pesquise no blog

sábado, 31 de agosto de 2013

Bombom

Nem sei porque fujo das palavras acentuadas
Talvez porque elas evidenciem algo que salta
Por sobre
Por cima
Da palavra crua
Nua, descarada

Nem sei porque nunca me dei com mentiras
Talvez porque elas queiram sempre
Exigir-me intrigas
Aqui
Onde o normal
Sobrevive como casa morna
E retinta

Nunca disse cala-te
Porque a palavra que nomeia o verbo
Exige-me imperativa tinta

Hoje
Durmo ciente do que jamais revelarei

Em sonho
Como saber?
Talvez eu esqueça do que desejo esquecer

Nem tente entender
Nem sinta derrota
Ou arrepios

Bom, meu bem
Que enigma isso,
Isto

De amar
Num reino
De patas
Cortadas

Premer
Prensar
Morder

Longe
Distante
Estrada de ar

Entre.
Farei-te sala.
Mesmo que sem luar
Guardarei tu no aconchego do meu universo
Desgrilhado.

Bom
Bem
Venha,
mas com cuidado.

Estou suscetível a você.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Amor

Talvez seja o primeiro poema
Em seis anos
Cujo o nome é este:
o seu.

Não sei por onde comecar
Nao quero usar a lingua corretamente
Nao quero acentos
Nem mais virgulas

Porque tudo eh claro, amor
Tudo eh transparente.

Eu estou conhecendo o que eh estar vivo
E reconheco
Talvez o tempo vivido
Ate agora
Tenha sido a vida
Sim, a vida, porem
Em dose menor
Em acorde timido
Com denticao incompleta.

Seu amor, meu amor
Me desorienta
Me desfaz e refaz
a cada sorriso
Lembrado
Filmado
Ou vivido.

Volteio sobre mim mesmo na cama
Procurando o seu abrigo
Voce
Tu
Que nao cessa de me apaixonar
De exigir do meu corpo
De me fazer perder o tino.

Amor,
Esses poemas todos estao longe
Da imensidao do que eu sinto.

Entendes?

Tu alargou meu peito e minha vista
Seu amor expandiu e multiplicou
Consciencia e entrega desmedida

Mas eu preciso escrever
Pois me ajuda a te tocar
A te vasculhar
E a mim, compreender

Poesia nao eh sonho
Mas sim
Vida capturada
E lancada aos tempos.

Depois de ti
Neste agora
Nada mais me eh indiferente

As guerras em curso
O genocidio recorrente
Eu tenho hoje olhos para isso
Porque o teu amor nao me impede
Apenas me convida.

Sim, eu sei
Mas, mesmo assim

Amor tornou-se a palavra
Mais acertada.
Eh isso
Eh isso
Conhecimento de causa, cama
Roupa e louca lavada

Teu amor nasceu em mim
Para me fortalecer frente ao mundo

Aqui estou eu
No meio do nosso caminho
Sem pressa pata o vindouro

Te amo. Sem medo nem receio.
Te amo.

Mesmo.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Neologismo

Recostei minha cabeça próxima ao chão e não quis sair. Dentro de mim, o corpo dizendo teu nome em quatro letras: amor, amor, amor, amor... e eu sem saber como vingar o pedido, me tentei dormir.

Deixei minha cabeça pesar sem freio. O vento vindo de fora quis me rachar ao meio enquanto insistia com tenaz frequência o cheiro do teu nome: amar, amar, amar, amar... sem perceber que o cheiro já ido só me era agora sonho.

Bati a cabeça sobre o criado mudo que sem dizer nada me fez gritar em mudo grito: omar, omar, omar, omar... soltaram-se as letras de lugar e fiquei desnorteado tentando te reter.

Chorei, pensando ter te perdido.

Mas te vi, na poça lágrima dos meus olhos, nadando destemido. Meu amor virou mar e veio esta noite dormir cá comigo.

sábado, 24 de agosto de 2013

Uma coisa que eu nunca te disse

Eu sei, eu sei
já me disse quase inteiro
Disse o óbvio
o que raspa a pele minha
e me entrega:
Te amo

Eu sei, eu sei
Não é novidade
isso do amor
de amar
isso de amar-te
de se perder
E se encontrar
apenas no outro (você)

Se você me pede
que eu diga algo
que eu nunca ousei te dizer
me assusta
entregar-me ainda mais
e afirmar
os medos imensos
sem nome
as coisas que doem
e consomem

Salto umas linhas
postergo o limite
O limite no qual será preciso
reconhecer:
isso de amar
isso de você
é-me inédito
é florescer
de força imensa
que quer me tomar
que quer me fazer abster-me
de mim mesmo
do meu trajeto

Você inaugurou em mim
o que tinha sem saber
o que sonho faz anos (sem ver imagens
em sonho)

As palavras hoje não me ajudam
a lua está de mal comigo
É só que o que sinto
não cabe
nem aqui
nem lá
É só que o que sinto
vai além mar
vai firme
e ondulado
feito carinho retinto
solicitando a ti espaço:
para ficar
firmar
fincar
e nisso
Germinar

Meu amor
agora tu me olhas
enquanto te escrevo o que tenho a ti
Meu amor
agora tu me miras
com olhar misterioso
Eu confesso
coloquei-me em abandono
desde que vim a ter você em mim

