pesquise no blog

domingo, 31 de janeiro de 2010

Esgoto

Ela fez cara de que não tinha nada a dizer. Absolutamente nada. Mas ele não acreditou e continuou mirando seu olhar. Ela parecia aborrecida, cansada, triste, mas ele nela insistia. O que havia perguntado, ela pensava, não era possível de se responder? Quem inventou a interrogação? Ela respondeu. Com uma pergunta? Você vai me responder uma pergunta com uma pergunta? É só isso que tenho. Pois eu prefiro então o seu silêncio. Ela fechou os olhos. Ele encostou-se à parede e continuou a mirar seu destino.
Quer que eu repita? Não. Quer que eu te traga água? Não, obrigada. Nada vai adiantar. É tão difícil assim responder? Se fosse fácil eu já teria dito. Nosso diálogo está falido, a gente não sabe mais se falar. É que depois de um tempo o tema do assunto vicia e a gente só sabe disso falar. Você é narcisista, ela afirmou. Por isso eu preciso de você. Olha para mim. Desencostou-se da parede e foi com as duas mãos lhe segurar o rosto.
Você é tão bonita. Quando brava, então, ainda mais me encanta. Não fala em encanto, não fale desse jeito. Isso me distancia e eu queria tanto ter motivos para poder te segurar aqui comigo, mas está doendo. Foi por causa da pergunta? Foi por causa das causas. Quem inventou isso? Quem disse que tínhamos que ter? Por que você não pode percorrer o meu corpo brincando com os pêlos apenas, por que você cisma em ter que entender? Eu não sou literatura, eu não sou receita, nem bula, não sou livro... Eu estou aqui, quase nua, eu sou isso, eu sou isso.
Você é linda. Não quero ser. Quero que as palavras se apaguem. Quero cancelar o silêncio e ser música. Não aguento mais ter nome para dizer isso que você diz ser amor enquanto para mim é angústia. Eu não quero que tenhamos vários nomes para dizer uma mesma coisa. Eu não quero porque se o seu nome é mais popular, isso me faz parecer que a minha angústia é pouca coisa. E não é. Eu estou doente.
Do nosso amor? Doente. Doente pedindo pelo tempo pelo próprio fim. Você não me ama, é isso? Amor não tem fim. Então você me ama? Eu te abomino eu te dezprezo eu quero te morder lamber seu corpo tudo isso sem ter que dizer quero eu te lamber eu te morder seu desprezo te abomino eu corpo. Não funciona. Não mesmo. E como a gente fica? A gente fica como a gente fica. Assim? Assim, vagando, batendo um no outro até sem mais fim.
Você me ama? Eu te amo, sim. Agora me diz, o que isso significa? Eu não sei dizer. Tente. Não sei. Tente, anda, me diz, o que significa eu amar você. Eu não sei, eu não quero saber. Como não? Você havia me perguntado, eu acabei de te responder: eu te amo e agora? Me devolve, me diz, para de falar só sobre você. Eu te exigo eu quero saber: eu te amo sim e o que isso significa?
Ele fez cara de que não tinha nada a dizer. Absolutamente nada. Mas ela não acreditou e continuou mirando seu olhar. Ele parecia aborrecido, cansado, triste, mas ela nele insistia. O que havia perguntado, ele pensava, não era possível de se responder? Quem inventou a interrogação? Ele respondeu. Com uma pergunta? Você vai me responder uma pergunta com uma pergunta? É só isso que tenho. Pois eu prefiro então o seu silêncio. Ele fechou os olhos. Ela encostou-se a ele. E, juntos, suaram até embaçar o destino.

2 comentários:

Larissa Rodrigues disse...

Puxa... Eu quero escrever que nem você quando eu crescer, moço. Eu tive de dizer isso. É lindo!

Diogo Liberano disse...

poxa, larissa
obrigado! continue ligada aqui
fevereiro vai começar e eu vou ter q inventar um novo tema..
tem alguma sugestão?
abraços,
diogo

Postar um comentário