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segunda-feira, 27 de outubro de 2008

You'll be the one screaming out

Cada parte da casa ganha vida
separadamente.

Não há mais como pisar no piso do quarto
enquanto a pia da cozinha acolhe o sabão
a louça entre suja e limpa
e as mãos,
que as lavam para novamente em seguida
doarem-se ao meu corpo.

Não há mais essa possibilidade
de ter a luz acessa fazendo um contorno outro
que não seja o do meu silêncio,

tudo agora está repleto
de profunda consternação
a poeira resta calada
e essa é nossa opção

estamos juntos, sim
agora sim estamos juntos
agora sim podemos ler
fazer compreender
que isto é um fim.

Cada parte da casa agora agoniza
por atenção
a descarga
o privado do quarto
tudo agoniza e clama
pela minha mão
que não vem,

a luz se apaga
e acendo uma ou
outra
vela
espalhadas

essa é a cor deste momento
esse é o risco de tombando a vela
deitar o fogo sobre o colchão
e acender nisso
um novo sentido
posto assim mais forte
mais veemente
impedindo o pensamento
e emergindo nova mente

mais consistente
pois desejosa
menos temível
pois não há hora
passada ou adiante
não há tempo
que não seja o do instante.

domingo, 26 de outubro de 2008

Uma composição da decomposição

_____________________________________________________________ 19/04/05

Pela fenda
O ar entra em minha cela.
Pela fresta
O sol queima minha perna.
Pelo canto
Minha vida se desfaz em pranto.

No entanto,
Nada disso é apropriado,
Se não se pode tirar do banho
O poeta. O escravo do próprio
Sonho.

sábado, 25 de outubro de 2008

Gravação - Dia 1

Calor dos infernos.

Compras em cima da hora.

Faltam duas fronhas amarelas.

E o roteiro está decupado.

E o microfone,

e o microfone?

Alguém me ouve?

Algúem

Alguém

"Eu sou alguém, tá?"