E se tu queres ainda saber algo de mim
algo que tu não saibas
Não me olhe com esse rosto
não me mire com essa fome
Eu fiquei pobre
não tenho nada
Exceto isso que me pulsa (a ti)

O que eu tenho e tu ainda não sabes
nem mesmo eu sei
porque é mistério
ansioso por desvelamento

O que tenho
é isso aqui
Vês?
Também não vejo
Medo imenso
façanha impossível
Medo intenso
verso indecifro

Vem aqui
em sonho, que seja
Vem aqui
decolando altos preços
Eu pago
eu dou-me um jeito

Te amar
(e isso talvez tu não saibas)
já não me é escolha
já não me é direito

É só o que me resta

Você me roubou de mim
e agora
resto eu, sem jeito

Promete-me
Não vá embora

Promete-me
Não vá embora

Promete-me
Não vá embora

sem antes eu te pegar no colo
e te provar presente
O fato insuspeito:
te amo além da palavra amor
te amo além dos verbos
e sujeitos

Te amo no tamanho desmedido
que corrompe imediato este
meu peito

E se te olho agora
e te escrevo
É porque sei
é porque sei

não há + jeito

Há apenas cuidado
recíproco
Não vou me gastar
Te espero
Te espero

Te impaciento
Me empacimento
Te onomatopéio
Me desoriento
Te presentifico
Me desfermento

Quem sabe dormindo
trago-te na velocidade da luz
para dormir aconchegado
aqui
aqui
aqui - repito -
under meu peito

Vontade de dormir contigo.

O que tu não sabes, guri, é isso:
eu não sei quão mais eu aguento.
   
               

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

daydream

oh, boy
this is it

no dream
can put me closer to you
because there's no more way out

i just can walk
with you in me
in my smile

together

on my thoughts
on my own fights
against what i should
or not do

i woke up this morning
(and there's no mirror inside my home)
i woke up and felt
like a big smile
crossing deep waves

so
that's how you make me stay

you are in all
in these little things
taking out my air
taking out my fears

you make me fell
like if
i am a star

oh, boy
i can't hide
but we're going far

like a blue sky true tale
in a city
completely under civil war.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

E quanto mais o mundo grita
sentindo dor por tudo aquilo
que lhe faz os homens
Mais meu peito exclama
por sentir por ti
aquilo que me faz
ser homem

Quanto mais meus braços se movem 
sobre a cabeça descabelada
ao som de música pop elevada 
Mais meus olhos marejam
irritados com essa mistura
profana
de pavor e beleza

É início de tarde
e eu fumaço incontido
Quero te apertar
e te fazer durar
aqui junto a mim
protegido

Quero te afastar desse horror
não como fuga minha!
Mas como preparo
para destruir
a mesquinharia
que desfila impune
por todas essas avenidas
tingidas a asfalto

Dói num misto, amor
que não se define
as revistas todas foram queimadas
meu televisor rasgou-se inteiro
Meus olhos, no entanto
ainda sabem ler e escrevem
enquanto minha pele
dá a batida
deste instante
Imprevisível

É aqui onde eu fico
neste espaço-tempo
privilegiado
onde amar
é vencer o câncer que virou este mundo.
   

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Natureza

A liberdade me deu asas
mas o céu não me deu limites.

Ventilador

Na hora
optei por sentir tudo o que viesse
Pensei que talvez fosse ser prudente
aprender a doer
sem fuga

Depois cansei
e quis o conforto
que não veio
A enfermeira fez arder todo um mundo
sobre a ponta escurecida
do meu dedo

Fechei os olhos
e cantarolei em silêncio
a dor é minha
não é de mais ninguém

Engano meu
esta dor é mais de fora
que de dentro
é mais de peito
que de dedo

Eis que agora
com mão imobilizada
tento escrever
e minha esquerda mão chora
sangue

Ligo o ventilador
em dia ameno
não para sentir vento
mas para afastar a dor
que me lembra apenas
o seguinte verso:

estou te amando
estou querendo

estou com medo
estou aqui
ser imenso
onde está
o seu beijo?

Sigo desbravando sonhos
para ver se te encontro
entre quadros
entre deturpadas animações
da mente
fervilhando entre desejos
sem fim nem começo

Onde?
Como?
Quando?

[...]
 

domingo, 18 de agosto de 2013

Faz poesia

Se fecho os olhos
não consigo bem sair da primeira pessoa
mas abro espaço dentro de mim
para te acomodar

Que ousadia imensa
é escrever seu corpo em traços fugidios
e imaginar que a manhã que chega
traz junto seu sorriso

Nunca os olhos tão fechados
sobrevivo na brincadeira de um tempo
ainda longe
mas ainda colado

Meus poemas viraram coisa de menina
coisa preciosa daquela que nasce
porque se precisa
diário, enfim, com recortes de amor e desejos mil

[...]

