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domingo, 28 de setembro de 2014

Kafka por Jeanne

Não tem problema.

Não, não entendo.

Por quê? Eu deveria entender coisa alguma?

De escada. Sempre de escada.
Jeanne subia e descia a Instituição
levando de mão em mão
Caixas e mais caixas com papéis
E eventualmente
(ela não entendia)
Cachos de uva.

Uva verde.

Não entendia.

Mas por que você quer entender o porquê das minhas idas e vindas?

Ninguém respondeu.
Subiu mais um lance.
Ninguém a perguntava nada.

Seria o calor do dia
O frio do ar condicionado
Seria a menopausa estacionando nela
Seria o filho que não teve tempo para ter.

Jeanne parou: 89...

Como é que se falava?

Octogésimo nove.

Octógono nono.

Nada.

Ninguém lhe disse nada.

A testa suada, Jeanne percebeu:
estava a se permitir ser arguida
por Kafka.

Suposto

Enquanto dizia o seu ponto de vista sobre a coisa toda
disse em silêncio a si mesmo (que tinha medo daquilo tudo que dizia)

Pensou nos mortos
Nas crianças (mortas sempre
por asfixia)

Na ferrugem entre os corpos
Nos dentes perdidos das respectivas bocas
No salto dos que se jogaram feito bomba

Pensou
(enquanto aquilo tudo dizia)
Que dizer mais do que se pratica
é uma poderosa e angustiante forma
De mover-se rumo à outra vida.

Fechou a boca e respirou.

Olharam para ele
E ele então voltou

a usar utopia
Revolução
Paz e Amor
Voltou a usar humanidade
Disse em voga
Disse tensão disse torpor
Sem freio
Disse mais outra vez
Sobre Humanidade
Biosfera

Ética

Civil

Cidade.

E deu um ponto
pronto
Para mover-se em busca
Do impossível.

Pulo

Não havia motivo.

Poça retinta
sob a luz da cheia lua.

Nada que o fizesse saltar
rumo a nada
cousa alguma.

Não passava carro
Nem morcegos
o perseguiam.

Foi íntimo exaltado
Inconsciente aflorando-se
Flor
Pululando de dentro d'alma

Não se sabe
Exceto que

Ele se pulou na poça d'água.

Ovos

Noite
Olhos sem fundo

Silêncio
Já nem roncas mais

Deitado
Observo o tanto
Que em mim
Você me faz.

Se eu um dia
Voltar a escrever poesias
Será apenas porque você
partiu.

Perder

Perdão

Primeiro por pedir perdão

Perdão

Por praticar panfletarismo
Por promover picuinhas
Por privilegiar pollissemias

Pelo pólen,
perdão, peço-te

Poderia partir
Preferiria pulverizar-me
Prostrar
Parar

Ponto

Porém
Peço
Paciência

Poderia pedir poesia
Pedir pedido
Perdido poderia proferir
Perdigotos para privar-me
Porém

Perdão
Perdi
Perante

Parcas palavras.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Crocodilo - Um conto de Diogo Liberano

Crocodilo
Por Diogo Liberano

Você já sabe o nome deste conto. Mas não custar repetir: este conto tem por nome Crocodilo. Ciente do nome, agora você pode, inclusive, esboçar – em mente – certa obtusa abertura da mandíbula recheada de afiados dentes. Caso saiba um pouco mais sobre répteis, você poderá completar tal imagem com um peso aproximado de uma tonelada e meia que a bocada deste animal despeja sobre o seu braço, perna, cabeça ou peito. Quando eu digo “seu”, caro leitor, cara leitora, não é propriamente o “seu” braço, ou perna, ou cabeça, quiçá seu peito. Você apenas lê esse conto. Eles não. Eles estão dentro da situação. E, infelizmente, não sabem de nada.

