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quinta-feira, 30 de abril de 2009

and i hope everything is gonna be all right

espero.

esperança não cansa
ela dança diante dos olhos
ela some outra vez
e se refaz
esperança é destino límpido
é alvo impreciso
posto não seja visto
posto seja devoção
dos segundos
diante de um nada
crente.

esperança não cansa
no máximo adormece
feito criança que brinca brinca
e de repente cai
morta de cansaço
morta ela adormece
e acorda
centímetros maior
sentido na nuca escorrido

esperança é genuíno
no máximo desespera
e faz em outra forma
o q u e f a z e m a s f o l h a s t o d a s n a p r i m a v e r a

apenas voam
para voltar, mas voam
para transformar

o olhar de quem fica esperando ser confuso
e parecer olhar ser pranto
como fosse pranto algo impuro

apenas voa
para ir e fazer duvidar
irá mesmo voltar?

e de repente,
é dança inquieta
pois sinaliza o transtorno
da queda

agiganta o sentido da vida
ela ainda presta.

ela ainda presta.
.

dimensão

eu olho através dessa mesma janela
e o relevo das formas me inquieta
como pode nele haver essa paz
mesmo discreta,

como pode no morro ali da frente
haver um silêncio rangindo entre os dentes
de rochas duras quentes lodeadas

como pode ali na frente da montanha
o céu descer pleno sem revoltância
chocando a chuva e cantando esta noite
que nasce manhã amena

como pode?

eu sendo assim desse tamanho
nesse mundo que por certeza
me é mais muito grande
como eu posso
então
mirar o céu sem cegar
mirar o chão sem cambalear
e se no cambalear for
como nele fazer minha imensidão

como?
eu pergunto sem resposta ou pretensão

eu pergunto
e faz-se chuva ou faz-se chão

as coisas vão e revolvem
e essa talvez seja a condição

ser adubo para a postergação.

adubo para.
independe a destinação.
.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Você me olha de um jeito estranho

Isso me faz pensar em coisas que não convêm.

Era só para dizer isso que eu não canso de repetir
como se fosse a constatação do meu desejo
a segurança precisa para não ir além
mar adentro.

Eu só precisava repetir, diante de você desta vez
em mim as coisas já se sabem
e o desejo é friso no corpo
que desde já está louco
para outra vez te ter.

Você me olha de um jeito
que eu nem sei o que dizer
as coisas em mim precisam de qualquer vaguidão
para crescerem
para alçarem vôo
e me levarem junto
preso
incapaz de tocar o chão
incapaz de não voar
vendo assim
o desejo saltar.

De um jeito que eu nem sei
por isso não imagine coisas
fique com o concreto
sinta o chão do seu lado
preciso
indiscreto
sem afeto, por agora
sem afeto, por agora não

Quem sabe depois
Quem sabe depois?

Eu não sei
não quero saber
e não tenho raiva de quem sabe.

Mas, quem sabe?

.

sábado, 25 de abril de 2009

o corpo é via

E expressa
no percurso de si mesmo
uma ou outra contradição

O corpo é via
por ele sobrevivem outros corpos
nele outros saltos se impedem
certas verdades já vencidas se procriam
e a eternidade é mera e docemente
possibilidade
concreta

No corpo-via
passam-se coisas transtornadas
Não seria corpo
não seria nada
não passasse por si
a vida assim
em processo de autofagia
desesperada.

Estou sozinho neste momento.

Estou mesmo?

Meu corpo é via
via para mim extravazamento
com as letras que eu desejo
com o controle que em mim eu tento
nisso meu corpo é via
e via por percursos ora acelerados demais
ora mesmo muito lentos

nisso é via meu corpo
e no atropelar do dia via
o corpo
se afunda em agonia
para ter sobre a pele
alguns segundos a mais
de paz

outra via aparentemente
incapaz,

posto seja fulgás.
.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Lendo árvores e escrevendo filhos

Uma nova árvore.
Longa e nova,
Inteiramente nova.
Cheia de linhas
Percalços
Texturas
E
Descobertas.

Árvore velha,
Sempre nova
Para mim.
Sábia e esbelta.
Árvore sedutora
Que me encanta
E me inquieta.

Olho a nova árvore,
Todos os dias.
Outras me chamam a atenção
Outras se jogam rumo ao chão,
- As descabidas -,
mas eu contemplo
a árvore certa.

Toco-a,
comovo-me com
seus cheiros.
Para os outros,
passageiros.
Para mim,
Sempre cheiros
Fraternos,
Ternos e
Eternos.

Lendo as árvores,
Porque me lançam
aos céus,
ainda que feitas
de papel.
Lançam-me ao mar.
Ainda que não feitas
Para molhar,

Lançam-me ao mar,
Com direito de
Volta,
Mas não sem antes
uma queimadura da
água-viva-morta,
Mas não sem
Um olhar fatal do
peixe-espada-de-papel-também.

Elas que me lançam ao altar,
De onde eu posso contemplar
Outros estados.
De onde eu posso
Afastar. Me.

No altar, encontro os meios
De fazer do pequeno que virá
Algo melhor de quem trepado
Nas árvores
Está.

Algo assim,
Melhor do que eu.

27/02/07

quarta-feira, 22 de abril de 2009

insustentável leveza

dentro de mim uma ânsia corrói o mundo
eu, miúdo, lutando para fazer da crença a minha construção
ilustre
utópica
mas tão tátil fosse estivesse aqui na minha mão
neste momento
onde vida é não só sinônimo
mas também pura transformação.

dentro de mim uma ânsia revira o íntimo
revira de dentro para fora
e já não há segredo
pois todo ele virou hino
e é sagrado

o desejo de eros
e de thanatos
são complemento
se amam

amor não é autoritário
é balança

distribui os pesos
e hoje o seu corpo
é também puro amor

disfarçado em dor.

veja como é lindo isso
ser você veículo da paixão
veja como é lindo imersa onde está
surgir ao seu redor tantas mãos

dizendo, venha comigo
vamos mudar juntos isso.

acredite
há como se transformar

pois existindo ainda um pedaço
não há todo que se possa completar

os pedaços são feito fatos

feito pedras

feito memória

encho-te de abraços.

e seguimos
pois seguir é adiante
pois adiante é o seguimento
da dor
do tormento
é o seguimento

do amor
do ressurgimento.

