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segunda-feira, 30 de março de 2015

Sem Nada

O tempo
ainda é quem menos conheço
e quem mais me dá alento.

Por ele
dançam todas as músicas
que acalmam meu peito.

Por meio dele
este cigarro me dá um prazer
sem comedimento.

Em casa
nu e encontrado
eu e o tempo trançamos pernas
e firmamos pacto.

Quando eu cansar
ele me cerra a garganta
e me impulsiona ao ainda
não acontecido.

Que bom
é ter um amigo capaz
de pôr fim ao meu desassossego
contínuo.

quinta-feira, 26 de março de 2015

S. E. X. O.


a certeza de que o corpo foi feito para isso
a frase exata
a janela e os quadros
a manteiga no pão
a primeira droga
a tosse que cessa sem que se lembre
a viagem abrupta e precisa
a vida, enfim, como manancial de desejos
a vulva conversando com seus lábios
achar uma caixa de lápis de cor
afetos que se desenrolam livres
andança ao som de música redundante
apenas uma caneca a ser lavada
biopsias anunciando a vida que segue
comida árabe numa tarde de sol
comunhão silenciosa
damasco e azeitona
e alguma incoerência a manter o movimento
em ciranda entre beijos
esfiha e queijo
esperma na boca
eu perto quando longe de ti
isso não vai acabar nunca
fábrica de diversão
gavetas com coisas estranhas
indústria do entretenimento
lembrar de uma carta ainda não lida
lembrar do chocolate no armário
manga caindo delicada na grama
meu rosto enrugado e repleto
minha ignorância sobre seu desejo
montanha tropical e russa
o beijo tentando encaixar
o café no instante exato
o cigarro sem culpa nem piedade
o cu suando e gotejando lento
o encontro do alho com a carne
o leve enrijecer de um mamilo
o meu cuidado em te despir
o pau roçando no jeans
o piso da sala limpo
o salário que bateu na conta
o segundo encontro
o seu cuidado em me fazer repleto
o sexo na mão
o sexo no sexo
o sexo seguro e intempestivo
o sol que fez luz distinta em casa
o soluço e o pum
o sorriso de um transeunte
orvalho e som de sapos
pai feliz na noite de natal
pão que queimado tem bom sabor
papelaria e brindes sem fim
pelos eretos mais que um pau
piscina com água morna em dia frio
pura droga a consumir a vida
quente no frio relento
seu corpo ainda novo para mim
seu cravo marcando ponto preto
seu dedo de unhas limpas
sexo sujo e lisonjeiro
suco de laranja muito gelado
televisão que explode
ter frio para usar cobertor
tratamento anti-câncer
um dia sem cueca
um imã na geladeira, um só
um moletom fedido de afeto
um, só um, um só pelo encravado
uma anacronia presente
uma carta reencontrada
uma criança fazendo o que não se faz
uma livraria em desconto
você perto quando longe
vontade de ficar pelado

segunda-feira, 23 de março de 2015

Sono


Tudo se desfez
o corpo
e o que eu sei
Tudo sob o sono
desmanchou
em delicado abandono
Tudo foi embora
e restei sozinho
sob a janela rasgado a vento
Não houve conversa alguma
apenas silêncio
e movimento
Ergui-me molhado
jorrava água do céu
e voltei-me ao colchão
Para acordar ciente
de que não me resta nada
exceto a mesma pergunta de sempre:
haveria algo mais lindo que isto?
De se perder?
E, ainda assim, sobreviver?
 

domingo, 22 de março de 2015

Ameno

Ruas se colorem
o preto desce do alto
E o vento mistura
as tintas.

O que restou 
lá fora
Não se pode lembrar
mas o peito grita

Como se voar
pudesse ser possível
Alto tão alto
que assusta desde o início

Poder-se-ia voltar
mas a mentira é tão grande
Que se demora a acostumar,

Coloque as suas defesas aqui
e leia novamente o escrito
Porque você não merece mais do que lhe dei
E eu não mereço mais que isto.

Sem Você

A noite veio
os amigos também
Os lamentos tomaram algum tempo
Mas tudo hoje é mesmo rápido
Demais,

Se me perguntam o motivo
esperneio
Vontade que tenho é de arrancar-lhe
um dedo
e o sorriso todo
e a sensação de sossego.

