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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Cinzas caindo no teclado e sendo trucidadas pela velocidade dos dedos em digitação

Tenho sonhado todas as noites.

Isso inaugura alguma coisa em minha vida, afinal, eu nunca fui de sonhar. Sempre dormi como pedra e acordava, eventualmente, na mesma posição em que havia deitado. Estou sonhando muito, coisas distintas, com um costura inviável, mas verossímil. Tudo soa verossímil num sonho. A morte de alguém, você num estacionamento de madrugada, outro país, objetos esquecidos, os parentes falando com alguma doçura diferente de como falam hoje, agora. Tudo é possível. Mas,

eu havia aprendido - se é que posso escrever assim - eu havia aprendido que o sonho é o lugar do não-vingado. Que os sonhos são jogos do inconsciente que, por não ter acontecido, infla o rol de imagens e faz com que todas possam bailar - livres e desejantes - em sonho. O sonho é a operação do desrecalque, o sonho tira as imagens (desejos) do lacre e permite que, ao menos em sonho (em imagem [em desejo]) se possa brincar de ser aquilo que não se pode ser.

Por que foi que eu deixei de ser alguém que meu corpo deseja ser? O que está acontecendo que me faz sonhar todas as noites, sonhos longos, com muitos personagens, com um roteiro esquizofrênico carregado de espaços e tempos completamente surreais? Inventados? Complexos e sedutores?

Eu estou casado.

Daqui a alguns dias se completam quatro meses que divido minha casa com outra pessoa. Divido as contas, o lavar as roupas, divido os ânimos e desânimos, divido os receios os futuros próximos e os distantes. Faço planejamento, digo que posso, que não posso, ouso um gesto inédito, repito um gesto cujo resultado causado eu já sei. Surpreendo-me, irrito-me, morro de ciúmes, encontro desrespeito onde não tem, não encontro onde talvez tivesse. Que complexo é amar assim tão junto.


Tento me lembrar dos primeiros arrepios. E eles ainda estão presentes. Sei deles e eles nos (me) frequentam. Mas como é difícil amanhecer desacumulado do ontem. Como é difícil viver o hoje munido apenas do que temos (tenho), do que tememos (temo).

Não é um relato desesperançoso. É, como eu digo aos amigos e amigas, é minha terapia, minha conversa comigo mesmo (cinzas caindo no teclado e sendo trucidadas pela velocidade dos dedos em digitação = terapia?). Jogos de palavras, desobstrução, eu escrevo como quem tenta reviver um coração que se esqueceu de bater por alguns minutos (o meu). Eu amo, mas estou tão perdido (tentando negociar o eu e o outro). Eu não sei se eu sou bom nisso e não quero que se aproveitem (de mim).

Esquizoanálise

Adicionei esta palavra ao dicionário: esquizoanálise.


Não sei bem o que estou querendo dizer, mas posso, mesmo assim, especular algumas tentativas sobre a coisa. Eu queria dizer sobre o desejo. Sobre como o meu desejo anuncia uma coisa e sobre como o desejo do outro anuncia outra, por vezes, outra coisa, outro desejo, uma diferença (ou duas, três...). Se para mim é cada vez mais importante vingar aquilo que desejo, estando em casamento - em relação - chega-se a um momento em que não, o que desejo não é propriamente um caminho dado, um tiro certo, uma definição. Digo para mim mesmo: é preciso ceder, negociar, acordar, fazer acordos, negociar: é preciso editar os desejos.

E então acordo rendido por sonhos que nada mais são os meus desejos gozando da minha cara e me dizendo: viste, não comeste a paçoca e, em sonho, te fizemos morrer em overdose de paçoquita. Acordo, então, quase sempre muito mal humorado, pois sei - a cada manhã - que controle eu não tenho. Que eu não posso controlar o incontrolável.

Então mudo de papel, troco a posição: eu sou você agora. E penso, com cuidado, as coisas todas que devem se mover em seu íntimo, nessa imensidão que é o corpo (do outro). Ora, se eu desejo o abrupto que me assalta, por que seria tão diferente com você? Você nada me diz (fala palavras que já não nos ajudam a compreender). Você também, assim como eu, você também sonha e fala durante a noite, entrega-me vislumbres incompletos de alguma coisa que quis nascer e nasce - em sonho - para morrer, massacrada pela sobriedade da vida cotidiana.

Se eu desejo, você também deseja. O que varia, entre um e outro, entre você e eu, é o que se deseja: a cor, o tamanho, a qualidade de movimento, aquilo que em nós - a coisa desejada - causa.

Se somos tão distintos, que tipo de questão pode haver? Questão honesta, questão sincera, incapaz de ser passada para trás. Eu preciso me importar - não com o seu desejo - mas com a sua autonomia. Eu preciso ultrapassar os dramas do matrimônio? Eu preciso o quê?

Psicanálise. Disseram-me noutro dia. Ainda mais agora, que você está casado.

Ainda não. Não tenho renda para isso (é a minha primeira desculpa), mas a real, a única - a explicação possível - é que não me interesso pela doença que almejam lançar sobre o que desejo. O que estou vivendo - em vida e agora, mais que antes, em sonho - é só essa imensidão de reendereçamentos, essas mudanças de curso. Se antes eu tinha condição de desejar e fazer o que quisesse com meus desejos, agora não: eu preciso colocá-los à mesa e fatiar tudo, dissecar, não posso vingá-los.

Crio em mim um reino febril de imagens presas em sonhos. Nenhum cigarro resolve. Nem sequer embriaguez. Você fica triste e eu também. A gente é muito jovem para dar conta da máquina desejante que somos sem saber que somos.

Amanhã, eu sigo entendendo e desentendendo tudo isso. Falta pintar o teto da sala. Foi esse o nosso acordo.

