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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Algo mais?

Nada
Não
Nada mesmo

Sua presença
Frente à minha
Aguça meu existir.

Se me achava algo
Frente a ti,
Eu sou algo inédito

Algo por vir.

Da incansável inconstância

Aqui
Agora. Exato aqui
Exato neste instante
Há remendo se fazendo.
Duro ao menos mais um
Dois ou sete tempos.
Há como continuar.
Para que de novo
Já já
Tudo se pareça enfim
Desistido.
Agora
Neste segundo
Ouço outro disco.
Dispondo-se a outro risco
Existo, eu, eu existo
Ciente de que amanhã
Mesmo logo no já
Tudo enfim desmorone.
Nuncs palavra alguma deveria ter que dar conta.
Sobrevivo entre passos fundos
E sequer esboçados.
Mas vou, sigo
Elevando a mim mesmo
Na intensidade que dita o caminho.

Eis uma tarefa determinante:
reconhecer que a vida é jogo trepidante
E não para os tísicos.

domingo, 30 de outubro de 2016

Ao Freixo.

Meu caro amigo Freixo,
Nem posso te chamar de desconhecido. Nunca antes alguém disposto à política me foi tão familiar. Escrevo dentro de um ônibus, retornando à minha casa após passar várias horas na Cinelândia, acompanhando de perto a apuração dos votos que te fizeram, sim!, prefeito desta cidade.
Em tempos tão sombrios e obscuros como o nosso, em que o cinismo impera, a sua presença fez acordar algo distinto, um desejo de presença e de renovação, que independente do saldo dessa eleição municipal, continuam. Hão de continuar.
Tenho tanto a te dizer e a te agradecer que esta mera pastagem num blog quase invisível jamais daria conta. Mesmo assim, pelo prazer e demanda na nossa luta, não me permito fraquejar. O caminho anuncia tempos nebulosos, mas, Freixo, o que sua campanha me fez aprender a valorizar foi justamente a confiança na mudança. Sua campanha me presenteou com aquilo que eu havia me esquecido: que existem - sim - pessoas destinadas a algo mais que o próprio umbigo.
Nas últimas semanas, com sinceridade e motivação, me vi conversando com todas e todos que me cruzavam afim de compartilhar e ouvir opiniões sobre a atual situação política de nossa cidade e país. Para o meu espanto, ainda que fosse óbvio, me deparei com muita gente desistida de falar sobre política, gente já entregue acreditando que se entregar fosse a melhor saída.
Paga-se mesmo um preço alto por isso de se importar com algo além de si mesmo.
Assim, segui meus dias, fiz minhas conversas, trouxe luz a alguns e confusão a tantos outros.
Passo agora, dentro do ônibus, em frente à Prefeitura do Rio de Janeiro. Um pesar me assola. Uma indignação, ao mesmo tempo, me conforta. Sim, uma ira, raiva mesmo, uma certeza plena de que a vida inteira seja luta. A vida inteira deve ser isso mesmo: inconstância, perseverança, presença em ação; Luta. Simples assim.
Queria lhe dizer, caro Freixo, que o mundo ainda não está pronto para a sua ousadia. O mundo, maior parte dele, ainda não tolera a diferença. Ainda não sabe conversar. Esse é o saldo de uma cultura escrota, criminosa e apenas para poucos. Eis a cultura de um país escravo que só viu no horizonte ser colonizador.
Mas, aqui estamos nós. Aqui estamos nós - e somos muitas e muitos - disponíveis ao sacrifício de nossa própria paz para que o mundo seja menos aquilo que ditam os poderosos e mais aquilo que deseja o nosso corpo, corpo imenso, corpo multidão, corpo tingindo à diferença, corpo em movimento e em intensa e constante modificação.
Hoje não foi a sua eleição, mas não foi para a prefeitura, porque você se fez eleger a muitas e muitos, você deu voz aos anseios mais honestos que trago comigo. Você, Freixo, deu voz ao que pulsa e ressoa em voz silenciosa comigo. Trouxe você um desejo de tornar mundo aquilo tornado invisível. Você me fez relembrar que não se está sozinho.
Choro passando pelo Maracanã. Estádio sede da corrupção do poder. Choro porque muita dor está por vir, mas também junto a ela muito prazer. Nunca antes estive tão certo de que o duelo com o mundo fosse algo tão constante e interminável. Agora eu sei. Não acabou. Quer dizer, tudo acabou e tudo acabou de começar. Também. Fim e início. Fim e princípio.
Tudo acabou de começar.
O cinismo, o homem sem escrúpulos, nada disso vai vencer, nada disso tem capacidade de germinar. Numa cidade imensa como a nossa, cidade contraditória, numa cidade como essa foram muitas vozes em uníssono que se juntaram a sua canção. Isso significa mais que um placar de futebol.
Continuaremos. Continuarei. Continuarás. Porque ao mal desse mundo, não há Deus que possa fazer frente. Frente ao homem é só mesmo o ser humano quem pode se colocar.
Aqui estou eu. Aqui estamos nós. Aqui, junto a você, Freixo.
Diogo Liberano.

