO?
A GENTE UM DIA TEVE UM NOME.
VOCÊ DIZ… NÃO ENTENDO.
EU DISSE QUE NÓS DOIS DESSE JEITO JÁ FOMOS RECONHECIDOS POR UM NOME.
QUEM NOMEOU?
UM AUTOR.
SEMPRE AUTORES. AUTORES DEVERIAM MORRER.
ESTÃO TODOS MORTOS.
E VOCÊ?
POR OUTRO MOTIVO.
E EU?
PELO MESMO MOTIVO.
DOS AUTORES?
PELO MESMO MOTIVO QUE O TEU.
FALAVA DOS AUTORES. QUER DIZER, DO NOSSO NOME
QUE UM DIA TIVEMOS… SABE QUAL É?
NÃO. VOCÊ QUEM TROUXE ISSO ATÉ NÓS.
SUGERE UM NOME?
PARA EU E VOCÊ?
NÃO. PARA OS DOIS.
NÃO SUGIRO NADA. NADA ME VÊM COMO POSSIBILIDADE.
ORA, EXISTE EM NÓS ALGUMA COISA A FERMENTAR JUNTO AO TEMPO.
NOSSA…
QUE FOI AGORA?
INACESSÍVEL…
E NO ENTANTO VOCÊ VEIO JUNTO RENTE PRECISO EM DIREÇÃO AO SENTIDO.
DE NOVO.
NÃO SE ESPANTE OUTRA VEZ. NÓS SOMOS EXATAMENTE ISSO.
NÃO SABERIA DAR NOME.
JÁ NOS DERAM.
NÃO SABERIA DEDUZÍ-LO.
NOSSA.
POR QUE NOS ESPANTAMOS?
É NOSSO JOGO. NOSSA FUNÇÃO. ISSO NOS FAZ
MAIS PERTOS?
MAIS LONGES. E NISSO MAIS PERTOS.
VOCÊ ME CONFUNDE.
TUDO BEM PRA TI?
TUDO. FOI UMA AFIRMAÇÃO.
EU SEI DIFERENCIAR AS COISAS.
MAS NÃO ME DISSE AINDA O TAL NOME.
O NOSSO?
ERA RODEIO?
ORA, NÃO. RODEIO É UMA PALAVRA TÃO FEIA, NÃO?
APRENDI COM VOCÊ.
EU SEI. TEM BELEZA ONDE TAMBÉM NÃO TEM.
SEGUE.
ONDE ESTÁVAMOS?
ESTAMOS PERDENDO O POVO, SENTE?
EU PODERIA SEGUIR ETERNO SE TIVESSE SÓ VOCÊ AO MEU LADO.
ISSO FOI LINDO.
ISSO É LINDO.
ISSO PODERIA SER NOSSO NOME.
ISSO JÁ DEVE SER DE OUTRO ALGUÉM.
DE OUTREM.
EU GOSTO.
DESSE NOME?
DESSA PALAVRA.
ESTÁVAMOS FALANDO DOS NOMES.
MAS AGORA FALAMOS SÓ DE PALAVRAS.
SÓ QUE PALAVRAS FAZEM NOMES.
E NOMES ESVAZIAM CADA UMA DELAS.
VOCÊ TÁ PROFUNDO.
TÔ QUERENDO AMAR.
DÁ NISSO.
NISSO QUE VOCÊ JÁ SABE ONDE DARÁ.
NÃO VEM COM ESSA RIMA.
ELA VEIO SEM PEDIR AUTORIZAÇÃO.
O QUE VOCÊ ESTÁ OUVINDO?
SEUS OLHOS?
TÁ RUIM HOJE.
A PELE AMARELECE.
AMARELECER É UM VERBO TRISTE.
É FEITO PARA OS DOENTES.
TUDO BEM. COMBINA COM A GENTE.
É ESSE O NOSSO NOME?
EU ME PERCO EM VOCÊ.
NÃO!
EU ME PERCO. PRECISAVA TE DIZER.
O PESSOAL TÁ DESISTINDO.
DEIXE QUE PARTAM. ASSIM EU FICO MAIS À VONTADE.
QUE MANIA QUE TE DEU?
É SÓ VOCÊ.
AGORA SEREMOS HISTÓRIA DE AMOR.
FICÇÃO.
APENAS ISSO?
NÃO TÁ BOM?
JÁ ROUBAMOS MUITAS LINHAS DO MUNDO.
MEU CORPO DÓI.
VOCÊ COMEU DEMAIS.
E NADA NO ENTANTO FOI VOCÊ.
