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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Rabanada

Marceau sentado no banco do jardim. Anoitece. Em suas mãos, alguns pedaços de rabanada, que ele come com intensa voracidade.

Marceau – (conversando com as rabanadas, numa energia cada vez mais intensa e desesperada). Como está gostosa! No último natal, suas primas não estavam assim. Estavam bem piores, é verdade. Como as coisas mudam, não? Ora, mudam sim. Eu sei, eu sinto. Eu sou alguém muito intuitivo, sabe? Por exemplo, eu não era assim tão faminto. De forma alguma. Sempre fui comedido. Sempre fui! Sempre. Sempre fui! Desde criança. Só comia aquilo que colocavam em meu prato. Sem repetir. Mas agora, sozinho, como sou eu quem coloca o prato, a gente acaba beliscando uma coisinha a mais, enfim... A gente cresce, Rabanada, e vai perdendo os cuidados, perdendo a linha. Tem indivíduo que perde até a noção, sabia? (Come a última).

Um barulho vem do meio do mato. Está escuro. Marceau não quis iluminar a casa para as comemorações de fim do ano. Sente-se sozinho e depressivo.

Marceau – (assustando-se). Oh, senhor. Tem alguma coisa se mexendo no meio do pântano. O que é? Meu senhor, creio ter visto um pinheiro... Se movendo. Oh, pavor! Como pode um pinheiro se mexer? Pinheiros não têm pernas, têm galhos.

Marceau se ergue, trêmulo, e vai caminhando em direção ao pântano. Eis que o pinheiro vem cambaleante em sua direção.

Marceau – (chocado). Oh!...
O pinheiro acena um cumprimento tímido, mas permanece mudo.
Marceau – Boa noite, seu pinheiro...
Marcel – (arriscando a voz e corrigindo Marceau). Seu pinheiro.
Marceau – Sim, seu pinheiro.
Marcel – Não. Seu pinheiro.
Marceau – Não, eu não sou pinheiro.
Marcel – Não, mas o pinheiro é seu.
Marceau – Que pinheiro, senhor pinheiro?
Marcel – Este pinheiro.
Marceau – O senhor, senhor pinheiro, é meu?
Marcel – Sempre fui.
Marceau – Perdão, não o reconheço.
Marcel – Não tive tempo de me limpar.
Marceau – Estás judiado... Te bateram?
Marcel – Ele quer saber se me bateram?
Marceau – (assustado). Ele quem?
Marcel – Você.
Marceau – Eu quero saber se te bateram.
Marcel – Um gambá.
Marceau – Você brigou com um gambá?
Marcel – Ele urinou em mim.
Marceau – Não quer entrar e tomar um banho?
Marcel – Mas estou sujo.
Marceau – Depois eu limpo, não se preocupe.
Marcel – Imagina, não precisa. Eu me banho no lago.
Marceau – É gelado.
Marcel – Depois eu deito ao sol.
Marceau – O forno dentro de casa está ligado.
Marcel – Vais me queimar?
Marceau – São as rabanadas.
Marcel – Você as convidou?
Marceau – Não era para terem vindo. É que eu fiquei sozinho. E esqueci-me de desmarcar. Veio a família inteira, sabe? Eu exterminei metade, mas acho que não vou conseguir comer tudo até o amanhecer. E a noite está indo embora, veja...

O pinheiro em silêncio tremido mira o céu. Marceau com os olhos marejados, todo tímido, mira o chão.

Marceau – Eu fico emotivo com o término das coisas.
Marcel – Minha espécie também está sendo dizimada.
Marceau – É mesmo? Qual espécie é a sua?
Marcel – Sou dos pinheiros enfeitados, que usam brincos, pérolas, argolas, luzes, bolas.
Marceau – Não acredito! Você é metrossexual?
Marcel – Eu sou solteiro.
Marceau – Mas é do subgrupo natalinus floreius?
Marcel – Eu preciso me sentar.

Marceau arrasta o banco do jardim com extrema agilidade e força e o posiciona logo atrás do pinheiro.

Marceau – (orgulhoso). Não achou que eu fosse te dar um vaso, não é?
Marcel – Eu não sei o que dizer.
Marceau – Fique tranqüilo, eu nem sabia que pinheiros falavam.
Marcel – Mas nós não sabemos muitas coisas.
Marceau – Você acha o ser humano esquisito?
Marcel – Acho o ser humano perdido.
Marceau – Você está dizendo isso porque tem raiz e tronco!
Marcel – Eu também tenho sapatos.

Marcel cruza uma das pernas, apoiando-a sobre o colo e amassando alguns galhos.

Marceau – Então você é metrossexual?
Marcel – Eu sou alguém que está na seca.
Marceau – E olha que tem chovido!
Marcel – Não na minha horta.
Marceau – Você tem uma hortinha?
Marcel – Não, eu quis dizer... A chuva que cai sobre mim... É outra...
Marceau – Tem outra chuva circulando por aí?
Marcel – Na verdade tem. Chama-se chorus prantum. E sai de mim.
Marceau – (admirado). Mas pinheiros não choram.
Marcel – Não é verdade. Meninos não choram. Pinheiros choram.
Marceau – É verdade. Meninos não choram. Mas eu choro.
Marcel – Você chora chuva?
Marceau – Eu choro porque fui abandonado. Eu choro porque eu não entendi. Choro porque sinto que fui enrolado. Choro porque não sei me desenrolar. Choro porque o cheiro que sinto agora parece querer me dizer que as rabanadas queimaram. Por isso eu choro. Porque certas coisas morrem, certas se queimam, quando na idealidade... Eu queria que durassem por mais tempo.
Marcel – (regando por dentro o pinheiro de orvalho). Você está um poeta de primeira categoria!
Marceau – Foi Marcel.
Marcel – Eu?
Marceau – Oi?
Marcel – Eu... Trouxe um presente para você.
Marceau – De natal?
Marcel – De desculpas.
Marceau – O que é isso?
Marcel – Um pedido de desculpas.

Marcel se ergue cambaleante. Distancia-se um pouco de Marceau até parar diante dele, de costas. Começa a tremer o pinheiro. Marceau já sem ar. Marcel coloca para fora do pinheiro o seu braço esquerdo, emagrecido. Marceau num só suspiro. Marcel retira o outro, o direito, menos fino, porém, com a mão comprimida dentro da qual um passarinho.