 

o tempo da mudança,

Vassouras, 25 de fevereiro de 2007
  Amigos que amo,
  Estou dentro de um quarto escuro. Eu os amo. Era preciso repetir. Estou feliz com tudo que alcancei até agora, mas confesso, sinto muito a falta de vocês. Aqui sou compreendido, empreendido, investido, despedido e até despido (quando vou ao médico), mas somente com vocês isso tudo faz sentido. Não sei mais o que busco, acho que tudo se perdeu no meio de tudo o que encontrei. Desejo tanto mais, tanto maior e ao mesmo tempo, valorizo tão mais as pequenas coisas. Amo sobretudo os lápis que compro com desespero e, ainda mais, o sentir do café tocando a língua enquanto os olhos lêem as árvores que tanto escrevo. Tenho farpas pelo corpo, sim. Minha cicatrização é lenta mesmo, por isso vivo doendo, vivo cicatrizando a todo o momento. Vivo intensamente o duplo espetar das agulhas diárias que me poupam a morte. Hoje descobri que reviver o passado é morrer. Por isso morro tanto por isso vivo o que passou e o que fui e o que sou e sobre vocês e sobre tudo aquilo que ficou perdido no
tempo impreciso de quem mediu ou cronometrou o ocorrido. Quero tanto uma máquina fotográfica. Estou desconexo, não sei o que escrevo, estou intempestivo, sou o plural que nunca imaginei poder, eu sou tudo aquilo que não sei ser. Teimo em justificar o parágrafo que sequer comecei a escrever. Amo vocês. Talvez seja isso o todo sentido que sei escrever. Como mudamos. É desesperador o tempo da mudança, tão rápido e lento e só no tempo marcado mas a todo o momento. Eu tento. Eu tento. Eu mudo. Eu me revejo e me assusto com as novas caras que eu tenho. Posiciono os três espelhos do banheiro de forma a me ver de outro jeito, aí me assusto vendo-me ora feio, ora bonito, ora meio morto e com uma luz perdida entre os cabelos pretos. Experimento, sou ator, as posições do queixo, a combinação de fazer desaparecer um gesto que mim vive preso... E os dentes mudando de lugar e o tamanho dos dedos, todos mudaram, o sol está inteiro, entretanto eu não os vejo. Eu estou bem. Quero o futuro
e o morro de medo. Vejo o passado e finalmente me reconheço, em todas as perdas que fazem dele o que passou e de mim o agora que desconheço. Entretanto, o presente fica cada dia mais impreciso, mais indeciso, mais incisivo e eu vivo assim. Feliz na agonia, na comprazia do não dar conta das tarefas assumidas, da pluralidade grega e das vontades proibidas. Saudoso. Escrevendo tudo aquilo que teima olhar para mim com olhar de desapego. Eu pego mesmo. Revolvendo as coisas com outras cores, outras faltas, outros desassossegos, a tudo aquilo que me seduz e me causa medo. Tem gente que gosta de rosas, nem sempre elas são vermelhas, mas sempre são rosas... Tá ótimo então. Acho bem digno... Mas atento-me nas escadas, com os ponteiros dos relógios digitais que medem a temperatura, nos ruídos dos meus desejos, até mesmo o pessegueiro podre que descobri no quintal da casa que nem mais freqüento eu percebo... Eu cansei da trema, mas ainda assim eu tremo por inteiro... Quando finjo que
não a vejo. Tenho transtornos, compulsivos, obsessivos, repetitivos, na periodicidade que me faz de mim meu inimigo. Eu obedeço as regras que nem mesmo conheço... Um enorme imenso beijo, tão grande abraço... Para que sintam durante um certo tempo a lembrança de um amigo... A corda do violino arrebentou-se e tingiu-se de vermelho... É a minha cabeça, o absurdo do entendimento, o conhecimento pelo sofrimento...  O que escrevo é sempre um soco que dou no bunda do tempo passageiro. Preciso soltar o dentro de mim neste momento. Talvez não envie, talvez guarde e releia um dia, como faço com os postais endereçados e presos dentro das agendas passadas e costumeiras. Hoje cortei o meu cabelo, eu mesmo. Usei tesoura de unha e gilete seco. Não seriam os cortados um pouco do tempo que perdi vivendo?
Amo-vos, repito outra vez...
  D.Liberano

terça-feira, 21 de abril de 2009

DIÁLOGO ATRAVÉS DA CARNE

Baseado no poema Retrato de Família
de Carlos Drummond de Andrade

(Dois irmãos voltam até a antiga casa de família. Estão na sala de jantar, onde há apenas duas cadeiras e uma arca. A poeira toma conta do espaço. Na parede onde a arca está encostada, há um retrato da família emoldurado. Do lado oposto, uma janela com os vidros sujos pela qual a luz do dia entra e preenche o cômodo. Pedro, o irmão mais velho, é o primeiro a entrar. João, o irmão mais novo, parado na soleira da porta, apenas olha o retrato.)

Pedro – Este retrato da família está um tanto empoeirado, não acha?

João – Acho que ele sempre foi assim.

Pedro – Mamãe não gostaria de vê-lo desse jeito.

João – Não me importo com a poeira... Engraçado como nada mudou.

Pedro – Mas é claro que as coisas mudaram!

João – Não acho.

Pedro – Por quê?

João – Pois sempre que olho para esse quadro, eu vejo mais do que um simples retrato.

Pedro – O que há nele é a nossa família, João. Eu, você, mamãe e papai. Só isso.

João – E os tios não importam mais? Nunca importaram, não é?

Pedro – Sempre estivemos distantes.

João – E a vovó? Coitada! Sempre amarela. Sempre uma doente jogada num canto da casa onde houvesse um pouco de sol para lhe banhar as pernas.

Pedro – Não diga bobagem.

João – Nem mesmo eu mudei.

Pedro – Já lhe disse que as coisas mudaram! Elas sempre mudam...

João – Entretanto, você continua com esse seu rosto tranqüilo.

Pedro – O que é isso, João?

João - Com essa cara de quem sempre sonha aquilo que deseja sonhar. (Silêncio)

Pedro – E você acredita mesmo que também não mudou?

João – Minhas unhas ainda estão sujas do jardim. Mamãe nunca gostou de limpá-las.

Pedro – Pois eu acho que você está diferente.

João – Sim! Deixei de ser a criança que rói as unhas, para ser o adulto que rói as unhas.

Pedro – Não sabia que você ainda fazia isso...

João – É... Você geralmente só sabe das coisas que mudam. (Silêncio. Pedro escolhe as palavras)

Pedro – Acho mesmo que você mudou. De verdade. Deixou até de ser mentiroso.

João – E como era difícil fazer vocês acreditarem nas minhas verdades...

Pedro – O que você queria? Que eu realmente acreditasse que você morreu em todas aquelas vezes em que brigamos?

João – Morre-se aos poucos, Pedro.

Pedro – Ora, irmão! Vejo que até hoje você não aprendeu a brincar direito.

João – Isso talvez seja um fato. (Pausa). Se eu soubesse brincar de verdade, talvez tivesse mudado a minha posição nesse retrato. Talvez descobrisse como tirar as mãos do papai dos meus ombros, para então ganhar a sala e levar a vovó no colo para ver o sol por inteiro.

Pedro – E deixaria, por isso, de ser mentiroso?

João – Sim. Pois seria a criança que nunca fui.

Pedro – Eu posso imaginar a confusão que ia ser.

João – Eu não ia ter medo de apanhar por subir na mesa. Nem medo de correr livre pela casa ou de bagunçar o quarto que me disseram que era meu...

Pedro – E assim quebraria todos os vasos da mamãe, isso sim!

João – Mas se penso em sonho, já posso sentir o peso do meu castigo.

Pedro – E tudo isso por causa de um retrato, João?

João – E é você também quem está aí dentro, sabia? Preso durante todo esse tempo!

Pedro – Sim, sou eu. Mas também estou aqui fora. Livre, como você.

João – Vinte anos é um grande tempo, Pedro...

Pedro – Tempo suficiente para modelar qualquer imagem.

João – Não essa! Se olho para esse retrato, quem é que vejo? Meus parentes? Aqueles que um dia me amaram?

