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domingo, 30 de outubro de 2016

alguma confissão a si mesmo

nada. talvez, nada mesmo, diogo. nenhum segredo. nenhum? não, nada, nenhum mesmo. sério? uai. tô dizendo que não. parece haver alguma coisa? sim, eu diria. você diria? estou dizendo. sim, eu acho que existe em você sempre alguma coisa não dita, alguma coisa por dizer.

eu respiro. uma música toca alto agora dentro do seu quarto. você quase nu, em descompasso. o que será que você pode me dizer que agora, neste instante, não parece existir em você?

eu salto linhas. haveria alguma coisa? sim, o fato já sabido: sempre penso em você. eu não quero te esquecer. não! isso não vale. isso é a letra da música que agora toca. ok. você percebeu. sério! diga-me algo que não esteja previsto, algo em segredo, algo íntimo.

eu penso. o que haveria em mim que não estivesse assim tão evidente? eu não sei. não acredito em amor. dei uma cansada, confesso. dei uma cansada do amor. não que eu não esteja pronto para recomeçar, sempre pronto, de malas prontas, mas, agora, não. não acredito. dei mesmo uma cansada.

eu bebo outro gole do meu vinho. ninguém aqui comigo exceto nós. eu e você. você, cheio de tantos. desejo de perder, de rodar, bailar, de gritar, sumir, voltar. sumir, mas para voltar. aqui. para cá. você repetiu a música? sim! pela terceira ou quarta vez. estou gostando dela. quero gastar esse amor. essa dor!

ah!!!

sempre assim? não, nem sempre. às vezes, sim, sou mais comedido, mas, por agora, é tudo o fim e o princípio. sempre o medo de não me ser, sempre o medo de perder. por isso a insistência. não, não se trata de ser herói, mas agora que tudo se foi, resto eu aqui, não? presente e impaciente, presente sobre as palavras e ausente de mim mesmo.

os dentes trincam. meus dentes, meu deus, eles estão rachando. dói e eu bebo, e eu fumo, e eu inventando sempre algum pretexto para deixar de me ser. como é cansativo isso de ser alguém, não? difícil isso de ter que ser biografia.

pode, ainda, me dizer alguma coisa? capaz de me fazer doer?

eu sou você, não sou?

sim, sempre será.

difícil isso de fazer doer a si mesmo, nesta hora, já tão tarde.

tenta.

devo?

sim, por favor.

eu respiro. eu acendo outro cigarro.

talvez nisso de acender outro cigarro eu já amoleça a dureza do porvir. o que você deseja, diogo, cabe em ti? não. ok. isso já sabemos. o seu desejo não mora no seu corpo nem morre nele. é sempre maior que ti. mas, e agora? a essa hora? como fazer com aquilo que não tens e que gostarias de ter?

salto linhas. acendo cigarros. seu dente dói?

deu para doer. está doendo muito nesses últimos dias.

e o dentista?

vou tentar ir na segunda.

hoje é sábado?

já domingo. quase.

e aí?

eu vou dizer. tudo, durante toda a minha vida, me convidou a postergar o encontro. eu deixei de ver meus amigos que já morreram, eu não fui a uma pequena dezena de enterros, eu posterguei ao amanhã - que também não veio - aquilo que jamais saberei o que foi. uma habilidade doente eu adquiri. de ser quem eu sou independente do que o destino quis de mim. disse que ia e não fui e assim vou sobrevivendo. vou eu assim meio duro meio certo sem saber ao certo o que devo. o que devo ser e fazer logo ali na esquina.

se um dia eu fizer um grande serviço à humanidade, será então devolver-lhe o sono perdido. como é precioso dormir e acordar no depois. eu durmo com o problema, sem ele, sobre ele, eu durmo de qualquer jeito.

isto não é uma confissão.

a habilidade - facilidade? - de escrever, livra-me do difícil que é encarar.

não que eu fuja, mas faço outros caminhos.

algum fiapo de coisa?
alguma coisa em fiapos?

dá para ver que eu danço tudo isso?
eu danço!
levanto-me!
eu danço!!!


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