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sábado, 2 de junho de 2018

Ainda estamos dançando

Desço da condução. Estou no centro da cidade. São nove horas da manhã. O sol ainda não machuca. O céu está azul. Escuto uma música cantada por uma mulher. Da letra, entendo pouca coisa. Mas alguma coisa dentre tantas reverbera em mim de forma intensa e delicada.
Meus olhos então se enchem de lágrimas. Penso em você, Kekel. Penso que tínhamos quase vinte anos quando você decidiu ir embora e foi. Lembro daquele fim de ano em que corríamos alegres pelas ruas da cidade. Tento resgatar algum dia, tarde ou madrugada, em que dançamos juntos. Mas percebo que ainda a dança não parou.
Estamos dançando, minha amiga.
Tanto tempo já passou e a gente ainda enredado um no outro. Por vezes mais presentes, noutros instantes tudo solto. A beleza mora também no desencontro porque seguimos juntos. Dançando.
Quando meus olhos pesam, em praça pública, e o sol me acalma e expande, troco passos e forjo uma dança envergonhada que só mesmo a gente poderia assimilar.
Ainda estamos, nós dois, dançando. Dançando a morte e a vida da morte, sua vitalidade, nossas escolhas, os fins como princípios, eu danço tudo. Danço como quem perde, como quem sabe que perder é estar vivo.
Te perdi, minha amiga, mas feito o sol que ora vem ora foge, você segue comigo. E hoje, ontem, eu danço não para apavorar os meus medos, mas por estar certo que esse espanto, esse susto que não cessa, é também o nosso laço.
Estamos dançando, minha amiga. Ainda estamos. Fecho os olhos. As portas se abrem. Escorrem lágrimas mornas de sol. Tudo me completa e em mim cria abrigo.
Ontem, ao dançar sob o sol nessa cidade tão abrupta, mirei ao longe um prédio alto e de lá te vi se lançar. Acompanhei a imagem do seu corpo tombando para dentro do mundo. Este mundo, esse mesmo, sobre o chão do qual ainda danço.
Nós dançamos. Ainda estamos dançando.
E nada agora é sobre te amo ou mesmo sobre faltas ou saudades. Eu danço, Kekes, eu danço esse vínculo que, às vezes, me solicita atenção, me reorienta os passos, me pede pausa e me faz parar.
O dia está lindo. Eu olho ao céu e você reluz por todos os lados. Como não te ver? Como não sentir? Como não dançar sozinho com você?

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Acabamento

Nas pequenas coisas
Em coceiras localizadas
Nas pontas e nos fios
Na dobra das rugas
No embaixo do sorriso
Em tudo
Diria que em tudo
Se manifesta inteiro
Esse cansaço de faz anos.

Penso na delicadeza do tempo
Que acumulando-se
Vai compondo lento
E imponderável
Esse esgotamento.

Voltar-se aos detalhes
Para ver dor maior.
Coçar a pele até ver vermelha
A alma
Estafada.

Se não há só dor
É porque sobrevive plena
A esperança. De ser outra coisa
Ou antes
Apenas ser o mesmo
Mas de outra forma.

Muda.

Dias mais quietos.

Por que não ficar um pouco mais
Ali
Sem grandes revelações?
Poderíamos mudar o gênero do drama
Dessa invenção de existência?
Poderíamos desfazer os laços trágicos
Nem rir nem zombar
Apenas resistir
Como sendo resistir
Um modo ameno de ser
E aqui estar?

Tenho pensado muito sobre esta outra possibilidade. Não encontro se ela está antes ou depois de mim, mas sei que me envolve e solicita. Posso, então, ceder ao impensável? Posso existir de novo, renovado, dentro dessa mesma roupa que se tornou minha atribulada vida?

Queria sim, queria muito, a angústia do tempo andando colado aos meus suspiros de amor mal amados.

Queria sim, juro, queria que a minha ansiedade pela vida se convertesse, sem graça, em escuta: o que deixa de acontecer quando tudo está tão correndo assim?

Eu deixo de acontecer. Eu, escravo de uma dinâmica que, se um dia funcionou, hoje se move apenas para me moer.

Não quero mais. Não posso nem quero mais querer.

terça-feira, 8 de maio de 2018

William Shakespeare

Numa manhã qualquer, em sala de aula, uma aluna o perguntou algo: professor, como você faz para dar conta de fazer tanta coisa? Ele sorriu para ela. Costumava sorrir para tomar tempo pensando numa resposta adequada. E então ele disse: eu não faço tanta coisa assim. A turma inteira reagiu. É claro que faz. Ele pensou. Todos ali sabiam. E então ele tomou ar e disse: é verdade. Parece estranho dar conta de fazer tanta coisa, mas a questão não é essa. A questão está nessa expressão: dar conta.

O que é dar conta? É conseguir? É acertar?

Sempre acreditei que dar certo é dar gostoso. Os alunos ficaram em silêncio. Ele afirmou: não é sobre dar conta, é sobre dar gostoso.

Alguns riram. Outros abriram os olhos espantados. Dar certo é dar gostoso. Nesse sentido, interrompeu o fluxo, foi essa a sua pergunta?

A aluna negou com um assertivo não. Não? Não. Eu quis saber como você faz para dar conta de tanta coisa que o senhor faz.

Não me chama de senhor. Vamos lá: eu simplesmente faço. Nem sempre o melhor que posso, mas sempre faço. Não tenho muito tempo para pensar em. Eu simplesmente faço.

Definitivamente era uma resposta preguiçosa para uma pergunta tão indevida. Por que ele se sentia perseguido.

Na próxima aula vamos conversar sobre esses escritos de William Shakespeare, porém, não se enganem e nem me enganem, será junto com o cara e não só com ele, entenderam? Eu quero mesmo saber o que vocês pensam sobre as palavras desse que disseram ser um dos maiores escritores de todos os tempos.