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domingo, 31 de janeiro de 2010

Obra Prenúncio Morte



Quando ela decidiu ir embora, ninguém soube, somente ela. Mas sempre em algum lugar deste mundo, eu nisso creio, sempre em algum lugar alguém tem a carta do movimento que você sequer deu, mas que deseja jogar. Alguém tem sempre sob forma de sussuro, prenúncio, aquilo que você inaugura e faz o mundo tremer. Assim como ela, que fez todo mundo chorar. Ele lá atrás, anos antes, deu a cartada ao mundo, a fez nascer. A obra de arte nasce sempre antes da vida. Ela é anterior ela chega e ainda comenta como a criança lutou para se livrar do enforcamento do cordão umbilical. A obra chega primeiro. Depois, o que vivemos, o que fazemos, tudo já lhe é tão habitual, eu diria hoje vendo-a na obra lacrada, eu diria ser banal. Ser sono de domingo, sono com calor, calor sem sequer gemidos. Apenas aquele incômodo que nem sequer tem forças para nascer, é incômodo quentinho, abraçado, incomodo surdo sem voz, não-alado. Ele a prenunciou. Ele a desenhou. O corpo, os cabelos, o olhar destituído de si, mas voltado todo para dentro. O artista me fascina. Ele me assusta, ele eterniza em sua obra alguma vida - e não a sua - eterniza a vida que anos depois veio a se perder. E se hoje eu a olho, ela a obra e não ela, ela. E se hoje eu a olho e lembro dela, é porque ela não está mais aqui, mas permanece viva na obra museuficada. O museu cemitério, de obras anunciadoras do fim e da salvação. É invólucro, é sede, é seda pura ventando solta ao tempo. Hoje eu a olho aqui presa e sei que ela voa ali dentro. Dentro da moldura hoje eu a olho e sei que sim, tive nela e com elas meus últimos momentos. Mas nasce o dia e na parede a obra congela o tormento e eu posso te dizer de novo toda manhã, a qualquer segundo, eu também te amo. E isso me faz seguir meio que seguro, meio por ti contornado, com moldura, tontura, ser incapaz de se deixar jogado, porque há amor que o represente. Há amor e eu te olho eu te escuto e você sem dizer nada... É duro assim mesmo. A obra permanece indiferente, mas no fundo eu sinto eu sei, é você pedindo aos artistas todos mortos por aí, pedindo a eles, deixe que se revelem, não alterem, deixem, deixem porque elas vão se dizer. Eu olho de novo para este você que é você e que nem é, nem é, eu olho e choro, sim eu choro, o que fazer? Algum artista um dia resolveu acordar e te trazer ao mundo. Talvez por isso você tenha partido dizendo ter vivido muito em pouco tempo. Não, o relógio não falhou. Começamos a contar atrasado, foi isso. Você nasceu segura na ponta de um pincel. Nasceu tranquila e adormecida. Nasceu bela, corpo de mulher corpo de menina. Você veio e de nós se foi. Duro e difícil é querer te ter e ver obra. Ver obra e descobrir que na vida, somos quase sempre um esforço desmedido para escrever histórias, ainda que seja simplesmente a nossa. Você se cravou. Está congelada. Quente no quadro, quente em minha sala casa cabeça alada em meu ir... Estás comigo. Isso aqui é apenas uma forma de dizer, de criar, de sacrificar e fotografar, um pedaço a mais de nosso viver. Amo-te, te amo e amo e nem sei o que isso mais possa significar, mas... Sinto. Sinto a sua presença disforme me afagando os cabelos. E se sinto, logo, é também graças a ti...

Esgoto

Ela fez cara de que não tinha nada a dizer. Absolutamente nada. Mas ele não acreditou e continuou mirando seu olhar. Ela parecia aborrecida, cansada, triste, mas ele nela insistia. O que havia perguntado, ela pensava, não era possível de se responder? Quem inventou a interrogação? Ela respondeu. Com uma pergunta? Você vai me responder uma pergunta com uma pergunta? É só isso que tenho. Pois eu prefiro então o seu silêncio. Ela fechou os olhos. Ele encostou-se à parede e continuou a mirar seu destino.
Quer que eu repita? Não. Quer que eu te traga água? Não, obrigada. Nada vai adiantar. É tão difícil assim responder? Se fosse fácil eu já teria dito. Nosso diálogo está falido, a gente não sabe mais se falar. É que depois de um tempo o tema do assunto vicia e a gente só sabe disso falar. Você é narcisista, ela afirmou. Por isso eu preciso de você. Olha para mim. Desencostou-se da parede e foi com as duas mãos lhe segurar o rosto.
Você é tão bonita. Quando brava, então, ainda mais me encanta. Não fala em encanto, não fale desse jeito. Isso me distancia e eu queria tanto ter motivos para poder te segurar aqui comigo, mas está doendo. Foi por causa da pergunta? Foi por causa das causas. Quem inventou isso? Quem disse que tínhamos que ter? Por que você não pode percorrer o meu corpo brincando com os pêlos apenas, por que você cisma em ter que entender? Eu não sou literatura, eu não sou receita, nem bula, não sou livro... Eu estou aqui, quase nua, eu sou isso, eu sou isso.
Você é linda. Não quero ser. Quero que as palavras se apaguem. Quero cancelar o silêncio e ser música. Não aguento mais ter nome para dizer isso que você diz ser amor enquanto para mim é angústia. Eu não quero que tenhamos vários nomes para dizer uma mesma coisa. Eu não quero porque se o seu nome é mais popular, isso me faz parecer que a minha angústia é pouca coisa. E não é. Eu estou doente.
Do nosso amor? Doente. Doente pedindo pelo tempo pelo próprio fim. Você não me ama, é isso? Amor não tem fim. Então você me ama? Eu te abomino eu te dezprezo eu quero te morder lamber seu corpo tudo isso sem ter que dizer quero eu te lamber eu te morder seu desprezo te abomino eu corpo. Não funciona. Não mesmo. E como a gente fica? A gente fica como a gente fica. Assim? Assim, vagando, batendo um no outro até sem mais fim.
Você me ama? Eu te amo, sim. Agora me diz, o que isso significa? Eu não sei dizer. Tente. Não sei. Tente, anda, me diz, o que significa eu amar você. Eu não sei, eu não quero saber. Como não? Você havia me perguntado, eu acabei de te responder: eu te amo e agora? Me devolve, me diz, para de falar só sobre você. Eu te exigo eu quero saber: eu te amo sim e o que isso significa?
Ele fez cara de que não tinha nada a dizer. Absolutamente nada. Mas ela não acreditou e continuou mirando seu olhar. Ele parecia aborrecido, cansado, triste, mas ela nele insistia. O que havia perguntado, ele pensava, não era possível de se responder? Quem inventou a interrogação? Ele respondeu. Com uma pergunta? Você vai me responder uma pergunta com uma pergunta? É só isso que tenho. Pois eu prefiro então o seu silêncio. Ele fechou os olhos. Ela encostou-se a ele. E, juntos, suaram até embaçar o destino.

sábado, 30 de janeiro de 2010

a isso que chamam o amor

eu acho que eu me confundi.
e parece não existir volta ou cura, enfim
eu havia dito hoje cedo
eu me perdi de mim
em ti.
e a resposta a esta questão afirmativa
sem interrogação
se desfaz em versos mil.
nem você
nem ninguém comigo veio falar
eu passei o dia inteiro
e volto agora
às 05:16 da manhã
para fazer pela poesia
aquilo que não consigo fazer por sua pele,

selvageria,
estou perdido
eu fui confundir amor com meu ofício
eu confundi poema com paixão
e agora tudo sai nesse formato
cada você que eu digo
já indica lá na frente
ou é por amor
ou é por composição

das rimas
das linhas
metáforas e afins,
ou eu digo nesta língua fingindo ser você
ou rumo ao centro de ti
e mordendo sua boca vou dizer

está difícil cada vez mais a poesia do dia-a-dia, sabe, amor?

está difícil o amor mesmo quando o encontramos em toda esquina.

é difícil mesmo poetizar, como o é com isso de amar
é difícil
é custoso - consome -
e sim - poetizo - é capaz de matar
porque frisa na pele a ambição das horas rumo ao desespero
rumo à falta
ao salto hiperbólico
de quem tem tanto mas explode
primeiro por dentro
pelo corpo já velado
sendo todo sentido
sendo o corpo, amante-
-ultrapassado.
 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

tbm.