Pedro – Exatamente. Não há nada mais além disso.

João – Não acredito. Simplesmente não consigo acreditar...

Pedro – Mas no que é você quer acreditar, então?

João – Queria que fossem apenas figuras que quando murcham são sobrepostas por outras. Mais novas, mais quentes. Ou até mesmo as visitas se divertindo pelos cômodos da casa.

Pedro – Por que é então que você faz questão de vir até aqui? Se isso lhe faz tão mal, se você sequer tem força para olhar um retrato preso numa parede, por que é que sempre volta a essa casa? (Pausa). Eu posso cuidar dela sozinho. Eu posso contratar uma empregada, se você quiser. E ela vai regar o jardim da mamãe todos os dias e vai arrumar a caixa de ferramentas do papai sempre que um parafuso desprender-se da parede...

João – Volto até aqui porque me sinto preso. Sufocado.

Pedro – ...E ela tirará a poeira dos móveis... Pois então não volte mais. Eu realmente não me importo em vir até aqui e ter que ficar sozinho durante algumas horas. E no mais, fazemos isso uma vez por mês, no máximo. É o tempo de o sol esquentar o piso e a poeira se confundir com o ar. Eu já lhe disse, não é preciso que venha para cá.

João – E o que é que você sabe sobre o que eu preciso? Por que sempre quer saber por mim? Pedro! (Pausa) Você sempre soube mais, não é mesmo? Subia até a caixa d’água sem cair. A casa na árvore! Você nunca me deixou chegar até lá. Sabia também como voar, não era? Mas também nunca me ensinou, temendo que eu pudesse chegar mais longe que você.

Pedro – Ora, João! O que é isso agora?

João – É essa maldita moldura que não nos suporta mais.

Pedro – Meu Deus, irmão, isso é um quadro. É só um retrato!

João – Que me assusta ao refletir cada cicatriz que criamos juntos.

Pedro – Eu realmente não vejo tanta importância num retrato...

João – Mas ainda assim se incomoda por ele estar sujo!

Pedro – Você, como sempre medroso! Então é isso... Temendo olhar-se num espelho, João?!

João – Por isso quero o retrato empoeirado.

Pedro - Não, irmão! Agora você cresceu. Os vidros e espelhos não podem mais te engolir.

João – Mas era tão engraçado, não era? Eu fugindo de cada reflexo, de cada espelho que você fazia questão de me mostrar. Só para me ver assustado com a minha própria cara de medo.

Pedro – É... Era realmente engraçado. Porque éramos crianças.

João – E retirar a poeira que amortece o meu medo agora, seria o quê? Tornar-me homem?

Pedro – Não. Hoje é apenas vontade de ver a família reunida.

João – Para poder distinguir através do vidro sujo de tempo os que se foram dos que restaram?

Pedro – Para voltar à família, irmão! Sentir-se em casa sempre que precisarmos.

João – E com que freqüência você precisa da sua família? Desde quando precisou dela?

Pedro – Não começa!

João – Necessita de alguém que se curve para que possa se sentir maior?

Pedro – Não!

João – Então o que é?

Pedro – É poder olhar para frente. Sem medo de deixar para trás o que já passou. O que morreu.

João – E isso que fica para trás é a sua família?

Pedro – Não importa mais... (Silêncio)

João – Pois o que permanece para mim, Pedro, é apenas a estranha idéia de família.

Pedro – Mas todos eles ainda continuam com a gente!

João – Mas ela não está mais aqui, não é mesmo?

Pedro – Não. Mamãe não está mais aqui. Nem mesmo papai está.

João (Toca o retrato, limpando-o) Olha! Esse aqui sou eu! O filho mais novo. Quando fecho os olhos, consigo sentir as mãos do papai pressionando os meus ombros... Uma vez ele fez isso ao me empurrar num balanço... (Pausa). E olha você aqui! O filho mais velho. Parece um neném escondido no abraço da mamãe... Sabe que às vezes eu sinto o cheiro dela? Mas é só por um instante...

Pedro – Agora, vamos embora. Não há mais nada que nos prenda aqui... (João recua enquanto Pedro retira, com as duas mãos, o quadro da parede e o coloca virado para baixo sobre a arca).

João – E ainda assim, eu posso sentir o peso de seus olhares viajando através da minha carne.

(Eles saem. O sol apenas ilumina a marca do retrato de família na parede. E nada há mais.)

FIM

2007

Não, não pensa muito

Que cansa.

Não, não pensa
porque nisso
você mata o segundo
o segundo de uma
ou outra
presença.

Eu peço a mim mesmo, a você
não pense logo venha o amanhacer
Pois nisso o sol passa batido
e o calor vira o incômodo
de não lembrar o nome
daquilo
de não lembrar de um cheiro
ou nome
amigo

Não!
Não pense tanto, não!

Deixe-se ser burro
fundo
precipício
erro
fim
descontínuo

Deixe-se ser maldito
dito
ou desdito
aceite-se, pelo menos hoje,
impreciso.

Ah, menino
Deixe-se sem pensar
Deixe-se não pisar
tanto em si mesmo
tanto em meio aos volteios
que a sua cabeça dá

Faça assim, eu te peço:
deixe-a bater no chão
e sinta como pode ser belo
o não saber
sinta vendo as cores do sangue de ti escorrer

mas não pense

viva a coisa seguindo
e o escuro do dia tomando-lhe
os olhos
e depois os sentidos
para enfim,
morrer,
como quem nunca soube nada.

06/07/08

Things I’ll Never Say

Ainda ali deitados, o corpo de um no do outro tremendo provou que apenas olhar o céu não era o único e melhor intento. Ele, então, respirou fundo e tentou,

