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sábado, 17 de fevereiro de 2018

um tornado fiapo possível


NOVO – Você está brava comigo?
ANTIGA – Estou cansada. De tudo. Só isso. Tudo.
NOVO – Talvez a gente pudesse sair um dia desses...
ANTIGA – Para quê?
NOVO – Dançar. Se divertir. Descontrair.
ANTIGA – Não sei dançar.
NOVO – Também não.
ANTIGA – Sei beber.
NOVO – Viu? Você pode me ensinar. Sou meio fraco nisso.
ANTIGA – Beber. Tomar um negocinho.
NOVO – Droga? Para quê?
ANTIGA – Para sentir que eu sou feliz. Ao menos um pouco.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Pouco. Muito. Indiferente.

Haveria tanto a se preocupar.
Nem dizemos mais "culpa".
O que nos resta hoje é tudo responsabilidade.

Tanto a ser feito
que o já realizado desmancha
como se nada tivesse sido.

Nada foi pouco até aqui
mas o adiante é tão muito
que tudo soa pequeno e impossível.

Por isso o cansaço extremo
a impaciência como ordem dos dias
por isso o isto o aquilo e o ademais.

Por muito pouco tudo morreria
por quase nada uma explosão
catalisaria a desistência nos outros e nas coisas todas.

Haveria alguma indiferença
que me permitisse continuar
sem essa dívida?

De culpa à responsabilidade
de responsabilidade ao cansaço
do cansaço rumo aonde?

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

moendo-se

Há alguma perturbação na minha alma. Só pode ser lá, nela. Só pode ser. Tento encontrar de onde viria esse desassossego e nada. Procuro mesmo. Eu me vasculho. Deixo o “eu” de fora e remexo tudo, corpo, memória, os objetos que trago comigo em minha mochila nova e nada. Simplesmente nada.

Alma se toca? Alma tem corpo? Não encontro. Só pode estar nela essa impaciência e essa irritação que segue moendo-me no correr dos dias.


Eu não vou ficar louco. Ou normal. Eu não tenho como seguir a ordem do dia. Sou todo desordenado.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Ouve comigo

Essa música
rude, talvez
Essa canção
mole, é provável
Ouve comigo
eu te peço

Isso que toca é o peso do seu sorriso
afundando meu coração

Ouve
Ouve só
comigo
Ouve o que acontece
quando assim desavisado
a gente se deixa levar
pelo jeito do outro
que nem sequer
estava andando lado a lado

E agora está
agora está

Ouve
você ouve?

Está tocando.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

para sempre aprendiz nisso

E assim, subitamente, um corpo brota e elogia o do outro. Parecia impossível que isso acontecesse um dia. Alguém que mirando o seu corpo desnudo pudesse dizer novamente: como você é bonito.

Você nem reage. Desaprendeu a responder carícias. Você se esforça tamanha a insistência dos elogios. Agradece. Diz o mesmo sobre o corpo que te elogia. Não por dizer, mas porque também se sente bem em com ele estar assim tão reunido.

Vocês produzem calor juntos. Calorzinho bom. É uma graça.

No entanto, após tanto ser ferido e se ferir amando, a cautela no amor é o seu maior abrigo. Você vai sem sede ao peito, lambe com cuidado os mamilos. Sabe que nada precisa ser engolido por inteiro. Nem mesmo o pênis.

Na noite seguinte, sozinho em casa, rolando na cama, você pensa que talvez devesse ter engolido tudo com a devida avidez. Você sabe que será para sempre aprendiz nisso de amar porque amor é coisa que não cessa de morrer e nascer de novo.

Você sorri. Em meio a tudo e a tanto, sobrevive um ou outro sorriso.

Por hoje isso basta. Por hoje, isso tem que bastar.