 
Com que inconstância você me acessa. Eu fico sem entender o motivo.
Você diria com que inconsistência você me toca a pele e eu diria
eu não diria nada porque você está certo
Sente no corpo indo a minha mão te transformar
ir a minha mão te condenando o que deve o que não deveria fazer
Com que inconstância voltas a mim. Como quem sequer tinha partido
como quem sequer tinha me consumido e largado e assim ido
independente
flertar com o movimento de todo e qualquer outro astro,
sim, eu resvalo e você me diz, é verdade
eu nem te pergunto o que exatamente
porque vindo de você tudo para mim é certeza
eu me perdi em ti e não quero me encontrar
Porque eu espero te fazendo
eu não fico parado
eu não saberia ficar
porque movendo eu te respiro eu te recrio eu me permito me dizer
aquilo tudo que eu diria a ti
caso aqui tivesse você
E me olho, as coisas todas se repetindo sem acabar
Eu me olho e me observo e me condeno e te ponho a me conversar
você diz, Como fazer? Eu lhe digo fazer o que? Você diz, isso, que nos une
Como fazer isso que nos une?
Como fazer isso que nos une.
Primeiro, você diz, o que é isso que nos une. Você repete, acentuando o une como fosse unir
algo improvável entre nós dois já unidos
Por quem? Por você. Por nós. Por nós. Por você. Eu nos une por você.
É confuso, a obra toda fica mal acabada
a gente então entende que precisa correr outra estrada
daí então, eis que tudo se resolve
porque eu me calo de súbito e fico olhando suas caras
suas imagens, olhos nos olhos, olhos na numeração das páginas
e ali fico, persistindo persistente e perseverando através das especulações
ficcionalizadas
de nossos peitos
em combate.

Então me digo sem sequer me olhar ao espelho: Você acha para falar de metalinguagem basta escrever com palavras a palavra palavra. Você acha que é falar de como é duro escrever o que você escreve. Você acha que é trocar poema por amor. Que é falar do livro como fosse ele, da estrofe feito fosse ela. Você acha que você está perdido e percebe agora, que é bem pior que isso. Se a obra se dá nós, a vida, meu amigo, o mundo, meu amor, é também engenhoso. É também isso que estás vivendo isso que está vivendo você. Te sugando e premendo e fazendo calor, mais até que ele. O sol.
   

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Eu tenho pressa

Não para correr
mas para te assegurar
nem sequer para chegar a tempo
mas para ele digerir
e ir sem voltar
e ir sempre indo
sem pressa de parar.
Pressa de ser presa
de me deixar nas bocas passar
meio mordido
meio comido
meio propício
para a gênese do absurdo
meio precipício
e fundo alto
e vasto rio
nisso, pressa eu tenho
para engessar o instante
e viver nu
passado em futuro
voando despedidas e reencontros
nada se efetiva
exceto o vôo
nada se efetiva
exceto o rolo
entre os tapetes
que não todos meus,
um toque aqui
outro ali e por aí
assim
vemos:
amanheceu e ontem estava anoitecendo
mas o meio termo
meio ingênuo
mas
foi-se
com gota total resvalada
como sorriso consumido na chegada
ou doído na partida atrasada
de quem se foi
e sabemos bem
para não voltar.
[Meus versos estão viciados]. 
Amanheceu aqui em casa
Amanheceu o mundo
eu luto, persisto
descrevo
eu nulo a dificuldade
e faço dela alegoria
faço dela metonímia comedida
que diz aos poucos
sua vã agonia
de ser todo em cada parte
de ser ser em cada arte
destas mil
que especulamos
para dar conta
do nosso excesso
de verdade.
A mentira já existiu?
Acho-a a existência mais sincera
de todas.
Feito mentira-fosse-amor
Feito mentira-fossa-verso
Feito verbo-fosse-mentira
Fosse o menino-men
sai a problemática dos conceitos
aumenta o som e dance nu na sala de casa
É o que vou fazer
enquanto a manhã decide
se vem ou racha.
  

Costura

Passam por mim linhas que não sei explicar
Passam por mim linhas que não sei detonar
Linhas que não sei combinar
Linhas que sozinhas se combinam
e me deixam apenas a sensação
de saber que passam por mim
linhas
feito fossem linhas sentido
explicação.

Passam por mim linhas que não sei frear
Passam por mim linhas que me sugam o ar
Linhas que não sei fazer partir
Linhas que não sei fazer reter
o movimento impregnado
de construir a cada passo
corpo
feito fosse corpo sentido
capturado.

Passam-me linhas que não
Passam-me linhas que não
Linhas que sim
Linhas que sim
que assim
dessa forma em mim
me são.

Passam linhas
Passam imãs
Linhas em vão
Imãs que então
trazem a mim
o mundo
em eterna
passagem.
    

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Poesia para começar um dia

Que seja tão gostoso e quente
quanto o teu abraço.
Hoje e ontem
em falta.

Que seja tão direto e objetivo
quanto o seu beijo.
Hoje e amanhã
em poesias

estrofes
metáforas
eclipses
metonímias
aliterações
hipérbatos
e rimas

Agora e depois
tão concreto como esta

leve falta de ar.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

perdoe-me...



eu tornei você algo impraticável? não foi? peço desculpas. mesmo.
não posso prometer o que virá a seguir, mas... é verdade, preciso cuidar de nós dois. eu e você. nem te peço que cuides de mim, porque sempre foi tão cuidadoso mas agora parece querer me repetir. estranha fixação.
eu vou tentar.
de propósito, prometo, vou buscar o caminho, buscar a veia certa, quero te desengasgar. quero te libertar disso que te prende e te faz assim, tão de mim distante, mesmo perto, tão longe. tão longe. tão suficiente. tão bélico e capaz de amar. ao mesmo tempo. o que você ama?
não. peço desculpas.
certas perguntas não são perguntas que possam ser perguntadas.
guardo-as aqui comigo.
o que você ama? às vezes eu me perco e pergunto uma delas, assim, sem fim, sem querer resposta.
mas se você me dissesse, eu diria sim.
sempre sim, eu vou, você sabe, eu sou alguém já perdido.
fica. eu te peço. lá fora tá chovendo muito. é bom se molhar. mas de suor. contido.
sem descarrego.
não precisamos estando assim tão únicos não precisamos ser nossos próprios inimigos.
fica. que eu te abraço.
faço a gente se costurar de volta.
fica que eu faço um café de novo
e vamos então de novo selar as mãos
e dizer
aqui
no
branco
o tamanho de nossas enzimas.
o tamanho dessa sede dessa fome dessa constante tentativa: o amor.
peço desculpas.
pela viagem, pela ida e não pela volta.
eu voltei. sempre e de novo a cada hora. eu te explico. neste mês, vou falar sobre você.
aos outros, vou falar de ti. dizer como se porta quando está nu diante de mim.
não é exposição, amor, é sina, nem amor é, amor, é fixação.
deixa eu explicar... eu não sei,
gosto disso
nisso há sofrer
eu gosto de te multiplicar
de te desenhar com outro rosto
os quais amo tanto
quanto este de agora, olha
Fica. Eu canto uma ode
eu invento canção
eu sambo neste quarto escuro
até fazer o sol nascer,
por ti,
não me deixe, um dia é certo, um dia a gente vai se entender.
Então,
peço desculpas
por tudo aquilo que não sei compreender
Peço desculpas, eu
não há mais o que chorar
Te partir ao meio
é também se extravazar

Se essa palavra existe
não faz sentido perguntar
porque você sobre mim
agora
ante mãos minhas
você existe
e isso basta.

p.s: i'm usually sleeping alone. 
  

domingo, 24 de janeiro de 2010

Caixa de Ferramentas

Eu estou drogado por você. Agora vem, abre a caixa de ferramentas e me conserta:
Pega esse lápis e aponta de tinta
Puxa esse trampo e pendura sobre a cortina
Apague os refletores
Pinte a face e o sexo de cobre
Aponte os dedos de carbono
deixei-os correr pelo corpo-celulóide
queima o tabaco sobre o meu rim
queime minha boca com óleo férvido
e derreta a caixa, o parafuso, o alicate
perfure a argamassa
bate o ponto
Chuva de plantas
baixas
amarelas
Minimalistas. A crise é menor
do que se imagina.
Drogue-me. Drague-me.
Deixe-me verter em relevos
em vitrolas
disco a você
me puxa
me pega
me prensa
e grampea a dor
sem grampeador
eclipsa de clipes
meu pavor ao corredor
no qual transitam
pautas
putas
pintos
parvas metáforas do silêncio dentro.
Estileta.
Soletra.
Etiqueta.
Inquieta.
Enfeita,
róseo
escarlate
rubro
Mais tarde, quem sabe
quando a onda passar
mas tarde quem sabe
não há como prever.

Toda previsão hoje é errada.
Me conserta?
Me desata?
Descasca
Destrói
Me Rasga.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Se Você Não Me Distrái

Eu sempre começo dizendo eu.
Quando tento revolucionar a prática
me vem você e estraga o dia.

Eles deveriam ter me ensinado
Elas também poderiam ter me ajudado
Qualquer um deles
ou delas
não importa
importa não ser mais só
eu e você.

A gente está gerando rimas bobas
A nossa fixação é contínua
é tola.
Eu não quero você
então você me quer.
Eu não quero me ter
então você vem a mim
e costura o que eu deixei
solto
sim
Criamos pretextos para encontrar.

E quando nos vemos
assim olhos nos olhos
reparando os detalhes
as cores no rosto perdidas
quando assim
nós dois até de mãos dadas
até assim
quando sim
a gente não sabe o que fazer
não sabe se beija
se adia o beijo
se beija em silêncio
sem tocar
sem falar
sem saber.