Sobre ombreiras, polainas e mimeógrafos

PRÓLOGO:
O ANTI-FUNK
PREPARANDO O DIA
É melhor acordar sozinha do que com balde de água. O despertador ainda nem tocou e eu já estou de pé, querendo deitar outra vez. Então eu lavo o rosto. Dizem que a água fria ajuda a acordar. Depois tomo um banho quente, acho que a água quente ajuda a dormir outra vez. Aí ouço a minha mãe gritar.
Vai sair com essa roupa, filha?
Eu nem saí do banho e você já está implicando! Eu saio com a roupa que eu quiser. Sou eu que vou ficar feia, não é você!
Criança quando dá para desrespeitar os pais não quer saber de outra coisa.
Eu não sou criança! E sabe do que mais? Eu estou namorando!
Ai, meu Deus! Qual é o nome do delinqüente?
Da delinqüente, mãe! Da delinqüente!
Você tá namorando uma menina, menina? Ficou louca?
Fiquei. Louquinha. Você não tá vendo? Passei o batom no olho. E o rimel na boca. Sorte que o pó de arroz acabou, porque se não eu cheirava o pote inteiro.
Um dia eu fui contar pra minha filha quando eu conheci o pai dela. Foi quando eu tinha dezesseis anos. Na época, eu peguei uma paixão fulminante. Não pensava em outra coisa, a não ser no seu pai. Eu tinha dezesseis anos e não queria mais nada. Foi quando você veio!
Eu não pedi pra nascer!
Nem eu! Aliás, tudo o que mais pedi nesse mundo foi para não ficar grávida antes da hora. Mas acho que as coisas que a gente não quer acontecem mais facilmente.
Mãe, o chuveiro pifou! Logo hoje que eu marquei um encontro! Como eu vou com o cabelo sujo? Vai ser um mico total!
Espera que eu vou esquentar uma panela d’água pra você!
Eu sempre chego atrasada na escola. O único “A” que eu recebo é de atrasada. Em compensação, tenho o resto do alfabeto quase todo. Só falta receber um “X” e um “Z”.
Quem sabe assim você não toma vergonha e estuda?
Quem sabe assim o chuveiro não funciona e eu consigo tomar pelo menos um banho antes de ir para a escola?
Não sei pra que banho, você se pinta toda com esse monte de maquiagem! Fica suja de novo num instante.
Quem sabe se você não usasse um batom o papai te dava um beijo, hein?!
Olha como você fala! Você tá achando que eu sou sua coleguinha de banco de colégio?
Eu não tô achando o meu brinco. Você viu?
Outro dia eu vi uma menina andando na rua com um brinco só.
Como ele é?
Era um brinco feito de pena, uma pena maior que a orelha dela.
Tá na moda.
Andar com uma pena pendurada na orelha?
Não. Usar um brinco só.
NO ÔNIBUS
Eu odeio esse uniforme da escola! A primeira coisa que eu faço antes de entrar no ônibus é colocar a camisa. E a primeira coisa que eu faço depois de entrar é tirar. Eu tô ficando descabelada!
Tem dias que o ônibus corre tanto que eu fico enjoada! Se eu tento dormir, acordo com a cabeça batendo no vidro.
Ou... Outro dia, uma menina dormiu do meu lado e babou no meu ombro. Escuta uma coisa, minha filha! Dormir tudo bem, mas babar é sacanagem!
Perdão. Eu não queria.
É claro que não queria! Aliás, ai de você se quisesse babar em mim! Olha o meu ombro, parece até que eu tô usando uma ombreira! Poxa, sacanagem!
Pior é quem fala alto logo de manhazinha. Justamente quando tudo o que você mais quer é um dormir mais um pouquinho antes de chegar na escola.
Ah, gente! Se eu tiver que amar alguém que eu nunca amei eu vou fazer o que?! Eu vou amar! Eu não tenho problema nenhum com isso! Amo gato, homem, papagaio, mulher... Menos barata! Eu tenho pavor de barata!
Passageiros, por favor, não entrem em desespero, mas tem uma barata voadora dentro desse ônibus. Aí todo mundo gritou, o ônibus bateu e a barata sumiu.
Motorista, eu quero a minha passagem de volta!
A culpa foi da barata. Ela era voadora! Se não voasse eu poderia ter pisado nela, mas ela voava! Como se mata uma barata voadora?
Eu vou chegar atrasada de novo! Corte as suas asinhas! “A” de atrasada. “A” de asas! “A” de aaaaahhhhhhhhhh!
Não se mexa! Ela pousou nos seus cabelos! Deixa que eu mato! Ué? O que você fez? Ela grudou no seu cabelo!
Não deu tempo do creme de cabelo secar. Aí sempre que eu abraço alguém ou quando alguém encosta no meu cabelo, a pessoa sempre leva um pouco do meu creme. Foi assim com a barata, só que ela ficou presa.