FALA ALGUMA COISA. Você tem medo do silêncio? NÃO É MEDO, É NÃO SABER. Não saber o quê? O QUE O SEU SILÊNCIO QUER DIZER. Pela primeira vez na minha vida as coisas estão mais claras. Pela primeira vez eu não mudaria nada. NESTE MOMENTO? É. Tudo agora está perfeito. TUDO O QUE? Esse pouquinho de alguma coisa que existe entre eu e você. É POUCO PRA VOCÊ? Ser pouco não é ruim. É que ainda é pequeno. SILÊNCIO. E o que o seu silêncio agora quis dizer? ELE ME DISSE QUE É BOM ESTAR COM VOCÊ. E isso é pouco? NÃO. MAIS PODE SER MAIS. Silêncio. VOCÊ ACREDITA QUE O QUE É BOM DURA POUCO? Eu acredito no que é bom. Se dura pouco é porque talvez a gente perca tempo demais pensando no quanto as coisas deveriam durar. E SE EU TE DISSER QUE EU QUERIA FICAR PRA SEMPRE? Eu diria que o nosso sempre acaba de acontecer. AGORA? É. Neste momento tudo está quase perfeito. E O QUE FALTA? Só mesmo o meu silêncio poderá dizer. E O QUE ELE DIZ? Silêncio. NÃO VAI FALAR? Ele se conta a todo o momento. Resta você conseguir enxergar o que ele tenta esconder. NÃO ESCONDA. É preciso. NÃO SE DIZER? Pelo menos não por inteiro. Se eu disser tudo o que gostaria, talvez você não fosse compreender. TENTE. Tente você! SILÊNCIO. Silêncio. EU ESTOU PROCURANDO AS PALAVRAS CERTAS... E eu estou me sentindo nervosa. POR QUÊ? Porque você vale a pena. SILÊNCIO. Silêncio. POR QUE A GENTE NÃO CONSEGUE DIZER QUE SE IMPORTA? Você acabou de dizer. EU DISSE O QUE? Que se importa. MAS NÃO DESSE JEITO... Por quê? PORQUE EU TAMBÉM ESTOU NERVOSO. Silêncio. SILÊNCIO. Nós dois culpando o nervosismo, escondendo nele algum outro sentido. E VOCÊ, ALÉM DISSO, AINDA ESCONDE AS MÃOS. É que elas sempre entregam o que eu não quero dizer. E POR QUE NÃO ME DIZ? E por que não diz você? SILÊNCIO. Silêncio. EU IA DIZER. O meu ou o seu silêncio? ELES DIZEM A MESMA COISA, NÃO? Pode até ser... MAS QUEM VAI DIZER PRIMEIRO? Eu digo, então. Acho que o seu silêncio quer se perder. E O SEU ME FAZ PENSAR QUE SE EU ME APROXIMAR, TALVEZ VOCÊ NÃO VÁ ME DETER. Acertei? SIM. E EU? Também. SILÊNCIO. Mas agora o que falta? ACONTECER. Mas porque não acontece? PORQUE QUEREMOS FAZER DURAR ESTE MOMENTO. Como se ele tivesse que ser eterno? COMO SE ENROLANDO A VONTADE ELA FICASSE AINDA MAIOR. E não é que isso acontece? COM TUDO, NÃO É? Com os frutos ao amadurecer. Agüentar o desejo, esperar... PELO O QUE? Pelo pêssego. RISOS. Risos. OU ESPERAR POR VOCÊ? Silêncio. COMO VOCÊ CONSEGUE AGÜENTAR? Minhas mãos estão guardadas sob a mochila. E SE EU TE PEDIR O QUE NÃO CONSEGUIMOS DIZER? Eu vou rejeitar o seu pedido até não poder mais. E QUANDO ISSO VAI TERMINAR? Quando você ganhar algo de mim e eu algo de você. ALGO COMO O QUE? Algo que fosse me surpreender. PELO MEU JEITO DE TE DAR? Pelo seu gosto. E EU TENHO QUAL GOSTO PRA VOCÊ? Gosto de pêssego que acabou de se desprender. E ISSO É BOM? Pode ser. SILÊNCIO. Silêncio. VAI DEMORAR MUITO? Acho mais fácil a gente se distrair. NÃO PODEMOS CONTAR AS ESTRELAS. Mas podemos olhar as nuvens. ISSO DISTRÁI? Só quando as nuvens mudam de posição. Têm dias que elas desenham cada coisa que é difícil acreditar. HOJE ELAS PARECEM QUERER CHOVER. Você já tomou banho de chuva? SILÊNCIO. O que foi agora? É QUE EU ACHO VOCÊ LINDA. Vergonha. EU TE DEIXEI SEM GRAÇA? Não faz isso! MAS VOCÊ FICA AINDA MAIS LINDA ASSIM. Mas não precisa fazer isso toda a hora! SÓ DE VEZ EM QUANDO. Isso não é justo! Deixa eu descobrir o que te envergonha e você vai ver! EU TENHO VERGONHA DE TANTA COISA. Não tem nada. TENHO SIM. VERGONHA DE TER DITO TUDO O QUE FALEI E DE NÃO TER GANHADO NADA EM TROCA. Tudo está guardado. ONDE? Comigo! E QUANDO VAI ACONTECER? Quando eu achar que é preciso. EU ACHO QUE JÁ TÁ NA HORA. Portanto, temos uma hora inteira para esse algo nascer, crescer e morrer. MORRER? Não. Acho que se reinventar. É algo que se acaba só para depois ter que renascer. VOCÊ ME DIZ ESSAS COISAS TODAS, ACHO QUE É PRA ME ENLOUQUECER, NÃO É? Talvez seja mesmo. E O QUE REALMENTE VOCÊ QUER ME DIZER? Eu já disse. DIZ MAIS UMA VEZ. Não é preciso. Nós dois sabemos o que falta dizer. OU O QUE FALTA FAZER? Eu já te disse que você me deixa confusa? NÃO CUSTA NADA REPETIR... Silêncio. SILÊNCIO. Eu estou pronta. PARA? Ganhar o seu algo. QUE PENA... EU PERDI O MEU DESEJO. Ele foi pra não voltar? DISSE QUE VOLTARIA LOGO. VOCÊ SE INCOMODA EM ESPERAR? Eu tenho o dia inteiro. ÓTIMO. Mas e se chover? EU TEREI QUE TOMAR BANHO DE CHUVA COM VOCÊ. Essa eu adoraria ver. SILÊNCIO. Chegou? PELA METADE. Pelo menos deu sinal de vinda. E EM VOCÊ? Tudo ainda está aqui. E POR QUE AINDA ESCONDE AS MÃOS? Acho que eu já posso deixá-las respirar. ELAS ESTÃO SUADAS. Estão nervosas... DEIXA EU TOCAR. O que você quer com elas? OUVIR O SEU TREMER. Ouve agora? SIM. E o que dizem? QUE NÓS DOIS ESTAMOS COM MUITO CALOR. E não é que é verdade? É, NÉ? Sim... SILÊNCIO. Chegou o resto? SIM. ACHO QUE ESTAVA TUDO COM VOCÊ. Posso te dar? O QUÊ? O que faltava do seu desejo? AH, PODE! Pensou que fosse o que? O NOSSO TÃO ESPERADO ALGO. Silêncio. RISOS. Silêncio. VERGONHA. Risos. RISOS.

Para enfim, depois de tanto transbordar, o algo em beijo se transformar.

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* Trecho da peça AO VENTO,

segunda-feira, 20 de abril de 2009

mais um passo para os dois

ele e ela
tentam ali
fazer compreender
que costura é essa
que além de os fazer
também os faz sofrer

que desejo?
que não-compreender?

é possível viver de novo
e redescobrir o que é morrer?
possível de novo se chocar
e se bater
e repetir
tentar fazer compreender
o que é isso entre a gente
que nenhum nome
é capaz de dizer?

eu me ergo
estou de pé
os sapatos lustrados
tentam no mover
sentir um entender.

um sentido
por ele eu grito
sapateio e giro
eu repito
e de novo
outra vez me implico

o mesmo passo
revivo a mesma dor
sangro de novo
até achar no mar vermelho
a cor nossa
nosso matiz
o nosso amor

é isso?
repita, por favor
repita esta aquela
e essa dor

repetindo poderemos ver
o que era aquele silêncio
que um dos dois
não quis verter.

que silêncio era aquele
que calado no íntimo
lacrado posto impreciso
gerou a dúvida que hoje
nos gerou.

o seu silêncio era ódio
ou o seu ódio é
que era amor?

domingo, 19 de abril de 2009

das migalhas do pão sobre a mesa.

