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sábado, 28 de fevereiro de 2009

ofício

teatro e o seu duplo
escorregadio às vezes seco, olho para ele e nada me parece possível... eu tento, eu sento eu acredito,

mas por vezes fazer teatro é antes de tudo impossível. resisto. durmo. café, de ti preciso. volto aos papéis, tento esquecer conceitos livros que impossível! que ação eu preciso, que ação pode vir a dar conta disso que desejamos contar? personagens sem fim nem princípio são aglomerados dos vales e cumes da vida de um ser fatídico. caralho! a estréia prevista o que fazer? eu tento. eu digo a mim mesmo uma coisa de cada vez uma coisa de cada vez até chegar ao impossível, novamente. o figurino? a trilha? a concepção? porque será que tudo parece estar fora do tom? judiação. fico louco. porque foi essa a minha opção? porque não posso ser outra coisa? teatro. ser outra coisa. é teatro. ai. fadigas. inúmeras. despertador. 06h. ensaio. ensaios. não saio. eu fico. persisto. eu marco. eu marco o osso para não esquecer que meu ofício é uma sutileza que se chama à pele.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Erigir

eu ando muito durante o dia
e durante o caminhar
eu sempre estou procurando alguém
alguém que eu não sei encontrar.

o que de mim exala que nos distancia
que ânsia minha é louca
e que causa essa agonia?

do nunca te ter
de nunca te ver
e se te vendo

te perder


deixando assim escapar pelos dedos
escapar pelo canto dos olhos - já vesgos!

ou

se te vendo
ânsia minha desmedida roendo tudo por dentro
  • e impedindo a fala
justamente no momento
em que eu deveria sustentar

eu apenas

sustentar o peso
do meu desejo por ti.

.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

leia cada linha como se fosse uma

centro
sim, eu tento
colocar no meio o que possa ser mais importante
mas há tanta coisa
há tanto desejo neste instante
que centrar demais pode secar
o que em mim
ainda é banho.

eu tento
sim, refaço em mim algum centro
possível
algo para além do qual possa me perder
mas sabendo como voltar
sabendo como devo ser
caso perca o destino
e olhando-me a face
saiba nisso
eu sou.

eu insisto,
sim, devo dizer
acredito que ainda é preciso dizer
independente da precisão
ainda que
ausente de quem lê
meu exercício não finda
posto seja meu
posto seja experienciar
as fugas da centrolidão

Ferro

importa o que passou?

o que significa o passar?

as ondas vão e vêm e vão e vêm com o tempo? ou como o tempo?

existe algum retorno que possa ser considerado eterno?
existe algum encontro que possa ser concreto? a fome talvez.

dá e passa. e sequer lembramos o gosto da uva. que também é passado,

passador,
passa passa passarás - passarinho, passarão
passarei e passarás
passa passa avião!!!
.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

