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segunda-feira, 23 de maio de 2016

profundo poço

vai chover

a rua já sabia

deixei os objetos em casa
fui para a rua quase nu
vim ranzinza

os pés naufragam primeiro
depois é a vista
a pele que antes se escondia
é terreno rochoso
e cheio de mistérios.

Hoje haveria ontem não fosse o tempo sempre outro começo.

Matéria

Do que você é feito?

Não, não, não, eu não saberia responder.
Algo em mim foge aos nomes
Algo em mim se esconde
E mais e mais fica forte.

Do que eu seria feito?
Será possível ser tangível
O tempo?

Pelas noites eu vago a buscar
De um jeito assim não todo claro
O sorriso nos olhos que me olharam
A pertinência do querer ouvir
E do saber escutar.

Se sou feito disso?
Talvez tenha sido.
Mas mudo eu mudo inteiro e veloz.
O meu orgulho apesar de vivo
É pequeno
E quando age, me dói.

A moral
Essa lambada chata
Ela me dita as rimas
Mas esquece que a estrofe
Se compõe sempre de novo
E novamente
Com o que está fora.

( ontem pensei na possibilidade de assim morrer de repente. pensei na dor dos amigos que ficam. pensei na vida interrompida sem chance de doença a antecipar o fim. ontem eu pensei sobre morrer e sobre perder e, confesso, deixar partir é apenas o que resta. sou feito disso também, da certeza de que há morte. minha diferença é que frente a mim, ela pode. )

domingo, 22 de maio de 2016

21 de Maio de 2016

Algo se solta
Algo se perde
Se encontra
Alguma coisa
Física e palpável
Invisível mas tangente
À pele
Ao meu modo de ser e estar
Aqui neste instante.

Eu poderia tomar um tempo maior
Mas agora é só um ponto que se faz
Ponto final que abre fileiras de novos
Parágrafos.
Prosa sem medo de ansiar mundos

Neste dia eu me reencontro comigo mesmo
Na sinceridade que me faz querer
Estar vivo e continuar este e
Outros jogos.

A voz que tanto dizia, enfim,
Fala rente ao corpo. Sou todo
Exposto, ciente do risco preciso
Que é ser quem se é.

Nasci do amor para o amor fazer brotar.
Não me resta outra opção. E nem quero
Que possa existir.

Assim caminho, renovado,
Ontem me faz hoje aquilo
Que pensava não ser capaz
De lançar.

Tudo voa leve e brilha no alto.
Eu sou esse cara.
Eu quero sê-lo.

sábado, 21 de maio de 2016

O que apreendi agora que algo está morrendo

Que sim,
o perdão por vezes
é destinado a um si mesmo.
Foi isso o que me veio
quando te vi
no gesto alheio.
Que força é essa que faço
que mais do que te tirar de mim
me assassina?
Eu não teria jeito
não houvesse em mim
E ainda
esta consciência
essa confusão que não descansa
enquanto não encontro
A rima.
A sina.
A vida
tudo isto
é jogo que não acaba
As mortes
não findam
O amor
se reconstrói
até mesmo onde não se esperaria
nada
exceto este orgulho
bobo
de menino imberbe
Eu não sou isso
Meu sol
não mora aqui
neste planeta escuro
que forjei
para me proteger
das minhas franquezas,

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Quatro ou Cinco

Foi tanto e quase tudo
Mas nem sempre tudo
Basta para que alguma coisa
Específica
Possa vir a se dar.
Sobra-se um tempo
Gasta-se um, dois corpos
Um afeto famoso
Outro desconhecido
Afeto temido
Afeto eticamente impossível.
Passado o tempo
Moído o orgulho
O que resta é uma lágrima lenta
Que escorre tranquila
Posto tenha compreendido
Que a sina do amor
É propriamente a sina
Dessa vida.

sábado, 14 de maio de 2016

01 talvez

eu pensava
que havendo amor
haveria poesia.

um dia
quando morreu
o primeiro fato
foi ver nascer
as rimas.

de novo
eu me surpreendo.

achava que o golpe
que a guerra
que sobre tudo isso
seria possível escrever,

mas não
só agora
não antes
só agora
quando é meu corpo doendo

que o verso se afirma.

não antes
nem amanhã
só agora
se escreve
como se escrever
fosse dínamo
ao respirar.