Sofro a possibilidade já tornada real
a possibilidade da paz

Constato perversões que não me deixam dormir
porque mesmo não sendo poeta
você foi ousado demais ao negar
a única coisa que fazia de ti
Alguém,

Escrevo para vocês que não existem
Exclamo meus pavores a leitor qualquer
É que mais importante que o sentido desses versos
É dizer aquilo que se sente
mesmo sem querer,

Por isso
avanço sem medo
Alfinetando o meu sossego
e o transformando em realidade:

você desistiu de mim porque percebeu que eu não lhe seria parceiro nesse seu projeto da sua imensa vaidade.

Fez bem,
eu jamais serviria a tão pouca coisa
Você desistiu de mim
porque pobre lhe faltou força 
E assim, abrupto, sem medir
nem pesar
Rompeste com a única beleza de sua vida
para se sentir ultra star
Alguém dono de coisa que nunca ousou testar: a saber, a vida
A saber: esse mau estar
que é estar vivo
E indeciso frente ao que lhe vem
E ao que lhe pergunta:

Você consegue confiar?

Você não consegue, 
então vai praiar
Vai, você
afogar-se
para nunca
Nunca mesmo
Voltar.

Sujeira

Voltar ao já dito
Ouvir o ouvido
Rever o sempre dito
E saber que essa sujeira
sempre foi prevista
E inevitável.

Se faz frio
ou não
Se é sobre ti
ou sobre não
Pequenas coisas
mostram a redenção,

Frio
Tempo
Mentira
Canção
Ouvir
Sobre
Mais
Conversa
Mais
Eu
Não
Mais
Dizer
Mais
Mais
Mais

Deixar-se vazar
em ritmo preciso
Se faz frio ou não
tanto faz

E é o fim.

Ventar

Sobre o rosto
pluma silenciosa
Anuncia a tão ansiosa
vitória.

Haveria energia maior
que a lembrança de um abraço
Hoje passado?

O corpo. Transpira
exasperado,
Haveria algo mais lindo
que este momento assim tão solto
e desnecessário?

Certa beleza irrompe onde enfim
não haveria espaço para festejar
Os olhos bem bem festejam
mas o íntimo resgata o que jaz
sob o vivido
E se regurgita em vida:

Nada mudou.
Nada.
Nada mudou.
Nada.

E tudo vive, porém,
a mudança.

A vida me ultrapassa
e comigo ela dança
As coisas perdidas
Todas as coisas
Perdidas no fogo
de ter desejado além
do que se poderia desejar.

Silêncio.

Uma perna se encosta em mim
Um sorriso sorriso se anuncia
Haveria coisa mais linda
que o avançar do tempo
a produzir inda mais amor
inda mais rima?

São essas as coisas
que mesmo perdidas
Fazem de mim um lugar
no qual nada se reconhece
O futuro nas mãos
e mesmo assim nada será como antes,

porque são essas as coisas todas que eu perdi
ao não abrir mão de ser o que me tornei de mim.

sábado, 21 de março de 2015

não precisa regar

disse-me a planta
viva em pequeno vaso
espantada ao me ver tentando
lhe ajudar

não precisa regar, me disse
e eu incrédulo, não acreditei
afinal
faz cinco dias que você não come,
eu lhe disse

ela sorriu
sábado em casa
acabou de amanhecer
o sol chega ameno
e eu estou aqui com você

olhei então ao redor
de fato
o sol entra pela janela
mas não chega em seu quarto

essa mesa branca e vasta
rodeada de papéis
e cinzas de cigarros
já comidos

basta para mim
que a luz seja o seu olhar cuidadoso
ansioso pelo meu bem estar

a mirei novamente
e quando vi
estávamos mesmo a conversar

dentre tanto
dentre tudo
ela me disse:

e tu?
se regou hoje?

eu sorri
meio de olhos marejados
não havia percebido
que ao exceder o cuidado ao outro
eu me esqueço de mim mesmo

então ergui-me
fui até à cozinha
e mastiguei uma fruta
depois um biscoito

voltei à sala
e aqui está ela
ciente de que não carece de água
mas que eu sim preciso

desse cuidado.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Limiar

Não sei se vi
ou sonhei
Sei que senti
mas onde
não sei.

