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terça-feira, 6 de maio de 2014

ao tomar o chá com minha mãe, falamos um pouco sobre a morte.

Acho que eu entendi algo muito importante sobre os retornos que faço à casa de minha infância. Quando eu chego aqui - onde estou agora - eu consigo - de maneira clara e muito eficaz - eu consigo me ver à distância. Sem mistérios. Eu fico claro. E as minhas relações familiares também. Tamanha distância entre quem eu sou hoje e quem eu fui um dia.
 
A casa antiga está pequena. Não é novidade. Eu havia retornado, em dezembro passado, e já tinha percebido que o meu armário na cozinha tinha sido passado mais para cima, por minha mãe, que julgou que eu tivesse crescido o bastante para continuar com um armário a tão baixa altura.
 
Nem são essas as coisas que mais me impressionam. Eu já posso sentir a calma que reina nessa casa, já posso - ou não - me impacientar com todos os ritmos tão distintos da minha vida na capital. O que mais me impressiona é perceber que sim, os hábitos de uma família de interior serão sempre os hábitos de uma família do interior.
 
Sim, os hábitos de uma família que pouco se alimenta de cultura serão sempre os hábitos de uma família cujos filhos e pais não se interessam por um livro sequer, nem mesmo um livro de receitas.
 
O meu pai foi colonizado pelo televisor. Subi as escadas faz trinta minutos. Ele estava na frente do televisor assistindo Fátima Bernardes falar de preconceito a várias coisas, dentre elas: homossexualismo. Recentemente meu pai soube - pela minha irmã - que eu estou casado, apaixonado, morando junto com outro "cara". Ele parece não ter aceitado a situação e eu - ainda estou consultando os astros - busco o momento exato de dizer a ele tudo o que preciso dizer. Será ainda esta semana.
 
Estava dizendo da distância. A gente fica grande e a última vez que eu estive aqui eu tinha, sei lá, treze, quatorze ou quinze anos. Eu estou com 26 anos hoje, quase 27. Passaram-se muitos anos. Eu perdi o fio da meada.
 
Chá das 00h
 
Ontem, eu e minha mãe, fomos tomar um chá por volta de meia noite. Eu havia perguntado a ela sobre o meu pai em relação ao fato de eu ser gay. Ela também soube faz pouco tempo e me pediu tempo para tentar entender. E entendeu. Mas se eu der muita atenção, ela chora, como se fosse triste eu ter virado isso que eu sempre fui.
 
Meu irmão, por exemplo, disse a ela que provavelmente eu não devo ter experimentado uma mulher de verdade, que provavelmente eu não provei uma boa mulher antes de ter virado bicha. Minha mãe então me conta tudo isso e fala algo como: ele sempre foi machista. E eu, no meio disso tudo, fazendo força para pertencer a este circo. Fazendo muita força para não desistir de ser filho, irmão e ser humano.
 
Tenho ficado com muita vontade de conversar em mesa aberta. Falar com todos sobre a minha condição, não por mim, mas por eles. Sinto muita dor ao ver cada um olhando para o assunto de forma tão desprovida de cuidado. Eu compreendo que é a forma de cada um, eu respeito isso. Mas a questão que me dói muito diz respeito à ignorância. Não poderia eu ajuda-los um pouco? Adiantar algum mistério? Resolver alguma intriga?
 
Eu posso, mas não quero, não fazer parte da minha família.
 
Sobre, então, ser artista
 
Tão estranho como ser gay, dentro dessa família, é ser artista. Tudo parece escolha, como se na vida tudo pudesse ser escolhido. Eu sou artista e isso causa estranhamento, afinal, eu penso: para que serve isso de ser artista? Você ganha dinheiro? Mas por quê? São muitas perguntas, mas pouco esforço para ouvir o que está dado.
 
Ontem, ao tomar o chá com minha mãe, falamos um pouco sobre a morte. Falei dos pais dela, meus avós, já falecidos e voltei a falar sobre o suicídio da minha amiga. Sempre tento desmistificar a coisa do suicídio, afinal, dizer que foi loucura sempre é uma forma de resolver as coisas. Minha mãe tolera o estranho sem problema algum, apesar de uma ou outra careta.
 
Falamos de morte e eu fui dizendo a ela que, para mim, esse negócio de morte era tranquilo. Não quer dizer que eu saiba como lidar, não quer dizer que eu esteja querendo que aconteça comigo. A questão primordial frente à morte sempre me parece ser: não extrapolar o medo. Não sofrer mais do que aquilo que virá. Não mexer no tempo. Deixar a morte vir e te levar. Deixar morrer ou, simplesmente, deixar viver.
 
Cigarro não
 
O último cigarro que fumei foi apagado às 18h20 do dia 05 de maio de 2014. Dali, entrei num táxi e me vi na rodoviária do Rio de Janeiro, correndo para pegar o ônibus que me trouxe até aqui, Vassouras.
 
Vontade de fumar? Tive de ontem para hoje. E hoje novamente. Não trouxe maço e nem isqueiro. Não pretendo sair de casa e comprar um varejo nem mesmo fumar escondido nem mesmo fumar ao vivo, na frente de meus pais. Não é por medo, não é por nada exceto por desejo: de me ver sem isso.
 
É curioso como vamos nos tornando pessoas ansiosas. Eu acho que eu pago algum preço - com moeda-ansiedade - por ter alcançado alguma lucidez. Que eu seja alguém lúcido, sem pretensão, por conta disso, eu acho, realmente acho, eu pago um preço (que me leva a ser amigo da poesia, da morte, do cigarro e da distração).
 
O amor bate na aorta. E se ela estiver entupida, por conta de um cigarro, o que eu vou fazer?
 
É melhor eu parar de fumar. Mesmo.
 

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