Marcel – Ele entrou aqui antes de eu decidir voltar. Pousou leve e sem medo sobre mim. Não se preocupou com o fato de eu ainda respirar. Ele me deu asas, me cantou a vontade de te encontrar, de pedir desculpas, me cantou aquela canção que fazia tempo eu não conseguia lembrar. Mesmo sem te esquecer, eu já não podia me lembrar. Como faço então? Sem a sua voz. Revendo seus olhos sem te escutar. Perdido em noites a frio, tentando apenas lembrar para te prender para me conseguir segurar. Lembrar para existir. Para ser alguém que está. (Marcel, ainda com o passarinho preso em sua mão estendida no ar, começa a se virar, lentamente para Marceau). Me desculpa, mas era preciso voltar. Eu pensei primeiro em mim. Mas é assim, não é? O passarinho pousou em mim querendo comer, não foi para conversar. Não foi, passarinho! Não adianta resmungar. Ora, você mordiscou estas folhas, você bebeu as gotas do meu orvalho. Mas você não sabia que dentro deste pinheiro vivia um homem envergonhado, um homem meio ao meio, mal passado, mal vestido, mas inda assim amado. Um homem espiando como o mundo faz para funcionar. Eu te asseguro, era mesmo preciso voltar. E se eu pouso agora diante de ti é para te provar, que sim, pinheiros também coram, também choram, sim, porque o choro foi, por vezes, a única forma de te concretizar. De te ter aqui em mim reunido. De poder olhar o sol destemido. De dormir acompanhado e repleto... Meu querido, peço desculpas pela invasão, mas é meu peito que está se abrindo.

Marcel abre a mão, sobre a qual ergue a cabeça, lento, o passarinho. Sem pressa ele alça vôo ao longe e brilha como estrela diante da lua imensa. Marcel avança em direção a Marceau, que do banco, trêmulo, se ergue. Aproximam-se, pinheiro e Marceau.

Marceau estica um braço e deita a mão por dentro da folhagem. O pinheiro treme. Marceau sorri e revista todo o seu interior. Encontra o rosto de Marcel e seca sua alegria. Nisso, desce o pássaro do céu e pousa nesta ponte-braço entre Marceau, o pinheiro e Marcel.

Marceau – Tenho em mim, agora sim, um pouco mais de eternidade.

____________________ outras cenas com Marcel e Marceau:
  
Violácea, em 31 de maio de 2009
Rúcula, em 21 de junho de 2009
Guirlanda, em 29 de julho de 2009
  

Eis o silêncio sob o qual repousa a humanidade.

Eu estou sentado faz horas diante do computador. Eu já li sobre o kitsch, eu já li sobre um dramaturgo australiano. Eu já me ergui, peguei café, já me ergui, urinei. Hoje mais cedo eu tomei banho. Eu comi realmente bem umas três vezes. E belisquei, feito galinha, os milhos espalhados pela casa. Comi uma barra de chocolate amargo. Eu diriji trinta vezes o carro. Fui comprar morangos, creme de leite, batata palha. Eu saí hoje mais cedo mas continuei pregado, em você, você que ultimamente só me atrapalha.

Olha o que você foi fazer: ou faço coisas pensando em você ou penso em você e não faço coisas. O pão mal cortado de manhã foi culpa sua. A cúpula azul espatifada do quarto da minha mãe, cúpula secular, partiu num segundo concretizando a metáfora do meu coração. Culpa sua. Eu vou dizer a ela que foi você quem me roubou de mim e me avassalou. Isso não se faz, isso não é justo, eu dormi ontem abraçado à árvore de natal, piscando mais veloz que o pisca-pisca. Está complicado. Não há paz. Olha o que você me fez!

Eu estou bobo, besta, baixo, bruto, barbudo. Eu estou crente, cumulado, ciente, consciente, mas com o coração cheio de vazio. Vazio de tão cheio. Mexendo no meu peito e me tirando o sono. Eu não sabia, eu confesso, mas até então eu não sabia que se moviam os corações. O meu tá viajando, cara, me ajuda. Faz ele parar! Hoje eu acordei e ele estava gritando dentro do banheiro. Eu disse, Coração, você tá louco! e quando cheguei lá, ele me mandou calar a boca.

Gente, pára o mundo! O meu coração, na borda imunda do vaso sanitário, com os braçinhos já erguidos, pronto para o mergulho, me disse com clareza impossível de precisar: Cala essa sua boca imunda de beijo. Eu vou me suicidar!

Eu gritei espera! Ele disse para eu não me aproximar. Colocou a mãozinha sobre o ventrículo esquerdo e disse a mim, com estranha devoção e naturalidade, Eu vou explodir!

Cara, ouvindo isso, na boa, fui eu quem quis me estrepar. Chutei o anão escarlate contra a parede de azulejo do banheiro e enfiei os pés pelo vaso adentro, fui desentupindo o meu desespero, morrendo por partes, primeiro pés pernas pêlos, morri a cintura, já tinha morrido os joelhos, o pulmão já quase cheio quando a boca... Esta boca, Jesus! Aquela boca que ficou em você e nunca mais em mim. Ela já ia se afogando quando apertei a descarga e me senti naufragar. Me senti TITANIC, morrendo congelado de amor...

Mas a filha da puta daquela mãozinha escrota me puxou para cima. Aquela mãozinha feita de veia, artéria, suja de vaso, sanguínea, me puxou pelos cabelos. Caralho, fiquei muito puto! A mãozinha - puta que pariu! - abusada do caralho! - me puxou pelos cabelos. Ela me puxou e me tirou do vaso, eu já todo cagado, destruído e magoado e ainda gritou comigo! Cuspindo o meu próprio sangue em minha própria face,

Carlos! (Eu disse, seu coração escroto eu sou Diogo, não Carlos...). Mas fui cortado, veementemente vetado, ele disse, Cala essa boca, sossegue! O amor é isso mesmo. Num dia amas, no outro continua amando e no outro amarás inda mais. Amar é isso mesmo. É se colocar em abandono. É se desperdiçar. Agora, sossegue, controle essa glicemia, vai tomar sua insulina, vai ler O TEATRO É NECESSÁRIO?, fazer um filme, vai cortar o cabelo, vai bater a cabeça no poste e culpar Jung Freud e Lya Luft. Mas volte torto, fudido, louco, que o nosso abraço então vai ser mais do que necessário.

Aí, tá, né? Samuel passou pelo corredor que ligava meu quarto ao banheiro e disse: Eis o silêncio sob o qual repousa a humanidade. Eu quis falar caralho Velho escroto do caralho, vai tomar nesse seu cu cheio de vazio, mas Beckett estava certo. Filho da puta, ele coagiu meu coração desde o início.

Então eu o peguei. Assim como você fez comigo. Eu lhe disse, vem aqui, deita aqui. E o fiz acreditar que em mim ele poderia sim deitar, porque sim, ele podia. E encostei ele ao meu peito, se lembra? Passei os braços por trás, apertei levemente, como se quisesse dizer, somos uma coisa só, vês? Ele arrotou de susto. Não foi arroto não, isso dá nojo, foi soluço. Engasgo, sei lá, comoção. Ele então deu uma tremida rápida e depois voltou para casa. Adormecido pela canção que a nossa lembrança cantava.

Mas eu não vou aguentar isso todos os dias. Toda manhã acordar e me ver partido, o peito aberto, o coração flertando o precipício. Preciso de uma mão rondando meu peito e impedindo ao corpo ir se desfazer.