Eu tive que andar 12 quadras até chegar à escola. Fui correndo, suando, mas cheguei a tempo. O meu creme secou, os meus cabelos ao vento! Parecia cena de filme. Eu era a estrela! Só que ao invés de passar por cima do bueiro e ter a saia levantada pelo vento, eu passei despercebida e pisei!
Ai, que nojo! Fezes de cachorro! Merda! Merda! Merda!
“A” de atrasada.
“A” de acidente!
“A” de antes de atravessar...
Olhe para o lado?
Não. Para o chão!
Meu brinco!
NA ESCOLA
(Trocando bilhetes)
Você sabia dessa? O João ama a Teresa!
Pior para ele! Eu descobri que a Teresa ama o Raimundo!
Como assim? O Raimundo me disse ontem que ele morre de amor pela Maria!
Pela Maria?! Aquela que ama o Joaquim?
Ela mesma. Aliás, o Joaquim tá amando a Lili, dessa você sabe, não é?
Ué, mas a Lili viajou!
E daí? Quer dizer que quem viaja para de amar?
Não é isso. Mas acho que ela tem cara de quem vai se apaixonar por alguém com um nome bem feio...
Tipo o seu?
Não. Tipo... J. Pinto...
Fernandes?
É. Pode ser. J. Pinto Fernandes.
(A troca dos bilhetes é interrompida)
Vocês estão colando?
Não.
Não minta para a tia.
Você não é minha tia!
Até porque se eu fosse você seria mais educada, não é, mocinha?
Eu não sou mocinha!
Não?! É o que, então? Mocinho?!
Olha o respeito! Olha o respeito! Pega ele! Pega ele! Tá correndo, descendo a escada, pulando pela janela. Pega ele! Tá escorrendo, fugindo junto com o tempo! Pega, ladrão!
Teve um dia que a professora gritou tanto dentro de sala de aula que eu fiquei com dor de cabeça.
QUEM FOI HIPOTENUSA? ANDEM, RESPONDAM! QUAL O MELHOR SOLO PARA SE PLANTAR A RAIZ QUADRADA? EU NÃO VOU PERGUNTAR DE NOVO! QUAL É A CAPITAL DE BRASÍLIA? FALEM!
Eu saí de sala para ir ao banheiro e fiquei sentada no vaso, esperando a aula terminar. Foi quando ouvi duas meninas na cabine do lado...
De onde veio isso?
Das Lojas Americanas. Não usa tudo, deixa o resto para mim!
Isso é muito bom. Quanto custou?
Não sei... Eu ganhei.
Ganhou de quem? Da sua mãe?
Não. Do meu anjo...
Você tem um anjo?
Anjo Gabriel, conhece? Do sétimo ano.
Aquele menino loiro?
É. Mas eu pedi e ele não vai mais descolorir o cabelo não.
Vocês estão namorando?
A gente vai se casar.
Quando?
Na outra vida.
Ah, entendi. Você me convida?
Se eu te conhecer na minha próxima vida, eu te convido.
Vambora que acabou a aula.
Eu saí do banheiro e estava o maior bafafá. A professora ainda estava gritando com o pessoal da turma, mas não dava pra ouvir nada. A voz dela tinha acabado.
Eu juntei as suas coisas e coloquei tudo dentro da mochila.
Obrigada. Você quer ir comigo a um lugar?
Que lugar?
NA LOJA
Se a gente fosse usar tudo isso que eles vendem, a gente ia sumir...
Se eu fosse comer todos esses sabores de chocolate, eu ia era explodir...
Quem me dera!
Explodir?
Não! Ter dinheiro para comprar essa calcinha...
Você tá sem calcinha?
Claro que não! Mas é que a minha tá toda furada.
É bom que dá uma ventilada...
É bom porque toca cd de música, de foto e ainda DVD.
Meu Deus, essa loja tem tudo! Não falta mais nada. Já foi tudo inventado.
Mentira sua! Eu ainda não vi por aqui um Aspone.
O que é isso?
Não sei. Acabei de inventar.
Pode ser um... Um... Mieróbio?
O que é isso?
É o primo do mimeógrafo. Você conhece?
A minha mãe tinha um desse.
Nossa, mas tá tudo caro! Acho que eu vou levar só a batata.
Isso não é uma batata. Onde já se viu batata que é carne assada?
Dentro desse pacote. Será que cabe em mim?
Em você eu não sei, mas que eu ficaria perfeita nisso aqui, eu tenho certeza!
Compra!
Quanto é?
Só tem nas cores abóbora e fúcsia.
De que cor?
R$ 39,99. Por que não colocam 40,00 reais de uma vez?
Pra que você entregue quarenta e os atendentes te perguntem...
Posso ficar te devendo um centavo?
Não.
Perdão?
Eu disse que não. Eu quero meu um centavo de troco.
Mas, senhora, nós não temos moedas de um centavo.
Tudo bem. Então cobre R$ 39,95 e me dê cinco centavos de troco.
Mas, senhora...
Vocês deviam vender educação! Ou quem sabe, um pote cheio de noção!
Nós temos loção!
Eu disse noção, sua sem noção!
Louças pequenas e grandes, todas elas elegantes!
Você tá louca?
