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domingo, 30 de agosto de 2015

Se for impossível, eu farei

Mais uma vez
Se for impossível fazer diferente
Eu farei
Com todo o meu amor
Farei diferente
Ousarei ouvir quando o gesto for falar
Manterei silêncio quando a medida for gritar
Tudo certo
Eu consigo
Eu quero conseguir
Preciso experimentar
Como mudar
Essa tenaz rima
Que já não me serve
Por não me abrir
Nada mais
Que os mesmos dilemas
As mesmas velhas birras.

Mais uma vez
Volto eu desistido
Para aprender de novo
Como faz para recomeçar.

Ainda bem que o amor
Lá na infância
Anunciou-me o que a vida seria:
Fruta amadurecendo e caindo
Fruta sendo comida e pisoteada
Tudo certo

Eis o que é a vida.

sábado, 29 de agosto de 2015

Tudo igual, mas diferente

O seu abraço me faz lembrar dos outros, que um dia vieram, ficaram e, por fim, partiram. O seu beijo em mim se inscreve, trazendo junto mais que lábios, mais que dentes, mais que a língua, traz também teu beijo o rastro não todo claro de outros beijos que em mim se fizeram. Inevitável. Seu afago me traz outros mais. Seu olhar, abre-me uma voçoroca repleta de olhares já hoje tão impossíveis. Seu sorriso, que é só seu, abre em mim como que um filme (imprevisão de cenas e cores, de idas e vindas), você me abre tudo o que eu já tive e muito daquilo que nem sei conceber.

É só, eu penso, que meu corpo é ainda o mesmo. Carregado e maculado pelo já vivido. Ansioso sim por algo mais, algo além, algo não todo sabido. Mas é meu corpo ainda o mesmo, corpo lastro, lastrado, corpo marcado por tudo o que em mim aqui se deu. E se lhe digo que seu beijo abre mais do que seu beijo apenas, isso não é desconfiança, não é descrença quiçá pouco caso: isso é só compreensão minha de mim mesmo: eu estou cheio e, agora, em seus abraços, fico todo exposto, deixando de mim saltar uma profusão de soluços outra vez soluçados.

Um corpo quando ama é meio parecido. Faz uso de gestos muito semelhantes. Amar é um tipo de gesto, é um modo de fazer alguma coisa (o amor). Amar é tudo igual, mas sempre diferente, porque nunca se ama sozinho. E o outro, a outra parte, você (que foi você antes de ser você), você muda tudo. E o que eu já sabia se atualiza. E é num detalhe que a gente percebe como a vida é imensa e como o corpo, apesar de repetitivo, é ciranda contínua. Casa para as metáforas do peito e da vista e dos inúmeros sem jeito.

Por exemplo: uma nuca é sempre uma nuca e, mais ainda, uma nuca é sempre mais nuca quando houver junto a ela um beijo. Isso é gesto, isso é clássico. Isso todo mundo (ou quase todo mundo) pode fazer, viver e ter. Mas (e isso ninguém sabe): o que é a minha nuca no seu beijo ou o seu beijo na minha nuca? Isso nunca! Nunca saberíamos, nunca saberemos dizer. Existe um igual diferente que só o amor faz acontecer. Só o amor, apesar de tudo, ainda tão disposto aos possíveis não vindos.

Meu pai hoje cedo me perguntou o que era isso marcado no meu pescoço. Eu imaginei, num segundo, do que poderia se tratar, afinal, faz menos de um dia era você enganchado, feito sanguessuga, no meu pescoço. Ele perguntou e eu disse: o quê? Ele disse está marcado, alguma coisa marcada. Eu não soube responder, mas sugeri que talvez fosse a barba recém-feita. Ele disse, não, não é onde tem barba. E então eu tive certeza ser você. Tudo culpa sua. E então banquei o adolescente e disse: eita, pai, deve ser alguma espinha, eu ainda estou na puberdade, eu ainda tenho muitas espinhas. A pele seca, cara de pau, fingindo juventude para proteger a beleza do pescoço todo mordido pelo desejo.

Era só isso. É só isso. Tudo isso. E respiro lento posto saiba que a minha condição seja mesmo essa, para sempre (quem saberia dizer?), amar. Amar um você. Amar igual, mas diferente.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

durmo acompanhado

o banho foi por último
antes disso velas se acenderam
os panos limparam o caminho
pelo qual tu pousarás
teus pés ansiosos
pelo abraço.

o banho foi só no final
antes dele vieram os mimos
tantos e tão infinitos
antes do banho foi a casa
ganhando vento
e se abrindo.