Se se morre de amor?

Se eu for dizer que sim, será texto sem fala. Será verbo executado. Será beijo sem estalo. Será tiro sem o amargo. Será tudo lindo e concreto. Assim, direito. Assim, direto, como o que você tem feito a mim ultimamente. Por isso eu grito aqui com você! Grito eu e meu coração, ambos de banho já tomado, eu lhe grito, Obrigado! Nunca amei tanto o terremoto sobre o qual me sinto erguer. Me sinto ser. Ser erguido, impelido, impulsionado a viver.

Ai ai ai,
que merda,
olha só o que você me faz dizer.

Encheu minha vida de poesia. Agora tenho eu muito mais amor do que pode caber numa livraria. Não vá portanto achar que eu sou over. Eu sou mais que isso. Não vá achando que sou incapaz de domar este prazer. Porque eu sou, incapaz. Eu estou. Sou ser suscetível, poxa, eu


estou
com vontade de





























você.

Mas inda sei ser. Eu sei. Sei ser o que é preciso ser.
E estou aqui, feito página em branco para os seus
os meus os nossos
d i s p a r a t e s .
    

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Verde Orvalho

O sol amanhecia nublado sobre a montanha. Ia tocando suave a esparsa grama, soprando o orvalho, aquecendo o rosto meio ressequido das duas crianças. Ela jogada ao chão, ele também. Não deveriam ter mais do que quinze anos: os dois juntos. Ela mais velha, ele menor. Nos dois, porém, um sono dentro se resvalava. Os semblantes contidos, com a cara digna de quem sonha o que se deseja sonhar. O vento cruzou o topo da montanha. Cobriu as encostas, foi abraçando a vegetação tímida, foi chegando até seus cabelos. Que cobriram os olhos dela. Que secaram o suor já nascendo na testa dele. O vento movendo os animais, exceto os dois ali estendidos. Movendo as moscas, os pernilongos, os insetos, movia o vento a vida. Exceto os dois, ainda ali congelados. Como estivessem dentro de casa. Como fossem os dois amados.

A cortina dançou dentro de casa. De fora o mesmo vento sobre os dois a empurrava. Entrava o vento pela janela por grades tomada. Bailavam os pernilongos sobre os corpos frios que se aqueciam a força. Ele respondeu bruscamente ao pernilongo que beijava sua pequena boca. Ele contra os lábios a mão apertou. Um pedaço de sangue do pernilongo sobre ele ficou. E voltou a adormecer, saciado. E ali ficou. E nisso o sol sobre os dois parecia mais ainda descer. As testas suadas, as roupas mexidas, invertidas, trocadas. O sol chegou sobre o topo da montanha e secou as lágrimas das plantas. O sol secou tudo e mais ainda o que já estava teso, duro, triste, morto, ameno.

Na segunda vez o corpo todo dele se mexeu. Num tapa contra o vento ele a acertou e ela resmungou algo que nenhum de nós sequer compreendeu. E então vinha o vento e o calor dissipava. Vinha o vento e a letargia de novo sobre os pequenos se instaurava. Vinha o vento e definitivamente a porta de casa batia, trancava, fechava. O vento vinha e de súbito a ergueu. Os olhos ainda fechados. Os joelhos sujos, sobre a terra sentada. O susto da porta batida ganhando o corpo e o chamando à lida. Abriram-se os olhos devagar, sem pressa, com medo talvez, mas foram o mundo contemplar. Ela franziu a testa. Perdeu o texto. Mas onde poderiam os dois estar?

Ele atrás dela também se levantou. Os olhos demoram sempre a amanhecer. Ele os coçando parecia disposto a ver o dia nascer. Mas ao abrí-los, viu a montanha, viu a queda, viu o que talvez nunca tivesse visto. Onde estamos, os dois pensaram. Olharam o redor, reconheceram-se perdidos, deslocados. Ela arrumou os cabelos para trás das orelhas. Empurrou seus fios como fossem arames, repletos de ira. De ira contra o tempo que os judiou, que secou sua vida, seu movimento, sua doçura. Ajeitou-se como protesto e ameaçou seguir. Ele, porém, por trás, a segurou:

Onde estão nossas camas?
E as paredes?...
A mamãe...
E o nosso chão?...
Onde estão?

/////
    

com que roupa ir no dia em que a gente se despir?

Em qual lugar do futuro reside este presente
preso aqui em mim
pensando pesando prensando contra a minha pele
um calor genuíno
calor primário primeiro
daqueles que se sente
quando se descobre
muito cedo
não ser mais apenas um
menino.

Em qual lugar lá na frente
este atrás poderá reinar?
eu te pergunto
não posso contigo estar
então pergunto
como
quando onde
vamos nos encontrar

Deixa eu dizer
não se importe em excesso
é minha forma de lidar com o tempo
forma minha de lhe dar
de lhe dizer que eu me importo
dizer, quero estar
contigo
aos remendos

mais segundos
mais beijos
mais silêncios absurdos
entre nós
enquanto olhar
corre solto
nos costurando
e nos fazendo
estar.

Quando onde como já não é perguntar
hoje tudo é sonho
mais que isso
sonho é distante
hoje é tudo desejar
despejar da ansiedade
agora
solta ao vento
quente
apertado
vento que me estrangula
sem medo
sem vergonha
sem resultado,

eu resto
eu espero
eu respiro
respeito
olho com calma
precisão e testo
nisso
o abandono.

preciso a isso me curvar
cursar o sentido
aprender de vez
a te abandonar.

preciso.

me indispor
aprender a não tanto te querer
aprender como se faz
para desligar o peito
pausar a batida
ficar em off
em acústico
só nas linhas de uma emoção
qualquer
outra
mas incapaz de ser ar
incapaz de rimar dor
incapaz de ser
a batida
sinônimo qualquer de amor.

em qual lugar
em que estação
com que roupa eu vou
no dia
em que for preciso
me abandonar em você?

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

minha poesia

  
me pego
sempre em busca
da poesia,
daquela genuína
que nasce numa linha
e com um suspiro
apenas ganha a vida
e depois; passeia
por entre livros
por suas linhas
me pego
pensando, sempre
pensando, de quê
trataria ela.
e quando penso
não haver tema
para as minhas
palavras, assusto-me
assusto-me ao perceber
que a vida toma forma
e forma a frase
e num piscar dos olhos
a minha poesia
reside aí, no interminável
ato de buscá-la.