Poxa, vamos falar.
A gente se comunica mais fácil
Diz sua língua
eu sou capaz de compreender
Diz assim
E agora, o que vamos fazer?
Eu vou abaixar o rosto rumo ao chão
eu vou dizer
vamos para a minha casa, vai chover.

E então eu chego em casa
sento aqui neste computador
e torno em ficção
todos os meus freios
meus medos
eu os tombo aqui
sem censura
com volteios
dramaturgia própria
de quem ama meio
ao meio
de quem ama inteiro
o meio do caminho
justamente ali onde se encontra você
ó, pedra
ó, coração
ó, você
ó, ó, ó,
ó, eterna perdição

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

"A Máquina de Abraçar"

ou aquilo que as palavras não podem explicar.

Não escrevo aqui uma crítica. Escrevo poesia, até porque sou todo confusão. Sou mesmo meio heteróclito. Sou meio mesmo. O que tento aqui é regar a avenca para fazer germinar sentidos. É girar a cadeira para sentar de volta à mesa e poder me aprumar, a tempo de condenar a diferença  e nela ir me vendo transformar. Que espetáculo esquisito. Estranho. Potente. Não saberei dizer o porquê. Deixo a missão na boca das imagens que em mim desesperadas precisam correr, vazar.

Dra. Miriam pode soar artificial. Poderíamos dizer que ela está tons acima. Mas acima do que? Eu diria que acima desta nossa naturalidade, desta nossa realidade acostumada. Em comparação a esta, ela não é mesmo humana, porque se movimenta como se perscrutasse algo em nós, como se já indagasse de antemão: o que vocês estão olhando em mim? Por que essa cara de estranhamento? Ela é teatral. Meu deus! Ainda bem. Pois que assim seja. Eu ali diante dela sentado não conseguia não pensar: ela é artista, quer dizer, autista. Ela não sabe bem como se portar. Ela domina a linguagem, os conceitos, tem a bibliografia, mas seu corpo range a cada esquina. É como se ela se fizesse de ameaçada para me ajudar a reconhecer em mim, a minha capacidade de ameaçar. Ela ali diante da platéia lançada. Tendo que se consumir ao tentar dizer sobre algo que talvez eu já não queira mais compreender, porque meus olhos estão abertos - como os dela - atentos as nossas diferenças, atentos ao que possa haver entre nós de semelhante. Os olhos tão abertos da atriz, incapazes de conter a alma dentro dela revolvida. Alma da atriz incomodada com a sua dificuldade divina: a de ser outra e outra igual sempre e mais a cada dia. Talvez ela seja mesmo autista, quer dizer, artista. Por ter me feito perceber aquilo que dentro de mim me adormece e me aniquila. Artista o suficiente para me fazer perceber em mim alguma divindade querendo ser. Ser divino é ser humano chegado ao limite... Do outro. Ser humano chegado ao limite de outro ser. É ser prenhe de abraços.

E eis que a configuração do espaço italiano traz novas camadas de relação ao espetáculo. Havia assistido uma apresentação na primeira temporada, que inseria os espectadores entre dois palcos italianos, costurados por um corredor no qual as personagens transitavam. Neste espaço agora, a primeira forte relação criada é a do espaço enquanto teatro. Do teatro enquanto edifício da arte. Olhar para a luz significa ver o refletor? Rotular a platéia de heteróclita é também ironicamente atentar para o fato de que a platéia está brutalmente homogênea, incapaz de ser outra coisa que não apenas observadora? Platéia incapaz de ser outra coisa que não comensal. Seres que se alimentam ali no escuro, mas com o pudor-guardanapo de não ferir quem ali  sobre o palco se expõe. Triste, enfim, porque quem se expõe se expõe talvez para ser digerido. Quem se expõe o faz talvez por um tomate, por um ingresso vendido (e não amigo), por um abraço, que seja. Um abraço que seja outro que não aquele que não vem.

Por isso inventam-se as máquinas, mais uma vez. No caso, a tal máquina de abraçar. Que também não vem, porque é pretexto para exigir de nós sua funcionalidade. Chega do racionalismo que nos dividiu em mil metades. Estamos escrevendo agora manuais de costura. Ensinando o ser humano a se coser de volta. A ir pela soma e não mais pela divisão: vir-a-ser. Chega dos sintomas, dos diagnósticos, vamos partir para a hostilidade dos amassos. Para descobrir nos apertos o nosso real embate, nossa vitalidade. E quem a isso se dispõe, aprende pois a amar as plantas. Aprende a amar o giro, sobre o próprio eixo, aprende a valorizar o grito, por vezes espremido, por vezes expremido. Sim. Eu choro quando vejo alguém assim se revelando. Eu choro porque dentro de mim ecoa mais que choro, ecoa um canto. Quase uma ode a um fim comum.

Deixe-me perder. Ter consciência disso me faz avançar. O objetivo não pode ser mais encontrar. Porque os abraços também se vão. Até quem mais tem fome pode da comida enjoar. Pode recusar o abraço, pode diante dele não se estremecer. Por vezes me parece que quem mais precisa de amor é aquele ser que perde horas a fio tentando sobre o amor escrever. Os seres em tentação, em repetição. Os seres de Pina Bausch vagando redundantes dentro do café, que os mantêm de novo e mais uma vez eretos, de pé, na busca, na  busca, na persistência das poças (que são incompreensão).



Estamos tão próximos, mas tão distantes. Sinto que a montagem é delicada, sinto que ela mesma se joga numa constelação de problemas. E eu os amo. Porque da mesma forma que o espetáculo me requisita enquanto uma platéia num congresso científico, da mesma forma ele me repreende dizendo ser teatro, dizendo ser artificial. E pelo choque destas linguagens, multiplicam-se as sinceridades. Eu duvido que eu seja platéia num congresso específico para no correr do tempo nisso também me reconhecer. Eu me lanço ao espaço teatral, me abro as suas engrenagens e elas acenam de volta, como que por diversão, como que por necessidade. Dizemo-nos: é preciso falar. Comunicar-se. Porém, enquanto um fala para compreender, outro fala para... Para o outro antes do que a si mesmo.

Destinatário. As ferramentas em conjunção me fazendo confundir autismo com teatro. O som gritando me fazendo ecoar o interior. As partes se chocando e me convidando a se debater: que chato o público prostrado olhando para a gente que virava para trás para jogar de ceder. Que insuportável sua imobilidade. Uma falsa estagnação. Não como a das plantas. Não. Estagnação resignada. Eu sentado na primeira fileira virei para trás, para acompanhar a discussão, eis que um casal envelhecido pelo hábito permaneceu olhando para o palco. Eu ali vivendo a discussão entre as atrizes entre as personagens abraçando o público e os dois espertos mirando o meu rosto e comentando meu choro. Eu não sei se falaram sobre a minha juventude abobalhada ou se reconheceram neles mesmos a sua maturidade estupefata. Sei que num gesto o senhor passou a mão na secura de próprio olho e eu fiz questão de correr do meu ainda mais alegria.

O espaço puxou a atenção por sobre esta platéia tão distinta. E ele é o que é, não precisa recriar novas paredes, não precisa filmar o ângulo da atriz na cena tal específica. Estamos vendo seu rosto, porque mesmo volvido ao céu, o céu do teatro é todo teto, nele o som bate e se multiplica em nós. Pela voz eu senti o aperto do abraço da mãe. Eu não precisei contemplar uma bidimensionalidade feita de luz, porque havia o corpo humano da atriz ali se desfazendo, nos iluminando.



O texto de José Sanchis Sinisterra é extremamente forte. A partir de todo o falatório da Dra. Miriam, vamos construindo os muros que o decorrer do texto se encarrega de quebrar. Primeiro ergue-se o defunto, com brilho e esmero para que diante dele possamos concordar, assegurar nossas certezas. Mas depois, e depois, é por um toque ameno que o edifício despenca. E vemos por entre os escombros o que enfim possa ser a liberdade. Ele fala do autismo dela. Ela fala do autismo nosso. Ela, Íris de Souza - que está em tantas e tantos - nos repete e nos reflete. "Você está tranqüila? Quer que a gente comece agora?”, diz Miriam. “Você está tranqüila. Quer que a gente comece agora. Estou. Estou tranqüila. Quero que a gente comece agora”, diz Íris a nos devolver.

E então as repetições começam a dizer mais do outro do que de si próprio. O que Miriam expõe de seu método é pouco perto do que Iris expõe ao repetir suas indicações, seus freios, suas observações. É estranho, porque nisso coexistem valores distintos. E a nossa tendência é culpar ou livrar o outro. Mas é preciso pausa. É preciso conter a classificação. É preciso ser texto entrecortado por suspiros.  Deixemos então as reticências respirarem. É preciso, de vez em quando, ser monólogo de Lucky em Esperando Godot. Monólogo que de tão claro, de tão genuíno, dá nó na incompreensão. Torna-a pequena diante da nossa inata complexidão. Ao término, aquela que julga é tanto quem julga quanto o ser julgado -  e não adianta passar o batom - porque estamos ali, com a ausculta aberta. Ou talvez, estejam as atrizes com o peito extravazado.

