pesquise no blog

terça-feira, 29 de abril de 2008

Caixa de Terra

E dentro dela
um pepino espera.

A cebola, do outro lado,
desespera:

a casca soltando
o topo coçando
e a base sangrando.

Dentro dela
da caixa de terra
o tomate pisoteado
sob o pesar
autoritário
do agricultor.

A batata, no meio,
em agonia:

a pele suja
esburacada
o corpo mole
mal acabada.

Dentro dela,
dessa caixa de terra
revolvem as mãos
e dali saem prensadas
aqueles corpos
rumo às bocas
esfomeadas.

Batata
Cenoura
Tomate e
Pepino

Pro pai
pra mãe
menina
e menino

E no canto da caixa
um focinho
um focinho fuçando

do cão que não gosta de inhame
do cão que só mesmo come
o arroz e o feijão de cada dia

o arroz e o feijão de cada esquina
e nada há mais.

domingo, 20 de abril de 2008

Amar Duro e Ser

Coisas que estão nesse meio:

a existência de um amor
o meu por mim
o seu por him
o her por mim
nem tão assim
mas bem no fim
amores são sempre
essa quadrilha que todos conhecem.

...

sobre dureza
do corpo
do rosto
dos ombros, tensionados loucos

sobre dureza
do chão do caminho
das pedras da ladeira
dos escravos que sangraram ali
para a rampa construir.

...

e então eu somo
digo "e" isso mais
"e" também falou
"e" não se esqueça
não se esqueça
de no final da oração
escrever
e cenouras.

...

ser virou não ser
ou seja
agora o ser é também
todo aquele que não pode ser
antes
ou depois
não importa

o ser que quero
e por isso sou
é ser e não ser
sou eu
sou eu
você?

assiste aí
me convide para passear
a gente fuma uma cigarrete
e bebe uma parada de café

a gente dança sem música
ou divide o fone

a gente compra as coisas
e sofre alguns instantes.

...

estou em outra cidade
estou em felicidade
estou no meu âmbito
no âmbito ser hei
no salto de um ser,
sei.

...

acometimentos
do amar
do duro fardo
do ser
que amadurecendo-se-é

terça-feira, 15 de abril de 2008

A coisa mal feita

Por vezes
me chateia.

Fica meio cara suja
meio filho da rua
cuja vulva
da qual nasceu
sequer se anuncia

e apenas
pende
cansada
com algo nos lábios a dizer
mas incapaz
de se compreender.

A coisa toda mal feita
me tortura
Não fosse apenas mal
ainda fosse feita
conduta
precisa
coisa
estúpida.

Por vezes me chateia
Por vezes eu amanheço
e penso
"é preciso resolver"

É que a coisa assim
mal feita
pela metade
sem o último toque que nos dá o rótulo de nossa identidade
então
é dessa coisa aí
que parte a mediocridade.

E se alguém aplaude?
Pior: você olha para o seu filho e aceita
"poderia ser pior"

Mais feio
fedido
sem jeito
Filho impreciso
inimigo
do corpo
e do seio

da mãe
que se diz cansada de amamentar

da mãe
que se diz e que se diz e que se diz
é porque tem medo
que o mundo reconheça
ali
no filho gemido
o seu traço perdido
o seu ranço fudido
o seu precipício.

Ai
de coisas mal feitas ando eu cheio
Por isso
todo o cuidado com os filhos
todo o zelo
todo o selo

Não mais para qualquer um
Não mais assim

pela metade
na inevitabilidade
do partir a seguir.

Que morram de uma vez
os filhos caídos de mim

E que entre nós
uma nova raça
feita deles
possa ser erguer

e o mundo?
será outro
outro ser.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Dieta

uma xícara de café pela manhã
três torradas light com margarina
um silêncio
algumas agonias, passageiras

olhei uma barra de cereal
mas fui embora

seis pães de queijo
e uma lata de coca
zero
coca-zero

andei
queimei
conversei

uma salada grande com:
champignon
ervilha
queijo
gorgonzola
pimentão
bacon
molho rosê
mas sem
repito
sem
as preferidas alcaparras!

um nestea light de pêssego
um sorriso meio assim
sem jeito

uma alface nos dentes
e um sol
hoje
tão quente

um torrone
pequeno
0,30

cinco balas
três de melancia
e duas de frutila

um grapete light

não me deu vontade de repetir
e tomei um café

depois soube do lançamento de um dvd
e surgi no evento para

comer

um copo de coca
zero
coca-zero

uns biscoitos folhados
um dvd embalado
quatro pedaços de bolo
e duas uvas pretas
cobertas de chocolate

e ainda assim
estou aqui
a tremer

vocês percebem?

quarta-feira, 9 de abril de 2008

All I Need

Eu preciso abraçar você
e também você que já se foi
e que voa longe justo aí
onde eu não sei nadar.

Eu preciso comer
mas temo comer agora
na hora em que dormirei
após a noite
entrando o dia
comer e dormir saciado
é não mais acordar
pois meu corpo dando-se por completo
antecipa-me o morrer.

Eu preciso ter calma
e não é que a conquistei?
Eu preciso ter amores
e não é que agora
justo agora em que o sono preme meus olhos
eu resolvi vê-los assim?

Amores com todas as cores
com toda a feiura
e textura
e feitura que me apraz
inda sim.

Preciso articular
Mas meu estômago
g r i t a ! ! !

Certos pedaços de homem
não sabem esperar
só sabem espernear
e rugir
e roncar
e rinite
a ruminar

Em meu estômago
perderiam-se
todas as ratazanas
que se colocassem a procurar
uma parede sequer
e qualquer para recostar.

domingo, 6 de abril de 2008

Cotidianos

Hoje eu acordei tarde
Sem pressa
Sem alarde

Fiz o que o meu corpo pediu
Andei pela casa
Nu e destemido

Andei pela rua
Cantando e andando
no compasso da música
que ouvia

Fui ao supermercado
Comprei frutas biscoito
e café

Hoje eu varri o quarto
Limpei o banheiro
Lavei as louças

Estive só por todo o dia
E pouco escutei a minha voz
pouco estranhei não ter azia

Passaram-se as horas
e nisso eu pensei criei desenhei

As horas passaram
e adiante eu segui
construindo um futuro
um abrigo
meu ninho

Hoje o dia passou
e me levou junto

Como se nos seus braços
eu deitasse justo
e quisesse apenas
seguir
sem medo de cair
ou não ir

Hoje o dia me levou
ao sabor dos ventos
até o topo de meus sentimentos
e nisso
eu cresci.

sábado, 5 de abril de 2008

Levaram a minha cama

E eu fiquei no chão
deitado sobre o colchão
querendo a sua mão

Mas foi ela
a sua mão
que avançou
contra-mão
e levou
minhas esperanças
minhas militâncias
meu passado
meus desejos
revirou meu armário

Foi ela a sua mão
que levou ela mesma
para longe da minha
e de mim
e sem fim
fico assim
deitado no chão

Meu corpo afunda

no colchão

E, aos poucos,
eu posso sentir

O chão me toca

Pois o colchão
para um só ser
é mais fundo
e me engole
me afoga
me despreza
e me desloca

Estou no chão
pois levaram a minha cama.

E se eu comprar outra
você volta?