alguma confissão a si mesmo

nada. talvez, nada mesmo, diogo. nenhum segredo. nenhum? não, nada, nenhum mesmo. sério? uai. tô dizendo que não. parece haver alguma coisa? sim, eu diria. você diria? estou dizendo. sim, eu acho que existe em você sempre alguma coisa não dita, alguma coisa por dizer.

eu respiro. uma música toca alto agora dentro do seu quarto. você quase nu, em descompasso. o que será que você pode me dizer que agora, neste instante, não parece existir em você?

eu salto linhas. haveria alguma coisa? sim, o fato já sabido: sempre penso em você. eu não quero te esquecer. não! isso não vale. isso é a letra da música que agora toca. ok. você percebeu. sério! diga-me algo que não esteja previsto, algo em segredo, algo íntimo.

eu penso. o que haveria em mim que não estivesse assim tão evidente? eu não sei. não acredito em amor. dei uma cansada, confesso. dei uma cansada do amor. não que eu não esteja pronto para recomeçar, sempre pronto, de malas prontas, mas, agora, não. não acredito. dei mesmo uma cansada.

eu bebo outro gole do meu vinho. ninguém aqui comigo exceto nós. eu e você. você, cheio de tantos. desejo de perder, de rodar, bailar, de gritar, sumir, voltar. sumir, mas para voltar. aqui. para cá. você repetiu a música? sim! pela terceira ou quarta vez. estou gostando dela. quero gastar esse amor. essa dor!

ah!!!

sempre assim? não, nem sempre. às vezes, sim, sou mais comedido, mas, por agora, é tudo o fim e o princípio. sempre o medo de não me ser, sempre o medo de perder. por isso a insistência. não, não se trata de ser herói, mas agora que tudo se foi, resto eu aqui, não? presente e impaciente, presente sobre as palavras e ausente de mim mesmo.

os dentes trincam. meus dentes, meu deus, eles estão rachando. dói e eu bebo, e eu fumo, e eu inventando sempre algum pretexto para deixar de me ser. como é cansativo isso de ser alguém, não? difícil isso de ter que ser biografia.

pode, ainda, me dizer alguma coisa? capaz de me fazer doer?

eu sou você, não sou?

sim, sempre será.

difícil isso de fazer doer a si mesmo, nesta hora, já tão tarde.

tenta.

devo?

sim, por favor.

eu respiro. eu acendo outro cigarro.

talvez nisso de acender outro cigarro eu já amoleça a dureza do porvir. o que você deseja, diogo, cabe em ti? não. ok. isso já sabemos. o seu desejo não mora no seu corpo nem morre nele. é sempre maior que ti. mas, e agora? a essa hora? como fazer com aquilo que não tens e que gostarias de ter?

salto linhas. acendo cigarros. seu dente dói?

deu para doer. está doendo muito nesses últimos dias.

e o dentista?

vou tentar ir na segunda.

hoje é sábado?

já domingo. quase.

e aí?

eu vou dizer. tudo, durante toda a minha vida, me convidou a postergar o encontro. eu deixei de ver meus amigos que já morreram, eu não fui a uma pequena dezena de enterros, eu posterguei ao amanhã - que também não veio - aquilo que jamais saberei o que foi. uma habilidade doente eu adquiri. de ser quem eu sou independente do que o destino quis de mim. disse que ia e não fui e assim vou sobrevivendo. vou eu assim meio duro meio certo sem saber ao certo o que devo. o que devo ser e fazer logo ali na esquina.

se um dia eu fizer um grande serviço à humanidade, será então devolver-lhe o sono perdido. como é precioso dormir e acordar no depois. eu durmo com o problema, sem ele, sobre ele, eu durmo de qualquer jeito.

isto não é uma confissão.

a habilidade - facilidade? - de escrever, livra-me do difícil que é encarar.

não que eu fuja, mas faço outros caminhos.

algum fiapo de coisa?
alguma coisa em fiapos?

dá para ver que eu danço tudo isso?
eu danço!
levanto-me!
eu danço!!!


sábado, 29 de outubro de 2016

porque não.

não posso com isso
de ultrapassar a mim mesmo.

não
não posso mesmo.

já sei faz tempo
mas sempre é agora, não?

agora me vejo rendido
entre um sim e o não.

que força imensa
esconde uma pequena fração.