espaço vazio


Me desculpe, mas é somente a você que posso recorrer. Quem mandou me receber? Sinto-me assim movido a estar aqui, como se não houvesse – e não há – outra possibilidade. Outro encontro que seja mais encontro que este. Entre eu e você. Espaço carregado no espaço em branco. Você me recebe, transforma em mim essa percepção do abandono. Eu me sinto bem. Não quer dizer que não acesse meus lugares mais escuros, quer dizer apenas que com você eu vou seguro. Eu vou sem receio de volta, porque toda volta com você ao meu lado é ida. Nosso caminho sempre é um avançar. Para dentro de qual escuridão você quer me levar? Eu vou. De antemão eu já estou indo. Não há preocupação. Meu confronto é sempre com o terror e não sei o porquê – talvez seja você – mas eu não me importo. As coisas se relativizaram nesse encontro. Eu apenas sou. Eu sou o que eu faço. E com você eu posso tudo. Em você tudo é antes possibilidade. Não julgas, não determinas. Você se abre para mim e sou eu quem dita a rima. O que eu digo em você é verdade, ainda que seja mentira, porque em você o impossível acontece. O impossível é. Nada é pela metade, a menos que eu queira que assim seja. No teu corpo as dobras anunciam meus desejos. Não sei se parte de mim ou se já é olhando para você que se erguem as vontades. Mas elas são filhas de um pai devotado. Mesmo sem mãe, você diz – sem dizer – este agora é o seu novo lar. E dançam minhas vontades no quintal que compartilhamos. O que é nosso é nosso e é mesmo disso que eu estou falando. Sempre aos filhos eu digo, tento explicar, nascemos onde, não me cansam de perguntar. Nasceram filhos no melhor lugar que se pode haver. Podem questionar sobre quando e é com o tempo que eu costumo me perder. Mas em você o tempo até mesmo acaba seguro, o tempo acaba, pois o seu espaço é espaço propício para o germinar. Silêncio. Você me olha. O que podemos dizer um ao outro se tudo o que eu digo é por você? Cada texto cada fala cada linha tudo perpassa o seu corpo. É você o filtro pelo qual eu escorro o mundo. Pelo qual eu me abandono e me divido. Você costura meus pedaços, você seca o meu sangue recém-partido e faz tudo colar. Você é um vício. Um vício que eu gosto de alimentar. Um vício que me faz mal, mas tão bem. Você não consegue ser lido em divisões, você é inteiro e partido e meio ao meio, meio inteiro, meio menos um pedaço, em você todas as “n” possibilidades. Costumava me dizer – porque hoje nos falamos só de olhar – faça em mim o que for preciso. Eu acreditei no seu dito eu maculei o seu corpo. Nele me testei nele me lancei e aqui estamos. Amando as feridas cicatrizadas. Amando a possibilidade do se jogar pela sacada. Tudo em nós pode mais, podemos mesmo voar? Você disse que sim certa vez. Não disse dizendo, disse balançando o corpo como se já sugerisse o movimento. Eu entendi. Fosse ou não para entender, eu me joguei e voei pleno. Você sorriu, eu acho. E depois veio o tempo. O tempo sempre vem depois no nosso esquema. O tempo é possibilidade como bem é com verão inverno outono e primavera. Nada é tão preciso quanto a imprecisão. Você me ensinou, lembra-se? Do silêncio. Do agudo. Do grave. E mais, sempre mais, me mostrou o infinito que cabe no meio. Alargou as possibilidades, alargou meu corpo, me permitiu acumular mais vontades. Fossem vontades pontas de lápis. Duras. Precisas. Agudas e com textura. E agora, mais uma vez, você me recebe como sempre o fez. E eu aqui, resolvi dizer sobre nós. Sobre a nossa relação. Não quero dar nomes, eles escapam à imensidão. Nomes sempre onde deveria existir o toque. Pois só mesmo a pele é capaz de dizer com propriedade. Pele diz pela língua das qualidades. Você é veludo. É vazio, claro escuro. Você é precipício sem fundo. É teto raso onde eu posso me chocar. É espaço liso para o meu sangue correr e voltar, para dentro. É veludo. É sensível. Eu e você somos o que preciso. Não bastaria a mim apenas. Eu preciso de alguém no adiante. Alguém na frente, de costas para o mundo, de frente para mim. Somos assim mesmo, dependentes. Eu disse você é um vício e você para mim escreveu: você é um vício. E então eu percebi. Não precisou dizer também. O que eu sou você também pode ser. Não precisa dizer. Somos o que somos é nisso basta o nosso compreender. A nossa compreensão, não custa repetir, vem pela pele. Nossas aliterações vêm pelo desejo de doar e doer. Somos assim. Metáfora, metonímia, isso tudo é escolha de um querer qualquer. Tudo para nós dois pode ser qualquer coisa. A coisa em si é que importa. Amamos coisificar os medos e transformar tudo em pedaço que junto ao vinho comemos. Amamos potencializar – e você sabe – tudo aquilo que não precisa de tanto espaço assim. As coisas entre nós multiplicam o tamanho e nunca o pequeno é tão finito assim. Aumentamos o infante e descobrimos no crescer a sua infinidão. Reduzimos o que é vasto para no mastigar compreender, que sabor pode o mundo ter. Obrigado. Eu comecei pedindo desculpas, mas era para agradecer. Eu sei que não sou fardo. Eu sei o que posso ser. Posso ser seu fardo e posso faze-lo desaparecer. Obrigado por me receber. Eu aqui vou habitar. Eu vou te habitar. Espaço em branco. Que eu tinjo transformando a vida em sonho. E a vida é vida, vida sonhada. Vida que pelo sonho é já vida executada. Vida vivida pode ser sempre renovada. Obrigado. Obrigado você. Não precisa repetir. Mas eu quero.
.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