O escritor acorda, primeiro no tempo exato, mas vão os olhos percorrendo o espaço e percebem na profusão das horas que há outros seres respirando ao seu lado. Ele senta-se sobre a cama, os pés esbarram no chão, está descalço. O escritor acorda e independente da hora é sempre manhã nesse primeiro contato. Ergue-se, então. E o seu olhar é guia através do tormento. Consegue ver onde não haveria nada daquilo que se esconde por dentro. Seu olhar desvela e já amanhece olhar perseverante. Olhar de escritor vê o que pode haver entre um amado e um amante. E descobre mal se faz o amanhecer, que sim, há muito o que escrever. Há sim, muito o que num primeiro toque possa vir fazer crescer.

Na contagem do pó de café, no colocar da água filtrada, passam-se dunas inoperantes passam-se rios que no escoar das águas transformam a pele do escritor em leito para o peso dos segundos - sempre avassalador – peso este tornando a sensação num despetalar num constante rugido num estupro num eterno desespero elementar. A calma das coisas acontece precisa em seu peito, por isso nada é tão sutil porque sendo só a calma agindo não se tem jeito. O peito recebe tudo e é por inteiro. E o cheiro do café sendo feito traz à mente ao corpo ao olfato mesmo todos os cafés que na sua vida e na ficção certa vez já foram feitos. A última gota bebida prediz sempre o futuro, ou quantos mais cafés eu passarei nesse mundo…

No espelho do banheiro, agora inclinado com intuito de mirar um pouco o chão, o escritor se olha para não perder a comunhão entre a vida e seu desenho, para a vida ali agindo junto ao seu reflexo borrado, quase sempre por ele à desejo. Olha-se profundo, percebe o quanto vê e existe já no olhar uma impossibilidade que é justamente a do se abster. Pode o escritor ver o mundo inteiro e ainda algo mais. Sempre alguma coisa no seu olhar perdura e a paisagem diante nunca é demais. No andar do escritor um olhar convertido em visão eterna. Por isso talvez sua infelicidade tão terrena.

Está morto. É ferramenta, sente-se único, coitado. A sua arte que tanto diz é a sua impossibilidade de não mais ser livre. Foi capturado, as coisas caindo e crescendo ao seu redor lhe chamam a faculdade, o título seu é requisitado e nenhuma cor se mostra para ele tão a vontade como agora, quando senta-se diante do infinito em branco e resolve dispor aquilo que abala o corpo, aquilo que o faz tremente, ser amante do transtorno.

O escritor não escreveu ser isto. Foi a tal musa inspiradora que sequer a ele se apresentou. No íntimo, porém, um desejo é desbravador e vai além das pernas dos braços e das penas. Tudo é pouco quando o pouco pode ser muito mais. O escritor que hoje acordou quer sempre mais. Por isso a cada dia, nasce outro. E nascendo assim tantas vezes todos os dias, cria-se nele uma virgindade perante as coisas que não se cansa de ser nova, a cada dia. Sendo assim, sempre frescor, no escritor não há certezas. Há sempre, posto seja ele sempre criança, uma ciranda de sementes qual jogo feito a dança.

Ser escritor é tentar dar conta da organização das migalhas do pão sobre a mesa. É tarefa refeita a cada mordida. É tarefa impossível, diriam alguns. Mas é tarefa e o resultado não cabe dizer. Morde-se o pão primeiro pelo querer. As migalhas no ar até a mesa-chão são destino preciso para quem desvela o pão em condição, em não se conter. Em ser faminto. Ser escritor. Ser de um entre qualquer.

sábado, 18 de abril de 2009

em você por inteiro

Eu estou seguro com você
eu tropeço eu cambaleio
eu estou seguro
em você por inteiro
eu sigo
desse jeito

Nosso tropeçar alterna o passo
hora é você quem cai
noutra sou eu em seus braços
assim
nesse compasso
a velocidade dos corpos
desejos
se atropela
e ser atropelado nunca foi tanto
gesto bom autoritário

Eu peço
deixemos os corpos assim sonolentos
refazendo em cada bocejar
novo arranjo de pernas
e pêlos

Nós dois primeiro
não há pretexto
não há futuro
há só um cheiro
perdido entre os meus segredos
em ti desvelados
em ti,
despejo-me inteiro
e não há palavra que possa dizer
isso que no silêncio do toque
ousamos criar
fazer nascer,

Vale o segundo
na vida uns segundos
nada mais
as horas que passam
nem todas elas são viver
no segundo
preciso tempo medido
o corpo resta vivo
e ser resto
é mesmo tudo ou quase tudo
que eu preciso

Avance
não fale nada
façamos do silêncio nosso abrigo
e nele ouviremos apenas o gemido
fosse gemido o grito incontido
mas doce
mais amigo impossível
no gemido
eu sei o incomunicável do seu íntimo
que se expande e voa além
do que os braços e peitos nossos
podem habitar

Eu estou indo
não precisa falar
eu me levanto
eu visto a roupa devagar

(e entre olhar a meia ao avesso e o seu corpo despido
eu oscilo)
não há que se olhar para trás
não há que se dizer adeus
um mútuo agradecimento
tinge a pele
e esquenta o dia
e no dia há vida
porque na vida
hoje
tive você.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

your hands up your head

...
put your hands in the sky
doing forms not actions
making your body
just wings
over the ground,

over desire
to put your hands
away from here
let them know
your own fear,

i hope you could
i hope, you will do

let them fall over the floor
let them break
in another body
i know you can

and sudden
in a sudden way

you are happy
on your own foundation,
you are a form
only a shape
pure shaking in the sky
like do the stars,

like do the stars,
take them on your hands
and shake it
until the sky get new color
until the sky turn into your floor
...

quarta-feira, 15 de abril de 2009

ser genuíno

“eu tenho essa tendência
do contra fluxo; todos
olham o fluxo de sangue escorrendo na
violência dos homens,
mas eu
tento olhar seus olhos
espelhos vidrados na
produção da sua auto-
comiseração”

pausa. de-mo-nos abraços.
“quero escrever sobre isso agora
sobre o esforço
não sofrível
mas louvável
de lutar para encontrar o ouro
um outro ouro possível
que não seja mais este
capaz de matar”

e então eis que volta a minha mente uma coisa que há muito venho pensando. começou na lida com o trabalho, fazendo teatro, dirigindo atrizes e aperfeiçoando nelas o meu retrato. um pensamento só tomava conta de mim. como o personagem pode ser assim? ele precisa ser genuíno. para qualquer defeito ou valor ou banalidade que nele seja embutido(a), tudo isso precisa ser genuíno, precisa ter fundação.
aí a vida dá voltas os ensaios terminam e outros começam e o tempo se vai – eis que um dia você olha para você mesmo e tende a buscar talvez ir fundo e identificar – onde está o caráter genuíno desse meu absurdo, dessa minha quina quando foi que a criei que lhe dei insumo?
as coisas estão todas parecem estar inseridas nisso. nada aparece do nada. é difícil acreditar em papai noel. as coisas são edificações, por isso muitas delas despencam, pois existe uma ação primordial, que dá o start, que funda o ser e o sustenta ou em alguns casos, que funda o ser e o capenga, como fosse capenguisse estado possível para permaneSer.
então eu estava lá dirigindo. é esquisito refletir sobre si mesmo. mas eu lá com a atriz, conversando, dizendo, indo e buscando, questionando, sempre. o porquê da fulana – que chamamos personagem – ser daquele jeito. porque teimava em desmerecer algo ou porque mesmo acreditando noutro afirmava o contrário. algo genuíno deve haver nisso tudo.
não falo de psicologismos. não há ismo que seja por si só profundo, pró-fundação.
fundação é consciência. não vestimenta. fundação é erguição. tensão. não é fundação uma simples sofreguidão. não. ser genuíno é algo mais que o misterioso. é a aura da própria obra de arte. aquela que ainda é arte. aquela que na ida (a favor ou contra si mesma) ainda é arte.
autocomiseraçãoautocomiseração

terça-feira, 14 de abril de 2009

genética

compartilho em mim algo seu
que te define?

