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sábado, 14 de maio de 2016

uma crueldade

você lê as notícias.
como nunca antes, você as lê.



você ouve as distintas opiniões.
você aprende a mudar tolerar
por verbos outros como escutar
ponderar
misturar.

você dorme pouco
pouco se masturba
você tem cada vez
menos necessidades
as contas foram pagas
(com que dinheiro?)
e o mês corre
sem virar os dias.

você sonha com amores mortos
mas em sonho
é todo carinho
você sonha com coisas escusas
envolvendo assaltos
e super heróis
você sonha sexo e tortura
na varanda da sua infância
você sonha aquilo que seu corpo
em choque
prenuncia

corpos bailando em meio à neblina.

você não liga para a sua família.
você se diz: eu preciso ligar
para minha mãe
para o meu pai
para a minha irmã
minha outra irmã
você não liga para ninguém
muito menos para deus
quiçá para seu irmão corrupto.

está cansativo o jogo
ter que tentar explicar o óbvio
ter que desfazer o rebanho
ter delicadeza para provar que não
não se trata mais de família tradicional brasileira

o seu cu
o meu
o seu peito
o seu pau
e o meu
seus seios no meio
o indefinido
inominável
o moldado para além das fronteiras
desmoldado
mãe, eu já havia lhe dito
quero ser música
mas talvez você nunca entenda
e minhas unhas serão pintadas de rosa.

você vive os seus amigos.
você vive de seus amigos.
você fuma e bebe intempestivamente
você não gosta de lamento
você é bruto, mas dentro
é todo estrela
arranjo de constelações impossíveis.

o mundo
está te consumindo
e a vida hoje te vive,
inteiramente.

as músicas antigas
te desdizem e o impulsionam
à ação:
there are many things that i would like to say to you but i don't know how!

a história, os fatos
tudo compõe seu gesto
hoje você amanhece ditadura
ontem foi todo revolução
hoje você é maio
e essa neblina não é por acaso, diogo.

eis o seu tempo, cara
tempo que muda tudo
que cala e mortifica
tempo de sóis cinzas
e amanhecidos de lado
tempo em que ter paciência
é tarefa para os que já foram
mortos.

tempo tremendo
em que só me pergunto
como recomeço?
como se faz?
como refaço?

e nisso de tanto perguntar
- por vezes - eu nem vejo
nisso já nem se percebe
que não há começo algum
que não tem nada começando
que tudo só corre
porque tudo já foi estourado
tudo já acontece
a violência, o roubo, a injúria
acontece tudo
o cinismo, a ganância, o poder
tudo ocorre, decorre, tudo escorre

tudo acontece
morrendo e desmorrendo
a minha dúvida
que é sua também
ela ocorre
vira árvore
a sua dúvida acontece
ela floresce
mesmo quando duvidas
se se deve acontecer
ou não.

agora
tudo o que age
é ainda e mesmo
uma crueldade.

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