28/06/06

domingo, 27 de dezembro de 2009

estalow.

cara.
o sol chegou.
vou dormir.
para não chocar a escuridão do meu corpo
com seu contraste mais direto.
oh, dia.

imprevisão

então
já está tão tarde
que amanheceu
e eu aqui
sem pane
sem pino
eu aqui lutando com a noite
vencida
eu aqui lutando
comigo

sempre indo.

então
tudo já armado
tudo previamente
elaborado
para o quê
exatamente
eu não sei

deixa
que eu sou criativo
hei de inventar uma desculpa do tamanho disso aqui
algo maior
melhor
mais doloroso
até
do que este esteve por vir
mas não veio

não importa
aqui nesta sala de casa
a árvore de natal pisca
e piscam meus olhos
e ambas as luzes
numa dada hora
se apagam

e como elas
piscam também os corpos
pedindo ajuda
e não mais indicando o rumo
há felicidade,

mas deu um erro

que eu não sei consertar
a minha maneira de lidar
com tudo isso, perdoo-me
é mesmo esperando
esperando aquilo
que eu nem sei
determinar.

espero esta espera findar
como quando as músicas que escuto ao dormir
me adormecem e eu já nem sei dizer
se terminaram
ou se eu é que acabei
no meio do fim daquilo que já não posso
prever.

sábado, 26 de dezembro de 2009

ardil.ode.mente

é engraçado com que facilidade a gente jura um amor
e com que facilidade ele nos avassala, nos joga
num canto qualquer
judiando o rosto
nos tirando a fala


é, engraçado poderia ser
trágico mas não
não cabe aqui classificar


se digo isso agora é porque
bobo me vi assim
doendo pequenino
sonhando encontros
planejando segundos
nem sequer foram horas
não
nem foram dias
quiçá sonhos


planejei o tempo exato de um beijo
nada mais curto
nada mais cândido.


engraçado, porque nisso corre o tempo atrás
alimentando o que sentimos
fazendo-nos sentir a fome maior
e sempre mais
e sempre mais precipício
até nos reconhecermos
vorazes
famintos
amáveis,
como no início.


surpresa nova a cada dia


mas se resto eu só com o tempo
o corpo em repouso
só pensando
só querendo
engraçado porque a pele clama à lógica
as mãos cruzam o próprio corpo
e o acariciam
como se ordenando os pêlos
fizessem a conta exata
do desespero.

mas calma, algo acontecerá
agora


mas
não

uma prece sem fim
o corpo resta impaciente
mas tranquilo, sabe?
assim:


o colo quente
a vista cansada
olvidos ouvindo suas deixas
passadas


ai, que grande bobeira fizeram com a gente


o mundo lá fora caindo e se erguendo de novo
e eu pensando em motivos
nos porquês
me dizendo que você não viu
dizendo que depois vai dizer
me dizendo
sempre me dizendo
como se quisesse me adormecer
que eu não tenho mesmo como saber

como sabor
pois como sou
nada posso
exceto
desejar-te
até que outro
cruze a minha
aorta
e me tome
de mim
outra vez
como
agora tu
me tomas.

unhas te quero

para matar a ansiedade
para roendo o corpo
poder sorrir mais calmo
sustentar a face
e o jogo, cruel,
do desejo...

ora, quero-te
unhas
não para limpar a mesa
nem para arrancar o rótulo
quero antes unhas para a carne
unhas para assegurar à força
o troço.

o troço, vocês me entendem
não é nada daquilo que primeiro se pense
quando falo em troço
não falo sobre o que falo
falo sobre o troço
porque o troço é muito maior do que falo.

ah, o troço com aquele nome infernal
meu, que diz mil em um sentido
oh, que expressa o mundo
rá!, sua febre terçã matinal.

unhas para distrair o intestino
que dentro tenta se enforcar
unhas para resguardar a doença do mundo
e em seguida
unhas para a doença mundo me doar
por inteiro.

sem claustrofobia sem tristeza e dor
num profundo leve intenso e provisório
amor.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

ceia

rabanada
passas
damasco
nozes
castanha
peru
piru
amasso
ceia
seio
seios
abraços
frutas
recheio
tender
tendência
arroz com nozes
tentar:

o abacaxi
o tutu
o tudo
panetone
pudim de leite
mousse
rabanetes
embrulhos
laços
casos
amassos mil
mil beijos
dois mil chocolates
doces
meio tinto
tinto seco
amargo
doce
salgado
sob a toalha:

no banheiro
num lapso
ceia
parte
vinda
volta
adeus
para ficar
volta come
talheres
faca
garfo
cortar
morder
gritar
desembrulha-me
enlouquece-me
passa essa mão
vamos testar:

uma uva
um morango
um damasco
uns damascos
outra taça
outro aperto
outro lapso
comendo sem fim
consumindo isso aí
em ti
sobre mim
sobre os dois
os três de quatro
de cima
para baixo baixo
música
canção
sanfona
flauta
piano
teclado
rádio
desliga
liga
on
off
pão
gota
choque
espasmo
beija

passa-me o garfo
o garfo?
o garfo
o garfo?!
sim, teu braço
corte
morde
molde
quebre
bolas
da árvore
do natal
guirlanda
enfeite
as crianças
não sabem de nada
exceto do prazer
aprender
com elas
como se portar
como brincar
feito macunaíma
até o dia nascer
até o dia
até à noite
tarde
meio
assim
paixão
família

irmão?

onde você está?
preso
longe
mas aqui
no coração
cheio
de presente
do passado
do futuro
eu listo
eu imagino
eu sustento
este segundo
em que juntos
podemos sim
ser
assim
sendo
mais uma vez
mais outra
um fim:

comum
o de ceiar
o de ceder
o de ser sendo
amanhecer
comido
pronto
de novo
vivo
vivo
alívio
gozo
explícito
quero:

que mais
mais mais mais
batidas
taças
enterros
amores
morridos
amores
surgidos
inventados
precisos
eu quero
dizer a vocês
amigos
do amor imenso
que trago cá comigo
dizer
ouvir dizer
ouvir cantar
cantando
o desafino
o destino
o menino
que custa muito em mim
a crescer

deixe estar
deixe ser
deixe aqui sua mão
imaginária
e vamos nos tocar
nos agradecer
pelos contatos
pelos beijos
antigos
são sempre passados
sempre são
o que foram

e este resgate agora imediato
feliz momento
feliz colapso
grita alto
grita alto
vamos cegar os ouvidos
de tanto amar

eu lhes agradeço
a todos
por todo e qualquer pedaço
de convivência
de convívio
de incoerência

ai, obrigado
saciado
um dia
sim, eu serei.

por agora, mais e mais
eu ceio
eu divido
eu parto
eu amasso

este e outros mais
passos.

passo
passa
posso
passas

uvas.

i n t e r j e i ç ã o

olha, eu...
não há nada como esperar o vazio encher.

mais uma vez.
 