De forma uma
ou noutra
A sensação me aprisiona
e a vida agora
anda torta.

Não sei onde foi
mas eu senti
Eu senti uma maldade
a mim destinada

Eu senti uma maldade
tão grande
Que desejei o silêncio
do útero de outrora.

Maldade sua em desfilar
tranquilidade numa hora dessas
Tão imprópria,

Maldade sua por sorrir
mesmo quando o já sabido
É o fim de nossas horas.

Frente ao que senti
Senti mais e mais
Senti desejo físico
de sumir de ti
e não voltar jamais.

A sua presença me é ruim.
A sua presença virou para mim
apenas isso: ausência.

E de tão ausente, sua presença
aos poucos, vira esquecimento.
E do esquecimento, eu espero




















algo que nunca nome algum haverá de abarcar...

Bolo Estomacal

Todo o dito
todo o feito
a metáfora preserva
um pouco assim
longe do fundo meu peito.

Os escárnios
as vergonhas que brotaram ao te ver
Tudo permanece intacto
tanto é que não me faço
nem questão de dizer.

A pobreza se revelou no infante mais rico.
E tudo ficou pequeno
tudo ficou ridículo.

Se dói meu coração
também assim ele reconhece:
a sua praia não é a minha
então me esquece.

Seria fácil conversar
voltar intimidade
Mas em silêncio
tudo o que mais desejo é a maldade

de ir longe
sem trocar sequer soluços,

nem nada.

Eu queria que houvesse confiança
mas ela se mudou em suas malas
O conforto se dissipou
e só o que me restou foi a certeza
de que tens de sentir tudo isso

Sozinho.

Sinta-se orgulhoso
não por ter alguma importância, naturalmente
Mas porque esta poesia não serve para nada
muito menos a ti
tão carente de reconhecimento.

Como se fosse fácil.

Nem tudo o dinheiro compra.

Que decepção, hein?

A mediocridade aflora
no lençol mais fino
No perfume mais refinado
Na vestimenta mais cara
porque tudo isso
te expõe e condena

E seguirás, no entanto, a vida
forjando doenças
para não se reconhecer
o visível sob tantas faciais linhas:

não nasceste para a dureza.

Você nasceu para dar ok
nas linhas dos atestados médicos
que te fazem achar
que a vida é bolinho

e não este bolo
estomacal e complexo.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Café

A hipótese basta
quando a sinceridade se faz indiferente
Quando a Honestidade banca
a morta.

Hipótese 
Suspeita
Nada demais nem sequer algum fato
É o que sobra.

O que se vê hoje, caros amigxs
é só uma hipótese desconcertante
Feito bolo no alumínio da forma abraçado com raiva e ascese.

Exigirá-se alguma força
para que saia o bolo
E fique o alumínio intacto
Sem causar genocídios.

Custar há de ser constante:

muita água corrente
muita gengiva sangrante
muito tesão sem eco
Muita rotina dopante.

E lá longe
ainda hoje daqui
Bem lá longe
come-se o bolo

enquanto a forma
Produz e torra o destino
Doutros amantes
...

Por agora,
Eu solo.


terça-feira, 17 de março de 2015

Sangue

A dor perdeu a força
O arrepio se domesticou
As mãos que antes me envolviam
Não vieram hoje
Não veio o amor

Fiquei só
A respirar química
Fiquei tranquilo em deficiências
talvez
Adquiridas.

Não quero dar voz ao meu fim
Não quero calar o calor
Mas prostrado
Aqui hoje estou

Sem mãe nem irmã
Sem amiga nem certeza
O amanhã talvez hoje
Sequer venha

Mas não quero aniquilar-me
Por apenas único motivo:

Tenho ainda muito a fazer
fora deste medo menino
Muito a realizar
fora destas cidades
Tenho muito eu ainda
que não piedade.

Deixo que goteje o nariz
Deixo o algodão tapar meu sangue
Deixo a possibilidade do fim

Bem
Bem de mim
Dor distante.

Conjuro primaveras
Rodeio-me versos
Posso não ter sete vidas
Mas hoje a Deus
eu peço:

eu quero só essa.
Quero só essa.