---
 

domingo, 25 de maio de 2014

Vila Isabel

Ei, tenha calma
Abra os olhos
Repara!
Faz esse barulho todo
Por não ser só o vento
Vês?
Tá passando
O vento tá passando
Lá fora e aqui dentro
Mas calma
Ouve só!
O vento
É só essa fantasia espalhafatosa
Sob a qual se esconde
O tempo
Percebe?
Não tenha medo
Não tenha medo algum
Eu tô aqui
E se você quiser
Eu abro essa janela
E pronto!
Não tenha medo -
A gente vai
pro centro da noite
E quando lá
você dá oi ao tempo
E se deixa passar um cadinho
Ao lado dele
Por ele rodeado
Cê se deixa passar
Sem pausa ou pretensão
Você vai no vento
Um pouco
E volta
cá pra dentro

A gente dorme
Amanhã acorda
E
Percebeu?
Passaste.
Passaste tudo
Você
E eu
O tempo
E o vento.
Agora dorme
Que a qualquer hora
Ele volta.

Posse

Pode não saber?
Onde pousar o olhar?
Pode?
Não saber como faz
para continuar este segundo?
E essa confusão?
Pode não me fazer um filho?
Posso evitar os ombros
subindo
E ficar a ver o dia
Pela janela
Passar?
Posso?
Lembrar apenas do que me esqueci
e sobreviver neste agora
Ausente de mim
Um pouco
Posso?
Descansar sem morrer
Ir sem ter que partir
Posso dançar sem usar as pernas
E sentir saudade sem doer-me o peito
Posso perguntar
Sem usar interrogação? 

Posso?

Ter medo de tudo isso
E mesmo assim seguir confiante?
Posso desaprender o tempo
E viver ciente
Apenas
Do instante?

Posso
Lacrimejar
- como agora -
E não me achar doente
Nem carente
Pelo o que já tive?

Posso
Deitar-me ao seu lado
E querer dizer o mínimo
Possível?

Por que me dói tanto estar vivo?

Será que é coisa da idade?

26 anos
Quase 27
É já tempo de morrer
Seria tempo de se matar?

Posso?

Aprender a gostar de café frio?
Posso comer doce sem medo do fim?
Posso sonhar com os seus
Os meus
Os nossos dentes 
Caindo
E não pensar em morte?

Eu posso?

Escrever poesia para brindar a tua beleza?

Posso não saber sobre ego
Sobre desejo
Sobre revolução
Eu posso não saber
o início dessa
E de tantas outras canções?

Por que foi que eu fiquei desse jeito tão sem jeito?

Por que foi que um dia eu brinquei de tristeza e me apaixonei pelo verão dor?

Por que aerá que existe em mim este espaço pedindo suspiro
Pedindo-me um instante
Que seja
De abismo

Ai

Eu só queria tomar um café quente
Deitado à rede

Por que me penso tanto?

Meus ombros doem.
E eu continuo a saber
sobre muitas coisas
Que não eu mesmo.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Angústia

Então foi pedido
que ele levantasse a camisa
para que ela pudesse sentir
a dureza que o oprimia

Nossa, ela disse
você tá cheio de ar
tá duro, inchado
posso te fazer uma coisa?

Ele se ergueu
sentou noutra cadeira
de madeira
e respirou fundo, soltando um longo gemido

Gire para cá, sem torcer o pescoço
Mantenha o quadril no lugar
e amoleça os ombros
Você tá todo tenso

Depois, ela escorreu a mão sobre o peito do rapaz
e disse

É angústia.

Ele concordou, depois de um tempo
fez que sim com a cabeça

Depois o tempo passou
e já, um pouco bêbado
um pouco esquecido de tanta angústia
ele pode dormir.

Só isso.

...

farinha

não fiz nada hoje
comi pouco
bebi pouco
joguei computador
jogo antigo
da adolescência

tô testando até onde dá pra ir
essa coisa
de não servir ao mundo
de não gastar dinheiro

e de não sentir pena
de si mesmo.

----------<

terça-feira, 20 de maio de 2014

vontade de ficar de olhos bem fechados

se eu pudesse
hoje, tal como ontem
ficaria assim
inerte
testando a possibilidade
de me esquecer
de mim
por um tempo

trago no corpo
explícito
um cansaço tão profundo
tão de dentro
que não sei como faço
para sorrir novamente

dói-me o corpo
ao te amar
doem-me as pernas
ao te prensar
(e o íntimo
dói também
gritando
fica aqui
comigo
até que eu aprenda
fica aqui
até que eu aprenda
que por vezes
a vida é isso
a vida não serve
viver
não presta)

e acordo
muitas horas depois
desmarco um
outro compromisso
refaço a agenda
eu tentando sempre me dar a certeza
de que é possível continuar

quando foi que eu caí nessa armadilha
da qual sempre tive consciência?

eu cansei de ser autônomo
eu quero ter mãe de volta
quero morar na casa
sem pagar contas
não quero banco
nem dinheiro

queria acordar e dormir
como personagem
de um jogo qualquer
que não precisa de nada para existir
que apenas existe

a poesia, minha amiga
escapole-me os dedos

que cansaço
que canseira
serão os astros?

meu único amigo, o tempo, passa lento
nem muito lento para não me torturar demais
nem tão depressa para não privar que eu me veja em tormento

a filosofia não serve
a poesia não me seduz
o filme no cinema não
a música alta me ensurdece
o que eu faço?

como
durmo
trepo
e aprendo
a virar samambaia?

!
 

domingo, 18 de maio de 2014

Tempo de Solidão

Nada grave, como costumo dizer. Talvez seja tempo para tentar perceber por qual motivo meu ânimo flerta tanto o abismo. Ao fim dos cigarros eu culpo a dureza desse instante. Mas não. Sem cigarro eu me reconheço inerte frente ao meu cansaço, sim, cansaço em ser gente grande.

Os dias passam. Eu vivo o amor. Não tenho fome que não se cessa. Não me falta nem desejo nem labor. Quando foi que fiquei tão exigente a ponto de tornar a vida hipótese tão improvável?