três letras.
sim. não. não mesmo.

no decorrer dos tempos
fui aprendendo a ser fiel
a mim mesmo.
se sinto que sim digo que sim
se sinto que não
então é não, meu irmão.

minha irmã
cara amiga
moça
dona
o que for
eu digo não a você
porque você me traz um atropelo
que não

não mesmo

estou minado
sem fim nem princípio
tudo em mim ruiu
não quero mais
então ou eu digo não
ou sou eu rumo à puta
que nos pariu.

juventude?
leviandade?
não!
não!!!

por favor
não me faça achar
que minha decisão
que pulsa
agora
meu peito
não me faça acreditar
que isso seja pouco
porque não é
não é não

dói-me o corpo todo
dói-me inteiro
o corpo todo
caso eu faça dele
caminho para aquilo
que dentro
eu sei
eu sinto
é não.

um dia eu perceberei que aprender a dizer não faz um homem se ser.

hoje
a título de teste
eu digo não.

não.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

King of Pain

It's been hurting me.

A lot.

I wish I could disappear.

I can't.
I know I can't.

I woke up today and I was wondering
If I could get a new one
Another one
But this is my favorite pain

Oh, no
No, baby
I'm not sure that you are my best pain

I have others

I don't wanna play dumb
Anymore

I'm just feeling something
Harder than before

Before of you
Before of all this shit
There's a real pain I'm in love

Toothache.

Bottle

I was seeking
Just in search of
I was there
When you appeared

Everything was full of
There wasn't any other time
I was there
I saw

No hungry
No fear of getting the ball
I have been trying
But I don't know

This pain
Is painting my days
It is what I have now
So what?

Dance
Dancing
Dança
Dançando
I do
I dor

Empty bottles of
Wine
Of water
Of work of you
Off you

I'm leaving
Just living

sábado, 15 de outubro de 2016

algumas pistas para o não acontecido, ainda

acordei na posição ridícula em que havia me deitado sem saber que já estava dormindo.

as pernas pendendo ao chão, metade do corpo sobre a cama, de cueca e com a calça sobre o rosto.

vi que já era manhã. dormi bêbado e sem escovar os dentes.

a porta do quarto estava fechada. vi o vaso de planta no chão e pensei: os gatos fizeram a festa.

um cigarro solto sobre o móvel. um copo de plástico vazio (veio comigo?).

quanta coisa aconteceu enquanto eu estava dormindo?

acordei e procurei o celular, fui ao banheiro, bebi água, encontrei o celular.

foi preciso ligar o ventilador de teto.

no celular, uma mensagem de parabéns. de quem?

de alguns que já não participam mais da minha vida.
uma mensagem. depois outra. todas dizendo aquele mesmo texto
do feliz ano novo, do parabéns, das alegrias, do tenha um belo dia.

pensei

que porra é essa?

sinto-me tão invadido nessa era dos celulares biônicos.
queria ficar no meu silêncio
para então ser roubado para um abraço bruto e instantâneo.

bom dia, ele se disse

feliz aniversário, disse ele

é agora

que a coisa começa
querendo fazer da coisa já começada
outra coisa
coisa nova distinta almejante à diferença

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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

28 anos morrendo sem freio,

Seus pulmões doem quando você tosse, Diogo.

O que mais poderia eu lhe dizer?

Uma certeza te abala: sabes tu que vai morrer. Nem bem quando, nem bem sabes o motivo, mas sabes que a morte é sua maior amiga. Você, desde quando a soube, fez questão de a trazer contigo.

Junto.

Você trama estas linhas não para se livrar do que virá, mas porque precisa chegar mais perto, precisa o dente podre arrancar para enfim

sangrar.

Tenho observado como você tem observado seus dentes. Um fascínio nasceu em você. E é justamente sobre perceber como o seu corpo se gasta. Como o seu corpo está se gastando. Quanto mais você passa mais você vai ficando velho e isso não quer dizer idade, quer dizer também a presença disforme da falta de cuidado.

Quantos hoje?

Quantos cigarros?

O que um dia foi excêntrico virou em ti logo normalidade.

Você se orgulha de determinar suas regras.

Você se diz amigo da morte, mas se ela vier você vai se emputecer porque não teve tempo de fazer certas e indevidas coisas, mas veja: suas veias da mão estão inchadas.

Adianta ter energia se você apenas a usa para a sua completa desgraça?

Você não se importa mesmo?

É sério?

Você me tira a noção do possível.

Parabéns. Já se foram 28 anos morrendo sem freio
e parece que vai continuar.

29 !


