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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Assumir a Vida no Varal

E deixar esturricar
as pretensões todas

Deixar queimar
e ficar inerte

A cueca
As meias
Os panos de banho
as roupas todas

e também seus afetos

A saudade
O desejo
A vida planejada
O caminho pré-traçado
O desejo tenaz
de andar junto e de mãos dadas

Tudo vai ficar inerte
no varal da área de serviço

A vida passará
mais pela sala
quarto banheiro
e cozinha

A vida ficará no escritório
de castigo
Se escrevendo e se remoendo
sem fim
até que num dia

como houvesse uma tempestade

cai uma meia do varal
feito manga amadurecida
feito jabuticaba
acerola vermelha retinta
feito carambolas

despencaram todas as minhas coisas
que hoje estão de molho
soltas no vento seco e quente
desta ruína

E então vestirei meu sorriso
tranquilo, sem pretensão
vestirei a meia de antes
a cueca e a samba canção
E sairei

pronto para me sujar
de novo
nesse abismo sem sentido
que é ter amado o outro
e ter-se perdido de si

que é ter confiado
e ter que forçosamente
aprender (mesmo sem lógica)
a desamar
como quem aprende
a estar vivo sem respirar
a estar presente sem rir
a viver sem seu ti.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

01 cerveja e 02 pastéis

por favor,
não é fome
aquilo que sinto
é falta de vergonha
por não compreender
o que jaz claro.

e por que não compreendo?
só porque a resposta
é horrível demais
para me fazer lidar.

poderias dar conta do horrível?
sim, poderia
mas é como pedir pastel de queijo
e comer de calabresa.

não como, não como
o que não desejo
não bebo sequer a cerveja
se quente ela vier.

arma-se então o insolúvel:

a vida dá jeito, às vezes,
para que nela se procrie
belamente e apenas
o impossível.

e o que fazer?
você pode lidar
com o impossível?
você saberia?

desde que gelada,
eu respondo
desde que com cerveja
bem gelada.

e se o pastel de queijo não vier
e se vier só queijo sem cebola
ainda assim não quero
porque há de ser a vida
(um pouco apenas)
aquilo que desejo que ela seja.

embriaguez? vais se drogar?

aqui estou eu,
não vou negar.
algumas drogas servem mais
do que a ilusão do bem estar.

existe droga pior
que a do amor?

que não veio
amor que partiu
sem nem bem estar
nem queijo
quiçá cebola
nada mais há.

volto para casa
e um sorriso me sequestra
não num guardanapo
mas numa famosa esquina.

eu atravanco o passo
eu olho e me paro
penso que sim
não veio pastel,

mas veio outro
e outro mais
e mais dois
e agora
- perceba -
a cerveja acabou
mas os sorrisos continuam vivos
entre tantos outros
como tantos outros
daqueles tantos outros

que eu já perdi.

Se arrependimento morresse, eu já estava matando.

Como dizem os personagens que invento
"tá tudo certo"
Eu os pergunto (por meio de outros personagens)
"tá tudo certo?"
E eles afirmam com ênfase
"tá. tudo certo!"

Então assim será
pois se dia a dia
eu descubro um pouco mais
daquilo que não estava claro
Então tá certo
eu já percebi

Quem tá com problema
quem sofre confusão
na boa
não sou
não sou
eu não

Eu, ainda, ao menos,
tenho um dom
dom raro
para estes tempos
O dom
de ser sincero

Custe o que custar.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

mais outro engano meu

ai, que cansaço sem fim.

eu escrevi hoje cedo
que acordar sem necessidade
de escrever
é poder voltar à vida
sem mimimi

e então
foi sair de casa
para o dia atravancar
para te buscar entre os carros
entre as caras todas
que me passaram
sem nenhuma em mim
ficar.

que cansaço, que sem fim
por que viver isso?
por que assim?

pondero:
- já foi pior;
- se tivesse que morrer, já tinha ido;
- você vai sobreviver;
- isso e aquilo...

mas hoje não

hoje a sua falta é presente
todas as músicas são por ti
e para ti
a receita que fui cozinhar
a compra no mercado
o último cigarro

tudo é por você
quem ainda (eu tenho vergonha)
ainda amo.

pondero:
- liga, se encontra, talvez ele vai querer;
- mas e depois, diogo? e você?;
- relaxa, vai passar, vai passar...

e a vida não me oferece nada onde aportar
vivo aéreo tentando aterrissar
mas onde?
meu coração é muito grande
e, para piorar, está inflamado
chorando por todas as linhas
de seu tortuoso emaranhado.

pondero:
- vá dormir;
- escreve, diogo, escreve;
- (suspiro alto, mas ninguém me ouve);

estou burro
e destruído
sem esperança
sem sentido

estou maquiado
num futuro
que me desinteressa
numa fagulha
que finge estar acesa
mas que se apaga
assim que me viro
para escovar os dentes

eu estou ferrado
eu estou emagrecendo
estou doente
estou querendo máquina do tempo
para voltar
e consertar
o que nunca talvez tivesse jeito

...

eu vou dormir
assim, quem sabe
sem sonho,
eu me esqueço.