Muitos versos antes e depois deste
e mesmo assim
nutrindo estas linhas
só você e eu

só essa imensa azia

[...]
 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

um muro inteiro

mas não é isso
oscila
tenta outra coisa
mas desiste
ainda assim
envolvido
não se permite
perguntar
nem sequer
responder
apenas
age
como agir
fosse também
prensar
firmar
fosse ser
salta
linhas não
salta cumes
poças
salta amiúde
e então
eis que se vê
rendido
por versos
que nunca soubera
ter escrito
e salta
linha
para manter
a mínima
métrica
capaz de não
lhe denunciar
linha que não
lhe denuncie
por inteiro
esquisito
e contínuo
e longo
muito longo
espera
eu espero
interrompo
espera
eu te peço
como pode
correr veloz
se tão bem
eu lhe quero?
   

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Carta Urgente aos Meus deste Tempo

Meninos e meninas ---

Vosso pai, que vos escreve, precisa romper a manhã tal qual ela se anuncia para lhes dizer afirmações roucas, porém já amadurecidas. Vosso pai está muitíssimo chateado vendo-os tentar, a qualquer custo, chamar atenção daquele que papai elegeu como amor para sua própria vida. Atenção: nunca, nunca mesmo, vocês foram tão ousados querendo roubar minha atenção. Peço desculpas aos mais novos - mas é sobretudo a vocês, seus moleques, a quem escrevo -, mas não considero prudente falar em cuidado quando em vocês ainda falta tanta doçura.

Os assuntos do amor, do coração, os assuntos que gastam a alma e o corpo de vosso pai, neste momento, pertencem a mim, não a vocês. Eu sei, eu compreendo - não é a primeira vez - eu compreendo que aquilo que eu esteja sentindo possa lhes ferir, lhes convidar ao embate, mas não! É preciso haver um limite entre aquilo que eu sinto/sou e aquilo que vocês especulam e expressam. A vida não é mero recreio de verbos. Da forma como vocês estão se comportando eu posso acabar agindo aquilo que nunca fiz em todo o nosso encontro.

Entendam como quiserem (de fato, estou um tanto chateado), mas entendam, sobretudo, como aquilo que é: esta carta matinal é para lhes informar que não, não vou tolerar seus volteios movidos a ciúmes. Não vou tolerar que tatuem em vossos corpos a palavra "amor", de forma assim, tão impune. Não pode. Aqui não vai poder. Muito cuidado com o sorriso que me abrem porque nem sempre vosso pai o vai compreender.

Por fim, preciso acrescentar: não há volta, estou perdido e sossegado. Portanto, quanto antes vocês me compreenderem como aquele que agora eu sou, de fato, quanto antes fizerem isso, melhor para a harmonia de nossa casa. Prometo pintar outras tintas, desde que vocês me prometam não brincar tanto com a minha sorte nem com aquela de quem amo.

Em breve eu resolvo tudo isso e marco um encontro, entre todos, para que possamos nos reconhecer. Vocês nascem por conta disso. E eu, mesmo amando, vivo um tanto só por causa de vocês, meus meninos.

Tenham um bom dia e - percebam - o sol está vindo.

O sol está vindo.

Do seu pai,
Diogo Liberano

Motim

Resolvi escrever em prosa para dar conta dessa sequência grandiosa que me acomete, desde quando nos encontramos. Resolvi escrever em prosa porque saltar versos me dá a sensação de que algo fica para trás. Nada pode morrer agora. Quero tudo junto, fazendo em mil agasalho de emoções contidas. Não quero saltar linhas. Sobrevivo na sequência violenta que é amar junto, que é escrever sem quebra, apenas como quem mais vai e mais ama e mais se agoniza. Não é fácil, comparsa. Escrever juntinho. Mas faço da façanha divertimento de um verão ainda não vindo: escrevo junto como se bordasse tramas a serem descobertas tal qual macarrão duro e enrolado na água férvida. Haverá, numa hora ou noutra, que se desmanchar. Haverá que largar uma linha da outra para dar prazer em solidão singular. Mais uma vez as palavras saltam, se permitem apenas estar. Não há mais nada a te dizer e, mesmo assim, seguem as palavras buscando me contrariar, buscando crescer e me causar comoção. É ciúmes. Não confie nelas não. Eu lhe peço, eu vos peço, não confiem nelas não.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Areia

Como pista
pelo cômodo
navega livre
lembrança pontual
de quem já foi

Como jogo
oscila inteira
sem cheiro
marca feita
para esquecer

Voa se forte venta
por entre os passos
desorienta-se
e segue inerte
guardando tempos idos

Fica
ele a pede
olho no ponto
ele a pede

Fica
neste domínio
mantenha o gosto
abrigo da pele
sobre a qual pousaste

Fica
ele a pede
com o sal do mar
domingo à tarde

Fica
pela casa
cômodo cozinha
banheiro quarto
cova em cinzas

Sua presença
inerte e invisível
me conforta:

dá-me certeza inviável
de que houve alguém
cá comigo.

Fica, grão estrelado
sem luz própria ou
sequer brilho

Ele te peço
Fica pela casa
Fica comigo.

Advertência

Não são estas palavras
apenas palavras?

A que se destinam?
A quem são destinadas?