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

"Você é muito bonito"

Ele estava com o olhar perdido, mas firme. Olhava não o simples a sua frente, mas o imenso que o simples pode trazer consigo. 
E então uma moça veio em sua direção. Era rua, noite, cidade, ele estava sentado mastigando um sanduíche de salame e ela se aproximou. Ele recobrou o olhar e retirou apenas um dos fones do ouvido. E ela lhe disse: "você é muito bonito". 
Ele sorriu leve, disse "obrigado" e então ela partiu. 
Daqui onde eu o vejo, fico me perguntando o que poderia manifestar sua beleza. Ele está cansado, meio suado, bebendo uma cerveja e mastigando lento um sanduíche ordinário. O que pode fazer desta criatura algo assim merecedor de tal intempestiva afirmação? 
Penso se é porque ele está apaixonado. Mas pelo o quê? Não é um amor humano. Não pode ser. Quero dizer: ele está apaixonado não por alguém, mas pela vida em si. A vida, mistério sempre rachado e exposto. 
Lá para onde ele olhava antes de ser atravessado pela moça que passou pela calçada, o que lá havia que nutriu sua beleza? Havia contemplação. Nem antes nem depois. 
A contemplação sustentando o pulso de um mundano e qualquer coração. 
Ele agora limpa as mãos sujas do limão que espremeu sobre o sanduíche. Ele enche novamente o copo com mais cerveja. A beleza nasce dele e nele mas é toda do mundo. Sua beleza só reluz porque hoje há fora.
Aqui de onde eu o vejo, ser belo é ser amigo do instante que te faz. Cansado, suado, recém saciado, acendendo um cigarro, eu sou bonito, não porque sou, mas porque ser belo é estar por si mesmo abraçado. 
Eis o fascínio da solidão.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Inoperosidade

Não ter que corresponder. Ele pensou, após gastar força se forçando em direção ao acontecimento. Haveria - de fato - essa necessidade? Seria preciso fazer algo?

Em seguida, ponderou que não corresponder não era o mesmo que descaso. Não corresponder não seria algo como ficar inerte e indiferente, mas, pelo contrário, tenderia mais a ser um tipo específico de relação que não preza pela finalidade nem pelo produzir de alguma finalidade.

Seria como não ter que ser nada. Não ter que corresponder ao ter que ser coisa alguma.

Respirou.

Assim, inoperante, é como estou hoje.

Ou não, menos, inoperoso, é assim como hoje estou.

Não atendeu aos telefonemas, não deu gás aos cotidianos dilemas, continuou sentado, entre o deitar do dormir e o prumo do ofício. Depois ousou inda mais: saiu de casa sem carteira e deixou a porta aberta. Foi à rua, mas não em direção às avenidas manifestantes.

Passou ao largo do furdunço para encontrar um chão de terra onde pudesse descalçar o chinelo e mirar o céu como nunca fizera antes. E fez. E ali ficou. E - de fato - no dito chão não se enraizou. Não, não fez poesia nem vingou metáforas.

Era todo contemplação. Ali, preso naquele gesto duradouro, que não servia para nada exceto para si, ainda que sem explicação.

Inoperoso. Hoje, assim, eu estou.

Não tenho que corresponder.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

No quase todo

Houve
Na distância
Alguma revelação.

Viram, os dois,
Que não. Não se tratava mais
Daquilo que um dia
Foi o caso aos dois.

Perceberam, como quem descobre,
Que o martírio de cada segundo
No longo do tempo
Era retinto amadurecer.

Não foi antes
Nem depois do que não podiam reconhecer
Foi no átimo exato
Do cansaço.

Quando um corpo restou só
E por demais cansado
Não sofreu que o outro
Não estava ali a lhe acolher.

Curou-se então quase tudo.

domingo, 2 de outubro de 2016

Fiapo

Não seria preciso falar muito.
Nem necessário seria dispor tudo à mesa,
Tão pequena e frágil.

As cinzas no cinzeiro não precisavam
De mais irmãs.
O silêncio do quarto
Mesmo a fome no estômago
Nada queria assim
tão desesperadamente
Ser saciado.

Um fiapo
Um fiapo
Nele uma existência calma
Por seu diálogo.

Mas veio o manto
Veio o pranto
Tanto veio

Que se perdeu
A única coisa
A qual se destinava.

O poeta

Ele deixou de ser quando se achou capaz de escrever o mundo. Ele se perdeu de si quando soube a palavra exata no exato segundo. O poeta dele partiu quando a velocidade do desejo não fez reverência ao silêncio que precede alguma revelação.

O poeta sim. Ele não.

Presa

Como num salto
Perdido dalguma beleza
Escrevo a urgência
Que me desorienta.

Um dia talvez eu perceba
Que a pressa que acrescenta
Este s que não cessa
É o que faz de mim

Esta presa

Entre os dentes do ser eficiente.