Sucrilhos

Quando você acorda
e percebe não ser necessário escrever
é porque, provavelmente, já esteja
na hora de voltar a viver.

Que bom.

Por que há fascínio?


Por favor, não estamos falando de lágrimas quiçá de piedade. Não estamos aqui falando de gostar de doer, nem sequer de insistir em rimas como início e fim, vida e morte, alegria e tristeza, não disso. Estamos falando do fascínio, apenas dele.
Quando se está só, mesmo que com olhos fechados, o fascínio se deita na bacia da vista e ali se procria. O silêncio fica audível e a pele sente a própria sua textura. O fascínio escancara a solidão e o que se vê adiante é a única imagem possível para lidar com o desamparo.
Frente ao desmonte do mundo; face à constância das guerras e da máquina de produzir dinheiro inventado; ante ao luto de tantas asfixias: o fascínio em solidão contigo permite que se ampare a existência num tenaz gesto de perseverança:
você descobre que o corpo é o poder último incapaz de ser sequestrado; o corpo mutilado e escravizado, ainda assim, em sua condição de vítima, ainda assim é retinta energia.
O fascínio preso em meu olhar quer me anunciar o seguinte: o modo como você mira todas as coisas te convida a uma certeza dura e dolorosa de que a vida não vale à pena.

A vida não vale nada.

E seus anos de estudo e ciência te confrontam com pouca opção: você morre? Não,
muito rapidamente você diz que não e se põe a dormir. É que há vida mesmo em sua falta, há morte em vida pois o ser humano é a revolução mais industrial de todas já arranjadas.
E o pavor num coração é como dinamite em bombas.

FONTE: Maurice Blanchot

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Este Estado

O pior deste
e de outros séculos
Talvez seja mesmo
a indiferença.

O desfile das corrupções
em orgiástica relação
Não cessa
e, como hoje,
faz apenas alguma coceira.

Tudo se esquece
no feed das doenças
Tudo se indiferença
e desfilam poucos perdedores
A balançar tenaz e contida
desarmonia.

Aos poucos, o marginal
toma força
para fora da cultura
Vira o marginal
o húmus delator
da infantilização crônica
da espécie humana.

Aprender-se-há
nas escolas desabitadas
que o mundo será mesmo
este projeto de crime
da galera endinheirada.

Aprender-se-há pelas imagens
apenas, das revistas
e da vida diária maquiada
e plastificada.

A vida vai saindo de circulação
e os fantasmas são todos pós-modernos
tudo fantasma vazio
que quando é tocado
remete apenas a este segundo forca
no qual nada se modifica
tudo só se continua
em merda pastosa
e loira.

E mais outra vez
o homem não terá se dado à nada.

E então os esfomeados
tomarão o poder
Já que a fome tenha
roubado sua identidade
Já que o frio tenha
trocado sua pele

e feito do pobre
superfície do mundo
E não mais classe
nem face;

tudo anônimo
porém vivo em força
destemida ao abate.

Tudo tão errado
tudo tão sugador

corruptor

Que a dor vira cor
para o além das cores
Que a falta d'água
e de casa
Sobrevive ainda mais forte
e futura
para além do dia em que achávamos
que viesse a chegar o Jesus do amor.

O humano se perdeu
o cuidado não chegou a tempo
o carinho, a calma
o toque aveludado
Tudo foi morto
por não dar lucro imediato
e por não poder ser apenas só de poucos,

aos segregados
eu desejo a dor
como arma final
desta revolução
em curso a cada
morte
a cada morte

das crianças
velhos
e das Mulheres,

oh, Mulheres

sobre seus corpos o homem destrói a possibilidade da vida não vinda;

oh, Mulheres

que merda o que nos tornamos.

Mas o cheiro do mendigo pestilento
o corrimento das feridas sem medicamento
a energia voraz dos jovens que não aceitam o mundo
tal como hoje assim o vivemos

tudo isso vira ponto nodal

e o mundo vai se compondo ponto a ponto
sem pressa de virar linha
sem vontade de ser fronteira
nem separação

tudo junto
Me dói
o longe
no qual hoje
e ontem
Morreram-se
toneladas
de corações humanos.

E já nem a arte dá conta
de fazer diferença brotar
nem mesmo a arte
esta descabida
engolida pelo comércio barato
(e venenoso)
da mesquinharia.

o sujo
o preto
o bicho e a bicha
essa legião de desarranjados
Vocês tem minha curvatura
têm vocês minha devoção
em meio ao poço
de esgoto
também hoje já desidratado.

O meu ódio
em world wide web
faz encontro com o seu
O meu pranto
vai virtual
procriar com o teu

e assim,

Um dia
o homem vai perder sua graça
A guerra vai virar história de ex-ricos e de ricos piedosos
e a morte vai limpando
o que não soube florescer.

Fiquemos em posição de húmus,
para que o mundo que não conseguimos
possa em meio ao nosso resto
Se inscrever.