eu preciso.

retidão

aqui
só linhas
da mesa
do baú
dos cadernos e suas linhas
o espelho me olha
mesmo minha barba
toda reta
toda torta
o relógio só tem ponteiros retos
o isqueiros
os cigarros
aquela caneta reencontrada
o silêncio
o silêncio
essa música
afiada
estação
porto

eu sobrevivo
eu vou sobreviver
viu?
passou um segundo
sem que eu fosse capaz
de morrer.

você me ligou
nem vi
você me escreveu
nem soube
fiquei mudo
mudo
mudo eu mudo alguma coisa
algum desassossego

essa palavra
aquela outra música
eu odeio, mas amo
eu amo, apesar de

falta pouco
quantos dias?
eu vou chegar lá
e serão cinquenta
e tantas
ou menos
ou isso mesmo
sem mais
serei preciso
eu sei disso
eu preciso
e preciso acreditar
sem mais
nem menos
no ponto
transmutado do tormento

dói
sempre doeu
qual é a novidade?
meu peito expandiu
minha barriga cresceu
mas tudo ainda reto
como se o sentido
fosse sempre desde antes
um só
só um mesmo.

uma crueldade

você lê as notícias.
como nunca antes, você as lê.



você ouve as distintas opiniões.
você aprende a mudar tolerar
por verbos outros como escutar
ponderar
misturar.

você dorme pouco
pouco se masturba
você tem cada vez
menos necessidades
as contas foram pagas
(com que dinheiro?)
e o mês corre
sem virar os dias.

você sonha com amores mortos
mas em sonho
é todo carinho
você sonha com coisas escusas
envolvendo assaltos
e super heróis
você sonha sexo e tortura
na varanda da sua infância
você sonha aquilo que seu corpo
em choque
prenuncia

corpos bailando em meio à neblina.

você não liga para a sua família.
você se diz: eu preciso ligar
para minha mãe
para o meu pai
para a minha irmã
minha outra irmã
você não liga para ninguém
muito menos para deus
quiçá para seu irmão corrupto.

está cansativo o jogo
ter que tentar explicar o óbvio
ter que desfazer o rebanho
ter delicadeza para provar que não
não se trata mais de família tradicional brasileira

o seu cu
o meu
o seu peito
o seu pau
e o meu
seus seios no meio
o indefinido
inominável
o moldado para além das fronteiras
desmoldado
mãe, eu já havia lhe dito
quero ser música
mas talvez você nunca entenda
e minhas unhas serão pintadas de rosa.

você vive os seus amigos.
você vive de seus amigos.
você fuma e bebe intempestivamente
você não gosta de lamento
você é bruto, mas dentro
é todo estrela
arranjo de constelações impossíveis.

o mundo
está te consumindo
e a vida hoje te vive,
inteiramente.

as músicas antigas
te desdizem e o impulsionam
à ação:
there are many things that i would like to say to you but i don't know how!

a história, os fatos
tudo compõe seu gesto
hoje você amanhece ditadura
ontem foi todo revolução
hoje você é maio
e essa neblina não é por acaso, diogo.

eis o seu tempo, cara
tempo que muda tudo
que cala e mortifica
tempo de sóis cinzas
e amanhecidos de lado
tempo em que ter paciência
é tarefa para os que já foram
mortos.

tempo tremendo
em que só me pergunto
como recomeço?
como se faz?
como refaço?

e nisso de tanto perguntar
- por vezes - eu nem vejo
nisso já nem se percebe
que não há começo algum
que não tem nada começando
que tudo só corre
porque tudo já foi estourado
tudo já acontece
a violência, o roubo, a injúria
acontece tudo
o cinismo, a ganância, o poder
tudo ocorre, decorre, tudo escorre

tudo acontece
morrendo e desmorrendo
a minha dúvida
que é sua também
ela ocorre
vira árvore
a sua dúvida acontece
ela floresce
mesmo quando duvidas
se se deve acontecer
ou não.

agora
tudo o que age
é ainda e mesmo
uma crueldade.

que tipo de democracia você quer para o país se você sequer sabe lidar com as opiniões que diferem da sua?