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Marcela, Marcelo, Joaquim e Sabrina

- Relaxa.
- Não consigo.
- O que você tem?
- Dois problemas em minha vida.
- Dois o quê?
- Problemas.
- Sim, problemas, mas que tipo?
- Humanos.
- Seja específica, Sabrina.
- Dois homens.
- Você está namorando dois homens, mulher?
- Não me chame assim.
- Assim como?
- De mulher.
- Mas você é.
- Eu sei. Até demais. Eu tenho nojo.
- De quê? Dos dois problemas?
- Dos dois homens.
- Mas homens são problemas.
- Sim, eles são.
- Mas nós também somos, amor.
- Não me chame assim.
- Assim como? De amor?
- Não. Com essa voz. Eu estou suscetível. Não se aproveite.
- Certo, eu vou me esforçar. 

Silêncio. As duas se olham.

- Eu sou seu novo problema, é isso?
- Sim. Está se tornando.
- Isso ameniza os outros que sobraram?
- Eles não sobram, eles fazem parte. Estão aqui comigo. Onde quer que eu vá.
- E para onde queres ir agora?
- Você tem casa?
- Tenho cama.
- E o que mais?
- Fome. 

Olham-se mais demoradamente.

- Você deve sofrer muito, sabia?
- Sim, eu sei.
- Por causa de conseguir amar, ao mesmo tempo, homens e mulheres.
- Sim... Eu amo. Ao mesmo tempo. Vocês.
- Quem são eles?
- Você não precisa saber.
- Não preciso? Ou não posso?
- E por que não poderia?
- Foi você quem disse...
- Porque três já está demais...
- Tem medo de eu me apaixonar por vocês.
- Medo de eu me apaixonar pelos três.
- E isso não seria novidade, não é mesmo?
- Não.
- Dos nomes.
- O quê?
- Quais são?
- Joaquim.
- Humm...
- O que foi esse "humm..."?
- Foi apenas um "humm..." de apreciação. De quem gostou.
- Está vendo. Só o nome e você já se derreteu.
- Eu não me derreti. É apenas um nome que eu gosto.
- Marcelo.
- Marcela.
- Não, não é você. É ele.
- O outro?
- Sim, Joaquim e Marcelo.
- E Marcela.
- Você não entra nesta história.
- Eles não iriam gostar, é isso?
- É isso. Eu não iria aguentar.
- Por que tanto peso?
- Porque é o que há.
- O que há é desejo.
- Pesando feio.
- Pesando.
- O que faço?
- Quebre esse gelo.
- Esse gelo?
- E façamos uns drinks.
- Você não presta.
- Nós sabemos.
- Espera.
- É um beijo.
- Só um?
- Sim. Um apenas.
- Não minta para mim.
- É um, sim.
- Certo.
- Venha até mim.
- Estou aqui.
- Fecha esse olhos desconfiados.
- Meus olhos tem medo.
- Seus olhos são tristes.
- Alegre-os, então... 

Beijam-se. E o caos, eis que se instaura.

Paixão

Filhos meus
O Natal está chegando
E aqui em casa, vocês sabem
Papai nunca tocou neste assunto

Passamos todos eles juntos
Juntos, nele, recebemo-nos
Filhos novos que chegaram
Velhos que foram esquecidos
Mas perduraram na memória

E talvez seja mesmo o Natal
este algum tempo
para ter-me somente eu
com vocês
todos
desorganizados
o cabelo a cortar
o sorriso forçado.

Abandonem os escudos, meus
Vamos sorrir as sujeiras.

Filhos
O papai se perde entre vocês
Já não basta só vocês
é preciso correr
bater o corpo
rasgar a pele
conhecer.

O que lhes digo é quem eu sou.
É exatamente aquilo que um dia
condenarei - sim, condenarei -
em cada um
- cada um -
de vocês.

Perdoem-me.
Agradeço-lhes.
Por me fazerem perceber:
eis quem o fui.

Por vocês
através de seus passos
quem eu fui cuspindo-lhes ao mundo
sem indicação
sem nada exceto
um gozo rápido
por vezes - vocês -
uma descontração.

Agora quando olho todos vocês assim reunidos
ou quase todos pois já são muitos que eu nem sei - apesar de os reconhecer -
me vejo perdido
vejo vocês descuidados
o nariz escorrendo
um filho sem sentido
sem nem sequer saber
o porquê das repetições
dos gêmeos de peles distintas
porque tanta pele
tanto pêlo
pai, por que tanta agonia?

Eu não sei, meus queridos.
Vocês assim nasceram,
nasceram todos
pela necessidade
pela necessidade que devem sim
acreditem
a mim reinvindicar.

Para que foi que você me colocou aqui?

O que siginifica essa palavra tatuada em meu corpo?

Corpo virgem
corpo santo
corpo torto, já, crianças
nem de tanto brincar
nem de tanto correr
seus corpos, filhos meus
carregam os sonhos do que ainda fui incapaz
de conhecer

de tocar

de comer

devorar

por isso resta tanta pele
tantos pêlos
há tanta indefinição
porque sobre este corpo
correm soltos
juntos
tempo e vento
um na ilusão do outro ser
um me dizendo segue
outro me dizendo
veja o que você permitiu
por sobre ti
correr.

É por estas mãos, meu filhos
que mais uma vez lhes dou um irmão
Desta vez mais cheio de esperança
pois é o primeiro filho
da estação
p a i c h ã o.

Sim, vosso pai
está em queda:
vertiginosa.

O quanto posso ser porto.

Escrever distrai a saudade.

Que eu sinto, neste momento.

Estando aqui, sem sofrimento, mas sim, ao relento. Dentro de casa, sem camisa, só com cigarros e bebidas e algo a mordiscar, um damasco, nada com vida.

Devolve-me o tempo, que juntos completamos. O tempo no qual juntos as mãos se chamaram e mediram seus tamanhos e encontraram seus dedos e abraçaram-se com vigor e ânimo. O tempo passou. E depois abraço, abraços mil, eu e você. Valeu tudo.

Ajuda a distrair. Ajuda ou atrapalha, é verdade. Porque não tenho nada aqui comigo. Exceto o tempo, sempre junto, e as lembranças. Será que vão se perder?

Tenho vontade de você.

Mas é normal. Porque ficando assim um gosto bom, do beijo, da boca, do corpo, do rosto, do abraço, do toque, carinho, noite, sono, manhã, surpresas, acaso, sentidos... Ficando assim tanta coisa diversa, tanta boa coisa, tanto abraçar das pernas... Bom, seria inevitável, não?

Não responde. O eco é dentro de mim. Eu que estou aprendendo por meio seu, o tamanho imenso que sobra dentro de mim. O quanto posso ser porto. O quanto posso deixar partir e ficar.

Não peço fica. Não. Não pedirei.

Peço que vá. E me deixe aqui, dormindo com a ilusão da volta. Que já não é ilusão, porque ainda assim, correm as horas. E o que virá lá na frente. É algo pelo o qual vale esperar.

Sim, eu te espero.