Vamos perder
bastante
Até que o nosso espanto
se vire estandarte
E a nossa dor
vire escudo frente à barbárie dessa normatização toda
que tira a vida da praça pública
E a coloca - sempre -
em cousa outra (que se possa vender
roubar e consumir).


Grace series by Jonni Cheatwood 

delicado embargo

Costumamos dizer que num dia, qualquer, 
a gente acorda e tudo se modificou.
Hoje, porém, eu ainda não dormi
no entanto - que sorte - mesmo assim
a manhã aterrissou com renovado frescor.

  • Oi, mãe
  • Bom dia
  • Bom dia
  • Esqueceu da gente?
  • Não. Imagina...
  • Pulou carnaval?
  • Um pouco.
  • E tá em casa?
  • Tô. Tava ouvindo música alta...
  • E não ouviu eu te ligando?...
  • É.
  • Tá tudo bem, então?
  • Sim. Voltando ao trabalho.
  • Que bom. Eu vou viajar.
  • ...


E isso aquilo e mais que tudo,
muito cuidado,
vozes doces no mesmo
e delicado embargo.

Mãe, às vezes, eu sou tão seu filho
e isso me engrandece tanto.
Foi bom te ouvir e contigo falar
foi bom compartilhar o que estou vivendo
sem medo do compartilhar.

Se eu me esqueço que sou teu filho
obrigado, mãe, por de tantas e distintas maneiras
obrigado por me lembrar:

eu sou seu filho.

E é lindo ter você, maezinha, como minha mãe.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Sobriedade

os dedos imundos
o pescoço mordido
o mamilo (nem sei)
a boca arranhada
o pênis cansado

a sujeira samba
dentro de casa
e eu me sinto bem
ao menos agora
por hoje, ao menos

não quero limpar
nem quero comer ainda
nem sequer fiz café
fiz apenas cinzas
sobre tudo

exceto o peito.

um vulcão
(ou coisa desse calor)
mora dentro de mim
e tem por nome
a vida mesmo.

sem muita graça
mas com algum atraso
eu me revisto
me olho e confronto
no imenso espelho.

o que quero de mim
é tão presente
neste instante agora
que não vale dizer
se não quiser
perder

toda essa disfunção
toda essa inutilidade
toda essa arma
ao meu peito
por mim mesmo
apontada

dói a garganta
provavelmente se furou
ou se queimou
já se foram tantos cigarros
brancos e vermelhos
de marca
e de insuportável gosto

foi-se tanto sobre o meu corpo
que hoje, afinal,
quero descansar

mas não limpo

fico na sujeira
sorrindo purpurina
e fedendo cerveja.

que maravilha!

O corpo que a palavra toma

Você não pode negar e também não pode ver. Desculpe-me tamanha diferença: mas eu ainda posso. Eu vejo. E mais que isso: tão logo vejo, via nervosas sinapses, broto sentido. O sentido me nasce como nascem os arrepios: assim! Numa fração de tempo miúdo. Eu posso ver, eu vi, mas você não. Eu sei, eu sei. Não é nada. Não foi. Ok, ok, com esse jogo eu até invento canções. Eu digo nunca, sempre digo, nunca agora, mas ontem, deixa, eu não aguento mais isso... E o som vai saindo. Dizendo sim, dizendo não, dizendo não é nada, não foi, tudo negação. (Como deve ser difícil viver uma vida assim, né? De não conseguir ser o que se é. Eu morreria se isso acontecesse comigo. Mas talvez eu não pudesse perceber).

Porque tem gente que vê, tem gente que não. A questão central questão é que eu sou diretor de teatro: e como me comovem as más atuações! Fico digníssimo, sempre que a mim alguém se destina e solta aquele texto ruim e ainda por cima texto mal dito. Se o texto é ruim, mas você sabe dizer, ok, a gente se dobra. Agora: se o texto foi ruim (como o seu ontem foi) e a sua atuação (não sei como, mas enfim) foi pior, o que que eu faço?

Você exclamou no instante mais sincero que poderia existir entre nós dois. Você estragou a possibilidade do mútuo respeito e da admirada adversidade deste temporal. Você atuou mal, muito mal, quando a mim se dirigiu. E sabe: diferente de ti, eu nada tenho a exclamar. Porque você é assim: acha melhor parecer bacana para fora do que estar tranquilo com seu dentro. Então você exclamou meu nome e eu quase morri, pensando: será que ele não consegue sequer ser sincero? E eu que pensava que eu estava cheio de problemas. Não. Você não conseguiria ser sincero. Porque é isso mesmo, ainda é, que pena, mas é: você quis se parecer melhor, mas não viu a ponta dos seus olhos (elas estavam dizendo coisas brutas e silenciosas, tormentas estranhas e pesarosas). Você exclamou meu nome para instaurar a normalidade da paz pós-conjugal, mas atuou mal. Muito mal.

