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terça-feira, 30 de agosto de 2016

aquilo que eu (não) poderia te dizer

(não) poderia te dizer que está tudo bem
está tudo bem, mesmo, pode confiar
eu poderia (não) te dizer que se trata de nós dois
mas sim do mundo
de todo o mundo
eu sou parte disso
você também
mas é comigo
(não) é só comigo

(não) poderia te dizer que se trata de alguma mazela psicológica
(não) estou de luto, mesmo, (não) estou
não estou
não estou

eu poderia te dizer que é preciso tempo
um tempo (não) meu
um tempo (não) do universo
um tempo (não) entre a gente
que é preciso um tempo de sono
de silêncio
de desistência
tempo de nada a fazer
nada a ninguém
nem a si mesmo

(não) há paixão
(não) há retorno
(não) posso te dizer
o que carrego comigo dentre tantos parênteses

(não) é bem medo
(não) é mesmo
(não) é culpa de ninguém
como pode?
ser culpa de ninguém
(não) ser culpa

essa poesia (não) é sequer aquilo que sinto
estou sentindo tudo truncado
mas é claro
tudo me é claro
tudo (não) me é claro

vês?

dentro do meu silêncio mora em abismo um lago
retinto
sujo
até bonito

mora em mim
um mistério que não acaba
um silêncio que não quer se grito
uma confissão exasperada
de quem não está sabendo
viver bem nem contigo
nem consigo
nem com esse mundo abuso
mundo bruto
mundo rude
mundo morrido.

sobre o processo de impeachment

rio de janeiro, 30 de agosto de 2016.




janaína paschoal, miguel reale júnior, aécio neves e tantas outras e outros, vocês são - de fato - péssimos. falam por meio de falas que se utilizam de fatos pervertendo o contexto em que tais fatos se deram: falam que o povo foi às ruas contra o crime que dilma teria cometido. o povo que foi às avenidas paulista e atlântica, zonas endinheiradas das principais capitais brasileiras, são paulo e rio de janeiro, não são apenas o povo que há. o que vocês não falam – sequer mencionam – é sobre o povo, ou melhor, sobre a multidão que foi e segue indo às ruas contra essa violência sendo feita a nossa jovem democracia e que são recebidos pela truculência policial e militar. em suas falas, essa gente generaliza o desconforto que sentimos hoje e fazem uso indevido dele, dizendo ser ele causa de uma única coisa: o crime de dilma. eles se usam da importância do respeito ao senado e ao povo brasileiro ignorando que suas falas são desrespeitosas a qualquer ser humano que esteja menos interessado em seu próprio umbigo e mais na comunhão dos homens em sociedade. sabemos bem o inferno da vida política brasileira, no mínimo, desde quando dilma foi reeleita. voltamos a falar sobre política. são os ricos no poder dando tiros porque não sabem perder. é simples, é fácil de ler. é gente que não está acostumada a não ter privilégios, porque essa é a história da humanidade e é sobre esse fato que repousa intranquila a prática democrática. essa chacina à democracia denota que aqueles que não “estão no poder” ainda não entenderam que não se trata de “estar no poder”, de ganhar, porque não é jogo de futebol essa porra, não é sobre eles (os derrotados), não deveria ser sobre eles, mas sobre o nosso país. sobre a nação, o brasil, uma república presidencialista. fico chocado com o cinismo de tantas falas ouvidas neste processo de impeachment. é visível a impudência, a desfaçatez e o descaramento. não precisa ser diretor de teatro para farejar a mentira pestilenta que escorre desses ditos humanos. não é preciso muito porque seus rabos estão presos, suas ações são feitas a partir de pretextos já sabidos e acordados, são conchavos os pés que sustentam esses péssimos homens políticos. estes homens brancos que se portam como se fossem donos do poder, eles não são eles, mas sim o uso que é feito deles. e uso feito por quem? uso feito pelo quê? ora, quem os usa é o poder. é o poder que os determina. é o poder que os orienta e deforma. o poder destrói tudo, inclusive e sobretudo a experiência democrática. michel foucault vai nos dar a dica: "não caia de amores pelo poder". ele está falando sobre ética. ele vai dizer: “prefira o que é positivo e múltiplo; a diferença à uniformidade; o fluxo às unidades; os agenciamentos móveis aos sistemas”. ora, a democracia é múltipla, povoada pela diferença, por fluxos e agenciamentos móveis. a democracia se movimenta e é mesmo instável porque não está pronta nunca. o projeto, e isso já é nítido, que michel fora temer está impondo goela abaixo dos brasileiros é um projeto que visa substituir a profusão de subjetividades que a democracia demanda e emana, por um modelo velho, machista, patriarcal e pautado em uma unidade fantasiosa: será preciso força impiedosa, violência e muita indiferença, para vingar este projeto de temer porque é um projeto velho que não comporta mais o nosso tempo. projeto surdo aos gritos dessa época. michel fora temer fala da unidade do povo brasileiro, mas o povo brasileiro não é povo, meu caro antagônico. nosso povo é multidão, é muita gente que não cabe no mesmo quadrado. e os indígenas? ninguém fala deles? temer não fala, ele, com certeza, dos índios não fala. isso significa que para o projeto de michel fora temer (que nada mais parece ser do que o maior rabo preso de nossa história recente) vingar, para o seu projeto vingar, vai ter que morrer muita gente. muita gente vão ter que matar. muitos de nós morreremos porque não interessa a essa gente que “ocupa” o poder que eu possa ser em potência, ou seja, que eu possa me ser. eu, diogo, artista, brasileiro, gay, eu já fui punido. a instância que me representa, o ministério da cultura, já foi desmantelada (e continua sendo). eu não sirvo ao jogo econômico e empresarial que estes homens querem fazer da vida política de um país inteiro. eu vou morrer no país deles. eu serei expatriado. e não só eu. morrerão todos que se sentiam representados nas cores da logomarca colorida do governo de dilma. ficou tudo azul na logomarca imposta de michel fora temer. tudo azul e o resto? e as cores que não cabem no cínico azul? as outras cores morrem, as outras peles padecem, as diferenças ou se empalidecem ou hão de ser exterminadas. não, em minha fala não há nenhum deslumbre barato pela presidência de dilma rousseff. porém, e isso é nítido, eis um governo no qual o diálogo, a multiplicidade de corpos e falas, vinha se firmando e se fazendo. um governo democrático que, naturalmente, vinha se buscando. as coisas dialogando se misturam e forjam novos e outros mundos: o pobre e a universidade têm entre si novas pontes. isso deve mesmo ser insuportável aos que “trabalham” com política visando apenas o seu próprio enriquecimento. a democracia é alvo de ódio, hoje e desde sempre, porque faz partilha. torna comum o que, antes, era de poucos e para pouquíssimos. eis o momento em que vivemos: nossa presidenta eleita sendo alvejada por quem não tolera e não quer desfazer seu “eu” em nosso “nós”. é muito claro. dilma deu a mesma resposta às mesmas perguntas que tanto lhe foram desferidas. repete, dilma. repete que é golpe, repete aquilo que é, porque o cinismo só se vence com persistência. se você, presidenta eleita, sofrer impeachment por conta de crimes que não cometeu, então sim, você e todo o brasil estarão vivendo um golpe que não é preciso distância histórica para reconhecer ter sido golpe. já está dado. #foratemer #foratemer #foratemer

