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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Inoperosidade

Não ter que corresponder. Ele pensou, após gastar força se forçando em direção ao acontecimento. Haveria - de fato - essa necessidade? Seria preciso fazer algo?

Em seguida, ponderou que não corresponder não era o mesmo que descaso. Não corresponder não seria algo como ficar inerte e indiferente, mas, pelo contrário, tenderia mais a ser um tipo específico de relação que não preza pela finalidade nem pelo produzir de alguma finalidade.

Seria como não ter que ser nada. Não ter que corresponder ao ter que ser coisa alguma.

Respirou.

Assim, inoperante, é como estou hoje.

Ou não, menos, inoperoso, é assim como hoje estou.

Não atendeu aos telefonemas, não deu gás aos cotidianos dilemas, continuou sentado, entre o deitar do dormir e o prumo do ofício. Depois ousou inda mais: saiu de casa sem carteira e deixou a porta aberta. Foi à rua, mas não em direção às avenidas manifestantes.

Passou ao largo do furdunço para encontrar um chão de terra onde pudesse descalçar o chinelo e mirar o céu como nunca fizera antes. E fez. E ali ficou. E - de fato - no dito chão não se enraizou. Não, não fez poesia nem vingou metáforas.

Era todo contemplação. Ali, preso naquele gesto duradouro, que não servia para nada exceto para si, ainda que sem explicação.

Inoperoso. Hoje, assim, eu estou.

Não tenho que corresponder.

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