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domingo, 1 de março de 2015

É chegado o momento de se pôr em ação na direção das coisas e pessoas

A palavra movimento me intriga. E o movimento, da palavra movimento quando em movimento, ainda mais me intriga. Exige uma tomada de posição, um mover de forças, uma ação transparente e direta ao centro da coisa a se perseguir. É como acordar e ficar deitado, de olhos semi abertos, vendo de lado o mundo se discernir. O movimento mais difícil é levantar da cama. E erguer-se, mal se acorda, é um gesto capaz de mover mundos, uma chacina, uma matança, uma torrente, enfim, pura crueldade.

Move-se também a consciência, a cabeça, os pensamentos, as sinapses são pura dança. Ininterruptas, as sinapses transformam em partitura física a nossa vida. Eu abri os olhos e as sinapses abriram as cortinas. Tudo dança dentro de mim e, dançando, tudo dentro de mim me convoca à chacina. Chacina é uma palavra que me chega sempre que preciso começar um dia. A consciência me assassina. Eu acordo sempre por ela rendido e me vejo no espelho - outro movimento - e percebo: que é chegado o momento de se pôr em ação.

Qual ação? Poderiam ser tantas. O movimento de se pôr em ação só pode ser na direção das coisas e pessoas. É chegado o momento de se pôr em ação na direção das coisas e pessoas. Mas isso não resolve, não resume, não faz nada exceto provocar uma torrente de danças sinápticas. As palavras não dão conta, nunca darão, da façanha que é o corpo em vida. Que é o corpo, essa crueldade. Elas tentam, as palavras, elas tentam dar conta, mas não conseguem. Por isso tanta coisa dita sem necessidade: esse negócio de chacina, essa certeza dura e suja da crueldade.

Há que se treinar o corpo para cessar um pouco algum movimento. Há de se aprender a ficar, restar, não como inércia, mas como abrigo, moletom, abraço, amigo... As palavras seguem me tentando e não dão jeito nem na pele nem no sentido. Tudo escorre, escapole, e a vida vai se vivendo sem me levar com ela e eu vivendo sem ser levado por ninguém exceto pelo abismo (que me chama, me convida, me exige participar dessa coisa toda).

Bom dia, apesar de ser já tão tarde. Eu danço as minhas sinapses em meio a sala de estar. Como é bom e preciso um refrão qualquer que me faça repetir os passos. As certezas quando dançadas viram apostas na esperança antes morta e agora polimórfica. Tudo pode se refazer, inclusive as cinzas do cigarro. Vamos lá. Dizem-me os neurônios em sua dança quântica e disforme. Para que forma se há movimento? Movimento anulando o fixo e se fixando como pleno acontecimento, plena coisa sem nome capaz de aprisioná-la.

É chegado o momento de se pôr em ação na direção das coisas e pessoas. E eu estou aqui, agora, neste momento, vestido de mim, ansioso pela crueldade do encontro, pela chacina das peles sobre as coisas e dos encontros entre pelos.

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