Se estiver rouca, vendemos pastilhas de melagrião!
E se eu estiver muito irritada?
Nós temos esfihas e massas pré-congeladas!
Para dor de cabeça?
Nós temos todas as dez temporadas em DVD. Cada box custa 100,00. No desconto, toda a série sai por R$1000,00. Vai querer?
Eu comprei um bombom que estava na promoção. Foi só quinze centavos. E com um real, eu comprei seis! Seis!
E ainda sobraram dez centavos pra pegar o ônibus.
Eu nem quero ter um celular! Imagina a minha mãe ligando de dez em dez minutos?
E pra quê ter relógio? Além de ser assaltada, eu sempre chego atrasada!
Aquela calcinha eu jamais ia querer. Ela vem com um detalhe dourado. Onde já se viu? Parece enfeite de árvore de natal!
Gente, eles já começaram a vender enfeite para o Natal!
Não, menina! Isso é uma camisola.
Nossa! Achei que era aquela coisa...
Que coisa?
Aquela coisa, sabe?
Acho que sei... Sabe de uma coisa?
O que foi?
Vambora daqui?
Vamos.
EPÍLOGO
Você tá vendo novela?
Não, tô só ouvindo. Eu fico no quarto fazendo as minhas coisas enquanto na sala a família toda tá reunida, vendo a novela.
Tá a maior briga entre as duas. Você ouviu?
Ouvi sim. Outro dia teve uma cena com puxão de cabelo?
Teve. A outra pegou o marido com a outra e ainda deu na cara dela. Você ouviu?
Ouvi. Teve também um dia que explodiu alguma coisa, não teve?
Teve. Foi o apartamento da fulana. A casa caiu, quebrou todos os móveis. Mas ninguém morreu, graças a Deus.
Elas gostam do mesmo cara?
Claro. Igual na vida real.
Não é nada...
É sim. Sabe o André?
Que é que tem o meu amor?
Hoje todo mundo ficou sabendo que ele também gosta da Amanda.
O que?
Sorte que você não foi à aula. Ia ser o maior quebra barraco.
Safado! Eu vou quebrar a cara dele amanhã!
Ih, nem vai precisar. A Amanda já fez isso. Você tinha que ver. Parecia cena de novela. No meio do recreio, gritou com ele e deu o maior tapão na cara dele. Disse que se fosse para ficar dando em cima das duas, que escolhesse outra, porque ela não era mulher pra ser amada pela metade não!
Caramba! Mandou bem.
Por que você não foi à aula?
O chuveiro tirou férias.
E já voltou?
Voltou...
O que é que você tem?
Eu aproveitei e tirei o dia pra pensar.
Pro trabalho de história?
Não. Eu fiquei pensando na vida mesmo. Fiquei tentando entender porque a gente nasce como nasce. Fiquei me perguntando, porque eu sou mulher e não homem?
Quer mesmo que eu responda?
Não, não é isso. É que eu pensei, talvez não fosse tão ruim ser homem. Não ter menstruação, nem filhos, nem...
Os homens também têm filhos. E todo mundo tem pai. Mesmo quem não conhece. Mesmo assim, a gente sempre tem pai. Mas é verdade, homem não fica menstruado...
E nem é tão sensível assim...
Assim como?
Como eu e você.
Mas ser sensível não é ruim. E não são apenas as mulheres que são assim.
Ser sensível às vezes dói.
Por quê?
Porque você vê certas coisas que normalmente não se vê.
Tipo o quê?
Tipo como as pessoas sofrem caladas. Tipo o silêncio da minha mãe que diz tudo sem dizer nada. Tipo o que a gente esconde nos olhos porque não pode dizer. Por ser sensível a gente vê tudo isso... E dói porque não podemos falar.
Eu não sou sensível. Mas gostaria de ser.
Eu que sou, gostaria de não ser.
Imagina olhar para as coisas e poder ver muito mais? Olhar para as flores e saber como descrever seus cheiros. Imagina, poder inventar músicas, poemas e escrever livros inteiros?
Para você ser sensível é bom?
Para mim, as coisas são tudo ao mesmo tempo.
Você ficou sensível de repente?
Não. É verdade. Acho que as coisas são belas e sujas. São graves e agudas. Acho que tudo tem seu lado assim e o assado. Tudo no mundo é meio simples e meio complicado. Depende do que queremos ver, do que precisamos entender. Você já leu esse livro?
Quando eu era criança.
Acho que você devia ler de novo.
Mas eu já li.
Você era criança... Mas e hoje?
Hoje eu encontrei aquele brinco que eu tinha perdido.
E eu acabei dormindo no ônibus e babando no ombro de uma mulher.
Eu comprei bombom. Você quer?
Quero.
Sabe qual é o sabor?
Não... Qual?
Galinha caipira. Acabaram de inventar.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Busca