Mas se quiseres, se puderes, se vieres... Pode chegar. Estarei aqui. Talvez vestido, sem tênis, talvez com fome, talvez escovando os dentes, talvez ouvindo aquela música da voz que vem chegando feito brisa, talvez fazendo faxina, talvez esperando, chorando, rindo, fazendo a vida... Isso tudo é possível. E hoje ainda mais, porque houve este encontro. E o encontro é tudo. 

Encontro-enzima. Deita aqui junto comigo e catalisa. A vontade. A descoberta. Catalisa este meu corpo e o faz se conhecer. Façamos. Vamos amar. Agora apenas eu e o você.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

o corpo fala

Fala alguma coisa.
Nada.
Nada?
Falei.
O quê?
Nada.
Pois é, não falou nada.
Tempo.
O que você vai dizer é tempo?
Já disse.
Quer tempo?
Eu?
Foi o que você pediu, não?
Não. Foi o que eu disse.
Tempo de mim?
Não. Tempo das horas, dos segundos, da pausa. Tempo para pausar.
Eu te canso?
Não.
Fala.
Eu não quero falar.
Quer o que então?
Te olhar. Posso.
Pode.
Estou te olhando.
Não precisa falar, eu vejo.
O que você vê?
Você me olhando.
Nada mais?
Eu vejo também você.
E...
Nos seus olhos, eu me vejo.
Você está aqui comigo.
Com você.
Eu preciso de você para me ver.
Precisa?
Ou de um espelho.
Você de mim eu de você.
O que você me mostra que eu não sei ver?
Como?
Nada.
Fala.
Não quero falar.
Diz alguma coisa.
Não quero.
Escuta.
Diga você.
Você sempre fala antes de mim, mas aqui é você o ser fofo. É sim, não faz essa cara...
De sem graça. Eu fico assim.
Acostume.
Vou tentar.
Você é...
Ai. O quê?
Você é.
Assim?
Sim. Simples assim.
Simples, sim, você também é.
O quê?
Isso que está acontecendo comigo.
É muito.
Sim, é demais.
No bom sentido.
E nos outros também.
A gente tá conseguindo conversar.
E o corpo? Como está?
Tremendo.
Com vergonha.
Vem aqui.
Com calma.
Eu te toco.
Não me olho.
É bonito, ver você se envergonhar.
Como faz?
Faz o quê?
Para aguentar?
O toque.
o beijo.
Aguentar o destino deste momento, como faz?
Pode cair. Eu te seguro.
Eu caio.
Eu fico.
Eu fico,
para que eu também possa cair. É isso?
Funciona assim.
Ainda assim.
Que bom.
Bom, né?
Muito.
Obrigado.
Vem.
Calma.
Beija.
Não fala.
E agora?
Estamos juntos.
Em silêncio.
Mas gritando juntos.
É melhor.
Sem falar.
É melhor, não é?
Mas algo sempre se pronuncia.
Você está quente.
Você é que é.

...

cesso para avançar

certa vez eu aqui escrevi
que não haveria mais poesia
enquanto não houvesse um primeiro beijo
entre nós dois.

mas houve poesia
houve ladainha de amores inventados
utópicos amores
todos machucados.

mas o beijo agora aconteceu
e mais outra vez de novo
entre os dois
ele voltou e se instalou
virando respiração.

eis que agora a poesia cessou.

não há nada em meu corpo além de você.

se ando se paro se compro se falo
a sensação é a mesma
a de que fui assaltado
ser mexido
ser amado

que dor imensa
que delícia instantânea a de esperar o toque
o toque a mensagem a campainha
o convite
o face a face,

sim,
cessou em mim a poesia
ela agora está aqui
pulando linha em minha pele
rimando os detalhes do corpo
fazendo sentido nas mãos de quem me lê
me escreve
e atualiza...

você, novidade.

sábado, 19 de dezembro de 2009

No pular das linhas

peito
colo
segura
toca
mão
dente
no dente
nu
não
pode
quero
não
deixa

aqui
deixa
depois
talvez
te ligo
sim
eu espero
pode vir
beija
aqui
pedaço seu
meu em você
quanta gente
caramba
vem aqui
te vi
me olhou
o que fazer
meu deus
inacreditável
você é
o quê?
você é.
ponto
ponto?
ponto
fiquei sem graça
basta
pode bastar
tá tremendo
o quê
trepidando
n~]ao consigo parar
as letras estão intervindo
as palvras novas se formando
as antigas se errando
não vai durar
mais um segundo
bolha
estouro
festa
assom,brpo
susto
tropeça
cai
beijo-o
volta
segura
vai
tenta
fica
bate
estaca
estaca
estaca
me beija
extravaza
agora
culpa
não
e os outros
quem são
e e e e e e
sempre mais
sempre mais
mais
amor
culpa
não
estou bem
vc não
e agora
aperta
o corpo
meu
seu
os dois
sim
os dois
dos dois
apertemos-nos
contra  aparede
contra a pedra
dura
aqui
dentro
do bolso
da camisa
da camisa
quanta camisa
quanto calor
não pode
não aqui
eu sei
a culpa não é nossa
mas eu snto
pára
aqui
não

onde
você vai
embora?
como
como indo
fala direito
comigo
estou falando
nãoe stou enentendo
a gente está agago
sem ar
palavras demais
quero falar
eu te beijar
deixa
beija
não
escuta
agora
aqui
e agora
aqui
fala
eu ouço
diga
nao quero
quero ir
para onde
sua boca
enfrenta
seguro
mordo
controla
extra
meu deus
calor
como faz
e agora
toca aqui
segura
colo
corpo
peito
encosta
chora
vergonha
]iomagina
olha
o que
estao olhando
foda-se
fodam-se
fodam-se
foda
agora
nao
como
deixa
amanha
nao sei
celular
toma
nao
eu sei
quer dizer
o que
devolve
desculpa
era o numero
me passa
o meu
o seu
o cel
oceu
nao
deus
calor
como
sorte
a minha
a nossa
sua
sua
sua
minha
nossa
agente
nós
dois
tres
quem mais
nao sei
eu vc
todos eles
quem
o mundo
está vendo
e
e o q?
e quem?
quem?
o kiko
kike tem?
nada
deixa
foda-se
ninguem entende
o q ?
isso aqui
o q
poe a mão
onde
no peito
sim
sente
sinto
vem


aqui
onde
na boca
olho
nao vejo
abra os olhos
você está bebado
você chapado
desculpe
nao tem problema
nao tem nada
só a gente
beija
de novo
tenho q ir embora
fica
ajuda
acode
eu te entendo
eu te mordo
nao
ai
desculpa
o que
confundi
fala
ultimo
beiojo
segue
sem fim
volta
me liga
ligo sim
trchau
meu deus

...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Poema para Expressar o Inexprimível

Não consigo te classificar
Cansei, não me restam nomes
todos em vão já foram tentados
os que sobram são mefíndromes
pequenas bálsidas imersas
no caos original,
que lhe dá chão.