há em mim algo que seu
só te restringe?

eu não sei
não consigo ver nada
não há externo
e dentro
a sensação é de tornado
de transtorno
de desvio
colapso.

o que fazer
vendo assim a família ruir?

o que fazer no meio do desespero
desesperar
ou conservar-se
ao meio?

meio desconfiado
meio se enganando e dizendo
nem tudo está assim despedaçado
nem tão cedo morreremos
todos morrem
desesperados
!

o que fazer quando o real avassala
e o instante é amargo
o que eu faço?

numa mão afago
na outra seguro o vendaval
as pernas juntas caminham
enterrando
quando possível
as incertezas
e fortalecendo
- em terra -
as escolhas deste presente
deste imediato

deste ato fruto do desespero,

compartilhado.
...

sexta-feira, 10 de abril de 2009

us can create

try me

how far can we go together?

try me,
i really don't care
sometimes
there are many things
that doesn't matter

like now,
try me

do with your hands
make in your skin
a new meaning
a new meaning

can we create this new thing
which we'll never call it like
thing of love
love it's so surface
so sorry
so

we can create
i think we can
we also have done the hate
so i think
i really do think
we can do better
we can create another name

we can
i know
'cause when our skins are in touch
meanings drop out
and all that survives
is freedom

our freedom.

don't be afraid of free
you can come
i'm still here.
.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Conto aos pedaços

O morador de cima aproximou-se da janela de sua cozinha. Era manhã recém-nascida. O sol ainda tímido já queimava os corpos expostos no quintal do andar de baixo. Encheu sua xícara com o café de sempre e avistou, sem muito se surpreender, o filho mais moço da dona mais velha. Estava ele ali, sentado numa mureta de cimento mal passado, o filho mais moço sentado com as mãos dentro do short desbotado.

Recuou-se, não era necessário. A manhã invadindo-o em sol e já no primeiro andar os corpos enlouquecidos pelo calor. Pensou, isso não pode ser normal. Tomou seu café, o som da sala ligou. Aumentou a música - não seria uma manhã de protesto. Seria manhã amena na qual a vida transcorre plena sem tropeços ou sustos. O som ligado, a música invadindo banheiro cozinha e quartos.

Ouviu então, certo de que não era música, um grito, uma coisa grave, alguma coisa muito bruta. Seguidos os gritos, eram gritos, pensou. Seguidos, impossíveis de se decifrar, se era alguém que morria ou alguém que se aprontava para matar, não saberia dizer. Mas um grito consome a pele o grito consome o corpo e nada fica ausente nada pode permanecer o mesmo quando grita um outro. O som ligado emudeceu. Por um segundo, o colapso que vinha de fora de sua casa, de dentro, ameaçou sua permanência.

Voltou à cozinha, devagar foi até a janela e diferentemente do que sempre via, as mãos agora do filho mais novo moviam-se com real transtorno dentro do short desbotado. O corpo do menino mais moço do filho da mulher velha agora se debatia e não via horizonte a sua espera era corpo constante em sua tentação. O que faria ele ali olhando, que sol era esse que queimava o pudor que o lançava para fora de casa, no meio da perdição dos corpos - alheios?

Passou a mãe cambaleante. O filho persistindo no afundar do corpo no externar do desejo. A mãe cambaleante saiu de baixo da janela e avançou firme trazendo as mãos do filho para fora. Puxou as mãos do filho disse meia dúzia de palavras tortas que não diziam nada e o filho respondeu batendo a própria cabeça contra a coluna do mesmo cimento mal passado.

Uma panela voou por baixo da janela do morador de cima. Uma panela depois pratos depois uma mulher em cima. Cambaleante ela se ergueu novamente e era agora fielmente levada à mãe velha e cambaleada, entre o tirar das mãos do filho de dentro da calça e o segurar do grito inevitável que na outra já se anunciava.

Um grito. Foi o que ele fez. A xícara vazia rachando na própria mão. A mãe partindo o braço do filho teimoso. A filha fazendo em fatias o rosto da mãe medonho e velho e jocoso. Morreu pelo grito a fulana enlouquecida. Morreu pelo grito que a consumiu inteira. O filho com o braço torto voltou ao entre-calça. A filha com sangue no rosto voltou para dentro de casa. No chão, caída, o rosto desfigurado sangrando veemente um sangue vermelho-desesperado, a mãe velha olhou para cima e compartilhou com o morador do café o desespero concretizado.

Era a normalidade reinventando-se para ser em si o próprio colapso. Era a música vindo da sala e homogeneizando os traços. Tudo fazia parte de mais um dia de outono, tudo parte de mais um dia de calor extremado.
.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Multiplicação Dramática

Faz aqui diante de mim esse gesto pensado esse gesto excessivamente maculado pela mente e pelo refazer do ato. Faz diante de mim o ar respirar mais denso faz na minha frente o que te faz prensar os dentes assim um contra o outro assim sem espaço possível para respirar sendo respiração espaço de pausa para o próprio corpo. Multiplica a sua perdição multiplica o horror se deitando sobre a sua pele e seja tudo assim seu destino tudo ampliado tudo torna-se sentido inclusive o não entendido. Multiplica o drama soma e corta a sua tensão e lança ao céu partes do corpo que no término um só ser serão um só corpo habitarão corpo agora espaço. Faz seu drama na minha sala. Jogue nela os seus colapsos e me faça crer que em você pode haver solução. Sinalize o olhar sinalize pelo olhar que eu posso investir em ti a minha mão e nisso faremos de nós dois seres cantantes apaixonados pelas desgraças criadas pelo amor consumido porque não permitimos que exista a falta.
velazquez-las-meninas
Talvez devessemos deixá-la existir. Pensar no respirar, ele deve ser equilíbrio ele pode nos ajudar. Talvez nem tudo sugar eu já não sei eu não sei o que te dizer vendo assim você embuído tentando no meu descontínuo se promover. Faça em mim seus desastres todos não me mutile que não seja possível no seguir um nosso beijo.
Multiplique. Presentifique. Vamos ser em nós motivo concreto da agonia. Nada mais existente pode ser fantasia. Vamos ser a sede vamos ser a sede. E nela, por ela, nos matar. Nos viver.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

so played piano

video

um trecho apenas é o que resta foi o que sobrou eu não pude ser mais e acho mesmo que basta que está de bom tamanho não seria bom continuar dessa maneira a música existe para ser pontual ninguém aguentaria ouvir-te sem fim ouvir-te eternamente isso não seria bom seria ruim por isso um trecho um pedaço um enleio inventado coisa minha descobri que amo piano sou menos eu enquanto não tiver um aqui ao meu lado diferente de você eu quero um piano aqui na minha sala quero dormir sobre ele e acordar saciado anestesiado eu quero um piano quero compor para ti quero tocar nestas teclas e num só passo te fazer dormir e acordar e tudo no mesmo piano o piano agora é o nosso lugar é a nossa casa piano agora sinônimo de lar de ar/
.

sábado, 4 de abril de 2009

piora poesia o pior

não fala nada
deixa tudo,
assim,
por mim eu não me importo
se não não somos, bem
assim

é tudo real
nem só metonímias
e assim não me faz mal não
e assim não,
me faz,
mal não

noite e dias se completam
o nosso amor em ódio,
é terno

eu te imagino
eu te processo
eu faço a cena que eu quiser

eu visto a roupa pra você
minha maior ficção,
o amor

e eu te recriei
só, pro meu sofrer
só pro meu prazer

eu quero você, como eu quero

só, pro meu prazer
eu quero, você como eu
quero

...