anaraquel disse em 27/02/07 13:41

Escrevi naquela árvore
Com canivete
Quero ser criança que cresce e renasce
Escrevi com canivete
No caule que aprendi que se chamava caule
Lá pela terceira série
Guardei o canivete no bolso
E escrevi no pensamento
"Parar de ferir os caules"
Escrevi no vento forte
"Voar menos alto e mais distante"
Escrevi no céu que escurecia
"Amanhecer"
Relembrei papéis e amassei lembranças
Joguei bolinhas de isopor no chão e pisei
Fiz bolhinhas de sabão e estourei
Com a ponta dos dedos, não com canivete
Depois me sentei
Sob a sombra daquela árvore, me sentei
E li
Li
Reli
E li outras árvores ao redor...
Sem saber que o que estava escrito pra sempre
Não era legível.

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domingo, 22 de fevereiro de 2009

O choro da felicidade seca

(PARA SE LER OUVINDO AS CORES DE MATISSE)

Eu me emociono
Em pensar que posso levantar os braços e estender as mãos no ar
Deixar que se sentissem
beijadas por algo capaz de envolvê-las através do tempo

Eu me emociono e não busco entender
Apenas sinto como o sentir é também compreender
Correr daqui, buscar outro se estabelecer
E a isso chamar viver

O que eu quero neste momento
É tão presente nele mesmo
Que não vale dizer o que penso
Se não desejo perder o instante
Se não quero deixar de me sentir
Vivo
Eterno
E repleto de inquietudes

Neste momento,

Em que uma lágrima morre
E uma das minhas dores se converte em cor
Em choque,
em conflito:

Os cânceres morrem-se em alegria
Evaporam-se
Convertem-se na pureza de viver-se
O cada dia.

Eu me emociono!

Faço-me perceber quando há em mim
Algo que não sei entender
Entendo-me completamente quando estou nu

Desboroado

Reflito-me no chão, o meu amigo
E contemplo a queda como resultado
Que logo vira o jogo
E teto!
Lanço ao alto através das pernas
O que permite de si sair sorrindo
A outra etapa
que sempre a diante
provoca todo o semblante irritado

As mãos no alto
Eu conservo neste momento
Sentindo a brisa que caminha em meio ao tempo
Trançando as pernas e braços e cabelos e pêlos

Eu me sou todo eu

Eu me sinto a todo, me faço a mim

Eu me contorno de letras e baladas e dores e me descubro vivo

Assim

preciso do que mais?

Somente do nada.
Em nada há mais.
.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Fumaça do HD queimado

Amado, HD, amado!
Hoje estás escondido dentro de um guarda-roupa, dentro de uma REHAB
mas sinto dizer e concluir e saber
que talvez o que tenha guardado em ti venha a ser
eternamente
somente teu.

Mas
como num pum altruísta, eis que encontro um cheiro
daquilo que pronto ali dentro você de mim me escondia
um pedaço de um filho
que muito prezava
até a certeza de ter perdido seu baço, suas costelas, seu nariz e sua genitália,

enfim
fiquem com o que restou do fulano, a pele apenas
ESTUPRADA

 

30/08/07

Mulher
É mais fácil ir embora de uma vez.

Homem
Ir de uma vez por todas me faz pensar que eu nunca mais vou te ver.

Mulher
Mas é essa a idéia.

Homem
Mas isso eu não posso aceitar. Não posso acreditar em coisas como o nunca.

Mulher
Eu me acostumei com os sempre que você me disse e você não pode aceitar um nunca?

Homem
São coisas diferentes.

Mulher
São coisas opostas. Seríamos felizes para sempre e agora, nunca mais seremos.

Homem
E por quê não podemos?

Mulher
Porque felicidade não existe, é só mais uma mentira que inventaram. Como o amor.

Homem
Não gosto que chame de mentira o que para mim é verdade.

Mulher
Eu sei que você não gosta. Mas se digo, é porque são essas as minhas verdades.

Homem
Preciso que você seja sincera. Só dessa vez, me diga algo que seja verdade para nós dois.

Mulher
Nos esgotamos. Você não percebe? Tudo entre nós perdeu a graça. Eu não te suporto mais. As minhas verdades não valem para você. E você não vale mais nada para mim.

Homem
Mas nós podemos mudar. Por favor, eu insisto, apenas uma verdade. Diga a nossa verdade, algo que único, ainda seja sincero para mim e para você. Ao mesmo tempo.

