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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Ela me disse sobre tudo o que sentia falta

E eu ouvi, atento
Para não antecipar gestos
Ou comentários que pudessem
Acalmar demais sua dor.

Ouvi atento, não chorei
Nem ri demais. Fui todo contido
Nisso de receber a dor do outro
Sem sequer se lembrar da própria.

Depois, escovando os dentes,
Pensei se aquilo que hoje ela sente
Falta em mim também nessa mesma
Intensidade.

Sorri espumante.

Não sinto falta da sua nuca
Nem do seu sorriso ou das músicas
Que você cantaria.
Não sinto falta do seu amor por
Meus cachorros. Sigo sem cachorro
Sigo sem seu amor não sinto
Falta.

Não sinto falta dos seus amigos
Animados e charmosos não sinto
Penso se isso é sinal de cura
Ou se é só o tempo que foi embora
E do qual, confesso, também não sinto
Falta.

Ouvi suas palavras com atenção
Naqueles tantos poucos dias
Disse muito ouvi bastante
E não sinto falta do que rompeu
Não sinto falta de acreditar
Em abismos soluços
Que minha vida depois de ti
Inevitavelmente iria se perder.

Não sei se pelo tempo ou
Por mim mesmo mas não sinto
Falta nada sinto quanto a isso
Mas sinto, olha, ainda sinto

Outras coisas
Outras letras
Refrões outros orientam meu corpo
Nucas outras sequestram minha língua
E a ânsia do meu nariz
Por outros cheiros.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Roube como um artista?!

Não temos como controlar essa sua mania, esse seu vício, essa sua grande virtude.
Você rouba coisas que não são suas. Rouba e sequer menciona o ser roubado.
Já entendi, já entendemos, já foi o tempo em que isso me deixava preocupado.
Sabe por quê?
Porque assim:
quando você rouba o que não é seu, para se dar a ilusão de ser outro que você não é,
ainda mais distante você se coloca de quem você poderia vir a ser.
É tão simples. Tão forte. É quase uma maldição.
Eu escrevo. Você rouba. Eu não ligo. Rouba, rouba, pode roubar.
Nos dias que seguirem, por uns instantes, eu sei, você vai se sentir o cara
Dono de palavras que soam bonitas, mas que não saíram do seu próprio gesto
Sozinho, eu sei, já fiz isso (só que aprendi), sozinho você vai se flagrar no espelho
e certa noite vai-se acabar numa lufada de tempo
Vai se ver confuso, bobo, besta,se perceber tão tão supérfluo
Eu sei, já foi assim comigo certa vez
Ali
naquele instante
Aprendi
eu aprendi
que a vida não se faz à força
Aprendi a delicadeza
A delicadeza da fome
A fome do saber, sabe?
Aprendi como me tornar tranquilo
mais calmo, mais tenso, talvez, mais magro
para assim, tranquilo, sim, ver brotar a revelação de alguma descoberta.
Pode roubar, rouba. A sua ação
me faz cócegas de ameba.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Aquilo que salva


Nem seria bem fumar todos os cigarros
Nem guardar outros mais para um depois
Não, não gostaria que usassem tantos nãos
Mas, não, a palavra é não
Não se trata de nada disso

Tampouco seria ficar inerte
Assim parado como quem faz prece
ao contrário
Não, isso também não
Nada assim, nada disso

Seria mais ou menos como equilibrar-se
sobre algo impossível
Equilibrar-se entre o não
e o sim, sim, isso mesmo
Nem sim
Nem não

Jamais talvez
Nada disso
Isso não

Seria como está sendo
esse instante duradouro
em que tudo acaba
e tudo nasce de novo

A vida, dizem, é o nome disso
A vida. Essa coisa horrenda
meio morta
meio sobrevivida

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Algo, um limite, talvez

E se vim
É porque posso
Vim porque quero
Porque gosto.

Não há culpa, mágoa
Não há moléstia
Vim porque prefiro
As horas ao seu lado
Do que gastas entre cigarros
E cervejas.

No entanto, agora, volto
Volto porque posso
Porque tenho
Porque quero.

Não há reclame algum
Sou quase todo satisfação
Mas penso ter chegado a um limite
Não sou dos jogos impunes
Não sou fã de criar ilusões
Não para mim.

Volto porque vim.
Vim porque sei como voltar.
Tudo estava já planejado.
Não vai doer
Voltar é como parte do básico
Um pouco como respirar.

Seu ronco silencioso
Meu corpo abrindo espaço
Na cama nova mas ainda
Apertada.

Há um limite entre nós dois.

Não vou atravessar mais nada.

Há um limite, talvez seja isso,
Um limite. Estou bem, todo bien,
Pero hay un límite.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Carão

E se te olho e me espanto
De antemão, peço desculpas
O espanto, esse meu espanto
É reflexo direto de uma fatalidade
Quando te vejo, esse seu carão
Quando eu o vejo
Ele mata a minha ideia do que deveria ser o mundo, as coisas todas e suas pessoas

Ora, eu te vejo
E me espanto
Que fazer?
Meu espanto é um aprendizado
Ele me ensina a ver mais
E com mais calma
Ele me ensina, você, seu carão
A morar na realidade, esta
Dessa sua cara grande
Que não é a do príncipe
Mas a que temos hoje

E veja
Veja bem
Lhe sou grato
Sou grato a vocês dois
Voce e seu carão
Não sei quem manda em quem
Mas ambos são lindos
Lindos
São lindos
É lindo
Você é lindo

E essa clareza
Sustenta as minhas forças
Pois se vamos beijar ou bailar
Beber ou nos drogar
É certo, já é certo
Estamos de acordo com o encontro que esta vida nos fez encontrar

Você tem um carão!
Que cara grande,
Que homem
Que graça
Sou feliz no tamanho do seu gesto
Grande
Imenso
Cara de amorzinho.