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terça-feira, 21 de abril de 2009

DIÁLOGO ATRAVÉS DA CARNE

Baseado no poema Retrato de Família
de Carlos Drummond de Andrade

(Dois irmãos voltam até a antiga casa de família. Estão na sala de jantar, onde há apenas duas cadeiras e uma arca. A poeira toma conta do espaço. Na parede onde a arca está encostada, há um retrato da família emoldurado. Do lado oposto, uma janela com os vidros sujos pela qual a luz do dia entra e preenche o cômodo. Pedro, o irmão mais velho, é o primeiro a entrar. João, o irmão mais novo, parado na soleira da porta, apenas olha o retrato.)

Pedro – Este retrato da família está um tanto empoeirado, não acha?

João – Acho que ele sempre foi assim.

Pedro – Mamãe não gostaria de vê-lo desse jeito.

João – Não me importo com a poeira... Engraçado como nada mudou.

Pedro – Mas é claro que as coisas mudaram!

João – Não acho.

Pedro – Por quê?

João – Pois sempre que olho para esse quadro, eu vejo mais do que um simples retrato.

Pedro – O que há nele é a nossa família, João. Eu, você, mamãe e papai. Só isso.

João – E os tios não importam mais? Nunca importaram, não é?

Pedro – Sempre estivemos distantes.

João – E a vovó? Coitada! Sempre amarela. Sempre uma doente jogada num canto da casa onde houvesse um pouco de sol para lhe banhar as pernas.

Pedro – Não diga bobagem.

João – Nem mesmo eu mudei.

Pedro – Já lhe disse que as coisas mudaram! Elas sempre mudam...

João – Entretanto, você continua com esse seu rosto tranqüilo.

Pedro – O que é isso, João?

João - Com essa cara de quem sempre sonha aquilo que deseja sonhar. (Silêncio)

Pedro – E você acredita mesmo que também não mudou?

João – Minhas unhas ainda estão sujas do jardim. Mamãe nunca gostou de limpá-las.

Pedro – Pois eu acho que você está diferente.

João – Sim! Deixei de ser a criança que rói as unhas, para ser o adulto que rói as unhas.

Pedro – Não sabia que você ainda fazia isso...

João – É... Você geralmente só sabe das coisas que mudam. (Silêncio. Pedro escolhe as palavras)

Pedro – Acho mesmo que você mudou. De verdade. Deixou até de ser mentiroso.

João – E como era difícil fazer vocês acreditarem nas minhas verdades...

Pedro – O que você queria? Que eu realmente acreditasse que você morreu em todas aquelas vezes em que brigamos?

João – Morre-se aos poucos, Pedro.

Pedro – Ora, irmão! Vejo que até hoje você não aprendeu a brincar direito.

João – Isso talvez seja um fato. (Pausa). Se eu soubesse brincar de verdade, talvez tivesse mudado a minha posição nesse retrato. Talvez descobrisse como tirar as mãos do papai dos meus ombros, para então ganhar a sala e levar a vovó no colo para ver o sol por inteiro.

Pedro – E deixaria, por isso, de ser mentiroso?

João – Sim. Pois seria a criança que nunca fui.

Pedro – Eu posso imaginar a confusão que ia ser.

João – Eu não ia ter medo de apanhar por subir na mesa. Nem medo de correr livre pela casa ou de bagunçar o quarto que me disseram que era meu...

Pedro – E assim quebraria todos os vasos da mamãe, isso sim!

João – Mas se penso em sonho, já posso sentir o peso do meu castigo.

Pedro – E tudo isso por causa de um retrato, João?

João – E é você também quem está aí dentro, sabia? Preso durante todo esse tempo!

Pedro – Sim, sou eu. Mas também estou aqui fora. Livre, como você.

João – Vinte anos é um grande tempo, Pedro...

Pedro – Tempo suficiente para modelar qualquer imagem.

João – Não essa! Se olho para esse retrato, quem é que vejo? Meus parentes? Aqueles que um dia me amaram?

Pedro – Exatamente. Não há nada mais além disso.

João – Não acredito. Simplesmente não consigo acreditar...

Pedro – Mas no que é você quer acreditar, então?