.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Farpa

Estava sentada. O olhar vidrado. Nunca percebera como era imenso um simples ponto a sua frente. Fechou os olhos. O vazio que lhe preenchia tornou-se maior, sentiu pena de si mesma. Impossível. Pensou. Não se pode sentir pena de si mesmo. Não se deve nutrir tão pouca esperança para um ser, seja ele quem for. Tornou a abrir os olhos, então. Dessa vez, espiou ao seu redor, assegurando-se que ninguém havia presenciado aquele momento tão seu. A grama era fofa demais e, além do mais, seu pai havia regado toda ela logo de manhãzinha. Ainda podia sentir o cheiro do mato molhado. Pôde até sentir-se criança outra vez. E olha que a janela ainda estava fechada. Ademais, não se daria ao trabalho de levantar da cama, abrir a janela, para em seguida, jogar-se dela. A grama era fofa demais, refletiu. E o tempo para cumprir uma tarefa como a dela deveria ser o mesmo de quando um copo se quebra, se espatifa por inteiro. Tempo sem hesitação. Tempo que antes de ser presente já é passado. E ela tinha tempo demais. Antes que a mãe gritasse para que ela fosse tomar o café da manhã, pôde até se lembrar que o seu quarto era no segundo andar. Pouco provável. Levantou-se e saiu do quarto, em direção às escadas.


Usava duas meias nos pés. Duas em cada pé. O piso de madeira corrida, mesmo não sendo frio, lhe dava nervoso. Uma vez, quando ainda era criança, corria descalça pela casa, até que uma farpa tornou-se parte anexa do seu pé direito. Tinha a marca até os dias de hoje, só que agora, era ainda maior, pois crescera estranhamente junto com seus anos de vida consumidos. Desde esse dia, aquele em que se machucou, levantava da cama com o pé da farpa. Mas na manhã desse domingo, acordara certa que o seu pé direito, na verdade, correspondia ao esquerdo. Caminhando em direção ao andar de baixo, contemplou os tapetes do corredor como se fossem algo novo. Alisou suas paredes como se procurasse sujar-se de uma tinta recém pintada. Estava perdida. Poucas vezes esteve tão preenchida de vazio como estava agora. Parou, de súbito, no topo da longa escada. Seria cinematográfico, pensou. Mas eles não entenderiam. Achariam que foi um tropeço, poderiam nem notar, até o momento em que se incomodariam ao perceber a cachoeira cor de acerola que meu sangue criaria ao jogar-se pela escada sujando as paredes e todo o caminho à frente. Seria doloroso? Mas, o que é a dor agora? A vida se resume em dor. Dor sem faca. Dor sem rasgo nem bala. Em dor tudo termina. Não temo mais nada senão as farpas do assoalho. Segurou com uma das mãos o corrimão. Quando viu, estava no andar inferior e o cheiro do café acentuou a sua confusão.


Sentou-se à mesa. Não era um café da manhã em família. O irmão passou rápido, encheu a caneca de café e partiu sem adoçar. Nunca havia notado que ele gostava de café amargo. Percebeu, além do gosto do irmão, que sua atenção estava voltada para as pequenas coisas, aquelas que estão ali o tempo todo e que não são vistas, mas que, nem por isso, se cansam de ser iguais todos os dias. Como uma teia de aranha que, pelo tamanho, há muito deveria existir. Na porta da cozinha para o quintal. Ou então, pequenas coisas como ela mesma. Pegou uma xícara já desistindo de tomar café. Bateu a ficha do turno matinal com uma torrada murcha e fria. Torrada abandonada no prato de alguém que já havia saído. E o seu sabor era melhor do que a aparência poderia sugerir. E olhando para o vidro com a geléia de morangos, supôs que seria muita falta de estética largar-se ali, sobre a mesa do café, perfurada pela faca suja de geléia, em meio às migalhas de uma baguete qualquer. Seria apenas mais um ingrediente para a mistura do cachorro, que no domingo, acordava sempre mais cedo na ânsia de receber algo em troca pela entrega do jornal que só acontece nos filmes. E nem gostava de morangos. O problema era a cor, mas ter a mesma cor não significa nada. Sangue tinha gosto de ferro. E o que ferro tem a ver com morangos? Não sabia responder. Nem sequer lembrava-se do gosto daquela frutinha tão delicada. Tinha nojo. E, novamente, sentiu pena de si mesma. Como podia ser tão inconstante?! Pensar em sangue para, em seguida, lembrar-se de morangos. Ouviu um estalo vindo da sala. Continuava perdida. Saiu da cozinha, mas não havia ninguém por perto.


O café lhe acordara. Tingindo cada linha de suas quatro meias, o líquido quente e negro atingia também a sua fina pele, que se retorcia, incapaz de socializar-se com algo tão profano, tão clichê. O irmão surgiu com um pano branco, recolhendo os cacos sobre os quais ela apenas fazia-se leve. Evitando cortar-se, retirou-se de cima deles. Em seguida, uma a uma, as meias foram deixando os pés que agora estavam despertos, respirando como seres anexos. Três meias em uma mão, as mais encharcadas. A outra restante, presa no segmento esquerdo, mais tarde, passou despercebida diante do sangue que escorria do pescoço estreito. Não era para ser sobre a grama. Não era para ser do seu próprio quarto! A corrida sim começaria nele, mas o salto, o salto somente através da janela de outro quarto, do outro lado, depois de cruzar o corredor das fictícias paredes recém-pintadas. O quarto do irmão do café amargo. Aquele que quebrando a xícara em mil pedaços deu sentido à irmã em desamparo. Mas era insuficiente. O coração bombeava o sangue desenfreado, que quando tem platéia, recipiente, sai como se fosse o líquido de um chafariz restaurado. O sangue sai. Seja pela porta da farpa recém tirada. Ou pela memória de uma criança abandonada. Sai também das classes burguesas, ou não. Das casas mobiliadas, ou não. Enfim, ele sai. Mas, preferencialmente, através da estrada esburacada de um corpo oriundo do salto sacada-chão. De concreto. Sujo de óleo do automóvel que saiu discreto. Na manhã de um domingo qualquer, o sangue sai como um café expresso. E o que resta é um corpo sujo e frio. E nada há mais.