sábado, 27 de agosto de 2016

Atenção

Fazes aquilo que desejas
Do modo como queres fazer
Dança a música solto e sem confusão
Dança até quando há silêncio
Em você.

Fazes tudo do jeito que precisa
Mesmo quando há tanta indecisão.

Atenção
Cuidado
Tu podes vir a morrer
Na própria mão.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A Força

Diz-se que está lá fora.

Eu olho pra janela
E o que vejo é só um dia
Amanhecendo.

Volto ao dentro
Eu, sempre insatisfeito.

Pondero um instante:
o que há lá fora é só o dia amanhecendo.
Haveria de existir algo mais?
Eu me condeno.

Não.
Lá fora o dia amanhece
Entre preguiçosos raios
De sol. Falta o quê?
O que precisa faltar?

A Força que antes não me veio
Chega tímida sem bater na porta
Ave silenciosa
Calor morno
Toda calma.

Concluído.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Fim Deste Blog

Este blog acabou.
Não mais sscreverei nele
AO MENOS
nele não mais escreverei
Sobre os jogos de amor.

Pequenas Coisas

Na curva em declive
Do meu amor por você
As pequenas coisas
São as que me fazem
Não mais te querer.

A cabeça dá golpes.

Eu, golpista,
Fugindo do amor
A mim destinado.

Eu fraco
Eu frágil
Eu forjando desculpa
Para o caminhão
Do amor seu
Que me atropela.

Quisera eu saber
Como faço para te evitar
Sem deixar de te ter
Eu sem deixar você
Eu sem te abandonar
Eu sem te machucar.

Seria preciso eu sem mim.
Você comigo e eu sem mim.
Posso com isso?

A confusão que me abate não faz sentido.
Sinto-me mais jovem
Do que eu era quando te conheci.

Sinto que não sou responsável
Por quem eu cativei.
E você, tão lindo,
Merece isso?

Eu não me mereço
Por que haveria de me merecer você?

Durmo intranquilo.

Cirurgia

Sair da cidade

Levar umas roupas
Levar dois livros, apenas dois

Abraçar alguns amigos antes de partir

Não levar telefone

Carregar no bolso tantos dinheiros

Será isso.

Antes de partir,
Rasgar a agenda.

Pagar as contas que vencem
E se esquecer das que vierem.

Reunir as plantas do apartamento
No centro da sala. Regar todas elas
E se desculpar, informando que você irá
Partir sem saber quando voltará.

Abrir a porta.

Sair andando.

Nunca mais voltar.

Alguma tristeza, algum cansaço

Sei que é variável
Isso de certo, bom
Ruim, errado.
Sei que nada existe
Exceto o tempo.

Ainda assim
Aqui me venho
Tramando verbos
Para tramar
Cuidado.

Estou exausto
Exaurido, estou cansado.
Triste sim, triste enfim
Eu precisava escrever isto
Para pensar, enfim, o que
Fazer de mim.

O amor morreu cedo.
Minha desconfiança antes
Ao outro destinada
Hoje me consome.
Não confio
Nem pondero
Perder-se em mais um você
É deixar de ser.

Sou brusco.
As palavras me atropelam.

Sou roto
Sem rito
Sou torto
Cansado de estar cansado
Nem bem mais me sei.

Meus poemas
Que não são meus
Podem nunca findar.
E eu?
É querer demais
Se perguntar?

Que faço eu?
Que faço eu comigo?

Ouço as músicas
Danço envolto em solidão
Não, não sofro
Talvez seja esta minha potência
Minha constante revelação.

O mundo me machuca mais do que antes.
Hoje, mais que antes,
Eu amo a solidão.

Ela é quem me compõe.