É noite. Início de madrugada. São seis escritores, seis dramaturgos (esta profissão tão na moda e ainda tão desconhecida). Seis dramaturgos, dos quais cinco são homens e uma é mulher. São eles: André, Diogo, Diones, Gustavo, Lígia e Vinícius. É curioso. Eles não perceberam ainda. Mas eles caminham, às duas e quarenta da madrugada de um domingo qualquer, eles caminham pela Rua Aristóteles Caldeira. Caminham como se fosse meio-dia. Mas já é noite, madrugada e vejam: são seis dramaturgos caminhando numa rua chamada Aristóteles.

Dramaturgia é um mistério. Ser dramaturgo é estar no meio do caminho, perdido entre a realidade do mundo e a realidade da obra. Escrever para o teatro, escrever peças de teatro, é de uma responsabilidade imensa, afinal, que mundo se escreve, que mundo é projetado, quando se escreve uma peça de teatro? Esses seis dramaturgos, que ainda caminham em plena madrugada, estão se perguntando tudo isso no caminho de volta a sua casa. Com o agravante, é claro, de já terem bebido muita cerveja e jogado muita conversa fora. Estão cansados. E quando o corpo do alvo descansa é que o Crocodilo avança.

Caríssimos leitores, eu não posso continuar com esta escrita. Apesar de já saber o que acontecerá com esses seis personagens, eu preciso me atentar para cada palavra que escrevi e também para aquelas que ainda pretendo escrever. Eu me pergunto: ficou evidente o que é essa coisa de dramaturgia? Ficou evidente a provável ironia de seis dramaturgos caminharem numa rua chamada Aristóteles? Eu sei que vocês não me responderão, mas se eu estou duvidando, talvez vocês também possam duvidar comigo.

Nosso querido Aristóteles foi um filósofo grego, aluno de Platão e professor de Alexandre, o Grande. Isso todo mundo sabe, correto? Consta no Wikipédia (foi inclusive de lá que eu tirei essas certezas). Mas o que importa em relação a Aristóteles – aqui para este conto – é o fato de que esse cara foi responsável por fazer do teatro o que ele ainda é hoje. Em sua obra “Arte Poética”, ele apresenta um tratado – não sobre Crocodilos – mas um tratado que examina o fenômeno da criação poética, definindo a poética como uma imitação oferecida a um público e capaz de lhe provocar tanto o prazer como o conhecimento. Bonito, não?

Assim como um homem frente a uma peça de teatro, agora, neste instante, vocês leitores se colocam frente a esta obra que eu estou escrevendo e, o autor aqui pretende, que por meio desse encontro vocês possam ter prazer, mas, sobretudo, conhecer um pouco mais sobre o que o ser humano foi capaz de se tornar.

É engraçado. É por aí que os seis dramaturgos pensam. São a partir dessas problemáticas que eles tramam suas conversas e projetos e desejos e revoluções. Eles acreditam que o mundo nunca esteve tão carente, tão necessitado de poesia. Eles acreditam que as pessoas estão sendo, cada vez mais, expropriadas do seu poder simbólico. Ou seja: o que você vê quando vê uma migalha de pão sobre a mesa? Uns diriam: uma migalha de pão, ora! Outros talvez dissessem: por que você está perguntando isso? Outros poucos, bem poucos, talvez pudessem nos dizer: eu vejo uma estrela.

É esse o conhecimento de que Aristóteles fala. Uma obra posta num palco, ou num livro, ao se confrontar com aquele que lê, tem o poder de lhe abrir muito mais do que guardam suas palavras, gestos e movimentos. Uma obra é um projeto de mundo, não apenas um retrato imóvel da nossa realidade bruta e intempestiva.

Palavra bonita esta, não? Intempestiva. Intempestivo é aquilo importuno, inesperado. Isso me leva de volta aos seis dramaturgos andando pela Rua Aristóteles. Ainda é madrugada, eles acabaram de entrar nesta rua. A noite é amena, não faz frio nem muito calor. Não me lembro, mas creio que existiam estrelas no céu ou, ao menos, migalhas de pão pelo chão da rua. Eles poderiam caminhar até a próxima quadra e um deles, Vinícius, pegaria a chave, abriria o portão, todos entrariam no corredor do prédio e em menos de um minuto estariam dentro de casa, rindo e conversando novamente.