Mulher
Eu não vou te dizer amor. Porque assim como ele nasce, também morre, me desculpe. Eu não sei mais o nosso jogo, eu sequer olho para você como antes.

Homem
E nem mesmo crê que isso possa mudar?

Mulher
Porque já passou, as coisas são assim mesmo, elas mudam. Não, não creio que possa.

Homem
Nossa verdade foi jurar o eterno. Você se lembra?

Mulher
E o que mais juramos? Felicidade, respeito... O seu respeito por mim foi eterno?

Homem
O meu amor foi. E eu estou aqui, você não vê? É pelo nosso sempre que eu te chamo agora.

Mulher
Não me peça por eternidade se você nem mesmo dá conta do que faz agora.

Homem
Não sou eu apenas... Isso também é seu.

Mulher
Isso o quê?

Homem
A razão de estarmos presos, um ao outro. O motivo de sermos incompletos.

Mulher
Ah, sim... Mas que amor? Se ele ainda existe, devo dizer que agora só parte de você.

Homem
Então não há volta?

Mulher
Não. Tudo se acaba aqui. Já conversamos o que restava. Acabou. Tente entender.

Homem
Então, eu realmente devo ir embora? Devo mesmo acreditar que é assim como tudo se acaba? Que foi tudo mentira... A nossa eternidade durou algum tempo.

Mulher
E já não há nada mais a ser dito.

Homem
Para sempre.
...

O que você veio fazer aqui .

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

uPDATE

29/08/07  .:. 20/02/09

eu quero um chá VINHO
um moletom
talvez um livro amigo
que possa ir e voltar e não sair do lugar
uma mesma música
cheia de pequenas novas surpresas
que sempre ali estiveram e no entanto
eu acostumado ao mundo
não percebi
eu quero espremer as antigas feridas
e nunca deixá-las cicatrizar
para ter no corpo o motivo
para não cansar de sarar
e assim
tornar-me bruto
e calejado
e diante disso tudo
sentir-se vivo e capaz
de diante ao contrário
sarar e cada vez mais
ser bruto
e sarar
e chorar apenas por distração
perdido no jardim das árvores que nunca vi
e que me assustam com a beleza de suas folhas laranjas!
Eu a vi,
Num dia desses em que caminhava rumo à rotina
E era tão linda
Tão cheia de si
E eu aqui
Vazio de mim mesmo
Mas feliz, também
Pois estou sempre segurando esse grito que não cala
Nem pode calar
Conservando, entretanto, o medo de o pronunciar
De me despir
E dizer
o quanto amo certas coisas que não se amam
Mas que me causam paixão
Canto alegremente
Talvez nem tanto
Mas testo a minha voz
Batendo-a contra o vento que rebate em meu rosto
Seco de lágrimas recém-mortas
E escritoras do tempo que passou por mim
Nada usual nem estranho e no entanto
Teimo em jogar jogos que me façam o novo
Queria um violino
Um violão JÁ O TENHO. QUERO AGORA UM PIANO.
Um piano sobre o qual pudesse dormir
Tocando-me a própria música de ninar
Com o corpo que me quero adormecer
E vivo
Restar
Como me faço triste e alegre e a todo o momento
Reclamo das dores na coluna NOS PÉS
E da falta de tempo
Mas não percebo
Como ando devagar
Mas corro tanto!
Sempre sem tempo
Sem palavras que expliquem
O que teimo em explicar