hoje um amigo me mandou uma mensagem me informando que eu apareço no facebook como alguém que curte a página do michel temer. eu respondi a ele que sim, que foi uma escolha minha. daí penso no que tal escolha significa: se você bloqueia todo mundo que discorda de você, se você tira da sua lista de amigos todos que têm opiniões contrárias a você, duas coisas: 1ª) quem você acha que vai ler as suas postagens? aqueles que você deseja afetar, mudando suas opiniões, provocando suas certezas? ou apenas os seus amigos, que já concordam com praticamente tudo o que você acha e fala? e 2ª) que tipo de democracia você quer para o país se você sequer sabe lidar com as opiniões que diferem da sua? atenção! a gente reclama das coisas que nós mesmos seguimos perpetuando. eu tenho direito de seguir quem eu quiser e de curtir o que eu quiser, não como quem curte simplesmente, mas como quem está interessado em sentir como as coisas operam para além do meu umbigo. quais palavras se usam, como dizem as mentiras e as transformam em fatos, em coisa natural e não inventada. eu quero tudo isso. pode chegar junto. eu não estou jogando futebol, eu estou pensando como faz para viver junto, rendido e surpreendido por tanta diferença.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Ira democraticamente nascida

Para você, caro amigo. Para você, cara amiga. Para vocês que tanto apoiaram o impeachment sem ter consciência alguma daquilo que apoiavam. Para vocês que seguiram as mídias tendenciosas, sendo manipulados e movendo ódio contra uma presidenta eleita democraticamente, prestem atenção. Prestem bem atenção! É chegado o momento de continuar fazendo coro aos ditames do retrocesso em curso. Quero ver comemoração por cada crime perpetuado sob a máscara da democracia. Quero ver meus familiares e colegas comemorando o fim de tantos direitos conquistados por meio de tanta luta e esforço. Quero que vocês acompanhem com atenção o governo ilegítimo e corrupto, machista e sujo, com a mesma devoção cega que tanto por meio de vocês se moveu. Não vale fingir que não tem nada acontecendo. Tem que bater palma. Tem que continuar fingindo que se importa.
Quanto a mim e a tantos outros, não se preocupem. A miséria do mundo move a busca de um punhado de gente menos interessada em umbigo e mais afim de rodas. Gente mais afim de encontro e respeito, de diálogo e diferença. Se há alguma coisa evidente agora, não que antes não fosse, é que tínhamos toda a razão. Golpe é a palavra certa para este momento tão incerto. Golpe é palavra bélica e guerra é o cheiro da nossa atual atmosfera. Não me espanta, não me encanta, mas também não me deixa dormir tranquilo. Por isso olhos bem abertos e duvidantes. Tudo isso me faz pensar que a luta, que por vezes dizemos impunemente que VAI HAVER!, a luta já está aqui, no trato com cada vírgula, cada esquina, com cada um ou uma que me cruza e me convida. Vou falar. Soltar o verbo. Vou agir. Desamarrar o nexo. Se estas palavras são só um dizer, pois que sejam, pois em épocas cínicas como a nossa, destemer o verbo é fazer tremer o corpo. E colocar o corpo para tremer é zonear essa assepsia escrota de velhos homens ocupando cargos políticos para se manter e para manter suas recatadas famílias. Se a nossa democracia é nova, nova também é minha ira. Ira renovada, retinta, ira estandarte, publicamente em ação e divulgada.
Ira democraticamente nascida.
Por onde recomeçar?
Por aqui. Por antes. Por agora. Por de novo.
Porque sim.

Sobre aquilo que vi.


ANGELA – Certa vez, quando sozinha dentro de casa, eu disse o nome dele. Noutras vezes, escondida de mim mesma, revi nossas fotos. Como se fosse uma oração proibida, ou um insulto, por vezes eu lhe disse frases inteiras e lhe contei como tinha sido meu dia. Mas tudo em segredo.

GUILHERME – Acumulei muitos presentes. Talvez por hábito, a cada loja entrada, a cada viagem, eu sempre encontrava uma xícara, um vestido, um diário ou sapato, algo que me parecia ter sido feito exatamente para ela. E eu comprei tudo. E fui guardando, para um dia presenteá-la.

ANGELA – Com o tempo eu fui perdendo a nitidez do seu rosto. Eu tentava lembrar e ele só me vinha aos pedaços. Então eu comecei a completar os traços dele com traços dos outros. Mas sempre persistia uma coisa só dele. Uma ruga, uma ranhura próxima aos olhos, uma pequena pinta perdida em seu corpo.