Neste mês de janeiro de 2010, lancei-me a especular sobre a linguagem. Por sorte reencontrei no meio do caminho esta máquina de abraçar. Este engenho que me fala e que me revela o tempo e a intensidade. Esta máquina-espetáculo que sinaliza às existências que precisaram inventar um aparato para controlar o tempo e a intensidade do contato. Máquinas inventadas para suprir a falência da máquina-humana. Para sinalizando este absurdo, tentar nos fazer reconhecer o colapso de nossas próprias engrenagens.

////

A MÁQUINA DE ABRAÇAR
De José Sanchis Sinisterra
Direção de Malu Galli | Com Mariana Lima e Marina Vianna
De 19 de janeiro a 10 de fevereiro de 2010
Terças e quartas às 21h
Teatro do Leblon
     

Persistir na poça


Preciso falar da linguagem.
Mas para não ficar massante
eu uso você, meu amor,
como matéria-prima.


Você que pode ser qualquer um
- e que não é -
Você que provoca em mim
toda e qualquer dor
- inclusive as inventadas -
eu ouso você. Sim.


Para falar da força dos verbos
ponho cada um deles em sua mão
deixo que rodeiem seus traços
e que partindo deles se guiem
rumo a minha muralha
ou seu murro
a sua decepção.
Eu uso você. Sim.
Que mais poderia fazer?


Não se usa a língua para falar da linguagem.
Eu me equivoco.
Pois a língua se usa para aquilo que já não mais concerne a este tempo.
Momento em que resvalo eu - preciso -
por entre adjetos abjetivos
metánoras e metofímias
inconsistentes pois não me trazem você
E pior que isto, tão concreto
aumentam inda mais a rima
nossa louvável indefinição do amor.


Eu queria calar.
Mas tenho medo do que o silêncio é capaz de deter.
Medo dos silêncios que seria capaz de escrever,
usando você como página em branco
para o meu desastre,
Medo dos exemplos que a você eu viria a rimar,
confundindo a rima com um gesto
confundido beijos com o conjugar.


Perdoe-me, eu falho, cansei de falar.

Falho como não houvesse amanhã.
Falo como absurdo primário,
incapaz de se explicar
incapaz de se abster.


Não foi isso que fez você em mim?

A gênese da absurdidade querida?

Essa coisa que só se diz em mim pela sua coisa aqui em coisas já idas?


Eu persisto na perdição. Se já estamos perdidos, ora
então que encontremos nisso
a multiplicação.
  

Eu persito nesta poça.
Vejo nela um reflexo escorrido
Vejo nela escuridão diurna
Nela os seus olhos
dissipados por gota
em mim gerada

Os seus olhos piscando em ondas
se afogando em movimento
para em outro início
terem suas cores alteradas.

É busca sem fim, coração:
Choro enquanto tento enxugar a poça.
   

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Cemitério

De versos nascidos sem pai nem mãe sem princípio nem fim, reverberam ainda mais e mais outros a cada noite a cada dia aqui em mim, sem ir nem vir a você que tanto espero, enfim... Seguem então os nossos destinos mal-traçados, voam todos em ficção duvidosa caminhando sobre fiação perigosa, posto seja capaz de segurar e torcer. Eu listei, eu listei por você, os melhores versos os que diziam mais em menos os que menos disseram, expresso apenas o desespero o destempero em verbos, deixo resvalar enclausurados no bloco de rascunhos, mas por ti, voltam a ti a quem foram originalmente destinados. Receba-os bem são eles a nosso única forma hoje de abraço. E se não quiseres. Nem digo mas se não quiseres. Não. E. E se não quiseres, não posso me privar desta realidade desta fatia que me digere a cada dia, pois e se não quiseres segue adiante segue sorrindo pois logo ali eu sei que vais tombar, como eu agora assim vou indo tombando sem ti tombando por ser menino e acreditar tanto em comunhão encontro amor essas coisas que infelizmente têm nome. Sim. Então você ali na esquina por sobre outro ser que tenha os olhos tristes como estes que você classificou em mim vais tombar. Eu queria tanto te perguntar, se lembra naquele dia, você me via quando me olhou ou lia em meus olhos o que estampado em você estava? Eu não queria ter olhos tristes. Não foi isso o que você me deu. Você me deu alegria. Não tinha porque você dizer que meus olhos eram tristes, porque eles só seus. Só. Eu listei, por você, os melhores versos escolha o que quiser e faça deles, de um deles apenas, faça tatuagem. No peito, alvo deste abraço enfraquecido. Vai, segue a lista dos fetos morridos. Dos fetos hoje destemidos que aqui se mostram sem medo, só putrefação. Mostram as caras na esperança de terem recebido sua mão. E não. Pois estão mortos. Nos conhecemos no outono. Se lembra? Foi justamente quando as coisas começam a morrer que a gente resolveu inventar isso entre a gente. Segue a lista...

"Estou soterrado pelo meu corpo
Soterrado pelos desejos
carrego todos inda dentro
resvalo sóbrio por ti."

"Amanheci deserto
sinto que preciso voltar a dormir
a realidade me condena todo
em suas pequenas coisas


O peito aberto, eu diria
o peito..."


"
pele carimba suor
pele carimba tinta
pele carimba beijo
pele carimba sina


Mas tudo errado!


Não era nada disso
não foi provocação


Foi apenas recreio de palavras
para suprir a falta de recreio
sob o nosso edredon."

"
Quando eu aqui começo a resvalar
me perdendo entre palavras
justamente tentando
algo encontrar


Bom, eu devo talvez lhes dizer
Que nem sempre estou perdido
por vezes mesmo
o que eu quero... Como dizer?


É como se as palavras fugissem e me deixassem só
com você."

"Eu pulo por sobre teu corpo. Que imensidão esta a que me apraz. A que me puxa. A que me faz. Dou-lhe nomes, invento rimas. Em você nenhum dizer meu se perde. Tudo meu em ti se eterniza. És meu tempo, és meu espaço. O meu amor pelo mundo em você eu testo e refaço."

Viste? Fiz tudo meio por você. Sei que não há nada por certo genial. É porque a genialidade não vem sozinha. Vem com a manhã abraçada. Vem com o café-conjugado. A genialidade vem quando o ser se sente uma fração que seja completado. E estar completo, mon amour, só será diante de ti ou da cova. Sem dramas. Sem poesia. Sou todo sinceridade. O tempo está passando. Quando vamos acabar com essa relação colegial-faculdade?

E se não quiseres - com esta relação colegial-faculdade acabar - vai! Usa um destes versos e escreve uma auto-ajuda para pedir ajuda a quem lhe possa ajudar. Escreve um livro de poesias, coloca para rodar. Usa um verso e faz um filme. Usa dois para uma música inventar. Junte todos e comprove a rima. A rima, às vezes, é sina tipo a que se faz à pele. Sina incapaz de despregar. Sina que quando repetitiva é capaz de enlouquecer. É capaz de ficar.
 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Gauche

Parei de lutar comigo mesmo.

Discordamos já o suficiente
eu reconheci meus enganos.
Nós dois paramos de lutar
quem paga a conta
no final da mesma
é o nosso corpo
ainda ele
hoje
gritando feito louco,
todo cheio de razão
corpo todo sentido.

Não quero mais.
Quero aprender a dar as mãos
sem medo da textura
sem receio do cheiro
quero dar-me as mãos
e me levar a um passeio
qualquer
sinto que precisamos deitar a cabeça na grama
e restar apenas
sem mais livros
sem mais cafés
sem nada
nem inclusive pena.

É esse o caminho.
Se lutamos, é claro que
quando soltos no espaço
nada flui pois
se teme o contato
se teme o cuidado
se teme reconhecer
que sim
que sim, somos seres temíveis.

Então,
hoje, agora, faz poucos minutos
quando caminhava até em casa
sentindo o corpo doer
graves e agudos
doer incompreensão
vindo andando eu soube
é preciso
é agora
não pode ser promessa
não é vida privação
mas sim
agora
eternamente agora
comunhão
escuta
mãos-seladas
devoção.

Estou certo, eu sei.
Não estivessem elas não teriam dito o que disseram
Não estivesse eu todo cheio de razão posto esteja sim
todo sentido
não haveria rio cheio de conjugações
não haveria respiro, pausa, nem repetição das ondas
Não haveria ciranda de versos
agora aqui
saltando das minhas mãos
e assumindo prosas bobas
mas sinceras
m ã o s
que enfim
de novo agora
voltam a se abraçar.

Fiquemos juntos. É hora de colar.
    

sábado, 16 de janeiro de 2010

"Aqueles dois"

...ou aqueles quatro.

Não escrevo aqui uma crítica. Escrevo poesia, que se desprende direta do espetáculo teatral que assisti hoje, nesta cidade do Rio de Janeiro, de dois milhões de repartições mas fraca de abraços, cheia de tanta gente e mais cheia ainda de gente olhando para os lados, perdidas no meio da arena, procurando seu contato. Sua condução, seu bonde, dizem uns a metade de sua laranja.