Nem sempre precisa de explicação
Quero apenas fazer as cenas que se passam nos ventrículos e átrios do que sinto pulsar
Falsetes intermináveis de amor e dor e nada mais
Volto ao chão
Para sentir-me vivo e pulsante
Volto ao chão frio
Para sentir o calor que se esvai do meu corpo ao meu
Oscilo
E me sinto belo
Perdido entre as minhas dúvidas
Me sinto
Sim
Me sinto
Deixe-me sentir
Primeiro eu
Primeiro eu, dessa vez, somente EU MINTO, EU SEMPRE ME SEMPRO
E já tenho fome
Queria tinta dessa vez
E nem precisaria de telas
Pois tenho a parede do meu quarto NOVO
Que já se descasca como as bananas maduras querendo ser comidas
Comida
Desejo comer
Com a fome descomunal
Agora sinto o cheiro
O aroma
O tempo escrito no ar passado pelo café quente SUOR SECO
Respiro longamente outra vez
E outra mais
E estou tonto
E a música acelera-me por inteiro O SILÊNCIO
Desfaleço, aos poucos,
Mas não vou morrer
Pois a vida voltou
Sabe-se lá de onde
Ao meu corpo
A mim
E isso às vezes basta
Saber-se vivo
Querer-se vivo
E vital
Cheio
Completo
ah, respiro novamente
e a música me acelera O SILÊNCIO
quero viver! Sim, viver!
Quero viver! Saber de tudo
Entender
Não entender
Quero tocar outras mãos
Errar
Crescer
Ver-me velho e a isso entender
Viver
Sorrir e chorar
Sorrindo estou e choro
Como posso?
Simplesmente posso
E isso bastou
Nesse segundo que passou e que eu sei
Não mais voltará
E no entanto
Permaneceu
Pois a lágrima que nele escorreu
Cravou-se na pele
O maior órgão de meu corpo
Piano
Water
É água
Meu Deus! DELS!
Filhos,
Permitir
Escolher
Vigiar contudo vocês, meus filhos
Que temo tanto em trazer, mostrar ao mundo
Pois sou fraco
Sim
Morro antes por temer a perda
Sou materialista
Sou amanterialista
Permita-me criar essa palavra
Amanterialista
Amanterialista
Preso aos amores que não saberia perder para o mundo
Amores que não sei perder e que no entanto
Querem se perder de mim
Como fosse eu algo de muito ruim
Algo somente ruim
Ou somente desnecessário
Ou vencido
Eu não me importo
Mas adoraria colecionar olhares
Não para ser notado
Mas para trocar a vida que revolve
Solitária
Dentro de mim.
Eu amo
E provo neste momento
A lágrima que ousou sair
Deixando-me sem graça
Em meio à solidão que divide comigo a sala escura
E o som das teclas que me escrevem nesta folha fictícia de papel branco
E são lágrimas salgadas
Levemente salgadas
Como as torradas que comi nessa madrugada. O CREAM CRACKER COM QUALY
Agora
Queria ler contos eróticos
Sentir-me sujo
E limpo, confessemos
Somos nós mesmos quando com remelas
O sono guardado
Entre os cabelos oleosos
O mau-hálito matinal
Sempre traz um gosto
Que teimo chamar ocre
E nem sei o que significa
Aleluia!
Aleluia, aleluia, aleluia,
ah...
Neste momento,
Despejaria sobre o seu corpo
Toda a minha vergonha
A minha nudez
O meu corpo
Sobre o seu
Despejaria
Junto às cores
Ao cinza
Eu despejaria
Minhas lágrimas
E nela
Feito uma mágica
Aquarelar ia a nossa existência.
Eu quero ler tudo o que senti nessas palavras.
Volver ao corpo o que dele saiu,
Para deixar frisado cada desejo partido,
Pois foram desejados
Neste momento
E passado ele,
Sou mais velho
E vivo envelhecendo.
E não quero julgar valores de juventude,
Quero apenas comer minhas unhas sujas de metrô ÔNIBUS. NÃO TENHO ANDADO MUITO DE METRÔ
E depois disso
Lavar-me as mãos e criar na pia branca o suco de mundo que por elas hoje passou. AZUL
.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Basilisco. Ou. Alucinação Crítica.

A ignorância da juventude
me dói
todas as vezes que olho o meu braço
e vejo braço
e não tempo

Dói em mim toda vez que eu passo
e o que resta é um contorno confuso
fosse tudo na vida apenas forma
de um pincel - inescrúpulo

Dói muito em mim quando a lembrança se perde
não por ter sido esquecida
por ser lembrada feito falsa prece
lembrança muda sem voz
que eu assino fosse minha
mas esperto ao dissimular
que lembrança não fala
lembrança pode apenas
- agora -
voar

Dói muito alguma incongruência
de olhar o túmulo e pasmar a face
como se virando os olhos
pudesse atuar - doer

Resta o inevitável, eu sei
mas pesa a facilidade
de nomear a vida de destino impossível
de combinação de cores
de algo assim tão divino
que me escapa o controle
que me escapa o cuidado
e o amor devotado

Dói porque destruir é fácil
E como se faz então um recompor?

Cacos.