Diria, jovem, ser culpa dos astros. Mas sei que não. O destempero está na ponta dos olhos e dos dedos que aqui escrevem estas rimas. Haverá num momento outro da minha vida a calma sem moleza para, de fato, tocar a certeza de que em alguma parte a vida será sempre e para sempre inatingida?

Sobrevivo apenas porque o segundo passa. Caso não passasse eu provavelmente pegaria um taxi e sairia deste tempo. Falta calma para olhar, sem cigarro, a ausência de certeza e a pulsação - constante e presente - de todas as ausências que me são medo.

Se eu pudesse, ainda assim, nada pediria. Quero apenas escorrer a vista ao mundo e brincar de saltar entre distintas azias. Sabe? Sem medo de dizer. Se num dia o dia me parecer claro ou por demais escuro: eu fecho os olhos para conhecer por fim o centro do mundo.

Tempo para o café me afagar.

Tempo no qual retomo um esquecimento: existe vida sem amor. Vida pura. Um pouco dela, agora, me apazigua.

Não há que se entender.

sábado, 17 de maio de 2014

a opressão do futuro imediato

eu não vivo pelo futuro
é o que eu digo
vivo pelo instante
vivo aqui
agora
nesta fagulha que morre
e renasce
num fulgás
e tenaz
rompante

não não não
não trabalho com o futuro
é o que eu digo
só com a erosão das coisas
só com esse segundo
que tenho
e não tenho mais

sou homem do presente
sou homem do instante
sou ágil
e perspicaz

sim, sou tudo isso
mas ontem
ontem
ontem eu me vi distante disso

me vi pensando
o que seria de mim
logo ali na frente

no futuro
imediato

eu me perguntei
o que seria de mim
logo ali na frente
caso não tivesse mais
você, meu amor, ao meu lado

o que seria de mim logo ali na frente caso não tivesse mais você, meu amor, ao meu lado?

e então quis rapidamente forjar casa
quintal filhos e cachorro

fui cafona e tradicional
montei casa cabana e comprei carro

fiz todo o possível
para te dar motivos
para sim
CONTINUAR AO MEU LADO

desejo adulterado
o meu instante
frente ao inevitável futuro
morre antes de se acender

morro desesperado sem saber como se faz
para durar um pouco mais com você

será que já é hora de analista?

será que me salvaria a psicanálise?

ou será
mais uma vez
que devo viver o instante
e deixar que o futuro imediato
me alcance?

eu estou aqui
eu ainda estou

qual é o problema?

o tempo destrói tudo
o tempo confunde tudo

...

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Da última noite

Sobrevivi aos desejos
Assassinei cada um
com ensaiada indiferença
Não pude
Nem posso
ceder a tudo o que me desejo
O corpo

que exigente.

terça-feira, 13 de maio de 2014

pixels

ao invés da obra inteira
naufrago tentando reunir pedaços
cada pixel
perdido neste espaço
me dá a sensação
de que estar em obras
é o meu lar
é o meu esquema
meu erro maior
meu laço
lapso
minha lápide.

sábado, 10 de maio de 2014

sobre ter ficado triste muito cedo

eu penso que deveria rever essa afirmação. sim, o fato está dado: eu fiquei triste muito cedo. mas talvez, nessa afirmação, ficar triste não queira dizer propriamente ficar triste. essa tristeza que me veio quer dizer outra coisa que não somente comiseração.

eu fiquei sóbrio muito cedo.
eu fiquei sério muito cedo.
eu fiquei desesperançoso muito cedo.
eu fiquei sozinho muito cedo.
eu fiquei certo muito cedo.
eu fiquei ético muito cedo.
eu fiquei grande muito cedo.
eu fiquei cedo muito cedo.
eu fiquei certeiro muito cedo.
eu fiquei repetitivo muito cedo.
eu fiquei cego muito cedo.
eu fiquei distante muito cedo.
eu fiquei morto muito cedo.
eu fiquei limitado muito cedo.
eu fiquei sensível muito cedo.
eu fiquei capaz muito cedo.
eu fiquei suscetível muito cedo.
eu fiquei só muito cedo.
eu fiquei entupido muito cedo.
eu fiquei saturado muito cedo.
eu fiquei nu muito cedo.
eu fiquei doente muito cedo.
eu fiquei diabético muito cedo.
eu fiquei hospitalizado muito cedo.
eu fiquei afônico muito cedo.
eu fiquei jornal muito cedo.
eu fiquei imponente muito cedo.
eu fiquei mesquinho muito cedo.
eu fiquei tudo muito cedo.
eu fiquei dúbio muito cedo.

não sei. não sei o que eu fiquei muito cedo, mas o fato é que foi cedo, de forma que a minha vida, depois desse ponto, meio que ficou repetitiva. uma certeza minha, uma agilidade minha, certa eficácia, escorreu sobre a minha vista e me fez antecipar cada coisa. nada me surpreende mais. e se hoje eu cobro do meu pai um pouco de silêncio, talvez seja porque eu esteja nele me vendo. e ciente me faço: preciso deixar o mundo me atravessar de novo. eu estou triste, faz muito tempo, porque deixei-me certo de tudo o que sequer havia me chegado.

defesa? psicologia barata, mas sim, talvez seja defesa o nome disso. penso como pode uma pessoa que se diz lúcida cair em armadilha tão safada, tão porca, tão descaradamente de péssima categoria, armadilha tão desalmada, tão sem espírito.

uma foto desse instante, em que intuo estar encontrando alguma coisa sobre a minha real condição:


olho-me ao fundo, agora. escrevo me vendo. que experiência horrível. dentro de mim há muita certeza. e eu tomando cerveja hoje. dentro de mim há uma tristeza imensa porque eu devo ter descoberto muita coisa antes mesmo de me encostar nelas. eu descobri o mundo sem conhecê-lo e assassinei a possibilidade real de experimentar seu mistério, seu desvelamento.