Mas não. Eles não vão aportar em casa por agora. Porque – e isso eles não sabem – esse conto se chama Crocodilo. E não outra coisa. Lembram-se? Crocodilo: o maior réptil na face da terra, o animal que, depois das aves, é o parente mais próximo dos dinossauros. Crocodilo: réptil que engole suas presas em pedaços, às vezes engolindo membros inteiros. Réptil que possuiu uma digestão extremamente eficaz e rápida, por possuir uma artéria a mais no coração, capaz de irrigar mais sangue no aparelho digestivo e, assim, capaz de produzir muito mais suco gástrico para triturar o corpo desses dramaturgos.

Fato é que eu não quero enganar vocês, caros leitores. Acalmem-se. O terror dessa história não é sobre um grupo de seres humanos sendo comidos por um Crocodilo em plena rua de uma cidade. Isso não vai acontecer. O que vai acontecer é o seguinte: logo assim que os dramaturgos entrarem na Rua Aristóteles, quatro rapazes sobre quatro bicicletas vão surgir inesperadamente – intempestivamente – e vão assaltá-los. As bicicletas vão ao chão. Os assaltantes vão render os dramaturgos e agredi-los violentamente. Uns tentarão correr para pedir ajuda e serão interceptados com mais chutes e muitos socos no rosto. Lígia, a única mulher no grupo, mesmo estando com as pernas expostas por conta do lindo vestido que está usando, não será violentada. Ainda bem. Só os homens vão apanhar. Mas ainda não aconteceu. Um pouco mais de tempo. Estão dobrando a esquina ainda. As estrelas ainda estão no céu. Eles acabaram de entrar na Rua Aristóteles. Quase lá. Mais alguns passos. Um pouco mais, caros dramaturgos. Pronto. Agora vai acontecer.

Pensem numa música, leitores. Uma sinfonia em que cada nota é um soco de som oco. É essa música que tocará até o fim das próximas linhas.