Não se deve responder
aquilo que não se pergunta

Portanto, eu te peço
Caso queira saber se é para ti
se escrevo como eu me sinto
em relação a você
Venha e me pergunte
eu vou amar te responder

E direi ademais:
sim, meu amor
você me faz sentir tudo isso
veja como é grande
veja quão imenso é o abismo
sobre o qual decidimos
bailar juntos

Mas veja também:
mais uma vez
as palavras acima
querem dar conta
daquilo que não podem
e nem devem
fechar

Sou inteiro e certeiro
naquilo que disser
Apenas quando frente
ao seu olhar

Sou imenso e repleto
só se puderes te tocar
- mão minha sobre seu peito -
e dizer que disso ai
batendo dentro de ti
cuido eu, não você.

Advertência exposta
defendo-me das metáforas
Pois elas me enrolam
e da mesma forma como ampliam
meu amor
também o matam.

Pois não quero morrer
- não agora -
que encontrei motivo
para me coser em você.

pensamento

pensando em doce
em mastigar seu corpo
ou me transmutar
em carmim

pensando em aviões
pistas de skate
velocidade
enfim

pensando em paredes
pintadas a gelo
lisas com redes
panelas jasmins

pensando em silêncio
no qual te desejo
pensando outra vez
em tu bem aqui

pensando em começo
eterno começo
meio começo
começo sem fim

pensando em estar mole
joguete da sorte
sem rumo ou decote
que corte-me a mim

pensando sabe?
pensando sim?
por medo de acordar
e não te ter mais por aqui

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Desafogar

Parei de falar de amor para lavar a louça suja e varrer o chão da sala.

Engano meu achar que o cuidado que tive com o piso varrido e com cada faca ensaboada, não fora um eco direto do meu toque amante sobre a sua corpórea-área.

Oh, legiões celestes!

O que fazer de mim?

Sou a bobice em pessoa.

eu não sabia

mas virei escritor

gasto mais tempo de vida
entre palavras

do que entre pernas
beijos e cobertores

eu não sabia
mas o mundo hoje me diz:
me faz de novo
me reinventa
eu preciso disso para seguir

mais do que certezas
mais do que beleza
escrevo hoje
para tudo aquilo
que foi impedido de vir

eu não sei
mas me parece equação
sem resposta

quanto mais se escreve
mais a vida se desorienta
para achar em neblina
um esboço de esperança
para tudo aquilo que não veio
nem que aqui está

mas que poderia sim
por que não?
vir a ser
vir e ficar

domingo, 11 de agosto de 2013

Run Deep

Saí correndo
Dançando a escada
Num ato
Abro e fecho o portão
Estou pés no asfalto
Venta frio
Estou agasalhado
Ainda não dei
Feliz dia dos pais
Ao meu pai,
Coitado
Corro fundo
Busco inteiro
O arrepio
Que durante anos
Permiti ser passageiro
Não mais
Condeno-me
Faz calor aqui
Dentro
Salto
Ponto
O dia segue
E eu nele
Reconheço-me

o que me resta


é domingo nublado
tenho o café sobre a mesa
ouço as músicas que me afagam
visto a roupa que me conforta
e posso, se quiser
abrir a geladeira e provar
outros gostos ainda
mais gostosos

tudo está certo
está tudo certo

e mesmo assim
o que me resta
é bem menos
que tudo isso

resto eu sempre
entre palavras
me buscando
perdido

ou não
não, nem isso

resto eu sempre
fazendo das palavras
remos possíveis para
alcançar o fugidio

mas veja
veja, aqui

nada me foge
nada me foge
é apenas sua presença
que não é de fato
tangível

neste momento

meus olhos pedem sossego
não querem
que seja por este domingo
não querem mais
vagar
querem meus olhos
ficar apenas em silêncio
sem busca
sem surpresa a se frustrar

o que me resta, então
não é ser poeta

aquilo só que me resta
é a cada manhã
ser poesia em pessoa

com vias limpas e abertas
para tudo aquilo
que você quiser fazer
de mim
  

Nem mesmo um cochilo.