é noite e o frio é delicado.

a música que toca versa
para o meu lado.

todas querem me convencer
de algo bom a me acontecer.

não posso as negar
elas querem me fazer ver:

que o mundo que se inventa
é também o único que existe.

sob a chuva
um lamento
dizendo
talvez seja tarde

mas dentro
dentro
feito revoada
poderia ser mais
poderia e é
e é

muito
tanto
que o silêncio
vira afago
e me faz dormir
sobre braços
que não os do meu
desassossego.

aquilo que me resta

foi esse segundo
ainda agora e aqui
aprisionado doce
entre os dedos vagos

a poesia se anuncia
sempre que a vida
engasga em beleza
tão breve e
por isso mesmo
tão distinta

não tenho medo
vive o segundo
e nele exista
inteiro, pois

haveria vida mais fulgás
que no beijo a te afagar
que na nuca despida
e carente de abraço?

haveria outra vida
que não só essa
só esse persistente
alarme dizendo

estamos aqui
estamos juntos
aqui estamos
juntos estamos

haveria?

outro motivo
para poetar
outro buraco
que não este

o do peito?

não tenho
não tenha
medo não
vai-te inteiro
como que pelo ralo
se afunde, amigo

será imensa a sua dor
tanto mais breve
for teu beijo.

domingo, 23 de agosto de 2015

o que pode um oi

oi

assim, do nada

oi, eu digo

o olhar foge
por que temos medo
do que sentimos?

ok

diga oi
eu repito
oi
outra vez

já estou na rua
de casaco azul
passando calor
mas cheio
de vontade

uma cerveja
dois copos
tantos sorrisos
tantos
tantos
que o antes morreu sem graça

existe alguma coisa que de repente se escreve
num beijo roubado

no meio da rua
tem problema?

não,
você sorri
não tem,
então roubo outro
e outro mais

e tem essa coisa do cheiro
meu deus
meu deus
nunca chamei tanto por seu nome
mas é que esse cheiro
essa nuca
esse braço
esse homem dentro da baleia

tatuagem

fico todo assim
como se diz?
você sorri
fico todo eu assim
arrepiado

e é bom?
você me pergunta
eu sorrio
que mais posso fazer?

o chão de casa está lustrado
deita aqui
deita aqui

eu vou jogar meu corpo em cima do teu

e jogamos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Resistência

Não se trata de dizer não.

Não é isso.

Trata-se apenas de restar
sem prever duração.

Tenazmente
feito nisso crente
Saber durar nas horas

zerado de intenções.

Não querer
Cessar quereres
Não desejar
Cessar gravidez

E permanecer como que ausente
do mundo e de sua obstinada
Maquinação.

Duro

Ausente

Resistente

Tu farás parte da chuva
Ouvirá a língua dos pássaros
E descobrirá que as coisas passam
sem que se possa domá-las.

Descanse os olhos.

Sim. Sim. Porque sim.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Sobretudo

Corpo sobre a cama
Teto nos olhos
Ânus agasalhado
Frio nos pés
Íntimo desocupado

Respiro
E centro em mim
Minha existência.

Aquilo que deveria existir
Apenas me espera
Sem cobrança.

Respiro
E ao mundo ofereço
A possibilidade de continuar.

Brando
Leve
Em balança
Destemido.

Nesta noite
Eu sou meu amigo
e meus sonhos
Serão claros

Como a escuridão.

sábado, 15 de agosto de 2015

Fim

Ele foi embora.
E eu fiquei.

Fincada
Abri o peito
E fiz do peito
Morada
Sala de estar
Aqui, agora
Só o que há
É o que ainda não veio
O mais vasto
Um mundo

Recrio tudo e
Danço estática
Pulso elástica
Sorriso nos cabelos
O que eu buscava
Era justo não ter
Que encontrar
Coisa alguma
Exceto isto:

O íntimo
Profundo
Que mora
No mistério escuro
Que aprendi
A admirar em mim.

Anacronizo

Disse o fato
Que logo mais um só fato
Virou.

Nada dura.

Tudo sobra.

O antes que antes foi passado
Hoje rememora e vira presente.

Surpreso, o tempo me olha:
decida-se! Ele me grita:
foi amor ou não foi nada?

Há meio termo?

Penso em diálogo com meu desassossego.

E me acho graça.

Cada hora digo uma coisa
E talvez seja sensato não dizer
Mais nada.

Durmo passavelmente bem.

Sonho pouco pois nada tão grave assim
Desejo.

Vou descer do táxi
E comer um brigadeiro.

Chega de teatro.

Tudo já dito

Por que tanta teimosia?

Pensei ter lhe dito tudo
Mas sempre sobra um resto
Uma sinceridade extrema
Dor profunda que demora
A ganhar forma
E segue firme sem redoma
Dor intensa.

Exageros meus não passarão.

Ponho freio na velocidade do meu coração.

O que há mais a ser dito?
Querer o quê?
Que tanto se exige?

Não sei.

Talvez deva deixar passar
Dar as mãos ao tempo
E ver como se faz para
Ultrapassar.

Estou repleto de mágoas
Coisas sem nome
E listas de ódios e coisas
Profundas (as quais não vou
Abrir espaço).

Quero escrever seu nome
Mas você teme a exposição.
Penso que você não recusaria
Ler seu nome
Caso ele viesse acompanhado
De elogios e admirações.