FIQUE QUIETO.
O QUE FOI?
VOCÊ ESCUTA?
NÃO.
VOCÊ OUVE?
DISSE QUE NÃO.
TUDO BEM. ERA SÓ O SILÊNCIO.
QUANTOS NOMES PODERÍAMOS TER SIDO.
QUANTOS NOMES PODERÍAMOS TER MORRIDO, SE TIVÉSSEMOS SIDO
TODOS ELES.
SIM. NÃO TODOS, TALVEZ, MAS ALGUNS. COMO EM CAPÍTULOS.
MINHA VIDA É TIRO DIRETO. NÃO TEM PAUSE.
MAS TERÁ SEMPRE MEIO.
MEIO VOCÊ DIZ PAUSA?
NÃO. MEIO COMO QUEM DIZ QUE ENTRE UMA COISA E OUTRA É PRECISO OUTRA.
OUVE AGORA?
FORAM-SE MUITAS LINHAS JÁ DESDE QUANDO COMEÇAMOS.
E AINDA HÁ TANTO A FAZER.
QUE AGONIA.
PALAVRA BONITA.
ENQUANTO HOUVER MINHA PRESENÇA
E A MINHA
E A SUA, ENQUANTO EXISTIRMOS, FALAREMOS DESTA AGONIA
FALAREMOS. PONTO. SIMPLES ASSIM. TERRÍVEL ASSIM.
VOCÊ CONFIA EM MIM?
POR QUÊ?
NÃO ME DEVOLVA UMA PERGUNTA.
CONFIARIA… CONFIO. CLARO QUE CONFIO.
EU QUERIA PODER NOS DAR UM NOME.
NÃO DEVERIA TER DITO ASSIM.
OI?
SE ME PERGUNTOU CONFIANÇA, DEVERIA TER IDO DIRETO ATÉ O FIM.
SEM PAUSA?
SEM MEIO. DEVERIA TER DITO O NOME NOSSO QUE AINDA NÃO TEMOS.
MAS JÁ SE FORAM TANTOS.
QUAL VOCÊ MAIS GOSTOU?
EU NÃO ME LEMBRO.
EU TAMBÉM NÃO.
TALVEZ DEVÊSSEMOS DESISTIR.
NÃO É UM BOM NOME PARA A GENTE.
TALVEZ NÃO.
TALVEZ SIM.
POR QUE UM NOME?
PARA QUE A GENTE NÃO FIQUE NUNCA NO MEIO
PÁRA DE IMPLICAR COM O MEIO!
NÃO IMPLICO. É REAL. É O QUE EU SINTO.
E O QUÊ MAIS?
E O QUÊ MAIS O QUÊ?
QUE VOCÊ SENTE?
EU SINTO VOCÊ. AQUI. FRENTE A MIM. EU GOSTO DE TI.
EU GOSTO DE TI TAMBÉM. EU GOSTO QUANDO VOCÊ FALA
TI?
É. EU GOSTO. ACHO DIFERENTE.
MAS NÃO PODE USAR TODO DIA.
NÃO PODE.
EU SEI.
EU TAMBÉM.
A GENTE USA SÓ DE VEZ EM QUANDO.
É PALAVRA DELICADA. QUE PODE QUEBRAR SE USADA EM EXCESSO.
VOCÊ É A COISA MAIS FOFA QUE JÁ ME ACONTECEU.
EU POSSO REVIDAR?
CLARO.
VOCÊ É A COISA MAIS FOFA QUE JÁ ME ACONTECEU.
MAS EU NÃO DISSE ISSO PARA QUE ME DESSE ALGO EM TROCA.
E NEM EU DISSE SÓ PORQUE VOCÊ JÁ HAVIA ME DADO.
EU TE ACREDITO.
EU EM TI TAMBÉM VOU TRANQUILO.
POR HOJE SEM NOME?
SIM, FORAM-SE MUITAS LINHAS.
NINGUÉM CHEGOU ATÉ NÓS.
POR ISSO TALVEZ PERSISTIREMOS SEM LÍNGUA, SEM PÁTRIA
MAS NÃO SEM RAZÃO.
VOCÊ OUVE?
O QUÊ?
ALGUM AUTOR À ESPREITA…. TENTANDO EM NÓS FAZER COMUNHÃO?
SIM… EU OUÇO. ELE HÁ DE MORRER
ENQUANTO NÓS…
SEREMOS NO MÁXIMO, COISA OUTRA.
MEIO ESTRANHO NÃO?
É O QUE É.