Cheguei ao teatro atrasado. Tinha que ter chegado uma hora e meia antes para ensaio, mas não consegui. Porque antes, noutro compromisso de trabalho, gastei mais horas do que deveria falando de ti.
Daí peguei um ônibus rumo ao teatro. Mas antes do ônibus, gastei tempo me afagando dentro de casa ao som de um cigarro. Olhando pela janela, pensei em você e me percebi tão preso, tão junto, tão costurado. Apaguei o cigarro, liguei o chuveiro e me veio - repentino - o seu cheiro.
Daí me ensaboei, me lavei todos os cabelos e pensei: meu deus, quando será o próximo beijo?
Saí do banho, me enxuguei na toalha usada por você. Já faz dias, já era para ter lavado, mas conservo ela ali, pendurada, por vezes coloco-a ao sol, mas não lavo. Não lavo. Deixo ela ali te guardando em seu íntimo, para os dias de demasiada carência.
Carência pode soar pegajoso.
Guardo a toalha suja de você para os dias de amor escancarado.
Saio de casa, fumando um cigarro. Me faz bem ver a neblina e nela buscar seus traços - fugidios traços. Busco na neblina o seu rosto e me surpreendo: eu o sei decorado.
Cruzo a pista pedindo para ser atropelado, mas meu amor me salva. E bate um carro no poste, matando mãe filho e cachorro. Eu, eu sigo, sobrevivendo ao tempo. Nada pode me matar, exceto este amor.
Que azar. Chego ao ponto de ônibus e vejo que um carro havia acabado de sair. O que faço? Sento-me num banco de cimento e acendo o celular: é que no fundo dele, sobrevive o seu rosto risonho e o meu coração escorrendo pelos meus olhos, parceiros, ao seu lado.
Vês?
Está difícil me dar espaço. Tudo em mim - e no mundo - te convida a estar.
Entro no segundo ônibus e uma música bem específica começa a tocar. Qual era? Não lembro. Lembro apenas de me sentar na janela tingida a sol e de fechar os olhos, para bem te imaginar.
O carro arranca. O vento me assopra. Sinto-me beijado (não pelo mundo, nem por deus). Sinto-me acariciado pela sua mão como fora da outra vez.
Durmo. Durmo enquanto o ônibus me chacoalha. Durmo e dormir nunca foi tão bom. Porque é dormindo que eu posso te encontrar sem segredos, sem impedimentos, sem relógio com ponteiros coloridos.
Durmo preciso e profundo: quanto mais fundo eu for mais perto eu chego do seu abrigo (seus braços, imensos, me cobrindo).
Daí acordo atrasado para o mundo. O mundo me olha, olham-me também os mendigos, e eu sobrevivo. Cruzo a rua em meio a miséria e nada é mais pobre do que o meu corpo te pedindo, te solicitando, te querendo num nível que o mendigo da fome me pergunta: quer ajuda?
Não. Não quero, obrigado. Cruzo a rua e me abro em sorriso. Eu estou na cara. Não posso nem sequer enganar quem passa. Não posso me enganar. Isso que eu estou vivendo é maior que a carne, maior que o corpo, é imenso no nível profundo de uma cova (doce) e rasa.
Chego ao teatro, mas quero ficar do lado de fora. É que lá dentro o sinal do celular não pega e me parece suicídio correr o risco de não estar online no momento que me chegar um seu beijo. Um desenho, uma linha, uma coisa que confirme aquilo que neste exato instante me avassala.
Amo.
Daí entro, cedo, entro no teatro e vejo os refletores, desço escadas, vou ao camarim, tomo um café, mas minha sede não morre. Olho-me no espelho e me acho feio. Mas sei que tudo é porque você não está lá: para dar sentido a minha humanidade.
Seus olhos me descortinaram, daí, pude aguentar o mundo com esta cara judiada.
Decido o improvável. Faltam cinquenta minutos para o espetáculo começar. Eu estou em cena, eu preciso me organizar. Daí, escolho o inverso. Escolho me guardar. Deito no chão da platéia, sobre o carpete no qual pés de públicos pisaram.
Deito-me no chão e me cubro com a poltrona dobrável. Escondo-me como num ninho: não quero ser incomodado. É que antes do cochilo, mais uma vez - repetida - acendo o celular e vejo o seu sorriso. Olho fundo nele. Acho-te a coisa mais linda. Olho e fecho os olhos, bruscamente: para te gravar na retina da alma.
Quero sonhar. Quero dançar com você. Mas se não é possível assim tão literalmente, faço o quê? Fecho os olhos e tasco um fone de ouvido para me livrar da correria do mundo. Durmo, sobre o chão do teatro, escondido entre poltronas, coloco um despertador para me acordar 15 minutos antes do público entrar.
Durmo e te sonho. Te encontro. Te mexo. Você me responde.
E é isso: a resposta é só o que importa.
Se eu te amasse tanto assim e não tivesse o seu sorriso aumentado, eu nem sei, eu não seria nada.
Daí alguém me acorda e eu me irrito. É que no exato instante em que fui acordado eu estava lá contigo. Lá onde? Não sei. Mas estava. Dançando, provavelmente.
Levanto-me. O despertador tocou e eu não acordei. As pessoas me dizendo está na hora, o público vai entrar. Eu entro correndo no camarim, tiro a roupa, me vejo quase nu e me revelo: para que essa nudez se ninguém a pode usar? Usa-me figurino. Cobertura de pano para apaziguar o rompante desta alma.
Intranquilo. Olho-me fundo no espelho e te encontro dentro de mim protegido.
Daí apago a luz do camarim, desejo sorte aos atores e me finco no cenário. Decido, pela primeira vez depois de várias apresentações, fechar os olhos. É que enquanto o público entra, eu fico contigo, em ti abraçado.
Ouço a trilha, é hora de abrir os olhos. Abro. E então, da minha boca nasce alguma poesia.
Falo, miro o olho de quem me olha. Vou fundo. Eu não tenho escolha. A vida me chama.
Vou mesmo, sem comiseração. Parece que corro um pouco mais que o normal. E somente no terceiro ato, eu descubro, é por conta de uma fala que possa ser a ti destinada.
Falo do amor com conhecimento de causa.
O público me olha. Não era cena. Isso que fiz hoje foi relato sincero e explícito. Deveriam me censurar. Eu sorrindo de dentro para fora e dizendo com a boca nervosa: o amor sobressaltava em mim.
Engano o público.
O amor não me sobressaltava.
O amor me sobressalta, posto seja o amor, você.
Acabou a peça? Não sei dizer. Independo do tempo, pois a batida que me determina neste momento é te ver, falar de ti, te rememorar e beijar e cuidar e te querer.
Meloso, não?
Situação delicada.
Alguns olhos me percorrem pelas ruas. Alguns convites tão evidentes que só me posso pensar: faz algum tempo isso talvez me chamasse atenção, mas agora, camarada, agora não.
Virei padre, ilícito, só faço comunhão contigo. Abrigo.
Sei lá, carinha. Hoje o dia foi você o tempo inteiro. Se estou vivo, é só porque quero rir na cara do mundo quando tiver você premido entre meus dedos.
Sou todo pretexto.
Vivo apenas para o que ainda não veio (mas já está aqui comigo). Já está contigo, eu sei.
Penso - confesso - eventualmente, que se isso se perder, eu me vou junto, vou-me liquefazer. Vou virar torrente e me suspender em correntes sem fim, para perto de deus, para dizer a ele - cara a cara - o que você quer de mim?
Tenho tanto amor que acho até ter engordado. Minha mãe está feliz.
E eu?
Eu estou bobo. Absurdamente idiotizado. Nada melhor para guardar o amor do que ser invólucro pobre batido e desnecessário. Sou eu - hoje - figurinha repetida. Pode me olhar, moço. Pode me olhar que eu sei que dentro de mim eu guardo aquilo que você nem imagina.
Dentro de mim, eu carrego uma promessa de mundo.
Sono?
Não, apenas poesia. Concreta. Avassaladora. Deliciosa.
Um dia desses eu me caso com você, diz a música agora.
É melhor eu parar.
É melhor.
...