Este é você.


Te interessa se ver em sua perfeição.

Resta a minha poesia
Sendo sincera sem te servir
Sendo franca mesmo com teu
Repúdio ao que escrevo aqui.

Tudo bem.
Não escrevo para ti.
Escrevo por mim
Para não esquecer de como é possível
Mudar e partir.

Tudo já dito e ainda essa vontade
De mais e mais lhe dizer.
Seria a sua dureza de espírito
Que me impulsiona a querer
Mais e mais
Te dizer?

Talvez o amor.

Mas nem nisso acredito mais.

O que sobrou de você em mim
Foi só mágoa.
Não mais serei parceiro
Não mais minutos juntos
Sem isso de amizade
Só isso de fraqueza
Incapacidade
Isso de fim das coisas
Isso da vaidade.

Foi fim e fim continua sendo
Ainda que não termine.

Rastro

Como um vício
Amanheci sujo e dependente
O café da manhã apesar de farto
Me foi indiferente
O espelho do banheiro
Confirmou meus receios:
estava eu saindo de um tempo
em que o corpo foi suprido
Sem receios.

Como um lastro
Sua ausência se fez presente
Caminhei um dia inteiro
De mim ausente
Porque você seguia no meu passo
Fazendo do meu caminho
Trajeto em embaraço.

Não quis resolver
Não sofri menos
Fiz como deveria
Toquei a face desse monstro
Que me inferniza
Toquei seu rosto
Sorri em silêncio
Não há o que fazer
Exceto o tempo

O tempo.

As ruas circulam pessoas
E todo o tipo de gente
Lá fora a manhã vira tarde
E eu nem escovei os dentes.

Haveria outra coisa que não esta certeza?

Sobrevive um rastro seu
Que já não anula meu coração
Seu sorriso perdeu forma
Sua forma perdeu cor
Sua ausência virou fantasma
E minhas palavras

Voltaram a ser palavras apenas.

Hoje eu não quero nada exceto o que já tenho: este tempo, este silêncio, está vaga (a me lembrar que o corpo demanda esforço para se curar das faltas).

Hoje eu não quero nada
Exceto isto
Sobre
Viver.

Sutilmente

Aquilo que hoje você vê
Também tem olhos
E te mira com
atenção.

Sua angústia
Não é sua apenas
Também ela é da
Multidão.

O que você procura
É para te fazer mais lindo
Nessa escuridão
Ou não importa?

Responda.
Responda agora.

Você procura o quê?
Aqui, o que procuras
Para além de espelho
Capaz de te elogiar?

Sutilmente
Percebes que a vida
Não resta apenas no
Seu entorno.

Você percebe hoje
Que as árvores são mais vastas
Do que o pequeno contorno
Daquelas imagens.

Tudo este já dito
Num instante
Em que fostes incapaz
De perceber.

A noite, essa selva
Talvez te faça perceber:

Olhando para o fim
Tu eras feito de desassossego
Mas decidiu persistir
Sem sequer compreender.

A noite, de novo
Te chama ao embate
E fica tudo mais claro
Sobretudo isto:

A dor é mais nome
Do que certeza.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Seca

Talvez sua descrença nas coisas todas
tenha te impedido de escrever
as próximas rimas.

Sinto que é isso:
dureza não no corpo
dureza não na agilidade
dos dedos caçando letras
mas dureza última
no espírito.

Perdeste alguma doçura
perdeste tu o mínimo
que é saber enrubescer
com o mínimo
com o mais delicado
com o ínfimo.

Faz já um tempo se acostumaste tu
à completar os buracos.

As covas então se fecharam
a vida virou jogo pernicioso
que não tolera a falta.

Mas ora, desde quando
o que há não é apenas isto
a falta?

Por que foi que você se acostumou
à coxinha?

Desista disso.

A sua cova íntima
é o espaço onde sobrevive
a sua capacidade
de ser afeto e enzima
A sua capacidade
de ter fé
em tempos tão turvos
e de desconfiança.

Secou.
Então regue.
Secou?
Então deixe-se
molhar

deixe-se molhar.

Respiração

Consegues sentir
o ar entrando?

Consegues dosar
a quantidade do ar
entrando?

Consegues conter
mais ar do que lhe disseram
em ti caber?

Meditação.

Ouça:

O ar que em ti entra
faz sim algum barulho
Se é doce e leve
não importa
Porque é desde sempre
ruído.

Novamente, eu te peço:
ouça
sinta
dose
e se contenha:

há um mundo entrando dentro de ti
de tantos em tantos milésimos
há um mundo aqui fora
te abrindo
via respiração

Escute:
eis a sua nova condição.

Respirar
a tempo de perceber
Que estar vivo
é questão invisível.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Pelo Maniqueísmo

Uma coisa eu preciso reconhecer:
quando afirmo tais coisas
aqui, em poesia, é apenas pelo direito
de ser contrário à vida
Pois, se sempre fui generoso
ao menos aqui, em poesia
eu quero o contrário
eu vou eu posso
Estilhaçar você*

* Quem quer que você seja.