A palavra que vem e vai que volta e fica e que a todo segundo em mim se multiplica é esta mesmo: MULTIPLICAÇÃO. Ação tornada imensa, tornada tornado, multi-implicada, palavra geradora. Do conto de Caio Fernando de curtas páginas, de curtas palavras cheias de alma - sim -, eu o li faz alguns anos, foi em 2006, eu me lembro. Pensei no auge da adolescência que começava a morrer: isso no teatro deve ser incrível. Anos depois, eu preciso dizer: sim, fizeram disso algo incrível. Algo cheio daquela prosa,  algo enchendo aquelas palavras todas, enchendo tudo de verso, de movimento, de caos desordem e aortas expostas: batidas pela intenção.

Eu gosto. Acho aconchegante. Me fez pensar em amêndoas. Flerta a peça com o próprio teatro, diz o ator, falando com o público como se pudesse me enganar, tentando me distrair para o fato de que ele ali é ator quando na verdade é personagem. Quer dizer, diz o ator, tentando flertar com o público a realidade de algo que não é real: mas no qual nos adoramos ainda assim acreditar.

Fica do real o abraço convulsivo. Fica a repartição feita de pedaços já partidos. Fica o chão. Fica a cor, o marrom, o tom velho, o tom madeira, o tom planilha lápis couro café grampo. O tom do violão. Ficam vozes, peitos abertos, contato. Sim, fica improvisação. De um ensaio que hoje, sim, é já fechado. Nisso se vê bem: é precisão alcançada. É resposta automática e não menos viva, não menos forte, é de novo ali durante as apresentações repetição desejada, devotada. Multiplicam-se as palavras... O que eu queria mesmo dizer?

Queria dizer que num dado momento, quando eles estão numa festa, os dois, os quatro, todos nós, enfim... Quando eles estão lá, embriagados de ilusão (do teatro, da bebida, do amor do desejo da paixão - proibição - enfim...), eis que os corpos começam a se esbarrar...


... e me entristeceu que uma das máquinas de escrever tivesse sido pega e colocada em meio ao espaço, destruindo a festa, afastando o encontro dos dois, dos três, dos quatro, cinco, enfim... Afastando outra vez a possibilidade do encontro. Aumentando outra vez mais sua necessidade.

E então inventamos as coisas. Para que foi inventado o saca-rolhas? Oh, não. Não foi para abrir garrafas, foi para fabricar cenários, construir constelações de cortiça. Para encontrar, inventamos os motivos, eu vou tomar um café, eu vou falar do tempo, eu vou dizer Você viu ontem o que passou? O que passou o quê? O filme? Ah, o filme. Sim, o filme. Sim, que filme? Ah... E então nisso trocamos o olhar, trocamos a troca, trocamos o suor, trocamos o tempo, que gastamos juntos. Que bonito. Eles eram quatro porque ser dois hoje é demais. É pouco demais. Ser dois é ponto final, determinação, com dois apenas não se pode dar voz à multidão... E pasmem, a multidão está ansiosa de tanto aguardar por seus abraços adiados (e não somente partidos).

É isso. Não se tem mais braços para segurá-los. Os abraços tombaram feito avalanche, escorreram como lava. Precisam queimar. Por isso os quatro homens ali dispostos, as mãos juntos multiplicaram e cuidaram de encenar esta condição. Ou seja, a nossa. Encenaram os escuros, a claridão, a clareza e o risco confuso cego bruto sobre o branco. A parede preta, a parede abrigo. O Van Gogh ali pendurado. Quantos Van Goghs espalhados, para tentar amenizar a dor de não se ter um pássaro dentro da gaiola-peito. Um pássaro capaz de voar, de se bater, de espernear e sair saindo, sair correndo, sair para gritar... Ou simplesmente cantar. 

Eles não estavam falando do pássaro. Eles não se deram de presente pássaro ou quadro de Van Gogh. Eles se deram atenção. Se deram as mãos. Eu vi. Não havia nada exceto os dois, aqueles quatro, ou cinco, seis, nós todos, nós lá laçados...

E como cantam. Nus, destemidos. Cantam fosse feito festa adolescente dos menino. Assim mesmo, um só tipo, uma mesma vocação. Cantam o óbvio, não se precisa de tradução: tá na cara dá para ver no seu olhar tô fazendo muito falta para você... Impressiona-me o todo, impressiona-me o verbo MULTIPLICAÇÃO. Impressiona-me e muito a sua conjugação, das vozes que se entreolham e se dão base. Das vozes feitas, das pausas, dos risos em nós criados. O sotaque. O mineiro. Nem sei se existiu ou se fui eu que quis ouvir seus lampejos.

Mas não é uma crítica, é respiração. Não é nada exceto a sensação sendo assim aqui lançada. Meus olhos ficaram parados na parede das faces paradas. Parados eles ficaram naqueles olhos vazados, olhos idos, olhos gastados. Olhos, sem dúvida eu sinto eu sei - TRANSTORNADOS, OLHOS ENVERGONHADOS. De olhar para o diferente e fazer consideração. Eu aqui olho para o diferente e considero: assim sejamos então. Capazes de dizer ao outro nem que seja um boa tarde ou bom final de semana ou bom dia, enfim, um sim que seja...


As luminárias prateadas. A dramaturgia toda selada. Um beijo espremido no original. Um Caio incontido, in-habitual. Mas ele ainda assim, ele também multiplicado. Preciso nas preciosidades sem fim, nesse despudor humorizado, nesta melancolia disfarçada em discos, cigarros, cafés e abraços. Nu tempo. Tudo girando, o movimento. O contato, sim, mover faz escutar melhor. Os pés expostos e limpos. O microfone. Tantas coisas porque sim, ama-se até nas coisas mais pequenas. Das boas e ruins ficam todas aqui comigo, guardo-as aqui comigo, todas... São frutos e sementes. São parte da soma, parte da diminuição, são partes parte do mistério da multiplicação, pois que se abraçem, então: aqueles dois milhões de desabraçados. Que se abraçem aqueles dois postes e acendam juntos 2 pares 64, esquentando ali a face, desenhando o  risco, o riso malicioso de quem experimentou a droga da desobediência e vive ainda para contar seu gosto.
  
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Cia Luna Lunera
AQUELES DOIS
Do conto de Caio Fernando Abreu
De 8 de janeiro a 28 de fevereiro de 2010.
De quarta a domingo, às 19h30;
Centro Cultural Banco do Brasil - Teatro III
     

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

V I L

deus morto,
a poesia é como ti agora
degenerada infeliz imprópria
mas cheia de aura
rebelde por atenção.

meu deus,
eu não passo de egoísmo
de um eixo que se abraça
pedindo ao mundo
sua legitimação.

mas não,
não sou eu apenas deus
somos todos nós
infelizes aguardentes
deste tormento.

não sou eu apenas,
você que me lê
ela que aqui me vigia
ele que-me abomina
procuram em vão

também seu centro
seu eixo
seu recreio
convento
das rimas.

o meu egoísmo
se assemelha a ti
porque assim somos
na vã tentativa
de não solidificar,

de não sobrar
de nem suprir
nem firmar
sozinhos por nós nos apaixonamo-nos
sem parar,

sem fim
eu por mim
você por ti
cada qual vendo nessa pele-espelho
a fruta-flor-desejo:

identidade
individuação
eu tu ele nós
nós não
vós

eles lá partindo

seres sempre indo
para onde minhas estrofes
parecem não ter versos
para alcançar:

quero abraçar o mundo
mas minha rima não é livre
e o mundo
é mais vulto hoje do que se poderia
poetizar.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Escuta,

Quais versos ainda me restam escrever
Se os mais injustos e sujos e verdadeiros
Eu já ousei dizer?

Quais versos me restam escrever
Se todos aqueles que deveriam
esperar pelo nascer
Já por mim foram paridos
Sem pai nem mãe
Sem merecer?

Quais versos me restam
Se todos os outros
São linhas miúdas
Dentre as quais não me posso ver
Ou se vejo
Não me ouso reconhecer?

Quais versos?
Se quem julga a existência
Sou eu que mudo a cada dia
Sou eu que faço e desfazendo
Marco nos nós do tempo
A minha cor e do meu jeito
O meu tormento,
Quais versos eu ouso,
Novamente,
Refazer?
 

Teoria da Natalidade

 
Deseja-se aqui investigar princípios que regem ou que possam reger o nascimento de filhos. Mais que isso, o nascimento incessante de crianças, infantes, pequenos, meninos, meninas, garotos, moças, pobres, infelizes, coisas miúdas, vida sob forma e tamanho impraticável, ainda. Deseja-se aqui investigar sua fundamentação social e sua repercussão através do tempo. O que significa, neste momento, ter filhos no Brasil? O que significa, neste calor, povoar o mesmo mundo com mais e mais crianças? Este pequeno estudo se propõe de forma equivocada ou não a especular possibilidades, especular poeticidades, respostas, dúvidas, certezas, abismos sobre o assunto em questão.