Não há mais verão inverno outono
a primaveira partiu
deixando em seu lugar um mix de estrídolas
um cheiro longo e vigoroso
de amérculas

Sobrou tentativa
sobrou espera
sobrou tijolo
e a obra ainda assim está partida
com um fosso no meio
deste obscuro inflâme.

Cansei de te dizer
se certo ou se não
se belo ou se sim
eu disse
mas o que eu levei para mim
foi um dicionário cheio
de aspargos
cheio de páginas
de ácaros
de mirceas
eliades.

Acabou a privação.
Eu não poderei restar só
como quis
lá no início
restar só como fosse isso princípio
para a felicidade
que agora brilha
informelca
posto insegura
felicidade
não mais seiva-
bruta.

Tudo assim
imerso no secular neologismo
irmerso nas ondas nos ondicos
nos meninos surfistas
transpiros.

Acabou minha vez
agora é você

Dar-me nome
é o destino do homem.

Tentamos.
Antes que nos tentem
as blênquidas*
na horta vizinha.

* Blênquidas: plantas de teor venenoso, porém de forma e cor atrativas. Seduzem insetos pelo cheiro e os consomem quando estes tocam a seiva bruta, tão doce quanto a morte.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

construção de utopia

Isso já aconteceu outras vezes.
Sim. Não é novidade.
Sim. Mas você se lembra... A gente não saiu do lugar.
Sim. Não saímos.
E então? Não acho que conseguiremos dessa vez.
Mas é claro que conseguiremos.
É claro? Onde?
É óbvio. Amadurecemos.
Ah, sim. O tempo passou, você quis dizer.
Sim, o tempo passou. E nós mudamos, nós estamos melhores, mais bem resolvidos.
Mais bem?
É. Melhor.
E o conflito?
Como?
O conflito... Aquele que nunca tivemos... Ele apareceu?
Era eu quem tinha que arranjar um?
Não era?
Não sei. Você não sabe? Quer dizer, não tem?
O quê?
Um conflito qualquer, um probleminha, um estresse, qualquer coisa...
Eu tenho, eu tenho, eu tenho sim... Eu tenho um... Um vazamento no teto do meu quarto.
Não serve.
Não serve?
Não. É um problema tão pessoal, tão subjetivo... Não se lembra? Tem que ser algo mais forte.
Forte tipo o quê? Alguém morreu?
Isso. Quase isso.
Alguém morreu?
É, por aí...
Não! Eu estou te perguntando... Alguém morreu?
Sim. É claro. Sempre morre alguém.
Sempre?
Sempre.
A todo o instante?
Sim, de um em um segundo morre gente.
Como você sabe?
Eu li.
Onde?
Numa revista?
Qual?
Não me lembro.
Como não se lembra?
Esqueci... Mas fiquei parado nisso. Nisso de morrerem pessoas de um em um segundo.
É verdade... É forte. Se a gente parar para pensar. O tempo deixa de ser tempo simplesmente e vira uma carroça cheia de cabeças por ele guilhotinadas.
Nossa... Talvez sim, talvez sim... Mas você sabe?
O quê?
Isso quer dizer que encontramos um conflito...
Um problema.
Uma força motriz.
Algo que nos impulsionará e alargará nosso destino!
Para além destas palavras...
Além...
Para além destas palavras...
Sim. Eu entendi.
E agora?
O quê?
Que é que a gente faz com o conflito?
Usa.
Usa como?
Tira partido dele.
Como tirar partido da morte?
Alguém terá que morrer.
Isso é dramático?
Depende de quem for morrer.
No caso se for você...
No caso talvez você...
Tudo bem, caso fosse eu, presta a atenção, se fosse você, por exemplo, o que isso causaria ao mundo? Nada?
Nada.
Exato. Muita coisa está implícita neste nada...
Não serei eu.
Sim, será você. 
Serei ei?
Sim.
Eu?
Serei eu.
Você?
Não. Você.
Serei eu?
Sim, mas eu quem o fará.
O quê?
O conflito se estabelecer.
Como?
Abre a boca.
Ah?
Engole isso aqui?
Chumbo?
Binho.
Binho?
Diminutivo.
De quê?
Deste veneno que acabaste de engolir.
Não era bala?
Nem doce.
Tic-Tac?
Veneno.
De rato?
Igual o daquela atriz.
Quem?
Não lembro o nome.
Qual?
A que fazia filmes...
Naturalmente...
Pornôs...
Não sei...
Em breve a conhecerás.
Adeus...
Adeus.
Você sente o conflito?
Quem?
O conflito chegando. Você sente?
Eu sinto... Não, eu não sinto. Enfim, ele deve estar vindo...
Se eu encontrar com ele, aviso que você está esperando...
Avisa sim!
Obrigado!
Nada.
Não saia daí, tá? Para não desencontrar?
Sim.
Qualquer coisa grita.
Sim...
Que eu não vou te escutar.
Sim. Sim. Sim.
Sente?
Estou sentindo...
Agora é só você e seu conflito.
Eu e ele.
Não.
Não?
Não.
Eu e ele...
Ele... É... Você.
É você?
Você.
E você?
Estou dentro da sua cabeça. E nada há mais. Para além disso... São só palavras. Palavras... Sós... Só isso. E mais nada.

é tarde

para te segurar naquele que foi nosso último abraço
para te ligar na manhã em que partiste e insistir
fica.

tarde para registrar os aniversários passados
para tirar mais fotos com os avós morridos
tarde para perceber que certas coisas não transcorrem no tempo
certas coisas são em si mesmas já seu fim
e início.

tarde para insistir fica
para te estender estas mãos
tarde para inverter aquele jogo
para me permitir já ser estrada
e não outra vez de novo
construção.

tarde para tomar sol
tarde para tomar chuva
tarde porque ou se torra
ou porque hoje tão cedo
já se pode se perder
entre as gotas
formando outras avenidas
em meio às ruas.

tarde para se masturbar
tarde para dormir
tarde para sonhar com o que quero
tarde para organizar o que está por vir
tarde para sentir orgulho
tarde para sentir o tempo
para dar-lhe as mãos
para seguir rumo ao centro

tarde apenas porque está mais escuro agora
e assim
nestas condições de temperatura e pressão
o tempo respira acelerado
precisa ser página
em branco
para estes novos desastres.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

sleep beauty

vai dormir !

é o que me digo
toda vez que me reconheço
a t o r d o a d o.