10 de Agosto de 2015

o dia do término, enfim
não preciso dizer mais nada
nem escrever
as coisas que eu ouvi
aquilo que disse
bastam para compreender
o desejo que já morava
aqui em mim:

tudo claro
retinto, superfície quebradiça
sinceridade extremada
a dor não é igual
e não se disputa qual dor
doeu mais
mas
mesmo assim

terminou, finalmente
meu peito sincero agradece
tamanha ousadia
foi legal
foi bacana
mas sobrevive já
feito passado

a gente não sabe de nada

e esse instante
serve apenas para isso
para firmar
o seu olhar fugidio
alguma incapacidade sua
de enfrentar
o presente
que a ti
é presenteado

posso escrever versos terríveis
dizer coisas sem fim nem começo
mas guardo pouco de ti:

os olhos vesgos
o olhar fugindo
a falta de palavras
e a demanda por cuidado
a demanda por sempre mais
(do que existe)

isso é tudo
a mim, nada é
mas é tudo
para explicar
aquilo que já sabia
antes mesmo
de nos desfazer

tudo certo
durmo tranquilo
meu corpo pede

poesia minha
agradeço a ti
por me deixar falar
o que falo

agradeço a ti, poesia
agradeço!
como a ninguém um dia
já agradeci

foi você
que me permitiu chegar
e a partir daqui
partir

mergulho


profundo


bateria


lugar para mim

estou aqui

não precisa

se precisar

não vou precisar

mas se precisar
estou aqui
para ti
estou disponível

se cuida
se cuida, tá?

oi?

eu não ouvi
não preciso
não precisa
está tudo certo

aqui
entre versos
minha grosseria tem autonomia
e as cores pesam
sem piedade

o que há de incrível no amor?
talvez um único fato
ele acaba

e se tanto foi pedido
que eu aprendesse a desamar
eis um motivo para brinde
acabou

ficaste feliz?
eu também

porém

não mais brindes
foi o último
o brinde pelo fim
graças a mim
graças a mim
graças a mim

Futuro Imediato





alguma sinceridade

estou fedendo cigarro.

não estou bêbado.

estou de cueca.

muitas luzes estão acesas aqui dentro de casa.

tenho sono.

estou ansioso.

ouço músicas.

quero chorar, mas não consigo.

talvez durante esta escrita eu chore.
talvez não.

queria paz.

queria sorriso.

mas não sei.

quero distância.

quero outro abrigo (que não eu mesmo).

estou mofado
cansado
humilhado
estou velho
apesar de tão jovem
ainda
tenho esperanças
no quê?

você e eu.

meu deus.

nós dois.

meu deus.

se eu soubesse, lá atrás, o tamanho dessa dor
talvez eu me recusasse a brincar de amor
talvez eu me proibisse
mesmo
talvez eu recusasse este verbo: amar
talvez mesmo
talvez
eu preciso acreditar

que o tempo passa
e mais do que passar
preciso acreditar
que ele leva
que ele me acolhe
que ele me permite
continuar

o que posso fazer?

sinto dores sem nome

sinto o corpo disforme

sinto que sou capaz
de retornar
bruscamente
a quem fui quando junto a ti
mesmo agora
sem te ter

meu deus

nunca chamei tanto por você
que desconheço

está doendo
eis uma verdade
alguma sinceridade
eu estou morrendo
e quanto mais morro
mais teimo em continuar

por quê?

por que não desiste o corpo?

por que não jogo tudo aos ares
e parto? para não me encontrar?
para me perder
me evaporar?

queria os verões que não tive
queria o útero e sua tranquilidade
queria outro cheiro
outra prosa
outros embates

meu deus!

estou cansado
tenho preguiça
até em morrer

não sei como faz
não tive essa aula
eu perdi
me perdi
nos perdemos
e o que fazer?

doo apenas
eu me doo
sem poder
me compreender.

domingo, 9 de agosto de 2015

Uma fagulha

Corre
Anda
Não demora
Apareceu no íntimo
Alguma esperança
Corre, Diogo
Vai
Abocanhe-a
Esperança?
Talvez sim
Alguma coisa
Sem forma
Que te faz
Por um segundo
Endireitar a vida
Torta
Corre
Anda
Não solte
O instante
Vai
Estamos torcendo
Alguma coisa
É alguma coisa
Uma batida
Um ar
Que seja
Mas vai, cara
O proteja
Se proteja
Isso
É
O
Começo
De algo
E
Lindo
Você
É
Um punhado
De palavras
Para se cantar
Vai
Vai!
Ah!
Vai!!!

Voltando

Talvez a confusão do instante
Exija dar uma volta.

Gesto de retroceder
Juntar as armas
E desistir
Do compreender.

Se eu pudesse
Não mais falaria
Eu.

Se eu pudesse
Não mais lembraria do
Nós.