GUILHERME – Conheci outras cidades, ruas, outros sorrisos e conversei bastante com o silêncio. Vi meu rosto marcado à lágrima. Vi o céu, repetidas vezes. Comprei plantas, voltei a fumar, parei, voltei. Joguei camisas fora, comprei outras. Fui ao cinema. Ouvi música. Deixei que os meus domingos fossem aquilo que ela planejou para mim.

ANGELA – Ele me veio a cada esquina e eu morria de vontade de encontra-lo, assim, do nada, no meio da faixa de pedestres, na fila do banco, vendo ele sair do táxi em que eu estava entrando. Mas não aconteceu. E então eu comecei a me ver e a me reconhecer. Eu era tudo o que eu tinha. E eu sabia que esse momento chegaria.

GUILHERME – Por agora, basta para mim apenas ouvir a sua voz. Eu quero saber que ela está, mas também ter certeza que não veio. Quero tê-la e saber que já vai partir. Por hoje é isso: basta apenas ouvir sua voz, para saber que ela existe, independente de mim.

Dance comigo. Eu te peço.

ANGELA – Estive pensando em você.
GUILHERME – Em mim?
ANGELA – E em toda a minha vida.
GUILHERME – E como você está agora?
ANGELA – Feliz por estar aqui.
GUILHERME – Então dança comigo?
ANGELA – Eu não sei mais dançar. Eu vou tropeçar.
GUILHERME – Dizem que tropeço, hoje em dia, é um tipo de dança. Tropeça comigo!
ANGELA – Então me estique a sua mão.
GUILHERME – Aqui ela está.
ANGELA – Você me segura?
GUILHERME – Eu te levo.
ANGELA – Eu arrisco um primeiro passo.
GUILHERME – E eu vou nele, com você.
ANGELA – E outro passo.
GUILHERME – E já estamos dançando. Viu como é fácil?
ANGELA – Obrigada, meu amigo.
GUILHERME – Meu primeiro amor.
ANGELA – Eu?!
GUILHERME – Você foi o meu primeiro amor! Então eu te peço: dança comigo? Dança! Agora! Aqui! Lá fora! Ao relento, onde for! E dançarei mais ágil, sempre que tentarmos explicar o que acontece entre nós. E estarei aqui – como agora estou – para levantar a inclinação da sua cabeça. Olha! Lá fora há lua e aqui dentro só silêncio. Vamos fazer algum barulho! Dance comigo. Eu te peço.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Ação do Relógio, Ação do Óculos

Pensei se não seria cinismo
Jogo barato forjando sentido
Onde não haveria.

Depois percebi que independe
Justificar, porque tudo sobrevive
Feito ação.

A prancha deste mundo
Só se pode rabiscar.

Então fui, então vou, sigo indo.

Deve haver alguma coisa em ter me tornado cego, mas todo óculos desejante.
Tem um ciborgue que me opera.
É agora essa fisiologia do relógio
Preso ao pulso
Pulsando o esquerdo punho.

Do que estou brincando?

Brinco de me ocupar daquilo
Que nunca me ocupei.
Para quê?
Para não esquecer
Ou
Para sim, porque sim
Porque meu corpo é vasto
E sobre ele podem vir a se deitar
Os outros traços
Os outros
Outros

Senso.
Diz, senso:
Dissenso.
Digo eu:
Dissensão.

Diferença

Não precisas de diferença
Não precisas daquilo que não o que você já tem
Tu não precisas ser contrariado
Nem no seu gosto
Nem sobre a sua versão dos inexatos fatos.

Aquilo do que falo
Diz respeito apenas a uma habilidade
Que é saber ouvir
Saber ler
Quando de fato a sua frente
Se manifestar alguma liberdade.

Pois nem tudo anda com a mesma roupa sua.
Nem todos desejam o café seu de todo dia.
Nem todas dormem. Nem todos amam.
Nem tudo sente esse frio
Por que então essa Odisséia sua
A dogmatizar todas Las Cosas?

Veja: você se estilhaça ali
Logo onde não havia.

sábado, 7 de maio de 2016

Profissionais

Já nem sentem?

Duvido hoje
Do que antes
Buscava eu
Dormente.

Não sentem?

Como pode?
Como podem?
Onde foi morar
O furor e a alegria
Tão imberbes
E destemidos?