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Especulações sobre estar morto


O que estamos fazendo não é justamente aquilo que condenamos?

Falamos como se a nossa ação no mundo fizesse alguma diferença. Desatamos a falar como se soubéssemos o que estamos dizendo. Somos imagens, por vezes, apenas imagens. E não percebemos aquilo que realmente nos faz ser quem somos.

Seria como eu não saber algumas premissas básicas sobre quem eu sou: eu sou um homem, um ser humano, eu sou um artista, eu cheguei - certa vez - tão perto da morte, que a morte virou meu mote de pesquisa. Meu mote mor. Eu crio imagens, como artista, para possibilitar entender alguma coisa não sobre mim, mas sobre o que fazemos com nós mesmos. O que fazemos de nós mesmos.

Eu não quero temer a morte. Eu não preciso disso. Por isso eu não a temo. Eu não quero ter pena de mim mesmo. Não quero. Eu quero é ter um medo profundo, imenso, colossal, de ser responsável por assassinar diariamente alguma vida em mim, apenas por não vivê-la.

Chega desse papo de ser ou não. Eu não estou falando de ser. Eu estou falando de não ser. Como é possível, sabe-se lá por qual motivo, como é possível deixar de ser aquilo que dentro te grita, requisita, a cada noite, a cada dia, pedindo atenção?

Eu, como artista, talvez acredite que o mundo ainda tenha solução. E talvez ele nem esteja perdido, mas é meu objetivo ver morte onde há vida. Ver breu onde a luz ainda pisca. Eu preciso ver aquilo que nossos olhos se esqueceram de ver, aquilo que nos foi dito que não fazia parte da vida.

A morte. Meu deus, por que falamos tanto deus quando queremos exclamar aquilo que não conseguimos compreender? Deus sempre vem para dar conta do impossível. Deus e o impossível são sempre os melhores amigos. Por que será?

Suspeito que sejam os dois - deus e o impossível - coisas que não existem. Nomes apenas. Vácuo de sentido. São coisas que não existem, mas que me eximem da façanha que é estar vivo. Eu não quero redenção. Eu estou aqui. Deus sempre me segrega, me tira da exigência de ter que dialogar o mundo comigo mesmo. Dialogar a dúvida suprema com a inconstância constante do peito. Penso em mentira. As mentiras escondem sim o vasto mundo querendo acontecer. É por isso que eu minto. Eu minto para aprender a acreditar.

Eu não estou morto.
Não ainda.

Mas é brincando de morte que eu descubro os caminhos que me levam rumo a tudo aquilo que eu não desejo ser. É mentindo que eu invento a fantasia que num certo dia, numa certa manhã, poderá me salvar, fazendo-me escolher seu beijo ao invés daquele tiro (sempre tão óbvio).

É fácil morrer.
Sempre foi.
Escândalo desnecessário é isto que fizemos do estar vivo.

Vivemos como se já tivéssemos ido. Como se tivéssemos partido.

Eu fui criado por qual motivo?
Procuro - agora! - aqui
alguma pista que me devolva a razão
que me dê motivo.

Quem foi que disse o que é preciso ser feito?
Quem disse como fazer?

Quando foi que nos calibramos a ser apenas o mal ou o bonzinho?

Cafona!

Eu hoje vasculho minhas próprias e rasas memórias para encontrar alguma coisa que desfaça a agonia de mentira que me impede de – realmente – encarar a coisa toda.

Tal qual ela se anuncia.

Eu já quis dormir para sempre 
eu já quis morrer
 talvez sonhar para sempre.

Eis o maior obstáculo 
de estar vivo
hesitar e não saber como atravessar o soluço da dúvida
Como é possível hesitar tanto?
Nos obrigamos a hesitar
 da mesma forma como nos obrigamos a repetir o já feito!

