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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Verde Orvalho

O sol amanhecia nublado sobre a montanha. Ia tocando suave a esparsa grama, soprando o orvalho, aquecendo o rosto meio ressequido das duas crianças. Ela jogada ao chão, ele também. Não deveriam ter mais do que quinze anos: os dois juntos. Ela mais velha, ele menor. Nos dois, porém, um sono dentro se resvalava. Os semblantes contidos, com a cara digna de quem sonha o que se deseja sonhar. O vento cruzou o topo da montanha. Cobriu as encostas, foi abraçando a vegetação tímida, foi chegando até seus cabelos. Que cobriram os olhos dela. Que secaram o suor já nascendo na testa dele. O vento movendo os animais, exceto os dois ali estendidos. Movendo as moscas, os pernilongos, os insetos, movia o vento a vida. Exceto os dois, ainda ali congelados. Como estivessem dentro de casa. Como fossem os dois amados.

A cortina dançou dentro de casa. De fora o mesmo vento sobre os dois a empurrava. Entrava o vento pela janela por grades tomada. Bailavam os pernilongos sobre os corpos frios que se aqueciam a força. Ele respondeu bruscamente ao pernilongo que beijava sua pequena boca. Ele contra os lábios a mão apertou. Um pedaço de sangue do pernilongo sobre ele ficou. E voltou a adormecer, saciado. E ali ficou. E nisso o sol sobre os dois parecia mais ainda descer. As testas suadas, as roupas mexidas, invertidas, trocadas. O sol chegou sobre o topo da montanha e secou as lágrimas das plantas. O sol secou tudo e mais ainda o que já estava teso, duro, triste, morto, ameno.

Na segunda vez o corpo todo dele se mexeu. Num tapa contra o vento ele a acertou e ela resmungou algo que nenhum de nós sequer compreendeu. E então vinha o vento e o calor dissipava. Vinha o vento e a letargia de novo sobre os pequenos se instaurava. Vinha o vento e definitivamente a porta de casa batia, trancava, fechava. O vento vinha e de súbito a ergueu. Os olhos ainda fechados. Os joelhos sujos, sobre a terra sentada. O susto da porta batida ganhando o corpo e o chamando à lida. Abriram-se os olhos devagar, sem pressa, com medo talvez, mas foram o mundo contemplar. Ela franziu a testa. Perdeu o texto. Mas onde poderiam os dois estar?

Ele atrás dela também se levantou. Os olhos demoram sempre a amanhecer. Ele os coçando parecia disposto a ver o dia nascer. Mas ao abrí-los, viu a montanha, viu a queda, viu o que talvez nunca tivesse visto. Onde estamos, os dois pensaram. Olharam o redor, reconheceram-se perdidos, deslocados. Ela arrumou os cabelos para trás das orelhas. Empurrou seus fios como fossem arames, repletos de ira. De ira contra o tempo que os judiou, que secou sua vida, seu movimento, sua doçura. Ajeitou-se como protesto e ameaçou seguir. Ele, porém, por trás, a segurou:

Onde estão nossas camas?
E as paredes?...
A mamãe...
E o nosso chão?...
Onde estão?

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