sinto-me tão seco, tão chato, tão improvável. viver para mim, hoje, com alguma sinceridade, em alguma dosagem,  viver hoje para mim é lutar contra o cimento que coloquei sobre mim. sou sensível? sim, eu sou. sou um artista, poeta, essas coisas todas. sou criador, mas também sou o cara que cria dores. o cara que cria aquilo que não precisava ter criado. me chateia isso. a minha incapacidade de olhar o sol e me deixar ser queimado. nem pensar se deixo ou não deixo. apenas ir queimando e se lembrar, só lá no depois, que sim, meu deus, estou queimando. que tristeza imensa me consome.


mais fundo eu me olho. eu nessa foto aprisionado. eu, no fim das contas, aqui nesse blog, me mutilo e me acalento. eu escrevo sobre mim mesmo e para ti, para mim, para lançar palavras ao tempo e neste espaço virtual. se tudo isso se apagar, ainda assim, eu conservo em mim uma ferida aberta. eu que a fiz. e não quis deixar secar. arranco a casquinha todos os dias. e me vejo sempre no meio termo, entre ser tranquilo e ser impaciente. eu sou essas coisas todas. e essa é a minha forma de estar vivo, agora.

quando foi que eu fiquei triste? se eu lembrasse o instante, o acontecimento, talvez eu pudesse resolver a minha vida. eu nem sei o que significa resolvê-la. eu nem sei se é isso, eu nunca fui ao psicólogo nem ao psicanalista (eu menosprezo tudo isso, tão forte eu me visto com minhas fraquezas). eu queria me dar distância de mim mesmo. eu queria viver um dia como este jogo, agora, em curso. ir vivendo e me vendo. nessa foto não, em movimento. eu queria ir me vendo para ver se eu compreendo a fundeza dos olhos ou o superficial de cada gesto.

por que não canso de escrever? que abismo há em mim que não me faz parar, que não me faz cuidar para que o corpo não parta? eu judio de mim como quem assassina crianças (há um sadismo do verso que me abre buracos e parte embriagado no fluxo doce do sangue que escorre contínuo). quanta tristeza, sim, eu me fortaleci. dizer que fiquei triste muito cedo já foi poesia, já foi tirada trágica de poeta em jovem idade, já foi maneira de se furtar do instante, já foi tudo menos o que deveria ter sido: alguma verdade.

eu nunca fui triste.

eu não saberia sê-lo.

há em mim uma confusa continuidade do desejo. eu desejo sem esforço. sem suar. meu corpo nem se move, mas, no entanto, eu sinto, eu sei, ele nunca cessa o seu querer, ele quer achar, buscar, ele quer apreender mesmo sem vontade explícita. eis aí uma das colocações que mais ouvi na minha vida: você não expressa isso de maneira clara. isso, no caso, foi o meu amor pelas pessoas. poucas vezes o consegui expressar. já ouvi de várias pessoas esse mesmo comentário. de que, às vezes, eu bem que poderia ter deixado mais claro que as amava. e então, se depois disso, elas se foram: eu sobrevivi.

depois eu fico falando que isso aqui não é auto-ajuda, não tem piedade envolvida, não tem isso nem aquilo. eu não quero falar nada. estou na casa dos meus pais já faz quase uma semana. está no momento de voltar para a minha vida e encarar quem eu me tornei. eu era um menino amável. um menino amável. eu era. mas tive consciência disso (e o medo do amar me fez matar em mil algum brilho que pudesse te chamar, algum brilho que pudesse anunciar o meu desejo - revestido em timidez: um pouco de esforço e eu me doo a você).

timidez. faltou-me acompanhamento, mãe. não vamos entrar nos dilemas do passado. é que tudo ainda é tão presente que eu me confundo. minha mãe entrou no quarto esses dias. veio se lamentando dos hábitos do primeiro neto dela, meu sobrinho, que já tá com quase vinte anos. dizendo que ele saia e ficava na rua até tarde, bebendo, com amigos, isso e aquilo. disse que ele estava meio perdido. disse que comigo não era assim. que com os filhos dela não tinha sido assim. e eu disse o meu sermão de sempre: deixa ele. tá tudo certo. é a fase. é assim mesmo. eu era assim.

e então ela disse: você era assim?! até parece, diogo.

e então eu disse a minha mãe: eu fui assim, eu sou assim. você é que nunca viu, nunca perguntou, nem faz ideia.

não. não quis me vingar de nada. nada há para ser vingado (a sensação minha foi de que sim, mãe, a senhora precisava entender que isso não era novidade). e eu, faz várias semanas, estava justamente tentando capturar esse lapso. quando havia sido que a minha mãe me deixou a escovar os primeiros dentes sozinhos? seria eu filho de uma geração com babá demais? sem mãe? sem pai (nunca esteve), mas por que foi que eu fiquei livre tão cedo?

eu conheci a liberdade no que ela tinha, primeiramente, de abismal. de sombrio abrigo do medo. do não poder ao se ver podendo tudo e mais um pouco. eu conheci a liberdade no dia em que vi que eu poderia morrer caso quisesse. e que também morreria, caso não quisesse, mas que poderia - ainda assim - morrer.

hoje é sábado. dia dez de maio de 2014. você está no quarto das meninas, no segundo andar da sua casa em vassouras, casa da família. uma festa de criança está terminando lá embaixo. começaram agora a cantar o parabéns. muitos anos de vida. então. hoje, você escreve a si mesmo, mais uma vez. espero que daqui a um tempo possa voltar a essas













Mensagem aos familiares ---

Família ---

Não sofro muitos dilemas familiares, porém, aqui escrevo o que quero e o que não quero. Uso vossos nomes, falo irmão e irmã sem total consciência do que é vida e do que é poesia. Portanto, não levem a sério as minhas rimas. Eu lhes peço: cuidado. Tudo aqui posto é tão cheio, tão repleto de verdade, que pode soar falso, portanto, não tentem adivinhar o que foi.