Essa
que ainda sou.

domingo, 15 de março de 2015

cruzamento

um dia os números cessam de contar
as coisas de casa, todas elas
param de funcionar
o corpo bambeia e te pergunta
(sem nem bem perguntar)

para onde tu vais?

e você responde
(sem fazer força no acreditar)
vou-me por aqui
e por ali
por cá e lá
também
enfim

corpo ponto do caminho
porto cruzamento destino indo e já ido

tudo certo
do jeito que deveria estar

num dia
a manhã dura a tarde inteira
a noite se esconde na escuridão
e o sol te faz sala para estar

em duração grandiosa
épica não bélica
não feita de inflamação
não cosida à revelação

num dia
o dia te tira do aprisco
e se deita sobre ti

e tu
assim sob o dia permanece

feito ponto luz
porto que seduz o corpo ao lodo
corpo sábio corpo tolo
no contínuo germinar
de caminhos ainda
por vir.

terça-feira, 10 de março de 2015

cumplicidade

é lindo
quando se reconhece
no outro
uma fagulha
de sua própria luz,

lindo é isto:
ver o mundo não se perder
só porque no outro
resta um pouco
do que te faz se ser.

numa mesa
em reunião
os olhos se movem
sem pretensão
e então

o que se vive
é plena certeza
da cumplicidade
do desejo
de transformação.

há mais política
no dar das mãos
do que no tabloide
mais ética
nos olhos que se beijam
que na fofoca.

a vida
possível
sempre esteve exposta:

falta às vezes
cuidado
para reconhecê-la.

para marina vianna

FERRUGEM


FERRUGEM estreia 31 de março no Youtube,
com roteiro assinado por mim para
Paula Vilela e Samuel Toledo
com direção de Igor Angelkorte.
Uma coisa linda!

domingo, 8 de março de 2015

constante

eu preciso disso
de regurgitar sobre o fracasso
eu preciso desse hino
            retinto
          onde a dor
tem agudo sereno
e grave apaziguador
     somente porque
       é sujeira demais
                            sendo vista.

o meu mundo é isso, mãe
                                    impossível.

Pintura

Chorava sobre o diário
posto sobre a mesa vazia
Chorava sobre as folhas brancas
sujas de leve pela tinta preta
e ressequida.

Chorava sobre as horas
sobre os segundos todos
chorava sem fim
enquanto segurava destemido
o pequeno diário
que em uma mão sua
suava de tanta opressão dos dedos.

Num segundo
sem motivo
mirou a imensa parede da sala
e viu no branco da parede
o seu novo abrigo:

deve haver dor maior que essa de chorar o já morrido.

E então começou a escrever
com tintas coloridas
aquilo que os verbos
nunca deram conta
de contar.

Hábito

O mais assustador
foi quando se viu parado
no centro de uma vasta avenida
e percebeu
que o susto de ali estar
era apenas por nunca
ali ter estado.

Voltou à calçada
e sentiu-se em casa
mas seguiu caminhando
e mirando - seduzido -
o centro do longo
e retinto asfalto.

Parou, de súbito
sempre, de súbito
Parou e mirou a avenida:
era noite
era ele apenas
era agora

e voltou
ao centro da avenida.

Fechou os olhos para a madrugada.

Quis morrer, caso viesse um ônibus
uma moto um táxi
Quis morrer, tranquilo
porque o susto não era bem a morte
mas sim o fato
de nunca
ter-se permitido partir
sem nada antes dizer

e abriu os olhos

Silêncio total
ninguém passou
nem sequer um pombo

E, novamente, tomado de susto
constatou:

apenas me assusto porque nada disso eu antes havia sentido.

E voltou caminhando para casa
certo de que o seu hábito de mundo
era o único responsável
pela sua incapacidade em lidar
com o desconhecido.

O que gosto de pensar sobre ela

É que nela, a dor não dura mais que um minuto. Ela agora chora, mas sob o chuveiro. A água do mundo acabando e ela dissimulando dor em correnteza misturada ao sabonete sobre o corpo. Nela a dor não dura muito tempo porque ainda há vida e, nisso, há muito mais que apenas doer. Ela resmunga alguma coisa, mas é muita água. Água quente. A porta do banheiro fechada. A porta do box lacrada. Ela sozinha em casa querendo, se possível, a própria combustão. Desligou a torneira. Esfregou as mãos no rosto e escorreu o máximo de água que podia dos cabelos. Abriu a porta, pisou sobre o tapete, mirou algumas gotas de orvalho escorrendo lentas pelos azulejos verdes e sorriu, destemida.