Num país imenso
 como é o corpo
como são inúmeros sentimentos
Sem muros nem linhas sem nada a nos delimitar
se hesita para quê?
Se todas as linhas invisíveis ganhassem cor, veríamos por fim
 que todos os traços 
fazem sempre o mesmo destino:

um ao outro ligar
ligar eu a você
você a outro alguém
Então
se é possível ir e não ir
ter e não ter
ser e não ser
Quando foi que nos sobraram apenas duas alternativas?

Num mar revolto de possibilidades
possibilidades querendo acontecer
quando foi que nos prendemos apenas a uma
ou outra?
Muitas mãos me abraçam neste instante
Muitos caminhos
curvas tantas
linhas pontos
Tudo salta
e me chama
Por isso eu não posso
e nem quero
parar

Eu preciso fazer do meu corpo
Encruzilhada
para que nele possam outras vidas
Além da minha
habitar.

Pois se você me olha
e no seu olhar eu me espelho
quer dizer então
que eu sou mais que eu
desde que meus olhos
também te vejam.

É isso.
É isso.

perda

hoje uma perda me acometeu
percebi que o amor
destrancou-se do íntimo
e veio a bailar
aqui fora

dito assim
pareceria que o amor saiu
para fazer prosa
mas nem é
acredita?

amor meu
sai de minha boca
não para vender-se
mas só porque precisa

amor meu
quando dito
amor
sonoro
Amor!
assim
amOrrrrrrr
me aprisiona
e percebo, enfim
que aquilo perdido
foi apenas
o silêncio
entre o desejo
e seu manifestar

escrevo
digo
pisco a vista
o olhar

foda-se

te amo.

1 cig

só tenho um
filtro vermelho
guardo-o sobre a mesa
sei que precisarei dele
para acalentar
ou
dinamitar
tanto desassossego

salto uma linha
para me distrair
do que vou escrever

é que só de pensar
nos seus olhos
marejados
volteio-me contra mim mesmo
por me sentir culpado

isso
que fizemos brotar
quero ser jardineiro zeloso
e cortar
cortar
não o mal
porque mal não há
mas cortar o tamanho
imenso
do calor
feito corpo
disto que fizemos

falta rima

falta palavra

eu te escrevo esses versos
porque quero te ver vivo
(e me ver vivo)
[e nos ver vivíssimos]
para as jornadas épicas
em que nossos peitos
acabaram
de se lançar

entende-me?

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

- eu sei -

Depois de você
escrever mudou de tinta
Antes o que se postava
tão logo se esquecia
Agora, porém
tudo aqui posto se crava
feito carinho
desejo firme
que nasce
e fica

As estrofes ganharam nuance
os versos terminam sempre
em improváveis rimas
tal qual sorriso
que vem
e não diz quando voltará
mas que se sabe
voltará
voltarei - eu sei -
voltaremos

(tempo)

Navego turbulento
entre uma frase e outra oração
Escrever domestica um pouco
este indomável, oh, coração

Faço-me mais forte
até mais esperto
Não que isso importe ao dia
não importa mesmo
Mas me serve ao dentro
aqui
recôndito silencioso
clamando sossego
em forma
de teus
laços

Poucos pontos finais são tão frequentados
quanto esta exclamação

!

suspiro interminável
fileira ascendente
devotada razão
inominável
incenso
que voa
dobra
e desaparece feito neblina dium cigarro compartilhado

Sabe?

A poesia renasce
sempre que penso em ti
E isso só pode significar uma coisa:

Tu és o impossível
tornado prosa diária

Você é possibilidade
com sabor de sonho

E por tudo isso
e mais um muito
Hoje eu tô bobo
tô eu bobo que só.

Não quero soar bonito

Sei que assim me preservo
para a beleza minha
Que apenas seu olhar
até agora descobriu

Não quero soar destemido
Enclausuro-me em medos pequenos
para acessar a longa fila
de seres medrosos e incompatíveis
com o atual momento

Não, não quero desfilar
volumes ousados
olhos piscados
e saltar de pelos
bronzeados

Preservo-me
dos jovens que me quiserem
dos tios que me atentarem
dos narcísios inúmeros
que a mim vierem
se beijar

Não
Não vou temer
ser o feio do instante
pois sei que junto a mim
sobrevive o nosso segredo
confortante

Não vou
Não quero soar ouro
pois sei que seu olhar
desvenda aquilo em mim
capaz de brilhar

Portanto, não vou
Nem quero ir
Quero ficar
no penteado mais inapropriado
Ficar nítido
no desfoque intencional
Desfoque armado
para que a beleza minha
continue sendo apenas
aquela que tu me fizestes descobrir


terça-feira, 6 de agosto de 2013

Maca

Basta mudar o ponto de vista
e se me vejo na cama
talvez seja mais
ou menos
talvez seja a incapacidade
plena
de fazer-se boa vista

Saudoso
descumprindo os atos marcados
sobrevivo entre lençóis
impraticável
fugindo aos nomes possíveis
que tem esse desembaraço

Fico
querendo encontrar um cheiro seu
amigo
passageiro, que seja
mas amigo
capaz de nele me conter
me ficar
me fazer querer entender
que sim
tá tudo certo
tudo certo, mas

Sempre há um mas que me faz parar
e perceber:

Eu tô aqui
Ai tá você

É do mesmo tamanho
a distância entre os dois
Porque o meio
entre os dois
É firme
é eixo
é fome:

Como decidir pela plenitude daquele olhar
que num dia
fizemos entre os dois
nascer?