Resta um vazio, uma azia
um desespero tímido que se desespera em cada esquina
em cada altura nova
em cada rosto de menina
que me cruza
e me diz
não sou eu
não mais

Dizer isso tudo agora?

Do que adianta?

E do que adiantaria não fosse agora?

Quando as coisas que faltam me devoram
quando as dúvidas contra o não avassalam a razão
Um pitaco
Um pincel
Que silêncio é esse que precisa ser dito?

Que dor precisa ser comunicada?
Com qual intuito?
Com qual intuito usamos o ser
e seguimos adiante,
sem marcas
sem crescer?

Dói ver o tempo convertido em relógio
dói por não querer braços vertendo sangue
peitos jorrando dor
não é isso
não é tão cruel
é dor que converte em escuta
é dor que me lança ao céu
e preenche a vaguidão do meu olhar
- insistente -
de você

No fundo resta algum sentido sentido
algum resquício seu aqui comigo
que me traga
que me acorda
esta noite novamente
movimentado
querendo abrir a janela para dentro da parede do quarto.

Sufoco.
Debato.
Artifico.

Não posso voltar.
Não sobrevivo a este lugar
não a estas pessoas
não posso pensar em olhar
porque consome dentro de mim uma raiva
sem direção
sem destino
raiva minha é dor
dor incompreendida
é perdição,
do tempo
e da pele

eu fico.
eu sobro.
eu deixo doer.

Inconseqüencia: não é não saber o destino.
É simplesmente a ele se fuder
ainda que carregue consigo alguns outros corpos mal se faça o amanhacer.

É sim Basil disfarçado
é narcísio debochado
é qualquer coisa que juventuda em tudo
e não avança
não evolui
nem sequer pede pelo parar

É nova e sempremente um se enganar

Resto.
Sozinho.
Especulo.
Indivino.

Dentro
eu sei
há uma dor - sim
incapaz de ser dita
incapaz de ser escrita
incapaz de ser pintada
incapaz de não ser
eterna.

Nada aqui é você, afinal
Tudo está assim justamente porque não é você.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Dobradura

Movimento meu para dentro de mim
Reflexo seu em que me vê indo assim
tão profundamente
tão profanamente

sem medo de ser deus
sem medo de ser descrente
Faz parecer que eu me dobro
quando em microondas
eu espremo meu sumo, feito sedução

Movo-me para dentro do desejo
eu sou o alvo e espaço da seta
nada além de mim pode haver fora dela
somos um só corpo
um só sentido
à pele.

Elas estão de frente
revelando-se em profundo
umas temem mais que outras o se expor
o se revelar num fundo branco
ou preto
que atenue seus defeitos
acentue suas carências e medos

Lado a lado, frente a todos que vêem
saberiam estar uma lado a outra
ou indifere
desdobrar-se é no fundo se revelar pessoa?

Indifere
o movimento desvela a alma

movimento planetas

O movimento primeiro é discurso
depois é plena estrada esburacada
é corpo
salto
sacada,
>

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Sempre as horas

Vivemos pelos outros, é verdade.

Talvez o meu estar aqui, neste agora, seja apenas uma tentativa de encontrar um caminho, algo que me baste. De qualquer forma, porém, antes disse eu vivo por alguém. Antes disso não quer dizer por mim, quer dizer justamente, que antes, já não sou eu. Que antes de mim, só pode mesmo ser um você.

Quando há um caminho individual, uma escolha, um seguir claro e confiante, achamos porém que tudo está resolvido. Que viver é por gosto, que não é por nada mais do que pelo simples fato de estar vivo. Quando há um caminho. Mas quando este não existe, quando não há sequer seu esboço, paro e percebo que sim, que sim vivemos pelos outros.

Acumulamos em nós o poder da dor alheia. Só eu sei como te ferir sem esbarrar numa só sua veia. Só eu sei o que o meu corpo, dentro, carrega de seu. Só eu sei qual dor em mim é capaz de ser maior em você. Afinal, vivemos para os outros. Independemos de nós mesmos porque feita a nossa morte, sempre dói no outro corpo, o que permanece vivo sentindo a dor nossa partida.

Vivemos pelos outros, isso mina.

Qualquer possibilidade que não seja amor. Qualquer tentativa que não seja indolor. Isso mina qualquer escolha que possa no meu corpo te causar dor. Porque eu não me permiti ainda a morte para te atingir. Eu não permiti a mim mesmo o meu desejo de te auto-me-destruir. Porque vivemos pelos outros. E isso nos faz um só ser.