Ideal

Se foi voando
nem pediu licença
partiu mesmo
primeiro ao meio
e depois pela janela.

Meu ideal morreu cedo
nem tive tempo para velar
seu corpo
minha vontade
sobre o seu corpo
ainda estremecida.

Morreram então sonhos
morreram investidas
e ações certeiras
comparações
rimas versos
e porto-seguro
morreu tudo
e eu amanheci
com frio.

Olhei para meu corpo
olhei rumo a um abrigo
Nada havia
exceto a certeza imediata
de que sim
estava só.

Num só tempo, então
segui pleno
e confiante
Se ele tinha ido assim de mim
era porque ser só talvez fosse o que houvesse de mais importante

E então sorri
não por achar graça ou grandeza
Sorri pois ouvi ao longe uma música solene
Música solene é sempre passageira
gorjeia o vigor das horas
e parte

a tempo de te deixar surpreendido
com tamanha poesia.

Hoje, se olho de volta
meu sorriso inda persiste
lá longe, hoje se olho de novo
posso ver como era pequeno
e como nisso já fui grande
amante tenaz
de costuras sempre irredutíveis
ao extermínio.

Minha poesia nasceu no dia em que meu primeiro sonho não fez sentido,

e então, virei poeta.

Alguém assim, assumidamente,

equivocado.

\\

domingo, 5 de junho de 2011

Eu gosto de roer as unhas das mãos

Mas também já provei as dos pés. Sim, isso aconteceu. Não me lembro quando, não quero falar sobre isso. Eu hoje fui reler a primeira postagem que fiz no início deste ano aqui no blog e bem, bom, me deu vontade de desbravar um pouco mais disso aqui. O isso aqui no caso sou eu mesmo. E antes que eu morra, talvez eu devesse me colocar sobre o próprio colo e falar, falar, falar um pouco mais do tudo que segue preso aqui comigo. A gente é tão maior do que mostra, não? A gente tem tanto movimento não revelado… Eu pensando nisso ao ter confessado o ato – nojento? – de já ter mordido as unhas dos pés.

Meu deus (quem é você?), eu falando isso aqui. Eu escrevendo esse tipo de coisa. É que eu percebi que as postagens anteriores soaram meio bizarras. E eu posso escrever que não passam de poesia, sim, alguém sempre disfarça a própria vida em versos. E estaria mentindo. Não é poesia. É meu medo profundo assumindo abrupto minha vista e meu peito. Que desespero. A vida por vezes arrota e nos assusta com a sua incapacidade em continuar. E no entanto eu estou aqui sem usar vírgulas somente para dizer que alguma coisa sim pode verter o caminho, pode alternar os medos e refazer o terror.

Eu nem sei porque escrevo isso. Falava das unhas, depois do suicídio, e agora eu resvalo mexendo os dedos sobre o teclado deste computador portátil. Saí hoje de uma clínica na qual pensei que fosse morar para o resto da minha vida (e olha que fiquei nela durante apenas dois dias). Sim, foi o suficiente para me tirar a sede de viver. Que coisa horrível. Para que a vida continue a gente tem que mostrar a ela própria – ou a seus donos – como o mundo é triste quando se está presente sem viver.

Não quero falar disso. Queria falar do sorriso. Queria mesmo – a Poliana – falar do que me faz feliz. Estou um pouco derrotado, estou me conhecendo – ao menos isso – e vendo como meu corpo é fraco, como tende à queda e ao término antes de todas as coisas. Eu acho que queria durar mais tempo. Eu não queria ser tão frágil, ao mesmo tempo, eu sempre me pego dizendo eu vou morrer cedo. E acho mesmo que essa é a minha primeira e única sinceridade não-todo-sabida. Enfim, quem saberá?

Eu tentando mudar a linha, mudar o tópico, pular a frase e esse assunto da vida e da morte me trazendo de volta a si mesmo. Eu deveria saber que um dia eu comecei a escrever porque havia descoberto (ou achado ter descoberto) que éramos capazes de acabar. Eu descobri num dia, assim, de abrupto, que as coisas acabavam. E feito aquela coisa clichê do dominó, pois então, as coisas que se acabam foram ganhando corpo e ao término de um dia eu tinha compreendido que além das amizades, se acabavam os livros, os sonhos, os pêlos, os pactos, os corpos, os amores para enfim, a vida, também se finizar.

