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terça-feira, 21 de abril de 2009

Things I’ll Never Say

Ainda ali deitados, o corpo de um no do outro tremendo provou que apenas olhar o céu não era o único e melhor intento. Ele, então, respirou fundo e tentou,

FALA ALGUMA COISA. Você tem medo do silêncio? NÃO É MEDO, É NÃO SABER. Não saber o quê? O QUE O SEU SILÊNCIO QUER DIZER. Pela primeira vez na minha vida as coisas estão mais claras. Pela primeira vez eu não mudaria nada. NESTE MOMENTO? É. Tudo agora está perfeito. TUDO O QUE? Esse pouquinho de alguma coisa que existe entre eu e você. É POUCO PRA VOCÊ? Ser pouco não é ruim. É que ainda é pequeno. SILÊNCIO. E o que o seu silêncio agora quis dizer? ELE ME DISSE QUE É BOM ESTAR COM VOCÊ. E isso é pouco? NÃO. MAIS PODE SER MAIS. Silêncio. VOCÊ ACREDITA QUE O QUE É BOM DURA POUCO? Eu acredito no que é bom. Se dura pouco é porque talvez a gente perca tempo demais pensando no quanto as coisas deveriam durar. E SE EU TE DISSER QUE EU QUERIA FICAR PRA SEMPRE? Eu diria que o nosso sempre acaba de acontecer. AGORA? É. Neste momento tudo está quase perfeito. E O QUE FALTA? Só mesmo o meu silêncio poderá dizer. E O QUE ELE DIZ? Silêncio. NÃO VAI FALAR? Ele se conta a todo o momento. Resta você conseguir enxergar o que ele tenta esconder. NÃO ESCONDA. É preciso. NÃO SE DIZER? Pelo menos não por inteiro. Se eu disser tudo o que gostaria, talvez você não fosse compreender. TENTE. Tente você! SILÊNCIO. Silêncio. EU ESTOU PROCURANDO AS PALAVRAS CERTAS... E eu estou me sentindo nervosa. POR QUÊ? Porque você vale a pena. SILÊNCIO. Silêncio. POR QUE A GENTE NÃO CONSEGUE DIZER QUE SE IMPORTA? Você acabou de dizer. EU DISSE O QUE? Que se importa. MAS NÃO DESSE JEITO... Por quê? PORQUE EU TAMBÉM ESTOU NERVOSO. Silêncio. SILÊNCIO. Nós dois culpando o nervosismo, escondendo nele algum outro sentido. E VOCÊ, ALÉM DISSO, AINDA ESCONDE AS MÃOS. É que elas sempre entregam o que eu não quero dizer. E POR QUE NÃO ME DIZ? E por que não diz você? SILÊNCIO. Silêncio. EU IA DIZER. O meu ou o seu silêncio? ELES DIZEM A MESMA COISA, NÃO? Pode até ser... MAS QUEM VAI DIZER PRIMEIRO? Eu digo, então. Acho que o seu silêncio quer se perder. E O SEU ME FAZ PENSAR QUE SE EU ME APROXIMAR, TALVEZ VOCÊ NÃO VÁ ME DETER. Acertei? SIM. E EU? Também. SILÊNCIO. Mas agora o que falta? ACONTECER. Mas porque não acontece? PORQUE QUEREMOS FAZER DURAR ESTE MOMENTO. Como se ele tivesse que ser eterno? COMO SE ENROLANDO A VONTADE ELA FICASSE AINDA MAIOR. E não é que isso acontece? COM TUDO, NÃO É? Com os frutos ao amadurecer. Agüentar o desejo, esperar... PELO O QUE? Pelo pêssego. RISOS. Risos. OU ESPERAR POR VOCÊ? Silêncio. COMO VOCÊ CONSEGUE AGÜENTAR? Minhas mãos estão guardadas sob a mochila. E SE EU