Full

do emagrecimento
do sono
de idéias
de projetos
de filhos morridos
de desejos consumidos
de prosperidade
de reconhecimento
de vazio e de cheio
cheio de contentamento
cheio de ar
cheio de cansaço
cheio de futuro
ora, tão cheio do que foi passado
cheio de perspectivas
cheio de palavras difíceis
cheio de metonímias

eu estou cheio de vida
e de morte
e de olhares nas esquinas

estou cheio de refrigerante
cheio de insulina
cheio da disposição dos móveis
cheio das rimas.

full of this old year.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

das suas idéias.

me explica.
eu não entendo.
eu estou tentando.
eu estou querendo.
fica aqui, não corre.
você que deu idéia.
agora sustenta.
você tem sorte.
de eu ser assim.
caído por você.
caído pelo seu pensamento.
caído pelos remendos que você vai dando.
e de tanto remendo, olha eu neste momento.
olha.
todo colado cosido costurado.
eu assim todo absurdamente querido, amado.
eu feito pacote de surpresas.
feito pacote de drogas.
eu não te entendo.
você não era assim amargo.
não te entendo mesmo.
muda a faixa.
sou capaz de fazer algo que eu nem sei.
não vem.
tá bom, vem cá.
não dá para esquecer.
o quê?!
você pergunta.
eu vou fingir que eu sou burro.
sim.
burro.
me ajuda a te desvendar aos poucos.
me parece assim que você não é tão liso.
e disfarça o meu amor por algo assim tão...
rústico.
duro.
pedra.
preciso.
impactante.
incrível, te digo.
você é incrível.
quem é você?
não creio em nada.
você também não.
eu gosto de ser assim.
e você, sempre cruel.
comigo, sempre cruel.
em qualquer coisa.
pesa a mão.
pesa então.
mas no beijo no peito, pesa.
pesa a qualquer custo a qualquer jeito.
eu não entendo como fui capaz de me apaixonar pelas suas idéias.
não fazem sentido algum.
nem elas nem você.
a gente não faz sentido.
a gente só faz atrito.
e está bom, né?
está bom.
assim.
do jeito que está.

sábado, 12 de dezembro de 2009

rebobina.

para vermos onde foi que erramos.

volta tudo. vamos rir de novo naquele início
para ver se a gente aguenta mais fácil todo esse agora
todo esse texto
que não para de sair
que não para de secar
o meu o seu
nosso íntimo
desdizendo o outro
nosso íntimo
pedindo por beijos
mas falando na língua dos socos.

volta a fita
vamos ver se no passado alguma coisa jaz
esquecida
vejamos, por favor
me dê a sua mão
vamos tocar o corpo
como fosse o corpo
ainda o daquele encontro
ainda corpo fresco
com medo da comunhão
corpo com medo de se consumir
de inédito
imediato
corpo esperto
hoje mais não.

espera.
volta ali. naquele segundo partido.
vês?

foi ali que eu pensei pela primeira vez
e quando o nosso amor tiver morrido.

será que foi por isso que tudo ruiu?
será que foi dali adiante que as coisas vieram se quebrando
que os passos
meus seus nossos
foram titubeando
passos foram se tornando implicantes
e nunca mais uma esquina livre outra vez.

volta. deixa voltar tudo em câmera lenta.
eu não quero que o presente agora
seja outra coisa que não essa
eu poderia viver no futuro
este passado.

eu poderia ficar nesse sofá
ainda mais hoje
ainda mais colado
vendo as fitas
as fotos
as falhas
do nosso ato
i n a u g u r a l
deste amor ido.

menina.











propina.

vem,
pede que eu paro.
e no passo seguinte, quando virar de costas
eu te chamo outra vez.

não tem jeito
eu não sou bom
quem ama é ruim ao fim
é ruim porque acha que o mundo inteiro
está a zombar
sozinho
de si.

vem cá,
pede com carinho
me diga
oi, por favor, você pode parar com isso

com isso, eu te repito
fingindo não saber que isso pode o meu isso deter
mas eu sei
portanto peça
e me faça entender
quero ver nos seus olhos
o meu desespero
indo em ti crescer

quero ver
se se pede a alguém o desamor
se se pede a quem ama para abortar
a missão,
não

não pode ser
só aceito a proposta se for noutra condição.

tempo.
você me olha.
eu gosto. quase começa a se desesperar.
mas é pouco. sempre mais,
eu quero

portanto, venha
chegue aqui chegue perto
consegue sentir o que eu te peço
te peço que me pague
que me compre
que compre o meu silêncio
para você
conseguir
seguir
sem eu
a te chamar
mal se rompa o amanhecer

compra, vai
eu quero ver
com qual jeito
com qual preço
comprarás você o fim da sua
que agora é minha só
dor

compra aí
quero ver essa delicadeza
quero ver se isso é normal
se se pode pedir ao outro
cesse! corte! quebre! seca
essa minha lágrima
com moedas de ouro

quem sabe assim hei de parar
quem sabe assim se assim for me comprar
compre! mas trabalhe
porque o meu amor é o mais caro
do mundo

mas só no caso de ter que se livrar
daquilo tudo que lhe foi destinado.

a prova é de graça
mas o resto
inevitável,

pois nem tente
nem tente ir embora
porque eu posso te falir
escute o que eu te falo
eu posso te fallir
e eu posso
te incendiar num só passo
não me dê as costas.


morfina.


quina.

dobrai-me ao meio
empacotai-me
quero ficar preso
colado
algema meu corpo
e esquece junto a ele
por favor
um pedaço seu.

deixa esbarrar uma perna noutra
deixa os pêlos juntos se arrepiarem
deixa
ninguém vai perceber
eu não vou
você não vai querer
é o nosso tempo quem se vai
fiquemos nele colados.

eu te agradeço
pelo chute pelo esbarro
pela sinceridade desmedida
por podermos nos ver assim
nus
sem vergonha da pele ferida
pele vencida
pelo tempo
sempre por ele
por sob
por sob ti.

empacota-me nos seus beijos
me faz pequeno
me faz ser todo
inteiro
pequeno volúvel potente
desejo-te,

para em mim se colar
para em mim ruir o seu corpo
e junto a mim se despedaçar

vamos juntos doer
vamos juntos distrair o tempo
porque assim é tanto quanto não
compreender.

fiquemos
assim ao chão jogados
fiquemos
assim às cinzas dos cigarros
queimados

eu não me importo
desde que seja ao seu lado.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

some.

para depois surgir mais forte
mais mito
mais quente
preciso.

some agora.
fique meses aí
onde estás.

não quero de ti saber.
eu quero de ti saber.
mas não quero
preciso aprender que és como onda
vai
e nem sempre volta.

some depressa
parte veloz
sem olhada para trás
sem memória daquele último abraço
apertado
entre os dois.

some correndo
sem tempo de pensar no tempo
porque os olhos choraram todos
os segundos
e seguidos nestes
os cigarros amenizaram a dor
toda
dentro.

some, vai.
desaparece.
tropeça e cai.
com você eu não quero
de você eu não espero
nada mais
que não seja esse amor
sozinho
aqui comigo
feito filho acreditado
mas duro
dentro de casa trancado
filho acostumado
vendo televisão
filho feito naquele tempo
em que nossos encontros
frequentes
não geravam nada
exceto
canção.

e tesão.
some, vai.
que eu te espero
mesmo assim.