pesquise no blog

domingo, 23 de julho de 2017

Mais que nunca

Seria preciso desenhar o futuro
em caso de desistência
do instante presente.

Esboçado, com traços a lápis
talvez, diriam os homens da ciência,
seria preciso ir com prudência.

Seriam bem vindos os cânceres.
Todos seriam bem recebidos.
É tudo sobre eles.

E sobre essa dor.

Esta dor, um dos homens sinaliza
algo sobre a mesa branca.

Um músculo retesado
um pedaço de vida
Isso é vivo?
Se se mexe, podemos afirmar que vive?

Em silêncio,
eles observam confusos
a perdição de sua época.

Seria preciso acabar com a poesia
Ele afirma: é ela que nos desnorteia,
não sabemos andar sem metáforas.

Mas,
uma criança arromba a porta
e afirma:

Devolvam meu brinquedo!
É meu!
Devolvam!

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Talvez depois

Viria então uma tragédia
Possível, mas indigesta.

Algo de súbito mudaria
O curso dos caminhos
Desnortearia o desejo.

Não sabemos o que aconteceu.

O dia tinha sido ameno, mas
As notícias ganham corpo
E volteiam os mais sórdidos pensamentos.

Não. Não pode ser.
Ouviram alguém dizer.

Mas sim. Já estava ocorrido
Já tinha entornado.

O horror
Que horror?
Hoje caminha lado a lado.

domingo, 25 de junho de 2017

Êxodo

Tudo escorre.

Sem sentido nem direção
tudo explode, hoje,
tudo explode.

Com a calma cirúrgica de um ancião
ela mira o seu liquefazer.
Há tanto nisso que te escorre
ela te diz.
Você?
Você segue escorrendo sem nada reter.

A sua inconsequência
a sua inconsciência
a sua destemperada descrença
de que as coisas são o que são
e não apenas aquilo que, num dia,
poderão ser.

Você nada. Como reter?
Tudo explode tudo escorre
você sem compreender
É a sua ignorância que também vai
ralo abaixo
profundo
pro mundo

Ela te observa
você sem palavra.

Tudo sai tudo quer de ti correr.

Num instante relâmpago
você se pergunta a única coisa
que precisa para sobreviver:

por que foi que eu me tornei essa terra arrasada
esse terreno vago essa coisa insensata?

Mas é tarde.

sábado, 24 de junho de 2017

Caixa

Sem proteção
Sem reserva
Uma calma, talvez
alguma coisa outra
Outra mesmo
enfim
Não saberíamos precisar
apesar da necessidade.

Sobre a mesa
esta caixa
Vocês conseguem ver?
Eles se entreolham
como se nessa caixa
pudesse algo haver.

Não há.
Nunca existiu.
A caixa é um convite
para o mundo que ruiu
se refazer
se desfazer
e guardar - nela, sim, nela -
aquilo que talvez importasse.

Hoje é domingo
sábado?
Domingo?
Como lidar com a falta de sorte?

Amanhã o dia será penoso.

De antemão, eles preparam
as ciladas para o asfalto negro.
É tarde, sentem fome
sentem medo.

A caixa, porém, sobre a mesa
nada sente.
Ela sabe
sentir é depender.

Por quê?
Eles se entreolham confusos.
Por que, humanidade?
Por quê?