TE PEDIR O QUE NÃO CONSEGUIMOS DIZER? Eu vou rejeitar o seu pedido até não poder mais. E QUANDO ISSO VAI TERMINAR? Quando você ganhar algo de mim e eu algo de você. ALGO COMO O QUE? Algo que fosse me surpreender. PELO MEU JEITO DE TE DAR? Pelo seu gosto. E EU TENHO QUAL GOSTO PRA VOCÊ? Gosto de pêssego que acabou de se desprender. E ISSO É BOM? Pode ser. SILÊNCIO. Silêncio. VAI DEMORAR MUITO? Acho mais fácil a gente se distrair. NÃO PODEMOS CONTAR AS ESTRELAS. Mas podemos olhar as nuvens. ISSO DISTRÁI? Só quando as nuvens mudam de posição. Têm dias que elas desenham cada coisa que é difícil acreditar. HOJE ELAS PARECEM QUERER CHOVER. Você já tomou banho de chuva? SILÊNCIO. O que foi agora? É QUE EU ACHO VOCÊ LINDA. Vergonha. EU TE DEIXEI SEM GRAÇA? Não faz isso! MAS VOCÊ FICA AINDA MAIS LINDA ASSIM. Mas não precisa fazer isso toda a hora! SÓ DE VEZ EM QUANDO. Isso não é justo! Deixa eu descobrir o que te envergonha e você vai ver! EU TENHO VERGONHA DE TANTA COISA. Não tem nada. TENHO SIM. VERGONHA DE TER DITO TUDO O QUE FALEI E DE NÃO TER GANHADO NADA EM TROCA. Tudo está guardado. ONDE? Comigo! E QUANDO VAI ACONTECER? Quando eu achar que é preciso. EU ACHO QUE JÁ TÁ NA HORA. Portanto, temos uma hora inteira para esse algo nascer, crescer e morrer. MORRER? Não. Acho que se reinventar. É algo que se acaba só para depois ter que renascer. VOCÊ ME DIZ ESSAS COISAS TODAS, ACHO QUE É PRA ME ENLOUQUECER, NÃO É? Talvez seja mesmo. E O QUE REALMENTE VOCÊ QUER ME DIZER? Eu já disse. DIZ MAIS UMA VEZ. Não é preciso. Nós dois sabemos o que falta dizer. OU O QUE FALTA FAZER? Eu já te disse que você me deixa confusa? NÃO CUSTA NADA REPETIR... Silêncio. SILÊNCIO. Eu estou pronta. PARA? Ganhar o seu algo. QUE PENA... EU PERDI O MEU DESEJO. Ele foi pra não voltar? DISSE QUE VOLTARIA LOGO. VOCÊ SE INCOMODA EM ESPERAR? Eu tenho o dia inteiro. ÓTIMO. Mas e se chover? EU TEREI QUE TOMAR BANHO DE CHUVA COM VOCÊ. Essa eu adoraria ver. SILÊNCIO. Chegou? PELA METADE. Pelo menos deu sinal de vinda. E EM VOCÊ? Tudo ainda está aqui. E POR QUE AINDA ESCONDE AS MÃOS? Acho que eu já posso deixá-las respirar. ELAS ESTÃO SUADAS. Estão nervosas... DEIXA EU TOCAR. O que você quer com elas? OUVIR O SEU TREMER. Ouve agora? SIM. E o que dizem? QUE NÓS DOIS ESTAMOS COM MUITO CALOR. E não é que é verdade? É, NÉ? Sim... SILÊNCIO. Chegou o resto? SIM. ACHO QUE ESTAVA TUDO COM VOCÊ. Posso te dar? O QUÊ? O que faltava do seu desejo? AH, PODE! Pensou que fosse o que? O NOSSO TÃO ESPERADO ALGO. Silêncio. RISOS. Silêncio. VERGONHA. Risos. RISOS.

Para enfim, depois de tanto transbordar, o algo em beijo se transformar.

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* Trecho da peça AO VENTO,

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