Eu ainda estou vivo. Perguntem-me e eu tento apaziguar a vida corrente.

Diogo ---

O seu descontentamento

Por favor, não se leve tão a sério. A sua opinião nem sempre será válida. Por favor, não leia estas palavras como se as soubesse, como se as tivesse decoradas. Não. Espante-se, um pouco, por favor, com a sua certeza morta sobre todas as coisas. Eu não quero te surpreender, mas e se acontecesse, você se surpreenderia?

Não posso com essa morte que te domina o gesto. Não posso com esse desejo de fim que te permeia o corpo. Desaprendeste a dar conselhos. Sequer um dia, quem sabe, você o soube. Então, não sabes como me fazer continuar. Não sabe como dar trilha para o jogo não ser finalizado. Você consome tudo, enclausurado nesse papel de vilão que elegeu para si próprio.

O seu descontentamento, meu amigo, minha amiga, o seu descontentamento é consigo mesmo, é com você, não tem a ver com minhas rimas nem com a minha falta de sentido. O seu descontentamento é que tenhas se tornado isso. Isso aí que você se tornou. Esse lugar impossível de ser refeito. Essa listagem incongruente e constante de respostas às perguntas que ainda nem sequer vieram.

Que tristeza é ver que o seu olhar não me vê. Que tristeza que você busque companhia para assegurar que está vivo e ainda não todo sozinho.

Se eu pudesse te dizer uma coisa - e eu vou dizer. Se eu pudesse lhe dar um conselho - eu darei. Eu diria: pai, fique quieto por um dia. Trabalhe apenas os olhos, as mãos, eu não quero saber o que você acha sobre nada. Deixe o seu achismo te encontrar e te render. Talvez nesse jogo - de um só dia - você escute como é chata a vida oprimida sob corretor automático.

O seu erro você assumiu como verdade. Mas e o meu? Me deixa ser ruim? Me deixa não caber, não fazer parte? Me deixa a barba falha? O peito soluçando? Deixa, pai, eu ser quem eu não fui. Eu não ser sonho, mas sim máquina que deseja e por tanto desejar, acontece, vive em salto, irrompe-se. Deixa?

Você não pode responder. Por hoje, só eu quem fala.

E digo, com todo o meu pesar, que nem sempre, mas hoje, hoje, pai, quem cala - o senhor - consente.

Obrigado por me deixar.

E se me perguntarem: eu direi.

I'm from Vassouras City.


Dia da Honestidade

Bem que podia, viu? Termos um dia - reconhecido no calendário cristão - no qual seria possível, apenas, locomover-se por meio da honestidade. Nem falo de Verdade, esse Belo Absoluto. Não. Falo de ser honesto, de dizer o que se pensa, compartilhar o que se acha. Sem melindres, sem assumir para si uma postura grosseira. Ser honesto está em falta. E por estar em falta tal gesto, está sendo muitíssimo procurado (e passa, então, a custar caro). Aquela coisa da balança comercial, como é mesmo? Lei da Oferta e da Procura. Quanto mais se oferece, mais a coisa fica barata e se banaliza (porque todo mundo tem honestidade para dar). Quanto menos se é honesto, honestidade vira alto preço e coisa para poucos. Vamos tirar a honestidade da lógica do capital e pensar assim: como num jogo, hoje e somente hoje, dia 10 de maio (de cada ano que a partir deste ano vier). Sempre, no dia 10 de maio, será comemorado o Dia da Honestidade.

Então eu direi:

-

-

-

-

-

-

-

-

-

-

Muitas coisas. Muitas.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

nem terapia nem drama

eu me vi agora
perguntando-me
(sempre dentro desse novelo de mim mesmo)
eu me vi me perguntando
E PRA QUEM TUDO ISSO?

pensei um pouco
não costumo, mas pensei
um pouco
b e m   p o u c o
e eis que não
não me amedronta
que morram os poemas
todos
sem vista
sobre quem foram
um dia
num segundo
abrupto
e já nasceram
no mundo INTEIRO
outros mil poemas

eu não tenho problema com isso.
não tenho mesmo.

não há drama.

mas vem você
COM CARA DE DOENÇA
querendo saber se eu me curo
das minhas coisas
pode dizer
das minhas DOENÇAS
FOBIAS
da psicanálise (que eu nunca fiz
você me diz)
como você se cura?
deve ser escrevendo, né?

artista que é artista faz assim
escreve poesia para conseguir
dormir

não!
sem drama, mas assim não!

eu escrevo por não conseguir dormir.

MENTIRA MINHA!

ESCREVO PORQUE QUERO
PORQUE POSSO
PORQUE SEI
E DESCONFIO QUE NÃO
NÃO É ISSO
NEM O QUE JÁ FOI
NÃO ME IMPORTA
EU ESCREVO
PARA NÃO ASSASSINAR
MEUs DESEJOS

MATO poemas
MAS NÃO MATO
nunca jamais
este miúdo

________________________________


d           e          s          e          j           o

________________________________
  

55 quilos e um pouco menos (por causa do peso da roupa)

ouve-se
menos palavras
mais passarinhos
vê-se
menos movimento
contempla-se mais
o silêncio
contido
dentro de cada
respiro

sutilmente
volta a casa
por inteiro
com precisão
nos detalhes

os dedos dos pés
movem-se
sozinhos
à procura
das quinas
outrora
assassinas

as mãos buscam
às vezes sem delicadeza
o toque nas coisas
todas
o toque em cada
coisa
toda
inteira
ainda
aqui
tão vivas

o tempo passou
mas a matéria sabe como se continua

---

eu engordaria mais quilos
se continuasse além dessa semana
dentro da casa
de minha infância

(por que tenho tanto medo
da obesidade?)

nunca o soube.