Algumas das coisas que listei não pude realmente encontrar. Até o momento em que vi que a mãe buscava a filha morta em todos os lugares. Que não cessava de correr e gritar, como se vagando e gemendo fosse fazer emergir a carne já fria, o sorriso de cálcio e os restos da roupa comida.

Estaríamos buscando algo assim parecido?

Eu buscando algo que não sei. Ela buscando algo morto, a princípio. Desesperei-me por completo, ao ver a sua tenacidade. Ao ver a sua certeza espelhar-se no mais cedo ou mais tarde hei de encontrar minha filha. Como posso então não ser tenaz? Como posso não correr ainda mais e buscar no caminho outra maneira de resistir?

Sinto que entre nós se cruza agora a busca por um sentido. Não saberia dizer em qual dos dois o sentido é possível à pele, a qual dos dois o sentido não importa compreensão, nem lógica. Não saberia dizer. Para mim as coisas extravazaram-se todas e o peito agora está sedento, sede para qualquer outra revolução.

E mesmo assim tão distantes, eu sempre consigo rememorar, com uma dor incondicional, o seu tentar, o seu gritar EU QUERO MINHA FILHA EU QUERO MINHA FILHA



Tempo.


Silêncio.

O que eu pudesse fazer para você?

Se eu pudesse fazer com outro sentido o peso desse absurdo,
se pudesse dizer de outro jeito para você
que ela não está andando
não está em Belém, não está
se eu pudesse dizer que ela apenas voa
agora

você me entenderia
ou isso seria demais para aguentar?



Se eu pudesse seguir sem esse peso
que não é peso de pesar
é peso de compromisso
é selo do amar

Quando criamos algo mais forte
do que é possível compreender
no momento em que você me diz
Eu te amo
e eu respondo eu também
sem perceber
sem se importar
que ali naquele dizer
estávamos sedimentado algo que,
independentemente da sua lápide,
realmente viesse a durar.



Está complicado aguentar
Por segundos é absurdo
é uma distância ( a do t e m p o )
que não se pode definir
que sabemos que vai sempre
por isso preciso disso aqui?

Só para nós, você sabe
Só para o nosso amor
só para a nossa parte

.

Você me escutou naquela mesma noite, quando

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Hipoglicemia

Ou quando é preciso morrer para sobreviver.


É preciso viver para começar a morrer. É preciso viver para começar a entender sobre a morte. Eu estou caminhando. Rumo ao morrer. Caminhando rumo ao entender. Acredito, eu sei, que algo sobre isso tudo só entenderei quando morrer. E alguns, eu mesmo diria, poderão dizer, aí então será tarde para entender. Mas, não. Eu devo, agora, dizer. Não há tarde, não há depois ou antes, há somente agora. Presente. O passado morreu, o futuro nunca será. Há esse momento do agora para nele ir me perder, encontrar. Independe. In presente. A lucidez vem a galope porque é preciso estar no presente. É preciso estar. O mundo não dá voltas à toa. Ele dá voltas para perder e encontrar. Para virar noite e dia. Para sofrer e chorar. Perdão. São duplos. São trios. Eu não saberia medir a precisão que me inunda neste segundo. Quando as mãos tremem e o doce desce o corpo inundando-me de salvação e morte.


Não sei porque fui ler coisas antigas. Mas se o mundo dá voltas, e só, dá voltas. Acabei me sentindo impelido, sem pensar nisso, a dar voltas também e voltar. E olhar com delicadeza o que já foi e nunca será. Exceto agora, quando redescubro o passado e confiro a ele a cor madura desse instante. A cor do despetalar. A cor do pêssego ferido, mas gostoso, pela mordida.


São dois casos. Dois sexos. Dois amores. Dois ódios. Dois nomes. Duas inversões. Tento não dar valor a um. Dou somente valor ao outro. Faço descaso de um. E o outro faz então sentido, causa-me sentido, sensório, sensação. Não é tão complexo assim. Eu disse. São dois nomes. Pas-de-deux. Não há paz. Sem terror. Não há vida sem corte. Ou seria, não há morte sem sangue.


Todo esse jogo de palavras é para tentar lançar adiante, avant-garde, a proliferação de sensações (por que o medo de escrever sentidos?) que vocês dois fizeram em mim tendo em vista – custo – a própria pele queimada, a própria face machucada, a próprio amor consumido. Deu-me vontade, neste instante, como tudo agora toma sentido, de enviar a vocês esses pedaços. De calçar uma meia e dormir descalço. De fumar um cigarro. E novamente ter que escovar os dentes.


O açúcar do leite condensado. A granola do cereal maltado. O leito já pelo estômago coagulado. Às 04h50min. Quando a lucidez bate no compasso do coração posto nos trilhos. Eu disse tudo o que preciso. Mas já não quero enviar. O nível de açúcar no sangue apenas pede a cama e a escuridão do quarto para receber o resto de insulina que dentro de mim percorre veias e vasos para, enfim, dentro das células entrarem e distribuir assim a vida pelo o que me mata.


Não é paradoxal. Mas o que é ser paradoxal? Você me fez estudar o clichê. O que é paradoxo? Absurdo. Contra-senso. Disparate. Contradição. Sinônimos são infelizes quando a felicidade é o silêncio. Estou inundado neste momento.


Excertos. Tudo fica mais pesado. E a mulher deseja o peso do corpo do homem. O homem deseja o peso do corpo do homem sobre si. E sob essa insustentável leveza dos seres, sou enfim, estou assim, a mostra. Não para museu ficar-me, não para institucionalizar a minha arte, mas para, enfim, inserir reticências.