2006.

.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Sinceras Mentiras

No ponto de ônibus.

- Aqui...
- Diga.
- Precisamos conversar.
- A gente quase não faz isso...
- Não, é sério. Eu preciso te falar.
- Fale.
- É sobre você.
- Sim...
- Na verdade não são coisas boas, mas eu sinto que eu preciso te dizer.
- Por favor, me diz. É melhor que venha de você.
- Eu sempre te disse que é esse o papel de quem é realmente amigo. Isso de dizer a verdade para o outro. Alguém tem que fazer isso...
- Então que seja você.
- Podemos marcar um café amanhã?
- Pode ser depois que você sair do trabalho?
- Pode.
- Eu te encontro no Centro, então.
- Eu te ligo quando sair.
- Meu ônibus.
- Mas aqui, relaxa.
- Tô super tranquilo, imagina.
- Beijo, irmão.
- Beijo.

Abraçam-se. No ônibus.

- O que será que ele quer dizer? No fundo eu tenho certeza do que é, mas porque isso haveria de ser uma coisa ruim? Será que tem algo muito errado acontecendo comigo e eu não percebo? Será que eu fiz algo de errado, mesmo sem perceber? Ele já disse que me ama. Não com essas palavras. Na verdade, eu nunca guardo as palavras usadas. Elas são sempre virgens. Eu nunca guardo nada. Talvez isso não seja tão bom. Se eu tivesse acumulando tudo o que já ouvi, talvez hoje nós sequer nos falaríamos, porque é difícil dizer eu te amo e a vida continuar do mesmo jeito. Eu deixei as coisas ficarem do mesmo jeito. Eu deixei? Eu não respondi por amor nenhum, porque aqui comigo nunca foi. Ou foi? Aqui dentro, às vezes, eu acho que pode até ter sido. Mas lá no princípio, tudo começou como um encontro. Algo sincerto, divertido. E a amizade, a necessidade de estar perto, tudo isso foi vivência, não planejamento. Eu não consigo olhar para o presente agora da mesma maneira que amanhã olharei para o hoje, que então será passado. Exige tempo para ver com propriedade. Exige tempo. Eu acho que eu sou ingênuo. Mas ninguém pode ser tão ingênuo assim. Você acaba parecendo injusto, inconsequente. Eu não correspondi a nenhum amor, porque achei que as bases tinham sido amizade. Amizade não pode ser amor? Amor é tão distante assim do ser amigo? Eu tô confuso. No final das contas isso é sempre em meu silêncio, nada assim se expõe, fica tudo aqui, reverberando, tornando meu olhar e talvez até mesmo meus gestos, todos imprecisos. Meu ponto.

Solicita a paragem do ônibus. Desce. Centro. Anda. Museu. Encontram-se, os dois, lá dentro. Numa mesa, dois cafés. Ao redor, outras mesas, outros relacionamentos.

- Então, diga. Porque eu já não aguento mais pensar no que pode ser.
- Na verdade, eu queria te dizer antes, com toda a sinceridade, que eu só vou te dizer essas coisas porque sei que somos amigos e não acho que existe outro alguém que poderia te dizer o mesmo.
- Certo.
- É que, de uns tempos para cá, eu tenho percebido como você têm acumulado inimizades. E, desde sempre, eu te defendo, eu crio outras inimizades, só porque eu sei quem você é e, sem dúvida, para mim, os outros já estão errados. Você não é injusto, não pode ser isso que falam.
- E o que falam?
- Não importa. É só que como são muitas pessoas falando...
- Que pessoas?
- Não importa, mesmo. Elas apenas serviram para que eu visse como são tantos casos em que você não é bem isso que eu vejo em você.
- Isso o quê?
- Você sabe... Esse cara sincero, justo, amigo. Sei lá, você é alguém muito carismático, as pessoas todas gostam de você. Você é alguém com quem queremos dividir as coisas, seja os segredos, as dores, o trabalho.
- E isso é ruim pra você?
- De uns tempos pra cá... Quando eu percebi quanta gente tem pé atrás com você...
- Que gente é essa que não tem nome?
- Você sabe. Só na sua turma já são vários. Você teve o problema da mudança, teve o problema no último período por causa daquele trabalho que fez em trio... Na verdade, ninguém te diz nada, mas pelos corredores da faculdade, você está sendo difamado.
- E o que isso significa pra você? Eu fiz algo de errado com você?
- Não.
- Mas o fato de ter todos esses problemas com uma série de pessoas, que eu nem sei quem são e pelo visto nem você sabe, quer dizer que agora vamos ter um problema?
- O fato é... Que eu não sei se você é realmente meu amigo.
- ...
- E eu, inclusive, às vezes, desconfio que você age inconsequentemente. Que não mede os seus atos. E que não se preocupa no que vai dar. Chego a achar, em alguns momentos, que você se aproveita das pessoas, mas nada é assim tão claro...
- Estou te ouvindo.
- Eu só tô te falando isso porque sou seu amigo, apesar de tudo. Alguém tem que te dizer. Alguém precisa ser sincero e te mostrar o quanto a sua imagem não está boa.

Não dizem mais nada. Ficam um tempo assim, abandonados.

- Eu não sei o que dizer. Eu preciso ir pra casa. Eu não sei o que pensar.
- Não é para você ficar mal...
- Não, eu estou ótimo. Eu só preciso pensar. Tentar entender.
- Não fica bravo comigo.
- Não.
- É difícil ser sincero. Mas acho que se formos, um com o outro, não teremos problema algum.
- Eu sei. Obrigado, de verdade. Eu só preciso pensar. Conversar com todas essas pessoas que você disse... Não se preocupe, eu não vou dizer seu nome. Eu só preciso saber se existe alguma coisa e se houver, resolver, porque realmente não é do meu interesse que existam tantas desavenças assim. Não é. Não tinha que ser assim...
- Você vai ficar bem?
- Não se preocupa. Eu vou embora agora. A gente se fala...
- Qualquer coisa me liga, eu tenho crédito de sobra pra falar com você.
- Pode deixar.
...

O que vem a seguir, na verdade, ainda é passado.
.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

um não cessar de obras paridas pela incapacidade da vida

o que meu fica em você
quando nos separamos assim
sem ter nada planejado
quando nos separamos no susto
tudo feito ato autoritário

o que é meu mas permanece aí
viajando em seu corpo
entortando o espírito
deixando tudo
assumidamente
louco

o que fica
que eu não posso mais deter
o que meu em você hoje é sina
eterno não compreender

o que eu faço
então
vendo esse presente desfigurado
vendo em mim esforço que em você
é contrário

como eu posso lidar
sabendo que eu sou eu em você
que eu me extrapolo e não bastando a mim
ainda sou mais em ti
eu carregado em você
eu em você ganhando dimensão
ganhando outras cores
fazendo em ti surgir nova canção

...

estamos nos vigiando,
é verdade

tudo aqui você sabe
tudo lá eu também sei

no entanto,
o que vem a seguir?

...

não gostaria que fosse apenas um não cessar de obras paridas pela incapacidade da vida as devorar deglutir impossibilidade da vida em si ser a obra em si ser o amor que não cansamos de aqui e lá performar - deformar - desamar,
.