Da Natalidade
Confunde-se muito normalmente o termo natalidade com o termo natal. Não há ontologicamente aproximações, o que não quer dizer que no natal não se procrie, muito pelo o contrário, já que o fenômeno de trazer ao mundo pequenos seres é geralmente a saída duvidosa encontrada por muitos casais para se presentearem mutuamente sem o gasto de sequer uma camisinha. Em pesquisa recente, diagnosticou-se que inúmeros são os casais que optam por gastar ao menos uma camisinha, seguindo a cartilha do governo federal, que as distribui com qualidade e em quantidade. Camisinha esta, elabora o jovem casal, previamente perfurada, para que possa trazer assim a surpresa de uma criança nela embrulhada. É assim, muitas vezes, que o destino premia almas humanas carentes de afeto e encontro com presentes únicos e especiais.

Da Prole
As crianças nascidas dizem respeito direto ao tempo no qual foram ao mundo despejadas. São crianças-contexto. São fluxo desse momento, menstruação do tempo. São formas germinadas, sorteadas, uns diriam selecionadas, deste segundo que acabou de morrer. Logo, nascem todas morrendo. E a cada década nos aproximamos mais e mais dessa lógica, deste entendimento filosófico que hoje caminha quase de mãos dadas com o homem mais taciturno e torpe: sim, nascemos morrendo. E morrer, ao contrário do que se mostra nas novelas, faz parte da vida. Viver é morrer. Morrer é viver. São caminhos que se comunicam, braços que se abraçam. São, ponto.

Das crianças nascidas, naturalmente, nascem perdidas. Sentindo o ar ao seu redor, o gás carbônico, sentindo o suor dos pais e tios. E como há tios, num reflexo direto de como há pais reprimidos, cujos filhos nascem todas as noites quando se deitam ao travesseiro os pais que no dia seguinte afastam de si essa possibilidade esse medo. É difícil, em recente pesquisa também se comprovou como possíveis mães e pais temem pelo destino de seus filhos neste mundo. Quando entrevistada, a transeunte Ana Teresa Alfradique, de 27 anos, disse categórica: O que se faz com um filho no meio desse mundo caindo aos pedaços?! Não soubemos responder, no entanto, buscando teóricos que especulam sobre o assunto, encontramos uma leitura mais aprofundada que parece situar a gênese desse medo. Walmir Marceau, filósofo e psicanalista francês, residente em Madri, afirma em seu controverso tratado Ilhas e Filhos, que não se percebe com facilidade, mas novas crianças, estes tais filhos que hoje se teme tanto em lançar ao mundo, são as peças necessárias para efetivar o futuro. É como se pensássemos: quem terá força para carregar o concreto, quem terá vitalidade para erguer o muro da civilização, para destruir o muro da mesma quando se tornar necessário?

Uma Abordagem Solar
Pesquisa realizada numa instituição de ensino de 2º grau no Rio de Janeiro coletou opiniões de 247 jovens, entre os 15 e 17 anos. A proposta foi solicitar a eles um motivo que justificasse o nascimento de uma criança levando em consideração o mundo presente. Dentre as respostas, quase sempre muito criativas, uma porcentagem de 38% dos jovens fez referência ao clima, mais precisamente ao calor, muitos consideraram "um crime" colocar uma criança num mundo deste jeito. Outros 19% acreditam que o mundo já está muito cheio para se colocar nele mais crianças. Uma parcela considerável de 7% faz referência à adoção, afirmando haver muitas crianças precisando de novos pais. E, por último, pode-se dizer que cerca de 3% questionou a pesquisa a partir do incômodo de se ter que ter um motivo para trazer uma criança ao mundo.

Esse tipo de pesquisa nos abre revelações sem precedentes. Em primeiro lugar, novas pesquisas estão sendo elaboradas, para tentar avaliar onde tais jovens se inserem nesta conjuntura atual do mundo, conforme muitos disseram. Sentem-se parte dele, sentem-se responsáveis, capazes de interferir no clima, no caos? Ou não, sentem-se já fadados ao fim, como se prenuncia em muitas falas? Além disso, busca-se um cruzamento da taxa de natalidade com a sexualidade. Isso é fator que interfere na paternidade/maternidade? De certa forma, parece salutar a possibilidade da adoção. E mais ainda, o desprendimento ambíguo, de certa forma, com que os jovens se opuseram à necessidade de um motivo. Isso denota num primeiro momento o desapego à tradição - principalmente religiosa - em nosso país, ao passo que também pontua o que poderia ser lido como leviandade.

Da Angústia Freudiana
Há uma corrente de pensadores que desenvolvem já há algumas décadas, uma relativização da idéia de paternidade e prole. Em muitos casos, o que se apresenta são novas possibilidades para o mesmo. Ou seja, especulam-se tipos outros de filhos, produções outras que sejam concretas, mas que não necessariamente impliquem no nascimento de uma espécie humana. Em muitos casos a referência principal diz respeito à produção artística, que parece lidar de forma extremamente positiva com a angústia do pai ferido. Por vezes o medo, o receio em se ter filhos, multiplica-se em estímulo para produções artísticas que se tornam ou mesmo já se tornaram emblemáticas em muitos países, por seletos artistas. Ainda é cedo para dizer, mas o que poderia ser a superação de uma angústia paterna talvez esteja se comportando mais como uma transferência - a citar Lacan - pela qual o homem passa para outro objeto, para outra realização, a incapacidade daquela existência primordial e, no caso, considerada utópica, impossível de se atingir.
 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Carta ao Filho deste Tempo

   

Filho,


o tempo está passando, não sei bem como te dizer isso. Você já deve ter percebido, ou seus irmãos em breve vão lhe falar, mas o papai escreve as surpresas sem perceber que as entregou de fato. Então, só depois vai sofrer dentro do banheiro, por ter dito tudo o que disse, sem ter percebido como atrocidade o ato já feito. Da desmedida. Hoje amanhaceu nublado em nossa casa. É tudo culpa do calor. Eles vão perguntar, vão reclamar, pedir explicações como se você que agora chega, pudesse de tudo saber. Mas eu não sei. Diga isso a eles, assim, dessa forma, nessa ordem, Eu não sei. Eu sei que vocês todos ficam angustiados, quando eu começo a me maltratar desse jeito. Tento me lembrar de mim, quando pequeno, tento lembrar se eu me preocupava assim com meus pais, mas não me lembro. Acho isso bonito, mas isso também se vai com o tempo. Assim como a minha saúde. Não. Não vou dizer nada sobre ela. O que ela tem, como ela vive, isso é coisa dela. Eu sou peça, não sou destino. Sou pedaço, nem sequer sou destino. Por isso, não tentem me copiar. Olhem sim para o pai de vocês, mas a tempo de discordar. Nem tudo nele é assim tão perfeito. Ele deixa os outros falando sozinho. Ele tem cisma com certas coisas estranhas. Papai abomina o fogão, papai gosta de aranhas. Sim, meus filhos. Encontrem - por favor - seus pretextos para me odiar. A dor será menor quando eu me for, por isso aos poucos me deixem de amar. E é certo, já os disse noutro tempo, é certo que vamos nós todos um dia nos separar. E quem sabe no dia seguinte já numa caixa nos reunirão. Mas nada é tão certo quanto o fim. E se digo isso. É porque vocês a isso me levaram a dizer. Eu conheço essas mãos pequenas, esses batimentos, conheço o esconderijo dos olhos, deduzo o descontentamento, a saliva amarga, o peito rangindo... Não se culpem. Não há nada de errado. Papai escreve por vocês. Eu escrevo por vocês, meus queridos. Por vocês então eu vejo quanto cabelo mal cortado. As unhas sujas de quintal. Eu queria que vocês soubessem que não há chuva possível para limpá-los todos. E queria que achassem que os quero limpos, sempre, quando na verdade, neste agora, a sujeira é tão minha filha quanto irmã de vocês. Filhos, o papai está se perdendo com estranha facilidade. Domem os ânimos. Nos veremos na ceia, mais tarde. Durante o dia, deixe-me perder. Sem sua guia, sem vossa exaltação. Deixe-me restar para à noite, quando juntos, papai enfim poder dizer: o dia foi isso aquilo e então, outro irmão brindará a nós, a vocês. Que estranha obsessão a nossa. Não me peçam explicações. Não me peçam nada porque eu lhes faço tudo aquilo que lhes digo não. Portanto, deixe-me ir... Tenho dores no corpo, dores nos pés, nas pernas... Muitas dores também me invadem o coração, o peito, alguma região por aqui onde dizem tombar o amor. Vocês conhecem? Reconhecem-se? Sabem onde ele está? Não há mais o que falar. Se quiserem saber sobre mim, vasculhem entre vocês próprios. Os últimos irmãos recém-nascidos, mesmo sem parecer, saberão lhes falar. Até breve. Não conseguimos ficar muito tempo ao longe. Mas preciso sair. Preciso curar, ficar bruto, chorar e secar e voltar. Vou comprar panetone para nossa casa. Quando eu voltar, eu prometo a vocês, que alguma coisa bem querida para nós vou trazer... Não sei ao certo ainda o que, mas trago, trago um cigarro, trago um causo, uma causa, um bom pretexto para durar ao vosso lado. Amo-vos, mas me dôo todo, como faço? Não respondam. Não tentem responder. Quando assim eu me perco já não só de mim, mas me perco da beleza que um dia já vi em cada um dos pequenos que hoje perduram, sem sentido, sem explicação, sem mim, enfim, eu vou, mas para voltar...
  

domingo, 10 de janeiro de 2010

Verso Branco

Olha,
um verso cruzou meu olhar no meio da multidão.