A pessoa quis ser bonita de corpo mas não reparou nem domou a disritmia nem do falar quiçá do olhar. Resumindo: eu não sei de nada, mas ao menos, tive a delicadeza de cobrir meu olhar com um óculos postiço. Apesar de vivo, meu olhar não teve a obrigação de atuar em pleno carnaval. Meu olhar não teve a obrigação de ver nada ou coisa alguém. Ficou lá, meu olhar, dentro dele, meus olhos, protegidos sob espelhos a noite inteira a bailar.

Eu sei, de nada serve. Não é nada científico, mas é só o que hoje me parece me chocar! Por uma exclamação (coisa típica de insegura atuação)! Pois se coloca a exclamação para não ter que lidar com o absurdo já nítido e retinto do corpo que sente a palavra ainda nem dita. Coloca-se a exclamação, apesar do susto, para frear a ira. Para retesar as águas. Exclamação para tornar - mais uma vez - divertido o que não tem graça nem nunca terá.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

fiquei pensando (...) amor


fiquei pensando
(e isso de pensar ainda me levará ao longe) fiquei pensando e o fato aqui está: estou ainda vivendo em débito, débito comigo mesmo, ainda estou me parcelando, pagando com prazos e altos juros o nosso sonho destruído.
fiquei pensando: ora, é isso o que eu sou agora, neste momento, estou apenas me dando jeito, meio ao meio em meio ao tempo. então, ciente disso, agora eu percebo: não há de haver problema em escrever essas coisas se isso é apenas o tudo que me restou; seria orgulho meu? imaginar que você possa ler estas palavras, imaginar que por conta disso elas deveriam ser mais lindas do que esse imenso meu mau estar? 
não, não, não dessa forma. eu ainda estou sem eixo, ainda sinto saudade, ainda choro, ainda (e sempre, talvez) não entendo. mas tudo dura menos do que antes durava. tanto é que ontem, por exemplo, deitei-me ao chão da sala. tudo escuro e fiquei a passear por nossas fotos: vi os abraços, os sorrisos, as promessas, revi tudo, tentei sentir seu cheiro e não me veio nada, exceto a tristeza de já ter esquecido (uma porção de detalhes teus que eu tanto amava); achei que fosse chorar, acho até que estava precisando, mas acabei dormindo de tão morto desse cansaço que você foi nos arranjar.
aí depois, depois, eu sonhei, mas não lembro com o quê; depois eu acordei e estive certo que a sua escolha é isso mesmo, era para ti apenas e não para nós dois; e isso me acalma, de alguma forma, me acalmou. se você estivesse longe de mim (como agora está) se você estivesse sozinho de mim (como agora está) e se estivesse você perdido confuso dificultado sem rumo (eu morreria por não poder te ajudar), mas não é isso, né? 
você está bem aí na vida grande que resolveu sozinho bancar: você está bem e contrariada a minha dor, a sua minha falta, fora tudo isso persiste em mim a descoberta de que a vida tem dessas coisas.
hoje se completam cinco semanas desde um dos dias mais tristes já vividos por mim; hoje já cinco semanas e eu aqui ainda dando satisfação a cada respiro que dou, ainda te respondendo na forma de arrumar o lençol no jeito exato de pendurar a roupa no varal eu te vendo em tudo e em quase todos mas,

essencialmente,

eu me descobrindo depois de tanto tempo vivendo fora de mim

depois de tanto tempo servindo ao nosso amor, eu estou agora me revendo e gostando de ser o que me tornei de mim. vai passar, guri, vai passar e num dia, lá na frente, se tudo der mais ou menos razoável, a gente se conta tudo o que aconteceu quando não mais pudemos nos abraçar e nos cuidar e nos contar:
a vida vai passar mas é preciso deixar, deixar faltar deixar os olhos dormentes (sem procura evidente) deixar o peito vago semeado de silêncio e frígida agonia (como agora meu peito está). 
vai passar, joão 
mas até lá cruzaremos muitas ruas sem que nenhuma delas nos reúna, 
adentraremos os mesmos táxis, eu logo após terminada sua corrida, e mesmo tão perto, não teremos nos visto, 
e entraremos em lojas em minutos subsequentes e aposto que minha mão tocará o seu mesmo livro que sua mão acabou por não levar 
e assim, sem esforço nem calor, um peito vai abraçando a fantasia do outro e numa hora (ou noutra, tanto faz) a gente brinda juntos à vida e à possibilidade de, vivendo, multiplicar o que aprendemos juntos a fazer nascer:

 amor.

Desvendamento

Tudo estava opaco.

Com margem dura
e bem definida.

Numa tarde, foi preciso
se deixar sobre o chão
para alcançar de volta
o cuidado da colcha
o sossego do linho
e a pertinência
de um travesseiro.

Estava tudo muito
estipulado.

Nem ventava.

Os caminhos
de toda e qualquer coisa
eram apenas respostas
à pergunta que não vai calar:
por quê?

Um silêncio seco.

Os futuros em desarranjo.

Numa noite, em segredo,
pediu-me o íntimo por abandono.

Ergui-me da cama 
fui até à cozinha
bebi um litro d'água
e olhei aqui dentro:

Não será possível.

Luzes apagadas.

Nem mesmo havia música
alta.