Que brabo foi isso. Foi mesmo de súbito. Neste dia – no início do ano de 2005 – eu comecei a escrever. Neste dia eu decidi que escreveria para o resto da minha vida. Eu decidi e me convenci e tudo muito rápido e lá já estava eu: começando a escrever um livro de poemas intitulado COMPOSIÇÕES DA DECOMPOSIÇÃO. Meio gótico, meio sei lá, mas tão sincero, tão mal escrito, tão ferido e machucado. Cheira a medo, cheira a incompreensão, cheira a alguma tentativa sim, de fato, de eu fazer frente ao que a vida inaugurou a mim, assim, de uma hora a outra. Um dia eu hei de mostrar. Não cabe orgulho, cabe uma respiração funda e satisfatoriamente entristecida. Eu queria ter descoberto a tristeza pura anos mais tarde. Mas ela não tem espera. Ela se anuncia tão logo o sorriso se abra. Ela não tem relógio. Ela invade. E faz morada.

Eu queria não ter ficado triste. Mas é muita coisa acontecendo. E neste momento, eu não quero gráfico, eu quero ápices. Eu quero cúmulos e disparates. Eu quero ou meu corpo lá no fundo já despedido ou meu olhar repleto de ti, e de ti, e de tantos outros que em tantos outros momentos me fizeram alguém assim que até hoje carrego ser. Veja bem: meu braço dói, talvez por tanto escrever. É que ainda cicatriza um ponto escurecido por onde durante dois dias entrava uma agulha alimentando com soro a minha noção de vida.

Estou triste. Mas é com a finitude das coisas.

Há de passar. Deixo, no entanto, rolar o que tiver força e beleza para cair.

Leucócitos

Ora são muitos
ora tiram férias
Eu não seduzo esta função
eu não sou apto para esta
auto-defesa.

Eu não tinha lido em lugar nenhum.

Eu fui esperto.

Eu senti que seria necessário ceder,
sabem?
deixar a derrota te derrotar
e parar
como quem para não para a foto
mas para respirar a cinza
das horas não-
brincadas.

E então
minha inteligência me salvou
minha esperteza me jogou menos fora
O que fui de mim
sobrevive hoje

nos jogos a mim destinados
O que fui de mim
hoje sobrevive intacto
no divertimento
de se reconhecer matéria plena
ao aborrecimento
de se saber campo provável
para a aniquilação
e para o descon-
tentamento.

Eu não queria que fosse assim,
eu não queria que fosse certeza

MAS EU PRECISO NOS DIZER:
eu não sou homem feito para tolerar fraquezas.

Ou você, corpo meu, me leva ao diante
ou eu te tombo por sobre si próprio
e faço desta eternidade mutável
túmulo cova e harmonia
constante.

Pena.
Num próximo poema
talvez eu poete outra
possibilidade.

Por enquanto,
resto no quarto lacrado
entretido ao meio
pelo horror-sincero
desta sinceridade.

El Cru

Vamos para casa? disse o doutor
Eu não soube o que dizer
dentro, talvez, pensasse
É mesmo cedo para ficar louco
São 09h26,
 

sábado, 4 de junho de 2011

sexta-feira, 3 de junho de 2011

oh,

a vida me escapa
e fica comigo apenas esse gosto
de antiácido
esse gosto poroso
de tempo já ido.

lá, da infância
quando cortava a pele
e a mãe vinha vindo
munida à caixa de costura
e mimo.

a vida hoje escorre
nem sangue
nem limo
escorre de mim tranquila
dando-me o direito
imundo
de ver-me indo.

que dor imóvel
que enjôo retinto
eu aqui
sem luz
nem brilho
vou-me indo.

para onde?
eu nem vou nisso.
é muita ignorância
a agonizar o cogito.

morro só.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Movo

primeiro os olhos
não, eu me perco
primeiro movo
a cabeça
nela sim, residem
os tais oculares.

primeiro a cabeça
que então traduz
movimento
onde havia apenas
hoje
o ficar
o manter
o silêncio.

sim, nada novo
nada de novo
no entanto,
mais uma vez
por que me cobrar
a diferença?

ela sobrevive onde não há nada
nem sequer nossa presença;
e se chegamos
afoito como se costuma ser
ela esmaece e persiste
escondida
para além do que a cabeça
ou olhos possam ver.

recuo,
dentro eu sei sem saber
eu creio sem sentido
faz parte desse mistério
achar que se movem
as coisas
que tem como princípio
justamente o seu ficar
duro
cravado
persistente
e integral.

que graça pode haver nisso?

eu não sei
eu balanço a cabeça
eu sou alguém
que precisa alimentar essa ode
para não acabar mal.

>>>

Dead Pombi

 Ralo,