Tudo confuso
Como está
Não resta gesto
Mais justo do que
Restar,

Em meio à crise
Em voltas inúmeras
Conservo a azia
Não por gosto
Mas por zelo

Destinado a essa tola complicação.

Eu acreditei no fim
E ponto final instalei
Sobre tudo
Sobre minha respiração

Pus fim
Onde havia ainda dúvidas
Solicitando atenção.

Sou cúmplice
Sou parte disso tudo
Sou eu, como sempre fui,
Disperso no horror
E destinado às mortes
Todas.

Haverá paz?
Pergunta meu peito
E eu silencio.

Não sei, peito meu
Não sei de nada
Exceto de abismos
E dores profundas
E torturas veementes

Não sei de nada
Exceto daquilo que já morreu.

Avulso estou
Cantando músicas
Cujas letras eu mesmo
Modifico.

Uma volta
Outra mais
O que fazer, meu Deus?
O que fazer neste tarde
Demais?

Eu poderia dizer... Ou: Dialética.

Que a razão de tudo é uma só:
Eu te amo.

Eu poderia dizer isso. E estou dizendo.
Se há verdade ou se brinco em poesia
Não cabe dizer. Só de especular a vida
Já se movimenta energia.

Eu te amo. Ou: muito te amei. Ou mais
Sinto a sua falta. Ou mesmo poderia dizer
Que desde sua partida não soube como continuar.
São aspectos do ser sincero
Que não se pode se furtar.

Eu poderia dizer que há orgulho.
Orgulho meu.
Que há desconfiança e medo!
Medo!
Palavra abismo capaz de tudo reunir
E muito mais multiplicar.

Eu poderia dar desculpas
Eu poderia escrever e inventar
Eu poderia simplesmente me colocar
No seu
Lugar.

Mas não.

Já brinquei de te escutar
Ousei me ver por seus olhos
Ousei me mirar de longe
E me critiquei
E me machuquei
Mas já não dá:

minha interpretação final para além
de tudo ser lindo, é mesmo esse
Mau estar
Propiciado pela sua falta de humanidade
Pelo seu vício burguês de ser
Coitadinho.

A Dialética eu já conhecia antes de te conhecer.
O que eu ainda não havia visto era essa febre
Sua
Do se auto se compadecer.

Perdi o tesão.
Cortou minha energia.
Rompeu meus elos, enfim
Destruiu minha vida.

Doença contagiosa o seu sorriso
Nada de bom em mim hoje
Permitirei
Desabrochar.

Feriste meu peito no centro
E perfuraste um nervo.
Sobrevivi porque dizem
Não quebra o vaso ruim

E de tanta ruindade
Estou cheio.
Cheio.

Hoje
Por você
Só essa mesma trilha sonora:

Repúdio
Nunca mais
Distância
Guerra mundial perdida na História.

Sobrevivi.

Sem rede de segurança

Sim, você pode tentar
Se proteger mudar a roupa
Forjar sorriso e segurança
Mas a vida destolera
Desconfiança.

Vai, siga tentando
Faça do seu caminho
Extrato do seu mesquinho
Medo de ser visto
Como quem és.

Meus olhos te entenderam
Com atraso que não viu
Meu cansado coração.
Meus olhos te desvendaram
Antes mesmo que desatassem
Nossas mãos.

E então segui tempo
Vendo com tais olhos meus
O caminho todo adulterado.
Vi tudo errado e sem medida
Vi demais vi dentro
Vi o que já sabia:

você é uma graça
foi um grande amor
mas assim como o tempo
você passou.

Não tente forjar o amanhã
Ele ainda nem brotou
Não tente sair bem
Do encontro que sequer aconteceu.

Durmo bem
Inconsciente de ti
Amanhã a gente se vê
E depois será o fim.

Simples.
Da mesma bruta forma
como nasce um amor.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

(demorada) Carta aos Filhos (que me cuidaram)