Numa manhã, demorei minutos
até me lembrar de você.
Sorri, comedido
dizendo-me:

é assim que tem que ser.

Camada a camada
detalhe a detalhe
Eu ainda estou em meio
às fundações
Eu ainda sou terra
poeira e pedaços
Cacos
de pedras vidro e carne moída
e mutilada.

Vidro transparente.
Moldura preta e fosca.
Entrega agendada:

os quadros que nunca me empenhei
em enquadrar
em breve
ocuparam minha vista
cabeça
sala
alada,

povoarão meu bem
estar.

Regar as plantas

Amanheceu
e eu não dormi em casa.
O vento no rosto anuncia
outro tempo
em que meu corpo jogado
me desabafa.
Gostaria, se possível,
ser mais calma que maré revolta,
mas não
Sou o que é meu corpo a esta hora
inda tão escura
tão insensata.
Chego em casa
rego as plantas
e o que vier depois
não me arrasa.
O carinho
redescoberto
O cuidado
recíproco e sincero
Tudo é força
capaz de germinar.
Eu vou de jardineiro,
e você?

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Coeficiente Artístico

A que distância
a minha compreensão
do que desejo expressar?

Duchamp já havia dito:
por mais que o seu desejo seja claro
é na expressão do desejo que se manifesta
este impossível
que é a Obra de Arte.

Eu revi o vídeo
eu li sobre o assunto
fiz muito
entrevistei
rabisquei
rasurei
e mesmo assim
Estou rendido.

Nada frutifica exceto
esta dúvida persistente
e aguda.

O que posso fazer?

Vou contando os dias
até o instante em que será preciso
ainda que impreciso
Dizer.

Escrever.

Expor
o meu olhar ao mundo
corporificado em versos.

Que drama!
Que mundo!
Que abismo entre a obra
e o coração.

Alguém me ajuda?

Não.

Silêncio.

Não.

Eu preciso penar sozinho.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Calendário

Achei um parafuso solto na parede azul
e nele pendurei meu calendário,
presente de aniversário.

Nele os dias precisam ser trocados
diariamente
Caso não, corro o risco de ficar preso
no passado.

Estou trocando os dias
em repleta ironia, afinal
A cada novo dia mais longe fica
você e a sua presença
(que antes andava junto a minha).

Achei um parafuso solto e nele
pendurei o tempo deste agora.

O tempo deste agora,
ao contrário do previsto,
precisa ser feito a cada dia
a cada noite eu preciso tocar no tempo
e ajustar suas horas.

Dá trabalho, mas sabe?
Faz-me lembrar que a vida
no início, meio e final de tudo,
inda assim Anda.

A vida, essa Andança
sem rumo
sem freio
nem fim

Toda fantasiada de 100 sentidos.

Quer chorar?

Eis uma possibilidade.

Não, por favor, não se sinta culpado.

Escute e sinta o próprio peito
e perceba: se você quiser chorar
É porque assim deve ser.

Você vaga dentro dessa casa
por ti, já tanto modificada
Mas é que seu peito não conhece
aquilo que seus pés pisoteiam.

Seu peito hoje apenas sente
o terreno baldio por sobre ele
A se instaurar.

Por isso eu te pergunto, Diogo:
quer chorar?

Você escova os dentes
Ouve a música precisa
Acende o último cigarro da noite
e da cama se aproxima.

Deve haver algum tipo de negociação.
Tem que haver.
Por que não?

Você desistiu do pranto
e entretido entre estas letras
Vislumbra, algo adiante.

A música se troca sozinha
e a batida agora te envolve
e abraça.

Eu estou terminado.

Pensei uma coisa de ti;
De mim outra coisa você pensou;

Eu estou feito.

Meu choro
Voltará
Mas não por ti
nem mais por mim

Voltará meu pranto
Por conta daqueles
que hoje dormem ao relento
que hoje passam fome
E sede.

Eu respiro
sem amor
sem amor
sem amor

Sem amor
eu respiro

Porque o meu amor
é mais vasto que meu peito
maior que o mundo
E que todo o seu medo.

Obrigado, mais uma vez,
versos meus.

Obrigado.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Incerta Frieza

Não se trata de pedir desculpas
pois é assim também com as coisas todas
como a poeira, como a chuva
que vem e afoga - destemida -
a fileira de jovens e magras formigas,

Não se trata de remediar o já feito
de desdizer o instante terremoto
em que munido de palavras
eu quis e vi o mundo
do meu jeito.

Certa frieza se concentra
na ponta dos meus olhos
e dedos.

Certa frieza me move adiante
ainda que esteja sempre a sair
de bermuda curta
e regata lisa.

Certa frieza me dinamiza

Me faz passar por sobre as poças
sem receio da sujeira
Me faz cruzar pelo mendigo
e não me sentir - pela primeira vez -
tão distinto dele.

A vida está se sendo
e eu percebo, de novo
e inédito, o seu movimento:

as coisas todas estão aqui
reunidas e dispersas;

A vida não nos pede licença
ela nos obriga à gincana incessante
de plantar, regar, crescer
dar filhos
e morrer (ou matar).

