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domingo, 31 de janeiro de 2010

Obra Prenúncio Morte



Quando ela decidiu ir embora, ninguém soube, somente ela. Mas sempre em algum lugar deste mundo, eu nisso creio, sempre em algum lugar alguém tem a carta do movimento que você sequer deu, mas que deseja jogar. Alguém tem sempre sob forma de sussuro, prenúncio, aquilo que você inaugura e faz o mundo tremer. Assim como ela, que fez todo mundo chorar. Ele lá atrás, anos antes, deu a cartada ao mundo, a fez nascer. A obra de arte nasce sempre antes da vida. Ela é anterior ela chega e ainda comenta como a criança lutou para se livrar do enforcamento do cordão umbilical. A obra chega primeiro. Depois, o que vivemos, o que fazemos, tudo já lhe é tão habitual, eu diria hoje vendo-a na obra lacrada, eu diria ser banal. Ser sono de domingo, sono com calor, calor sem sequer gemidos. Apenas aquele incômodo que nem sequer tem forças para nascer, é incômodo quentinho, abraçado, incomodo surdo sem voz, não-alado. Ele a prenunciou. Ele a desenhou. O corpo, os cabelos, o olhar destituído de si, mas voltado todo para dentro. O artista me fascina. Ele me assusta, ele eterniza em sua obra alguma vida - e não a sua - eterniza a vida que anos depois veio a se perder. E se hoje eu a olho, ela a obra e não ela, ela. E se hoje eu a olho e lembro dela, é porque ela não está mais aqui, mas permanece viva na obra museuficada. O museu cemitério, de obras anunciadoras do fim e da salvação. É invólucro, é sede, é seda pura ventando solta ao tempo. Hoje eu a olho aqui presa e sei que ela voa ali dentro. Dentro da moldura hoje eu a olho e sei que sim, tive nela e com elas meus últimos momentos. Mas nasce o dia e na parede a obra congela o tormento e eu posso te dizer de novo toda manhã, a qualquer segundo, eu também te amo. E isso me faz seguir meio que seguro, meio por ti contornado, com moldura, tontura, ser incapaz de se deixar jogado, porque há amor que o represente. Há amor e eu te olho eu te escuto e você sem dizer nada... É duro assim mesmo. A obra permanece indiferente, mas no fundo eu sinto eu sei, é você pedindo aos artistas todos mortos por aí, pedindo a eles, deixe que se revelem, não alterem, deixem, deixem porque elas vão se dizer. Eu olho de novo para este você que é você e que nem é, nem é, eu olho e choro, sim eu choro, o que fazer? Algum artista um dia resolveu acordar e te trazer ao mundo. Talvez por isso você tenha partido dizendo ter vivido muito em pouco tempo. Não, o relógio não falhou. Começamos a contar atrasado, foi isso. Você nasceu segura na ponta de um pincel. Nasceu tranquila e adormecida. Nasceu bela, corpo de mulher corpo de menina. Você veio e de nós se foi. Duro e difícil é querer te ter e ver obra. Ver obra e descobrir que na vida, somos quase sempre um esforço desmedido para escrever histórias, ainda que seja simplesmente a nossa. Você se cravou. Está congelada. Quente no quadro, quente em minha sala casa cabeça alada em meu ir... Estás comigo. Isso aqui é apenas uma forma de dizer, de criar, de sacrificar e fotografar, um pedaço a mais de nosso viver. Amo-te, te amo e amo e nem sei o que isso mais possa significar, mas... Sinto. Sinto a sua presença disforme me afagando os cabelos. E se sinto, logo, é também graças a ti...

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