Rio de Janeiro, 07 de Agosto de 2015

Meus filhos,
O pai nem sabe quando foi a última vez que lhes escrevi. É curioso. Não planejava lhes escrever, mas acontece que vocês me vieram e então eu não quis não corresponder. É preciso. Já faz tanto tempo e o pai morrendo e vocês aqui, mais e mais florescendo, porém, sem mão que os guie, sem cuidado meu, meus filhos, o pai se perdeu. 
Mas está aqui. Aqui ele ainda está. Tanta coisa passada nesses últimos sete meses que nem saberia por onde começar. O cigarro aceso é a única coisa que permaneceu indistinta. O pai continuou fumando como se a cada novo cigarro adiantasse mais a vida para enfim morrer sem soluço a me atrapalhar. 
Vocês sabem que com vocês só mesmo o que há de sincero. Por isso escrevo-lhes pouco e comedidamente, afinal, dói bastante ser sincero em tempos como este. Dói demais, meus pequenos, a vida em meio a homens sem franqueza. E o pai sempre se orgulhou, sempre foi franco, mas dói. E é preciso confessar a vocês: minha franqueza abriu abismos e a cicatrização ainda não deu sinal de chegada. 
Confio em vocês. Na confidência aqui explícita, eu confio em vocês. Todos querem amar. E o pai, certo dia, descobriu também esta possibilidade. E o pai foi. E o pai ainda não voltou. Que vergonha. Demanda um tempo - vocês estão vendo - demora um tempo até o corpo voltar a ser corpo apenas. Punhado de matéria. Corpo sem demandas, sem órgãos, corpo solto, sem ganchos nos quais se poderiam prender seres e outras coisas. 
O pai está todo doído. Por isso demorei tanto a escrever. Porque o pai esteve perdido. E se lhes escrevo é porque vaguei bastante desde então. Já se foram sete meses e o pai, vejam, só agora, o pai só agora está criando condição de sair. De soltar, de largar, de cruzar a linha da miséria para de novo e novamente com vocês estar. 
Mudei tanto que minha fisionomia os assustaria, não fossem vocês tão espertos. Vocês me olham com ligeira cara de reprovação. Eu me acostumei com seu olhar. Podem me reprovar, o pai também está se reprovando, no gerúndio o pai também se reprova. Ele se condena, não tem peso, mas ele não se permite fazer poça nem sequer lágrima porque a vida tem dessas coisas. Ela tem. 
E vocês disso sempre souberam. Na primeira vez que os tive, já foi assim, não foi? Falamos sobre o mundo ao redor, falamos sobre tudo aquilo que ainda não sabíamos, conversamos sobre os amigos do papai que haviam morrido, sobre a fome, sobre o desejo, sobre o fim das coisas, nós, meus filhos, falamos sobre tudo o que pode haver: presença e finitude. 
E o tempo passa e vocês em mim reunidos. Eu não sei de mais nada. Mas sei que vocês não me exigem saber. O pai fica chato quando acha saber de alguma coisa. Então sigam comigo, mesmo assim, sigam comigo, mesmo assim, sigam. Eu estou junto e sem vocês eu nem sequer me chego a ser. Eu amo vocês e vocês me fazem ser quem eu sou hoje: e amo ser quem eu sou hoje. 
Exceto pela parte que me foi tirada. Um orgulho me inflama, um ódio retinto, nebuloso, sincero. Uma ira perfeita, sem retoque a ser feito, ira tenaz e duradoura que me dobra o rosto e me faz tomar os caminhos mais arriscados e mais plenos de desespero. O papai mudou desde a última vez. Mas mudou para conseguir estar aqui: vivo. Mudou o papai e vocês ainda aqui, meus fiéis, meus contraditórios amigos filhos inimigos 
Não tenho medo de vocês. Tenho medo do que faria sem tê-los. Depois de vocês uma necessidade em mim se criou e tudo então ficou mais difícil porque aprendi a não ser sozinho. Minhas escolhas incluem vocês. Seus desejos pervertem o meu e meus desejos, quando sozinhos, logo encontram morada em suas feições. 
Que lindo é ser pai de uma tão linda e imensa coleção de francos amigos. Vocês sabem disso, não sabem, meninos? Meninas, vocês sabem, não sabem? O pai só é pai por conta de vocês, meus filhos. O pai só é pai porque um dia se viu na bifurcação única que poderia em um homem acontecer: essa de se perguntar sobre estar vivo ou sobre morrer. 
Vivi e sigo vivendo. Meus filhos, o pai hoje é relento todo delicado. Sem segredo, o pai, hoje, é só por conta de vocês. Havia tirado férias, fui sozinho, bati-me em outros corpos, bebi outras coisas e senti o cheiro de outros mundos. Mas agora, voltando, eu percebo: eu nasci para vocês. Nasci para ver o mundo pedindo arrego por conta de sua ousadia. Eu nasci para que o mundo não se esqueça jamais de mim um dia, mas, sobretudo, nasci para desconfiar da confiança, para duvidar do amor, para envergonhar a guerra, para provocar alternância (seja no curso dos astros ou apenas para atrapalhar o fluxo dos veículos em alta velocidade). 
O pai aprendeu a desamar e isso tudo é meio que por vossa causa. Obrigado, meus meninos e meninas. Obrigado aos que ainda me olham com olhos virados. O pai compreende sua ira (ela é minha também). Um dia as coisas se acertam e seus futuros irmãos saberão disso melhor que nós todos. Eles saberão me reconhecer mesmo quando agora desfigurado. 
É preciso ser muito esperto para sobreviver. E vocês são minha iluminação. Obrigado. Hoje o pai é só a saudade de quando ainda era jovem e tais palavras tomavam menos tempo e pesavam mais leves. Hoje não, hoje nada. Tudo ganhou peso e o peso reside aqui, entre as mãos que me aprisionam no centro vazio dessa casa. 
Eu peso porque existo. E existir é isso: pesar, apenas. Alguns instantes me salvam de tudo isso. E vocês, feito imãs no céu de lata preta, vocês são minha provisória respiração enquanto eu não desmancho e desapareço. 
Por isso, filhos meus, obrigado. Eu sobrevivo só se vocês vierem comigo, me empurrando, dando-me as mãos e me contando os detalhes do futuro que só vocês sabem ler porque ainda não sei ver o adiante. Vocês olham adiante e eu ainda aqui. É o que hoje eu posso, apesar de tanto amar. 
Um beijo quente e daquele jeito, do seu 
Pai.