Portanto,
que o frio do meu gesto
seja visto na inteireza
do meu coração.

As coisas que eu aqui escrevo
são soluços
de alguém que apesar de descrente da vida toda
(e descrente também de si)
alguém este que ainda assim
está tentando - e conseguindo -
se reerguer.

Que venha o frio e me abrace.

Eu estou aqui.

Tremendo em potência
Tremendo comparsa
para as coisas todas
que este mundo
venha a me oferecer.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Ouvi dizer

Que os seus sonhos
amanheceram dispostos
A virar dia.

Ouvi dizer que você
apesar de tudo
Está com o sorriso gordo
e nunca foi visto
Sequer amuado.

Que os amigos estão te bajulando,

Que a família segue te depositando
aquelas generosas quantias

e que os restaurantes
só os mais caros.

É óbvio. Eu nem deveria
me assustar.

Ouvi dizer até que você
anda cantando feliz
Dentro de casa.

E sabe?

Amei perceber o quanto
aquilo que você buscava
Já lhe era coisa cara
e antiga:

a vida mole
as coisas no mesmo
mode
ser amado
bajulado
para não ter que se lembrar
de que a vida
antes de ser você
é a vida apenas
sem mistificação;

tormenta de imprevisíveis
ondas.

Ouvi dizer coisas de você
e, de tudo, o mais feliz
Foi perceber que a sua
repleta felicidade
me permite
agora

te esmaecer
de ti sumir
desinteressar-me
inteiramente
por você.

Parece raiva, eu sei
ódio, vingança, essas coisas
Parece ledo engano
este o meu
de te sumir de mim
mas,

veja:

eu já tô sumindo.
e tá sendo incrível.
tá sendo forte.
e dinâmico.
e de um aprendizado
sem freio rumo ao centro
desse abismo:

ah, vida!

Eu não vou te agradecer posto exista aquela coisa do orgulho,
mas à vida - esta estrondosa - eu dedico estes versos.

A3


Lentamente
Delicadamente
Os estados fazem
a transição.
Que lindo e curioso
é um corpo, não?
Tenho observado
Lentamente
Delicadamente
As coisas que dantes
assim estavam
Noutro instante
agora
Se alteraram.
Que bela e voraz
é uma transformação, não?
Tenho reparado
Lentamente
Delicadamente
As coisas todas
que haviam naufragado
Posto de pé
os papéis empoeirados
E todos os lápis
e canetas de cor.
Que vital é o tombo, não?
Sobrevive a incompreensão
sobrevive a irritação
sobrevive a certeza, cada vez mais clara,
menos gentil,
do engano e do alvo
ter sido
O meu nome
nesta triste canção.
Mas não sou o primeiro a escrever
oh, meu coração.
Sou o enésimo
de ontem para hoje o vigésimo
Do minuto passado para este
agora sou o centésimo.
Que lindo são dois, três, mais
corpos juntos na mesma direção, não?
Eu fico louco.
Hoje está é minha condição.
Ainda bem.
Ainda há bem.
 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Corda

Acordo muito cedo
porque estou passando mal
Acordo cedo e junto aos meus pés
as cordas ainda dormem.

Penso se deveria aproveitar seu sono
para me impor, por meio delas, um
sono eterno.

Nem me pergunto.
Penso em afirmação.

A corda se mexe.
Ela me diz não.

Deito-me novamente
e, delicadamente, ela cose
alguma confusão entre minhas
sonolentas pernas.

Eu durmo novamente
e acordo retinto:

é pois que sei
que esse negócio de dormir lindo
e acordar organizado
é coisa mais de revista
do que da vida, meu caro.

Elo

No fim destas contas
(ainda em aberto)
Meu amigo Nietzsche
tinha razão.

A guerra
O ódio
São drogas potentes
não apenas para a poesia
Mas, sobretudo,
para a travessia.

Não que seja isso, amigo,
mas você precisa concordar comigo:

quando se chega ao ponto em que chegamos, a única coisa
a nos dar um resto daquela já antiga sensação de constância

É essa ira; esse pavor; o absurdo; dessa merda; toda.

Heresia

De que adianta a poesia
se você só sabe enxergar
Via miopia?

De que adianta a vida
se você já determinou a ela
Uma única serventia?

De que adianta a doença
se o remédio que você toma
ao invés de te curar te dá demência?

De que adianta estar perdido
se a vida é desde sempre
perdição?

Ou

De que adianta querer se encontrar
se tudo neste mundo nos convida
a duvidar

Do Sim

Do Não

Do Talvez

Do Nunca

Do Sempre

Do Amor

Do Corpo

Da Mente

Da Dor

Dos Astros

(e de um punhado de outros lugares)?

Trauma

Não é bem falta
Não é nem bem mais amor
Não é coisa dizível
Nem sentimento alcançável

Talvez
o que eu esteja sentindo
Aquilo que está me deixando
repleto
Seja só a cicatrização
(lenta, posto haja diabetes)
do meu pior tempo
Nesta vida:

este.