Um só doer,

por isso eu não posso ir sem te perder
por isso teremos que ser arrancados
um do outro
um sem o outro
a nossa morte será terceirizada
e jamais de um dos dois poderá partir.
..

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Embalada

Cada verso
por favor,
faz o embrulho saltar

Os olhares de fora
comovem-se vendo no interior
o arranhar da estrutura
tão selvagem
mas não mais capaz
de proteger da dor.

Em certos momentos
tudo o que precisamos é doer
primeiro
em primeiro a dor
e o resto não importa
o resto indifere
e se me fere
independe
porque sou eu quem o faz
em primeiro.

a loba
Cada frase sua solta
ganha no meu corpo dança
e nisso já não basta você
porque para existir seu verbo
eu preciso me contorcer,

cada sílaba é em mim agonia
cada linha do corpo é tradução
fidelíssima
do nosso segredo,

Embalado
segredo segregado
eu me esqueço
eu agora dança

Trepida corpo
trepido feito louco
feito fosse rouco
incapaz de prever a longevirtude
de cada gesto

Nunca assim serás capaz
de ler em mim o que seu pensamento já faz
Eu sou imprevisível
Eu me esqueço sempre do início

então tudo em mim mesmo se refaz
Porque sua busca nunca finda
sendo eu assim
tão capaz.
.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Tentativa 12/n

Samsung S630

Investigar a anomalia

Investigar o processo que converte em estranho o ser que não segue a linha

o ser que no chão vê precipício

o ser que é ser, dentro ou fora de um hospício

o ser que ama o ser

Investigar a linguagem

Há linguagens

Há, sabemos

por toda a parte.

São normais?

Não são?

Importa definir matar morrer determinar?

Importa talvez saber que restam cartas

restam possibilidades

e esta palavra, mesmo assim,

é apenas uma possibilidade

dentre outras

another word

another world

anômalo.
.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Liquefazer

Eu deito minhas costas sobre a cama
O que resta em seguida
Não é um corpo
É uma mancha
Um rastro de sua perdição
Convertida em suor
Suor convertido em hora morta.

Tingindo a face
Escorrendo degraus na pele escoriada
O mesmo suor das costas
Converte o rosto
Em reluzente estrada,

Suor do corpo é um só
Para toda e cada parte
Este mesmo suor é de esforço
Esforço prazeroso do não se deixar morrer
Em plena tarde de sol.

Eu deito as mãos sobre o corpo
Eu deixo escorrer a minha vergonha
E indo lá embaixo
Já além-ralo
Sou eu quando menino
Eu consciente agora de meus atos.

O que eu deito é meu desejo
Tudo que encosta-se ao corpo
Converto eu agora
Feito suor
Converto eu agora em gracejo.

Em gracejo eu me soco
Acariciando-me eu me mutilo
Me mordo
Me torço
Me costuro,

Eu faço nesse suor tudo ser preciso
Posto tudo seja assim direcionado a você,
Que sequer existe no perímetro do meu corpo
Que sequer insiste ao seu dono,
Fique louco.

Fique, o corpo
E perpasse nesse relevo
A morte do tempo
Cavalgado primeiro
Pelo toque

E depois,
Como fosse mais grave
Mais tarde
Cavalgue em mim o suor
Deixe por mim tudo escorrer,

Tudo o que não podemos compreender
Deixe em mim tudo liquefazer
Tudo o que não podemos
Sozinhos
Empreender.

Feito fosse suor o choro
Feito fosse choro o nosso acordo
Preciso
Seguro
Infinito.

<KENOX S630  / Samsung S630>

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

asterístico

eu posso tentar ser sincero
não que eu não seja
é só que a verdade se escondeu
ela sequer está mais sob a mesa

escondeu-se mesmo
fugiu
ou foi enfim exterminada
as coisas assim nebulosas
fica difícil dizer a palavra

a palavra que se diz por inteiro
a palavra que se consome em si mesma
e que não precisa de asterisco*
para dizer além do já dito

certas palavras têm em si todo o princípio
e o precipício
certas outras têm no meio a sua imensidão

erradas ou não
chega uma hora em que é preciso parar
porque a sinceridade se foi
e você resta sozinho
agonizando em formas
que não te dizem
nada
exceto o estar preso.