Talvez eu quisesse ser mais jovem para sofrer com intensidade aquilo que um dia quase me levou de mim. Talvez eu chore porque a dor não frutifica tanto assim em mim. Não me dói os seios, semi-caídos. Não me dói sequer o amor já todo ido. Não amo mais. Gosto, apenas. Gosto da vida, dessa armadilha: a vida.

Secou-se pela metade. Caminhou descalça até a cozinha. Abriu a geladeira. Pegou uma goiaba e - como nunca antes - cometeu mais um novo inédito em sua vidinha: mordeu a goiaba sem antes lavá-la.

Às vezes, eu me orgulho de mim mesma.

E dormiu, no sofá, sem escovar os dentes.

sábado, 7 de março de 2015

Cuidado

Ao cruzar a próxima avenida
foi dito nos jornais locais
- e nos boatos do bairro -
que ali se faz comércio
de carne humana
e cocaína.

Cuidado!

É preciso ter cuidado,

o moço que servia copos
e garrafas
o moço jovem de sobrancelhas ralas
ele também
foi dito nos jornais
- e nos boatos do bairro -
ele matou a esposa
mas deixou viver
o par de filhos

recém-nascidos.

Cuidado!

É preciso ter cuidado,

A vida simples
e amigável
O sabor limpo
e inerte à descrição
Tudo isso viajou para Minas
e não mais voltou

porque o trem acabou
a sesta entrou em greve
o café esfriou
e a plantação morreu de sede.

O mundo não é mais como era naquela poesia.

Por isso,
Cuidado!

Cuidado
para não esquecer
que a vida possa ser
- caso se deseje -
tudo aquilo que por ela
já passou
e resta hoje convertido
em cinzas.

Cuidado!

Cuidado, é pedido em rede nacional:

Sigam acreditando que a vida é só isso mesmo:

Órfã de poesia
impossível de ser reescrita
Vida inerte
Olho cego
Mão passiva

Cuidado!

sexta-feira, 6 de março de 2015

Roda

A coisa mais linda de todas
é o seguir, alheio ao sentido

É permanece imundo e mudo
ainda que deseje falar e gritar
todo o íntimo

A mais linda coisa
- de todas -
Sem dúvida há de ser
esta:

sentir fome e mirar a pêra
sentir sede e permanecer
sedento,

Deve haver alguma beleza
em tossir gripe ao relento
Em dar beijo sem nem bem dá-lo
Deve haver algo, alguma coisa
indefinida

Que comporte o instável de estar vivo.

Amanhece o dia
e a nuvem negra
precipita o que ainda não veio

Atropela-se o cachorro
e ele ali fica
Prensado por repetidas rodas
de distintos carros
sobre o calor de distintos minutos do dia
no mesmo negrito asfalto.

Sem sentido, nem direção
o adiante é só sugestão:
confia-se nele
como se confia
no sim
no talvez, no não

Importa?

O coração range
e a aorta arrota:

estamos vivos, comparsas.

Estamos, ainda assim
ainda agora, ainda aqui
na Roda.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Melancolia

É uma leveza densa
apesar de sem peso
Constante se mantém
sobre o passo dos pés
junto a todo e qualquer
desassossego

Eu poderia supor
se tratar de certa depressão
de certa confusão da alma
do espírito, desses lugares
inacessíveis
tanto quanto o coração,

mas não
uma amizade nasce
onde não haveria paz
possível.

Subo as escadas rolantes
e é como se meu íntimo
Não como antes, agora
apenas, é como se aqui dentro
fosse bom, moletom
amigo, fosse tranquilo

andar com tudo isso que me desacordou tantas noites atrás.

Cruzo avenidas
miro tantos olhos
dou sorrisos às crianças
tão pequenas
e tão imensas, meu pai

Até Deus ganhou letra maior

Até com Deus agora
eu converso
E lhe digo coisas soltas
sem a precisão
sem muito rodeio

Uma melancolia
me move adiante
Os pés mesmo calçados
caminham descalços
porque o que se tem para andar
é só o seguir

o depois
depois de antes
Respiro!
Enorme!