7 Things That Now I'm Sure Of

With or without words
I'll try

In English
as this large difficulty that
I have now here with me.

How can I explain it?
I can't.

How could I give a name to this feeling?
I think I cannot do this.

There's only two things that now I know:

1) The certainty
2) and this unbelieving feeling that now it's me.

A pause, please, God.

There are another two things:

3) The certainty, another one, that is
the fact I am still here
4) And the other one that is this hate
that I'm feeling front of the weakness
from human being.

I told that maybe I wouldn't have words for this.
Indeed, I haven't

But this feeling
- this feeling -
Is much bigger
than everything I ever felt
Is much more impossible
than it's possible for me

And guess what?

5) I am here with all this fucking pain
6) I am here only with me
and
7) I am loving it.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Spirit Indestructible

Certa leveza impera
sobre todas as coisas soltas
e convoca: a hora
é essa.

Desfiles percorrem avenidas
o sol está ameno e a pele
destemida ao
desencontro.

Uma coisa sem nome
é o cerne do abandono,
e persiste o corpo
se assumindo em vão.

Haveria vida não fosse esta
a maior convicção?

O corpo está só
mas de mundo rodeado
ele está
Dançando solto

sem freio
sem medo
sem nada
exceto

o tempo
(abraçando todas as partes
hoje mais que nunca
órfãs).

Uma fera
afaga o interior
esvaziado,

Uma fera
observa atenta
o inédito rompido
laço.

Tudo o que foi vivido
ainda agora não se compara
a essa poesia tremenda
e Torta.

Meu espírito só quer dançar.

Ele só quer dançar.

Ele dança, então,
espírito meu.

A destruição hoje é sua melhor amiga.

Confia nela
rompe a bainha
E fica
perplexo
Nu
No centro
desta sala
de restar

e, por fim,
quando tudo estiver cansado da mesma rima,

Voltarás.
A si,
em reverência
e pronto
Mesmo
para outro
outro um

Recomeçar.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Sobre as coisas bonitas

Eu confesso
talvez seja o cansaço
Mas bem que eu queria
conseguir ver a beleza
a me seguir os passos.

Deve haver algo de lindo, não?
no meio dessa obra toda.

O eixo da construção caiu
as fundações estão expostas
sai formiga grande e gorda
por todos os lados e buracos
Mas deve haver algo
um algo sequer
Que seja belo, não?

Todo fim encerra um começo
porque a vida não cessa
mesmo quando o corpo morre
Porque segue o corpo morto
dentro do mundo
se viajando e se revivendo.

Algo bonito, alguma coisa
tem que existir.

Eu me olho no espelho agora.

Eu ouço as músicas mais delicadas
que escolhi nesta noite apenas para mim:

deve ter sim um sorriso ainda sem força
mas querendo nascer;

deve haver uma memória mais secreta
que quando surgir, tamanho o imprevisto,
ao invés de trazer dor
dará uma trégua ao desespero;

deve haver um abraço futuro
que não me mortifique de medo;

deve haver um acaso terrível
a coser de novo a bainha
que nos soltou.

Deve ainda haver amor.

Mas, por agora,
o que há é lágrima para fora
e para dentro
É noite hoje fria
e o relento de uma casa para um homem só.

Deve haver alguma coisa na vida
esperando-me para desfazer esse nó.

As coisas bonitas, como sempre foram,
meus olhos hoje mais que nunca
começam a perceber.

Não é bem ao tempo a quem eu agradeço
nem muito bem agradeço a um você

Hoje
aqui
Nesta noite
passando
Eu agradeço à possibilidade
de ver através
do pranto.

É isso.

É isso mesmo.

Aos poucos

A nitidez dos traços vai ficando confusa
e deixa um gosto impalpável
e de duração curta.

Pouco a pouco
o nariz já não busca
nem sequer o corpo se exclama
em ereção.

Bem lentamente
a poeira começa a se acomodar
nos pontos que já há algum tempo
ela não tinha como se deitar
porque alguém dormia ali.

Com calma, é verdade
o coração agora faz preces
desejando sorrir no distante
que a mente concebe
compreende
mas que não vê a hora

de logo chegar.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

olho para o céu

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minha amiga,

hoje remexendo meu hd externo, achei tanta coisa sua. nossa. de já tanto tempo.
sorri muitíssimo, confesso, gargalhei, vendo as fotos da última vez em que estivemos juntos
e - sempre - destemidos.
eu não tinha barba e você era do jeito que ainda hoje sempre será para mim.
queria te dizer uma coisa (não que você não saiba):

eu sonhei com você.

pela primeira vez desde que você se morreu.

sonhei e foi lindo. trocamos palavras, mas eu não tenho linguagem para traduzir o que conversamos. foi conversa escrita por olhos, sorrisos e ligeiros toques.
eu peguei - com as duas mãos - o seu queixo. e é engraçado no sonho eu ter feito este gesto, porque foi no seu enterro - a última vez - em que eu havia o feito.
tocado o seu queixo ralado e semi-coagulado.
você estava linda em nosso sonho. parecia mais alta. mas, no entanto, você não era mais nova do que eu (hoje). você tinha o mesmo tamanho (o cabelo, é verdade, estava mais comprido que o normal). você estava linda e se eu puder dizer a única coisa dita por você que eu me lembro (e que jamais esquecerei), é que:

eu estou bem aqui onde eu estou.

