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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Mãe, quero ser escritor.

Estou escrevendo uma peça de teatro. Neste momento, parei um pouco, abri o blog e vim ver se algumas palavras poderiam ser reaproveitadas. Uma peça sobre um relacionamento a três, sobre um triângulo amoroso. Algo óbvio talvez. Mas qual é o problema com a obviedade? Talvez um problema de escrita. Este "b" mudo dá um nó, mas é tão charmoso... Enfim, eu dizia sobre a peça de teatro. Aí estava escrevendo um longo solilóquio, de uma fulana inventada, chamada Sabrina. Coitada, autosuficiente, mas apaixonada, ou seja, estrepada. Ele começa a falar num dado momento:

Sabrina – Quando eu conheci o Marcelo. [PÁRA]. Quem é Sabrina e quem é Marcelo se não eu e você? Se não você e eu? {SEGUE}.
Eu escrevendo uma peça sobre um triângulo amoroso. Haja amor vivido para sustentar essa ficção. Haja vida corrente para se aproveitar da mesma. Tudo nela é mais lindo, tudo é quase sempre mais indo do que foi. Eu escrevo a peça para o quê? Para me recriar e um dia poder dizer, aprendi a escrever. Ou escrever para um dia dizer, olha, eu não amei tão bem assim.

Entrei no blog para reciclar sentidos, para remodelar sentimentos. Aquele ódio todo que senti naquele dia, agora quem sabe, na peça, pode ser outro sentimento. E alguém na platéia poderá rir, de todo esse amor invertido que eu destinei a ti. Aquele tesão todo incontido. Bom, farei com que dure mais do que nossos gemidos. Sim, gente, é sério. Ele vai virar o monólogo desesperado de um personagem à beira do precipício. Isso me faz pensar que a minha vida não foi tão inútil como me parece a princípio. Isso não é tão verdadeiro assim. Mas talvez seja. Visto que escrevo diante de você. Eu posso me aproveitar disso e sofrer. E me erguer. E me estrangular sob ti. A ti. Eu sempre escrevo endereçado a você. Que merda. Você deve ser melhor e maior que Jesus Cristo (quem não é?). Isso você é. Eu escrevi treze bíblias por você. Você consome a minha vida e atenção desde quando abri o Word, há uns cinco anos atrás (em 2005) e me disse, mãe, quero ser escritor.

E agora você surgiu na minha vida. E agora você aqui se ampliou. A verdade que antes eu inventava, agora tem corpo, ela tem cor. Eu não sei mais ficcionalizar o que em mim ainda parece ser ficção. Eu não fui criado nisso, eu nunca falei muito com meu coração. Palavras interrompem a procissão! EU TENTANDO SER FIEL AO QUE ESCREVO E VEM A RIMA PUXANDO O CORAÇÃO NUMA DAS MÃOS! O que o coração tem a ver com essa história toda?! Não bastasse amor ser do verbo amar que termina com ar e faz tudo com ar rimar; E AINDA INVENTARAM O CORAÇÃO. Que termina em final canção e cola em tudo que lança ao infinito e que em seguida puxa ao chão. Não! Coração rima com não! Amor com dor! Que estranha combinação, sim?

E vem o sim, assim desse jeito, e me assegura que o mistério está na jogação. O sim é a palavra mais promíscua que tive o prazer de conhecer. Depois de estar com ele, oh sim!, tudo na vida começou a acontecer. Para o bem e para o mal. É jogar o corpo já sem nem esperar pela respiração. Não quero saber. Eu digo sim e de tanto sim dizer, você se multiplica e já pode ser tudo aquilo que eu não saberia descrever. Os verbos se multiplicam, adjetivos em confraternização. Por você, sim, criamos uma nova gramática da construção.

Tudo bobeira. Tudo falta de ocupação. Falta de peito que abrigue o peito. Falta de olhos que espelhem o olhar. Tudo é falta de alguma coisa que nos impeça o faltar. E quando faltares, esta súplica ao não-faltar, nós todos saberemos que ainda assim nos será possível saltar... Como quem não perde nada... Como quem está perdido. Como quem é ser amado, e por ser amado, leia-se ser ser mor... ido.
 

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