Talentoso e disciplinado, sensível e estudioso, intuitivo e investigador, carismático e ácido. Só porque é no tempo que a ironia da vida se manifesta de forma plena e completa! Por horas, por projetos, por eu não admito, por banquete, por companhia, por Companhia, por caos, por brigas, por necessidade, por estudo, por aparência, por espontaneidade, por política, por engajamento, por empolgação, por exemplo, por saudade. Porque o vazio do buraco, que não é buraco há de ser preenchido mesmo que seja pelas primeiras atitudes vãs e no fim parecerá tão inteiro como aquele que não existiu e é aqui que nosso valioso tempo se manifesta de novo, só que agora ao nosso favor!


Obrigado, você, tempo, por passar.


E obrigado, no final (ou meio, independe, agora) das contas, vocês dois. Você, irmão. Você, ela. Não tenho mais vergonhas para dizer o que em mim, hoje enfim, é meu corpo. Meu sangue. Minha condição.

.

domingo, 19 de outubro de 2008

Anonimato

.
Isso é para provocar

é para se esconder
ou é para quê?

Já não consigo conceber
isso de atirar uma pedra
e em seguida me esconder
deixando o peito ferido
perdido
procurando a direção
do carinho que lhe foi destinado.

Já não consigo conceber
esse desejo que se mata acumulado
sem o mundo conhecer
sem testar a força do grito no ato
sem testar o ar no qual poderia
mas por medo
é incapaz de percorrer.

Me desculpa,
eu também já fui assim

Tinha medo de olhar se a certeza não estivesse dentro do meu bolso.

Tinha medo de atirar se o alvo já não estivesse morto.

Mas hoje, hoje mudou
e eu não posso mais acreditar
no amor holográficono amor holográficono amor holográficono amor holográficono amor holográfico
do amor feito sensação
quase incapaz de ser capturado

Não é questão de se identificar
não é questão de dizer um nome
ou classificar

Pois se assim não é então
eu contradigo estrofes passadas
e caio na cilada
de ver o amor vestindo máscaras

Sumindo
e surgindo
e fantasiando
a possibilidade de um encontro
que ainda é virtual
sem nome
sem ID

Amor sem identidade talvez não possa sobreviver
Talvez vire antes um câncer
que acaba antes por te comer
e assim

Amor não repartido extrapola o peito e só deixa um sorriso
molhado de bílis
regado ao gosto de ferro que há no sangue dessa boca que grita e não se esconde
mas ainda assim
boca que vaga perdida sem te ver no distante
caminho
dos passos
deste dia
.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Tempo.Momento

Eu me contemplo
e vago me perdendo
versando sobre quem poderia aqui vir me ler.

Num só momento
eu confundo o que é tempo
com o que posso vir a querer,

ter
deter
beijar
matar
morrer.

Essa poesia está suja ou ser suja é seu natural?

Essa escrita foi uncutida ou é habitual?

De antemão
tudo aqui é tão vital
tudo aqui ultrapassa (quase sempre)
a proposta conceitual

mas as rimas insistem
já disse uma vezes
feito lágrimas
precisam existir
insistem
e se modelam
para um dia
- plenas -
cair.

Não sei mais como dizer
seria lindo e pós-dramático
desenhar com o corpo
essa fragmentação do embate
de querer fazer e ser
ao mesmo tempo
que o fazer com o ser
se...

Enfim
eu não vou dizer
minhas palavras imprecisam-se
ao passo que dependo delas
para sobreviver?

Over?
Overoquê?
Que limite me faz dizer que o meu over
está além do(c)éu
ou é demais paraover ser?

DON'T
eu quero tempo
para entender
mas sem pensar
tempo para deixar correr
e nisso, meu bem eu digo
deixar correr pois tudo que corre
corre realmente para o seu morrer.

.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

The house is white,

but the painting is comming off.

...

Eu não sabia que você não estaria
mas mesmo assim dentro de mim acreditei
e duvidei
ao mesmo tempo
desenhando no corpo um tormento
que somente quem é íntimo pode dizer
Você está nervoso!
Eu me pergunto
se estou nervoso
dá para ver?

...

Um pedaço de cabelo no ar
o peito armado
tudo isso para sustentar
o peso do ouro
o brilho de um estorvo criado para em mim
te satisfazer.

...

Manhã que chega após a noite acordada
Para que a urgência para dormir
se já estou acordado
se acordado deverei estar
quando dentro de algum sonho
um recalque da infância vier me dizer
Ame, menino
Ame ou morra
Tudo isso antes do próximo amanhã
ser.

...

Duração
sem vergonha para olhar
agora funciona assim
o seu incômodo é a prova concreta
da minha força
bruta força que força a cerca
ultrapassa os limites
e deixa o que fazer
solto no pasto
feito gado ferido
a machado.