João – Queria que fossem apenas figuras que quando murcham são sobrepostas por outras. Mais novas, mais quentes. Ou até mesmo as visitas se divertindo pelos cômodos da casa.

Pedro – Por que é então que você faz questão de vir até aqui? Se isso lhe faz tão mal, se você sequer tem força para olhar um retrato preso numa parede, por que é que sempre volta a essa casa? (Pausa). Eu posso cuidar dela sozinho. Eu posso contratar uma empregada, se você quiser. E ela vai regar o jardim da mamãe todos os dias e vai arrumar a caixa de ferramentas do papai sempre que um parafuso desprender-se da parede...

João – Volto até aqui porque me sinto preso. Sufocado.

Pedro – ...E ela tirará a poeira dos móveis... Pois então não volte mais. Eu realmente não me importo em vir até aqui e ter que ficar sozinho durante algumas horas. E no mais, fazemos isso uma vez por mês, no máximo. É o tempo de o sol esquentar o piso e a poeira se confundir com o ar. Eu já lhe disse, não é preciso que venha para cá.

João – E o que é que você sabe sobre o que eu preciso? Por que sempre quer saber por mim? Pedro! (Pausa) Você sempre soube mais, não é mesmo? Subia até a caixa d’água sem cair. A casa na árvore! Você nunca me deixou chegar até lá. Sabia também como voar, não era? Mas também nunca me ensinou, temendo que eu pudesse chegar mais longe que você.

Pedro – Ora, João! O que é isso agora?

João – É essa maldita moldura que não nos suporta mais.

Pedro – Meu Deus, irmão, isso é um quadro. É só um retrato!

João – Que me assusta ao refletir cada cicatriz que criamos juntos.

Pedro – Eu realmente não vejo tanta importância num retrato...

João – Mas ainda assim se incomoda por ele estar sujo!

Pedro – Você, como sempre medroso! Então é isso... Temendo olhar-se num espelho, João?!

João – Por isso quero o retrato empoeirado.

Pedro - Não, irmão! Agora você cresceu. Os vidros e espelhos não podem mais te engolir.

João – Mas era tão engraçado, não era? Eu fugindo de cada reflexo, de cada espelho que você fazia questão de me mostrar. Só para me ver assustado com a minha própria cara de medo.

Pedro – É... Era realmente engraçado. Porque éramos crianças.

João – E retirar a poeira que amortece o meu medo agora, seria o quê? Tornar-me homem?

Pedro – Não. Hoje é apenas vontade de ver a família reunida.

João – Para poder distinguir através do vidro sujo de tempo os que se foram dos que restaram?

Pedro – Para voltar à família, irmão! Sentir-se em casa sempre que precisarmos.

João – E com que freqüência você precisa da sua família? Desde quando precisou dela?

Pedro – Não começa!

João – Necessita de alguém que se curve para que possa se sentir maior?

Pedro – Não!

João – Então o que é?

Pedro – É poder olhar para frente. Sem medo de deixar para trás o que já passou. O que morreu.

João – E isso que fica para trás é a sua família?

Pedro – Não importa mais... (Silêncio)

João – Pois o que permanece para mim, Pedro, é apenas a estranha idéia de família.

Pedro – Mas todos eles ainda continuam com a gente!

João – Mas ela não está mais aqui, não é mesmo?

Pedro – Não. Mamãe não está mais aqui. Nem mesmo papai está.

João (Toca o retrato, limpando-o) Olha! Esse aqui sou eu! O filho mais novo. Quando fecho os olhos, consigo sentir as mãos do papai pressionando os meus ombros... Uma vez ele fez isso ao me empurrar num balanço... (Pausa). E olha você aqui! O filho mais velho. Parece um neném escondido no abraço da mamãe... Sabe que às vezes eu sinto o cheiro dela? Mas é só por um instante...

Pedro – Agora, vamos embora. Não há mais nada que nos prenda aqui... (João recua enquanto Pedro retira, com as duas mãos, o quadro da parede e o coloca virado para baixo sobre a arca).

João – E ainda assim, eu posso sentir o peso de seus olhares viajando através da minha carne.

(Eles saem. O sol apenas ilumina a marca do retrato de família na parede. E nada há mais.)

FIM

2007

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