Perguntas difíceis caso queira-se responder.

Não há nada a ser respondido.

Sobrevivo, inerte
ainda que me movendo
Sobrevivo, certo de que a cama
ou maca
É meu reino
até que voltes
e me tire, mais uma vez
de novo
agora
como dantes
para bailar.

---

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Previsão


Havia previsto um amor
lá na frente
mas não deu
Porque hoje cedo
outro amor
me acometeu.

Assim, ficam os amores
previstos
Jogados ao destino
que nem sequer tiveram
Jogados ao samba
da especulação
amorosa.

Hoje o amor me deu um beijo
e o dia ficou impossível
de uma hora
para outra.

Resto eu aqui
riscando amores até então planejados
Porque dentro de mim
já dorme inteiro
o amor
realizado.
 

Travesseiro

Não fiz nada
não posso fazer nada
a parte isso
tenho em mim todos os tempos
já idos.

Persevero
sobre a cama
fazendo silêncio
para conter seu cheiro
amigo.

Continuo intacto
não como
não bebo
apenas deito-me
e permaneço:
deitado.

A saudade me conforta
me abraça
me pede abrigo
E então eu fico
ali
estagnado
sabendo que quanto mais me movo
mais afasto de mim o seu cuidado
ainda tão presente.

Estou com saudades.

E me sinto um bobo.

Tudo certo.
Tudo certo.
Tudo certo.
Até daqui a pouco.

Para capturar o instante

Bato as cinzas do cigarro
sobre a caneca de café esfriado.
Estou de cueca rosa
sozinho dentro do quarto.
Não quero e-mails nem bate-papo
quero você que partiu faz alguns minutos.

Escrevo, meus filhos
para não esquecer o trajeto
Escrevo porque as lágrimas já saltaram
e agora salgam a pele
irritadiça.

Filhos, mais outra vez, aqui é vosso pai
Assim, sem rédeas
entregue
Sem nada
exceto a necessidade de transpor vida
em verso.

Filhos, você pai está crescendo.

Que lindo é esse movimento
de se ver desapegando-se
daquilo que noutrora era importante
mas que agora é tão menor
É tão pequeno
desprovido de fermento
Sabem?

Muita coisa passa
e é preciso que passem
Mas passam
muitas coisas
porque não têm
algumas coisas
força suficiente
para se fazer ficar.

Não, não estou triste.
Estou em movimento,
tentando compreender
como fazer dar conta
desse momento
Deste instante completo
e intempestivo
No qual só se reconhece
uma coisa:
o coração vivendo
gastando-se
tramando curvas ousadas
e cumprindo a ordem do dia
sem medo do que disseram ser o tempo.

Filhos, vosso pai está já com 25 anos
mas com alma de homem velho
e possesso (pelas iras de povos
pelas linhas de fronteiras
pelos absurdos dos sóis nascidos
antes das horas
Por tudo isso, filhos
vosso pai hoje vos reclama):

Filhos, perseverem.

Filhos, continuem.

Sigam, meus meninos
Sigam desbravando o mundo
que se anuncia pós-umbigo

O outro, meus filhos
É seu maior e mais precioso
abrigo.

Modelem-se às quinas alheias
modelem-se ao corpo outro
ao corpo imenso
pesado
fino
transponível
Durável ou não-durável.

Filho deste momento,
Você é muito sagaz e prematuro,
mas sobreviverás
porque és sincero.

Como muitos de seus irmãos
- mas nem todos -
és muito sincero.

Estou apaixonado, meu pequeno
não por ti nem por mim
nem por algo dito escondido
dentro
Não
estou apaixonado pelo outro que me tirou deste tempo

Apaixonado pela ousadia que
juntos
fizemos nascer
um nu outro.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

VERMELHO AMARGO --- Reestreia


Tramor

Primeiro dia do mês
e eu aqui, ansioso pelo reencontro
Faz tempo
mas não tanto
Entorno a garrafa de vinho
como se cuidasse do abandono
Não pode haver nada mais especial
do que isto
Isto
nome incapaz de resolver o tremor

Você chega
eu faço o quê?
Mordo?
Abraço?
Danço?
Te agarro?

É bonito
o lugar do corpo
quando não há lugar
tamanha a quantidade
de tremores

Traz, meu bem
o seu corpo
a sua chegada, vem
Fica aqui
que desde um mês atrás
eu sigo faxinando a casa

Tudo está aqui
intacto
Meu peito mesmo
coitado
Está sozinho
está abusado

Culpa sua
Culpa boa
Culpa branca
ansiosa por ser remexida
e tornada rubra

Venha,
que ansioso estou pelo reencontro
Ansioso estou pelo que ainda não fizemos
mas, sobretudo,
pelo o que já sabemos entre nós correr solto
e preso
E aqui
e antes também

Venha, meu bem
Que isso que nos fizemos
faz bem.