Na multidão dos versos acostumados
um todo em branco me fitou.
Eu não o saberia descrever,
era branco
era bronco
era algo impossível
por isso eu o fui
tentar compreender,

E o li de imediato:
Nas ruivas curvas
no óbvio maculado
por um sorriso esperto
sorriso todo desejado
todo se querendo romance
todo se querendo ser amado,
eu fui ágil,

Ágil no seu entender.
Em como lidei com ele quando este veio até mim
já todo aberto
como fosse tão belo como o próprio amanhecer.

E era.

Mas não agora.
Não o posso querer.
Lá em casa as rimas são tão precisas
que você me cheira à confusão
você cheira ao corte
à curtição
você cheira ao erro
e eu gosto - eu gosto! - como não?!
mas é que hoje lá em casa hoje não.

E voltei.
Pensando, sem parar.
Como poderia um verso assim
todo bobo
ser capaz de me aprisionar.
Um verso bobo branco bronco
bordado em leveza incontida
ser tão profano
tão profundo
tão armadilha
indo a me guiar sozinho nele
dentro do ônibus pensando.

Assim mesmo, todo enrolado.

Voltei no caminho perdido
sob o sol sobre mim autoritário
e eu me dizendo
foi preciso
eu me dizendo algo que pudesse valer o fato
de lá ter deixado o verso semi-jogado
sem cuidado
sem carinho
sem estrofe de abraços
sem ponto nem de exclamação
nem reticências
nem obituário
no vazio
nu, vazio
sem nada
sem nem mim
sem nem tinta que o fizesse
de novo
página em branco.

Acho que o deixei corado.

E a palidez dessa minha cara amanheceu borrada,
a desejo de menino
desejo bobo
mas distinto.

Porque verso branco rima com todo o mundo.
É verso ágil, verso profano
namora o sujo
tão pleno de gelo
verso-morada do desespero!

E o verso branco hoje se fez necessário
logo hoje quando eu choro o amor
em versos já repetidos
em leites já derramados
e mesmo agora eu assim tão vivo
eu assim tão novo
e cheio desta rima
e cheio desta sina
e mesmo agora assim eu sou ser incapaz de saciar

Porque verso branco não rima
nem estabelece medida
ele apenas flerta com o que há
e o que há nas esquinas
é hoje legião de meninos
é legião de meninas

Flerta então verso branco
porque esta é também minha sina
aquela que o mundo faz questão de multiplicar
a cada rima
a cada esquina
a cada novo e derradeiro olhar
piscado.
        

Luta Vã

Não quero mais confundir você com um verso qualquer.

Queria se possível ao invés de dizer você
- carimbar aqui o seu nome -
dando fim ao jogo da metáfora
classificar para assinar este corpo
para assinar como perdida a chance de escapar
Assassinar este corpo pela fala
e que ela seja assim capaz de em mim te assegurar.

Mas sei, sei que assim aumentaria a fome
A fome de alguma coisa que talvez só exista aqui em mim
- sim -
coisa perdida em sentenças esquálidas
coisa aqui em versos maltratada
como fossem versos tiros cegos
cegos mas certeiros
viciados persistentes nesse mesmo rumo meu
recorrente roteiro ao transtorno s/eu.

Então vou eu me superar.
Dizer a mim que não vou fazer
- que não vou fazer -
mas tudo isso para me subjulgar e perceber
que isso que faço agora já nem é por mim,
perceba,
mas outra vez por você.

Por isso não quero mais.
Não quero mais escrever que amo as rimas,
pois rima foi esconderijo para abraçar o seu corpo.
Não quero aglomerar palavras parecidas
quando na verdade
tentava reunir o seu gosto.
Nem mais refazer ruídos que no papel
parecem interjeições sem jeito - não não quero!

Porque dizer toda vez que me dói quando as palavras se vão
é me enganar para não expor que na verdade
o que me dói mesmo
é mais a falta de um beijo seu aqui em mim perdido
vagando alto nesta minha vaga imensidão...

Não mais. Sim. Você bem vê.
De palavras eu me farto.
Nas palavras eu me perco
e já perdido de ti
inda me vago mais ao perceber
que as palavras são a única coisa palpável
entre nós (eu e você).

Foi o nó que nos aprisionou.
É o que nos une
É o que nos faz
nem tanto assim um ao outro
ausente ser.

Pois quando assim somos
ou quando assim tu és e eu de cá também vou ser,
me volto a dizer que a metáfora deve morrer
vivo dizendo a mim e a quem aqui me lê
que a culpa é do verbo
que ela está nos versos
que se alternam em profunda agitação
e assim me fazem dizer você
sem saber,

como se faz para ter você aqui comigo e poder, enfim,
me privar de te escrever.
    

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Autoria do Aleatório ou...

ALEAUTORIA

Tem a ver com pôr em cena, em palavras, em gestos ações movimentos, formas que não foram previstas, conteúdos que surgiram, chegando de surpresa e nos surpreendendo, a princípio. A autoria do aleatório visa atingir novas chegadas. Visa oxigenar a mesma estrada. Estamos fazendo mais uma vez um mesmo igual caminho, no entanto, se brincarmos nele, lá na frente ele poderá ser algo mais obtuso, algo até escuso, belo e confuso, mais até poético, algo até mais trágico, comum, seguro. Ser mosaico de ruídos.


Percorrer outros caminhos. Inventar o cotidiano pelo fazer, como tão bem desenvolve o historiador Michel de Certeau em A Invenção do Cotidiano. Ir pelas mesmas ruas até cair dentro de um beco nunca visto. Olhar para o inusitado e o deitar em nosso colo, aceitando de antemão o seu risco. O seu fascínio, sua provável perdição. Não desprezar, aceitar de antemão. Aceitar os infortúnios, neles se esbaldar. Fazer arte, ora, deve ser isso. Queremos, nós o público, ver como você faz aquilo. Nem tanto mais ouvir sua ladainha, nem tanto mais saber se você ri ou se chora. Eu quero ver o seu como, o seu desenrolar. Nós ali sentados queremos ver se você é capaz de administrar seus passos sem tropeçar. Mas! Se por acaso tombares, queremos que seja sincero conosco e diga, Gente, eu tombei. Vocês podem rir, eu não vou chorar. E chorar logo em seguida, porque se fez necessário o choro e ninguém dele poderia suspeitar, porque é mesmo imprevisível o teor da próxima esquina.

O teor da próxima esquina, da próxima cena, próxima página, é sempre algo incapaz de prever, de dizer, de desenhar, de assegurar a você. Por isso aleautorizamos o que vier. Pelo diferente nós tentaremos assegurar não aquilo que é, mas aquilo que possa ser.

Autoria. Do Ator, do Autor. Atorial. Autoria em todo o tempo, por isso também atemporal. O tempo está fora do esquema. Autoria do aleatório, aleautoria, algo quase marginal. Acaso. Capaz de se gerar pela gota da chuva que pingou no seu chapéu e que você sequer percebeu. E tudo seguiu e outra dramaturgia disso nasceu.

É como se selecionássemos o caminho da chuva. Nossa dramaturgia é o caminho desta gota que acabou de cair. Que caiu no casaco da moça, que entrou o prédio correndo. Casaco de plástico nele a gota desliza ao sabor do vento. A moça pede licença, as pessoas tumultuando o corredor não dispersam, ela empurra. Nisso a gota esbarra no casaco felpudo escuro de um senhor. A moça então segue seguindo. A gota, porém, agora partida fica e vai indo: parte vertiginosa no casaco plástico da menina e parte adentrando o corpo do senhor, encontrando o suor, sua doença, seu calor já tão esfriado. A gota lá na frente chega dentro de um banheiro. A moça retira o casaco e o sacode. Foi parar na parede. Ali agora vai escorrendo, vendo os rostos, depois os pescoços. Depois segue vendo seios colos sexos pernas e por fim, uma bota, da moça outra que a parede toca, metendo a galocha onde deveria apenas ser parede. A gota ali na parede vai seguindo, pisando agora colada à galocha, chãos novos, se perdendo aos poucos pelo caminho. Mas inda persistente no senhor, pois tendo sua pele conhecido, a gota agora vai sentindo o tempo nele ali armazenado... Confunde-se com seu suor, fica maior ao ganhar outro destino...

Poderíamos seguir as gotas e nos surpreender com o seu acaso impregnado. Poderíamos seguir qualquer coisa que não o nosso raciocínio velado. Por isso então vamos seguindo, improvisando ao vento, tentando dizer o mesmo só que noutro tempo, por outra língua. Vamos deixar o improvável – a vida – nos avassalar. Vamos abrir os poros e deixar ela nos ocupar.
     