...

Um dia nasceu um gato
pequeno, evidente
mas também doentinho
meio sequëla
gato cuja altivez fora perdida no parto

Então meu avô pegou sua bengala
e com uma mão grudou as perninhas do pequeno viajante
ergueu com a outra a bengala
e a bateu, algumas vezes,
na cabeça do pequeno ensanguentado

Morreram
O gato primeiro
e depois de um tempo
o meu avô.

...

Deixa ventar lá fora
que aqui as janelas estão abertas
deixa o sol nascer irritado
que aqui dentro
meu peito não tem noite nem dia
e sim a sua eterna constante
e feroz
agonia.

...

A última sinceridade que estremece o corpo
e expõe a alma
eu disse antes d'ela dormir

Foi tão sincero
tão sincero
que o tempo me pagou
levando-a de mim.

...

Didios, te amo.

Eu também.

...

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Sloth quer chocolate

One thing about the new single...

video

Me diz algo concreto.

Vivemos numa era fragmentada.

Isso. Agora uma sutilidade.

Minhas unhas traficam o mundo.

Jóia. Agora uma sacanagem.

Matei um grilo a pancadas.

Nossa, inventivo. Agora uma coisa que tá na moda.

(Tempo).

Agora uma utilidade, me diz.

Os dedos.

Isso, bem bom. Fala um trecho de uma música.

Ainda que eu falasse...

Basta.

Pq?

Tô hipoglicêmico.

,,,

terça-feira, 14 de outubro de 2008

No dia em que fui mais feliz

A palavra você deixou de existir
Uma mutação genética assolou o planeta
e eu sabia o que pensava você
você sabia o que pensava a buceta.

No dia em que fui mais feliz
O sol desceu à Terra
e torrou cabelos
consumiu a atmosfera
e todos correram
desesperados
atrás de um frigobar
que pudesse conter
os órgãos do seu corpo
desmiolado.

No dia em que fui mais feliz
Eu não fui realmente feliz
porque nesse mesmo dia
eu descobri
que ainda assim
eu terei alguém, que não você
a quem jamé
poderei contar
o que eu enrolo
para aqui escrever.

É tudo mentira.

Ok?

sábado, 11 de outubro de 2008

Poema em pé

Estalo o pé direito
a música diz
sabotei o interruptor

as roupas no varal
e eu construindo um novo amor

Sábado
cigarro sujando o corredor
o quarto semi-arrumado
o peito semi-lavado

preciso pôr o cobertor
no sol
preciso de um varal que sustente
toda a sujeira que se esvái
pela água
que ainda é capaz
de limpar-me
todo.

Hoje dançei como nunca
cantei como sempre
mas não fiquei assim
impaciente

estou calmo
manso
pensativo
e mais crente

Nesta semana
mais um ano de morte
e vida
porque as duas se confudem
e não passam de amigos
que se amam tanto
pois por isso
são extremos
conceitos distintos
um é o começo
e o outro o princípio

!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Contigo

Um começo não é sempre um fim. Pensou ela sentada num banco estreito no jardim.

Não quer dizer que seja. O quê? Perguntou-se. Confundindo o início com o fim do pensamento, alimentando em ordens imprecisas o tormento daquele momento.

Esperava. Coitada, poderiam dizer. Mas era vida isso que dentro dela desbravava os órgãos, esquentava as partes e fazia coçar o ócio.

Espremia a pele do rosto feito bem-me-quer-mal-me-quer. Querendo acreditar que se o bem a preterisse, talvez tirasse de sabe-se lá onde, mais uma pétala reserva, mais uma cor importante da sua paleta, de seu corpo ali em conserva. De sua faceira maneira de estar ali, pernas cruzadas, sem revelar nada. Exceto a fábrica do coração bombeando bêbada a tarde que começava a escurecer.


Fez esforço para não se perder. Olhou os pássaros, brincou de acender e desligar a luz dos olhos. Depois de um olho só. Depois de só o outro. Entreteve-se como fazem os loucos, que sentam entre o sol e a sombra para não sentir nem frio nem calor somente.


Os pombos passaram. Alguns ali também pararam. O ar ao seu redor era um círculo de atenção. Parece que as plantas todas se viraram para fofocar, Quem é aquela florzinha a esperar? Mal foi a natureza perguntar e já logo o menino veio responder.


É você? Ele perguntou surgindo meio do nada.

Estava ela tão distraída que nem sequer escutou. Ficou olhando como se o som ouvido fosse o de algum pássaro ou bicho ali perdido..