onde é? esse aí, onde você está? me conta? me invada noutro sonho e me passa o endereço, eu queria te visitar. nem que seja em poesia. tenho passado por dias muito ruins e estou cansado de me machucar. fui machucado, mas não sei curar nada disso. e os amigos, coitados!, estão tentando me erguer os ombros, mas eu não estou sendo rápido nem estou conseguindo.

só que te reencontrar, neste momento, depois de tanto tempo (sem te escrever, tanto tempo a ponto de em breve completar 10 anos...)...

que bom! que bom te rever, kekel! eu amo o sonho porque ele me deixa viver tudo aquilo que eu não pude mais viver. este sonho me trouxe o seu cheiro, me presenteou com o seu largo sorriso e com tantas outras delicadezas. consigo me lembrar da minha cara - no sonho - profundamente presente sendo vivo ao seu lado!

continua mais perto, tá? já deu tempo de sarar, deu tempo inclusive - ao menos para mim - de entender tudo. não temos nada a ser desculpado. você se matou porque esse foi o único gesto possível para se manter justa a si própria. a dor que você deixou a gente aguenta, a dor a gente processa em parcelas inúmeras pela vida adentro e, num soluço, assim, de repente, tudo se redimensiona e nos faz ser mais gente do que novela.

nunca estive tão certo da sua presença como hoje, agora. sei que estás aqui, afagando o ineditismo do meu cabelo raspado. sei que estás vibrando quando entro numa sala de ensaio. sei que estás aqui, por todos os lados, deixando eu seguir sem ser importunado. mas, sabe de uma coisa que eu nunca te contei? às vezes, dirigindo uma cena de alguma peça de teatro, eu penso em você e penso naquilo que você me faria perceber.

olho para o céu. e é você quem me ilumina.

mas, se não for pedir muito, por favor, me importune mais vezes, pode ser?

às vezes, me desculpe a franqueza, eu realmente sinto precisar de você.

te amo, kekes
do seu amigo,
didios

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Unheimliche

É como se tirar para passear
e voltar, se deixando por lá.

Tem algo de fascinante
isso de se estranhar.

Algo de muito frutífero a vir
nesse gesto brusco
- intempestivo -
de se opor ao que lhe é
familiar.

Olhei-me no espelho
no espelho do banheiro.

Peguei o barbeador
e comecei:

pela direita
depois esquerda
fui puxando pela barba
subindo
fazendo a curva
por trás das orelhas
até chegar na nuca
(hoje sem perfume).

Olhei-me no espelho e pensei:
quem se importa?
Eu também não.

Segui, dessa vez, descendo o pente
do barbeador até o número 5.

Mesmo trajeto:
direita
esquerda
subindo
e caindo
por trás das orelhas
até a nuca.

Ficou um morro capilar
uma relva negra e selvagem
no centro-topo
da minha dolorida cabeça.

Balancei a cuca
fez vento
Pensei:
já que vim até aqui
que tal realmente ir passear
para me perder
no nervo final das sinapses
que não me descansam
desde quando o dito amor foi se procurar
e nunca mais voltou?

Acendi outro cigarro
mas ele se fumou sozinho
É que eu fiquei entretido
nesse mesmo caminho:

direita
esquerda
de baixo a cima
por trás das orelhas
até beijar a nuca minha.

E então a bateria acabou
o barbeador engasgou
Pensei: tem tesoura aqui em casa
e comecei
- dessa vez desordenado -
fui tirando tudo o que havia sobrado:

o chão do banheiro
virando mata
sem dono

e eu virando balão
livre posto alado
no abandono.

Pensei: por que eu penso tanto
se o que há é somente
este fato?

Este agora

os cabelos caindo

e a vida morrendo

e, novamente, se abrindo

em torrente

viva

pulsante

e morna.

acerca de algum movimento

como o corpo é resistente, não?

observando algumas ações
que sobre ele se fizeram
é necessário, sobretudo,
destacar a ação maior:

o refazimento.

uma estrela do mar, dizem,
se refaz. perde um braço
e o refaz. dizem que o fígado
(nunca soube) também
sabe como faz.

o corpo resiste
e isso é o mais lindo.

por cima da tristeza
que o seduz até o pico
mais alto de qualquer
e todo abismo,

o corpo resiste
não cessa de se
refazer

e nisso de resistir
o corpo existe
de novo,
apesar de tanta judiação.

é pois que
tal qual o corpo
a poesia vai na mesma mão
e também volta.

não cessa a poesia
de reaver o direito
de posse e de desvio
da aorta.

e agora, josé?
a festa acabou
mas restou
o escuro.

bem-vindo então
ao mundo, ser gauche.

só não vive a escuridão
quem está certo
de que é preciso parar a vida
para aprender a viver.

Foi então que eu decidi pela vida. De novo.