magia

mudam-se as coisas de lugar
a poeira vai embora e fica
ainda no entanto e talvez
neblina

apodrecem os legumes as
frutas ficam negras e chega
a manhã apressada
para quê?

sobrevive algum silêncio
os papéis, todos, esvoaçam
haveria algum sentido
ou só isso mesmo?

dorme-se com frio
faz-se café ao acordar
um cigarro
treze cigarros

fogo
olhos
arrumadas no pênis amassado
dentro da cueca preta

meu deus,

e o câncer?
que não chega?
como tombar?
agora!

a vida às vezes
dura mais tempo
que o necessário

eu te amo
sim, eu
amo sim

que magia.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A Relva

Acontece que acontecem
Instantes em que nada
Acontece

Seria possível?

O sol sobre a minha pele
Algum tímido vento
Ouço sons, mas tudo distante
E então a noite
Escurecendo a possibilidade
De alguma mão
Me arrasar.

Dia seguinte, disse a si mesma
A relva: é possível ser
Mesmo sem ninguém
Ou coisa alguma
Me tocar?

Sol vento som vento
E nenhuma mão.

No silêncio as perguntas ganharam peso.
Será possível? A relva se perguntou
Ciente de que já fazia dias
Sua pele era apenas verde sozinho
Verdade sem teste
Dormente do que ainda
Não veio.

Noite após noite
Foi-se perdendo
O veludo
A graciosidade
Ficou seca
Morreu a vaidade
E, por fim, dormiu.

Dia seguinte
O sol às vezes amanhece atarefado
Raios sonoros e esquentados
Abriram os olhos dela
Relva sem rumo.

Ela sentiu a própria pele
Ela sentiu na pele
O abrupto toque de um tiro
Dado ao longe
Não viu se alguém morreu
Mas nem precisava
Pois sobre a relva pele
Tudo entrava
Feito tiro
Tiro feito bala
Tudo a acessava
Até a solidão virar verde exposto
não desespero.

Hoje a relva ciente de si
É mais porto do que barco
É mais certeza que convicção
Ela sabe
Sente e por isso sabe
Que se não vier mão
Veio desde sempre
O tempo
Descrito em frio e vento
Desenhado em raios solares
E sonoros
Eu, relva, hoje sei:
Ser paisagem e não embarcação
Passe a mão por mim, ó, tempo
Passe-me suas mãos.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

outra tentativa

e de que adiantaria capturar
alguma coisa?
logo em seguida tudo seria
esquecido novamente.

no entanto, se preserva
essa demanda extenuante
de se firmar algo
nem que seja a agonia.

pois falemos de agonia
ou de cansaço extremo
de estafa ou de versos
que não cessam

apesar do tempo.

numa noite dessas
alguém pensou em outro
alguém pensou em
outro alguém pensou
em outro alguém
pensou em

de forma que ninguém sabe
quem exatamente pensou
mas o fato é
que se pensou

foi pensada
essa coisa
de conseguir
usar a palavra
para dizer
a que se veio.

mas noite de hoje
não veio ninguém
portanto
acaba-se aqui

tudo acaba aqui

incluindo a pretensão
de alguma lembrança
a nos devolver
alguma coisa

alguma coisa
qualquer uma
qualquer coisa
agoniza.

o todo em cada pedaço

por tanta demanda
talvez você pense que
já não adianta mais
correr
tentar
fazer
enfim, já não deu

por tanto, tanta coisa
você talvez amanheça
destinado ao dessabor
de caminhar o dia
sem fome
a lhe mover

é claro
eu compreendo
também assim
comigo
certa vez
o foi

mas veja:

em cada soluço
reside inteiro
todo um ato

em cada respiro seu
existe um princípio
um caminho
e seu saldo

veja:
não há motivo para se apavorar

a cada passo que se anda
também um passo é dado
as coisas existem como são
são coisas como fatos

você fez
você esteve
se foi grande ou pequeno
pouco ou demais
não importa
porque antes de tudo

seu gesto foi
se fez
inscreveu-se

para que então
comece outro
e outro mais
até o dia em que decidir
você
cessar tudo
para o nunca
mais.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Talvez eu cansaço

Talvez eu tenha cansado de escrever
Poesia. Talvez tenha eu escrito demais
Tantas linhas, que perdi o fio da meada
Perdi os motivos, as intuições primeiras
Eu perdi o início.