Vivemos todos dentro de um Crocodilo imenso chamado mundo. Crocodilo ágil que quando nos abocanha, apenas nos permite morrer em câmara lenta, vendo o próprio corpo se desmanchar enquanto se conta os socos na cabeça e o estilhaçar de vidros sobre a pele já arruinada. Quando dentro da mordida de um Crocodilo, ao homem-presa, resta apenas o silêncio e a indagação: como o homem fez o mundo se tornar apenas isso? Dentro do ventre do Crocodilo tudo aquilo que se deseja é voltar para casa e voltar a acreditar que a selvageria do mundo é tão somente um mergulho qualquer em qualquer piscina azul, com boias coloridas, dentro da qual um punhado de amigos batem braços juntos. Mundo sem Crocodilos, sem trocadilhos, sem armadilhas. Mundo simples que rima apenas com abraço, moletom, poesia. Dentro de seu estomaga-caverna, o metabolismo do Crocodilo cataboliza hormônios e enzimas que transformam em pasta cinzenta e homogênea tudo o quanto é tipo de pele, de carne, sangue, músculo e grito. Metabolismo que transforma em fim punhados de últimos instantes (que não vieram), punhados de beijos (que não puderam ser dados), enfim, beijos que foram para o sempre do nunca postergados. E o que resta, ao homem ali aprisionado, é apenas o tempo da mordida, contado a dentes finos, frios e enfileirados. Dentes que devoram iPhone, moeda, tênis calça camisa e todos os sorrisos que um dia já existiram. Não há espaço, dento desse estômago em que moramos, para erguer escadas e construir janelas. Não se pode sair para respirar. Pode-se apenas – e mais uma vez - olhar resignado para aquilo que fizemos do mundo e, nisso, perceber como a digestão desse Crocodilo é lenta e vai matando, pouco a pouco, o ser humano disposto em filas. E então começa a contagem das ruínas e de todas as fragilidades. O braço perfurado, o desejo (de poder acreditar que o mundo é outra coisa menos destrutiva) assassinado, os óculos no rosto quebrados a soco, o brinco da orelha arrancado, a cabeça batida contra as grades do prédio residencial (sem que ninguém pudesse os socorrer daquele assalto). Dentro desse estômago-mundo, dentro desse Crocodilo, a luz é escura e o tempo é curto, nem sequer é suficiente para que o homem possa se olhar com calma. Resta, então, apenas o cheiro. O mais perto do amor que esses seis dramaturgos – que neste exato instante estão tomando socos e mais socos – o mais perto de amor, que um pode ao outro chegar, vem pelo cheiro. O cheiro da tangerina compartilhada a cada manhã. O cheiro do café com pão queijo tomate e poesia. Para estes seis personagens, capturados logo após dobrarem uma esquina, o que resta agora são os olhos apartados do rosto, são braços sem peito para abraçar, dedos sem unhas para pintar, sorrisos sem boca para beijar. Que mundo é esse que nos devora e que mesmo assim nós alimentamos todos os dias? Um deles se pergunta enquanto a cabeça ecoa mais um soco dado à mão fechada. Que mundo é esse que reclamamos ser o que é, mas diante o qual não nos movemos para modificar? Diz outro dramaturgo, para si, em silêncio, não querendo aceitar que não possa haver saída alguma. Vendo-os agora, numa eternidade que provavelmente tenha durado apenas um ou dois minutos, o meu peito dói mordido entre a ira de sentir pena deles e a pena de sentir ira do mundo (que eu mesmo destruo sempre que me permito não me importar). O plural de socos nas suas cabeças ainda vibra aqui, junto aos meus dedos pinçando letras no teclado. Os socos arranjando fúnebre sinfonia, preenchendo todo e qualquer espaço vago, preenchendo as pausas existentes entre cada uma das vírgulas. E junto ao som do soco, um imperativo incessante a se repetir: desistam dessa ideia torta de fazer poesia! Desistam de querer resolver o que não tem mais saída! Estamos dentro do Crocodilo agora. Alguns braços mordidos – e já quase completamente desmanchados pelo ácido clorídrico do estômago desse imenso mundo – se abrem, precariamente, e suplicam por paz. Os braços soltos imploram por alguns minutos, que seja. Pedem os braços por uma nova cena, pequena e miúda, outro projeto de mundo no qual todos os homens estejam dormindo ao mesmo tempo, para que ninguém tenha tempo nem condição de alimentar o Crocodilo. Uma cena curta para deixar que reste ainda alguma sensação de vida a ser vivida. Acontece, porém, que o Crocodilo ouve a conspiração de suas entranhas. O Crocodilo ouve os pedaços que ele acabou de abocanhar. Ele ouve cada braço, perna, cabeça e peito lhe tramando um motim. O Crocodilo sabe que alguns seres no mundo, alguns poucos seres, bem poucos, querem dançar a tristeza daquilo que nos tornamos. O Crocodilo ouve até mesmo eu trancado dentro de casa escrevendo essas palavras. Ora, eu estou dentro dele. E você também está. Mas é que, daqui de dentro desse órgão-baço-poema-desnecessário, o Crocodilo pensa não haver força capaz de fomentar algum vômito diarreia ou intriga capaz de destruí-lo. Mesmo assim ele quer saber, por curiosidade, por que o homem ainda deseja tanta alforria. Eu poderia morrer agora, caros leitores, caso já não estivesse morto. Eu sou um desses personagens. E aqui, sobre o meu corpo, tanto os socos quanto essas linhas se inscrevem. Pois se o Crocodilo me ouve conspirar contra a sua opressão, pois se isto é já um fato, que então assim seja: deitado em maca hospitalar, vestido de gaze, perfumado a éter, que eu convoque essas palavras e projete outro mundo no qual me pareça mais possível estar. E então, meu braço amputado coagulará com a força da sua tristeza. Meu sorriso atravessado se preencherá com a tenacidade do seu desconforto. Minha boca seca desabrochará com o sangue da sua fala que cessou. E então, caros amigos, eu posso me erguer, ainda que trôpego. Eu posso voltar a gritar, ainda que rouco. Eu posso amanhecer, cruzar a sala, ligar a vitrola e – mesmo dentro desse estômago-escroto – eu lhes posso convidar: dancem comigo esse réquiem?