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Teclas para que - te - quero

Eu aqui me sentarei
diante destas teclas
mais uma
mais outra vez

Diante delas vou me olhar
e vou me sentir
diria eu agora
neste contexto em que me encontro
que vou me auscultar

É o sentido que essas teclam em mim imprimem
É o sentido pelo qual eu me deixo guiar
E é bom
é preciso

Desço a primeira mão
A outra prestes a romper a inação
que estranha articulação do corpo
que se comunica mais pelo sim
do que pelo não

A primeira mão descida
A outra dançando um tango destemida
que estranha articulação meu corpo comunica
ao tentar me dizer

Mas pelo sim
pelo toque
seremos nós capazes de ser
ser o que vier
ser o que já foi
O corpo se articula agora mas para o antes
nunca para o depois

Nunca para o fim.

O corpo hoje se articula para se preservar
retido na vã tentação de durar o segundo
que morre tão breve quanto se faça noite em dia

Esperamos com as mãos no ar
Esperamos a intuição voltar
nisso
resvalam os dedos e nisso faço o preciso
Não pode haver em mim outra sinceridade que não a da confusão
Dar forma ao eterno luto
dar forma à descontração
é dar forma ao inevitável
dar forma a minha esta condição
de ser humano
de ser amando
de ser, agora, só mesmo eu sobre este piano

réquiem
ligeira canção do desapego
ligeira sonata do desespero
pero, música também aos olvidos
música aos olhos secos
ao coração ressequido
música a música
para desentupir artérias
desembaraçar as linhas
e marcar bem o ritmo
do corpo
da obra
da busca
o destino

música para escrever ao vento
o caminho da perdição querida.

Toca um piano para mim?
Eu te peço, mais uma vez
em toda e qualquer esquina dessa ida.
 

Desmanche-me

Tão cedo para decepções.


Mas não dura tanto quanto o esforço
Eu risco sento me concentro e formo
mas não dura tanto quanto aqui dentro


Cedo para se decepcionar
cedo para descobrir tudo em vão
mas se ergo a mão
e a coloco aqui sobre as letras dispostas
o suor escorre o corpo e indica que a poesia que vem
deverá nascer
sem dúvida
alguma
torta


Sabe? imprecisa
precisando se possível de alvo
de mira
mais concreta do que esta
destinada a você


mais uma vez a poesia vai degringolando e eu vou me perdendo de você
se falta um bjo um abraço eu vou sentar aqui de noite
e o reflexo se faz exato
onde haveria consoante haverá um buraco
uma falta de atenção
as vírgulas rompendo o fluxo,
as, vírgulas, assinalando a confusão


,mais outra vez eu aqui tentando reter
esta presença tua que já não se faz
,que ,me ,deixou ,ao ,amanhacer


a poesia então coitada
nasce mal conjugada
nasce infeliz
destinada ao fim
destinada a criar
outra vez mais
uma pedra em mim
pedra de mim
impasse impossível de se trapacear


e dói porque é cedo
era cedo
cedo seria para isso presenciar
para descobrir no amor
no sentimento sentido
essas esquinas doídas
esses disparates
todos ruídos.


dói, é certo
dói protesto
mas como?
se a ordem das coisas se perdeu
como se a beleza que eu tinha
em você permaneceu
e eu me descobri só amando sozinho
eu me descobri só amando sozinho


paro.
a droga me salvará
mentira não vai
eu sei
ela só pode me desvirtuar
fazendo olhar para tudo com olhar de encantamento
olhar para este pequeno inferno
e acreditar
nas calhas da desilusão
quer corre por entre estes vagos
espaços
que corre
encontro
que corre
possibilidade
que correm
nossas mãos
unidas,


deixa eu chorar
deixa eu chorar
não olhem
virem para lá
virem para cá
não
para lá
não olhem
deixem meu íntimo se descobrir só
ele se anula toda vez que vê um sinal aqui de vocês
toda vez que acha que alguém o vê
quando na verdade
entraram aqui
para se verem
onde agora
não mais estou eu
porque fui doer.
porque fui doer.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Páginas em branco...

Ou. 8 estrofes de 4. Ou. Coisas das quais se pode criar. Ou. Coisas das quais se pode criar-te. Ou. Das quais coisas se pode criar arte. Ou. Artes das quais te posso criar coisas. Ou. 8 vezes 4 dá 32.

*
palcocéu
telamalha
sedapiano
pandeirosala
*
quadromesa
madeiraflauta
cerâmicaarame
fiosestrada
*
ovosgiz
farinhaestrela
aortacaneta
brimespera
*
linóleopele
portaesfera
tijolocimento
tintaameba
*
fornofermento
paletacor
amanhãverde
rodacobertor
*
vermelhopluma
pretoparte
pitangauva
pernastart
*
folhabraço
muromão
cabeloguardanapo
turnocolchão
*
cadernocristo
pistarumo
traçorisco
ontemfluxo
*

O primeiro visitante do blog que aqui entrar e quiser escolher um dos 32 versos acima, manifeste-o nos comentários, pois ele será base para uma postagem seguinte.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Mãe, quero ser escritor.

Estou escrevendo uma peça de teatro. Neste momento, parei um pouco, abri o blog e vim ver se algumas palavras poderiam ser reaproveitadas. Uma peça sobre um relacionamento a três, sobre um triângulo amoroso. Algo óbvio talvez. Mas qual é o problema com a obviedade? Talvez um problema de escrita. Este "b" mudo dá um nó, mas é tão charmoso... Enfim, eu dizia sobre a peça de teatro. Aí estava escrevendo um longo solilóquio, de uma fulana inventada, chamada Sabrina. Coitada, autosuficiente, mas apaixonada, ou seja, estrepada. Ele começa a falar num dado momento:

Sabrina – Quando eu conheci o Marcelo. [PÁRA]. Quem é Sabrina e quem é Marcelo se não eu e você? Se não você e eu? {SEGUE}.
Eu escrevendo uma peça sobre um triângulo amoroso. Haja amor vivido para sustentar essa ficção. Haja vida corrente para se aproveitar da mesma. Tudo nela é mais lindo, tudo é quase sempre mais indo do que foi. Eu escrevo a peça para o quê? Para me recriar e um dia poder dizer, aprendi a escrever. Ou escrever para um dia dizer, olha, eu não amei tão bem assim.

Entrei no blog para reciclar sentidos, para remodelar sentimentos. Aquele ódio todo que senti naquele dia, agora quem sabe, na peça, pode ser outro sentimento. E alguém na platéia poderá rir, de todo esse amor invertido que eu destinei a ti. Aquele tesão todo incontido. Bom, farei com que dure mais do que nossos gemidos. Sim, gente, é sério. Ele vai virar o monólogo desesperado de um personagem à beira do precipício. Isso me faz pensar que a minha vida não foi tão inútil como me parece a princípio. Isso não é tão verdadeiro assim. Mas talvez seja. Visto que escrevo diante de você. Eu posso me aproveitar disso e sofrer. E me erguer. E me estrangular sob ti. A ti. Eu sempre escrevo endereçado a você. Que merda. Você deve ser melhor e maior que Jesus Cristo (quem não é?). Isso você é. Eu escrevi treze bíblias por você. Você consome a minha vida e atenção desde quando abri o Word, há uns cinco anos atrás (em 2005) e me disse, mãe, quero ser escritor.

E agora você surgiu na minha vida. E agora você aqui se ampliou. A verdade que antes eu inventava, agora tem corpo, ela tem cor. Eu não sei mais ficcionalizar o que em mim ainda parece ser ficção. Eu não fui criado nisso, eu nunca falei muito com meu coração. Palavras interrompem a procissão! EU TENTANDO SER FIEL AO QUE ESCREVO E VEM A RIMA PUXANDO O CORAÇÃO NUMA DAS MÃOS! O que o coração tem a ver com essa história toda?! Não bastasse amor ser do verbo amar que termina com ar e faz tudo com ar rimar; E AINDA INVENTARAM O CORAÇÃO. Que termina em final canção e cola em tudo que lança ao infinito e que em seguida puxa ao chão. Não! Coração rima com não! Amor com dor! Que estranha combinação, sim?

E vem o sim, assim desse jeito, e me assegura que o mistério está na jogação. O sim é a palavra mais promíscua que tive o prazer de conhecer. Depois de estar com ele, oh sim!, tudo na vida começou a acontecer. Para o bem e para o mal. É jogar o corpo já sem nem esperar pela respiração. Não quero saber. Eu digo sim e de tanto sim dizer, você se multiplica e já pode ser tudo aquilo que eu não saberia descrever. Os verbos se multiplicam, adjetivos em confraternização. Por você, sim, criamos uma nova gramática da construção.

Tudo bobeira. Tudo falta de ocupação. Falta de peito que abrigue o peito. Falta de olhos que espelhem o olhar. Tudo é falta de alguma coisa que nos impeça o faltar. E quando faltares, esta súplica ao não-faltar, nós todos saberemos que ainda assim nos será possível saltar... Como quem não perde nada... Como quem está perdido. Como quem é ser amado, e por ser amado, leia-se ser ser mor... ido.