Onde fui parar
Quando me separei
Do horror
Que me pede
A cada dia
O meu ofício?

Quando foi que me acostumei?
Como, de que maneira,
Eu passei a não mais
A não mais
A não mais tanta coisa!

Deus!
Que meus olhos não se ceguem
Que meus olhos persistam. Apesar
Da alma, da pele seca,
Da busca partida
Quebrada
Coagulada
Que meus olhos
Avancem em torrente. Que desafoguem
O meu medo
De voltar a ser criança.

Como cansa.
Como mata.
Que sem dança.

Listra

Tecido
Urgência
Foste em silêncio
Fiquei em abrigo
Íntimo
Um sono
Aquela cama
Dizem ser outono.

Ouvi o que me dissestes.
Meu corpo também
E assim eu dormi
Apaziguado pelo pesar
De ser tão insistente
No presente.

Depois ouvi histórias
Comi bolo de ceboura
Com cobertura a chocolate
Na manhã seguinte
Ouvi o sol amanhecendo com preguiça
Desejei que a vida pudesse

Comportar
Outra sina
Outra coisa
Apenas outra
Porque distinta.

Então fiz um gesto
Respondi não como quem sabe
Disse melado
Disse madeira
Disse avião
Disse o que me veio
Quando ao te ver
Também pude lhe ser
Ouvido.

Hoje passa abrindo o ontem
Ao intempestivo presente que vivo.

Um suspiro.
Um suspiro.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Bainha

Pega o que chega
Desdobra em promesa
Amanhã será como nunca
Antes. O que teria sido dito
A sua música
O seu cismo

Tudo resplandece
Sem mesuras.

Morre gente o tempo inteiro
Isso não torna a vida coisa simples.

Sua fome
Sua cisma
Seu profundo poço
Há de secar.

Seco

Os gatos estão loucos
O destino escorreu
A tigela onde morava
A paz, cedeu.

Seu beijo esfrangalha
Meu íntimo. Sua fome
Adultera o meu ritmo.
Tudo mói.

O tempo
A roupa
Essa calma
Aquela voz rouca
Louca, tudo fica rude

E fazer poesia sobrevive
Feito gesto de amar.

Passei por aqui
Onde ali outrora
Vim a te conhecer.

A cidade acenou tranquila.

Deve haver alguma paz
Nessa busca sem fome tenaz
Busca tímida, mas toda coração.

Por hoje eu me basto
Mas e quando sem sua mão?

Frio

Eis um gesto
Perplexo
Gesto da hora. Dia
Num gesto. Resumido
Perplexo

Gesto verbo
Eu perplexo
Tu perplexas
Ele perplexa
E ela?
Ela perplexou!

É tanto abuso. Tanto crime
É tanto que não resta
Aos olhos outra duração
A não ser essa
Perplexar.

Indignar-se sem morrer
Ficar na beira
No limite insuportável
De ver a destruição se consumindo
Sem que reste forca
Para forjar consciência em ataque.

Que dor.
Que sono.
Que horror tudo isso.

Vertigem

Nem vi
Quer dizer
Vi sim
Mas só no depois
Porque antes
No durante
Eu fui no tempo
Como se não existisse
Nada além desse
Seguir
Que me faz continuar
Seguindo
Sem nem bem sentir.

Se houvesse dor
Arrependimento, se houvesse
O que não houve
Ainda assim
Algo teria sido.

Mas essa inscrição
Essa multa
Essa conta com altos juros
Não combina
Com meus sonhos.

Hoje eu almoço
Bebendo com calma
Mastigando como quem
Quer sentir
Sem saber o que virá depois
Porque hoje
Eu volto a estar acompanhado
De mim.

domingo, 1 de maio de 2016

Nisso De

Nisso de tanto olhar o que havia embaixo
Assustado, você conheceu o mundo.

Nisso de duvidar do que se mostrava
Você revelou a si mesmo o impossível.

Não chore.
Alguma força nasce
Desse esgotamento.

Sua vista nem mais pisca
Com tudo ela trama conversa.

Hoje
Você amanhace
Com capacidade
Habilidade para
Aquilo que o dia nem ainda
Anunciou.

De tanto olhar o fundo
O mundo agora te desteme
Ele é todo convite.

Envelope delicadamente rasgado
Pela persistência da sua busca.