E então eles limparam o sangue em cada rosto e conseguiram chegar a sua casa. Agora, quando eu os olho, sei que estão parados. Olham-se enquanto o gelo age na cabeça inchada. Miram-se mudos, enquanto a toalha branca suga o sangue caudaloso de tantos cortes.


Que não tenha havido prazer neste conto, é verdade. Pois que, ao menos, se perceba através dele que as vítimas naquela rua, naquela madrugada, eram tanto os assaltantes como os assaltados. Eram, ambos, homens tentando sair desse estômago-mundo-injusto que só nos faz comer e matar o outro (e nisso, também a nós mesmos).

domingo, 21 de setembro de 2014

CROCODILO

Meus amigos aqui presentes: André, Diones, Gustavo, Lígia e Vinícius,
Eu não posso construir um crocodilo,
Porque nesta última madrugada em que sofremos um assalto juntos,
Eu descobri já viver dentro de um crocodilo.

Eu não posso construir um crocodilo porque não tenho a agilidade dele
E, quando dentro de uma mordida sua,
Eu não luto, apenas me anulo e passo a contar:
o tempo dos verbos,
os socos na cabeça,
o rococó dos versos
e o estilhaçar de vidros.

Eu, quando dentro da mordida que tomamos ontem,
Apenas me silencio e observo:
Como o homem fez o mundo se tornar apenas isso.

Não posso construir um crocodilo porque o metabolismo dele catalisa muitas forcas
frente às quais eu tenho apenas vontade de voltar pra casa e voltar a acreditar
que a selvageria do mundo é apenas e ainda
um mergulho qualquer em qualquer piscina azul
e com boias coloridas
e com vocês batendo braços junto comigo.

Mundo sem crocodilos, sem trocadilhos, sem armadilhas.
Mundo simples que rima apenas com abraço, moletom, poesia.

Eu não posso construir um crocodilo porque seu metabolismo cataboliza
hormônios e enzimas que transformam em pasta homogênea e cinza
tudo o quanto é pele, carne, sangue, músculo e grito.
Metabolismo que transforma em merda
punhados de últimos instantes (que não vieram)
punhado de beijos (que não puderam ser dados)
beijos que foram para o sempre do nunca postergados.

Eu não posso construir porque o tempo que me resta agora
é só o tempo daquela mordida de ontem, bordada a dentes finos e frios
Que devoram iPhone, moeda, tênis calça camisa
e todos os sorrisos que um dia nos existiram.

Eu não posso construir um crocodilo porque não há espaço aqui dentro.

Dentro desse estômago onde moramos
Não há espaço para erguer escadas e construir janelas,
Não se pode sair para respirar,
Pode-se apenas olhar – resignado – para este dentro
E ver como a digestão desse crocodilo é lenta
e vai matando, pouco a pouco, o ser humano disposto em filas.

Eu hoje não posso construir um crocodilo, meus amigos,
Porque me falta o braço que ontem me perfuraram,
Falta-me o desejo expropriado de poder querer acreditar
que tudo isso pudesse ser outra coisa menos destrutiva.

Eu não posso construir outro mundo porque dentro desse estômago
A luz é escura e a gente sequer pode se olhar com calma.