E então vaguei perdido em meio
Ao meio. No meio de cada soluço,
Compus rimas. No meio de cada buraco
Fiz estrofe e abrigo. Por que foi que me permiti
Viver o mundo em versos escondido?

Achei que fosse uma revelação.
Pensei até que fosse terapia
Da melhor. Pensei que estivesse crescendo
E nutrindo minha habilidade de lidar com toda
E qualquer coisa. Mas não.
Perdi.
Os inícios e os meios e tudo, enfim,
Nada virou.

Se este é um poema reclame, pois
Que o seja. Não acho mais grandeza
Nem sequer traço de alguma coisa viva
Ainda que pequena.

Nada me comove.
Meus olhos já não sabem ver.
Minhas mãos não escrevem
Nada que eu já não tenha destruído

E tudo então vira jogo barato
E cheirando ao já vivido.
Mas tudo leve, brando
A ponto de desmanchar
Nada atravessante
Nada cortante
Nada capaz de desviar

Penso, então, por qual motivo
Deveria eu continuar?

Estou ainda a espera
De um poema desconcertante?
Espero eu alguém que venha
E encontre nessa manada de versos
Um que seja
Um que fosse
Ao menos, aconchegante?

E toda a revolução?
E aquela demanda
Por escrever
Para continuar
Vivo?

Eu já me sinto morto
E a culpa, talvez, seja mesmo
Dos versos, que espremeram
E cansaram
O meu arsenal de gestos súbitos
E destemidos.

Tudo virou reprodução
Até minha sinceridade.
Rotulada em marcador
Foi preciso dizer a honestidade
Para não haver dúvida.

Onde foi que me perdi?

Quando foi que se tornou fácil
Não gastar tempo a procura
De uma única e certeira palavra?

Pulo linhas como quem respira sem saber.

Não percebo o meu ofício
E não faço questão de o compreender
Pois eu morri
De tanta metáfora eu morri
Por tanto em versos
Me estirar, tal fossem camas ao sol

Eu perdi
A ponto de nem saber
Por onde comecei estes versos
Que se alongam
Sem pedir autorização.

Por hoje chega.
Amanhã, caso nada mude,
Eu tento de novo.
Eu começo noutra folha
Em branco, noutra página
Em branco para todo
E qualquer desastre.

São Paulo, 02 de agosto de 2015.

FÉRIAS DE JULHO

24 dias fora de casa
12 viagens aéreas
1 voo perdido
1 voo cancelado
24 apresentações
de 5 distintas criações
1 apresentação cancelada
4 estados do Brasil
4 cidades diferentes
Pouco turismo
1 estreia no Rio (que ainda não vi)
1 estreia em Belo Horizonte
(que ainda não vi)
1 greve universitária
48 injeções de insulina
Algumas hipoglicemias
Roupa suja
Lavanderia
Reuniões e roteiros
Dramaturgia
Muitos táxis e ônibus
Novos encontros
Reencontros lindos
Abraços e mais abraços
Pilhas de livros e anotações
1 morte (de uma moça radiante)
Muita saudade
Alguma promiscuidade
Músicas novas
Muitas olhadas longas para o céu
Porções de silêncio
Porções extras de risadas
Cafés e cigarros
Confissões
Salada de fruta
2 ou 3 filmes
4 ou 5 peças de teatro
Alguns museus
Check in and out
1 roubo de celular
Aniversários
Acabou o shampoo e o desodorante
Muita cerveja
Pouco vinho
Muita água
1 picolé diet
2 aparadas na barba
1 corte de cabelo
1 crise de choro
48 ou 50 poemas escritos
e publicados

Agosto chegou
E eu de volta ao Rio
Para começar um novo semestre
Cheio de desejo
E repleto de dúvidas
sobre isso
de estar vivo.

Pois confesso:

As nuvens
Quando atravessadas
por tantas vezes
e por tantas asas
Produzem perguntas indevidas
Cujas respostas talvez nunca
Sejam alcançadas.

Sobrevivo em contradição.

sábado, 1 de agosto de 2015

vênus com 3 leões em júpiter


duradouro

cansei dos diários
perco um dia
narrando o outro
um dia eu perco
registrando
o que naturalmente
será esquecido,

sem pressa
sem exigências
exceto as do íntimo
que quer bailar
sobrevivido
em capturas
inconscientes,

eu hoje te olho
e você de mim
ausente
quer poesia maior
que esta
a do impossível?

encontro um amigo
outro amigo me chama
vou tomar um café
como pizza
sobre o lençol
branco
da cama.

cai uma azeitona preta

a cerveja congelou

eu cansei de fumar

eu amo dormir pelado
solto sob o cobertor

mas é que ganhei pernas
e quânticos braços
posso eu, eu sinto
entrar nos sonhos alheios
passear de bicicleta
trazer amigos antigos
para conversas
na penumbra
de estranhos teatros

eis algum movimento
este, o de se dispersar
apesar de tanta concentração

haveria outra condição?
haveria outra coisa
que não apenas essa

escrever?