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domingo, 19 de abril de 2009

das migalhas do pão sobre a mesa.

O escritor acorda, primeiro no tempo exato, mas vão os olhos percorrendo o espaço e percebem na profusão das horas que há outros seres respirando ao seu lado. Ele senta-se sobre a cama, os pés esbarram no chão, está descalço. O escritor acorda e independente da hora é sempre manhã nesse primeiro contato. Ergue-se, então. E o seu olhar é guia através do tormento. Consegue ver onde não haveria nada daquilo que se esconde por dentro. Seu olhar desvela e já amanhece olhar perseverante. Olhar de escritor vê o que pode haver entre um amado e um amante. E descobre mal se faz o amanhecer, que sim, há muito o que escrever. Há sim, muito o que num primeiro toque possa vir fazer crescer.

Na contagem do pó de café, no colocar da água filtrada, passam-se dunas inoperantes passam-se rios que no escoar das águas transformam a pele do escritor em leito para o peso dos segundos - sempre avassalador – peso este tornando a sensação num despetalar num constante rugido num estupro num eterno desespero elementar. A calma das coisas acontece precisa em seu peito, por isso nada é tão sutil porque sendo só a calma agindo não se tem jeito. O peito recebe tudo e é por inteiro. E o cheiro do café sendo feito traz à mente ao corpo ao olfato mesmo todos os cafés que na sua vida e na ficção certa vez já foram feitos. A última gota bebida prediz sempre o futuro, ou quantos mais cafés eu passarei nesse mundo…

No espelho do banheiro, agora inclinado com intuito de mirar um pouco o chão, o escritor se olha para não perder a comunhão entre a vida e seu desenho, para a vida ali agindo junto ao seu reflexo borrado, quase sempre por ele à desejo. Olha-se profundo, percebe o quanto vê e existe já no olhar uma impossibilidade que é justamente a do se abster. Pode o escritor ver o mundo inteiro e ainda algo mais. Sempre alguma coisa no seu olhar perdura e a paisagem diante nunca é demais. No andar do escritor um olhar convertido em visão eterna. Por isso talvez sua infelicidade tão terrena.

Está morto. É ferramenta, sente-se único, coitado. A sua arte que tanto diz é a sua impossibilidade de não mais ser livre. Foi capturado, as coisas caindo e crescendo ao seu redor lhe chamam a faculdade, o título seu é requisitado e nenhuma cor se mostra para ele tão a vontade como agora, quando senta-se diante do infinito em branco e resolve dispor aquilo que abala o corpo, aquilo que o faz tremente, ser amante do transtorno.

O escritor não escreveu ser isto. Foi a tal musa inspiradora que sequer a ele se apresentou. No íntimo, porém, um desejo é desbravador e vai além das pernas dos braços e das penas. Tudo é pouco quando o pouco pode ser muito mais. O escritor que hoje acordou quer sempre mais. Por isso a cada dia, nasce outro. E nascendo assim tantas vezes todos os dias, cria-se nele uma virgindade perante as coisas que não se cansa de ser nova, a cada dia. Sendo assim, sempre frescor, no escritor não há certezas. Há sempre, posto seja ele sempre criança, uma ciranda de sementes qual jogo feito a dança.

Ser escritor é tentar dar conta da organização das migalhas do pão sobre a mesa. É tarefa refeita a cada mordida. É tarefa impossível, diriam alguns. Mas é tarefa e o resultado não cabe dizer. Morde-se o pão primeiro pelo querer. As migalhas no ar até a mesa-chão são destino preciso para quem desvela o pão em condição, em não se conter. Em ser faminto. Ser escritor. Ser de um entre qualquer.

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