O mais perto de amor que eu posso sentir agora por vocês me vem pelo cheiro:

O cheiro da tangerina,
O cheiro do café com pão e queijo e tomate
E poesia.

Mas, depois de ontem, eu cheiro a face de um amigo e, quando movo minha vista para ele,
Seus olhos já não estão mais junto ao seu rosto.

Eu sinto um braço me afagar,
Mas na sua ponta já não há mão nem sequer mais dedos
Ou unhas (que eu pudesse pintar na manhã de ontem, Lígia)

Que mundo é esse que nos devora e que mesmo assim nós alimentamos todos os dias?
Como a gente faz para criar qualquer outra coisa que não soco na cabeça, André?
Que não seus olhos marejados por não querer aceitar que não haverá saída alguma?

Meu peito dói mordido entre a ira de sentir pena e a pena de sentir ira.

O plural de socos nas nossas cabeças ainda me volta como fúnebre sinfonia.
As pausas entre as vírgulas que ontem nós tentávamos desvendar
Ontem mesmo foram bruscamente resolvidas
E dentro do nosso silêncio, amigos, enfiaram este imperativo incessante,
Que apenas repete e repete:

Desistam dessa ideia torta de fazer poesia!
Desistam de querer resolver o que não tem mais saída!

Eu estou dentro do crocodilo agora.
Meus braços se abrem e pedem por paz.
Pedem por alguns minutos que seja.
Pedem por uma nova cena, pequena e miúda, na qual a gente possa fingir morrer
para conseguir se esquecer de alimentar o crocodilo
E, assim, fazer restar ainda alguma sensação de vida a ser vivida.

Eu suplico em silêncio porque sei que o crocodilo ouve a conspiração de suas entranhas.
O crocodilo ouve os pedaços que abocanhou lhe tramando um motim.
Ele sabe que nós queremos dançar a tristeza desse corpo imundo
tão carente de alguma loucura que medicamentos não possam resolver.

O crocodilo ouviu tudo isso que eu acabei de dizer.

Mas é que daqui de dentro desse órgão-baço-teatro-desnecessário
Ele pensa não haver força capaz de fomentar vômito diarreia nem sequer intrigas.

Mesmo assim ele quer saber, por curiosidade, por que desejamos tanto alforria.

Eu poderia morrer agora, meus amigos
Se ao menos fizesse acontecer o reencontro de algumas vísceras.
Eu poderia morrer agora, amigos
Desde que meu corpo-morto virasse ponte ao outro
E fizesse juntar de novo o dente amarelo ao lábio carcomido de heroína.

Eu poderia morrer agora se fizesse acontecer sorriso
dentro desse estômago-escuridão que só come
E mata
E come
E matando se autodenomina vida.

Como pode?
Vendo-me moído no olhar triturado de um de vocês, eu me pergunto:
Como pode termos chegado nesse ponto tão sem diferença?
Tão já resolvido e cronometrado?

Crocodilos não tem mastigação.
Eles abocanham o mundo e o jogam – aos pedaços – para dentro de sua caverna-estômago
fazendo de suas presas vítimas meio ao meio entre morte e vida.

Eu poderia morrer agora, não tivesse eu já morto, meus amigos.

Mas aqui, agora, aos pedaços e com vocês reunido,
O meu braço amputado coagula com a força do seu sorriso atravessado,
Minha boca seca desabrocha com o sangue da sua fala interrompida.

Eu posso me erguer, ainda que trôpego.
Eu posso gritar, ainda que rouco.
Eu quero acordar e ligar nossa vitrola.

E erguer cabana dentro desse estômago
E fazendo alarido, eu posso lhes convidar:


Dancem esse réquiem comigo?


domingo, 7 de setembro de 2014

Óbvia Surpresa

Quando você percebe
Que uma pessoa
Assumidamente
Se diz egoísta
Capitalista
E preocupada em votar num candidato
Que vai fazer bem a sua vida