E me emociono:
você me amava
mas estava perdido

Deve haver algo a ser dito
algo que mude
o que não mais mudará
Porque as escadas que rolam me impulsionam
até o cume
deste segundo

E muda
silenciosamente
a vida muda

E o amor
que eu tinha
ainda é meu
E ama
para além do já sabido
Ama o meu amor o mundo inteiro

destemido.

Destemido.

Melancolia foi o nome
para tamanha potência escura
e sem sentido.

Como é possível que eu me sinta bem com tudo isso?

Eu me sinto
e essa coisa de possibilidade
já não me amedronta
já não acrescenta
gota
alguma
no mar de suor
que produzo
ao acordar e pensar:

que dia! eu tenho
por esta frente!

E sorrio
e já sei:

o meu amor
é maior
que o mundo

Então está tudo certo.

Poderás partir
que eu continuo
Vivo

e intolerante
a amar menos
do que inteiramente
todo e cada
instante.

contando os dias

para ver o sorriso
dantes nunca visto
para ouvir ao vivo
a voz só por telefonia
admirada

contando os dias
para cair novamente
no buraco da vida
quando é vida apenas
e totalmente

vida apaixonada.

que loucura o ser humano
que loucura, mãe.

domingo, 1 de março de 2015

É chegado o momento de se pôr em ação na direção das coisas e pessoas

A palavra movimento me intriga. E o movimento, da palavra movimento quando em movimento, ainda mais me intriga. Exige uma tomada de posição, um mover de forças, uma ação transparente e direta ao centro da coisa a se perseguir. É como acordar e ficar deitado, de olhos semi abertos, vendo de lado o mundo se discernir. O movimento mais difícil é levantar da cama. E erguer-se, mal se acorda, é um gesto capaz de mover mundos, uma chacina, uma matança, uma torrente, enfim, pura crueldade.

Move-se também a consciência, a cabeça, os pensamentos, as sinapses são pura dança. Ininterruptas, as sinapses transformam em partitura física a nossa vida. Eu abri os olhos e as sinapses abriram as cortinas. Tudo dança dentro de mim e, dançando, tudo dentro de mim me convoca à chacina. Chacina é uma palavra que me chega sempre que preciso começar um dia. A consciência me assassina. Eu acordo sempre por ela rendido e me vejo no espelho - outro movimento - e percebo: que é chegado o momento de se pôr em ação.

Qual ação? Poderiam ser tantas. O movimento de se pôr em ação só pode ser na direção das coisas e pessoas. É chegado o momento de se pôr em ação na direção das coisas e pessoas. Mas isso não resolve, não resume, não faz nada exceto provocar uma torrente de danças sinápticas. As palavras não dão conta, nunca darão, da façanha que é o corpo em vida. Que é o corpo, essa crueldade. Elas tentam, as palavras, elas tentam dar conta, mas não conseguem. Por isso tanta coisa dita sem necessidade: esse negócio de chacina, essa certeza dura e suja da crueldade.

Há que se treinar o corpo para cessar um pouco algum movimento. Há de se aprender a ficar, restar, não como inércia, mas como abrigo, moletom, abraço, amigo... As palavras seguem me tentando e não dão jeito nem na pele nem no sentido. Tudo escorre, escapole, e a vida vai se vivendo sem me levar com ela e eu vivendo sem ser levado por ninguém exceto pelo abismo (que me chama, me convida, me exige participar dessa coisa toda).

Bom dia, apesar de ser já tão tarde. Eu danço as minhas sinapses em meio a sala de estar. Como é bom e preciso um refrão qualquer que me faça repetir os passos. As certezas quando dançadas viram apostas na esperança antes morta e agora polimórfica. Tudo pode se refazer, inclusive as cinzas do cigarro. Vamos lá. Dizem-me os neurônios em sua dança quântica e disforme. Para que forma se há movimento? Movimento anulando o fixo e se fixando como pleno acontecimento, plena coisa sem nome capaz de aprisioná-la.

É chegado o momento de se pôr em ação na direção das coisas e pessoas. E eu estou aqui, agora, neste momento, vestido de mim, ansioso pela crueldade do encontro, pela chacina das peles sobre as coisas e dos encontros entre pelos.