* Asterisco (do Latim asteriscum "estrelinha", do grego ἀστερίσκος) é o nome do sinal de pontuação *, geralmente para marcar uma referência de rodapé num texto. Muitas vezes é escrito e falado erroneamente como asterístico. [http://pt.wikipedia.org/wiki/*]
.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

noname

Morrer de trabalho
ou morrer pela falta?

Fingir que é ficção ou
perfurar a própria aorta?

Limpar a casa
ou virar poeira?

Congelar a água
ou meu amor por você?

Estourar pipocas
ou a face?

Deixar doer as mãos
ou gangrenar as idéias?

Jogar o jogo
ou subvertê-lo?

Chamar a sua atenção
ou me partir ao meio?

Eu não sei
Eu sou apenas perguntas
perguntas sem interrogação
perguntas que não perguntam
perguntas que unicamente são,
.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Operação Modo

Nada novo
Exatamente
A surpresa está no diálogo
No desbravar do contato
Tudo da mesma forma
Parecido
O inédito é a forma
Como me lanço ao precipício
E caso não o faça
O ineditismo está no distinto
Modo
Em que me precipito
Fazendo-me voltar
Em que me azucrino
Fazendo-me produzir
O que nem sempre fui capaz de gerar
eume  me me space yojethat
Edifício de mim mesmo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Avesso

Tenho sobre o corpo uma passagem eterna
travessia apaixonada dos segundos
cravadores de ponteiros ininterruptos
no corpo um tempo que se esvái
doce abrupto,

No corpo uma moleza infindável
dos deuses e de seus diabos
num ir recíproco do avançar
só porque há volta,

O coração encarado, posto quebrado
faz no moer-se o questionar,
já não importa tanto verbo
nenhuma palavra é capaz de curar,
ondas-eletromagneticas7

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

o que não importa

se chove dentro ou fora
se foi para ontem ou se é para agora
não importa
realmente ou não
não importa ser

miojo ou macarrão

nem assopro ou assobio
não importa contra-indicação
nada importa tanto quanto o tudo
tudo tanto importa quanto o nada
se do prédio ou da sacada
se tremendo ou desesperada
não importa a cor
não importa dor ou risada
eu digo que não importa
e sequer percebo que são palavras
que também não importam nada.

mas o exercício persiste
o sacrifício é que tinge
a tentação em amor
o desafeto em rancor
e tudo vira o dia
tudo vira agonia
e nada será como antes
porque antes só o é porque é caminho
e eu só não sou você
porque ainda sozinho.

importa.
não importa.
se você se importasse
eu me exportaria.
.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A premissa do extrapolar

Existe alguma compreensão que possa ser atingida?

Alguma coisa mais que não venha em vislumbres
Que tenha forma e que não me abandone para trás
Como se eu não fosse capaz de compreender
Nada mais
Nem sequer a persistência desse olhar
Sobre as mesmas coisas
Sobre a louça suja
Eu ainda construo incessante
Motivos e escolhas
Que façam gerar
Em mim, somente, eu sei
A compreensão pessoal
Do que em breve eu tentarei lhes dizer.


E eu sempre tentarei, eu devo dizer.

Para mim nenhum cessar é realmente fim.
Eu estou sempre me jogando por sobre corpos saltantes,
Mas salta-se primeiro e por último pelo amor
Logo corpos saltantes são e sempre hão de ser
Corpos em falta
Meio a outros compreendidos
Corpos que se ligam pelo destino
Que nunca haverão de concretizar.


Eu sempre tentarei te dizer o que é impossível
Sempre pedirei que ache dentro de mim o que não se pode achar,
Porque toda a minha confusão é de adorno
Tudo em mim se extravasa pelo contorno das formas
Pelo sorriso que se força mal se rompe a escotilha da primeira hora do dia.


Eu preciso ir
Eu preciso sorrir
As coisas em mim têm prazo para morrer
Ou eu me consumo logo
Ou eu me perduro até você,
Para que você dê nova função ao me usar
Para que você somente você consiga administrar
Esse interior revolvido que sou eu quando não estou contigo.


O que eu estou tentando dizer
É no dito a pura tentativa
A virgindade das coisas perdidas
Extrapolam o que deveriam ter dito
Pois o extrapolar é a nossa primeira premissa.

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