---

roteiro para frisar o aprendizado


vês?
essa parede?
eu passava frente a ela
como se fosse floco de neve
em dia de ventania
passava perdido
sem saber que hoje
num dia
ela não mais
me esmagaria
ficou pequena
do tamanho
do meu cansaço
vês?
ali do outro lado?
o poço
o poço ao redor do qual
eu plantei
minhas mortes primeiras
o cemitério
secreto
fim de todas as minhas brincadeiras
lagartixa
bicho de pau
abelhas e besouros
aqui
tudo enterrado
vejam, que curioso
o tempo passou
e só a terra sobrevive inerte
sob o solo antes
esburacado
vês?
outra parede
no estilo xapisco
muro chapiscado
você não lembra
mas eu não me esqueço
do amigo
que descendo
- vês? -
a rampa do carro
descendo a rampa do carro
em bicicleta branca de ferro
chocou a face contra o muro
e explodiu pintura vermelha
em fundo branco ralado
action paiting
vanguarda
eu não sabia disso
quando tinha
aquela idade
hoje
ida
vês?
ali dei o segundo beijo
aqui bati no chão
e quebrei o braço
aqui tinha um pé de mangueira
que eu achei que jamais morreria
aqui brincava de índios e soldados
aqui tinha minhoca
aqui
de noite
fazia sempre escuro
por que foi então
que meus medos mudaram
e hoje
estão menos agudos?

eu deixei de ser criança
vês?
essa voz não é minha
é do meu tio
que escreveu esse poema
e que agora
me vendo
a gravá-lo
chora
copiosamente
ele chora

vês?

nada como os dias

basta uns dias
fora da agitação do dia-a-dia
para que a agitação
do dia-a-dia
tome meus uns dias

olha
se eu soubesse disso
previamente
tal qual oráculos
eu inda assim
nada mudaria