É você, não é? Ele insistiu ainda em pé.

Sou eu, Valentina.

Então é você, aquela menina?

Sou essa sim. Sou essa aqui, disse empurrando-se para o lado do banco e abrindo espaço ao seu lado para o menino meio pálido de tão branco.


Sentou-se. Ela dentro de si se demolia. Não sabia se fingia coçar o rosto para limpar aquela espinha. Sentiu-se toda oleosa, coisa que talvez ele sequer fosse perceber, pois tremia tanto e tanto, que só conseguia ser grosso mal a boca abrisse para algo...


Eu posso te beijar?

Não é assim, ela iria dizer. Mas como era talvez fosse o que deveria primeiro responder. Seu nome é aquele?

Não. É apelido.

Então qual é?

Sobre o que te pedi?

Sobre o seu nome, querido.


As flores viraram todas para o outro lado. O ar pesou e ao contrário do combinado, ela ali insistia por algo além do planejado. Era um encontro safado, como ousava pensar. Era ir, se afastar dos olhares e encostar os rostos e calores sem alarde. Ele bem que tentou, falando em beijo e algo assim. Mas ela confundia-se no que poderia ser um início ou já um fim.


Olhe para mim, pediu.

O que você tá querendo?

Quero te ver primeiro.

E aí?

Prazer.

Tá me testando pra ver se vale a pena me beijar?

Não, talvez.

Pode dizer. Isso é normal. Sorte a minha ter gostado de você.

Sabe meu nome?

Qual?

Eu acabei de dizer.

Disse?

Disse.

Disse... Eu sei... Você sabe o meu?

Você não se apresentou.

Sou o Danilo.

Isso é um bom nome de menino.

Ainda bem, não?

Não sei...

O quê?

Lembrou?

Você vai se ofender?

Valentina.

Pronto.

Obrigado, Valentina.

De nada, Camilo.


Avançou do banco rumo ao espaço daquilo. Ele atrás meio contrariado, sentindo-se bobo e manipulado. Seguiu a menina e rumo ao mato foi ligeiro. Ela estava o levando para onde, perguntou-se. Ela, porém não soube responder para si o que a fizera entrar naquele caminho. Sempre brincara no jardim, no zoológico, mas entrar assim após tanto tempo sem ali voltar. Saberia se preciso retornar?


Tem muito mato nesse lugar.

É uma floresta.

Era de se esperar. Ele disse tentando tapear a confusão do momento.

Aqui está bom.

Mas ainda é cedo.

O quê?

Alguém pode nos ver.

Melhor que seja uma pessoa do que uma coruja, não acha?

Melhor que ninguém nos veja?

Por quê?

Você não está envergonhada?

Você está.

Não é por você.

É claro que não.

É que eu sempre fico nervoso. É difícil não ficar.

Estamos aqui porque queríamos um beijo.

Eu ainda quero, disse o menino todo se fazendo de sincero.

Então... Não temos nada contra. Tudo nos leva ao beijo.

Eu posso?

Pode o que, menino?

Danilo.

Camilo.

Você é engraçada.

Eu não sou nada exceto isso.


Ela quem o beijou. Foi tudo de supetão. Ai como foi doce, como foi especial. Como as bocas se encontraram em comunhão descomunal. Tudo era perfeito. A natureza espreitava com todo o respeito. Tudo foi perfeito, porque havia nos dois um simples desejo. Experimentar. Beijaram-se e não quiseram nunca acabar. Sabiam, no fundo, que desligada a tomada, tudo o que viesse depois seria conformado. Sabiam que se o pacto ali rompesse tudo depois seria mexido, seria quase tudo adaptado.


Então por isso e mais algumas coisas que no corpo reivindicaram espaço, enfim, os dois nunca mais se soltaram. Achei prudente, porém, ceder-lhes este espaço, essa voz. Afinal, sempre que por ali eu passo, eu vejo um sobre o outro, como se o medo de se perder fizesse ainda mais um a outro ir se prender.


Os pombos passaram. As flores enjoaram e vieram outras gerações. As mães preocupadas porque desde cedo as pequenas pétalas já viam pela janela de casa aquilo ali feito programa de tv. Desde cedo as flores sabiam como desabrochar. Era ir treinando o momento de virar gente grande e doar-se a outro ser. Feito é com o beijo. Num ir e vir com meio termo. Num embrulhar e rasgar o embrulho por inteiro, mas sem nunca mostrar por completo o que gostaríamos de ter escondido ali dentro. Tudo escondido para ter o prazer de se revelar.


Fim.