nada como viver
uns dias
longe da agitação
do dia-
a-
dia

~~~~~~~~!

ÁRVORE

experimento
feito no iphone

quinta-feira, 8 de maio de 2014

quase 3 dias


sem fumar

esforço para vingar a passagem das horas


tenho desejado muitíssimo amadurecer com a passagem das horas.
não é fácil porque corre o risco de se amadurecer superficialmente.
mas não custa tentar de novo e de novo, tendo em vista que
AS HORAS SEGUEM PASSANDO
então vamos, nelas, vamos nelas
eu pensei ontem
qual é a minha questão
se a de Hamlet é aquela
a minha não
não
a minha não
a minha questão
é que criei cedo um ranço do mundo
UM RANÇO DO ÓBVIO QUE ESCORRE RUA AFORA
CASA ADENTRO
FAMÍLIA E MORAL
ÉTICA E HISTÓRIA
histórias inúmeras
desenhando sempre o mesmo e piedoso destino
não!

então
a minha questão é que eu me afastei da vida
por discordar dela
quase por inteiro

exemplo:
quando todos choram
eu miro o corpo morto
eu lhe dou um beijo

isso não me faz especial, pelo contrário
ME FAZ IGNORANTE
porque eu compro com o mundo (imenso)
uma briga que não me cabe
uma briga já
desde o início
vencida (pelo mundo)

é HUMILHANTE a minha bondade num terreno tão terrível
como o estar vivo

então especulo mudanças
especulo elas todas
aqui comigo

eu deveria me colar
na superfície do mundo
pois
se já me acho capaz
(será que sou?)
se já me acha capaz
de ver
o que há dentro
de algumas coisas
se já sei olhar fundo
se já olhei a morte
e senti o seu cheiro ocre
então
talvez colado ao horror do mundo
mesmo assim eu sobreviva
e me divirta um pouco
e me divirta um pouco
mesmo ciente do horror que me impacienta

então vamos
quero surfar no drops
do rivotril
e nos televisores
quero o hipster
e usar
sobretudo
camisinha!

então vamos
deixa eu colar no chocolate
no photoshop
no iphone
e na sua voraz desmedida por comprar tudo o que não pode ter
porque não tens estômago nos olhos para compreender

o que é o vão deste mundo.

sigo só sobre superfície fingindo agora bondade
sobre o inimigo

quer me comer, mundo?
eu abro o meu cu
e te cago inteiro.

- ainda hoje -

por que, ainda hoje
costuma-se exigir
de uma obra de arte
que ela se adeque
a um modelo qualquer
de UNIDADE?

por que, ainda hoje
se exige da obra de arte
a COERÊNCIA e o SENTIDO?

por que, ainda hoje
exige-se da obra de arte
VEROSSIMILHANÇA?

por que, ainda hoje
a obra deveria ser filha
do sangue
do puro
BELO?

por que
- ainda hoje -
quer-se fazer da obra de arte
REMÉDIO
e não
a PESTE em si?

A PESTE em si
por que não?

pois se querem rebater toda e qualquer criação artística a essa reprodução triste (porque imutável) do mundo
pois se não querem a obra como possibilidade de alguma transformação do mundo
então
um instante
há algum descompasso
que precisa ser pensado:

olhemos o mundo
lá fora
espia
olha

>>>

quer experiência
MAIS_des_UNIFICADA
MAIS_in_COERENTE
MAIS_sem_SENTIDO
MAIS_in_VEROSSÍMEL
que o mundo?
este mundo?

<<<

espia de novo
e veja que
por tudo isso
és o mundo
ainda assim
ABRIGO_do_BELO

O BELO

que, no entanto
foge
veloz e tenaz
de toda e qualquer tentativa
NOSSA
de apreensão

O BELO
NÃO CABE
NUM MODELO
deixa então ele correr...

Teresinha

Dei-lhe um beijo na bochecha. Depois ela perguntou quem eu era. Minha mãe surgiu, saindo do banheiro da casa de Teresinha. Sorriram e se abraçaram-se. Lembra dele, Teresinha? Perguntou a minha mãe. Teresinha, meio sem graça, fez que não com a cabeça (em silêncio). Eu disse: o caçula, o diabético, vim aqui muito pequeno. Ela perguntou meu nome: Diogo. Tá fazendo o quê? Sou diretor de teatro. Você é o que mora no Rio? Isso. Teatro? Isso. Dirijo peça de teatro. E escrevo também. E completei: os outros irmãos são bancários e médicos. Todos ricos. Menos eu. Eu não (para não deixar de se autodepreciar). E então: está casado? Sim. Com uma moça? Não. Com o quê? Com um rapaz.
 
Silêncio. Espanto. Olhos cheios de lágrima. Ela nunca tinha acreditado que isso era possível. Ficou muito tempo sem saber como me chamar. E não conseguiu. Eu, no auge do meu estado, só consegui acompanhar o seu dilema e não fazer força, deixando que ele durasse.
 
Durou até ano que vem. Posso vê-la agora, costureira, chorando dúvida sobre a máquina. Não sei. Não sei. Quando o mundo já não me parece ser tão ingênuo, eu redescubro que saber de novo é tão importante quanto achar que tudo já se sabe.
 
:-0

terça-feira, 6 de maio de 2014

ao tomar o chá com minha mãe, falamos um pouco sobre a morte.

Acho que eu entendi algo muito importante sobre os retornos que faço à casa de minha infância. Quando eu chego aqui - onde estou agora - eu consigo - de maneira clara e muito eficaz - eu consigo me ver à distância. Sem mistérios. Eu fico claro. E as minhas relações familiares também. Tamanha distância entre quem eu sou hoje e quem eu fui um dia.
 
A casa antiga está pequena. Não é novidade. Eu havia retornado, em dezembro passado, e já tinha percebido que o meu armário na cozinha tinha sido passado mais para cima, por minha mãe, que julgou que eu tivesse crescido o bastante para continuar com um armário a tão baixa altura.
 
Nem são essas as coisas que mais me impressionam. Eu já posso sentir a calma que reina nessa casa, já posso - ou não - me impacientar com todos os ritmos tão distintos da minha vida na capital. O que mais me impressiona é perceber que sim, os hábitos de uma família de interior serão sempre os hábitos de uma família do interior.
 
Sim, os hábitos de uma família que pouco se alimenta de cultura serão sempre os hábitos de uma família cujos filhos e pais não se interessam por um livro sequer, nem mesmo um livro de receitas.
 
O meu pai foi colonizado pelo televisor. Subi as escadas faz trinta minutos. Ele estava na frente do televisor assistindo Fátima Bernardes falar de preconceito a várias coisas, dentre elas: homossexualismo. Recentemente meu pai soube - pela minha irmã - que eu estou casado, apaixonado, morando junto com outro "cara". Ele parece não ter aceitado a situação e eu - ainda estou consultando os astros - busco o momento exato de dizer a ele tudo o que preciso dizer. Será ainda esta semana.
 
Estava dizendo da distância. A gente fica grande e a última vez que eu estive aqui eu tinha, sei lá, treze, quatorze ou quinze anos. Eu estou com 26 anos hoje, quase 27. Passaram-se muitos anos. Eu perdi o fio da meada.
 
Chá das 00h
 
Ontem, eu e minha mãe, fomos tomar um chá por volta de meia noite. Eu havia perguntado a ela sobre o meu pai em relação ao fato de eu ser gay. Ela também soube faz pouco tempo e me pediu tempo para tentar entender. E entendeu. Mas se eu der muita atenção, ela chora, como se fosse triste eu ter virado isso que eu sempre fui.
 
Meu irmão, por exemplo, disse a ela que provavelmente eu não devo ter experimentado uma mulher de verdade, que provavelmente eu não provei uma boa mulher antes de ter virado bicha. Minha mãe então me conta tudo isso e fala algo como: ele sempre foi machista. E eu, no meio disso tudo, fazendo força para pertencer a este circo. Fazendo muita força para não desistir de ser filho, irmão e ser humano.
 
Tenho ficado com muita vontade de conversar em mesa aberta. Falar com todos sobre a minha condição, não por mim, mas por eles. Sinto muita dor ao ver cada um olhando para o assunto de forma tão desprovida de cuidado. Eu compreendo que é a forma de cada um, eu respeito isso. Mas a questão que me dói muito diz respeito à ignorância. Não poderia eu ajuda-los um pouco? Adiantar algum mistério? Resolver alguma intriga?
 
Eu posso, mas não quero, não fazer parte da minha família.
 
Sobre, então, ser artista
 
Tão estranho como ser gay, dentro dessa família, é ser artista. Tudo parece escolha, como se na vida tudo pudesse ser escolhido. Eu sou artista e isso causa estranhamento, afinal, eu penso: para que serve isso de ser artista? Você ganha dinheiro? Mas por quê? São muitas perguntas, mas pouco esforço para ouvir o que está dado.
 
Ontem, ao tomar o chá com minha mãe, falamos um pouco sobre a morte. Falei dos pais dela, meus avós, já falecidos e voltei a falar sobre o suicídio da minha amiga. Sempre tento desmistificar a coisa do suicídio, afinal, dizer que foi loucura sempre é uma forma de resolver as coisas. Minha mãe tolera o estranho sem problema algum, apesar de uma ou outra careta.
 
Falamos de morte e eu fui dizendo a ela que, para mim, esse negócio de morte era tranquilo. Não quer dizer que eu saiba como lidar, não quer dizer que eu esteja querendo que aconteça comigo. A questão primordial frente à morte sempre me parece ser: não extrapolar o medo. Não sofrer mais do que aquilo que virá. Não mexer no tempo. Deixar a morte vir e te levar. Deixar morrer ou, simplesmente, deixar viver.
 
Cigarro não
 
O último cigarro que fumei foi apagado às 18h20 do dia 05 de maio de 2014. Dali, entrei num táxi e me vi na rodoviária do Rio de Janeiro, correndo para pegar o ônibus que me trouxe até aqui, Vassouras.
 
Vontade de fumar? Tive de ontem para hoje. E hoje novamente. Não trouxe maço e nem isqueiro. Não pretendo sair de casa e comprar um varejo nem mesmo fumar escondido nem mesmo fumar ao vivo, na frente de meus pais. Não é por medo, não é por nada exceto por desejo: de me ver sem isso.
 
É curioso como vamos nos tornando pessoas ansiosas. Eu acho que eu pago algum preço - com moeda-ansiedade - por ter alcançado alguma lucidez. Que eu seja alguém lúcido, sem pretensão, por conta disso, eu acho, realmente acho, eu pago um preço (que me leva a ser amigo da poesia, da morte, do cigarro e da distração).
 
O amor bate na aorta. E se ela estiver entupida, por conta de um cigarro, o que eu vou fazer?
 
É melhor eu parar de fumar. Mesmo.
 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

17h23

hora improvável para algumas coisas
como voltar para casa
eu penso
agora
úmido após lavar a louça
e minha mãe?
e meu pai?
minha casa de nascença
por que foi que me tirei deles?

a gente fica grande antes da hora
e só depois vai fazendo o sentido da coisa
esse gesto meu
de reserva
é desculpa minha?
por conta do quê?

volto hoje para casa
acabei de passar o cartão de crédito
ida
com volta
mas volta
lá na frente
uma semana depois de hoje

e contar-lhes sobre quem eu sou
sobre quem me tornei
sobre o meu marido
pai, sim, acredite, eu sou gay
tenho casa
comida
e roupa no varal lavada

quanto
tanto
eu não queria mais nada
exceto aprender
a ser filho
de volta

...

perceba

foi só você fechar a porta
rumo ao aeroporto
que eu me quedei aqui
entre palavras e letras.

não tem mistério
tudo é claro o bastante.

você é minha poesia.

quando contigo
não me vem palavra
quando sem ti
palavras me revelam
e me enzimam.

você é minha poesia
cafona, um pouco, talvez
mas sempre precisa
não por precisão
rigor
mas por necessidade, meu amor

você é poesia minha.

em versos alternados
te olho em seu compasso
e vejo a lindeza
que é viver o dia
tentando escrever o próximo passo
eu vejo a minha doença
em ti, se discernindo
eu virando outra coisa
você virando outro bicho

e
no entanto
hoje
se você sai e pega um avião
eu continuo sobre nós
entretido
continuo escrevendo
o isso
o óbvio
o Isto

poderíamos chamar de outra coisa que não amor, meu coração?

diga-me sim
ou não:

___.

ode to...

quis cantar bem alto
peito aberto, vasto
quis mesmo
desnudar os passos
sobreviver sobre invisível
comando

dancei de olhos voltados
para o dentro
dancei sem medo do tropeço
era alma
minha
aprendendo a ser jogo
passagem

voltei até aqui
te vi e tu me olhou
não sei ao certo
mas fechou
flechou
firmou
ferrou
...

desci a ladeira do coração
falei-me coisas feias
reprovando-me de antemão
mas

(sempre um mas)

mas
não!

escalei com braços finos o meu abismo
subi-me inteiro como sobe
o vômito pelo intestino
fui fundo
e voltei do buraco
movido a você

pode?
acontecer isso?
pode?
isso acontecer?

miramo-nos
para depois
amarmo-nos
e amamos
e seguimos
amando

como pode isso acontecer?

nada falo
nada digo
só me espanto
para não acostumar... com essa beleza que é nós dois ;-]
 

Aguardando a confirmação do pagamento.

Não há nada. É isso mesmo. A manhã amanheceu de novo. O café que antes estava quente agora já está meio ao meio. Não sei de nada. Não quero saber. Não paguei as contas e não pensei no futuro. O meu instante se resumo a sê-lo, nele, inteiro, sem ismo.

Penso um pouco antes de te escrever essas palavras. Há uma fome em mim que me faz comprar cadernos e canetas para estar pronto - vai que? - eu precise me usar das palavras em folhas largas. Eu queria compreender como eu posso precisar tanto das palavras. Eu ainda não entendo.

O café aqui. O amor viajando. Eu sozinho, pensando, que sim, este espaço da solidão é essencial. Eu preciso entender isso. Por que é que eu estou me exigindo, ultimamente, entender tantas coisas? Eu queria entender o motivo disso.

Não, não é nada. Não é depressão, não é chuva, não é montanha, nem serra quiçá vale. É planície retina em verde e acolchoada. Nela deitam-se palavras desconhecidas e também outras, velhas e novas.

Em breve eu verei minha mãe, meu pai, minha casa da infância. Em breve estarei com meus sobrinhos e irmãos. E eu acho que estarei com aquele eu perdido dentro de mim. Para onde foi que eu me meti que eu fiquei triste tão rápido?

Cismo com essas coisas, enquanto aguardo o cartão de crédito confirmar o pagamento do leite dos meninos.

domingo, 4 de maio de 2014

a solidão essencial

sem ela, o poema escrito é mero grito, injusto e já decifrado, pregando contra si mesmo - o poema - o seu descaso frente ao mundo em tal estado.
não. não pode. é preciso se afastar. vai, poeta, foge (nem para a mata, nem para sob o luar), afasta-te de tudo e fique só, por uns dias que seja, por algumas horas talvez seja pouco. é preciso sofrer a solidão para poder de novo se confiar.

tens nas mãos um cuidado dentro do qual dormiria tranquilo - por hoje, que fosse - dormiria tranquilamente o nosso mundo.

mas, afoito, perde a possibilidade de cuidar e vira sarau de tiros sem destino. produz poesia como se produzem livros... tudo errado. tudo impreciso.

como fazer?

recolha-te. e aprenda - de vez - que o seu silêncio é mais importante que escrever.

...